Amor sob diferentes prismas por Nath D


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Sempre fui uma aluna bastante estudiosa e dedicada com os estudos, nesse quesito, minha família não possuía motivos nenhum para queixar-se de mim, mas, é claro que nem todo mundo é perfeito e tinha algo que me tirava do sério... Apresentação de ano letivo sempre era a mesma chatice. Qual a lógica de nos fazer acordar cedo apenas para ouvir as mesmas asneiras? Nem passava pela minha cabeça que ainda teríamos que passar por essa baboseira depois do ensino fundamental, mas passamos. Lembro como se fosse ontem, era inicio do Ensino Médio no ano de 2010, primeiro dia de aula da primeira série. E eu no auge dos meus 13 anos, sentada em uma daquelas poltronas confortáveis do grande auditório da minha escola fingia prestar atenção às palavras do diretor que abordava sobre a grande responsabilidade que o começo daquela nova fase aguardava.

Já estava enfadada, quase adormecendo, resultado de ter ido dormir depois das duas da manhã sabendo muito bem que minha mãe não me deixaria faltar, quando uma voz muito suave com uma leve rouquidão me tirou daquele meu momento de torpor.

--Primeiro dia de aula é sempre essa chatice, só vim mesmo porque meu pai praticamente me jogou da cama. -imediatamente fiquei bastante espantada com a voz da estranha que havia sentado ao meu lado, porém não fiz questão de olhá-la.

--Quem é você? -perguntei com um leve toque de mau humor, não havia dormido bem na noite passada e aquela desconhecida ainda achava de torrar minha paciência.

--Me chamo Fernanda, e você? É nova aqui na escola? -Deveria ser bem aluna novata, pois todas as pessoas conheciam meu péssimo humor quando acordava cedo e evitavam se aproximar, algo que valia até mesmo para meus amigos mais próximos.

--Meu nome é Ana Júlia e estudo aqui desde a quinta série. -me limitei a dizer.

--Engraçado... Comecei a estudar aqui ano passado e jamais havia lhe visto.

--Deve ser porque no ano passado haviam cinco turmas de oitava série e não dava pra reparar em todos os alunos. -isso era mais do que normal em uma escola grande.

--Acho que não. Tenho certeza que guardaria o seu olhar se já tivesse visto antes. -nesse momento senti algo estranho que naquele momento não fui capaz de compreender.

--Como assim? -perguntei curiosa.

Eu que até então permanecia de cabeça baixa e entretida com o celular, pela primeira vez levantei o rosto e encarei a desconhecida, ou melhor, a Fernanda. Deparei-me com uma garota de uns 14, 15 anos muito linda. Ela era mais alta que eu, tinha cabelos castanho-claros bem compridos e olhos da mesma cor, mais branca do que um papel e um corpo que parecia que havia sido esculpido pelos deuses, toda maquiada.

Na minha cabeça ela deveria ser metida, patricinha, chata e não demoraria para que conseguisse ficar com todos os garotos e ser uma forte concorrência para mim que era magricela e sempre ganhava apelidos do tipo: Olivia Palito, "Dona Madruga", e outros ainda mais bestas. É o sonho de todas as garotas serem magras, mas para mim provocava efeito inverso. Retornando ao assunto em questão, essa literalmente foi a primeira impressão enganosa que tive dessa garota...

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As semanas foram passando rápido e logo o colégio começou a exigir bastante de nós, o preparo intenso para que realizássemos a primeira etapa da prova da Universidade Estadual que ocorreria no final do ano era massacrante.

Nesse interim estabeleci uma amizade com a Nanda também chamada de Gasparzinho por causa da cor da pele, e a nossa aproximação só aumentava, mesmo não sendo da minha turma, passávamos quase todos os recreios juntas, algo que provocava até ciúmes nos meus outros amigos.

Lembro como se fosse ontem que na escola corriam boatos de que a Fernanda era lésbica por alguns motivos considerados óbvios: ela nunca havia namorado nenhum garoto, não gostava de falar neles, nunca havia elogiado nem mesmo os rapazes considerados mais gatos e que queriam namorá-la.

Na minha mente de hétero convicta, essas razões "pregadas" pelos outros estudantes a respeito da Gasparzinho não faziam nenhum sentido. Como uma justificativa, ela sempre alegava que queria priorizar os estudos e não ia se envolver com ninguém por causa disso, claro que eu acreditava até porque comigo acontecia a mesma coisa, apesar de que tinha os meus ficantes que não eram fixos já que ninguém é de ferro.

