No meio de tudo, você. por JuliaR


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Depois que Letícia saiu daquele quarto ainda fiquei alguns minutos tentando me recompor de todas aquelas emoções vividas em uma só noite, coloquei a mão no peito  e o sentia o coração bater feito louco, sensação inédita até conhecê-la.

Não sabia lidar com aquela ousada, aquela sensação de nunca esperar o que há por vir quando estava diante dela, a insegurança de quem não tem nada a ganhar. De quem não tem nada a perder. Estava tão confusa, e o pior, não tinha a quem recorrer, Patrícia e Ana não iriam compeender o que nem eu mesma entendia, como poderia explicar que a namorada do meu tio mexia tanto comigo?

Naquela manhã a insônia imperou, não consegui pregar os olhos, o sol raiava lá fora, ouvia passos pelo corredor, fica apreensiva só em imaginar que pudesse ser ela, que a qualquer momento pudesse entrar de novo e me arrancar beijos. Só em lembrar de seus beijos me fazia suspirar, revivendo a sensação de ter seus lábios colados aos meus me tirando o fôlego e o juízo.

Acordei com o relógio marcando 17 horas, depois de sonhos desconexos e sem sentido levantei da cama e fui para um banho caprichado enquanto pensava nela, estava ansiosa para encontrá-la apesar da minha timidez não podia negar o quanto era agradável ser alvo de suas investidas. Vesti uma roupa leve e fui para o corredor toda sorridente procurando-a pelos cantos.

Meu sorriso se desfez quando escutei uma gritaria vinda do quarto dos meus tios, parecia uma discussão acalorada, dei alguns passos em direção a porta mas não era possível ouvir com exatidão o que diziam, mas se tratava de uma briga feia visto que não era do feitio de Letícia falar alto.

Meu dilema no momento era se interromperia ou não aquela discussão, me doía o coração saber que o idiota do Antoni estivesse fazendo algo que a incomodasse, porém também temia que ele pudesse ter descoberto alguma coisa. Pensar nisso me deixava completamente apreensiva, recuei e voltei para o outro lado do corredor fazendo jus ao meu lado virginiana covarde.

Desci as escadas da sala, fui a cozinha não vi ninguém. Nem sinal de Nona, nem de mamãe,  pela vidraça da sala vi que o jardineiro regava uma planta, o que me deixou ainda mais nervosa pelo fato de estar apenas nós três na casa.  Sentada naquele sofá aguardei até que aquela briga acabasse ansiosamente, o que demorou bastante, só então vi Antoni visivelmente estressado descendo as escadas rapidamente. Ele nem sequer me cumprimentou de tão irado que estava, mal esperei ele abrir a porta e fui correndo em direção ao quarto de Letícia.

Respirei fundo antes de empurrar a porta entreaberta, enquanto a via de costas para mim, olhando pela janela de vidro, era possível ouvir seu choro baixinho enquanto via ela com uma das mãos enxugar as lágrimas, enquanto a outra acariciava a barriga.

Espantoso o quanto aquele gesto me doeu, o quanto fiquei mortificada a vendo ali, tão fágil diante de mim.  Bati levemente na porta e anunciei minha chegada.

--Sou eu, Alice.

--Eu sei —ela falou depois de alguns segundos em silencio, com a voz embargada

--Posso ir aí?

Ela apenas balançou a cabeça e eu tranquei a porta atrás de mim, enquanto me aproximava cuidadosamente dela, segurei seus ombros que estavam nus devido ao vestido sem alças que ela usava, afaguei sua pele fazendo uma leve massagem, ela estava tensa mas parecia relaxar com meu toque.

--Vira pra mim.

Ela virou lentamente, de frente pra mim e só então pude ver o quanto ela estava abatida, seus olhos inchados e vermelhos lacrimejavam sem cessar, ela me olhava abertamente sem disfarçar a tristeza.

