Leis do destino - segunda temporada por contosdamel
Summary:

Segunda temporada da história de Natália e Diana. Depois dos desafios para ficarem juntas, o destino se encarrega de uni-las outra vez para mostrar a força do inevitável no amor.


Categoria: Romances Characters: Original
Challenges:
Series: Nenhum
CapĂ­tulos: 33 Completa: Não Palavras: 118568 Leituras: 25982 Publicada: 10/11/2021 Atualizada: 25/12/2021
Notas:

SEGUNDA TEMPORADA - CONTINUAÇÃO

1. 2.1 Sequitum vitam cursus por contosdamel

2. 2.2. Praeterita mattis nunc por contosdamel

3. 2.3. Cum re presente deliberare por contosdamel

4. 2.4 Quid inde? por contosdamel

5. 2.5. Ex positis por contosdamel

6. 2.6 fervet opus por contosdamel

7. 2.7 Desideratum por contosdamel

8. 2.8 Aequo pulsat pede por contosdamel

9. 2.9 Loco dolenti por contosdamel

10. 2.10 Major e longinquo reverentia por contosdamel

11. 2.11 Conventio est lex por contosdamel

12. 2.12 Tempus iam deleri por contosdamel

13. 2.13 Onus probandi por contosdamel

14. 2.14 Causa traditionis por contosdamel

15. 2.15 Ex abrupto por contosdamel

16. 2.16 Ex causa por contosdamel

17. 2.17 Caetera desiderantur por contosdamel

18. 2.18 Res integra por contosdamel

19. 2.19 Parva scintilla excitavit magnum incendium por contosdamel

20. 2.20 Agenda por contosdamel

21. 2.21 In dubio pro reo por contosdamel

22. 2.22 Claudite jam rivos, pueri; sat prata biberunt por contosdamel

23. 2.23 Flagrante delicto por contosdamel

24. 2.24 Causa possessionis por contosdamel

25. 2.25 Conditio juris por contosdamel

26. 2.26 Est modus in rebus por contosdamel

27. 2.27 Ipso facto por contosdamel

28. 2.28 In re por contosdamel

29. 2.29 Ubi non est justitia, ibi non potest esse jus por contosdamel

30. 2.30 Firmum in vita nihil por contosdamel

31. 2.31 Sunt lacrimae rerum por contosdamel

32. 2.32 Ense et aratro por contosdamel

33. 2.33 Pro re nata por contosdamel

2.1 Sequitum vitam cursus por contosdamel
Notas do autor:

Seguir o curso da vida


By: Temis

Nova Iorque verão de 2010.


           


            O clima quente da cidade anunciava que a primavera chegara ao seu fim. O colorido dos parques da cidade dava espaço às cores que o sol iluminava nas paisagens e nos rostos das pessoas, em especial, dos estudantes que comemoravam o início das férias.


 


            Abrigada em Manhattan, a cerca de dois anos, quando conquistara sucesso em sua primeira exposição em uma das maiores de galerias de arte da cidade, Diana se preparava para um dos maiores desafios de sua carreira. Depois dos sucessivos reconhecimentos do seu talento nas exposições que realizara por outros estados do país, a fotógrafa fora enquadrada pela crítica especializada como uma das protagonistas da vanguarda da fotografia social. Os temas fotografados por ela fugiam do comum, e principalmente, sua sensibilidade conferia um novo olhar do cotidiano das pessoas que faziam de suas rotinas etapas de um sonho a ser concretizado.


 


            Por tal característica do seu trabalho, Diana fora convidada pela prefeitura da cidade a fotografar o dia-a-dia das famílias das vítimas do ataque de 11 de setembro de 2001. As fotografias fariam parte das homenagens às vítimas em um evento que se realizaria quando o ataque completava dez anos em 2011.


 


            Seus anos em Nova Iorque lhe renderam além de uma rica experiência profissional e rápida ascensão, a oportunidade de fazer uma pós-graduação em uma das poucas áreas que lhe agradava no seu bacharelado, especialmente porque tal especialização lhe ajudava no seu trabalho. A sua tese de mestrado em Direitos Humanos utilizou a fotografia como um dos instrumentos para descrever os processos de conformação que excluíam os imigrantes nos Estados Unidos de direitos humanos básicos.


 


            Manhattan não era só a ilha dos negócios de Nova Iorque, era também o centro cultural da cidade, entretanto, o Queens, o bairro mais populoso, também abrigava galerias e museus de renome e concentrava um dos redutos de diversão que a fotógrafa mais gostava de frequentar. A tradição dos clubes de jazz, e das dezenas de bares alternativos, revelaram muitos promissores talentos da música americana e latina, uma vez que, o Queens também era o bairro mais multiétnico do estado.


 


            Pelo fato dos amigos que fez em Nova Iorque seguirem essa tendência multiétnica, a vida social de Diana estava sempre ligada ao Queens, tal hábito trouxe à fotógrafa uma grata surpresa, na primeira sexta-feira de verão de Nova Iorque no tradicional clube do Harlem, o Light Rock Cafe.


 


            Com a turma de sempre, Diana chegou ao clube no final da noite de sexta: Marco, um pintor italiano, que se gabava por ser um típico sedutor, se transformou em um dos melhores amigos da brasileira, além de um grande parceiro artístico, frequentemente discutiam pelo fato do pintor se recusar a perder uma conquista para a fotógrafa que se divertia provocando o ego do amigo heterossexual metido a Don Juan. Gerard era o mais velho do grupo, um belga bem humorado e doce, fora professor de Diana em um dos cursos de fotografia, residia em Nova Iorque desde que assumiu a homossexualidade depois de um casamento com uma mulher no qual gerou dois filhos. Elizabeth era a nova iorquina da turma gostava de ser chamada de Liza, a eterna apaixonada por Marco, era diretora de uma galeria de arte naquele mesmo bairro, uma das principais incentivadoras de Diana, apostou no seu talento e a lançou no circuito cultural e no mercado do gênero, desde então, se tornaram grandes amigas o que obrigava a fotógrafa a sempre protegê-la da sedução de Marco. Daniela uma espanhola, mas, filha de um americano, tinha a personalidade encantadora que mesclava o calor do sangue latino em suas relações, e o ar cosmopolita de uma jovem de mente aberta de Manhattan, lésbica como Diana, a bela morena adorava ser o centro das atenções, sua simpatia contribuía para isso, era a companhia mais assídua de Diana nas baladas da ilha, entretanto, firmaram um pacto de nunca ultrapassar o campo da amizade reconhecendo que o contrário seria um total desastre.


 


            Daniela tinha o emprego ideal para sua personalidade peculiar, era jornalista por formação, no entanto, enveredou pela área de relações públicas o que possibilitou se tornar uma colunista reconhecida do New York Times onde sempre apresentava as tendências culturais do roteiro nova iorquino, incluindo artes e entretenimento em geral. E foi exatamente por culpa de Daniela, que a turma foi mais uma vez para o Light Rock naquela noite. Divulgara entre os amigos a nova voz que a conquistara em um barzinho no Queens, seu antigo cargo de relações públicas lhe rendeu bons contatos que lhe abriram muitas portas, uma dessas se abriu para a estreia da cantora de voz macia no clube.


 


-- Diana, eu te disse que ela é brasileira? – Daniela perguntou.


 


-- Não. Você disse que ela é linda, com um corpo escultural sublinhando o traseiro delicioso, e que tinha o beijo mais caliente da América, não mencionou nada sobre a nacionalidade dela. Ah! Falou também que teve um orgasmo ouvindo-a cantar.


 


            Todos riram da detalhada descrição que Diana relatou, enquanto Daniela segurava a gargalhada.


 


-- Odeio sua memória! Não deveria ser uma memória apenas fotográfica? Por que você tem que se lembrar de tudo que eu te falo?!


 


-- Dani, pelo tanto de mulher que você leva pra cama, eu já tenho um arquivo feminino extenso em minha memória com metade da população de Nova Iorque, isso facilita minhas escolhas...


 


-- Que safada você é!


 


            Daniela jogou a azeitona do Martini no decote de Diana.


 


-- Que pontaria heim? Eu não faria melhor!


 


            Marco fez graça, observando com olhar malicioso Diana retirar a azeitona do meio dos seios.


 


-- Sabe Marco, é exatamente por essas atitudes cafajestes que você perde mulher pra mim...


           


            O pintor bufou, procurando argumentar em vão.


 


- Silêncio agora pessoal, a minha sereia vai subir ao palco!


 


            Daniela bateu a palma da mão na mesa para chamar atenção, enquanto o gerente do clube anunciava a nova atração.


 


-- Seguindo a tradição de dar o espaço a promissores talentos da música o Light Rock Cafe apresenta essa noite o novo som das noites do Queens, sua voz suave dá aos nossos ouvidos a sensação de serem acariciados por pétalas de flores, diretamente dos trópicos brasileiros, com vocês: Miss Flower!


 


            Diana franziu a testa, pensando consigo mesma: “Que brega! Deve ser alguma cantora de axé baiana, quem mais usaria o nome de um personagem de Jorge Amado que não fosse uma baiana? Sei... Miss Flower, Dona Flor! Será que ela vem com os dois maridos?”. A fotógrafa lamentava não ter nenhum brasileiro para compartilhar suas conclusões jocosas ao ouvir o nome artístico da cantora. No entanto, ao acender das luzes, no centro do palco, à frente da banda, o rosto familiar paralisou Diana. Com um violão elétrico pendurado no pescoço, diante do pedestal, uma mulher linda de cabelos longos com mechas californianas, surgiu no palco com seu sorriso arrebatador que tanto confortou Diana em épocas passadas. Diante da fotógrafa, anos depois estava a amiga e psicóloga: Rosana.


***************


 


São Paulo, maio de 2010.


 


            A jovem promotora a Doutora Natália Ferronato, tomava posse do seu cargo no Ministério Público após homologação do concurso no qual passou em primeiro lugar. Carregava consigo seus ideais e principalmente, seu senso de justiça bem definido. Durante quase três anos após a graduação, advogou na mesma empresa na qual foi estagiária, entretanto, a prática jurídica naqueles moldes não lhe satisfez. Em nada lhe agradava manipular as leis a favor de quem as descumpre por pressão de seus chefes, que se vangloriavam por livrar figurões e seus protegidos do meio político e empresarial de processos e condenações.


 


            Assim, abdicou de sua vida social para mergulhar nos estudos nas poucas horas vagas que lhe restavam do trabalho árduo de advogado em início de carreira, a estes sempre sobrava o “grosso” da função, como os mesmos definiam: faziam o trabalho de peão, apenas um pouco diferente do que realizava enquanto estagiária. Sobre abdicação de vida social, Natalia entendia bem. Tal atitude era comum desde sua adolescência, e se repetiu nas vezes em que precisou se refugiar de suas decepções e infortúnios. Durante os anos de faculdade, após a separação com Diana, limitou-se a poucas saídas com as suas companheiras do time de vôlei e da república, tais eventos eram raros, contudo era o que seu compromisso com os estudos e pesquisa e sua disposição interior permitiam. Enfim, tanto empenho mais uma vez lhe coroou com uma vitória.


 


            Depois de passar no exame da ordem, saiu da república onde morava, uma vez que fora contratada pela renomada empresa de advocacia que estagiara, assim, podia dividir um apartamento com uma colega do escritório. Miriam era uma recatada e tímida moça que como Natalia veio do interior, mas, nem todo tempo na capital deixou o interior sair dela. Mantinha o sotaque carregado, e ar de bicho do mato, se assustava facilmente com as coisas da cidade grande: os barulhos, as notícias, a velocidade. No entanto, era uma advogada capacitada, especialmente em Direito de família. Talvez pelo fato de ser extremamente generosa e solícita Miriam conquistou fácil a confiança e amizade de Natalia, e dessa forma, as duas tinham um excelente convívio no pequeno apartamento no bairro da Moca.


 


            Seu primeiro dia no Ministério Público deixou a jovem promotora atordoada, com o montante de processos acumulados, a demanda reprimida do serviço público e a organização falha não era novidade para ela, uma vez que conhecia aquela realidade desde que realizou estagio extracurricular com seu orientador de pesquisa. Todavia, sua função agora era outra, a responsabilidade era maior, sentia que podia fazer a diferença, e motivada por tal sentimento, arregaçou as mangas do seu terno literalmente e se acomodou na sua mesa bagunçada no seu gabinete apertado. Passou a vista em algumas pastas, e uma delas em particular lhe prendeu a atenção ao ler o nome do indiciado: Acrisio Toledo Campos.

Notas finais:

Nota de capítulo: De acordo com as normas que vigoram desde 2004, Natalia precisaria de mais um ano de prática jurídica para assumir um cargo no ministério público.

2.2. Praeterita mattis nunc por contosdamel
Notas do autor:

O passado encontra o presente

O queixo de Diana quase foi ao chão ao constatar a identidade da cantora. Miss Flower, ou Dona Flor, estava ainda mais linda do que Diana podia se lembrar. Mas, sua voz... Esta melhorara consideravelmente, evidenciando a maturidade musical que era exigida de uma grande cantora. Algo também parecia mais apurado: o carisma de Rosana. A primeira canção entoada pela cantora, um clássico com arranjos ousados conquistou de cara a plateia.


 


All You Need Is Love


Love, love, love


Love, love, love


Love, love, love


 


Tudo o que você precisa é de Amor


Amor, amor, amor


Amor, amor, amor


Amor, amor, amor


 


 


There's nothing you can do that can't be done


Nothing you can sing that can't be sung


Nothing you can say, but you can learn how the play the game


It's easy


 


There's nothing you can make that can't be made


No one you can save that can't be saved


Nothing you can do, but you can learn how to be you in time


It's easy


 


Não há nada que você possa fazer que não possa ser feito


Nada que você possa cantar que não possa ser cantado


Nada que você possa dizer, mas você pode aprender como jogar o jogo


É fácil


 


Nada que você possa fazer que não se possa fazer


Ninguém a quem você possa salvar que não possa ser salvo


Nada que você pode fazer, mas você pode aprender como ser com o tempo


É fácil


 


 


All you need is love


All you need is love


All you need is love, love


Love is all you need


Love, love, love


Love, love, love


Love, love, love


 


All you need is love


All you need is love


All you need is love, love


Love is all you need


 


Tudo o que você precisa é de amor


Tudo o que você precisa é de amor


Tudo o que você precisa é de amor, amor


Amor é tudo o que você precisa


Amor, amor, amor


Amor, amor, amor


Amor, amor, amor


 


Tudo o que você precisa é de amor


Tudo o que você precisa é de amor


Tudo o que você precisa é de amor, amor


Amor é tudo o que você precisa


 


 


There's nothing you can know that isn't known


Nothing you can see that isn't shown


Nowhere you can be that isn't where you're meant to be


It's easy


 


Não há nada que você possa saber que não possa ser conhecido


Nada que você possa ver que não possa ser visto


Nenhum lugar onde você possa estar que não seja onde você quer estar


É fácil


(The Beatles)


 


            Daniela levantou empolgada com a resposta do público, aplaudindo sua revelação. O gesto da colunista contagiou outros da plateia que aos poucos se aproximaram do palco, envolvidos com o ritmo que Rosana impunha a apresentação. Diana preferiu a mesa. Talvez ainda sob efeito da surpresa, não conseguiu interagir à altura da energia daquele show. Ficou ali estagnada, revivendo em sua mente o seu passado com Rosana, sua amizade, seus conselhos, sua companhia. Tais memórias culminaram com a lembrança dolorosa dos eventos que a aproximara da psicóloga: sua história com Natalia.


 


            Outra vez, como se sincronizada com os pensamentos de Diana, Rosana diminuiu o ritmo embalando um hit mais lento, reportando a fotógrafa a um passado imperfeito que insistia em ressurgir no seu “presente quase perfeito”.


 


Who Knew – Quem diria


 


You took my hand, You showed me how


You promised me you'd be around,


Uh huh...That's right


 


I took your words and I believed


In everything, You said to me,


Yeah huh...That's right


 


Você pegou na minha mão, você me mostrou como


Você me prometeu que ficaria por perto,


Aham... Tá certo


 


Eu absorvi suas palavras e eu acreditei


Em tudo, que você me disse,


É, aham... Tá certo


 


 


If someone said three years from now


You'd be long gone


I'd stand up and punch them out


Cause they're all wrong


I know better, Cause you said forever


And ever, Who knew


 


Se alguém dissesse há três anos


que você iria embora


Eu me ergueria e socaria todos eles


porque eles estariam errados


Eu sei melhor que eles, porque você disse "para sempre"


"E sempre", quem diria...


Remember when we were such fools


And so convinced and just too cool,


Oh no...No no


I wish I could touch you again


I wish I could still call you friend


I'd give anything


 


Lembra-se quando nós éramos tão bobos


E tão convencidos e tão legais,


Oh não... Não não


Eu queria poder te tocar de novo


Eu queria poder ainda te chamar de amigo


Eu daria qualquer coisa


 


When someone said count your blessings now,


'fore they're long gone


I guess I just didn't know how,


I was all wrong


They knew better, Still you said forever


And ever, Who knew


 


Yeah yeah


 


Quando alguém disse "seja agradecido agora,


antes que eles estejam muito longe"


Eu acho que eu não sabia,


eu estava totalmente errada


Eles sabiam melhor que eu, ainda sim você disse "para sempre"


"E sempre", quem diria


 


Yeah yeah


 


I'll keep you locked in my head


Until we meet again,


Until we...


Until we meet again


And I won't forget you my friend


What happened?


Eu te manterei trancado em minha mente


Até nós nos encontrarmos novamente


Até nós...


Até nós nos encontrarmos novamente


E eu não te esquecerei, meu amigo


O que aconteceu?


 


If someone said three years from now,


You'd be long gone


I'd stand up and punch them out,


Cause they're all wrong and


Se alguém dissesse há três anos a partir de agora,


você estaria muito longe


Eu me ergueria e socaria todos eles


porque eles estariam errados


 


That last kiss, I'll cherish,


Until we meet again


And time makes, It harder,


I wish I could remember


But I keep, Your memory,


You visit me in my sleep


 


Aquele último beijo, eu vou valorizar


até nós nos encontrarmos novamente


E o tempo torna tudo mais difícil


Eu queria poder me lembrar


Mas eu mantenho sua memória


Você me visita enquanto durmo


 


My darling, Who knew


My darling, My darling


Who knew, My darling


I miss you, My darling


Who knew, Who knew


 


Meu querido, Quem diria


Meu querido, Meu querido


Quem diria, Meu querido


Sinto sua falta, Meu querido


Quem diria, Quem diria


(Pink)


 


            “Que artimanha do acaso”. Foi o que Diana concluiu ao final da incrível estreia da antiga amiga. Estatelada na cadeira, com um olhar distante, a fotógrafa demorou a voltar para presença dos amigos que tentavam lhe despertar da sua regressão.


 


- Diana. Dianaaaaaaaaaaaaa!


 


            Elizabeth berrou ao ouvido da amiga, estralando os dedos.


 


- Ai Liza! Para de berrar! O show já acabou!


 


- Ah, você se deu conta disso? Tivemos a impressão de que você nem estava aqui!


 


- Só estava distraída, não estava fora do meu corpo.


 


            Diana falou razinza. Quando as rodadas de bebida se reiniciaram na mesa, Daniela se aproximou acompanhada do seu novo affaire, a estrela da noite: Miss Flower.


 


            Prontamente, Gerard puxou as cadeiras para ambas se acomodarem. Daniela começou então as apresentações formais entre a cantora e seus amigos, até chegar a Diana, até então, Rosana não detera seu olhar na loira do canto, por estar fora do seu campo de visão.


 


            Quando a cantora encarou Diana, arregalou os olhos e abriu um sorriso largo, balançando a cabeça negativamente indicando a incredulidade daquele reencontro inesperado.


 


- Dona Flor? Sério?


 


            Diana disse fazendo careta de desaprovação, despertando a gargalhada de Rosana.


 


- Em tempos de Lady Gaga, por que não?


 


            As duas sorriram enquanto todos na mesa observavam sem nada compreender, até mesmo porque, as duas conversavam em português.


 


- Ok, alguém pode explicar o que está acontecendo?


 


            Daniela perguntou intrigada.


 


- Daqui a pouco Dani, agora eu vou dar um abraço na minha amiga fujona!


 


            Com cara de interrogação todos assistiram o abraço cheio de intimidade entre Diana e Rosana, Gerard brincou:


 


- Pessoal será que todas as lésbicas brasileiras se conhecem?


 


            Dadas as explicações, Rosana sentou-se ao lado de Diana, emendando a conversa com mais de cinco anos de assunto acumulado, regado às taças e taças de martinis que se multiplicavam vazias pela mesa.


 


- Como assim Miss Flower? Doutora eu esperava mais de você! E as anfíbias? Acabou?


 


- Isso foi sugestão de um produtor daqui, achava que meu nome era muito “aflorado”: Rosana, Campos... Era isso ou Miss Garden, então achei mais divertido o Miss Flower até mesmo pela tradução que você citou. E as anfíbias, sim, acabaram. Há uns três anos, eu entrei em uma espécie de “reality show” musical latino, isso abriu algumas possibilidades para mim. O grupo não resistiu a isso.


 


- Você ganhou um reality show?!


 


- Não, quem me dera! Mas, me deu alguma visibilidade, ganhei uma bolsa para estudar em um conservatório em Los Angeles, e junto com isso, algumas propostas de trabalho, alguns “back in vocal” em discos de algumas estrelas como: a Mariah, Pink, ah! Do John Legend e Leny Kravitz também. Então pedi uma licença do hospital e me joguei nessa aventura, era a última chance que eu daria para a música.


 


- Uau!


 


- É, foi um grande aprendizado. Mas, não era esse meu plano de viver da música, então, aceitei a proposta desse produtor de fazer shows aqui pelo Queens, conheci uma galera legal, montamos essa banda, e estamos a quase um ano nessa estrada.


 


- Nunca imaginaria você numa aventura dessa doutora! Você é louca!


 


- Você simplesmente me envia uma mensagem de texto avisando que estava se mudando para Nova Iorque e some por mais de cinco anos! Que tipo de louca faz isso?


 


- Eu ia lá me despedir de você, explicar tudo, mas, você não estava em São Paulo, o que eu podia fazer?


 


- Pow Diana, tantos meios de comunicação, redes sociais e você some? Juro que pensei de cara em você quando me mudei para cá, mas... Quando conferi sua ascensão na carreira, imaginei que você nem lembraria mais de mim.


 


 


- Acho que eu tive medo de retomar qualquer relação com aquilo que queria me esquecer. Mas o importante é que nos reencontramos!


 


            A rápida mudança de assunto depois do desabafo que Diana deixou escapar mostrou para Rosana que a chaga que as aproximou ainda estava aberta, ou a menos aquela cicatriz ainda incomodava muito.


 


- Conseguiu se esquecer?


 


            Diana desviou o olhar, sorveu mais uma dose da bebida e foi irreverente:


 


- Tinha me esquecido do seu talento e hábito de se intrometer, e agora você não é mais paga pra isso não é?


 


            Entendo o que estava subentendido na saída pela tangente de Diana, Rosana desconversou, depois de quase meia hora se deu conta da tromba que sua acompanhante colocara, especialmente porque aquela altura estava sozinha na mesa com elas, os demais circulavam pelo clube cumprimentando os conhecidos.


 


- Vocês costumam fazer isso? Excluir uma pessoa assim de uma conversa? Precisam mesmo conversar em português?


 


            Daniela não escondeu sua chateação. Notando a tamanha garfe que cometeram, Diana tentou se desculpar, enquanto Rosana se sentava ao lado do seu affaire, arriscando um afago na sua mão.


 


- Desculpe-me minha querida...


 


            Rosana beijou suavemente os lábios de Daniela, arrancando um sorriso da colunista. Diana inexplicavelmente tímida e incomodada com a cena usou da sua irreverência mais uma vez para quebrar o clima entre as amigas:


 


- Pronto Dani, seu draminha já teve o reconhecimento, agora desfaça essa tromba e vamos beber!


 


            Daniela arremessou outra azeitona em Diana, mas dessa vez acertou em cheio a testa da fotógrafa.


- Auuu.


 


            Diana esfregou a testa.


 


- Ok, quem falou em beber?


 


            Aos poucos, um a um da turma deixou o bar, restando apenas Diana e o casal: Daniela e Rosana. No entanto, as tentativas da colunista intensificar as carícias e precipitar a ida delas para seu apartamento foram inúteis, uma vez que Rosana a freou de todas as formas, animada com o reencontro com a amiga. A bebida mostrou seu efeito quando Rosana e Diana se levantaram, uma caiu por cima da outra, despertando as gargalhadas de ambas estateladas no chão, cena que irritou profundamente Daniela.


 


- Patéticas!


 


- Acho que estamos mais pra bebéticas! – Diana disse com a fala enrolada.


 


- Esses anos aqui acabaram com seu humor inteligente Diana! – Rosana se esforçou para dizer.


 


            As duas gargalharam, enquanto Daniela recolheu seu casaco e se afastou em direção a saída do clube.


 


- Ei! Aonde você vai sem nós? – Diana berrou.


 


- Vou para minha casa, coisa que devia ter feito a duas horas atrás!


 


            Daniela respondeu sem parar seu trajeto, de costas para as duas bêbadas ainda no chão. Rosana e Diana se encararam e mais uma vez gargalharam.


 


- É Dona Flor, um de seus maridos acabou de te abandonar, e agora? – Diana brincou.


 


- Agora me restou apenas um o que você vai fazer?


 


            O que parecia óbvio para os outros naquela noite, de repente ficou claro para as duas: a atração escondida foi revelada pela exagerada quantidade de álcool em suas veias, e rendidas a tal ímpeto conduziram seus lábios para uma fusão cálida.


*************


 


            O simples fato de ler aquele nome reportou Natalia à sua maior dor até então. O ex-senador Acrisio Toledo era um dos culpados pelo fim do seu namoro com Diana, pela condenação a um oco no seu coração sem aquele amor.


