A vinha e o girassol por Marcya Peres


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MAS E O AMOR?!

 

 

– Vem comigo, quero te mostrar uma coisa!

 

Constance descia as escadas, tinha acabado de fazer Bia dormir e ia ao encontro de Iara quando ela se antecipa e a pega pela mão guiando até a biblioteca.  Seguia a mulher com um sorriso mal contido nos lábios, pois sabia que sempre que ela queria algo lascivo a olhava com malícia e dizia aquela mesma frase.

 

Para implicar com ela Constance fala…

 

– Se for para me mostrar os balanços semestrais das empresas, eu prefiro que você deixe para amanhã.

 

Iara fecha a porta da biblioteca atrás de si e puxando Constance pela cintura, sobe a outra mão até a nuca trazendo o rosto dela para bem perto e sussurra com paixão junto àquela boca adorada…

 

– O único balanço que vou te mostrar é o dos meus quadris…que ver?

 

 

Uma hora depois ambas estavam enroscadas no pequeno sofá daquele cômodo quando Constance pergunta com certa preocupação…

 

– Trancou a porta?

 

– Fica tranquila, Emma tá muito ocupada preparando nosso jantar, ainda é cedo!  Além disso, ela não abre mais porta alguma sem bater antes, sabe que podemos estar em qualquer lugar dessa casa!

 

Ambas riem bastante porque era absolutamente verdade.

 

 

Vários meses já haviam decorrido desde que o relacionamento afetivo delas passou a ser notório. Todos na casa, os amigos próximos ou não, ficaram cientes de que elas compartilhavam não só a mesma casa e a criação de Bia, mas também todos os aspectos de suas vidas. 

 

Constance fez como prometera, não escondia de ninguém que Iara era sua mulher, sua companheira e como tal deveria ser tratada e respeitada. Mas mesmo que quisesse esconder isso não seria possível.  A paixão entre ambas era tão latente que ficava difícil fingir frieza ou aparentar distanciamento!

 

Iara muitas vezes tinha que segurar um pouco sua impulsividade, a fim de não beijar ou tocar ousadamente Constance na frente de todos.  Sabia que ela ficava constrangida com demonstrações explícitas de afeto na frente das pessoas, então procurava se policiar para não deixá-la sem graça.  Mas quando sabia não haver ninguém por perto agia como naquele fim de tarde, buscava por ela em algum canto da casa e a abduzia para saciar sua vontade permanente de tê-la pra si.

 

Constance era mais contida, mas nem por isso deixava de gostar e corresponder com ardor aos impulsos românticos de Iara. Pelo contrário, muitas vezes ansiava por ser surpreendida em algum canto da casa e seu corpo até já respondia antecipadamente às expectativas do desejo absurdo que ela lhe provocava.

 

Depois que Beatriz completou um ano, Iara começou a desmamar a filha para poder se dedicar com mais atenção aos negócios que Lorenzo havia deixado.  Constance fez como prometera, deixou a administração dos bens e das ações completamente nas mãos de Iara, não se interessava por nada daquilo, já Iara parecia gostar de ficar a par de tudo mesmo de longe. 

 

Levou meses se inteirando dos negócios, estudando como funcionava cada um deles, estreitando o contato com os diretores, gerentes e executivos que administravam as empresas e com as corretoras que investiam no mercado financeiro o volume grosso do dinheiro deixado por Lorenzo.

 

Todos os dias ela se trancava na biblioteca e passava horas verificando os e-mails que informavam o desempenho de cada negócio, enviava outros e-mails, tirava suas dúvidas e, mesmo à distância, acompanhava a movimentação e o andamento dos bens de sua filha e de Constance através de suas corretoras de valores, por telefone, internet e em reuniões virtuais.

 

Iara descobriu-se com um traquejo para negócios que surpreendeu não só a todos como a si mesma!  Não se sabia capaz de tratar com tanta habilidade sobre temas que julgava chato até pouco tempo atrás.  Seu sonho era ser “dondoca” e de repente se vê fazendo multiplicar a herança que tanto havia cobiçado.

 

Quem freava a natural vocação de Iara para gastar horas se dedicando ao trabalho que involuntariamente arrumou pra si mesma era Constance.  Sempre que achava exagerado o tempo gasto naquela biblioteca, ela entrava no local e com seu jeito sempre suave e extremamente convincente, acabava com o “expediente” do dia sem dar ouvidos para as objeções de Iara.