Porém, as coisas começaram a mudar quando nas férias de julho desse mesmo ano, a minha melhor amiga Aretha me convenceu a perguntar diretamente o real motivo pelo qual a Nanda não gostava de falar sobre o assunto homens.

Reuni forças e decidi que quando as aulas retornassem conversaria sobre esse assunto com ela, foi o que fiz.

--Fernanda, você é lésbica? -perguntei em um final de semana que ela havia ido à minha casa para estudarmos para o simulado.

--Se essa é a denominação pra gostar de mulheres, então a resposta é sim. -disse sem hesitar como se houvesse dito a coisa mais natural do mundo.

--Não acredito que você fala isso na maior naturalidade... -respondi mais aborrecida por ela não haver confiado em mim o suficiente para ter me revelado o seu segredo.

--Queria que eu mentisse pra você, Ana Júlia? Não vai mais querer ser minha amiga porque eu curto vagina no lugar de pau? -perguntou me encarando fixamente. Não havia motivos para ela ser tão grosseira.

--Não é nada disso sua idiota, só estou surpresa e chateada por não haver me dito isso antes. Você sempre negava pras pessoas.

--Negava por medo disso chegar ao ouvido da minha mãe que é preconceituosa, mas sei que contigo não preciso esconder quem realmente sou. Ou por acaso preciso? -questionou me encarando profundamente ao ponto de me deixar desconcertada.

--Só queria entender porque nunca me disse isso antes... Pensava que confiava em mim o suficiente para saber que jamais me afastaria de você por algo insignificante.

--Não é questão de confiança, Ana Júlia. Nós homossexuais sofremos preconceito todos os dias, não é fácil falar dessas coisas mesmo pra pessoas próximas. Além do mais, você nunca havia me perguntado, fora isso, você sabe que sou muito reservada. -Nanda disse me interrompendo.

--E cadê a namoradinha? -perguntei tentando dissipar o clima ruim que havia sido estabelecido.

--Ainda não tenho, gosto muito de uma garota e sei que não é reciproco. Preciso esquecê-la, mas não sei como. -nesse momento fiquei com muita pena da minha amiga e com raiva da garota que não correspondia aos seus sentimentos.

--Branquela, você é muito nova. Com certeza, essa paixão não passa de um fogo de palha. Vai arrumar alguém muito melhor. -odiava ver qualquer um dos meus amigos tristes, era como se doesse em mim.

--Não sei não. Essas coisas não são tão simples...

A fala da minha amiga foi cortada pelo toque histérico do meu celular, era o Natan, um dos meus ficantes. Ao perceber de quem se tratava, a Nanda logo fechou a cara.

-- Esse garoto vive no seu pé, parece calo de sapato. -Nanda disse após eu encerrar a chamada, não havia motivo para ela ficar aborrecida.

--Coitado! Ele gosta de mim, se você ficasse com alguma garota talvez não ficasse reclamando.

--Não é isso, Ana Júlia! O problema é que você adora que as pessoas, principalmente os garotos, fiquem no teu pé, te bajulando, como se você fosse uma deusa e eles simples mortais.

Depois disso, a minha amiga não quis mais estudar e logo foi embora. Fiquei o resto do dia me questionando o motivo para a reação descabida dela. É certo que ficava com vários garotos da escola e até homens mais velhos, mas nunca os iludi, sempre fui uma pessoa sincera.

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Com o passar do tempo, a Fernanda acho que guardou esse suposto amor pela garota misteriosa (ela nunca me falou quem era essa moça) em um lugar a sete chaves no coração dela e se dedicava integralmente aos estudos, envolvendo-se apenas com uma mulher mais velha que duraria por menos de um mês, mas nunca esqueceu a primeira paixão. Diferente do que eu pensava, não era apenas fogo de palha. As vezes, a Aretha até brincava que a bisavó dela tinha mais vida social que a Fê.

--Anda mulher! Sai pra balada, beija muito, curte e transa. Você precisa desencalhar. -era sempre esse o conselho que Tatá dava para a nossa amiga.

--Sabe muito bem que isso não faz o meu tipo mana, sem falar que não vou fazer sexo sem compromisso com a primeira que aparecer. -era a desculpa que a Nanda dava.

--Oh amiga, só falo pra você aproveitar mais a vida. Você sabe que é muito gostosa, já até te falei que se gostasse da fruta te pegava com todo prazer. Não precisa colocar a boca e os dedos em qualquer perereca, mas, te permite conhecer pessoas novas. -não sabia explicar a razão pela qual ficava tão aborrecida quando a Aretha dava esses conselhos para a Fê e eu torcia para que ela não aceitasse, mas, hoje em dia sou capaz de compreender melhor...