            O inquérito enviado pela 23ª DP denunciava o ex-senador por praticar em suas terras, no interior de São Paulo as quais abrigava os maiores canaviais do país, trabalho escravo.


            A jovem promotora leu com atenção cada item daquele inquérito, não tendo dúvidas em oferecer denúncia contra o ex-senador. Sua leitura foi interrompida bruscamente por uma senhora gorda, nitidamente mal humorada.


- Quem diabos é você? O que faz aqui?


- Natalia Ferronato. Estou trabalhando, e a senhora quem é?


- Ai meu Deus! Perdoe-me doutora! Não esperava a senhora tão cedo. Mas você não passa de uma menina! Não podia imaginar que era a nova promotora substituta!


- Calma senhora. Imagino que seja minha secretária, estou certa?


- Sim, sim. Joana Silva desculpa o mau jeito doutora. Fui nomeada para ser sua secretária com a aposentadoria do Dr. Taveira.


- Vamos esquecer isso.  Vou precisar muito de sua ajuda Dona Joana.


- O que eu puder fazer...


- Bem, imagino que a senhora organizava os arquivos do seu antigo chefe, e tem que concordar comigo que esse gabinete está precisando de uma boa dose de organização, impossível trabalhar numa bagunça dessas.


- Como disse, não esperava a senhora tão cedo, e fui designada há uma semana para esse cargo, não tive tempo de arrumar o gabinete antes da sua chegada.


- Ok, tudo bem. Suponho que a senhora conheça tudo por aqui, as rotinas e tudo mais...


- Supõe isso porque me acha velha? Está me chamando de velha porque disse que você é só uma menina?


- Não senhora, supus por que acabou de dizer que foi transferida depois da aposentadoria de um colega...


- Isso só deixa claro que meu antigo chefe estava velho, por isso se aposentou, se eu fosse velha, estaria aposentada também não é?


            Atordoada e sem graça pela indignação da senhora por suas deduções, Natalia engoliu suas explicações abrindo e fechando a boca sem conseguir emitir uma palavra.


- O que a senhora quer que eu faça primeiro?


- Ah, preciso de mais informações sobre esse inquérito especificamente.


- Qual é o número dele?


            A senhora colocou os óculos antes pendurados no pescoço por uma corrente prateada e abriu seu bloquinho de anotações. Natalia mostrou-lhe a pasta, e com a mesma expressão mal humorada da chegada, a secretária saiu da sala. Quase uma hora depois, Joana voltou com um calhamaço de papéis, e uma notícia:


- Chegou esse ofício para a senhora, avisando que seu assessor só comparecerá próxima semana, precisaram chamar outro classificado e atrasou a contratação.


- Você já leu o ofício endereçado a mim?


- Não dizia nada sobre ser conteúdo sigiloso, li sim. O Dr. Taveira sempre pedia que eu lesse pra ver se era mesmo importante, se tinha necessidade de incomodá-lo, essa gente adora escrever ofício!


            Natalia não respondeu se sentia despreparada para enfrentar a senhora rabugenta naquele momento. Com uma motivação pessoal mesclada ao seu entusiasmo pelo cargo que assumia Natalia não viu o tempo passar lendo os inquéritos arquivados nos quais Acrisio fora indiciado.            


            Ao final do dia, indignada com o montante de supostas provas colhido pelas investigações da policia que foram ignoradas pelos juízes que não aceitaram as denúncias, não teve dúvidas: ofereceu denúncia mais uma vez ao juiz contra Acrisio Toledo.


            Esse nome de volta à sua vida em um momento no qual ela conquistara um passo importante na sua carreira pareceu para Natalia uma grande armadilha do destino para fazê-la encarar seus fantasmas e suas dores. Aquele inquérito não só se apresentava como um desafio no seu presente foi também a prova que o seu passado estava mais vivo do que nunca em seu interior.


 

2.3. Cum re presente deliberare por contosdamel
Notas do autor:

Deliberar com a coisa presente. De acordo com as circunstâncias. 

As roupas lançadas ao chão, em meio a tropeços que dificultaram a chegada de Rosana e Diana ao quarto, anunciavam a intensidade da atração revelada naquele reencontro de amigas.

 

            Os corpos se buscaram numa avidez insana, como se todo aquele desejo estivesse contido há anos. Diana se deliciou em cada pedaço de pele desnudo de Rosana, enquanto esta sentia seus músculos estremecerem, rendida ao prazer que os lábios de Diana provocavam sob a luz do nascer do sol que entrava pela janela do quarto. A volúpia crescente se manifestou em gemidos e sussurros, que precederam a fusão dos fluidos abundantes que no roçar dos sexos precipitaram o gozo simultâneo nas duas. O prazer derramado entre as pernas de ambas inspiraram mais, impulsionadas pelo tesão evidente nos espasmos e na respiração ofegante, se procuraram ainda famintas, as línguas estavam sedentas e ao mesmo tempo, sorveram aquilo que os pequenos lábios ofereciam, e ali se detiveram com intimidade, e assim exploram com os lábios e com a língua os pontos mais sensíveis, deslizaram por toda extensão dos sexos encharcados, massagearam o clitóris e atingiram mais uma vez o ápice incontestável.

 

            A satisfação dos corpos, a exaustão da noite não dormida, e o álcool ainda corrente no sangue, nocautearam Diana e Rosana.

 

            Ignorando completamente aquele cenário, Rosana abriu os olhos com dificuldade, sentindo os efeitos próprios de uma grande ressaca. Tentou resgatar em sua memória falha algo que lhe indicasse onde estava e como chegara ali, mas nada fazia sentido, especialmente aquela cama que parecia girar sem parar. Remexendo-se para afastar os lençóis ficou ainda mais tonta se deparando com sua nudez e pior, a nudez de sua amiga Diana ao seu lado.

 

            A visão pareceu um start para recobrar as lembranças confusas da noite anterior. A cantora apertou os olhos fazendo careta, levando as mãos à cabeça condenando-se mentalmente:

 

-“Que merda que você fez Rosana!”.

 

            Como se pudesse apagar o que acontecera ainda incerta sobre as consequências daquela noite, Rosana se esquivou das pernas de Diana encaixadas nas suas para se levantar da cama, com o intuito de escapar do flagrante constrangedor que a sobriedade promoveria entre as duas.

 

            Diana não acordou, procurou um travesseiro e mudou de posição ainda mergulhada em um profundo sono. Mantendo o silêncio de uma ladra cometendo seu crime, Rosana recolheu o que achou das suas roupas, caminhou pelo apartamento que agora ela sabia que era de Diana, com seus pensamentos fervilhando culpa, medo, mas, sobretudo uma sensação indescritível de satisfação, por isso, se rendeu à vontade que teve ao contemplar a loirinha dormindo e beijou sua face. Deixou o apartamento sem notar que Diana despertara com seu beijo.

 

********

 

            Acostumando-se à sua nova rotina, Natalia ainda se sentia um tanto perdida nos corredores do prédio do Ministério Público, e principalmente, se irritava com as demoras burocráticas para atividades tão simples. Sua secretária não ajudava em nada no quesito: apressar as coisas. Dona Joana não era só rabugenta. A antiga funcionária era moldada ao arcabouço do serviço público oneroso e ineficiente, amarrada a protocolos e vícios que justificavam em parte a lentidão da justiça e do serviço público como um todo.

 

            A primeira denúncia oferecida pela jovem promotora fez do seu final de semana uma tortura. A lembrança tão bem escondida do rosto de Diana lhe perseguiu de todas as formas. Até mesmo a música antiga da desfeita dupla Sandy e Junior tocou em um desses programas de sucessos de outra época, colocando Natalia de novo no momento em que encontrou aquele CD no apartamento da loirinha. Foi capaz de relembrar cada palavra daquele diálogo, o jeito despachado de Diana justificar a trilha piegas na sua estante e assim, sorriu. Seu sorriso se configurou em traição:

 

-“Não! Não quero pensar nela!”.

 

             Natalia sentenciou e assim mudou a estação de rádio no som do seu carro. Talvez para desviar seus pensamentos de Diana naquele dia, aceitou o convite de Silvana para conhecer uma nova boate no centro da cidade. Sua ex-colega de república depois de muita insistência se tornou sua namorada alguns meses depois da partida de Diana e sua subsequente falta de notícias. Apesar de o namoro ter acabado acerca de dois anos, as duas ainda mantinham contato e alguma amizade, o que alimentava as esperanças de Silvana retomar a relação delas a qualquer momento.

 

- Já estou aqui em baixo, não demorem!

 

            Natalia anunciou no interfone.

 

- Silvana, sua amada doutora poderosa está naquele humor de sempre, não demore!

 

- Como você pode encrencar tanto com uma pessoa doce como a Natalia? Nando larga mão de ser chato sua bicha chata!

 

- Eu sou o chato? A Natalia faz de todas nossas conversas um julgamento, com direito a apelar para o STF quando ela fica sem argumentos numa discussão!

 

- Bicha dramática e exagerada você. Para de enrolar, eu já estou pronta, e você?

 

- Calma, falta ajeitar meu penteado...

 

- Nando!

 

- Que foi?

 

- Você é careca!

 

- Ah, mas vou enrolar um pouquinho, só pra dar motivo pra estressar a chatinha.

 

- Então quem é mesmo o chato da história?

 

            Fernando fez uma careta para amiga e os dois desceram ao encontro de Natalia que aguardava impaciente.

 

- Pedir para vocês não demorarem é o mesmo que dizer: não se apressem pessoal!

 

- Meus cabelos estavam assanhados oras! – Fernando provocou.

 

            Natalia apertou os olhos notando a intenção do rapaz.

 

- Fernando, se você não tivesse nossos convites VIPS, eu te atiraria no Tietê agora mesmo sabia? Garanto que seus cabelos voltariam a crescer depois disso!

 

- Ah eu adoraria processar a doutora promotora! Ficaria milionário!

 

- Fernando meu caro, eu assumi um cargo no serviço público, não ganhei o Big Brother nem muito menos acertei a mega sena!

 

- Com certeza é mais do que ganho como balconista!

 

- Ow, vocês dois, dá pra parar? Se eu não tivesse tanta certeza do que vocês gostam, diria que isso é paixão encubada! – Silvana tentou calar os amigos.

 

- Creeeeeeeeeeeedo cruz! Deus me livre dessa má hora! – Fernando falou com jeito afetado.

 

            Silvana gargalhou. A troca de farpas entre Nando e Natalia continuou até a chegada à boate. O frisson de centenas de pessoas sem convite tentando entrar e das dezenas de câmeras que cobriam o evento animou Fernando e Silvana.

 

- Gente! Quem imaginaria isso? Uma badalação dessas na inauguração da uma boate gay? – Silvana comentou.

 

- É, há um boato que o dono é um ator famosérrimo, mas tudo é especulação. O fato é que o promoter é fechação! Conseguiu fechar com um batalhão de celebridades, por isso esse bafão aí na porta. – Fernando explicou.

 

- E nós estaremos entre os VIPS! Uhul!

 

            A animação de Silvana não contagiou Natalia. Apreensiva a promotora relutou em atravessar aquele corredor cercado de jornalistas das revistas de fofoca.

 

- O que foi Natalia? Vamos logo! – Silvana apressou.

 

- Eu não vou gente.

 

- Você o que?- Fernando berrou.

 

- Não vou, essa imprensa toda, até o pessoal do Pânico ali, não posso correr o risco de aparecer na TV entrando nessa boate.

 

- Era só o que me faltava! Uma sapa no armário...

 

            Fernando falou cruzando os braços revirando os olhos.

 

- Para com isso Nat! Isso é ridículo a essa altura em sua vida! – Silvana argumentou.

 

- Silvana não me julgue por querer proteger meus pais. Eles não sabem sobre minha homossexualidade, quer dizer, eles acharam que foi só uma fase minha, imagina a cabeça deles me vendo pela TV na inauguração de uma boate gay, vão se sentir enganados!

 

- Vou te contar uma novidade que pode te chocar um pouco minha querida: eles não estão aqui por sua causa!

 

            Fernando foi sarcástico, irritando Natalia.

 

- Eu não esperava que você pudesse compreender isso Fernando. Silvana, eu não vou estragar o programa de vocês, vou voltar para casa.

 

- Ei! Não mesmo! A gente vai entrar, faça como um daqueles bandidos famosos que você vai ajudar a prender, e esconda o rosto! Mas você vai entrar sim!

 

            Silvana arrastou Natalia, e para evitar um escândalo, a promotora não refutou, apenas se escondeu das lentes como sugerido pela amiga.

 

- Ali está o Emerson! Vamos!

 

            Emerson era o namorado de Fernando, o casal era a representação típica da máxima: “os opostos de se atraem”. Era administrador de empresas, a nova boate estava no rol dos empreendimentos que sua empresa de consultoria atendia.

 

- Vocês demoraram! Nossa mesa é bem ali.

 

            Acomodaram-se na mesa separada por Emerson. A presença de celebridades, a qualidade da música, as atrações na pista de dança e nos palcos, fascinou todos.

 

- Você não vai beber Nat?

 

- Estou dirigindo Sil, não posso.

 

- Ai aguentar você sóbria não dá! Toma, bebe! O Emerson leva sua lata velha pra casa, ele não bebe.

 

            Fernando serviu Natalia com uma “ice”, que sem retrucar aceitou a oferta, reconhecendo que precisava daquilo para relaxar e se distrair. O efeito não demorou. Logo os quatro amigos estavam na pista de dança, completamente envolvidos com o clima incrível da noite, cercado de gente bonita e cheia de estilo.

 

            O intuito de Natalia para a noite parecia contemplado até o momento de ver ali mesmo na pista alguém que lhe despertou a lembrança que ela queria deixar esquecida. Uma loira magra de cabelos curtos, com calças justas, movimentava a cintura fazendo charme com seu chapéu “panamar”. Natalia não podia dali ver o rosto da loira, mas a imagem surgiu como uma miragem, ou projeção dos seus desejos íntimos, reportando a primeira visão que ela teve de Diana na república.

 

            A partir dali, sua paz chegou ao fim. Tomada pelos sentimentos que aquela visão lhe trouxe, e impulsionada pela esperança de finalmente reencontrar ali seu amor do passado, Natalia caminhou em direção à loira que se afastava em direção ao bar.

 

            Os segundos que antecederam o movimento de Natalia puxando o braço da loira para encarar seu rosto foram de pura expectativa por um presente do destino, mas tal expectativa foi frustrada ao se deparar com o rosto desconhecido.

 

- Oi?

 

            A loirinha virou-se intrigada com o solavanco que sofrera. Natalia precisou de alguns segundos para se refazer da decepção e responder:

 

- Desculpe-me... Pensei que era outra pessoa.

 

            Natalia visivelmente sem graça se afastou quando a loira disse:

 

- Ei! Espera um pouco, você está bem? Parece meio pálida...

 

- Ah, estou, obrigada por perguntar.

 

- Quer beber alguma coisa? Água? Cerveja? Veneno?

 

            Natalia arregalou os olhos o que despertou o riso da loira.

 

- Estou brincando. Mas a oferta sobre a bebida continua de pé, aceita?

 

            O jeito despachado da loira falar só contribuía para aumentar a semelhança com Diana, fato que obviamente se tornou atrativo para Natalia.

 

- Eu acho que vou aceitar água.

 

            Natalia respondeu menos tensa.

 

- Ok, vou te acompanhar.

 

            A água precedeu muitas outras doses de bebida que as duas ingeriram encostadas no balcão do bar. O clima de flerte estava declarado, o bom humor da loirinha despertou o lado amável de Natalia quase sempre mantido oculto pela promotora como instinto de defesa.

 

- Você veio sozinha...? Nossa como é mesmo seu nome?

 

            A loirinha perguntou sem graça.

 

- Natalia.

 

- Desculpe-me, acho que tenho Alzheimer precoce, sou péssima com nomes.

 

- Não se preocupe, porque eu também me esqueci do seu. - Natalia sorriu.

 

- Ocorreu-me que não nos esquecemos... Acho que não nos apresentamos na verdade!

 

            Tocadas pelo álcool as duas gargalharam.

 

- Natalia Ferronato. – Disse estendendo a mão.

 

- Eduarda Lancester.

 

            A loirinha puxou a mão de Natalia para a tradicional troca de beijinhos informal. Como não estava preparada para o gesto, Natalia se atrapalhou provocando o roçar dos lábios das duas. O toque acidental inocente acendeu a atração das duas, que se mantiveram próximas, intensificando o desejo.

 

- Ah! Achei você!

 

            Silvana surpreendeu Natalia. Tímida, a promotora se afastou de Eduarda, e formalmente apresentou as duas.

 

- Vamos voltar para a mesa? O buffet está ótimo!

 

            Silvana convidou visivelmente incomodada pelos olhares trocados entre a ex e a loira estilosa.

 

- Acho uma boa pedida.

 

            Eduarda se antecipou em aceitar o convite.

 

- Sinto muito, mas é só para área VIP querida.

 

            Silvana disse com descaso para Eduarda, exibindo sua pulseira de identificação.

 

- Silvana deixa de ser grossa!

 

            Natalia falou trincando os dentes.

 

- Não se incomode Natalia. Ah minha querida, não preciso dessa pulseira para provar que sou VIP, vamos?

 

            Sem nada entender, as duas seguiram Eduarda que passou pelos seguranças da área VIP tranquilamente. Diante da mesa na qual Emerson e Fernando estavam ela parou cumprimentando o administrador.

 

- Eduarda? Nem sabia que você vinha!

 

            Emerson pôs-se de pé, cumprimentando a loira.

 

- Vocês se conhecem? - Silvana perguntou surpresa.

 

- Eduarda é a dona da boate Silvana.

 

            Boquiaberta Silvana engoliu seco. Enquanto Fernando deixava escapar a indagação:

 

- Mas não falaram que essa boate é daquele ator o...

 

- Especulação de nosso marketing, a Eduarda é a proprietária.

 

- Resolvi dar uma passada para conferir as coisas Emerson, está tudo perfeito, parabéns. Natalia, vamos ao buffet? Escolhi pessoalmente o cardápio, modéstia à parte, disso entendo.

 

            Eduarda cumprimentou a todos, antes de conduzir Natalia até a gigantesca mesa de petiscos e iguarias. O flerte entre as duas não cessou. Desfrutaram de uma afinidade incomum, a semelhança com Diana confundiu Natalia que por vezes enxergou no belo rosto de Eduarda, a face do seu antigo amor.

 

- Natalia? Você está pálida de novo, está se sentindo bem?

 

- Estou um pouco tonta, só isso.

 

- Vem comigo então.

 

            Eduarda levou Natalia por um corredor no mesmo andar da área VIP, e abriu a porta de uma das salas.

 

- Sente-se aqui. Acho que vai te fazer bem um pouco de sossego. – Eduarda ajudou Natalia a se acomodar no sofá espaçoso e macio.

 

- Que lugar é esse?

 

- Uma das salas da administração. Meu escritório.

 

- Bem parecido com meu gabinete. – Natalia ironizou.

 

            Eduarda sorriu, sentando-se ao lado da promotora, servindo-lhe água.

 

- Aquela sua amiga...

 

- Silvana?

 

- Sim. Ela é apaixonada por você não é?

 

- Uau, você é direta heim?

 

- Sempre. Sou muito objetiva sobre o que quero saber, não gosto de jogos, subterfúgios... Sou clara em tudo que pretendo.

 

- Sempre? Em tudo?

 

            O tom de voz de Natalia insinuava o teor das entrelinhas da sua indagação.

 

- Em tudo. – Eduarda falou aproximando seu rosto de Natalia.

 

- O que você pretende comigo agora Eduarda? – Natalia sussurrou.

 

- Pretendo beijar você.

 

- Estou esperando sua objetividade...

 

            A provocação de Natalia teve seu efeito esperado. Eduarda mergulhou seus lábios na boca sedenta da promotora, fazendo explodir uma onda de calor pelo corpo das duas, o que fez aquele beijo se prolongar o suficiente para as mãos seguirem o ritmo da excitação retirando o desnecessário para aquele momento e assim as roupas foram jogadas para qualquer lugar, enquanto Eduarda atirou seu corpo sobre o de Natalia, lambendo cada trecho daquela pele quente e eriçada.

 

            A entrega de Natalia fora intensificada com a projeção de seus desejos que a todo tempo traziam a tona o rosto de Diana na sua sósia. Seu inconsciente a traiu se fazendo no nome pronunciado em meio a gemidos enquanto Eduarda alcançava com os dedos o seu sexo encharcado:

 

- Vai Diana, entra em mim...

 

            Eduarda não ousaria interromper aquele momento por conta desse deslize de Natalia, estava totalmente rendida ao prazer, pouco importava com quem Natalia estava no pensamento, bastava saber que ela mesma estava absorta no desejo pela promotora.

 

 

2.4 Quid inde? por contosdamel
Notas do autor:

E então? Qual a consequência disso? 

Miriam bateu à porta da colega por volta de meio-dia, preocupada com a demora de Natalia em acordar, já que ambas tinham o mesmo hábito de acordar cedo, mesmo aos domingos.


 


-- Natália? Você está aí? Está tudo bem? Natália?


 


            A intensidade das batidas e do tom de voz de Miriam foram crescendo gradativamente até beirar o desespero, quando finalmente a outra despertou abrindo a porta bruscamente.


 


-- O que foi Miriam?


 


-- Ai que susto! O que aconteceu com você?


 


-- Nada Miriam, só estava dormindo.


 


-- Mas já é meio-dia!


 


-- Miriam hoje é domingo! Cheguei tarde da balada.


 


-- Tive a impressão de ter te visto levantar cedinho, por isso me preocupei.


 


-- Aquela foi a hora que cheguei Miriam.


 


            Natalia voltou à sua cama indisposta. Amargando a ressaca, recusou as ofertas da roomate para almoçar, mas, não voltou a dormir, as lembranças da sua noite de amor com Eduarda preencheram seus pensamentos e acenderam seu corpo, e mesmo com a dor de cabeça lhe torturando, abriu um sorriso ao relembrar a loirinha.


            Era a primeira vez que se comportara daquela forma, ou seja, entregar seu corpo ao desejo de maneira descompromissada. Por muitas vezes chegou a condenar quem o fazia, visto que ela, só esteve na cama com alguém que fosse sua namorada, ou ao menos já conhecesse há algum tempo. Mas, com Eduarda foi diferente. Talvez pela semelhança com Diana, Natalia não a enxergava como uma desconhecida, e ela não se comportou com tal, considerando o domínio que ela demonstrou sobre Natalia, sobre seus pontos mais sensíveis, tornando aquela noite memorável.


            Arrependeu-se de não ter pedido o telefone da moça, também pudera... Pelo alarde que Silvana fez ao encontra-las juntas, tudo que Natalia desejou foi evitar uma cena de ciúme descabida da ex, acabou por deixar a boate sem se despedir adequadamente de Eduarda.


            Foi impossível não traçar comparações com Diana, seu pensamento voou ao passado, rememorando as sensações que desfrutara ao lado do seu antigo amor, e concluiu: não é igual, mas, eu também viveria bem com isso. Indagou-se a si mesma sobre a intensidade que experimentara, e assustou-se por considerar pela primeira vez depois de Diana, apaixonar-se de novo.


******


            O som insistente da campainha acordou Diana. Olhou para o celular e conferiu as dezenas de ligações de Dani. Revirou os olhos, escondeu a cabeça no travesseiro, mas não adiantou os sons não a deixaram em paz, levantou-se amaldiçoando até décima geração sua amiga persistente, pegou o interfone e disse mal humorada:


- Fala Dani! Imagino que um desespero desses tenha uma boa justificativa!


- Abra essa porta Diana!


            Incerta sobre os motivos para Dani estar ali, e insegura em ser honesta com a amiga acerca da noite passada com Rosana, Diana relutou em abrir a porta, mas, Dani a venceu pelo cansaço.


- Ok Dani, o que foi? Outro ataque terrorista? Estamos em risco?


- Não estou com humor para piadinhas Diana. Você me deve explicações! Que merda foi aquela que você fez ontem?


            Diana empalideceu. – “Como ela poderia saber o que houve? Só se Rosana lhe contou!”- a fotógrafa pensou.


- Calma Dani, tudo tem uma explicação. Não é tão ruim quanto parece.


- Estou esperando a explicação para eu ter começado minha noite de sexta com uma cantora linda e ter acabado sozinha em casa dormindo enquanto você e o meu encontro se espatifavam bêbadas pelo chão!


            Diana respirou aliviada e deixou escapar:


- Ah! É isso?


- Você acha isso pouco? Diana você estragou minha noite, alugou minha garota descaradamente!


- Não seja dramática Dani.


- Dramática? Ow! Diana!


- Ok, me desculpe. Fiquei empolgada, não via Rosana há anos, sinto muito.


- Espero que isso não se repita.


- Pode deixar. Mas, espere, você vai sair com ela de novo?


- Claro! Ontem não valeu! Chamei-a para me acompanhar na exposição da sua amiga na Galaxy’s essa semana.


- A exposição da Julia já é essa semana?


- Sim, a Liza mandou os convites da Vernissage, não recebeu?


- Ah pensei que fosse de outro artista, nem abri o envelope. Droga!


- O que foi?


- Esqueci-me completamente do almoço com a Julia!


- Apresse-se, quem sabe ela te perdoe com um jantar.


***** 


            Diana chegou ao hotel onde Julia estava hospedada com expressão de culpa, apelando para a generosidade de a artista plástica perdoar seu furo.


- Um pouco tarde para o almoço não acha?


- Julia perdoe-me! Perdi a hora, bebi demais ontem...


- Pra variar não é?


- Ai que injustiça... Há tempos não bebia como bebi ontem.


- Qual o motivo então para o porre?


- Um reencontro inesperado. Lembra-se da Rosana? Uma psicóloga que te falei que era também vocalista de uma banda, tocava naquele bar que te levei uma vez...


- Lembro sim, o que tem ela?


- Então, ela estava ontem no Light Rock, está morando aqui, e montou uma banda, está tocando no Queens.


