A namorada da minha namorada por Jocelyne Laissa


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Capítulo 4 – Minha missão é você. 

 

 

        No dia seguinte, no intervalo, Duda foi até Jéssica novamente. 

- Você trouxe? 

- Trouxe. 

- Então cadê? 

- Aqui não, me encontra no estacionamento, atrás da escola, depois da aula hoje. 

- Qual é garota? Você não está me vendendo droga, só precisa devolver o meu celular. É tão simples. 

- Trato é trato, você quer seu celular de volta ou não quer? Eu estarei lá, se você não aparecer não te devolvo mais. 

- Tá bom, então estarei lá. 

        As horas foram se passando e Duda estava muito nervosa, ela estava com medo de que Jéssica estivesse armando uma emboscada para bater nela. O estacionamento era muito escondido da escola, porque a escola era pública e de bairro, então os pais dos alunos eram de classe média e moravam na redondeza, era raro um pai ou mãe ir buscar seu filho (a) de carro naquela escola. Só quem usava o estacionamento era a diretora da escola, porque até mesmo os professores moravam perto. 

        Duda pensava: “é a emboscada perfeita, não vou ir”. 

        Ela odiava se meter em confusão, nunca havia brigado antes, não saberia nem se defender, ela estava com muito medo, pois Jéssica mesmo sendo “magrela”, era um pouco mais alta que Duda e seu jeito marrenta, aparentava muito valentona. 

        E continuou a pensar: “Vou deixar para lá, aquele celular não vale tanto assim”. 

        Felipe percebendo que Duda estava muito quieta. 

- Duda! Duda! Está tudo bem? 

- Está sim Lipe, hoje você e o Tuco não precisam me esperar, preciso resolver umas coisas. 

- Tá bom. 

        Duda resolveu ir até o estacionamento assim que terminou a aula, tinha algo dentro dela que estava insistindo para ela ir encontrar a garota. 

        Enquanto estava dando a volta na escola pensou: “Será que ela me espancará sozinha ou vai chamar algumas valentonas iguais a ela pra ajudar a me bater?”.

        Quando Duda chegou ao encontro viu Jéssica sozinha. 

- Droga! Você veio, queria que ficasse com medo e desistisse do celular! Toma aqui essa porcaria. – Entregou o celular para Duda. 

- Se é porcaria, por que você quer tanto ele? 

- Ainda dá para vender no ferro velho. – Ela disse soltando toda a sua ironia. 

- Pensei que você me chamou aqui pra me bater. 

- Bem que eu queria bater muito nessa sua cara toda angelical, mas não posso, tenho que andar na linha. 

- Por quê? 

- Porque os caras me pegaram! Agora tenho que me comportar. 

- Que caras? 

- Os “Poliça”. 

- Ah! Entendi você não faz o tipo “garota problema”, você é realmente a “garota problema”. 

- É isso mesmo e você tem sorte de tá sendo um pé no saco pra mim agora que não posso fazer nada, se fosse alguns meses atrás vixi... Sua sorte é que meu pai tá preso e se o conselho me tirar da minha tia vou ir parar em um orfanato ou sabe lá onde. 

- Seu pai tá preso, por quê? 

- Ele era traficante! 

- Seu pai era traficante! Nossa! Eu entendi tudo agora. 

- Ahm? Do que você tá falando? 

- “Você é a minha missão”! Agora eu entendi, por que eu tinha que estar aqui hoje. 

- Do que você tá falando? Você é louca. 

- Toma, vou te dar esse convite. – Ela disse mexendo na mochila – Toma aqui! – E entregou o papel. 

        Quando Jéssica leu o papel. 

- Igreja? Você tá me chamando para a igreja? Olha para mim, o que vou fazer em uma igreja? Nunca pisei meus pés em nenhuma. 

- Não, não estou te chamando para a igreja, estou te chamando para me ouvir cantar. Vou me apresentar nesse final de semana, quero que você vá. Está aí o endereço. 

- Tá mais você é religiosa? Seus pais te obrigam a ir? 

- Não tenho religião nenhuma, a minha religião é fazer o bem e ninguém me obriga, eu só gosto de cantar lá, simples. Eu me sinto bem cantando lá. 

- Você sabe que eu não vou perder meu tempo com isso né? 

- Sei, mas o convite está aí! 

        Jéssica guardou o papel no bolso. E Duda continuou a falar:  

- Pra onde você vai agora? Precisamos nos conhecer melhor. 

 - Pra quê tantas perguntas? Por que você se importa com isso? Eu não quero te conhecer melhor. 

- Prazer eu sou a Maria Eduarda, mas pode me chamar de Duda. 