Enxuguei delicadamente cada lágrima que caia em seu rosto com o dorso da mão, sem parar de olha-la.

--Não quero mais ficar nesse quarto.

--Vem comigo.

Segurei sua mão e levei-a em direção ao meu quarto, arrumei a cama deixando o mais confortável possível e ajudei a deita-la e sentei ao seu lado, acariciando seu rosto, suas mãos geladas. Queria que ela me dissesse o que aconteceu, me faltava coragem para perguntar, no entanto ao ver que ela continuava acariciando a barriga não segurei.

--Ele te agrediu? – perguntei pondo a mão por cima da sua barriga e olhando nos seus olhos

--Não, não agrediu.

--Hum...-

Levantei e fui em direção a caixinha de remédios pegar um calmante e um copo de água pra ela.

--Toma, pra te ajudar a relaxar

Ela não protestou, tomou sem nada dizer permanecia calada, ás vezes parecia estar em outra dimensão, me olhava envergonhada, tímida. Nunca a tinha visto assim, tão insegura diante de mim.

Desviava os olhos para um ponto qualquer, mas não me olhava.

Tão linda, tão distante.

Mesmo melancólicos os traços do seu rosto ainda eram belos, uma beleza triste é claro, mas nem por isso menos linda, olhava para ela embevecida tentando decorar com o olha aquela imagem que levaria por toda a vida na memória e no coração. Ainda enxugava uma ou outra lágrima que teimava em cair.

Ela virou o rosto de repente e flagrou olhando-a intimamente, feito uma boba e fez um gesto que me encantou densamente, segurou minha mão, beijou, cheirou, passou demoradamente pelo seu rosto me fazendo prender a respiração.

Depois desceu colocando minha mão sobre o seu seio esquerdo, as batidas que senti eram tão intensas que senti um tremor subir pela minha espinha.

--É assim que ele fica toda vez que você olha pra mim desse jeito. Posso te dar um abraço?

Nem sequer respondi, fui imediatamente a sua direção de braços abertos, abraçando-a forte, tentando lhe passar segurança, querendo que ela soubesse com um singelo abraço que eu estaria ali, sempre que ela quizesse, sempre que precisasse.

Não queria de forma nenhuma invadir sua privacidade, constrange-la com perguntas invasivas mas me sentia na necessidade de ajuda-la, de aliviar um pouco daquele sofrimento, daquela dor. Se existisse um modo de arrancar todo aquele sofrimento, de delongar pra mim, de modo que aquele fardo não ficasse somente em suas costas, eu certamente faria.

Mas não poderia.

Ali abraçada comigo, na minha cama me limitei a perguntar.

--Letícia...

--Hum?

--Se quiser desabafar, se precisar de algo por mais bizarro que possa parecer, conte comigo. Faço o impossível pra não te ver sofrer assim. Só me diga do que precisa, eu prometo que te ajudo.

Ela afrouxou o abraço e me olhou nos olhos.

--Só preciso de você perto pra ficar tudo bem. Não precisa fazer nada, só fica aqui comigo. Por favor.

--Fico sempre que você quiser.

Instintivamente fui lentamente em direção aos seus lábios e depositou um selinho.

--Obrigada

--Pelo beijo?

--Pelo bem que você me faz.  Pela felicidade que você me trás. Pelo cuidado constante.

Impossível não sorrir feito boba.

--Mas é claro, pelos beijos também. Os melhores que já provei.

--Boba.  Não gosto de te ver chorar.

Disse tirando uma mecha do seu cabelo e acariciando seu rosto ainda úmido.

--Devo estar horrível mesmo.

--Não, até que fica bonitinha com esses olhos inchados, a maquiagem borrada e essa cara de quem comeu e não gostou.

Ela sorriu mesmo triste esboçou um risinho, o primeiro durante nossa longa conversa, o que me impulsionou a descontrair mais nossa conversa.

--Tão ruim assim?

--Claro que não, só foi uma tentativa bem sucedida de fazê-la sorrir.