- Em homenagem a isso você enfiou o pé na jaca ontem pra me dar bolo hoje? Bonito heim...


- Nem me fale em enfiar o pé na jaca... Porque dessa vez eu me superei.


- Ok, você já tem minha atenção, só pelo fato de assumir que exagerou isso me cheira a uma história das boas! Mas, você me conta enquanto comemos algo, estou faminta!


            Preferiram jantar ali mesmo no restaurante do hotel, constrangida, Diana narrou sua aventura com Rosana na noite passada, enquanto ruminava sua culpa por ter sido desleal com Daniela.


- Sabe Diana, quando finalmente eu acho que você atingiu sua maturidade emocional, depois da novela que você protagonizou até sua vinda para cá e suas aventuras vazias nas noitadas dessa cidade, você me dá uma prova de sua inconsequência sentimental.


- Ótimo! Tudo que eu precisava: uma lição de moral.


- O que foi Diana? Acha que não é merecedora disso?


- Tudo bem Julia, sei que vacilei, já estou me martirizando o suficiente. Mas agora o que faço com essa confusão? Como vou agir com Rosana? E se a Daniela descobrir?


- A história entre elas é mesmo séria?


- Não sei dizer, a Dani está empolgada com a Rosana, arquitetou essa estreia dela no Light, mas, você sabe como ela é: se apaixona toda semana.


- E para a Rosana?


- Pior! Isso é que não sei mesmo.


- Espera um pouco... Vocês transaram e não conversaram nada depois? Nem hoje? Ela acordou, se vestiu e foi embora e você deixou?


- Dá um tempo Julia! O que eu falaria? Além da ressaca eu não tinha, ou melhor, não tenho a menor ideia do que dizer a ela, não sei o que significou para ela, talvez tenha sido só uma noite de sexo casual, consequência das dezenas de martinis, margaritas e tudo mais que bebemos ontem.


- Pra você foi só isso?


            Diana emudeceu, sorveu um gole de água enquanto buscava em sua mente a resposta para aquela pergunta capciosa.


- Não sei.


- Não sabe?


- Foi diferente Julia. Não foi só pela bebida, ontem foi como se uma venda caísse dos meus olhos e eu pude enxergar a mulher incrível que a Rosana é.


- Provavelmente você sempre achou, mas, naquela época não havia espaço para outro sentimento ou outra mulher em sua vida que não fosse a Natalia não é?


            Diana se calou mais uma vez. Julia às vezes fazia o papel de sua consciência. Justamente por conhecer tão bem a loirinha, a escultora sabia descrever aquilo que Diana deixava impresso nas entrelinhas.


            Naquela noite não bastasse o caos que se instalara na mente da fotógrafa em meio a culpas e inseguranças acerca dos seus próximos passos no indesejável triângulo amoroso que se envolvera, a conversa com Julia trouxe à tona as lembranças que nunca foram reclusas o suficiente para se manter adormecidas. O pensamento em Natalia assim como foi durante todos os anos daquela separação se comparava a um vírus latente, inativado, que aguarda a vulnerabilidade do corpo para se manifestar novamente. A situação com Rosana abriu a brecha no campo da imunidade emocional da loirinha se deparar mais uma vez com a cicatriz que ainda latejava, como se pronta para rasgar sua alma de novo, expondo o vazio que sentia sem Natalia em sua vida.


*****


           


            Dona Joana bateu à porta do gabinete para comunicar que o assessor de Natalia desejava se apresentar.


- Faça-o entrar, por favor.


- Não é ele, é ela...


            A secretária abriu a porta dando espaço para a nova assessora entrar, Natalia não pode acreditar quando constatou de quem se tratava:


- Cacá?


- Oi Nat.


- Carlinha como assim? O que faz aqui?


- Sou sua nova assessora oras!


- Mas... Você tem capacidade para ser minha colega nesse cargo! Não minha assessora!


- Alguns anos sem notícias minhas Nat te deram essa certeza...


            Carla fez uma expressão triste, enquanto se acomodava para o que seria uma longa conversa quando Joana se retirou do gabinete.


- Sua carinha me preocupou... Explique-me por que esse cargo Cacá?


- Depois que concluí a faculdade, só consegui passar no exame da ordem um ano depois. Na mesma época me casei com o Ricardo, ele estava advogando para a empresa do pai dele que abriu uma filial na Bahia, nos mudamos para lá após o casamento, e aí, me acomodei à condição de esposa, não precisava trabalhar e estava sempre envolvida em acompanha-lo nos eventos, enfim...


- Justo você Cacá?


- Não me julgue Nat... Não fiz isso por submissão. Estava feliz ao lado dele, feliz vendo-o crescer, e eu me julgava também responsável por isso, dando suporte, uma estrutura familiar para ele.


- Entendo... Vocês tem filhos?


- Tentamos, mas, perdi o bebê no início da gravidez, depois disso, entrei em uma depressão horrorosa, isso me afastou do Ricardo, que foi um fraco, não suportou e me traiu com a primeira oferecida que surgiu na vida dele.


- Fraco nada! Ele foi um filho da mãe!


- Enfim... Cansei da humilhação porque com um tempo, ele nem me escondia mais o caso com a funcionária da empresa do pai. Pedi o divórcio, e voltei para casa de meus pais, e desde então venho reconstruindo minha vida, não podia fazer concurso para seu cargo porque não tinha prática jurídica comprovada, nem muito menos estava preparada para passar.


- Poxa Carlinha...


- Nat não precisa se compadecer! Estou bem amiga! Estou trabalhando porque quero! Nem preciso na verdade.


            Carla deixou um sorriso escapar.


- Como assim?


- Você acha que eu ia deixar o Ricardo sair ileso? Contratei um excelente advogado, consegui metade dos bens dele, e ainda recebi uma gorda pensão até o mês passado, fiz um bom pé-de-meia.


- Essa sim é a Carla que conheço!


- Vamos deixar a conversa de lado e vamos trabalhar! Tenho certeza que tenho a aprender muito com você.


- Tudo bem então, temos muito trabalho pela frente.


            Depois do expediente, Natalia deixou o prédio do Ministério Público com Carla, emendada em um papo animado com a amiga tratou de atualizar e ser atualizada sobre as fofocas dos ex-colegas de curso, a conversa foi interrompida pela ligação de um numero estranho no celular da promotora.


- Pois não?


- Doutora Natalia Ferronato?


- Sim é ela. Quem fala?


- Nossa... Pensei que minha voz ainda estivesse na sua memória. Não reconhece mesmo?


            Natalia mudou a expressão imediatamente ao se dar conta de quem se tratava. Ruborizou, abriu um sorriso discreto e respondeu:


- Oi Eduarda.


- Ah! Que alívio. Você não me deu seu telefone, mas dei um jeito de conseguir...


- Você não me pediu, por isso não dei.


- Não deu tempo. Você saiu tão apressada naquela noite...


- Meus amigos... Desculpe-me.


- Desculpo com uma condição.


            Natalia sorriu e disse:


- Diga seus termos.


- Janta comigo?


- Hoje?


- Seria ótimo, mas estou saindo de São Paulo agora, na verdade estou no aeroporto. Poderia ser na sexta, quando eu retornar?


- Claro. – Natalia confirmou decepcionada.


- Então, está combinado, na sexta nos encontramos. Preciso ir, última chamada pro meu embarque.


- Ok, boa viagem.


            Natalia desligou o telefone atônita consigo mesma, pela frustração que sofria por adiar seu reencontro com Eduarda. Não havia razões para tal sentimento, mas sua peculiar sensatez parecia fugir diante da iminência do nascer de uma nova paixão em sua vida.


 

2.5. Ex positis por contosdamel
Notas do autor:

Das coisas estabelecidas, assentado


 

A Galaxy’s era uma galeria bem conceituada entre os críticos e artistas. Por conta disso, Liza conquistara um prestígio considerável no meio, o que lhe concedeu crédito para atrair nas exposições um bom público e cobertura da mídia, tal mérito também podia ser atribuído a Daniela, que sempre ressaltava a qualidade dos eventos realizados ali.


 


            Julia realizava sua segunda exposição nessa galeria. Este trabalho estava sendo aguardado com ansiedade pelos admiradores do seu talento, tão bem reconhecido no exterior.


 


            O vernissage foi muito bem articulado para o sucesso tradicional dos eventos organizados pela galeria por Liza, assim, a Galaxy’s recebeu naquela noite um seleto grupo de convidados: imprensa especializada, críticos de arte, admiradores e compradores de artes plásticas, e obviamente os amigos mais próximos da artista, entre eles sua ex-namorada Diana.


 


- Julia você superou minhas expectativas, seu trabalho está fantástico! A Liza me disse que grande parte já está reservada por compradores, parabéns!


 


- Obrigada Diana, me entristece que no meu país não valorizem tanto minhas esculturas.


 


- Você está conquistando seu espaço, hoje você já é conhecida lá, tenho certeza que logo você terá o sucesso reconhecido lá também.


 


            Julia sorriu e olhando em volta perguntou:


 


- E então, já conversou com a Rosana?


 


- Não, não tive coragem. Ela também não me procurou, sinal que não quer conversar.


 


- Não se viram desde então?


 


- Não, e espero que isso não aconteça tão cedo.


 


- Notícia ruim pra você minha querida, porque elas estão vindo para cá agora.


 


            Diana não teve tempo de se refazer do susto do aviso de Julia, Daniela e Rosana se aproximaram cumprimentando a escultora pela exposição, ao mesmo tempo em que saudaram a fotógrafa ainda pálida.


 


- Olá Diana.


 


            Rosana foi discreta no cumprimento, recebendo resposta à altura.


 


- Como vai Rosana?


 


- Bem e você?


 


- Estou bem também.


 


            Os olhares desencontrados deixaram evidente o desconforto entre as amigas, para a sorte das duas, Daniela nada percebeu.


 


- Vocês duas, façam-me o favor de não excederem no vinho, me poupem de outro episódio lamentável como o da sexta passada.


 


            Rosana e Diana sorriram sem graça, e assim permaneceram pelo resto da noite. A fotógrafa tratou de ficar afastada ao máximo da cantora, mas, a presença de sua tradicional turma de amigos não deixou seu intuito se concretizar. Gerard, o mais sensível do grupo, percebeu a intenção de Diana e foi discreto cochichando enquanto admiravam uma das esculturas:


 


 


- Você pode me falar agora o que está acontecendo entre você e sua amiga brasileira de infância?


 


- Han? - Diana fingiu não entender.


 


- Diana eu te conheço, você é uma das pessoas mais transparentes que conheço. Não precisa ser um gênio para perceber o mal estar entre você e a nova estrela da música segundo os olhos da Dani.


 


- Você está ficando maluco Gerard. Não há nenhum mal estar. Só estou tentando consertar a garfe que cometi na sexta, estraguei o encontro das duas.


 


- Sei...


 


- Gerard não faz essa cara de biba psicanalista!


 


- Só quando você parar de fazer cara de sapa dissimulada!


 


            Os dois seguraram a gargalhada com um olhar cúmplice.


 


- Não tem nada acontecendo, nada com que se preocupar meu amigo. Mas... Preciso de você pra me manter longe delas sem ficar tão óbvia minha fuga.


 


- Tudo bem, por hoje você tem meu apoio, mas, seja o que for que você esteja tentando encobrir, precisará de mais empenho nessa tarefa. A Dani só não notou porque está encantada demais pela Miss Flower, cuidado.


 


            O conselho de Gerard deixou Diana ainda mais apreensiva. Era hora de fazer uma retirada estratégica, decidiu não demorar mais tempo ali, logo após o discurso de Julia, iria embora discretamente. A fim de se refazer da tensão que sofria em meio aos amigos que insistiam em permanecer juntos na mesma roda, Diana se refugiou no banheiro, encarando o espelho como se buscasse uma solução politica e moralmente correta para aquela saia justa.


 


- Acho que não podemos fugir a vida toda uma da outra não é?


 


            Rosana surpreendeu a loirinha, entrando no banheiro. Diana permaneceu diante do espelho, mas, dessa vez encarava Rosana através dele. A apreensão deu espaço a um misto de nervosismo e atração, despertado pelas memórias tão vivas do último encontro das duas. Objetivando escapar do embate daquela confusão sentimental e de desejos, Diana usou sua irreverência para se esquivar:


 


- Consegui por seis anos, acho que consigo despistar você de novo.


 


            Rosana acenou em acordo.


 


- Você é boa mesmo em fugir. – Rosana disse se aproximando.


 


- Você também tem talento pra isso doutora, afinal o fez isso muito bem quando a ressaca moral te abateu não é?


 


            Diana disse desviando o olhar, lavando as mãos.


 


- Acha mesmo que pode me julgar ou me cobrar alguma atitude?


 


            Rosana encostou-se à pia vizinha a fotógrafa, cruzando os braços.


 


 


- Não estou fazendo isso Rosana, só estou tentando dizer que estamos agindo em acordo, um acordo não decretado, mas, implicitamente firmado.


 


- Um acordo sobre esquecer o que aconteceu naquela noite?


 


- Sobre atribuir o que aconteceu ao excesso de margaritas, e não deixar que isso interfira na nossa amizade.


 


            Diana baixou os olhos, mas Rosana não se conformou. Buscou os olhos verdes da loirinha e manteve os seus fixos naquelas esmeraldas e perguntou:


 


- Excesso de margaritas? Tem certeza que isso resume o que aconteceu?


 


- Sim. Foi um equívoco. Tenho certeza que ainda vamos dar risada disso um dia. Mas, por enquanto, vamos nos esquecer, tem mais gente envolvida que não entenderia dessa forma.


 


            Diana fez menção de se afastar, mas, Rosana segurou sua mão, despertando a onda de reações do corpo, próprias de uma situação de estresse para fuga ou luta: mãos suadas e frias, coração disparado e o arrepio da pele tomou conta do corpo das duas.


 


- Rosana... Não faz isso.


 


- Não estou fazendo nada Diana... Só quero deixar tudo esclarecido entre nós.


 


- Não está claro o suficiente? Foi um erro Rosana, a gente não pode deixar que isso mude nossa relação.


 


- Diana, já mudou. Mudou tudo. Nosso corpo tem memórias. Não há como negar. As memórias estão aqui, fervilhando nosso sangue, acendendo nosso desejo, me empurrando pra perto de você...


 


- Rosana... Para com isso...


 


            A fala entrecortada de Diana e a respiração acelerada atestaram a veracidade das afirmações de Rosana.


 


- Não posso Di. Não consigo.


 


- Você acha que está sendo fácil? Mas, não podemos! A Dani nunca me perdoaria, além do mais... Não quero estragar nossa amizade... Não quero que as coisas mudem.


 


- As coisas já mudaram você pode sentir isso?


 


            Rosana conduziu a mão de Diana pelos seus braços, pelo tato a loirinha pode perceber os poros eriçados. Alcançou o rosto ruborizado da loirinha sentindo o calor que emanava dele. Diana não refutou mais, fechou os olhos e deixou seu corpo e as memórias dele ditar os movimentos seguintes.


 


            Como atraídas por um imã invisível deixaram os corpos se colarem. E com as bocas quase fundidas, respiraram o hálito uma da outra, travando inutilmente a última luta entre sensatez e desejo. Diana foi a primeira a entregar os pontos: segurou a nuca de Rosana, enlaçou seus dedos nos cabelos da cantora e a empurrou contra a porta, invadiu a boca de Rosana com sua língua sedenta e sorveu a saliva quente, mordiscou os lábios ardentes da psicóloga, emendando um beijo cálido, dessa vez, absolutamente consciente, tornando-o ainda mais irresistível.


 


            O beijo fez explodir o turbilhão de sensações vividas no apartamento de Diana no ultimo encontro das duas, tornando previsível o que aconteceria se a atração prevalecesse mais uma vez sobre a razão. A previsibilidade do instante freou Diana.


 


- Não Rosana, nós não podemos. Chega.


 


            A loirinha afastou Rosana com dificuldade. A psicóloga segurou as madeixas caídas sobre seu rosto vermelho marcado pela intensidade daquele momento, tentando se refazer.


 


- Eu acho que você tem razão. Não podemos.


 


            Rosana buscava se recompor, recobrando a razão.


 


- Rosana, eu não posso negar que o que aconteceu mexeu muito comigo, você também tem razão quando fala que tudo mudou, mas, eu não posso fazer isso com a Dani...


 


- Diana... Não tenho a menor condição de prosseguir com algum relacionamento com a Dani. Depois do que houve entre mim e você, não consigo pensar em mais nada, estaria sendo desonesta com a Dani, enganando-a. Mas, não quero que ela me julgue uma aproveitadora, que a usou para conseguir uma oportunidade no Light Rock, depois da sexta, nossa banda foi contratada para fazer uma temporada lá, temo que a Dani interprete mal se eu terminar tudo agora.


 


            Diana jogou a cabeça contra a porta, confirmando mentalmente as consequências daquela atração irresistível descoberta.


 


- Eu vou me afastar de vocês. Quem sabe vocês tenham chance de se entender. Não quero se a culpada de minar a relação de vocês duas.


 


- Diana não há relação, só saímos algumas vezes...


 


- A Dani está envolvida... Se for passageiro eu não sei, mas é suficiente para eu não querer ficar no meio disso.


 


- Então é por causa dela?  - Rosana encarou Diana indagando.


 


- Também por ela. Não quero também estragar nossa amizade, eu acabo magoando todo mundo que gosto quando o relacionamento deixa o campo da amizade...


 


- Então... Vamos deixar as coisas assim, como se nada tivesse acontecido.


 


- Sim... E acho que ficaremos mais seis anos sem nos encontrarmos.


 


            Rosana sorriu discretamente disfarçando sua tristeza. O acordo que antes fora firmado pela inexistência da verbalização deste, agora estava decretado. No entanto, isso não resolveu o caos interior instalado em ambas, uma coisa era certa: estava tudo diferente, tão diferente a ponto de não tolerarem a repercussão daquela mudança.


 


***********


 


            A morosidade da justiça incomodava profundamente Natalia e sua assessora. Carla compartilhava da ansiedade da chefe em ter a resposta à denúncia oferecida contra Acrisio Toledo. Mas, enfim, à custa de uma marcação implacável de Carla, que pessoalmente cobrou o parecer do juiz 6ª vara criminal, no final da semana, Natalia obteve mais uma vez a resposta negativa do juiz que não recebeu a denúncia da promotora, ordenando mais uma vez o arquivamento do inquérito.


 


-- Não é possível! Essa decisão rejeitar a denúncia por falta de justa causa para exercício de ação penal é absurdo! Do que mais ele precisava para justificar essa ação?


 


            Carla bradou sua indignação no gabinete de Natalia que ainda decepcionada não escondia que no fundo já esperava por isso.


 


- Esse maldito deve ter comprado a maioria dos juízes do estado, só isso justifica essa resistência toda. O grande problema é que os testemunhos são mesmo fracos. Tudo gira em torno de suspeitas. A polícia ainda não conseguiu entrar nas terras de Acrisio para vasculhar de verdade, por que igualmente não conseguem uma autorização judicial, Acrisio declara que nunca escondeu nada, que sempre autorizou as fiscalizações do Ministério do Trabalho, e que seus empregados tem ordem para permitir que a polícia investigue as denúncias, mas, o inquérito revela que as diligências eram limitadas. Nenhum mandato de busca e apreensão foi expedido!


 


- Tem que haver um jeito Natalia! Uma hora um empregado desses consegue fugir, ou alguma prova consistente cairá na nossa mão.


 


- Até lá, eu vou tratar de importunar todos os juízes de São Paulo, e acho que está na hora de deixar escapar algo pra mídia...


 


- Do que você está falando chefinha?


 


- Não percebeu que ninguém fala dessas investigações contra ele? Você sabia disso antes de trabalhar aqui?


 


- Claro que não! Eu sabia que ele era um escroque, desde aquela história que ele se meteu no seu relacionamento com Diana, eu tive certeza que ele era capaz de tudo...


 


            Carla calou-se ao notar a mudança na expressão de Natalia, como se estivesse remexendo em uma ferida sangrenta.


 


- Desculpa Natalia eu não devia ter falado sobre isso...


 


- Tudo bem Carla, mas vamos nos deter nos fatos de agora, por favor.


 


- Claro. Continue falando sobre isso aí da mídia...


 


- Bom, Acrisio Toledo, apesar de não estar ocupando um cargo público, ainda é uma pessoa pública. Precisamos usar isso contra ele. De repente, isso pode ter algum efeito nessa sucessiva recusa dos juízes.


 


- Nat, mas, você não pode convocar a imprensa para denunciar isso.


 


- Não posso oficialmente... Mas, acho que podemos encontrar um jeito de fazer isso vazar...


 


- Natalia! Justo você tão certinha! Isso não está certo eticamente, ou está?


 


- Ai ai... Moral, ética... Isso me lembra Dorothea! Carla, você não percebe o perigo? Ele ganhou na convenção e vai disputar o cargo de governador de Mato Grosso do Sul de novo, já que não ganhou da última vez. Se esse homem conseguir se eleger, aí sim, nunca mais conseguiremos processá-lo, nem tampouco condená-lo. Ficará impossível pegá-lo.


 


- A campanha eleitoral já começou! Precisamos nos apressar.


 


- Então, por um bem maior, não acha que podemos dar um jeito nisso?


 


- Claro que podemos chefinha, e acho que sei quem pode nos ajudar.


 


 


 


            Natalia conseguiu na antiga amiga, uma aliada importante na missão que abraçara na justiça. Carla tinha conceitos morais parecidos, e isso ajudou muito na parceria das duas no ministério público.


 


            A semana chegara ao fim com a frustrante decisão do juiz da 6ª vara acerca da sua primeira denúncia. Tal notícia até fez a promotora esquecer-se do compromisso marcado no início da semana com Eduarda, assim, não se lembrou de retornar a ligação desta para confirmar o encontro.


 


            Perto do seu prédio, retornando para casa na sexta-feira, para coroar seu dia imperfeito, Natalia se irritou ao perceber seu carro morrer naquele trânsito tumultuado.


 


- Era só o que me faltava!


 


            A promotora murmurou furiosa, encostando seu automóvel. Mesmo sem entender absolutamente nada de mecânica, ela fez o que a maioria faz: abriu o capô para olhar o motor.


 


- Ok, gênio da mecânica, o que você vai fazer além de colocar água no radiador e apertar os cabos da bateria?


 


            Natalia falou sozinha acerca dos dois únicos procedimentos que ela era capaz de realizar no motor do carro. Enquanto procurava no seu celular o número de uma oficina mecânica, passou sua mão pelo rosto enxugando o suor e ouviu uma risada. Irritada perguntou:


 


- Posso saber qual a graça?


 


            A promotora virou-se em direção ao som da risada ao indagar rispidamente, quando se surpreendeu com Eduarda encostada em uma moto com um sorriso arrebatador no rosto.


 


- Eduarda?!


 


            Sem graça pelo tom grosseiro que usara, Natalia ruborizou.


 


- A graça é você que está ainda mais linda com essa carinha suja de graxa.


 


            Mesmo tímida Natalia não pode deixar de sorrir com o elogio. E ali, olhando para Eduarda perto daquela motocicleta, não pode deixar de associá-la mais uma vez às suas memórias de Diana.


 


            Eduarda se aproximou e delicadamente tentou limpar o rosto sujo de Natalia, mas ao invés disso, só espalhou mais a graxa.


 


- Ops... Acho que piorei tudo. – Eduarda comentou.


 


            As duas sorriram, desfazendo de vez o clima estressante imposto pela situação.


 


- O que você faz aqui? – Natalia perguntou.


 


- Bom, minha intenção era te pegar em casa para nosso jantar, mas... Vi uma linda mulher tentando dar uma de mecânica em no meio do trânsito caótico de São Paulo, não resisti e parei pra ver.


 


            Natalia ficou tímida mais uma vez, mas disfarçou.


 


- Ah, você costuma fazer isso? Só para pra ver? Não ajuda?


 


- Você está precisando de ajuda? Nem parecia!


 


            Eduarda brincou.


 


- Ah muito engraçadinha você. Claro que estou precisando!


 


- Deixe-me ver, como posso ajudar.


 


            Eduarda olhou para o motor atentamente, e disse:


 


- É o que pensei mesmo. Já sei o que fazer.


 


- Nossa! Jura que você entende tanto assim?


 


- Entendo.


 


- E então?


 


            Natalia perguntou curiosa. Eduarda sacou o celular do bolso, discou e logo falou:


 


- Ah oi, é do teleguicho?


 


            Natalia revirou os olhos depois de sorrir.


 


- Ah então é assim que você ajuda?


 


- Ué isso não ajuda?


 


- Você disse que já sabia o que era, e que sabia o que fazer. Pensei que você entendesse!


 


- Eu entendo que: não faço a menor ideia do que tem o seu motor velhinho, e sei muito bem o que fazer: chamar um guincho para levar seu carro para uma oficina ué!


 


            Natalia sorriu, não disfarçando o encantamento por Eduarda. Depois de levar a promotora até a oficina seguindo o guincho, Eduarda disse:


 


- Pronto, agora a senhorita pode vir jantar comigo.


 


- Jantar?


 


- Não era esse nosso compromisso pra hoje?


 


            Natalia bateu com a mão na testa.


 


- Com o dia que tive hoje, esqueci-me completamente desculpe-me Eduarda.


 


- Só vou te desculpar se você me prometer que não vai mais passar sua mão suja de graxa no seu rosto de novo! No começo estava fofo, mas agora está mais pra caminhoneira e não sou fã do estilo, sinto muito.


 


            Natalia gargalhou.


 


- Vamos?


 


- Ah você quer levar a caminhoneira suja para jantar em algum posto de gasolina na estrada?


 


- Não. Quero levar uma promotora linda para lavar esse rosto e depois jantar em minha casa.


 


            Com o rosto corado, Natalia disse:


 


- Acho um convite irresistível.