- Eu sei o seu nome, eu li todas as suas mensagens no seu celular. 

- Você fez o que? Por que você fez isso? 

- Desculpa, eu estava com tédio, não tinha nada para fazer na minha casa. Ah! E meu nome é Jéssica. 

- Eu sei o seu nome também, a professora falou aquele dia. 

        As duas foram embora cada uma para a sua casa e Jéssica não parava de pensar em Maria Eduarda, pois ela nunca havia encontrado alguém tão gentil antes, desde sempre as pessoas da sua vida eram sempre rudes, só xingavam e a maltratavam. 

        No final de semana, Jéssica chegou em casa e sua tia estava com o seu namorado. Jéssica odiava aquele cara, então se trancou dentro do seu quarto e começou a pensar na vida. Minutos depois, se arrumou, com sua roupa de sempre: touca escondendo o cabelo todo, moletom de gorro e tênis. Foi tomar um ar para esfriar a cabeça, subiu em um morro onde ela costumava ir sempre quando estava brava ou enfurecida. Ela acendeu um baseado, fumou, tomou um gole da garrafa de vinho que estava em suas mãos, depois de um tempo acendeu outro baseado e tomou toda a garrafa de vinho. Ela estava sentindo-se muito entediada e quando passou a mão no bolso de sua calça, viu o papel com o convite que Duda lhe entregou, estava o endereço e o horário que Duda iria cantar. Então ela resolveu ir até a igreja do endereço. 

        Chegando à porta da igreja, Jéssica tirou sua touca e entrou. Sentou-se um pouco afastada para não ser muito observada, ela nunca tinha entrado em nenhuma igreja antes, então era algo muito novo e assustador para ela, mas ela sentia que queria estar ali. Seu nervosismo só acabou quando ela olhou para o palco e viu Duda com microfone em mãos e começou a cantar. Jéssica olhou para os lados e viu que todos estavam em pé com os olhos fechados, ela se levantou também mais não conseguiu fechar os olhos, pois quando Duda começou a cantar, Jéssica entrou em modo de êxtase por ouvir voz tão linda, doce e divina. Ela se esqueceu totalmente de onde estava, esqueceu as pessoas ao seu redor, só conseguia olhar para Duda no palco (altar) e ela estava tão concentrada que viu como se tivesse a luz dando foco a Duda e ela não conseguia parar de olhar, mas com um olhar diferente, é como se ela tivesse muito encantada, coisa que ela não sentia, nem tinha reparado antes em Duda. Sua voz era como de um anjo, tão suave e aquela música (hino) que Jéssica desconhecia era tão bela que despertou um sentimento tão profundo que Jéssica começou a chorar. Ao reparar que estavam escorrendo lágrimas de seus olhos, Jéssica saiu correndo de dentro daquela igreja. 

        Quando Duda terminou a sua apresentação já era hora de todos irem embora. Em frente da igreja, Duda já estava indo para casa quando ouviu:

- Duda! Hey Duda. 

- Nossa você veio! – Duda não conseguia segurar a sua alegria. – Você me ouviu cantar? 

- Ouvi sim, você canta muito bem! 

- Fico feliz que você veio. 

        Jéssica ficou um pouco sem jeito e Duda continuou a falar: 

- Você está sem touca, seu cabelo é tão bonito! Por que você esconde ele? – Disse Duda observando o longo cabelo, muito preto e liso de Jéssica. Agora ela tinha mais dúvida ainda entre os traços da linhagem de Jéssica, se ela era mestiça com índio ou com oriental ou nenhum dos dois. 

        Quando Jéssica ouviu isso já foi logo tirando a touca do bolso e colocando na cabeça. Duda então tirou sua toca com delicadeza e colocou em seu bolso novamente. 

- Deixa sem. Você é tão linda! Não esconda a sua beleza. 

        Jéssica ficou sem jeito mais uma vez. 

- Onde você mora? Posso te acompanhar até a sua casa? 

- Pode me acompanhar, mas só até a metade do caminho, vai que você tá pensando em roubar a minha casa. 

        As duas riram e foram conversando no caminho. 

- Deixa eu te perguntar uma coisa... Você não entrou na igreja bêbada não né? Você tá com um cheiro estranho. 

- Eu bebi só um pouco. 

- Agora tenho certeza que você nunca havia pisado em uma igreja mesmo. Já começou mal.

- Do que você está falando?

-Nada não, depois eu te explico melhor, se você quiser saber.