 

- Mas Conca, eu ainda não terminei!  Preciso falar com os corretores ainda hoje antes das três horas para autorizar a venda de algumas ações que podem cair e...

 

- Eu e Bia queremos você agora, todo o resto pode esperar!

 

- Mas...

 

- Não tem “mas”, a Bia tá chorando e eu te querendo perto de mim!

 

- Então depois não reclama se perdermos dinheiro!

 

- Não me importa o dinheiro, só não quero perder tempo demais longe de você!

 

E a discussão ali mesmo era encerrada com beijos e abraços apaixonados.

                                                                                                                           

 

 

Certo dia, Iara estava entretida com o trabalho na biblioteca, quando nota a chegada do carteiro.  Ele trazia nas mãos, além da correspondência usual, um pacote retangular, um pouco maior que as outras cartas.  Deu de ombros e voltou sua atenção para a tela do computador a sua frente.

 

Acabou ficando mais tempo que o normal trabalhando e quando deu por si, olhou o relógio e notou que havia gasto tempo demais ali dentro sem intervalo.  Achou estranho Constance não ter vindo interrompê-la como sempre fazia quando exagerava nas horas trabalhadas.

 

Foi até a sala e não viu ninguém, depois se dirigiu à cozinha e encontrou Emma preparando o jantar com Bia brincando em um cercadinho na copa. Beijou a filha e perguntou para a mulher...

 

- Onde está Constance? Não a vi a tarde inteira, nem mesmo veio me ver na biblioteca! Está na Vinícola ainda?

 

Com o semblante carregado Emma falou...

 

- Ela recebeu uma correspondência e se enfiou no quarto até agora, posso imaginar o que seja...

 

- O que?

 

- A prestação de contas da Fundação Camille Lugano!

 

Iara ficou estática e alerta!  Não se lembrava de Constance ter algum dia comentado sobre uma Fundação com o nome de Camille!  Sabia que ela ajudava pessoas carentes através da doação de lucros do espumante que elas haviam criado, o “C.Lugano”, mas uma Fundação era algo bem maior que mera doação de lucros!

 

Estanhando o clima um tanto pesado, Iara pergunta a Emma com o cenho franzido...

 

- Não sabia dessa Fundação!  Constance nunca comentou comigo!  Quem administra?

 

- Os pais e o irmão de Camille!  Depois do acidente eles passaram a se dedicar à Fundação, uma vez que Constance não tinha mais condições de nada.  Além disso, eles injetaram uma enorme quantia de dinheiro na Fundação quando Camille se foi.  Era a parte dela na herança da família.  Acho que acabou sendo uma espécie de conforto para eles se dedicarem a ajudar aos mais pobres.

 

Sem disfarçar o incômodo, Iara questiona...

 

- E o que Constance tem a ver com isso agora?

 

- A Fundação foi criada antes da morte de Camille por elas.  Os lucros do espumante eram destinados à instituição e as duas eram apaixonadas pela idéia de poder ajudar aos mais necessitados.  Quando Camille se foi, a família dela assumiu o controle do projeto e destinou ainda mais dinheiro, o que tornou a Fundação algo grandioso!  Eles ajudam pessoas carentes em vários pontos do mundo, na África, America do Sul, Ásia, além de ter várias ações aqui na Europa também. Eles ajudam crianças, idosos, doentes, ex-detentos, enfim, é um trabalho muito bonito!

 

- Mas continuo sem entender a correspondência que você disse que ela recebeu deles, o que tem a ver?

 

- Anualmente os pais e o irmão de Camille mandam uma correspondência para Constance contendo um filme de todas as ações da Fundação ao longo do ano.  É uma forma deles se redimirem por terem sido distantes delas por tanto tempo quando Camille era viva.  Só se deram conta do quanto a filha havia sido feliz aqui nesta casa após a morte dela.  Além disso, Constance continua como uma das principais mantenedoras da Fundação e por isso eles fazem questão de mandar a prestação de contas e o filme.

 

Séria, Iara conjectura como entendendo o porquê de Constance não a ter procurado até agora...

 

- Então ela está lá em cima vendo o tal filme? Provavelmente lembrando de tudo! Por isso não me procurou a tarde toda!

 

– Eu sinceramente acho que a família de Camille gosta de lembrar Constance de cada detalhe do projeto delas, principalmente de mandar junto imagens delas quando visitavam os lugares assistidos pela Fundação.  Esses filmes sempre vem recheados dessas imagens e isso deixa Constance devastada!