 


            Assim, Natalia mais uma vez se dividiu entre as lembranças de Diana que Eduarda despertava por suas semelhanças com a primeira namorada, montou na garupa da motocicleta, totalmente envolvida pela presença inebriante de Eduarda.


 


            Chegaram ao prédio de luxo na zona sul da cidade. Um espaço tão estiloso quanto à dona, outra semelhança com Diana, no entanto, com mais ostentação. O duplex abrigava moveis modernos, e uma vista maravilhosa das luzes da noite paulistana, numa vista panorâmica pela vidraça da sala.


 


            Natalia refez sua maquiagem rapidamente depois de retirar a graxa do rosto e surgiu na sala, onde Eduarda lhe aguardava com uma taça de vinho.


 


- Eu não sabia que o convite era para jantar aqui em sua casa.


 


- Eu te disse que sou direta, objetiva no que quero. Como cozinhar é um dos meus talentos, vou usar isso pra te conquistar.


 


            Natalia apertou os olhos, observando Eduarda sorver um gole de vinho.


 


- Não sei se consigo acreditar em você. – Natalia respondeu.


 


- Por quê? Não acredita que quero te conquistar?


 


- Não é sobre isso. Não acredito que você saiba cozinhar tão bem.


 


            Eduarda franziu a testa e se aproximou de Natalia.


 


- Quando você provar o jantar que preparei, será tarde demais para fugir de mim, você vai ficar caidinha por mim.


 


            Natalia sorriu e respondeu:


 


- Então ainda tenho alguns minutos antes de ser laçada por sua conquista?


 


- Fuja enquanto pode...


 


            Eduarda roçou os lábios no canto da boca de Natalia atiçando a promotora.


 


- Está com fome? – Eduarda sussurrou.


 


- Ahan... Morrendo de fome.


 


            Natalia insinuou duplo sentido na resposta, mordendo os lábios olhando para a boca de Eduarda.


 


- Vou pedir para servir o jantar então.


 


            Para a insatisfação de Natalia, Eduarda se afastou bruscamente com um sorriso malicioso uma vez que viu na reação da promotora seu desejo. Minutos depois, a loira surgiu na sala:


 


- Vamos? O jantar está na mesa, se incomoda de jantarmos ali no deck?


 


- Claro que não, nem está tão frio hoje.


 


            A vista da noite paulistana trouxe um ar ainda mais romântico a mesa posta com toda delicadeza por Eduarda.


 


- Você tem alergia a alguma comida? Camarão por exemplo?


 


- Não.


 


- Ótimo, preparei para a entrada uma saladinha de camarão ao vinagrete. E salmão defumado com risoto de pera, o que acha?


 


            Natalia olhou impressionada para o visual do prato.


 


- Uau! Estou mesmo perdida não é?


 


- Eu te avisei...


 


            Eduarda provou que não mentira sobre seus dotes culinários, impressionando Natalia.


 


- Foi mesmo você que preparou o jantar?


 


- Claro que sim. Na próxima vez, chamo você para me assistir preparar.


 


            Natalia abriu um sorriso largo.


 


- O que foi? O convite te pareceu tão bom assim?


 


- O que me pareceu muito bom foi o começo da sentença: “na próxima vez”.


 


            Eduarda sorriu quase que timidamente para a satisfação de Natalia que a olhou visivelmente encantada.


 


- Não me olhe assim Natalia, por que aí eu estarei perdida também...


 


            Eduarda se aproximou de Natalia e delicadamente com o fino guardanapo, limpou o canto da boca da promotora, sujo com o chocolate da sobremesa.


 


- Parece que meu rosto sujo está atraindo suas mãos hoje não é? – Natalia brincou.


 


- Não é só seu rosto que atrai minhas mãos Natalia.


 


            Sem mais demoras, Eduarda demonstrou o teor da veracidade de sua afirmação envolvendo Natalia pela cintura com suas duas mãos, sufocando lhe com um beijo urgente, anunciando o que a noite ainda reservava: a nascente paixão óbvia na entrega de seus corpos ansiosos por se darem inteiros mais uma vez.


           

2.6 fervet opus por contosdamel
Notas do autor:

Ferve o trabalho. 

Os planos de Natalia de minar a imagem do candidato ao governo do estado de Mato Grosso do Sul, Acrisio Toledo, parecia alcançar seus primeiros objetivos. Carla conseguiu contatos importantes na imprensa, e depois de pequenas notas em blogs especializados, obteve a atenção do público que precisava para atingir meios de comunicação mais populares.


 


            A resposta de Acrisio foi imediata, ou pelo menos da sua equipe de marketing, que se precipitou em preparar a defesa do candidato, mas, a oposição tratou de continuar a campanha que secretamente Natalia e Carla começaram.


 


            A partir desse fato, as redes sociais, a TV e a imprensa escrita bombardearam o candidato divulgando os crimes dos quais ele era suspeito, a repercussão não poderia ter sido melhor para os planos da jovem promotora, que foi informada acerca dos mandatos de busca e apreensão autorizados pela justiça de maneira inédita contra Acrisio Toledo.


            Paralelamente a essa questão a qual Natalia tinha motivação pessoal para se dedicar, a promotora emendara uma maratona de audiências nas quais seu brilhantismo já era alvo de comentários nos corredores dos tribunais.


 


            Natalia experimentava além dos bons frutos do seu trabalho, a certeza de sentir seu coração se abrir outra vez para uma nova paixão. Seu relacionamento com Eduarda gradualmente se concretizava como algo perene, leve, natural, propiciando a Natalia uma nova expectativa quanto aos seus sentimentos revendo sua capacidade de se apaixonar mais uma vez.


 


            Eduarda em muitos aspectos lembrava Diana. Talvez, esse fosse o único fator que se revelava barreira à entrega de Natalia naquela relação. No entanto, a jovem promotora se deixava levar pelo charme e encanto da empresária, que não cansava de surpreendê-la com demonstrações de afeto inesperadas.


 


            Obviamente o novo relacionamento de Natalia em nada agradou Silvana, que repetidas vezes implicou com Eduarda promovendo mal estar entre a turma de amigos que passou a frequentar assiduamente a Lances.


 


             Em uma das noites na qual Eduarda marcara para encontrar-se com Natalia em sua boate, a promotora foi mais uma vez surpreendida pela loira, que justamente naquele dia resolvera estrear como DJ, dedicando no SMS enviado à Natalia sua atuação:


 


-- “Porque há dois meses você inspira o melhor de mim, essa música é para você”.


 


            Jai Ho (You Are My Destiny) – Aleluia (Você é meu destino)

 


Jai Ho! Jai Ho!


 


I got (I got) shivers (shivers),


When you touch that way,


I'll make you hot,


Get what you got,


I'll make you wanna say (Jai Ho, Jai Ho)


 


Aleluia Aleluia!


 


Fico (fico) arrepiada (arrepiada)


quando você me toca assim,


Vou te esquentar,


e ver o que você sabe


Vou te fazer dizer (Aleluia, Aleluia)


 


I got (I got) fever (fever),


Running like a fire,


For you I will go all the way,


I wanna take you higher (Jai Ho)


Estou (estou) fervendo (fervendo)


Fervendo como fogo


Por você vou até o final


Vou te levar às alturas (Aleluia!)


 


I keep it steady, uh, steady,


That's how I do it. (Jai Ho)


This beat is heavy, so heavy,


You gonna feel it. (Jai Ho)


 


Vou manter desse jeito


É assim que se faz ( Aleluia )


A batida é muito, muito forte


Você vai sentir (Aleluia)


 


You are the reason that I breathe, (Jai Ho)


You are the reason that I still believe, (Jai Ho)


You are my destiny,


Jai Oh! Oh-oh-oh-oh! (Jai Ho)


 


Você é o motivo pelo qual eu respiro (Aleluia)


Você é o motivo pelo qual eu ainda acredito (Aleluia)


Você é Meu Destino


Ale Oh! ohohohoho (Aleluia)


 


No there is nothing that can stop us, (Jai Ho)


Nothing can ever come between us, (Jai Ho)


So come and dance with me,


Jai Ho! (oohh)


Não, nada pode nos parar (Aleluia)


Nada vai nos atrapalhar (Aleluia)


Então venha e dance comigo


Aleluia ( oohh)


 


Catch me, catch me, catch me, c'mon, catch me,


I want you now,


I know you can save me, you can save me,


I need you now.


 


Me pegue, me pegue, me pegue, venha e me pegue


Quero você agora


Sei que você pode me salvar, você pode me salvar


Preciso de você agora


 


I am yours forever, yes, forever,


I will follow,


Anywhere in anyway,


Never gonna let go.


 


Jai Ho! Jai Ho!


 


 


Sou sua para todo o sempre


Vou com você pra qualquer lugar,


de qualquer maneira


Nunca vou te deixar


Aleluia!Aleluia!


 


Escape (escape) away (away),


I'll take you to a place,


This fantasy of you and me,


I'll never lose my chance. (Jai Ho)


 


Yeaahhhh (Jai Ho)


 


Vamos (vamos) fugir (fugir)


Vou te levar para um lugar


É uma fantasia de nós dois


Nunca perderei esta chance (Aleluia)


 


Yeahhh (Aleluia)


 


I can (I can) feel you (feel you),


Rushing through my veins,


There's an ocean in my heart,


I will never be the same. (Jai Ho)


 


Posso (posso) te sentir (te sentir)


correndo pelas minhas veias


Meu coração é um oceano


Nunca mais serei a mesma (Aleluia)


 


 


Just keep it burnin', yeah baby,


Just keep it comin', (Jai Ho)


You're gonna find out baby,


I'm one in a million. (Jai Ho)


Deixe tudo esquentar, é, baby


Deixe rolar (Aleluia)


Você vai descobrir, baby


que sou uma em um milhão. (Aleluia)


(The Pussycat dolls and AR Rahman)


 


 


            Natalia ficou perplexa na mesa cativa da área VIP reservada para elas. Viu-se dividida pelo encantamento que Eduarda lhe despertava por esses gestos e a semelhança com Diana que insistia em se configurar como um fantasma que cercava seu presente lhe fazendo reconhecer que aquele sentimento pela ex-namorada ainda pulsava em seu interior.


 


 


 


            Como que transportada para um universo paralelo, Natalia viu o rosto de Diana na face de Eduarda comandando aquela pick-up, assim como ela se lembrava da loirinha na primeira vez que a viu na festa do trote na Álibi.


 


-- Natalia? Natalia?


 


            Fernando tentava chamar a atenção da amiga completamente ausente naquele momento.


 


-- Natalia? Você está me ouvindo?


 


            O rapaz chacoalhou Natalia conseguindo sua atenção.


 


-- Oi, desculpa Nando. O que você disse?


 


-- Nada... E aí? Nossa nova DJ foi aprovada?


 


-- Claro que sim. Ela é boa não é?


 


-- Mesmo que não fosse não é? Além de ser sua namorada, é a chefe, a dona do lugar!


 


            Nando brincou, mas Natalia não viu graça na piada.


 


-- Ela não está usando isso para tocar, deixa de ser injusto. Ela deixou esse espaço nesse horário justamente para DJs amadores.


 


-- Eu sei, nossa eu só estava brincando Nat, calma...


 


            Natalia abriu um largo sorriso ao notar Eduarda se aproximando.


 


-- Acho que te devo uma dança não é?


 


            Natalia disse envolvendo o pescoço de Eduarda.


 


-- Isso e outras coisas mais se você gostou da música...


 


-- Adorei a música Duda...


 


            Natalia beijou o rosto de Eduarda demoradamente.


 


-- Pelo menos a dança eu posso ter agora?


 


            Natalia acenou em acordo e Eduarda conduziu-a pela mão até a pista de dança. Em clima de puro romance as duas dançaram, trocando carícias discretas e sorrisos, entretanto, a lembrança viva que Natalia trazia consigo da ex-namorada pareceu se personificar em cada olhar e sorriso que Eduarda lhe dava, perturbando-a.


 


-- Nat está tudo bem?


 


-- Estou com sede.


 


            Natalia disfarçou, mas as imagens com o rosto de Diana em sua cabeça não paravam de se multiplicar, trazendo à tona o que ela lutava para esquecer.


 


-- Duda, você se incomoda se formos embora?


 


-- Claro que não minha querida, mas, você está sentindo alguma coisa?


 


-- Estou cansada, é só.


 


-- Vamos então lá pra casa, vou cuidar de você.


 


            Com Eduarda, Natalia experimentava a agradável sensação de ser cuidada, há anos não se permitia isso, desde que enfrentou a traumática situação com Sandro, se obrigou a não depender de mais ninguém para se proteger e tal atitude lhe dava um frágil sentimento de onipotência interior, mas, exteriormente manteve sua imagem de autossuficiente. Naquela noite, o carinho da empresária foi crucial para a paz de Natalia que adormeceu nos braços da loira, entretanto, seu inconsciente a traiu.


            A promotora viu sua ex-namorada diante dela, linda como ela se lembrava, anunciando:


 


-- “Estou voltando para você meu amor”.


 


            Natalia estupefata com a visão observou Diana se afastar e gritou:


 


-- Diana, Diana... Diana!


 


            Foi nesse exato momento que ela despertou daquele sonho. Atordoada demorou alguns segundos para se dar conta de onde estava, encontrando Eduarda ao seu lado, lhe encarando séria.


 


-- Acho que tive um pesadelo.


 


            Eduarda se levantou da cama muda. O silêncio da empresária incomodou Natalia.


 


-- Duda?


 


-- Quem é Diana?


 


            Natalia empalideceu. Os olhos de Eduarda pela primeira vez não transpareciam o encanto que esta manifestava quando lhe olhava.


 


-- Porque você está me perguntando isso?


 


-- Eu te fiz uma pergunta Natalia. Você pode me responder ao invés de me fazer outra pergunta?


 


-- Mas... Duda, eu não entendo essa pergunta...


 


-- Não faça isso Natalia, não tente me enrolar. Você chamou esse nome na primeira vez que ficamos. Já chamou esse nome outras vezes dormindo, eu aguentei calada por que não achava que tivesse o direito de te cobrar nada, mas puxa vida! Estamos namorando, e você chamou de novo esse nome enquanto estava abraçada comigo! Quero saber agora! Quem é Diana?


 


**************


 


            Os planos de Diana de se afastar dos amigos, especialmente de Daniela e Rosana, teve a justificativa perfeita. Durante o resto verão, a loira se ocupou com o seu trabalho, esquecendo-se de vida social, mergulhou em seu projeto mais ambicioso, terminando as fotografias na metade do tempo programado.


 


            No entanto, o acaso lhe sugou para a realidade mais uma vez. Os seus anseios confusos desde que sua relação com Rosana tomou outra conotação estavam devidamente contidos até o momento em que ouviu a voz de Rosana, quando passava em frente ao Light Rock. Não resistiu, entrou no clube que não estava aberto ao público. Rosana ensaiava com sua banda, e ao ver Diana, parada no fundo do salão, sua voz sumiu.


 


-- Rosana? Parou por quê?


 


            O guitarrista indagou surpreso com a parada repentina da cantora.


 


-- Quero repassar esse trecho... Mas, vamos fazer uma pausa.


 


            A cantora desceu do palco e se apressou para alcançar Diana que se retirou dali quando percebeu que não estava incógnita.


 


-- Diana! Espera.


 


            Na saída do clube Rosana alcançou Diana.


 


-- Você ia embora sem falar comigo?


 


-- Só estava de passagem por aqui. Não queria atrapalhar seu ensaio.


 


-- Não está fugindo de mim?


 


-- Rosana...


 


-- Já faz tanto tempo que não nos falamos... Todos estão reclamando sua ausência...


 


-- Todos? Está falando da Daniela?


 


-- Dela e dos seus outros amigos.


 


-- Parece que você mudou de opinião sobre levar á frente sua relação com ela não é?


 


-- Impressão minha ou você está me censurando?


 


-- Não mesmo, quem sou eu para censurar alguém?


 


-- Só para sua informação, não mudei de opinião. Eu e a Dani somos apenas amigas, ela está até saindo com outra pessoa.


 


            Diana não mudou a expressão, fingindo indiferença.


 


-- Bom, eu preciso ir, tenho muito trabalho.


 


-- Diana espera!


 


-- Estou apressada Rosana. Volte para seu ensaio, não que você precise, por que está incrível, parabéns...


 


            Diana continuou seus passos rápidos ignorando o chamado de Rosana. A fotógrafa voltou perturbada com aquele encontro para seu apartamento. As folhas secas espalhadas pelas calçadas, anunciando o início do outono na cidade, não empolgavam o instinto e talento da loirinha que adorava registrar esses momentos nessa época do ano.


 


            A noite caiu, e todo esforço de Diana para desviar os pensamentos de Rosana começou a render boas horas de trabalho. Mal percebeu a madrugada chegar entretida no seu estúdio, até ouvir a campainha tocar.


 


            Deduziu que fosse algum dos seus amigos, para uma visita àquela hora só podia se tratar do Marco bêbado ou a Liza com dor de cotovelo. Quando abriu a porta seu coração saltou à boca, com Rosana parada, deslumbrante em um microvestido.


 


-- Aqui você não tem como fugir de mim.


 


            Rosana não deu tempo para Diana sequer formular uma argumentação. A cantora tomou a boca da loirinha em um beijo faminto, no que foi correspondida com a mesma volúpia.


 


 

2.7 Desideratum por contosdamel
Notas do autor:

O que se deseja

O desejo prevaleceu contra qualquer defesa que Diana pudesse erguer contra à sua entrega. Com seu corpo ardendo pela ânsia de estar inteira se dando a Rosana mais uma vez, a loirinha não demorou em investir no passeio de suas mãos pelas pernas da cantora expostas naquele microvestido. O toque de Diana elevou a excitação de Rosana para um nível avassalador, assim, a cantora empurrou a loirinha contra o balcão da cozinha, erguendo o corpo franzino de Diana sobre o móvel em seguida jogou seu próprio corpo sobre o corpo da fotógrafa deslizando sua língua pelos seios túrgidos de Diana que Rosana se precipitou em deixa-los à mostra e ao alcance de sua boca.


 


            As mãos habilidosas de Diana rapidamente se desfizeram da calcinha de Rosana por baixo do vestido, e toda aquela excitação era evidente também pela umidade que brotava do seu sexo. Os movimentos voluptuosos alternados com beijos, arranhões, carícias e mordidas atiçaram ainda mais as duas que deixaram escapar gemidos ofegantes até a súplica de Rosana:


 


- Te quero tanto Diana, me faz gozar vai...


 


            Como se aquela súplica fosse uma ordem Diana provocou, massageando o clitóris de Rosana até senti-lo edemaciado entre as pontas dos seus dedos. Friccionou aquele lugar inchado e encharcado, se deliciando com a expressão de prazer no rosto de Rosana que despiu Diana totalmente depois de ter seu vestido arrancado pela loirinha.


 


- Roça em mim Rosana... Vem...


 


            Rosana atendeu ao pedido de Diana, e roçou seu sexo encharcado no sexo da fotógrafa. O contato entre as duas foi ganhando ritmo e intensidade, e culminou com o ápice simultâneo, derramado por entre as coxas das duas.


 


            Ainda sentindo espasmos pelo corpo, Rosana se aconchegou nos seios de Diana ofegante.


 


- Está tudo bem Rosana?


 


- Está tudo ótimo, maravilhoso.


 


            Diana sorriu, acariciando os cabelos de Rosana.


 


- Eu sei que a pergunta está fora da ordem dos fatos, mas, o que você veio fazer aqui a essa hora?


 


- Orgasmo delivery, você não pediu?


 


            Diana gargalhou.


 


- Manhatan reserva mesmo serviços imprescindíveis não é? – Rosana disse encarando Diana


 


- Com uma qualidade indiscutível também.


 


            Selaram com um beijo o que estava subentendido, antes de Diana insistir:


 


 


- Você que é a profissional em decifrar sentimentos emoções da alma humana, especialista da “psique” pode me explicar o que está acontecendo conosco?


 


            Diana perguntou afagando o rosto de Rosana.


 


- Nossa! Acha mesmo que psicologia é tudo isso? Pensei que você só me julgasse uma intrometida por profissão.


 


- Isso também! Bem lembrado.


 


- Você vai aguentar essa intrometida na sua vida?


 


- Depende das vantagens que terei... Esse delivery, por exemplo, terei direito?


 


- Esse recurso é ilimitado.


 


            Rosana respondeu com um sorriso malicioso.


 


- Então, acho que dá pra te aturar sim.


 


- Aturar é? Esperava mais de você!


 


            Diana ficou séria e continuou acariciando o rosto de Rosana e disse:


 


- Você é tão importante pra mim, tão especial... Tenho medo de te magoar, estragar tudo entre nós. Mas, o que estou sentindo é tão forte, tão inesperado... Não consigo administrar isso.


 


- Diana, eu não uma menina frágil inocente. Todos nós corremos riscos quando nos envolvemos com alguém. Nós somos adultas o suficiente pra administrar isso não acha?


 


- Não sei Rosana. Nunca fui muito boa em administrar relacionamentos, sentimentos.


 


- Você não namorou ninguém depois da Natalia não é?


 


            Com um gesto Diana confirmou.


 


- Não acha que está na hora de se abrir para outra pessoa Diana?


 


            Diana desviou o olhar a fim de fugir da indagação incômoda de Rosana.


 


- Ei... Olha pra mim. – Rosana segurou o rosto de Diana. – Eu sei que essa ferida ainda está aí aberta em seu peito. Eu não posso te dar garantias que posso curá-la, mas eu quero muito ficar ao seu lado tentando sanar essa dor com todo sentimento que tenho por você. Respeito você e a história que você teve com a Natalia, mas, você já fugiu demais desses fantasmas, é hora de encarar o presente, e eu estou nele.


 


- Isso é uma proposta doutora? Melhor dizendo, Dona Flor?


 


            Rosana sorriu e respondeu:


 


- Depende da resposta...


 


- Se você me garantir que será só um marido, eu topo Dona Flor!


 


 


            Diana se rendeu ao charme de Rosana, e ao desejo mútuo de investirem naquele novo relacionamento que contava com elementos que somente meses de namoro dariam: amizade, cumplicidade e companheirismo.


 


************


 


            Natalia engoliu seco. Precisou usar de seu talento de argumentação para escolher as melhores palavras para não despertar uma crise no seu namoro.


 


- Duda, sente aqui perto de mim, vem cá meu bem.


 


            Eduarda hesitou, mas atendeu ao pedido da namorada. Natalia segurou as mãos da empresária e começou a explicar:


 


- Primeiro, eu não sabia que tinha pronunciado esse nome, nem agora nem outras vezes. Diana foi minha primeira namorada, nos conhecemos na faculdade logo que cheguei do interior, foi muito intenso e muito complicado também.


 


            Procurando a melhor forma de falar da sua ex-namorada, Natalia narrou os fatos que a aproximou e a afastou de Diana.


 


- Uma novela praticamente, ou seria um romance?


 


            Eduarda disse com os olhos baixos desvencilhando suas mãos das mãos da namorada.


 


- Duda tudo isso faz parte do meu passado. Há anos não tenho nenhuma noticia dela, nenhum contato.


 


- Mas ela ainda está na sua vida, acompanhando seus pensamentos, seus desejos, seus sonhos.


 


            A empresária disse ressentida.


 


- Duda não faz assim. Eu não falei o nome dela intencionalmente, talvez as circunstâncias tenham feito eu me lembrar dela, mas isso é tudo.


 


- Circunstâncias?


 


            Natalia ponderou o que revelaria a Eduarda, considerando que toda a verdade sobre sua perseguição contra Acrisio, e as semelhanças dela com Diana complicaria ainda mais aquela situação desconfortável.


 


- É minha querida. Eu me envolvendo de novo com alguém especial que está fazendo eu me apaixonar a cada dia que passa.


 


            A declaração de Natalia pareceu desarmar Eduarda.


 


- Natalia não brinca comigo. Eu demorei muito a me envolver com alguém de novo, eu fui enganada, traída, tudo que não preciso é estar com alguém que ainda cultiva um amor antigo. Eu gosto muito de você, mas te quero inteira nessa relação, se você não puder estar a altura do que quero em um namoro, é melhor que não protelemos esse relacionamento para evitar mágoas maiores.


 


            Natalia não fugiu do olhar intimidador de Eduarda, segurou o rosto da namorada com as duas mãos e disse:


 


- Não brincaria com você Duda. A cada dia que passa eu estou mais envolvida, é impossível não se apaixonar por você, e quero muito estar inteira nesse namoro por que não me importa mais o passado, meu presente é você.


 


            O beijo sincero de Natalia abrandou a insegurança de Eduarda, além de enchê-la de esperanças acerca do seu futuro com a promotora.


 


*********


 


            Surpreendentemente para Diana seu relacionamento com Rosana evoluiu naturalmente para um namoro maduro e muito divertido. Na intimidade que as duas começaram a desfrutar as manias de cada uma se transformaram em mais um ponto de afinidade e humor convergindo para uma rotina nada cansativa, aproximando-as de uma maneira incontestável.


 


            O acaso contribuiu para que Daniela não tomasse conhecimento do novo teor da relação das duas amigas, a colunista viajara para a Europa a trabalho adiando assim tal esclarecimento por parte de Diana e Rosana.


 


            Diana acompanhava praticamente todas as apresentações de Rosana, rendendo-se eufórica ao talento e ao crescimento da carreira da namorada. Como admiradora que era do seu talento, a fotógrafa repaginou o blog de Miss Flower com fotos que beiravam uma obra de arte com uma visão peculiar dos shows da cantora. Graças à opinião da namorada, Rosana investiu nas redes sociais para divulgar suas apresentações e em poucas semanas seus vídeos estavam no ranking dos mais acessados, o que além de aumentar seu público no Light Rock, fez brotar dezenas de convites para outras cidades dos Estados Unidos.


 


-- Conferindo seu sucesso virtual honey?


 


            Diana perguntou envolvendo a cintura de Rosana, repousando seu queixo no ombro da namorada que se concentrava no notebook sobre o balcão da cozinha.


 


- Tenho fãs e seguidoras que não querem só me admirar virtualmente, se liga em dona Diana!