--PELA MILÉSIMA VEZ ARETHA, NÃO FORÇA A BARRA. NÃO QUERO CONHECER NINGUÉM E PONTO FINAL. -a Nanda acaba perdendo a cabeça e se não fosse o meu jogo de cintura, essas duas viveriam brigando.

--Tatá, a Nanda já é bem grandinha pra saber o quer da vida dela. Na hora oportuna ela vai encontrar alguém que ela ame, cada coisa ao seu tempo. Não precisa pressionar. -essa era a minha opinião, mas no fundo ficava muito alegre por saber que a Nandinha não arrumava ninguém. Era como se desde aquela época já tivesse um sentimento maior que amizade.

--Você passa muito a mão na cabeça da Fernanda, por isso que ela tá tão mal acostumada. Se não soubesse que tu és hétero Julinha, tentaria uni-las. -Tatá dizia e eu fazia que não escutava. Não me agradaria em nada viver uma relação homossexual, eu adorava curtir com os garotos. Ter uma amiga lésbica era o máximo, porém, eu sabia muito bem do que gostava.

--Não liga que a Aretha fala muitas besteiras. Eu te amo, Ana Júlia. -Nanda me dizia com um olhar que meu coração entendia como apaixonado, mas minha razão dizia que estava pirando geral e era somente amizade.

--Também amo a sua amizade, Fernanda. -dizia evitando contatos maiores.

Algumas coisas também mudaram na minha vida, com o tempo, me apaixonei pela Maria Eduarda, prima da Nanda que também era lésbica, só que do tipo cafajeste e sonsa. Sofri muito com esse suposto amor, engordei bastante e entrei em depressão. Ao mesmo tempo que foi um amor doloroso, foi um aprendizado para me tornar uma pessoa mais forte.

Com quase 16 anos e a Nanda cansada de viver dentro do armário realizou uma transformação total. Já não se maquiava com tanta frequência, mudou o corte do cabelo, passou a ser ativista das causas LGBT e feministas no nosso Estado, e se declarou lésbica para a família e a sociedade. Com medo de ser expulsa de casa, começou a cantar e tocar em casas de show para ter uma renda extra, com esse dinheiro e a ajuda do pai que vivia no RJ, comprou o seu próprio apartamento.

Rapidamente alguns anos se passaram, o Ensino Médio acabou e fomos para as nossas respectivas faculdades, eu na enfermagem, e ela na arquitetura. Não sei se foi pela nossa convivência ou pelo nosso excesso de afeto e de cumplicidade, mas aos poucos comecei a gostar da Nandinha mais do que como amiga.

 

Notas finais:

 

Espero que gostem dessa nova história que será maior. Quero agradecer ao meu melhor amigo Gabriel , e à minha amiga Taiane por toda dedicação e apoio, e, claro, a vocês por lerem minha história.

Dedico essa história à todas que como eu acreditam no amor.

O comentário de vocês faz toda diferença.

Bjs e boa leitura.

 



Comentários


Nome: AnneS (Assinado) · Data: 02/02/2017 11:01 · Para: Capítulo 1

Ana Júlia demorou para abrir os olhos... Será que Fernanda ainda a ama ? Ansiosa para os próximos capítulos. Muito bom mesmo, Nath.



Resposta do autor:

Olá AnneS.

Então, essa é uma pergunta que apenas a Fernanda será capaz de responder, né mesmo? Mas, dizem que nunca é tarde pra abrir os olhos

Obrigada pelo comentário.

Continue acompanhando.

Bjs



Nome: Teresa (Assinado) · Data: 02/02/2017 01:18 · Para: Capítulo 1

Muito bom, gostei muito. Bjs 



Resposta do autor:

Olá Teresa!

Fico bem feliz que tenha gostado.

Obrigada pelo comentário.

Bjs



Nome: Eduarda A (Assinado) · Data: 01/02/2017 18:17 · Para: Capítulo 1

Estou gostandoooo



Resposta do autor:

Obrigada Eduarda A.

Muito em breve tem mais um capitulo.

Bjs



Nome: Tay07 (Assinado) · Data: 01/02/2017 02:15 · Para: Capítulo 1

Só Uma Palavra " Maravilhoso " 

Está de Parabéns Nath. 

Já deu pra perceber que a historia terá muitas emoções, estou super curiosa e ansiosa por mais.

volta logo pra postar o segundo capitulo  rsrs  : )

Bjss linda . 



Resposta do autor:

Bom dia Tay.

Fiquei feliz com o seu comentário, dá um "up" pra continuar.

Assim que tiver pronto o segundo capitulo, postarei.

Bjs :)



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