 

– Como assim?

 

Emma fala baixo, como que segredando algo…

 

– Acho que eles de certa forma culpam Constance pelo acidente, mesmo sabendo que foi uma fatalidade!  Não conseguem deixar de fazê-la lembrar que Camille não está mais aqui!

 

Sentindo um enorme desconforto, Iara diz…

 

– Já não basta a própria Constance estancar a vida dela por conta dessa culpa, ainda vem a família de Camille colaborar?!  Era só o que faltava!  Vou lá falar com ela!

 

Emma adverte em tom de preocupação…

 

– Tenha paciência, filha!  Ela costuma ficar muito abalada vendo esses filmes!

 

Iara se retirou já imaginando o que poderia encontrar.  Aquela mesma cena do quarto de Constance no aniversário da morte de Camille.  Sentia uma angústia sufocando seu peito em saber que mais uma vez ela estaria arrasada remoendo-se em culpa pela morte do seu grande amor.

 

Subiu as escadas devagar, preparando-se emocionalmente.

 

A porta da sala de TV estava entreaberta e Iara espreitou silenciosamente observando Constance olhar fixo para a tela a sua frente.  De onde estava podia ver perfeitamente as imagens que se descortinavam. O vídeo parecia estar no fim e uma cena do rosto de Camille, em close sorrindo, foi congelada por Constance que ficou olhando por longos minutos para a bela mulher que lhe sorria na tela.

 

Iara sentiu um nó a lhe apertar no peito.  Detestava saber que Constance sofria tanto ainda como se tudo tivesse acontecido há pouco tempo.  Sentia-se impotente em não poder arrancar dela aquele sentimento e substituí-lo por amor…amor a ela, Iara!

 

“Será que vai ser assim pra sempre? Vai chorar a vida toda e remoer esse amor que já não pode mais ser ao invés de dar ele pra mim?”

 

Iara pensava com frustração.

 

Entrou na sala e se fez notar.  Constance não a olhou, desligou o DVD e levantou-se com a cabeça baixa. Os olhos estavam injetados de tanto chorar, disse quase inaudível…

 

– Vou para o quarto. Não quero jantar!

 

Iara sentiu vontade de segurá-la pelo braço e dizer que não suportava mais aquela sua atitude de autopunição.  Que parasse de se torturar em culpa e que não amasse mais Camille daquela forma, pois ela estava ali implorando por aquele amor!  Mas claro que não fez nada disso e deixou Constance passar por ela com o coração em pedaços.

 

Sem se conter, ligou novamente o DVD e decidiu ver o que continha aquele malfadado vídeo.

 

Era um filme institucional muito bem feito que trazia imagens das obras realizadas pela Fundação ao longo do ano anterior.  Um locutor relatava com detalhes os trabalhos feitos junto a diversas comunidades carentes espalhadas pelo Globo: eram orfanatos, asilos, hospitais, instituições de reabilitação, presídios. As cenas eram entremeadas por discursos de colaboradores da Fundação e de pessoas que eram beneficiadas pelas suas ações.  As entrevistas eram comoventes e o resultado daquele belo trabalho era ali retratado somente em parte, para que fosse divulgado aos principais colaboradores e mantenedores da Fundação.  Era uma prestação de contas detalhada com os resultados visíveis para que todos pudessem ver para onde iam os recursos aplicados no projeto criado por Camille e Constance.

 

Iara viu o envelope que o carteiro trouxera, aberto em cima da mesa e ao lado um calhamaço com balancetes das contas da Fundação. Era tudo muito organizado e bem administrado.  De fato era um bonito projeto que atualmente a família de Camille gerenciava muito bem.

 

Voltou sua atenção para o vídeo quando cenas diferentes passaram a ser mostradas na tela.  O locutor então começa a contar a história da criação da Fundação Camille Lugano, a partir dos sonhos daquelas duas mulheres, que com sentimento altruísta e de amor fraternal, decidiram dividir com outras pessoas o dinheiro que julgavam ser demais para elas.

 

A locução da história era ilustrada por cenas de Constance e Camille juntas visitando crianças carentes em lugares miseráveis da África, Asia e América do Sul, conversando com doentes e mutilados de guerra, verificando instalações de instituições financiadas pela Fundação, cumprimentando colaboradores.