 


- Como é que é? – Diana franziu o cenho aproximando sua visão da máquina.


 


- Olha só o que @madalaineblair deixou aqui na minha página: “ouvir você cantando me deixa arrepiada imagine se ouvir você sussurrando no meu ouvido”


 


- Ah eu vou é deixa-la sem ouvido, vamos ver o que vai arrepiar nela!


 


            Rosana gargalhou.


 


- Não acredito que você está com ciúmes de mim minha loira!


 


- Só estou cuidando da sua carreira, o que essa sapa, ou melhor, essa bruxa de Blair ou Madalena lésbica está querendo heim? Você é uma cantora séria!


 


- Ai que coisa mais fofa! Vou te apertar sabia? Vem cá minha namorada ciumenta!


 


            Rosana envolveu seus braços no pescoço de Diana e lhe roubou um beijo delicado e demorado.


 


- Você me beija assim, só de toalha... Está mal intencionada minha estrela?


 


            Diana perguntou roçando seu nariz pelo pescoço de Rosana.


 


- Não mesmo! Tenho ensaio, preciso ir agora!


 


            Rosana se desvencilhou de Diana que indignada retrucou:


 


- Vai vestida assim?


 


- Claro que não! Vou tirar a tolha.


 


- Han?


 


- Não te disse? Estamos ensaiando um número nu, hoje é a estreia!


 


- Engraçadinha...


 


- Não acha que eu faria sucesso minha querida?


 


            Rosana provocou. Em um movimento rápido Diana puxou a tolha que envolvia a namorada e abraçou com vigor.


 


- Esse sucesso eu já reservei só para mim, eu curti, mas não quero compartilhar.


 


            Diana disse empurrando Rosana nua, contra a parede.


 


- Minha querida, eu estou atrasada, não faz isso comigo...


 


 


            Rosana já sentia suas pernas bambas, sendo tomada pela excitação despertada pelo corpo da namorada junto ao seu. Captando o desejo ardente da cantora, Diana prosseguiu com suas carícias e beijos até a campainha do seu celular interrompê-la, exatamente a campainha selecionada para a chamada do número de sua mãe e só por causa disso, a loirinha cessou aquele momento para atender ao telefone:


 


-- Mãe?


 


-- Oi meu docinho, está tudo bem?


 


-- Está sim, mas, não estou gostando dessa voz da senhora. Está tudo bem?


 


-- Estou um pouco cansada, acho que estou ficando resfriada também. Está tudo bem com a Rosana?


 


-- Sim mãezinha, ela está aqui comigo.


 


-- Só liguei mesmo para ouvir sua voz minha filha, bateu saudades.


 


-- Dona Alice! A senhora não está me escondendo nada não é?


 


-- Claro que não minha filha, vou desligar. Beijo, e eu te amo muito.


 


-- Também te amo mãezinha.


 


            Apreensiva Diana desligou o telefone.


 


-- O que houve baby? – Rosana perguntou se enrolando na toalha novamente.


 


-- Nada... Mas, tive uma sensação ruim falando com a minha mãe.


 


-- Que sensação?


 


-- Que ela não está bem, ela está me escondendo algo.


 


-- Por que você acha isso meu bem?


 


-- Não sei, eu conheço o tom de voz de minha mãe, ela disse que está cansada, resfriada, que ligou por que sentiu saudades, mas sei que há algo mais.


 


-- Você tem motivos para se preocupar?


 


-- Honey, minha mãe é casada com um dos maiores crápulas da face da terra, tenho motivo para me preocupar sempre com ela.


 


-- Mas você me disse que ele nunca a maltratou...


 


-- Rosana ele a trata como um bibelô de porcelana, mas minha mãe não é cega e surda, ela conhece o marido que tem, e muitas vezes finge não ver as coisas para não bater de frente com ele, prefere se submeter. As únicas vezes que ela o enfrentou foi por minha causa.


 


-- Entendo... Vai ver ela só sentiu saudades mesmo minha querida. Há quanto tempo vocês não se veem?


 


-- Ela passou quase dois meses comigo aqui no começo do ano. Acho que virá após as eleições no Brasil, minha mãe adora o outono aqui.


 


-- E você não vai ao Brasil?


 


-- Não tenho nada além da minha mãe para ver no Brasil Rosana.


 


-- E o resto de sua família? E seus amigos?


 


-- E ficar sob a vigilância do meu pai? Ele controlando para que eu me comporte como uma boa moça recatada e heterossexual? Não, dispenso essa visita ao Brasil. Longe do meu pai posso ser eu mesma.


 


-- Não combina com você se submeter assim a ditadura do seu pai que te mandou pra esse exílio.


 


-- Faço isso por minha mãe Rosana. Ela tem problemas cardíacos, não quero coloca-la na linha fogo entre eu e meu pai.


 


            A explicação de Diana convenceu Rosana, todavia, a loirinha permaneceu apreensiva, angustiada com o telefonema da mãe. Tentou acreditar nas suas próprias hipóteses, certamente Alice falara a verdade sobre seu cansaço, considerando a proximidade das eleições e os resultados das pesquisas de intenção de voto, que revelavam mais uma derrota de Acrisio.


 


            No entanto, aquela incômoda sensação a perseguira nas semanas seguintes, por diversas vezes Diana acordou assustada depois de pesadelos acerca da saúde de sua mãe, sendo acalmada por Rosana, que cientificamente tentava explicar a namorada a razão daqueles sonhos ruins.


 


            A sequência de tentativas frustradas de voltar a falar por telefone com a mãe deixou a loirinha nervosa e nem mesmo a namorada conseguiu diminuir sua preocupação e a própria Rosana trouxe para aquele contexto um dado novo que só aumentou a angústia de Diana.


 


-- Meu bem, sua mãe comentou com você sobre as investigações que estão fazendo do seu pai em São Paulo?


 


-- Não minha querida, minha mãe evita falar dessas coisas comigo.


 


-- Nossa, se essas denúncias forem verdadeiras, seu pai tem mesmo que perder essa eleição!


 


-- Seja lá do que ele estiver sendo acusado, ele se safa. A falta de escrúpulos dele e da corja de corruptos que ele tem na mão na polícia, política e no judiciário em todos os escalões darão um jeito de livrá-lo de novo, infelizmente.


 


-- Di, eu acho que agora as coisas são diferentes, e são acusações muito sérias.


 


-- Bom, se essas investigações forem a causa do meu pai perder as eleições, já é uma grande vitória.


 


-- Você acha que seu pai seria capaz de tudo isso: trabalho escravo em suas terras, cárcere privado, formação de quadrilha, assassinato?!


 


-- Honey... Não me faça responder essa pergunta...


 


            Diana fechou o notebook da namorada e beijou sua bochecha na tentativa de encerrar aquele assunto, mas interiormente a loirinha se assustou com o teor daquela notícia e a repercussão na saúde de dona Alice.


 


-- Di, será que essas investigações são o motivo da sua mãe estar tão abatida?


 


-- Certamente meu bem. Esses negócios escusos de meu pai sempre fizeram minha mãe sofrer muito, especialmente por que ele envolve meus irmãos nessa sujeira.


 


            A preocupação de Diana e seus pressentimentos tiveram sua confirmação quando a loirinha recebeu um telefonema de sua tia Alda.


 


-- Diana?


 


-- Tia Alda?! O que houve com minha mãe?


 


            O telefonema da irmã de dona Alice só poderia ter uma motivação muito séria e Diana sentiu seu peito apertar diante do tom angustiado da tia.


 


-- Minha querida eu não liguei antes porque só agora consegui seu número.


 


-- Tia o que aconteceu?


 


-- Sua mãe não está bem minha querida, venha para o Brasil o mais rápido que você puder.


 


            A voz de Alda expressava a gravidade da situação da irmã. Diana não prolongou a conversa. Imediatamente após desligar o telefone jogou uma muda de roupas na mala e pegou o passaporte com as mãos trêmulas e o rosto já banhado em lágrimas, quando Rosana entrou quarto.


 


-- Di o que houve?


 


-- Tenho que pegar o primeiro voo para o Brasil, minha mãe está doente.


 


-- Eu vou com você.


 


-- Não Rosana, você tem seus compromissos profissionais aqui, não é preciso.


 


-- Eu não vou te deixar sozinha nessa! Estamos juntas pra tudo, já disse, vou com você.


 


            Diana encarou o sentimento honesto de companheirismo de Rosana e se rendeu, revelando sua vulnerabilidade naquele momento e se deixou abraçar pela namorada que a acalentou.


 


-- Não vou sair do seu lado minha querida. Tentei se acalmar, vou ligar para o aeroporto e saber os horários dos voos, e farei nossas malas rapidinho, depois aviso aos meninos da banda, eles vão dá um jeito de arranjar uma substituta por uns dias.

2.8 Aequo pulsat pede por contosdamel
Notas do autor:

Bate com pé igual. Expressão de Horácio, referindo-se à morte, que esmaga tanto os habitantes dos palácios como os das choupanas. 

Rosana e Diana desembarcaram no Brasil no dia seguinte ao telefonema de Alda, só conseguindo chegar a Campo Grande no fim do dia, exatamente quando era divulgado o resultado oficial da eleição para o governo do estado, atestando a derrota de Acrisio Toledo mais uma vez.


 


            Em Campo Grande Diana não protelou sua ida ao hospital. Acompanhada de Rosana, a fotógrafa subiu até a unidade de terapia intensiva do hospital onde sua mãe estava internada e lá enfrentou o pior pesadelo de sua vida.


 


 


            As cenas que se seguiram se desenharam diante dos olhos de Diana em câmera lenta, sem som, preditas pela expressão de desespero no rosto do irmão, de seus primos e de sua tia Alda, que olhando a sobrinha com um gesto apenas balançou a cabeça negativamente anunciando o que Diana não poderia supor.


 


            Incrédula, Diana invadiu o quarto privativo da UTI, onde a equipe de enfermagem retirava os conectores e sensores espalhados pelo corpo de dona Alice que já descansava sem vida.


 


            O silêncio de dor que cercava aquela atmosfera foi quebrado por um grito não menos desesperado de Diana, configurado em súplica:


 


-- Não! Mãe não faz isso comigo! Não me deixa sozinha! Mãe fique comigo! Não me deixa mãezinha!


 


            Diana abraçou-se ao corpo da mãe. Inconsolável permaneceu ali por minutos, Rosana não permitiu que ninguém a retirasse de lá, manteve-se ali perto, mas não interrompeu o momento da namorada que acariciava o rosto da mãe nutrindo no seu coração uma dor indescritível.


 


            Alda se aproximou da sobrinha e disse:


 


-- Vamos minha querida, eles precisam leva-la agora.


 


            Rosana envolveu o braço nos ombros da namorada, oferecendo seu apoio, Diana se abrigou naquele abraço sem reservas e seguiu com Rosana a tia até uma antessala naquele mesmo andar.


 


-- Há quantos dias ela estava aqui tia?


 


 


-- Cerca de uma semana, ela sofreu outro ataque cardíaco, e não havia muito a ser feito, o coração de sua mãe já estava muito frágil Diana.


 


-- Uma semana? Isso foi quando falei com ela! Por que ninguém me avisou?


 


            Alda desconversou, nitidamente escondendo algo.


 


-- Tia Alda, a senhora é pior mentirosa que conheço. Vamos, me diga, por que não me avisaram antes?


 


            Diana aumentou o tom de voz, intimidando a sua tia.


 


-- Minha querida não é hora para pensar nisso. Não havia nada que você pudesse fazer por ela. Além do mais, ela estava inconsciente...


 


-- Tia Alda! Eu deveria estar aqui! Ao lado dela! Não importa por quanto tempo, não importa o que eu pudesse fazer, não importa se ela estava consciente ou não! Eu tinha que estar aqui, tinha o direito de me despedir dela!


 


-- Mas seu pai não achava isso!


 


            Alda desabafou indignada. Diana franziu o cenho com os olhos marejados indagou:


 


-- O que ele tem com isso?


 


-- Seu pai não deixou que lhe avisasse. Eu não tinha seu número, nem seus primos, seus irmãos não ousariam desobedecer a seu pai. Eu ainda tentei procurar no celular de sua mãe, mas Acrisio o confiscou.


 


-- Mas por que ele fez isso?


 


            Foi a vez de Rosana perguntar.


 


-- Ele disse que já tinha problemas demais, que você chegando aqui ao Brasil tão perto das eleições poderia anular o resto das chances que ele tinha de chegar ao segundo turno...


 


-- Ele não tinha esse direito! – Diana bradou revoltada.


 


-- Você conhece seu pai, ele controla tudo minha querida. Quando sua mãe piorou ontem, o Danilo me deu seu número escondido para que eu te ligasse infelizmente sua mãe não resistiu.


 


-- Mas que tipo de homem é esse? - Rosana pensou alto.


 


-- É seu sogro minha querida. – Diana respondeu sarcástica.


 


-- Sua mãe vinha muito doente já, essa campanha do seu pai foi muito desgastante. Essas acusações que surgiram e agora envolveram seu irmão também, isso a abalou muito.


 


-- Ou seja: ele é o culpado de tudo!


 


            Diana saiu abruptamente da antessala e encontrou chegando pelo corredor, seu pai.


 


            Acrisio com o rosto coberto por lágrimas abriu os braços para a filha, mas esta, não deu um passo em direção ao pai. Seus olhos cintilavam um ódio que nascera naquele dia com uma violência que assustava a própria Diana. Diante dela sua figura paterna tomou a forma de uma vida de decepções e mágoas que ela acumulara por Acrisio e por fim, estava ali também segundo seu julgamento, o culpado da morte de sua mãe.


 


            A intenção do homem que sofria a dor da perda do amor de sua vida era tão somente acolher a filha que exalava dor semelhante a sua, entretanto, Diana não conseguia enxergar o mínimo de sentimento sincero em Acrisio, enxergava tão somente a condenação que ele ditara: culpado pelas dores de sua vida.


 


            A tentativa de Acrisio em abraçar sua filha foi vigorosamente repudiada pela própria que o empurrou com todo ódio que crescera a cada segundo.


 


-- Diana?! Minha filha...


 


-- Eu não sou mais sua filha!


 


-- Como você pode falar isso em um momento desses?


 


-- Momento que só existe por sua culpa!


 


            Acrisio arregalou os olhos, visivelmente atônito com a acusação da filha.


 


-- Você não tinha esse direito de impedir que eu me despedisse de minha mãe!


 


-- Eu não podia imaginar minha filha...


 


-- Não sou mais sua filha! Hoje fiquei órfã de mãe, de pai acho que sempre fui.


 


-- Não fale bobagens minha filha, precisamos ficar juntos nesse momento...


 


-- Agora você me quer junto? Quando minha mãe ainda estava viva aqui você não permitiu que eu estivesse com ela! Que tipo de monstro é você?


 


-- Eu entendo o que você está sentindo e não vou considerar suas palavras...


 


-- Pois devia considerar! Por que não vou sossegar enquanto não te fizer pagar pelo que você fez a minha mãe! Você a matou com essa sujeira que é sua vida de crimes e politica.


 


            Danilo interveio puxando a irmã para longe do pai.


 


-- Solte-me você também! Covarde! Poderia ter me ligado me avisado! Mas está sempre sendo o capacho dele!


 


            Diana destilava sua revolta contra aqueles que ela culpava por ter ficado ausente nos últimos dias da sua mãe. Com dificuldade, Rosana e Alda conseguiram afastá-la, e como se não suportasse a dimensão dos sentimentos que a invadiu, a loirinha desfaleceu nos braços da namorada.


 


************


 


            Carla abriu a porta do gabinete empolgada naquela manhã, encontrando Natalia com um grande sorriso:


 


- Então, agora temos um motivo para comemorar chefe?


 


- Primeiro round vencido parceira! Tiramos a eleição daquele criminoso!


 


            Natalia abraçou Carla comemorando.


 


- Foi uma vitória e tanto para nós. Quando vamos comemorar?


 


- Vamos comemorar no dia que ele for preso Carlinha. Acrisio continua sendo tão perigoso e astuto quanto antes, agora mais, por que vai atribuir com razão sua derrota nas urnas ao trabalho do Ministério Público, ele vai procurar um jeito de atrapalhar as investigações e driblar as próximas denúncias.


 


- Estou surpresa por ele não mandar investigar a promotora responsável pelas denúncias.


 


- Você acha que ele não mandou? Claro que sim Cacá! Mas agir contra mim agora o deixaria ainda mais visado, mesmo assim, temos que agir com cautela daqui pra frente.


 


- É verdade. Ele é muito poderoso, e sabe quem é você e sua família, desde a época do seu namoro com Diana não é? Até fez aquelas ameaças...


 


- Isso foi o que a Diana disse né Carlinha? Ainda não sei o quanto de verdade tinha nessa história, não sei se foi só um disfarce pra Diana justificar a traição com a psicóloga. Um homem como Acrisio perder o tempo investigando minha família?


 


- Sério que você acha isso? Depois de todos esses podres que temos encontrado nesses inquéritos, você duvida mesmo que ele fosse capaz de fazer isso? Não acha que ele cumpriria as ameaças?


 


- Não sei Carlinha.


 


- Ah chefinha, perdoe-me, mas, a Diana podia ser qualquer coisa, menos mentirosa. Ela conhecia o pai que tem, ela quis te proteger de Acrisio, tenho certeza. Não sei se ela te traiu com a Rosana, mas que ela sofreu chantagem do pai, eu não duvido.


 


- Se ela tinha que me proteger, devia ter me falado na época.


 


- Ah isso é... Mas tinhosa como você era, duvido que você se conformasse com farsas depois de tantas que vocês enfrentaram no começo do namoro. Quem sabe ela não quisesse mesmo arriscar sua segurança e se sacrificou.


 


- Isso não importa mais não é? Diana seguiu a vida dela, e eu a minha. Isso tudo é passado e o que nós temos hoje é muito trabalho!


 


            Carla assentiu com um gesto e se retirou do gabinete, deixando Natalia pensativa. Em sua mente reconstruiu a separação com Diana e pela primeira vez admitiu que foi injusta com a ex-namorada que se tornara refém dos desmandos do pai para proteger ela e sua família.


 


            Enquanto divagava nas formulações de hipóteses associando passado e presente, Carla retornou ao gabinete com novas informações para a chefe.


 


- Acabo de receber a notícia que o delegado da 21ª DP foi transferido, e o novo já assumiu.


 


- Como assim? Isso aconteceu assim de repente?


 


- Certamente o dedo podre de Acrisio nessa transferência não é?


 


- Mas que droga! O homem estava fazendo um ótimo trabalho! Quem assumiu? Sabe algo dele?


 


- Sei quase nada... Só que é tal de Lucas Almeida!


 


- Lucas Almeida? O Lucas? Sério?


 


            As duas gargalharam.


 


- Isso é bom? – Carla perguntou fazendo careta.


 


- Não faço a menor ideia. Desde que assumi meu namoro com Diana naquela época, ele não fala comigo. Nem sabia que ele havia se tornado delegado.


 


- Vamos ter que esperar para saber, mas ele já começou adiando o cumprimento do mandado de busca e apreensão da fazenda Verde Canavial.


 


- Como é que é? Justamente quando pegaríamos todos de surpresa no dia da derrota do Acrisio nas eleições? Ah não! O Lucas está com peninha do crápula?


 


- Deve estar sim penalizado Nat.


 


- Mas isso é um absurdo! Vou ligar agora para a delegacia.


 


 


- Espera Nat. A atitude do Lucas não deve ser por causa das eleições. Acrisio Toledo não perdeu só o governo do estado, perdeu também sua mulher. Ela faleceu ontem à noite.


 


            Natalia sentou-se chocada com a notícia. Seu primeiro pensamento foi Diana, sobre o quanto ela estaria sofrendo naquele momento.


 


- Está pensando na Diana não é? – Carla perguntou.


 


- A Diana é completamente alucinada pela mãe dela. Nem posso imaginar como ela está se sentindo agora.


 


- Ela só chegou ontem ao Brasil.


 


- Como você sabe?


 


- Nos sites de notícias de Mato Grosso do Sul, tem uma nota sobre a morte de Alice Toledo.


 


            Natalia buscou em seu notebook imediatamente a notícia, não encontrou somente vários sites que noticiaram a morte da mulher de Acrisio, como também uma foto do velório da mesma na qual identificou próximo ao caixão, sua ex-namorada: Diana.


 


            Seu coração acelerou, e se não fosse pelo fato de Carla estar ao seu lado, teria afagado a tela da máquina como se quisesse tocar a loirinha.


 


- Essa é a Diana? – Carla apontou para a foto.


 


- Acho que sim.


 


            Natalia disfarçou sua emoção.


 


- Nossa, e esses cabelos enormes? Nem parece aquele molequinho skatista da USP. – Carla comentou.


 


- Ela está com um olhar tão desesperado, deve estar sofrendo horrores... E mesmo assim está tão linda...


 


            Natalia desabafou deixando escapar seu tom apaixonado.


 


- Nat... Acho melhor você conter essa emoção toda...


 


            Percebendo o conteúdo das entrelinhas do conselho da amiga, Natalia desviou o assunto.


 


- Vamos respeitar a trégua que Lucas deu a Acrisio em respeito a Diana e a dona Alice, que era uma mulher fantástica.


 


- De acordo.


 


            Bastou que Carla deixasse a sala para Natalia voltar sua atenção á tela do seu notebook, contemplando a imagem de Diana. Salvou aquela foto e como se pudesse se aproximar dela, foi ampliando o zoom a fim guardar aquela imagem em detalhes. Aquela foto, junto com as notícias recentes e o sonho que a promotora tivera semanas atrás com Diana roubou a paz de Natalia o resto do dia.


 


- Carla você acha que seria inapropriado eu ir a Campo Grande para o sepultamento de dona Alice? Dar uma força à Diana sei lá, ela não se dá bem com a família...


 


- Natalia você está me perguntando por que sabe o quão inapropriado isso é. Por todos os motivos éticos que há por conta do seu cargo nesse momento, por seu passado com Diana e pelo seu presente com a Duda.


 


            Natalia não escondeu a tristeza por reconhecer a razão da amiga.


 


- Além do mais minha amiga, eu não sei se você notou nessa foto que você passou a tarde decorando... Ou se ficou só enfeitiçada pelo pedaço da foto no qual Diana está. Mas, você viu que nas outras duas fotos do site, tem uma bela mulher ao lado da Diana abraçando-a intimamente?


 


            Natalia ergueu a sobrancelha surpresa.


 


- Olha aqui. - Carla apontou para a tela.


 


- Mas essa... É a Rosana!


 


- Tem certeza?


 


- Claro! Ela está mais magra, os cabelos diferentes, mas, é ela!


 


- Bom, acho que você tem mais um motivo para não ir para Campo Grande não é?


 


- E tenho também a resposta para minha dúvida sobre Diana ter me traído ou não com a Rosana.


 


- Mais uma suposição sua. A Rosana pode estar lá como amiga, apoiando Diana.


 


- Não, esse abraço não é de amiga, definitivamente não é.


 


- Especulação ou não, o fato é que ela pode estar aí, você não.


 


            A constatação de Carla despertou a frustação e um sentimento de impotência confuso em Natalia fazendo-a concluir que seu passado não parecia querer deixa-la em paz e que voltava ao seu presente mais uma vez.


 

2.9 Loco dolenti por contosdamel
Notas do autor:

No lugar dolorido.

Os rituais de despedida de Alice Toledo foram torturantes especialmente para Diana que nutria a inconformação e a revolta pela morte da mãe e pela culpa do pai. Não suportou ficar na sua casa em Campo Grande, preferiu se hospedar com Rosana na casa de sua tia Alda.


 


- Minha querida, precisamos voltar para Nova Iorque.


 


- Vou ficar mais alguns dias Rosana.


 


- Meu bem, não vou deixar você sozinha aqui.


 


- Honey eu preciso ficar, minha mãe deixou um testamento, preciso ficar para a abertura, e eu tenho algumas questões para resolver com o senhor Acrisio Toledo.


 


- Agora mesmo é que não volto sem você! Ficamos até a leitura do testamento, depois partimos.


 


- Minha querida, você tem seus compromissos lá, não quero que se prejudique por minha causa.


 


- Eu já disse que vou ficar com você.


 


            E assim, Diana e Rosana permaneceram no Brasil, apressando a leitura do testamento de Alice Toledo.


 


            No maior escritório de advocacia do estado, a família Toledo Campos se reuniu para conhecer a vontade de dona Alice na distribuição de seus bens que não eram só aqueles que seu marido dividiu com ela, uma vez que, Alice vinha de uma família rica que tratou de proteger a herança da filha antes do seu casamento com Acrisio, fazendeiro rico mas sem a menor tradição familiar.


 


            O encontro entre Diana e o pai foi ainda mais tenso do que os momentos que sucederam a morte de Alice. A animosidade só se intensificou depois da abertura do documento no qual Alice dividiu seus bens entre seus filhos e sua irmã, deixando a maior parte para Diana, prevendo que a filha não aceitaria o dinheiro do pai se um dia precisasse.


 


- Agora você pode desprezar meu dinheiro minha filha. Sua mãe te fez uma mulher rica.


 


            Acrisio abordou Diana na saída do prédio.


 


- Faz muito tempo que não uso seu dinheiro sujo. – Diana tentou ignorar o sarcasmo do pai.


 


- Ah, então finalmente sua brincadeirinha de bater foto está rendendo uns trocados? Americano gasta muito dinheiro com bobagens mesmo...


 


- É realmente querer demais de alguém como você entenda algo além de corrupção e exploração. Meu trabalho está sendo reconhecido mundialmente, até pela Casa Branca, isso orgulharia um pai, mas isso você nunca foi mesmo, assim, não faz diferença.


 


- Agora não sou seu pai, agora você me diz isso, mas quando precisou, foi ao colinho do papai corrupto e explorador que você recorreu não é?


 


- Só fiz isso uma única vez, por alguém que eu amava que você deu seu jeito de nos separar, não bastasse isso, me separou da minha mãe até na hora da morte dela!