        Em casa, Jéssica não parava de pensar em Duda, ela não entendia ainda o que fez com que ela sentisse tudo aquilo quando estava na igreja e ouvindo Duda cantar, então ela pensou: “Tenho que parar de fumar, minhas brisas estão muito mais fortes”. 

        Na escola Jéssica e Duda não se falaram apenas se olharam disfarçadamente. Duda se mantinha unida com seus dois melhores amigos e Jéssica sempre sozinha, ela não gostava de conversar com ninguém, os alunos tinham medo dela e ela estava tentando ficar longe de problemas, por isso estava muito quieta e na sua. 

        No banheiro da escola, Duda estava sozinha se olhando no banheiro, Duda era um pouco vaidosa e estava sempre maquiada, porém era uma maquiagem básica, nada muito exagerado.  

        Jéssica entrou no banheiro, foi lavar as mãos e se olhar no espelho também. 

- Oi! 

- Oi! 

        Duda olhou bem para Jéssica, reparou como ela tinha uma beleza natural tão linda, mesmo sem se maquiar ou se arrumar. 

- Vem cá tira essa touca. – Disse Duda tirando sua touca e arrumando o cabelo de Jéssica e perguntou: - Posso passar batom em você? 

        Jéssica só acenou com a cabeça lhe dando permissão. 

       Duda estava passando batom em Jéssica, só estavam as duas no banheiro, pois essa ida ao banheiro era no horário de aula. Ela reparou o quão belo era os lábios de Jéssica, era muito delicado e continuou contornando seus lindos lábios com o batom. 

        Jéssica estava sentindo algo diferente, pois enquanto Duda passava batom nela, seu coração disparava e a sua respiração começou a ficar estranha e ofegante, ela estava torcendo para que Duda não reparasse nada daquilo que estava acontecendo com ela. 

- Prontinho está linda! É outra garota agora! 

        Duda guardou o batom e já estava voltando para sala, quando Jéssica pegou em seu braço e dessa vez, foi com delicadeza. 

- Duda! Me encontra no estacionamento hoje depois da aula? Preciso falar com você! 

- Por que não fala aqui? Pode falar! 

        As duas foram interrompidas por uma garota que entrou no banheiro. As duas se olharam. 

- Aqui não dá. Tenho que voltar pra aula. 

- Tá bom então. 

        As duas voltaram para sala e logo os alunos que estavam na sala começaram a encarar Jéssica que estava muito diferente. Ninguém nunca havia visto o seu longo cabelo antes, pois ela sempre ia para a escola de touca e aquele batom estava dando tanto destaque a seus lábios que todos ficaram encantados quando a viram entrar. 

        Felipe reparou que o batom que Jéssica estava usando era o mesmo que Duda usava sempre. 

- Cuidado com essa garota Duda! 

- Do que você está falando Lipe? 

- Só estou te avisando , eu conheço esse tipo de pessoa, eu já fui assim! 

       No estacionamento depois da aula. 

- Oi! 

- Oi! O que aconteceu? Está tudo bem com você? 

- Está sim! É que eu estava pensando muito esses dias e lembrei que você me fez um convite aqui e eu fui, então eu também quero te fazer um convite e quero que você vá. 

- Hum, interessante! É verdade! Então eu não posso recusar! Onde é? 

- É surpresa! Eu sei que você vai gostar, preciso te levar nesse lugar. Pode chamar seu amigo para ir também. Mas chama o Felipe, o outro que é “estranho” não, eu acho que ele não gosta de mim, ele me encara muito. 

- Então vou sozinha. O Lipe vai trabalhar e o Tuco é assim mesmo, é o jeito dele. 

- Ele trabalha? Mas ele só tem 16 anos. 

- 17. Ele é repetente e ele faz muitos bicos trabalha na Lan house, na pizzaria, na papelaria, na borracharia, na locadora, na lanchonete... 

- Já entendi. Ele tem muitos empregos. Mas então, me encontra nesse endereço aqui esse final de semana. Você pode sair à noite? 

- Sim, meu pai vai achar que estarei na igreja, ele nem sabe a hora que volto. Ele trabalha demais, então capota quando chega! 

- Ótimo! Então me encontra às vinte horas.

 

Notas finais:

 

*Essa missão que Duda menciona não se trata de uma missão religiosa, mas sim de uma missão do destino. Ao decorrer da história vocês irão compreender.

*Jamais seria minha intenção ofender a religiosidade, escrevendo que Jéssica entrou na igreja bêbada e drogada, mas foi pra mostrar como a personagem era desprovida de fé, ela não conhecia nada de nenhuma religião, nunca tinha entrado em igreja nenhuma, ela não tinha fé nem nela mesma. Duda que lhe ensinou tudo sobre fé.

 



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