 

Eram imagens que mostravam uma parceria e interação entre as duas mulheres incontestáveis.  Elas caminhavam sempre lado a lado, dando atenção a cada pessoa que se aproximava, sem descuidar dos olhares cúmplices de uma para outra, acompanhados de sorrisos de um amor impossível de não ser notado.

 

Iara percebia que até mesmo os gestos entre elas eram parecidos, as duas tinham o mesmo tipo físico: pele, olhos, cabelos da mesma cor, tinham a mesma altura, compleição física e até mesmo as vozes delas eram similares, sempre naquele tom suave e sereno. Enfim, era uma simbiose incrível e nunca antes vista por Iara em outros casais!

 

“Francesca tinha razão, elas eram muito parecidas! Era como se fossem gêmeas!”

 

Iara pensou com pesar.

 

Dizem que isso é muito comum entre casais que tem tanta afinidade que acabam ficando parecidos no jeito de ser e às vezes fisicamente também.

 

 Apenas saber como tinha sido o amor entre Camille e Constance por terceiros era uma coisa, mas literalmente presenciar as cenas daquele amor era algo extremamente doloroso para ela!  Ver ali passar pelos seus olhos aquelas imagens de afeto, de cumplicidade e de um amor grandioso, causava uma angústia sufocante! Tinha vontade de desaparecer!  Sentia-se tão pequena em relação a tudo aquilo que via: a história das duas, as coisas boas que faziam juntas, os planos de vida realizados ali naquelas ações, e o pior de tudo…o amor que saltava aos olhos de todos! Aquele imenso amor que ambas compartilhavam e que tornava Iara uma intrusa!

 

O filme chegou ao seu final e Camille falava para a câmera o quanto se sentia feliz e realizada em ter sua companheira como parceira de um projeto sonhado por muito tempo e que agora realizava junto com Constance.  O “take” final era a câmera se afastando um pouco deixando ver Camille estender a mão para Constance e dar-lhe o mais lindo olhar de amor já visto!

 

E foi nessa cena que Iara congelou a imagem, exatamente como Contance fizera, no belo rosto sorridente de Camille a olhar sua amada!

 

Perdeu a conta de quanto tempo ficou ali olhando para a imagem daquela mulher que tinha até mesmo detestado por causa dos ciúmes que sentia!  Tantas vezes havia se questionado porque Constance, uma mulher inteligente, culta, rica, havia se enterrado junto com sua mulher morta!  Não entendia as sequelas daquele amor, o sofrimento que parecia não ter fim cada vez que uma data ou algo como aquele filme trazia Camille de volta de sua cova.

 

Mas olhando aquela imagem final, Iara pareceu compreender tudo de uma só vez!  O olhar de Camille para Constance!  Aquele olhar que transbordava um amor profundo e inquestionável!

 

Agora entendia porque Constance jamais amaria alguém como amou Camille, porque talvez jamais tenha sido tão amada por alguém como foi por ela!

 

Vendo aquele filme, Iara compreendeu o quanto Camille era uma pessoa especial, generosa, desprendida, preocupada com o próximo, como Iara jamais sonhou ser.  Não era da sua natureza todo aquele altruísmo, toda aquela dedicação ao sofrimento dos menos favorecidos pela vida, por isso não entendia.

 

 Iara estava do outro lado!  Ela que durante toda a infância havia recebido a generosidade e ajuda de pessoas como Camille.  E, infelizmente, não havia aprendido a retribuir nem entender porque as pessoas eram daquele jeito…simplesmente boas!

 

Sentiu-se mesquinha, pequena com seus valores menores ainda!  Diante de uma mulher como Camille, sentia-se vulgar e fútil!  Imaginar que Constance poderia compará-las a deixava sem chão!

 

Camille era uma mulher de verdade em toda a essência da palavra e, mesmo depois de morta, havia deixado um legado de bondade e beneficência que mudava a vida de milhares de pessoas ao redor do mundo até hoje.  Gente que ela nunca conheceu, mas que teve seus sofrimentos amenizados e novas oportunidades de melhorar sua condição, tudo pela bondade e desprendimento daquela mulher.  Alguém que nasceu rica, mas que estendeu sua mão a pessoas que nem eram de sua nacionalidade, pessoas miseráveis, pobres, mutiladas, doentes.

 

Como se comparar a alguém tão especial?!  Como invejar e querer para si um amor ao qual não fazia jus?!  Como exigir que Constance a amasse como amou Camille se não tinha para ela aquele mesmo olhar que via na cena congelada?!