 


- Ah para de melodrama Diana, desde pequena você tem esse talento pra atuação! O que você faria aqui? Sua mãe estava inconsciente, você aqui não mudaria nada.


 


- Era meu direito! – Diana gritou chamando atenção de quem passava.


 


- Fale baixo! O que você quer? Outro escândalo? Já não basta o que estamos atravessando?


 


- O que EU estou atravessando é uma dor imensurável, eu perdi a minha mãe, o que você está passando é uma derrota nas urnas e os muitos processos dos quais você é culpado, porque você é um criminoso! Está colhendo o que plantou!


 


            Acrisio apertou os olhos e levantou a mão contra Diana que não se moveu, travando uma luta com o pai só pelo olhar.


 


- Você acha que eu não estou sofrendo? Eu acabo de perder a mulher da minha vida! Quem você acha que é para vir tripudiar sobre a minha dor julgando que a sua perda é maior que a dos outros?


 


 


- Por sua causa também perdi a mulher da minha vida esqueceu? Além do mais você é responsável pela doença de minha mãe, responsável pela morte dela. Quantas vezes eu a ouvi te pedindo para não envolver o Danilo e o Douglas no seu jogo sujo de poder, e você a enganou todas às vezes!


 


- Seus irmãos fazem aquilo filhos devem fazer pelos pais! Ficam ao lado da família! Coisa que você não considera. Prefere envergonha-nos com esse comportamento pecaminoso!


 


- Ora quem é você para falar em pecado?!


 


            Alda interveio notando os ânimos se acirrarem.


 


- Vocês dois parem já com isso! Diana, vamos embora!


 


            Antes de deixar o prédio com a tia, Diana declarou:


 


- A hora de você pagar por todo mal que fez as pessoas está chegando senhor Acrisio Toledo, e eu quero testemunhar esse evento.


 


            Acrisio não se intimidou com as palavras da filha, o que despertou a certeza em Diana de que a velha raposa guardava um trunfo que o livraria do montante de acusações às quais ele era alvo.


 


- Você não devia desafiar seu pai assim Diana.


 


            Alda falou ainda nervosa no caminho de volta para casa.


 


 


- Permaneci omissa por muito tempo tia. Suportei os desmandos de meu pai para não entrar em atrito com a mamãe, agora é minha obrigação fazer algo para freá-lo antes que ele destrua mais vidas.


 


- Minha querida, o que você espera com essa vingança?


 


- Não é vingança Tia Alda. É senso de justiça.


 


- Pois eu digo que você devia seguir sua vida, voltar para Nova Iorque, isso faria sua mãe feliz. Ela tinha tanto orgulho de você, continue orgulhando-a. A justiça vai dar um jeito no seu pai sem que você precise fazer nada contra ele. As pessoas estão cansadas de políticos como ele, o Brasil está mudando Diana, a prova é que mesmo com todo dinheiro e poder de Acrisio, ele foi derrotado nas urnas de novo!


 


            Diana refletiu no conselho da tia, e quando encontrou Rosana à sua espera no quarto, concluiu que Alda estava certa, por mais que lhe custasse, aceitou que iniciar uma guerra com seu pai não faria sua mãe feliz.


 


- Pronto minha querida, podemos voltar à Nova Iorque.


 


            Rosana acolheu a namorada no colo, acariciando seus cabelos.


 


- Você está bem?


 


- Vou ficar bem, com você do meu lado, vou ficar sim.


 


- Podemos ir hoje mesmo?


 


 


- Acho que só amanhã meu bem. Os advogados estão ajeitando a papelada toda me dando posse dos bens que a mamãe me deixou, e quero deixar uma procuração pra tia Alda, ela vai entregar para a mesma empresa que administra os bens dela administrar os meus também.


 


- Tudo bem, vou reservar nossas passagens então.


 


- Honey, eu preciso ir à casa de minha mãe antes de partirmos. Quero levar algo dela comigo.


 


- Algo em específico?


 


- Algo que tenha o cheiro dela, adorava o perfume de minha mãe...


 


- Entendo minha querida, você quer que eu vá com você?


 


- Obrigada meu bem, mas quero fazer isso sozinha. Vou aproveitar que meu pai não está em casa essa hora.


 


            No quarto de sua mãe, Diana se perdeu nas lembranças que as roupas, as fotos, os aromas dos perfumes e cremes de sua mãe lhe traziam. Abraçou-se a um dos casacos de dona Alice e chorou sua saudade.


 


            Ao sair da mansão de seus pais, Diana ouviu os berros do pai no escritório, relembrou seus tempos de adolescente, nos quais se esquivava pelas cortinas para ouvir as discussões de Acrisio com seus compassas. Atraída pela curiosidade remontou seu hábito da adolescência quando seu pai gritava com seu irmão mais velho:


 


- Agora toda semana é isso? Mas que diabos! Quantos mandados ainda vão expedir? Você não me disse que aquele delegadozinho filho de uma égua foi transferido? Não colocaram um dos nossos no lugar dele?


 


- Não sei que é o substituto, mas não é dos nossos, pelo menos por enquanto.


 


- Isso mesmo, por enquanto! Por que todo mundo tem seu preço, descubra o dele. E ah! O que descobriram sobre a tal promotora?


 


- Descobrimos algo valioso. Não tínhamos associado esse nome a pessoa pai. Mas Natalia Ferronato é aquela talzinha que namorou a Diana anos atrás, aquela que o senhor mandou levantar a ficha dos pais dela, que são do interior de São Paulo.


 


- Não me diga!


 


- Pois é, assumiu há pouco tempo o cargo, dificilmente vai aceitar nossas ofertas, deve estar querendo visibilidade em um caso grande como esse.


 


- Se não conseguirmos trazê-la pelo nosso lado oferecendo vantagens, conseguimos de outra forma.


 


- Vai usar o que tem contra o pai dela?


 


- Sim claro, e também aquele material que apreendemos com aquele rapaz, aquelas montagens e fotos, com a internet conseguimos fácil desmoralizar essa sapatão. E se não funcionar, providencie algo mais definitivo para calar a boca dela de uma vez por todas.


 


            Diana sentiu o chão se abrir, o ar faltar e por pouco não soltou o que trazia nas mãos, tamanha a surpresa que tivera ao ouvir o nome de Natalia envolvido nas denuncias contra o pai e o que era pior: em perigo mais uma vez por estar na mira de Acrisio.


********


 


            Miriam não se habituava a homossexualidade da roomate, com a continuidade do seu namoro com Eduarda isso começou a incomodar Natalia, uma vez que Miriam sempre reagia mal quando sua namorada lhe visitava. Tal fato limitou a presença de Eduarda ali, mas, naquele dia, a empresária decidiu aceitar o convite de Natalia e dormiu em seu quarto com ela.


 


- Ai Nat não fico à vontade aqui.


 


- É eu notei, você segurou até seu grito quando te fiz gozar né?


 


            Eduarda ruborizou, lançando o travesseiro contra a namorada.


 


- Isso você sabe que não seguro mesmo!


 


- E eu adoro isso...


 


            Natalia jogou seu corpo sobre o da namorada roçando seus lábios no pescoço de Eduarda.


 


- Amor não faz isso... Não resisto...


 


- Quem disse que é pra resistir?


 


- Sua colega vai virar lésbica por osmose...


 


- Ou por que está nos ouvindo e deve imaginar: mulher deve ser muito bom porque o que essas duas tem de orgasmos...


 


            As duas sorriram maliciosamente colando ainda mais os corpos naquele roçar e quando a entrega era iminente, o celular de Eduarda tocou.


 


- Não atende Duda...


 


- Preciso atender Nat.


 


            Natalia se sentou emburrada enquanto Eduarda concluía a ligação rapidamente.


 


- Amor, preciso do seu notebook, tenho que fazer uma transferência agora para conta de meu pai.


 


- Mas agora?


 


- Amor...


 


- Está na escrivaninha, pegue. Vou tomar banho!


 


            Eduarda sorriu com a birra da namorada, e pegou o laptop dela a fim de cumprir sua tarefa imediatamente intencionando encerrar a chateação de Natalia surpreendendo-a no banheiro. No entanto, acidentalmente ao salvar a imagem do comprovante de transferência, Eduarda abriu a última imagem salva nos arquivos, encontrando a foto de Diana.


 


 


            O banho de Natalia foi tempo suficiente para Eduarda estimulada pelo que encontrara, invadisse a privacidade da namorada e vasculhasse o histórico de sites visitados. Para sua decepção, encontrou uma vasta lista de notícias e imagens que envolviam o nome de Diana Toledo.


 


- Terminou sua tarefa urgente?


 


            Natalia surgiu envolvida em uma pequena toalha. Eduarda não respondeu encarando a namorada seriamente. Natalia se aproximou dela provocando-a, mas Eduarda não mudou sua fisionomia, atiçando a curiosidade da outra.


 


- O que foi? Ainda tem coisa melhor a fazer do que puxar essa toalha e fazer amor comigo?


 


            Eduarda virou o notebook exibindo a foto de Diana ampliada.


 


- Você pode me explicar isso?


 


            Natalia não escondeu sua perplexidade, e não conseguiu responder.


 


- É esse o motivo de tanto empenho para prender Acrisio Toledo? Sua vingança pessoal por ele ter te separado da filha dele?


 


- Não Duda, claro que não!


 


- Não? Por que você não me disse então que a Diana que você tanto chama em sonhos é a mesma Diana, a fotógrafa famosa, filha do ex-senador Acrisio?


 


- Pra evitar essa sua desconfiança descabida que você está tendo agora!


 


- Desconfiança descabida? Encontrei essa foto no seu notebook, e um histórico de pesquisa sobre a vida de Diana Toledo, o que foi Natalia, deu saudade do seu amor de faculdade?


 


- Você o que?


 


- Isso mesmo que você ouviu: vi seu histórico de páginas visitadas, e encontrei a vasta pesquisa que você fez sobre a vida de sua ex-namorada.


 


- Você não tinha esse direito de invadir assim minha privacidade.


 


            Natalia furiosa deu as costas à Eduarda.


 


- Acha que vai fugir pela tangente assim? Eu quero uma explicação Natalia, você me deve isso.


 


- Por que você não vasculha mais aí no meu notebook? Quer as minhas senhas? Aproveite e procure no meu celular também, tome!


 


            Natalia jogou o celular na cama e bateu a porta do quarto. Eduarda recolheu suas coisas, vestiu-se e deixou o apartamento da promotora, sem se despedir, a personalidade e a formação da empresária não tolerava discussões do tipo e principalmente aquela atitude que tomara de invadir a privacidade de suas parceiras, sentiu que estava perdendo o controle e a razão naquela circunstância e isso lhe apavorou.


 


            A promotora por sua vez experimentou a culpa e o remorso por ter mentido e escondido fatos importantes da empresária que sempre abusou da honestidade com ela. Martirizou-se por estar convicta que magoara Eduarda, mas como cabeça dura que era hesitou em procura-la, especialmente porque não sabia como justificar sua atitude, nem muito menos como mentir sobre a foto de Diana em seu computador.


********


 


            Diana ficou aturdida com o que escutara. Fugiu da mansão dos pais como se acabasse de descobrir um segredo de segurança nacional. Estava tomada não só pela surpresa da notícia sobre Natalia que recebera, mas, sobretudo, estava tomada por um temor descomunal pela vida de sua ex-namorada.


 


            As memórias que tinha de Natalia invadiram seus pensamentos com a intensidade que Diana não estava preparada. O rosto, a voz da ex-namorada surgiu para a loirinha de uma maneira tão vívida que Diana desejou abraça-la. Imaginar Natalia como alvo das atrocidades do seu pai angustiou Diana o suficiente para fazê-la tomar uma importante decisão, que ela comunicou a Rosana quando retornou à casa da tia.


 


- Di, comprei nossas passagens para depois de amanhã.


 


- Eu não vou Rosana, ficarei mais alguns dias.


 


- Por quê? O que houve? Algum problema com a procuração?


 


- Não... Surgiu outro problema...


 


            Diana desviou o olhar, e isso Rosana sabia o que significava: Diana escondia algo.


 


- Di? Que problema?


 


- Nada demais, umas coisas do meu pai...


 


- Diana Toledo!


 


            Rosana segurou o braço de Diana obrigando-a a encará-la.


 


- A promotora que está à frente das denúncias contra meu pai é Natalia, e agora ela está em perigo, preciso fazer algo para impedir que ele a machuque, a prejudique.


 


- Você vai ficar no Brasil para enfrentar seu pai para proteger a Natalia?


 


            Ouvir o resumo dos fatos da pela boca de Rosana denotou o ciúme da namorada e a dimensão do que aquilo representava para o relacionamento delas para Diana.


 


            Rosana contentou-se com o silêncio de Diana como resposta à sua pergunta. A cantora deixou o quarto, como se precisasse se esquivar do desconforto daquela armadilha do destino em aproximar Diana e Natalia mais uma vez.


 

2.10 Major e longinquo reverentia por contosdamel
Notas do autor:

Maior reverência ao que está distante. Refere-se Tácito à reverência que temos por aqueles que se acham afastados de nós no tempo e no espaço. 

Natalia sofria a ausência de Eduarda, que após a briga no fim de semana não a procurou, ignorando suas ligações. As notícias ruins sobre o fracasso do cumprimento do mandado de busca e apreensão da Fazenda Verdes Canaviais só completaram seu início de semana desagradável.


 


-- Meses esperando por essa ação, e os policiais não encontraram nada?


 


-- Certamente se precaveram Natalia. Esconderam as provas em outro lugar, legalizaram alguns trabalhadores, o que só nos dá mais suspeitas, porque para o porte das plantações só aqueles trabalhadores registrados não dariam conta de uma colheita. Mas, as provas que precisamos, os policiais não encontraram.


 


-- Isso é frustrante sabia?


 


-- É sim chefe, muito! E agora? Qual serão os próximos passos?


 


-- Agora é torcer para que as investigações nos tragam mais algum elemento para esse processo, de preferência alguma prova contundente de assassinato de trabalhadores, isso nunca foi provado, temos uma lista de agricultores desaparecidos há anos que trabalharam naquelas terras segundo a família deles, mas nenhuma prova que estão mortos.


 


-- Sem corpo, sem crime não é?


 


-- Filho da mãe mafioso!


 


-- A hora dele vai chegar Natalia.


 


-- Droga!


 


 


            Natalia lançou o seu celular ao chão irritada depois de tentar falar com Eduarda e ter mais uma vez sua chamada ignorada.


 


-- Opa! Qual a culpa do seu celular nisso?


 


            Natalia andou de um lado pro outro impaciente.


 


-- A culpa dessa raiva toda é mesmo só Acrisio Toledo?


 


-- Não... Briguei com a Duda no sábado.


 


-- O que aconteceu? Por que vocês brigaram?


 


-- Adivinha? Por causa da Diana!


 


-- Gente como assim?


 


-- A Duda encontrou por acaso aquela foto do velório da mãe da Diana no meu notebook, não satisfeita fuçou meu histórico de sites visitados e encontrou minha pesquisa sobre a vida da Diana.


 


-- Opa opa opa! Peraí! Você não deletou aquela foto? Que vacilo heim! E você fez uma pesquisa sobre a Diana na internet?


 


-- Ai fiz Carlinha! O que você queria? Anos sem notícia dela, e agora o destino está fazendo piada comigo, a Diana me aparece em sonho, estou namorando uma garota que é a cópia dela da época da faculdade, e agora ela aqui no Brasil! Isso mexeu comigo!


 


-- Tenso... Mas, a Duda escarafunchou mesmo seu note?


 


-- Pois é, nunca esperei isso dela. Tão fina e educada!


 


-- Nat, o ciúme é irracional, não respeita regras de etiqueta e boa educação. O que você disse a ela?


 


-- Ah eu desviei a questão discuti por ela ter invadido minha privacidade. Depois disso ela saiu lá de casa e não me atendeu mais.


 


-- Por que você não foi atrás dela?


 


-- Simplesmente por que não sei o que dizer Cacá! Como vou justificar isso? A Duda nem engoliu o fato de eu chamar o nome da Diana enquanto durmo como vou explicar isso agora?


 


-- Você está mesmo encrencada heim...


 


-- É eu sei... – Natalia se sentou com uma expressão triste.


 


-- Nat você precisa procura-la pessoalmente.


 


-- E dizer o que?


 


-- A verdade... Dá uma disfarçada nessa sua paixão eterna pela Diana, ninguém merece isso né? Só diz que ficou balançada com a morte da mãe dela e ficou curiosa...


 


 


            Natalia acenou em acordo, e não protelou a resolução dessa situação com a namorada, procurou-a em seu apartamento depois do expediente.


 


-- Posso entrar? – Natalia perguntou timidamente.


 


-- Não te deixei subir pra te deixar plantada na minha porta...


 


            Eduarda respondeu friamente, dando um sinal qualquer para Natalia entrar.


 


-- Você não atendeu minhas ligações, nem respondeu minhas mensagens, resolvi vir pessoalmente. Precisamos conversar Duda.


 


            Eduarda não parecia nenhum pouco receptiva para uma conversa, mas, Natalia insistiu:


 


-- Duda eu sei que você tem todo direito de estar chateada comigo, no seu lugar também estaria, mas não é exatamente o que você está pensando...


 


-- Chateada? Você está simplificando demais as coisas Natalia.


 


-- Duda, quando eu soube da morte da mãe da Diana eu pesquisei sim as notícias e encontrei a foto dela, e realmente isso atiçou minha curiosidade, há anos não tinha notícias dela, e de repente o acaso está trazendo ela de volta pro meu presente, lógico que isso mexeu comigo.


 


-- Mexeu com você, por que você ainda a ama!


 


-- Não Duda, isso não é verdade!


 


-- Natalia, há um tempo quando conversamos sobre sua ex-namorada que você vivia chamando enquanto dormia, eu senti uma intuição sobre essa história, um alerta me dizia: Duda cai fora antes que você se apaixone! Mas eu ignorei esse alarme, me deixei envolver mais ainda, mas agora está tudo muito claro, mesmo que agora seja tarde demais...


 


-- Tarde demais pra que Duda?


 


-- Pra não me apaixonar por você.


 


            Natalia ficou sem palavras. Eduarda levantou-se e concluiu:


 


-- Mas eu não vou ceder a essa paixão Natalia, já aprendi o suficiente com meus erros a me proteger dessas armadilhas do meu coração.


 


-- O que você está querendo me dizer com isso?


 


-- Não estou querendo te dizer, estou te dizendo Natalia: não dá mais. Por mais que eu te queira, não vou continuar esse namoro, por que está muito claro o quanto você ainda ama sua ex-namorada, e eu não quero de você menos do que estou te oferecendo.


 


-- Eduarda não faz isso...


 


-- Natalia eu preciso fazer isso, eu sei que vou me machucar se persistir nesse relacionamento com você.


 


-- Mas Duda...  Eu não quero te machucar, eu quero você! Quero amar você!


 


-- A gente não escolhe quem vai amar Natalia, mas são nossas escolhas que definem o lugar de quem amamos em nossas vidas. O que você me mostrou até agora é que sua escolha para Diana é no seu presente, mesmo que diga que ela está no seu passado, suas atitudes revelam outra coisa. Não quero o segundo lugar na sua vida.


 


-- Mas quem está falando em te colocar em segundo lugar?


 


-- Está além da sua vontade Natalia...


 


-- Eduarda você está sendo irracional!


 


0- Não, agora eu estou usando a razão.


 


            Natalia não se conformou, e ousou se aproximar de Eduarda, apelando para a forte atração que as unia. Depositou um beijo em sua nuca e envolveu sua cintura e sussurrou:


- Eu não vou desistir de você.


            Eduarda sentiu seu corpo estremecer em um esforço sobre-humano resistiu aquele contato de Natalia.


            Frustrada, Natalia deixou o apartamento de Eduarda com um sentimento incômodo de perda e pior, com um remorso ainda mais angustiante por ter magoado alguém como Eduarda.


********


            Rosana disfarçou seu descontentamento com a decisão de Diana com a desculpa de uma enxaqueca insuportável que a deixou completamente indisposta até para o jantar.


- Rô? A tia Alda mandou preparar algo leve para você, coma um pouco.


            Diana acomodou a bandeja ao lado de Rosana na cama.


- Agradeça a ela por mim, mas não me desce nada...


- O que não está te descendo é o fato de eu ficar no Brasil não é?


- Acho que o fato de estar apavorada por medo de te perder...


            Rosana não conteve a voz embargada o que sensibilizou Diana que a abraçou ternamente.


- Você não vai me perder minha querida... Mas, eu não posso deixar que meu pai descarregue a ira dele na Natalia. Você lembra como ela era idealista, forte, ela só estava tentando fazer a coisa certa contra meu pai, e ele vai jogar sujo, até contra a vida dela se for preciso, eu tenho que fazer algo para impedir.


- Como você vai fazer isso?


- Eu ainda não sei.


- Você vai procura-la não é?


            Rosana baixou os olhos, segurando o lençol que a cobria.


- Ainda não sei Rô, farei isso se for preciso, mas somente se for preciso.


            Rosana enxugou as lágrimas ainda de cabeça baixa como se evitasse que Diana as visse.


- Ei honey... Eu só vou ficar mais alguns dias, eu prometo e logo volto pra você. Pra ficar lá te aplaudindo como fã número um que sou sua todas as noites, e depois te levar pra casa e te amar até nos cansarmos e você me acordar com seus exercícios vocais matinais e me fazer comer aquelas gosmas naturais que mais parecem experimento alienígena...


            Diana brincou arrancando um sorriso discreto da namorada.


- Só não te peço pra ficar porque sei o quanto sua agenda está atolada e o quanto você precisa cumpri-la.


- Os meninos estão enlouquecendo com a cantora substituta...


- Eu imagino meu bem, porque você é insubstituível, na minha vida inclusive.


            Rosana encarou Diana com os olhos marejados e tímida desabafou:


- Eu sei que não combina comigo esse comportamento inseguro e adolescente, sei que quando começamos nosso namoro eu estava a par do seu passado com Natalia, conhecia os riscos dessa sua situação mal resolvida com ela, mas no fundo, eu não esperava um reencontro de vocês assim tão rápido, e agora estou apavorada.


- Rô, eu tenho um passado com Natalia, você disse bem. É você que está no meu presente. Não há situação mal resolvida com ela, o tempo se encarregou de resolver isso. Não precisa ficar apavorada, se existir um reencontro com Natalia, não vai mudar nada entre nós.


            Diana beijou Rosana delicadamente, mas, exprimindo toda paixão que sentia por ela, a fim de lhe transmitir toda segurança acerca de suas palavras. Entretanto, Rosana voltou para Nova Iorque apreensiva, temerosa pela intensidade do passado de Diana e Natalia confrontar o presente decretando o fim de sua relação com Diana.


******


            O término do namoro com Eduarda desviou os pensamentos de Natalia de Diana e pela primeira vez em sua vida, a promotora teve que usar de todos os métodos que ela sequer conhecia, para reconquistar Eduarda.


            Como há muito tempo não demonstrava sua veia romântica, Natalia não foi das mais originais nessa tarefa, o que despertava muitas risadas de Carla.


- Eu pensei que lésbicas entendessem mais de mulher...


- Ah Carlinha, qualquer mulher gosta de rosas e chocolates!


- Essa frase é horrorosa sabia?


- Por quê?


- Por que você não está tentando reconquistar qualquer mulher, você está tem que trata-la como única, especial, a mulher que você quer não é qualquer mulher!


- Carlinha você tem certeza da sua sexualidade? Você seria um arraso no mundo lésbico!


- Ah não... Deixe-me com os organismos mais simples da espécie tá? Previsíveis, fáceis de agradar, é uma complicação a menos na minha vida.


            Natalia gargalhou e refletindo o que a amiga disse, concluiu:


- Acho que preciso ser mais incisiva no que quero com Eduarda não é? Ela sempre repetiu que é uma mulher objetiva, que é clara sobre seus desejos, vou falar a língua dela então.


- Você está captando o espírito da coisa chefe.


- Não acredito que vou pedir a ajuda do Fernando! Mas não tem outro jeito. Vou precisar daquela bicha por causa do namorado dele.


*******


            Após a partida de Rosana, Diana se concentrou na sua tarefa de proteger Natalia das armações perigosas do pai, e por mais que pensasse não conseguia achar uma solução que a livrasse do alvo de Acrisio, sem se envolver diretamente com as denúncias e para tanto, fez uma detalhada pesquisa de tudo que fora publicado acerca das acusações que o pai sofrera a fim de se familiarizar com o que enfrentaria.


 


            Não restando alternativa para alertar a promotora sobre os riscos os quais ela estava exposta, Diana decidiu viajar para São Paulo, precisava conhecer a Verdes Canaviais, apurar por ela mesma o conteúdo daquelas denúncias, quem sabe assim poderia barganhar com o pai, ou ainda no jogo que ele conhecia muito bem: o da chantagem, ela pudesse dissuadi-lo da ideia de ferir Natalia ou alguém de sua família.


 


            O fato de Diana chegar de surpresa à fazenda do pai foi seu melhor aliado para vasculhar como queria o lugar. Tendo ciência que a própria polícia nada encontrara no mandado de busca e apreensão cumprido dias atrás, Diana percorreu as plantações, o alojamento dos empregados, com os olhos e ouvidos atentos às movimentações dos administradores que pareciam treinados para esconder irregularidades e vestígios de crime.


 


- A moça vai ficar na casa grande?


 


            Um dos funcionários perguntou.


 


- Devo passar a noite aqui, por quê? Algum problema?


 


- Não senhora! A senhora é a patroa! O senhor seu pai que mandou perguntar.


 


- Ah, você já foi avisar pro seu patrão sobre minha presença aqui?


 


- A moça não leve a mal, mas nós aqui só cumpre ordem a senhora entende né?


 


- Claro que entendo...