Ela ainda punha as mãos sobre o ventre, acariciando vez ou outra me causando estranheza.

--Dor no estômago?

--Não é que...

Pus as mãos sobre a barriga e quando fiz menção de levantar vi uma cicatriz, que apesar de ter contornos finos era perceptível a espessura. Letícia tentou afastar minhas mãos com uma expressão de susto, mas não permiti.

--Dói?

Ela me olhou toda constrangida, mas não iria desistir de saber o que tinha acontecido.

--É uma dor mais psicológica do que física.

--Não entendi.

--Acidente, Alice...

Agora foi minha vez de ficar completamente constrangida diante da revelação feita por ela, nas palavras carregadas de nostalgia que ela falava.

--Desculpa ter sido invasiva. Mesmo, prometo ficar em silencio agora em diante e sem fazer perguntas impertinentes. Juro.

--Já estava na hora de falar sobre isso com alguém.

Culpei-me instantaneamente, o quanto tinha sido custoso arrancar-lhe um sorriso, e agora por idiotice minha tinha trazido a tona um assunto desagradável que a fazia sofrer. Fiquei calada, , querendo passar segurança segurando suas mãos entre as minha, para que ela soubesse que não importava o que tinha passado, eu estaria ali.

--Letícia não precisa fa...

--Perdi meu filho, Alice. Num acidente de carro.

 

Nem sequer pude esconder a surpresa com aquela revelação, fiquei apalermada com o que ela me disse, jamais imaginei que ela pudesse ter tido um filho, constituído uma família.

--A cicatriz, apesar de ter feito algumas sessões a laser para tirá-la decidi posteriormente não fazê-lo mais, é como uma lembrança que tenho dele. Da qual não quero me desvincular.

--Qual era o nome da criança?

--Marco Antonio.

--Lindo nome.

--Significa inestimável, magnífico.

--O significado também é lindo...

--Eu que escolhi.

--Aposto que o Marco Antonio lá do céu, não quer ver a mãe dele chorando, sabia?

--Ele deve achar a mãe dele uma boba, certamente.

--A boba mais linda do mundo inteiro.

--Às vezes olho crianças, imaginando como seria ele, como seria o cabelo, a voz, a jeitinho dele, sabe? Será se era mais levado, ou tímido? É tão inexplicável, um dia você saberá como é ter um filho no ventre, e amá-lo desde o dia que você descobre que ele está ali, quando ainda é apenas uma sementinha. Imaginá-lo fazendo milhares de coisas, crescendo ao seu lado, aprendendo contigo...

--Deve ser uma sensação ímpar, não penso em ter filhos agora, mas quando tiver um dia, vou tentar ser a melhor mãe do mundo.

--A criança vai ser linda, vai parecer com você.

Sorri.

--Letícia, eu sei que uma criança não substitui outra, e que Marco sempre terá um espaço desmesurado no seu coração e nas suas lembranças. Mas você é uma mulher jovem, nada te impede de ser mãe outra vez, de amar e educar uma criança sua. Se você acha que não é o momento agora tudo bem, mas permita pensar sobre.

--Se tiver um, apesar de ainda não estar preparada psicologicamente, e um filho também tem que ser gerado com amor...

--Se tiver um, futuramente, é claro. Adoraria ser a madrinha. Isso foi uma intimação!—sorri para ela

--E mãe?

--Como? –Não entendi onde ela queria chegar.

--Ser mãe de um filho meu, o que acha?

Ela me olhou profundamente, e eu gargalhei ainda mais esperando que ela sorrisse ou esboçasse algum sinal de que não deveria levar o que ela falava a sério. Meu riso foi morrendo em meus lábios a medida que ela me olhava com seriedade.

--Ta brincando, né?

--Não. Iria adorar ter um bebê ruivinho que nem você.

Engoli seco.

Aquela conversa com ares estranhos foi interrompida com Nona batendo na porta do meu quarto, avisando que o jantar estava na mesa.