 

Sentia-se muito feliz ali com ela e a filha, mas será que poderia viver uma vida inteira sem almejar outro tipo de prazer?! Prazer como aquele que encontrava ao ser admirada nas altas rodas do jet set internacional, como quando fazia multiplicar os milhões da herança deixada em suas mãos, como quando era reverenciada e até mesmo temida pelos empregados das empresas e as pessoas que a serviam.

 

Tinha tido uma vida de tantas privações, que seu prazer maior consistia em mostrar a todos que havia vencido!  Que era forte e tinha superado toda a sorte de infortúnios pelos quais passara!  Que havia superado a rejeição, as humilhações, o pouco caso dos homens que pagavam por seu falso amor em migalhas! 

 

Sim, era uma vencedora!  Mas jamais teria a grandiosidade de Camille! Jamais teria todo aquele amor incondicional pelo próximo! Jamais teria aquela simbiose com Constance, toda aquela afinidade que havia visto entre as duas!  Jamais seria Camille e por isso sabia que Constance jamais a amaria tão intensamente como amou a mulher morta!

 

Essa constatação a dilacerava por dentro!  Doía intensamente como uma lâmina a estripar-lhe o ventre!  Não tinha como competir com aquilo!

 

Cobriu o rosto com as mãos e chorou copiosamente por longos minutos.  Deixou sair mágoas antigas, as frustrações, a incapacidade de se fazer amar como Camille havia sido amada por todos!

 

Inveja!

 

Sim, sentiu inveja dela e pensou que até mesmo morta ela continuava sendo muito mais amada como Iara jamais seria!  Principalmente por Constance!

 

Invejava, mas não sentia mais raiva dela!  De fato ela era alguém digna de muita admiração e amor e então compreendeu porque jamais seria na vida de Constance tudo o que Camille foi e ainda era.

 

 

Viu todo o filme mais uma vez, parando diversas vezes nas cenas em que Camille e Constance surgiam. Era uma tortura masoquista, mas precisava fazer! Admirou ainda mais a rival morta, compreendeu o amor inabalável das duas que nem mesmo a morte fez esmorecer, entendeu que nunca teria aquele mesmo sentimento de Constance e se perguntou se conseguiria continuar vivendo aquela fantasia de vida perfeita com ela. 

 

Até quando?!  Até quando Constance acharia interessante e divertida a vida que tinham juntas? Até quando continuaria admirar Iara, se é que era admiração o que sentia e não pena!  Até quando sobreviveria aquela paixão louca que viviam?!

 

E as respostas atormentavam a mente de Iara na mesma velocidade que as perguntas: provavelmente todo o encanto se acabaria quando o desejo sexual se fosse! No dia que Constance não sentisse mais atração física por ela, nada mais restaria.  Ela não tinha a mesma profundidade de sentimentos que Camille, não era generosa daquela forma, não tinha uma personalidade tão interessante e afável como ela.  No dia que não fosse mais novidade e que Constance não a achasse mais atraente, o que sobraria?!

 

Iara pensava que talvez ela fizesse força para manter tudo daquela forma para não perder a convivência com Bia.  Era óbvio que a irmã era a razão de Constance ter revivido, ter se recuperado tanto física quanto emocionalmente, mas naquela tarde teve certeza que essa recuperação era somente parcial. Constance não esqueceria Camille jamais!  E a vida delas agora parecia aos olhos de Iara, apenas um arremedo, uma distração para a saudade infinita que Constance sentia da mulher!

 

 

Levantou do sofá como se seu corpo pesasse toneladas.  Não tinha ânimo sequer para sair daquele cômodo, mas tinha que prosseguir.

 

Jantou sozinha com Emma, que pareceu compreender o momento delicado e não comentou a ausência de Constance.  Depois subiu e fez Bia dormir.

 

Precisava de um banho.  Entrou no quarto e viu Constance coberta em posição fetal. Não sabia se deveria dormir junto dela. Acabou o banho e voltou ao quarto.  Ela não havia se mexido.

 

Sentiu uma ternura imensa ao vê-la daquela forma.  Era um sentimento estranho misturado à frustração de não poder fazê-la esquecer.

 

Deitou-se ao lado de Constance e a abraçou aconchegando o pequeno corpo junto ao seu.  Sentiu as lágrimas dela molharem seu braço e, sem conseguir se conter, chorou junto com seu amor.

 

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