 


 


            Diana continuou seu passeio ciente que todos os seus passos eram monitorados pelos empregados, que agiam como feitores naquelas terras. O que a loirinha testemunhou nas horas seguintes deu-lhe a certeza sobre a culpa de seu pai nos crimes dos quais fora acusado, e principalmente, dava para Natalia uma boa prova para condenar Acrisio à prisão.


 


            Observando uma movimentação atípica de ônibus e caminhões chegando a um dos galpões da fazenda, Diana escondeu-se atrás de uma das caminhonetes estacionadas, sacou seu celular e começou a fazer fotos do que ela julgou ser uma atitude suspeita.


 


            Trabalhadores desembarcavam dos ônibus entregando aos capangas da fazenda seus documentos após assinarem papéis, ao que parecia, contratos e notas promissórias. Aquele calhamaço de papéis fora guardando em um fichário de arquivos no próprio escritório do galpão o qual Diana fez questão de esperar ficar vazio para surrupiar um dos documentos assinados.


 


            Pelo conhecimento legal que tinha, Diana identificou facilmente a série de  cláusulas abusivas, e pior, o quanto eximia o empregador, no caso seu pai de crimes mais graves.


 


            Retornando a casa grande da fazenda, apressada para partir, Diana foi surpreendida por Acrisio entrando no quarto onde ela estava acomodada.


 


- Veio conhecer de perto os negócios da família minha filha?

2.11 Conventio est lex por contosdamel
Notas do autor:

Ajuste é lei, o que foi tratado deve ser cumprido

 

 

Natalia chegou à loja que Fernando trabalhava em um shopping no centro da cidade e foi recebida pelo rapaz com a ironia de sempre:

 

 

 

- Vida de funcionário público é mesmo vida de marajá! Essa hora passeando pelo shopping enquanto o proletariado está na labuta!

 

 

 

- Ai você está ficando velha hein bicha? Não ouvia esse palavra marajá desde o Collor de Melo!

 

 

 

- Se veio me ofender é melhor dar meia volta sua sapa chata!

 

            Fernando cochichou trincando os dentes.

 

- É melhor você me tratar direitinho, se não eu vou procurar aquela vendedora bonitinha para fazer minhas compras hoje.

 

- Ai não faz isso comigo Natinha! Eu preciso extrapolar minhas cotas de vendas! O cargo de subgerente está aberto, e eu preciso dessa promoção!

 

- Então trate de me atender como uma princesa! Preciso de um vestido maravilhoso, absolutamente irresistível, e preciso também de sua ajuda para meus planos de hoje à noite.

 

- Tá no período fértil né sapa? E está querendo minha sementinha pra eu te engravidar né? Olha não topo não! E nem se esforce, por que nenhum vestido escândalo dessa loja vai me fazer transar com você.

 

- Para de falar bobagem Fernando! Nem se eu estivesse desesperada eu teria um filho com você! Preciso de você para me ajudar em um plano pra eu fazer as pazes com a Duda.

 

- O que você fez com a poderosa? Você não chifrou a gata da Eduarda não né?

 

- Claro que não! Ela está chateada comigo, terminou tudo, mas não interessa o motivo. Vai ou não me ajudar?

 

- Tá... Só vou fazer isso por que quero assegurar que você não volte a namorar a Silvana!

 

- Vou precisar do auxilio do Emerson também...

 

            Natalia falou mais baixo, quase tímida.

 

- Olha lá Natalia, a Eduarda é chefe do meu thuthuco, não vai metê-lo em confusão!

 

- Pode deixar thuthuquinho!

 

            Natalia satirizou Fernando.

 

- Então vamos primeiro ao milagre: deixar você irresistível!

 

- Você é um péssimo vendedor sabia?

 

- Ah para de ser dramática sapa! Não sabe reconhecer uma biba com inveja dos seus peitos?

 

            Natalia não resistiu e gargalhou. Seus planos para reconquistar Eduarda corriam dentro do esperado. Emerson se prontificou a ajudar nos detalhes que Natalia pediu, e quando a noite chegou a promotora, vestida para “matar” com a devida produção e assessoria de Nando chegou a Lances para executar sua reconquista.

 

            Na cabine separada para os DJs amadores, Natalia esperou Eduarda aparecer para lhe enviar com o auxilio do DJ da noite o remix da música que continha exatamente o que ela sentia naquele momento, mas dessa vez não foi discreta como Eduarda fora nessa situação, nos telões da boate estava estampado em letras gigantes:

 

- “Escute porque essa música é para você”.

 

            Emerson se aproximou da chefe e apontou para quem comandava a pick-up naquele instante deixando Eduarda estupefata.

 

 


I Miss You - Eu Sinto Sua Falta
 

I thought that things like this

 

Get better with time

 

But I still need you

 

Why is that?

 

You're the only image in my mind

 

So I still see you, around

 

 

 

Pensei que coisas assim

 

Melhorassem com o tempo

 

Mas eu ainda preciso de você

 

Por que isso?

 

 

 

Você é a única imagem na minha mente

 

Então eu ainda vejo você, por todos os lados

 

 

 

I miss you

 

Like everyday

 

Wanna be with you

 

But you're away

 

I said I miss you

 

Missing you insane

 

But if I got with you,

 

Could it feel the same?

 

 

 

Eu sinto a sua falta

 

Todos os dias

 

Quero estar com você

 

Mas você está longe

 

Eu disse! Eu sinto a sua falta

 

Sinto sua falta insanamente

 

Mas se eu estivesse com você

 

Poderia sentir o mesmo?

 

 

 

Words don't ever seem to come up right

 

But I still mean them

 

Why is that?

 

It hurts my pride

 

to tell you how I feel

 

But I still need to

 

Why is that?

 

Palavras nunca parecem vir direito

 

Mas eu ainda as digo

 

Por que isso?

 

Fere meu orgulho

 

te dizer como me sinto

 

Mas eu ainda preciso

 

Por que isso?

 

 

 

I miss you

 

Like everyday

 

Wanna be with you

 

But you're away

 

I said I miss you

 

Missing you insane

 

But if I got with you

 

Could it feel the same?

 

 

 

Eu sinto a sua falta

 

Todos os dias

 

Quero estar com você

 

Mas você está longe

 

Eu disse! Eu sinto a sua falta

 

Sinto sua falta insanamente

 

Mas se eu estivesse com você

 

Poderia sentir o mesmo?

 

 

 

It don't matter who you are

 

It's so simple

 

I feel it

 

But it's everything

 

No matter who you love

 

It’s so simple

 

I feel it

 

But it's everything

 

 

 

Não me importa quem você é

 

É tão simples

 

Eu sinto isso

 

Mas é tudo

 

Não importa quem você ama

 

É tão simples

 

Eu sinto isso

 

Mas é tudo

 

( Beyoncé)

 

 

 

            Eduarda ainda atônita com a atitude da promotora, sempre tão comedida em manifestações de afeto em público, não conseguiu se mover ao final da música, mesmo vendo Natalia descer da cabine e andando na direção da área VIP.

 

- Duda a Natalia pediu que a encontrasse no seu escritório.

 

            Emerson avisou. Ainda tomada pelo susto da declaração que recebera da ex, Eduarda seguiu para seu escritório onde foi surpreendida mais uma vez. O espaço sóbrio de trabalho se transformara em um cenário romântico.

 

- Oi.

 

            Natalia surgiu diante de Eduarda trajando um vestido sensual, decotado, de tecido leve que apesar de não estar justo ao seu corpo, delineava suas formas incrivelmente delicadas e bem definidas. A empresária chegou a perder o fôlego com tal visão.

 

- Desculpe-me a invasão, mas, eu sabia que se te chamasse pra jantar você não toparia, então, trouxe para cá o jantar.

 

            Tentando disfarçar seu nervosismo, Natalia entregou um cálice de vinho para Eduarda que aceitou e respondeu em seguida balançando negativamente a cabeça.

 

- Natalia... Isso não está certo...

 

- Ei, aposto que você não jantou até agora e eu pedi comida do seu restaurante favorito! Janta comigo vai...

 

            Inebriada pelas surpresas da noite e pela presença estonteante de Natalia, Eduarda assentiu, acomodando-se à mesa cuidadosamente preparada pela ex-namorada.

 

            Durante o jantar, Natalia não economizou nos olhares de desejo para Eduarda que se esquivava comendo apressada, como se não pudesse resistir por muito tempo tal assédio sutil.

 

- Duda eu preparei essa noite para nós. Queria te mostrar o quanto te quero, e o quanto sinto sua falta.

 

            Natalia declarou ao final da refeição.

 

- Eu fico muito lisonjeada por você fazer isso por mim. Essa noite foi uma boa surpresa, mas não existe mais nós Natalia. Isso não muda o motivo pelo qual terminamos nosso namoro.

 

            Eduarda disse levantando-se da mesa.

 

- Duda eu sinto muito sua falta. Eu não tinha noção do quanto gostava de você até você terminar comigo. Eu sei que você tem todos os motivos pra desistir de mim, eu poderia também desistir de você, de nós, eu poderia me acostumar com meus dias sem seu sorriso, sem sua voz rouca ao telefone cheia de sono me fazendo dormir quando estou com insônia, poderia me acostumar a não ter mais seus pés roçando nas minhas pernas pra se aquecer, sem seus olhos me encarando com uma paixão que me deixa tonta... Mas, eu não quero me acostumar com isso. Eu quero você na minha vida, eu quero outra chance com você. E eu estou sendo o mais clara e objetiva que posso, já que sempre foi assim que agiu comigo, eu estou agindo da mesma forma, e vou direto ao que quero: quero você!

 

            Natalia não deu tempo para Eduarda se refazer da emoção de ouvir as palavras carregadas de sentimento da morena. Encaixou seu corpo no corpo de Duda, deixando que seu perfume entorpecesse os sentidos da loira, aquele aroma de óleo de pitanga que exalava da pele reluzente e morena de Natalia, com a maciez e sensualidade que só um corpo feminino poderia transcender.

 

            Eduarda não teve forças para lutar. O corpo quente de Natalia envolvendo o seu, e os movimentos seguros da promotora, arrancando-lhe as peças de roupa, suas e dela explicitando seu desejo:

 

- Ainda preciso ser mais clara?

 

            Natalia disse exibindo seu corpo nu, puxando para si o corpo de Duda e foi a vez desta chamar para si o domínio da situação, jogando o corpo de Natalia contra a parede e percorrendo faminta com sua boca, cada pedaço daquela pele morena deliciosamente eriçada.

 

*****

 

            Diana fechou sua maleta imediatamente para esconder o envelope que surrupiara do escritório, enquanto Acrisio a encarava.

 

- Então, vai me dizer o que faz aqui? – Acrisio inquiriu.

 

- Vim ver com meus próprios olhos o que o Ministério Público denunciou.

 

- Ah, e por falar em Ministério Público, você sabe quem é promotora filha da mãe que está por trás dessas denúncias?

 

            Diana empalideceu e não respondeu.

 

- Sua amiguinha, aquela que eu salvei daquele cabra safado, Natalia o nome dela não é?

 

- Eu fiquei sabendo.

 

- Quem sabe você pudesse ajudar o papai nisso. Fazer essa menina me deixar em paz...

 

- Agora o senhor é piadista?

 

- O que ia lhe custar? Vocês eram tão unidas...

 

- Nós nos amávamos, mas você tratou de nos separar, e agora quer que eu a procure pra convencê-la a fazer vista grossa no seu processo?

 

- Você entendeu exatamente o que quero filhinha, use das suas habilidades...

 

- Você me enoja sabia?

 

            Diana pegou sua mala e fez menção de sair do quarto quando Acrisio a interpelou:

 

- É melhor você usar seus métodos com ela do que eu usar os meus não acha?

 

- Escuta aqui senhor Acrisio Toledo: não ouse tocar em um fio de cabelo dela, não ouse tirar a paz da Natalia prejudicando o trabalho dela ou a família dela. Respeite o acordo que fez comigo sobre não fazer nada contra ela e a família dela se eu fizesse o que você me pediu, cumpri minha parte, não é justo que você venha de novo com essa chantagem!

 

- Tire o dedo da minha cara mocinha! Sou seu pai! Acha que pode gritar comigo ou me ditar ordens?

 

- Só estou cobrando senhor Acrisio a sua palavra. O que foi tratado entre nós deve ser cumprido. O senhor não vai me querer como inimiga, isso eu garanto.

 

- Inimiga? Mas o que é isso Diana? Uma coisa é você me dizer despautérios no calor da emoção, outra é você insinuar uma guerra entre nós. Somos pai e filha!

 

- Aja ao menos uma vez como meu pai então e atenda ao meu pedido, deixe a Natalia e a família dela em paz.

 

- Você está me pedindo pra que eu fique de braços cruzados esperando ser processado e preso?

 

- Se o senhor for culpado das acusações esse é o certo.

 

- Agora quem está fazendo piada aqui?

 

- Pai, se o senhor é culpado, conserte as coisas, legalize o trabalho desses homens, dê-lhes seus direitos, o senhor não percebe que assim ganha muito mais? Ganha a admiração desses homens e das famílias deles por que o senhor os deu um trabalho digno.

 

- Diana minha filha você não sabe quem são esses homens! São ex- detentos, são retirantes, ninguém lhes daria oportunidade, estou-lhes dando um teto e comida, em troca eles trabalham para mim.

 

- Pai! São seres humanos! Trabalhadores que vieram para cá acreditando que teriam uma oportunidade e viraram escravos!

 

- Não exagere Diana, não são escravos, só estou garantindo que eles paguem o que me devem, acha que é barato trazer esse monte de morto de fome do fim do mundos que eles vem e mantê-los? Quando quitarem a dívida poderão escolher se ficam ou não.

 

- Meu Deus! Parece o Barão de Ararúna falando!

 

- Você está há muito tempo fora do Brasil, não sabe como as coisas funcionam. A maioria desses homens estão aqui porque querem, ou demais estão porque não tem pra onde ir. São uns pobres coitados que eu os acolhi.

 

- Pai pelo amor de Deus! Esses pobres coitados tem direitos, tem famílias esperando pelo dinheiro do trabalho deles, ou que vivem aflitos por notícias que nunca chegam. Vamos regularizar a situação deles, eu fico aqui para ajudar o senhor nisso, quem sabe isso diminua a pena e a multa quando o processo for julgado...

 

- Ah! Muito generoso de sua parte ficar aqui para me dar um prejuízo e assistir minha prisão e minha ruína, dispenso sua presteza Diana, volte pro estrangeiro pra bater suas fotos e me deixe resolver as coisas do meu jeito já que você não quer colaborar comigo!

 

- É sua última palavra?

 

- Já que você não quer fazer nada por essa família, é melhor que fique longe para não atrapalhar mesmo.

 

- Eu tentei pai, mas o senhor não me deixou alternativa.

 

            Com o ultimato anulado pela petulância e pela conduta inescrupulosa de Acrisio, Diana concluiu que só lhe restava alertar pessoalmente Natalia, e lhe entregar o material que poderia ajudar no processo contra seu pai, partiu da Verdes Canaviais diretamente para capital para o encontro com seu passado mais bonito e mais dolorido também.

 

 

2.12 Tempus iam deleri por contosdamel
Notas do autor:

O tempo não apagou

Rosana sentiu seu peito sufocar quando Diana revelou que precisava encontrar Natalia pessoalmente.


 


- Honey? Você ainda está aí?


 


- Sim meu bem, estou.


 


- Está com essa voz por que minha querida?


 


- Nada demais minha loira... Saudades de você. Não pensei que você fosse demorar tanto ainda por aí.


 


- Eu prometo voltar o mais rápido possível.


 


            Por mais custasse a Rosana, a cantora conteve sua insegurança e o medo de perder a namorada para não pressioná-la, firmando seu pensamento na ideia de que lutar com o destino era inútil, só lhe restava torcer para que a história de Natalia e Diana estivesse mesmo no passado.


 


*******


            Diana chegou ao seu antigo apartamento em São Paulo e foi invadida por uma avalanche de memórias. Em cada cômodo ela assistiu ao filme com as lembranças de sua vida com Natalia ali.


 


            Na sala, reviveu o primeiro beijo e quase pode sentir o gosto dos lábios de Natalia, relembrou o momento em que selou um compromisso com a morena, entregando-lhe sua pequena argola de brilhante e quando a convidou para morar com ela. Caminhou pela cozinha e ali pode ouvir o som das risadas de Natalia quando lhe observava tentar cozinhar algo, sorriu emocionada com a imagem do sorriso de Natalia em sua mente. Abriu a porta do seu quarto escuro, onde algumas fotos da intimidade das duas ainda estavam ali expostas, e ressentiu aquele vazio no seu peito provocado pela ausência de Natalia em sua vida.


 


            Quando chegou ao seu quarto, Diana sentiu sua alma se rasgar tamanha era a saudade que sentira pelo amor que compartilhou naquela cama com Natalia, pelos planos que fizera ali com ela, pelo perfume inconfundível de sua ex-namorada que foi capaz de sentir revivendo aquelas memórias. Deitou-se na cama, e deu vazão a todo aquele pranto contido, a toda dor que escondera de si mesma, e ali sozinha abraçada ao travesseiro chorou o que parecia preso por anos.


 


            Adormeceu exausta da carga de emoções que experimentara nos últimos dias, especialmente nas últimas horas, ao acordar quase no final da tarde não protelou mais seu reencontro com Natalia, seguiu direto para o prédio do Ministério Público com o coração aos galopes pela ansiedade de rever seu grande amor.


           


            Diana concluiu que era melhor não procurar Natalia em seu gabinete, tendo em vista o conflito de interesses que sua visita poderia supor, assim, esperou no estacionamento do prédio o final do expediente, acreditando encontrar Natalia ali.


           


            Como esperava, ao cair da noite, Diana teve a visão tão ansiada. Como se fosse possível, Natalia estava ainda mais linda do que a loirinha podia lembrar. Cabelos na altura dos ombros com um corte moderno, um óculos de grau discreto e elegante, com seu corpo igualmente impecável depois de tantos anos vestido por um terninho justo de risca de giz o qual a promotora se desfez por conta do calor infernal que fazia em São Paulo naquele dia, deixando à mostra a camisa de manga ¾ com os primeiros botões abertos deixando à mostra um delicado sutiã de renda branca em um decote absurdamente sensual. Os passos firmes em cima de um scarpin sofisticado que combinava com sua bolsa tão vistosa quanto todo o visual da jovem promotora, reforçavam a beleza natural e singular da morena.


 


            Diana sentiu o mundo parar. Sua respiração acompanhava as batidas descompassadas do seu coração, o turbilhão de sensações a tomou com uma violência que não permitiu que seus músculos obedecessem à necessidade de se combinarem para dar um passo à diante para se aproximar daquela visão divina e perfeita que era Natalia à sua frente.


 


            Impelida pela atração que renascera no momento que avistou Natalia, Diana deu dois passos curtos em direção à ex-namorada, foi o máximo que conseguiu fazer com a segurança que lhe manteve de pé, temia que do contrário o tremor de suas pernas a fizessem cair aos pés da promotora quando este foi seu desejo escondido.


           


            O que Diana não poderia imaginar era que segundos depois seria sugada para uma triste realidade na qual Natalia era abraçada por braços que não eram os seus, sorria apaixonada para alguém que não era ela, e pior, era beijada por lábios que ao julgamento insano de Diana, não merecia tocá-los por que acreditava que ninguém mais no mundo os desejava tanto quanto ela os desejava naquele momento.


 


            A mesma força que lhe impulsionou a caminhar para Natalia, estancou os movimentos de Diana naquele instante. A loirinha assistiu uma Natalia descontraída, feliz, se derramar em carinhos para uma mulher que a olhava completamente encantada.


 


            Nunca sentira uma inveja tão descomunal por alguém como experimentara naquele momento por aquela mulher que estava com Natalia. Estática, Diana ainda viu sua ex-namorada entrar na caminhonete importada que Eduarda dirigia e partir dali destruindo qualquer frágil expectativa que a loirinha nutria desse reencontro.


 


            Atordoada com aquela frustração, Diana jogou o peso do seu corpo contra um carro que estava próximo a ela, disparando o alarme deste o que chamou a atenção de Carla que chegava ao estacionamento.


 


- Diana?!


 


- Carlinha? – Diana franziu a testa reconhecendo a antiga colega.


 


- Sim!


           


            As duas se abraçaram empolgadas.


 


- Você era a última pessoa que eu esperava encontrar aqui! – Carla comentou.


 


- Sinceramente nem eu esperaria me encontrar aqui! – Diana brincou.


 


- Você parece que continua a mesma hein, só os cabelos meio nova iorquinos, mas no fundo é o mesmo olhar de moleca de sempre...


           


            Carla disse afagando os ombros da colega.


 


- Eu fiquei sabendo da morte da sua mãe Di, sinto muito.


 


- Obrigada Carlinha, você sabe o que é essa dor não é? Eu me lembro de quando você perdeu a sua no início da faculdade.


 


- Sei sim Di, e se não fosse por você, pelos meninos, eu teria perdido meu semestre do curso.


 


- Você foi muito forte, o mérito é todo seu.


 


- Mas então? O que faz aqui? Estou curiosa...


 


- Não sei se posso te falar, é um assunto meio delicado, sigiloso, e não tem nada a ver em não te achar de confiança... É que... Eu vim na verdade procurar a Natalia, não a Natalia, a promotora Natalia Ferronato...


           


            Diana se atrapalhou para explicar até Carla lhe interromper.


 


- Di, eu trabalho na promotoria, sou assistente da Natalia.


 


- Ah! Isso facilita muito as coisas pra mim!


 


- No que posso te ajudar?


 


- Carlinha eu sei que vocês estão com o caso do meu pai, eu sei que existe todo um processo envolvendo segredo de justiça, enfim, eu adiei minha volta a Nova Iorque para tentar evitar que meu pai atentasse contra a carreira e até a integridade física e moral da Natalia.


 


- Calma Diana, explique-me direito do que você está falando.


 


- Podemos conversar em outro lugar?


 


- Claro, entre aqui no meu carro.


 


            Carla e Diana conversaram em uma dos bares mais tradicionais em happy hour do centro paulistano.


 


- Ok, agora me conte com calma.


 


            Diana relatou detalhadamente os eventos que precederam sua decisão e sua visita, em seguida entregou-lhe os documentos que tirara da Verdes Canaviais as fotos impressas do seu celular.


 


- Eu sei que esse material não poderá ser incluso no processo por não ter sido obtido pelos meios jurídicos, mas eu pensei que poderia dar alguma luz nas investigações. Mas, o principal de tudo Carlinha é você alertar Natalia sobre a segurança dela, meu pai é capaz de tudo. Eu quero fazer mais alguma coisa para proteger a Natalia, tentei negociar com meu pai, mas foi inútil.


 


- Di, fica tranquila, eu vou alertar a Natalia e acho que podemos providenciar proteção policial para ela, o delegado que está investigando o caso é o Lucas.


 


- O Luc? Sério?!


 


- Sério. Quanto a família dela, vou deixa-la alerta quanto a isso também para que eles possam se precaver.


 


- Muito obrigada Carlinha.


 


- Eu é que agradeço sua integridade e coragem de ficar contra seu próprio pai para proteger a Natalia e fazer justiça.


 


- Meu pai me tirou as pessoas mais importantes da minha vida Cacá, não posso permitir que ele permaneça livre cometendo esses crimes sem punição.


 


- Vamos lutar para fazer justiça então.


 


- Carlinha, mais uma coisa... A Natalia ela está bem? Eu a vi no estacionamento e...


 


- Entendo agora sua carinha quando a encontrei... Você a viu com a Eduarda não foi?


 


- É esse o nome da mulher que estava com ela?


 


- É, Eduarda, elas estão namorando há uns meses, na verdade reataram o namoro semana passada. A Natalia está bem sim Di, está feliz.


 


            Diana sorriu amarelo, baixou os olhos e disse:


 


- Que bom, fico feliz por ela.


 


- E agora? Você volta para Nova Iorque?


 


- Sim, amanhã mesmo acho. Tome meu cartão, são meus telefones lá, se eu for útil em alguma coisa nesse processo, ou para proteger Natalia do meu pai, não hesite em me ligar Carlinha.


 


            Diana pegou um táxi ali mesmo em frente ao bar depois de se despedir de Carla, exatamente no momento em que Natalia chegava ao mesmo bar com Eduarda. Por segundos a promotora observou a moça loira de rosto familiar entrar no taxi, passou por ela de cabeça baixa ao que parecia, enxugando as lágrimas do rosto.


           


            Natalia sentiu seu coração acelerar, não podia acreditar no que seus olhos viram. –“Era a Diana!” – Pensou. Imediatamente concluiu que seria improvável a presença da ex-namorada ali, e se martirizou por seu inconsciente ainda trazer à tona as lembranças de Diana, quando tudo que ela precisava era esquecê-la para ter uma nova chance com Eduarda.


 


 

2.13 Onus probandi por contosdamel
Notas do autor:

No Direito: Encargo de provar. Expressão que deixa ao acusador o trabalho de provar (a acusação). 

A suposta alucinação que tivera de Diana perturbou Natalia. A promotora chegou mal humorada ao gabinete despertando a atenção de sua assistente e amiga.

 

 

 

- Caímos da cama hoje ou brigamos com a namorada de novo?

 

 

 

- Nenhuma coisa nem outra. Vimos um fantasma ontem!

 

 

 

            Carla arqueou a sobrancelha e Natalia prosseguiu.

 

 

 

- Quando eu acho que estou pronta pra me dedicar à minha relação com Eduarda, quando estamos curtindo o clima de romance puro, essa minha cabeça oca deixa de sonhar com um fantasma e agora a vê nas ruas de São Paulo, é mole?

 

 

 

- A culpa dessa vez não é da sua cabeça oca Nat. Você está se referindo a Diana? Você a viu em frente aquele bar do centro que fomos semana passada?

 

 

 

- Sim, fui lá com a Eduarda ontem depois que saímos do banco... Por que Carlinha?

 

 

 

- Você viu a Diana mesmo. Ela estava no bar comigo.

 

 

 

- O quê?!