 

** *

 

Saí do quarto e Letícia apesar da minha insistência, avisou que não ia descer até sala de jantar, pois não queria ver Antoni, só a deixei jantar no quarto porque sabia que após o calmante que dei a ela não haveria disposição para muita coisa.

Quando vi minha mãe na sala de jantar, falei resumidamente para ela que Letícia e Antoni brigaram, sem dar detalhes, claro. E ela acabou concordando que Letícia deveria passar a noite em meu quarto já que não havia clima para que eles dormissem no mesmo lugar que ele.

Enquanto Nona preparava a bandeja  para que eu levasse o jantar para Letícia que estava em meu quarto, aproveitei para ir no escritório. Peguei um livro de um autor que adorava e copiei um trecho  do livro num papel e levar para Letícia junto com o jantar. Era uma surpresa bobinha mas sentia necessidade de demonstrar o que sentia sobre ela.

 

‘’ Conta comigo sempre. Desde a sílaba inicial até à última gota de sangue. Venho do silêncio incerto do poema e sou, umas vezes constelação e outras vezes árvore, tantas vezes equilíbrio, outras tantas tempestade. A nossa memória é um mistério, recordo-me de uma música maravilhosa que nunca ouvi, na qual consigo distinguir com clareza as flautas, os violinos, o oboé.

O sonho é, e será sempre e apenas, dos vivos, dos que mastigam o pão amadurecido da dúvida e a carne deslumbrada das pupilas. Estou entre vazios e plenitudes, encho as mãos com uma fragilidade que é um pássaro sábio e distraído que se aninha no coração e se alimenta de amor, esse amor acima do desejo, bem acima do sofrimento.

Conta comigo sempre. Piso as mesmas pedras que tu pisas, ergo-me da face da mesma moeda em que te reconheço, contigo quero festejar dias antigos e os dias que hão-de vir, contigo repartirei também a minha fome mas, e sobretudo, repartirei até o que é indivisível. Tu sabes onde estou.

Sabes como me chamo. Estarei presente quando já mais ninguém estiver contigo, quando chegar a hora decisiva e não encontrares mais esperança, quando a tua antiga coragem vacilar. Caminharei a teu lado. Haverá, decerto, algumas flores derrubadas, mas haverá igualmente um sol limpo que interrogará as tuas mãos e que te ajudará a encontrar, entre as respostas possíveis, as mais humildes, quero eu dizer, as mais sábias e as mais livres. ‘’

Conta comigo. Sempre.

(Joaquim Pessoa)

 

 Dobrei o bilhete e coloquei sobre a jarra de suco que estava sobre a bandeja e segui subindo pelas escadas, abri a porta do quarto e vi que se encontrava na mesma posição deitada na cama. Deixei a bandeja sobre o criado mudo sendo observada por ela. Disse para ela que passasse a noite em meu quarto, que era mais aconchegante e que eu iria para o quarto de hóspedes para não incomodá-la

Apesar dela ter relutado alegando que devíamos dormir juntas, não quis arriscar passar a noite ao seu lado e acabar dando vazão aos meus instintos, mas disse que ela poderia me chamar para o que precisasse e que ia vez ou outra no quarto ver como estava.

 

 

Sai do quarto com um misto de alívio e de insegurança. Alívio por ver que ela estava mais tranqüila, e insegurança por não saber quantos mistérios ainda guardava aquela mulher

Nome: rhina (Assinado) · Data: 23/12/2016 19:25 · Para: Capítulo 9

 

Que beleza de história. ....

Letícia que mulheres linda sedutora fofa 

gostando muito

rhina



Nome: Ana_Clara (Assinado) · Data: 02/11/2015 16:16 · Para: Capítulo 9

A pergunta que não quer calar... O filho que a Lê perdeu era do Antoni? E sempre tão direta, linda demais! Ter um filho ruivinho e ainda da Alice, que fofas. 



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