 

 

 

- Acalme-se, você está pálida Nat.

 

 

 

- Carla como assim você estava com a Diana ontem?!

 

 

 

- Calma ok? Eu a encontrei na garagem desse prédio ontem. Ela veio te procurar, mas aparentemente desistiu de falar com você, depois que te viu com a Eduarda.

 

 

 

            Natalia levou as mãos à cabeça enquanto a balançava negativamente.

 

 

 

- Ela veio me procurar?

 

 

 

- Sim. Queria te entregar isso.

 

 

 

            Carla colocou sobre a mesa o envelope que Diana lhe entregara.

 

 

 

- O que é isso?

 

 

 

            Natalia perguntou enquanto abria o pacote.

 

 

 

- Diana tirou essas fotos na Verdes Canaviais é da chegada de mais um grupo de homens contratados para trabalhar na fazenda.  Ela roubou de lá esse contrato, pelo que entendi é o que os trabalhadores assinam quando chegam lá para trabalhar.

 

 

 

- Mas porque ela queria me entregar isso?

 

 

 

- Pra ajudar no processo contra o pai. Ela não te procurou só por isso.

 

 

 

- E pra que mais? – Natalia perguntou ansiosa.

 

 

 

- Para te avisar sobre as intenções nefastas de Acrisio Toledo acerca de uma certa promotora que está encabeçando o processo contra ele.

 

 

 

            Carla detalhou a sua conversa com Diana, durante todo o relato o tic nervoso de Natalia, ou seja, seu balanço nervoso de pernas chegou a tirar a concentração da assistente:

 

- Ai que nervoso! Aquieta-te Natalia!

 

 

 

- Não consigo... Como ela está Carlinha?

 

 

 

- Um pouco abatida, mais bonita, roupas mais femininas, mas, aquele mesmo jeitinho amolecado da época da USP.

 

 

 

- Ela... Perguntou alguma coisa de mim?

 

 

 

- Deeer! Claro né. Já te disse, ela veio falar com você, mas quando te viu com a Eduarda ela desistiu e aí foi quando a encontrei meio desnorteada. Ela me perguntou se você estava feliz.

 

 

 

- E quanto a ela? Ela disse algo?

 

 

 

- Se você está querendo saber se ela falou sobre ela e a Rosana, não, ela não falou e eu não perguntei também. Ela estava muito preocupada com sua segurança, ficou mais tranquila quando falei que o Lucas era o delegado do caso e que pediria proteção para você a ele. Mesmo assim, ela se prontificou a ajudar no que fosse preciso.

 

 

 

- Ela vai ficar no Brasil?

 

 

 

- Não. Ela retorna hoje pros Estados Unidos.

 

 

 

- Que destino filho da mãe esse! Colocar a Diana de novo em minha vida! Diga-me Carlinha, você sabe onde ela está hospedada?

 

 

 

- Natalia, eu sei que conselho não é bom e só serve pros outros, mas mesmo assim vou te dar um: se você quer mesmo investir na sua relação com Eduarda, deixe seu passado com Diana para trás.

 

 

 

- Você acha que não estou tentando? Mas parece uma piada, quando consigo dar um passo a diante, a vida vem e me dar essa rasteira...

 

 

 

- Então continue tentando...

 

 

 

            Carla deixou Natalia pensativa em seu gabinete, e imbuída da tarefa de proteger sua amiga e chefe, procurou Lucas na delegacia a fim de lhe colocar a par dos fatos recentes.

 

 

 

*********

 

 

 

            O outono em Nova Iorque lembrava muito dona Alice. Talvez por isso, Diana parou no Central Park antes de chegar ao seu apartamento no seu retorno à cidade. Perdeu a hora em seu passeio melancólico, que não trouxe à tona só a saudade de sua mãe, mas também a imagem de Natalia.

 

 

 

            O rosto de Natalia e a memória recente dela que Diana tinha surgiam em sua mente de uma maneira tão insistente que seria inútil sufocar aquele pensamento. A loirinha nem ao menos sabia se queria suprimi-lo, queria guardar a imagem de Natalia em sua mente mesmo que lhe incomodasse profundamente lembrar-se também da mulher que a abraçava.

 

 

 

            Chegou ao seu apartamento à noite, não encontrando mais Rosana lá. Resolveu fazer-lhe surpresa e foi ao Light, onde a namorada se apresentava. Para a cantora, a surpresa não poderia ser mais grata. Ao perceber a presença da loirinha ao lado do palco, Rosana não titubeou em correr para lhe abraçar e beijar-lhe apaixonadamente, confirmando para Dani o que os amigos comentaram sobre o romance das duas.

 

 

 

- Se eu ainda duvidava, Miss Flower acabou com minhas dúvidas. – Dani comentou bebericando sua dose de bebida.

 

 

 

- Dani, se você quer tomar satisfações com ela a esse respeito, dá um tempo, ela perdeu a mãe há pouco mais de um mês, não é o momento. – Liza pediu.

 

 

 

- Não sou esse monstro insensível Liza. Além do mais, eu e Rosana não tivemos nada sério, não por minha vontade, mas por vontade dela, agora entendo o motivo.

 

 

 

            Daniela lamentou com uma expressão insatisfeita observando Rosana abraçada a Diana.

 

 

 

- Não acredito que você está aqui. – Rosana disse.

 

 

 

- Eu te disse que voltaria o mais rápido que eu pudesse não disse? Agora volte para o palco porque a banda já tocou o instrumental inteiro da próxima música...

 

 

 

            Rosana sorriu, beijou Diana mais uma vez e retornou ao palco mais inspirada enquanto a loirinha recebia o carinho e solidariedade dos amigos na mesa, inclusive de Daniela.

 

*********

 

 

 

            No seu gabinete, Natalia recebeu a visita inesperada de seu antigo amigo Lucas, agora delegado responsável pelas investigações contra Acrisio Toledo.

 

 

 

- É aqui que uma donzela em perigo está precisando da proteção e bravura de um nobre cavalheiro?

 

            Lucas surpreendeu a promotora abrindo a porta.

 

 

 

- Lucas!

 

 

 

            Natalia levantou-se imediatamente e abraçou o rapaz.

 

 

 

- Desculpe-me, te assustei? Fui entrando porque encontrei Carlinha aqui fora e me pediu que entrasse.

 

 

 

- Não me assustou, não se preocupe, Carla está mais assustada que eu, desde que soube das ameaças de Acrisio.

 

 

 

- É por isso que estou aqui. Ela me colocou a par da situação. E então, o que Diana conseguiu?

 

 

 

- Por melhor que tenha sido a intenção dela, o que ela conseguiu não nos ajuda, quer dizer, nos poupa algumas frustrações e nos deixa mais informados, mas nada que nos ajude no processo. Aquela raposa velha se precaveu muito bem. O contrato que Diana roubou é um termo se associação a uma cooperativa de agricultores, os trabalhadores assinam um contrato de trabalho com essa cooperativa, então não são empregados de Acrisio, porque ele contrata a cooperativa, não o trabalhador diretamente.

 

 

 

- Muito astuto da parte dele, mas o livra dos outros crimes.

 

 

 

- É verdade, mas vai ficar muito complicado para descobrirmos algo. O máximo que podemos acusa-lo é de contratar uma empresa que não respeita os direitos dos trabalhadores a FGTS, insalubridade, jornada de 40horas semanais... Apesar de o contrato prever que os cooperados devem renunciar a esses direitos, que na prática não vale nada por que podemos anular esse contrato por conta dessas cláusulas abusivas, mas então, só poderíamos punir o responsável pela empresa terceirizada que presta serviço a Acrisio, ou seja, um laranja que ele colocou lá como testa de ferro da cooperativa.

 

 

 

- É um começo. Quem sabe pressionando-o ele nos dê algo contra o patrão.

 

 

 

- Eu pensei nisso, você precisará chama-lo para depor.

 

 

 

- Farei isso, assim que conseguir uma justificativa, já que não posso intimá-lo por seu nome no contrato que Diana roubou.

 

 

 

- Isso é fácil Lucas. Carla já averiguou, o nome desse laranja e dessa empresa consta nas denúncias do Ministério do Trabalho.

 

 

 

- Ótimo. Mas e quanto à sua proteção doutora? Minha função de herói de moças indefesas ainda é minha prioridade, agora oficialmente!

 

 

 

            Lucas brincou se referindo ao seu passado com Natalia.

 

 

 

- Eu sabia que você teria futuro nessa função. – Natalia retribuiu o tom jocoso.

 

 

 

- Eu sei que de indefesa você não tem nada, mas mesmo assim Natalia, com esse homem não se brinca. Agora entendo a aversão que Diana tinha do pai, ela o conhecia muito bem. Vou deixar dois policiais fazendo sua segurança extra oficialmente.

 

 

 

- Obrigada Lucas, mas não é necessário. Eduarda se apavorou e já contratou dois seguranças que me perseguem praticamente até ao banheiro além do mais, Acrisio não fará nada contra mim, as suspeitas recairiam diretamente sobre ele, isso não seria inteligente, infelizmente ele tem inteligência para não cometer um vacilo desses. Minha preocupação é com outras manobras dele para me prejudicar, riscar minha reputação, ou me pressionar fazendo algo contra minha família.

 

 

 

- É melhor que você esteja preparada para isso então. Alerte sua família também.

 

 

 

- Farei isso. Estou muito feliz por estar trabalhando com você nesse caso, é bom contar com você e principalmente ver que não guarda mágoas nem de mim, nem de Diana.

 

 

 

- No começo eu fiquei muito revoltado com vocês, quando soube que estavam morando juntas e tudo mais, especialmente porque Diana não nos disse a verdade, coube a mim a tarefa de contar ao meu irmão toda a história.

 

 

 

- Foi um erro termos escondido a verdade de vocês, mas a Diana temia perder a amizade de vocês além de querer me proteger da língua do povo, do preconceito...

 

 

 

- Eu entendo hoje, já é fato superado, só lamento ter me afastado tanto de você, da Diana, por imaturidade juvenil.

 

- Bom, a vida se encarregou de nos aproximar de novo não é?

 

 

 

            Natalia segurou a mão de Lucas e sorriu sincera reiniciando sua relação com o amigo.

 

 

 

********

 

 

 

            Os dias que se seguiram na vida de Diana foram marcados pelo luto e pela saudade, mesclado a tais sentimentos de tristeza, a loirinha amargava secretamente o conhecimento sobre a vida atual de Natalia com Eduarda. Tal mistura de sentimentos jogou Diana no seu estado vulnerável a uma perigosa rotina de bebedeiras que evoluíram para o uso de drogas o que provocou uma crise no seu relacionamento com Rosana que frequentemente passou a resgatar a loirinha de raves badaladas ou de festas particulares das altas rodas de Manhatan nas quais o elemento principal era a oferta de extasy, cocaína e outras drogas mais pesadas.

 

 

 

- Vai ser todo dia isso agora Diana? Aonde vou te buscar da próxima vez? Na delegacia ou em um necrotério? Mas que droga! O que você está fazendo com sua vida?

 

 

 

            Rosana gritava enquanto Diana se refestelava na cama ignorando a preocupação da namorada.

 

 

 

- Diana eu estou falando com você! Essa é segunda vez essa semana que saio desesperada de um show pra te resgatar de uma festa de horror te encontrando sempre assim: chapada! Que merda é essa que você está fazendo? Há semanas você não trabalha se droga e depois passa o dia de ressaca e emenda em outra farra! Você ao menos se deu conta que está atrapalhando meu trabalho com isso? Tudo isso por quê? Pra atingir seu pai, ou para esquecer Natalia?

 

 

 

- Rosana depois nós conversamos me deixa dormir, por favor?

 

 

 

            Diana falou com a voz embolada, cobrindo a cabeça com o cobertor.

 

 

 

- Quer saber? Você quer acabar com sua vida? Faça isso, mas estou caindo fora. A nossa relação você já acabou não vou deixar você destruir minha carreira também.

 

 

 

            Rosana disse isso com a voz embargada, carregada de uma mágoa que corroía sua alma. Abalada se retirou batendo a porta do apartamento de Diana com violência.

 

 

 

            Diana não se deu conta do peso das palavras de Rosana até experimentar todas as recusas da namorada a atender seus telefonemas e responder suas mensagens, assim como se negou a conversar pessoalmente, mantendo-se firme na decisão de não apoiar o novo estilo de vida da fotógrafa.

 

 

 

            O aniversário da loirinha foi a desculpa para seus amigos das últimas farras, promoverem uma festa surpresa no seu apartamento. A festa nos moldes das que Diana frequentara recentemente não podia ter outro atrativo que não fosse um festival de drogas ilícitas, nas quais, Diana abusou do uso sem qualquer controle.

 

 

 

            O resultado não podia ter sido mais desastroso. Pouco antes de Diana ter alucinações nas quais as vozes e rostos se desconformavam, e tudo que ela enxergava era Natalia em sua frente com Eduarda, a loirinha achou uma foto de Natalia que recuperara na visita ao seu apartamento em São Paulo. As alucinações precederam a tontura, a visão nublada, o aperto no peito e por fim a perda dos sentidos.

 

 

 

            Os convidados de Diana sequer perceberam o estado da aniversariante. Para a sorte da fotógrafa, Gerard, seu amigo, resolveu visitar a amiga e cumprimentar lhe pela data, e se horrorizou com o cenário que encontrou. Seu horror se transformou em desespero ao se deparar com Diana tendo espasmos pelo corpo no canto da sala. Ao se aproximar da amiga, Gerard atestou que Diana convulsionava, aflito ligou imediatamente para a emergência.

 

******

 

            Diana despertou cercada por rostos apreensivos. Seus amigos: Gerard, Marco, Liza e Dani aguardavam com expectativa que a amiga acordasse.

 

 

 

- Seja bem vinda de volta Diana!

 

 

 

            Gerard saudou a amiga que franziu a testa tentando entender o que se passava.

 

 

 

- Onde estou?

 

 

 

- Em um quarto de hospital.

 

 

 

            Diana arqueou a sobrancelha assustada.

 

 

 

- Você teve uma overdose Diana. O Gerard salvou sua vida, porque aqueles viciados os quais você chama de amigos sequer perceberam que você estava inconsciente no chão do seu apartamento!

 

 

 

            Daniela falou revoltada.

 

 

 

- Dani, calma... – Liza ponderou.

 

 

 

- Não posso estar calma Liza. Diana o que você está fazendo com sua vida? Essas porcarias que você tem cheirado, fumado, injetado, bebido ou sei lá mais o que não são novidades para você! Sabe o efeito delas, já experimentou, até usamos juntas e concordamos que é a pior porcaria da face da terra, o que deu em você para embarcar nessa? Tudo bem você está triste, perdeu sua mãe, está brigada com seu pai, mas que droga você não é mais uma adolescente rebelde!

 

 

 

            Diana não tinha argumentos. Sequer conseguiu encarar os amigos.

 

 

 

- Minha pequena somos seus amigos, não importa o tamanho do seu problema, queremos ficar ao seu lado para te ajudar no que for preciso, você não precisa de drogas para isso. – Marco falou segurando a mão de Diana.

 

 

 

- Você ficará aqui alguns dias para desintoxicação, depois os médicos vão decidir o que é melhor para você, que tipo de tratamento você vai precisar. E nós vamos nos revezar para cuidar de você. – Liza explicou.

 

 

 

- Considere isso como uma intervenção sua louca! – Daniela disse emocionada, abraçando a amiga.

 

 

 

- Eu só posso pedir perdão a vocês.

 

 

 

            Diana não conseguiu prosseguir, se entregando ás lágrimas. Mais calma perguntou com um tom triste.

 

 

 

- Alguém poderia avisar a Rosana que estou aqui?

 

 

 

- Já avisamos. – Gerard disse. – Ela foi a primeira, a saber.

 

 

 

            Diana baixou os olhos, amargando a decepção de não ter Rosana ali ao seu lado.

 

 

 

- Ela tem os motivos dela para não estar aqui. – Diana comentou.

 

 

 

- Tenho, mas os ignorei e estou aqui.

 

 

 

            Rosana disse se aproximando do leito de Diana. As duas trocaram um olhar que falou muito, o suficiente para Gerard dizer:

 

 

 

- Gente, vamos dar um tempo para as duas conversarem a sós.

 

 

 

            A sós com Diana, Rosana desabafou:

 

 

 

- Acho que você chegou ao fundo do poço não é?

 

 

 

- Como nunca imaginei chegar.

 

 

 

- E agora? Vai aproveitar o impulso da queda para sair do poço ou vai continuar se afogando?

 

 

 

            Diana não respondeu. Mais uma vez baixou a cabeça, como se a vergonha pesasse sobre ela.

 

 

 

- Você sabe onde eu estava quando você acordou?

 

 

 

            Diana meneou a cabeça.

 

 

 

- Na capela do hospital. Conheci você em uma, lembra?

 

 

 

- Hurrum.

 

 

 

- Eu me lembrei do nosso primeiro encontro, da menina marrenta e cheia de vida que conheci e demorei a aceitar que era a mesma que estava aqui depois de uma mostra de autodestruição.

 

 

 

- Perdão Rosana.

 

 

 

            Diana desabou no choro. Sem hesitar Rosana acolheu-a em um abraço confortador.

 

- Não é a mim que você tem que pedir perdão, é a si mesma.

 

 

 

- Eu preciso de você Rosana, fica comigo, não me deixa...

 

 

 

- Diana não é hora de falarmos sobre nós, você tem que se concentrar em se recuperar...

 

 

 

- Essa é a hora, por que preciso recuperar minha vida, e isso inclui recuperar você em minha vida.

 

 

 

- Di, estou aqui não estou? Vou te ajudar no que for preciso.

 

 

 

- Então, vem morar comigo. Quero você do meu lado todo tempo. Quero acordar com você, dormir com você, senti tanta falta disso. Fica comigo, me perdoe pelo que fiz conosco e volta pra mim.

 

 

 

            Rosana não estava convicta que a motivação de Diana era a certa para retomar seu relacionamento com ela, mas pelo amor que sentia, não podia recusar o pedido da loirinha e assim, mudou-se para o apartamento de Diana imediatamente após sua alta.

 

 

 

 

2.14 Causa traditionis por contosdamel
Notas do autor:

No Direito: Causa da entrega. Razão da tradição das coisas entre os interessados. 

Diana enfrentou o tratamento e em pouco tempo e com a ajuda dos amigos e o cuidado e companheirismo de Rosana, voltou ao trabalho em ritmo acelerado com a proximidade do aniversário de dez anos do atentado ao World Trade Center. Tal evento era a data marcada para a exposição do seu documentário fotográfico, por isso, a loirinha mergulhou nesse projeto sem reservas.


 


            Paralelamente, Diana cumpria seu papel de namorada leal e presente na carreira de Rosana, comemorando o sucesso da cantora que entrara em estúdio para a gravação do seu primeiro álbum.


 


            A excelente repercussão do seu trabalho rendeu-lhe ainda além do reconhecimento mundial do seu talento, a notícia de que aquela exposição seria itinerante pelas embaixadas dos Estados Unidos pelo mundo, e depois, quando terminado o museu erguido no antigo local das torres gêmeas, as fotos iam compor o acervo fixo do espaço cultural.


 


            Os dias de boas notícias acabaram com o telefonema de sua tia Alda.


 


- Oi tia! Pensei que a senhora viesse para a exposição, o que houve?


 


- Ah minha querida, eu tentei, mas coincidiu com o parto de sua prima, meu primeiro neto Diana, não podia ficar longe, perdoe-me.


 


- Ah tudo bem tia, está perdoada. Está tudo bem?


 


- Nem tudo está bem minha querida. Estou ligando por causa de seu irmão, Danilo.


 


- O que houve com ele?


 


- Sofreu um acidente.


 


- Como ele está? Foi grave?


 


- Ele está bem fisicamente, mas está transtornado. Insistiu para que eu falasse com você, dizendo que ele precisa te ver pessoalmente com urgência.


 


- Han? O que deu nele? Como assim precisa me ver com urgência?


 


- Ele não me falou, mas está completamente transtornado Diana. Venha minha querida.


 


- Tia eu não posso jogar tudo pro alto assim e me mandar pro Brasil por causa de um chilique do Danilo. Tenho mil compromissos agora com essa exposição...


 


- Venha ao menos conversar com ele como está pedindo, depois você retorna aos seus compromissos, coisa de dois dias Diana.


 


- Vou tentar tia Alda, tente tranquiliza-lo.


            A novidade de Diana sobre sua possível ida ao Brasil, coincidiu com notícia semelhante de Rosana.


 


- Meu amor adivinha? A gravadora quer que eu lance o CD também no Brasil! Já agendou uma pré-estreia, e adivinha, para a próxima semana!


 


            Diana arregalou os olhos, demorando a processar a informação.


 


- Nossa! Isso é bom não é?


 


- Claro que sim meu amor!


 


- Então vamos juntas!


 


- Você vai comigo amor?


           


Rosana perguntou empolgada.


 


- Sim, meu irmão está tendo um ataque de amor fraterno e quer me ver, sofreu um acidente, deve estar com estresse pós-traumático...


           


Diana fez piada.


 


- Ele está bem?


 


- Segundo minha tia sim. Não tinha certeza sobre minha ida, mas já que você vai, vou com você.


 


            E assim, um ano depois da sua última ida ao Brasil, Diana regressou com Rosana ao seu país.


 


********


 


            As investigações acerca dos crimes de Acrisio estacionaram até o momento em que Natalia e Lucas conseguiram processar Nilton Silva, o suposto presidente da cooperativa que contratara os trabalhadores para a fazenda Verdes Canaviais. O montante de acusações envolvidas no processo deixou o laranja de Acrisio em maus lençóis, dando a certeza para Natalia sobre sua condenação. Assim, a promotora tinha esperanças de conseguir um acordo com Nilton para minimizar sua pena desde que ele colaborasse nas denúncias contra seu patrão.


 


            A expectativa de Natalia começou a mudar quando Lucas lhe revelou que nos depoimentos Nilton não parecia nenhum pouco inclinado a delatar os crimes de Acrisio, não se intimidando quando o delegado antecipou as consequências de seu caso ir a julgamento e os muitos anos de prisão que poderia resultar disso.


 


 


-- Natalia ele não vai abrir o bico. Acrisio deve ter lhe dado muitas garantias sobre sua absolvição, ou orientado sobre as manobras do nosso sistema. Para um pobre coitado como esse, o que são dois anos na cadeia se seu patrão assegurar o sustento de sua família? A gente sabe que por mais que ele seja condenado na melhor hipótese, com a redução de pena e todas as vantagens de réu primário e bom comportamento ele sairá em dois ou três anos.


 


- Lucas não é possível que Acrisio consiga nos deixar assim, de mãos e pés atados!


 


- Você soube do acidente do filho dele? O mais novo?


 


- O Danilo?


 


- Sim. Um acidente muito suspeito por sinal.


 


- Suspeito por quê?


 


- Isso é extraoficial. Por que o acidente sequer será investigado, ao menos em Mato Grosso do Sul, Acrisio tem total controle na polícia e de alguns juízes.


 


- O que há de suspeito no acidente?


 


- Danilo Toledo dirigia uma caminhonete em alta velocidade que saiu da estrada e capotou várias vezes nas terras do pai, na sua maior fazenda.


 


- O que há de suspeito nisso?


 


- Suspeito é que Douglas, o irmão dele o seguia em alta velocidade também. Dois empregados da fazenda testemunharam e relataram isso para bombeiro que fez o resgate de Danilo que ficou preso às ferragens. O mais suspeito, é que Douglas vinha atrás do irmão e não parou para socorrê-lo, simplesmente seguiu na estrada. Foram os empregados que ligaram para o corpo de bombeiros pedindo socorro.


 


- Mas isso já daria motivo para uma investigação!


 


- Os empregados negaram ter falado isso quando a polícia rodoviária chegou ao local, no exato momento em que Douglas chegava com uma ambulância de um hospital particular de Campo Grande.


 


- Muito estranho mesmo. Muito suspeito. Mas, Danilo está bem?


 


- Segundo o que foi divulgado, sim está bem, só algumas escoriações e o braço fraturado.


 


- Algo me diz que não devemos perder as esperanças Lucas. A hora de Acrisio Toledo vai chegar.


 


**************************


 


            No Brasil, Rosana ficou em São Paulo para acertar os detalhes de sua apresentação com os agentes da sua gravadora no país, enquanto Diana seguiu para Campo Grande a fim de atender ao pedido do irmão.


 


            Alda levou a sobrinha até o hospital que Danilo permanecia internado.


 


- Estou aqui Danilo. Espero que o que você tem a me falar justifique uma viagem intercontinental.


 


- Obrigada por vir minha irmã. O que vou te dizer hoje é uma tentativa de me redimir por anos de omissão e é quase um pedido de socorro.


 


- Ok você já tem minha total atenção.


 


            Diana se sentou ao lado do irmão no sofá cama do quarto.


 


- Eu sei que desde sua adolescência você não pode contar comigo nos seus embates com o papai, eu poderia ter te apoiado, poderia ter feito meu papel de irmão assim como fazia quando éramos crianças...


 


- Danilo você está me apavorando. O que houve? Você está doente? Isso é um pedido de perdão no leito de morte?


 


- Calma Diana. Você vai entender quando eu explicar tudo.


 


- Estou esperando.


 


- Faz alguns meses que descobri algumas práticas do papai e do Douglas com as quais não concordei e tentei consertar as coisas, mas, como você pode imaginar, fracassei nessas tentativas.


 


- Você pode ser mais claro Danilo?


 


- Você conhece a investigação sobre a fazenda do papai, a Verdes Canaviais, que foi alvo das denúncias de trabalho escravo, cárcere privado, de assassinatos de trabalhadores?


 


- Sim. Até fui lá tentar sondar algo sobre a veracidade dessas denúncias, mas só o que consegui foi mais uma briga com o papai.


 


- Pois bem Diana. Descobri que são todas reais essas denúncias.


 


- Como assim você descobriu? Você não sabia de nada?


 


- Diana você pode não acreditar em mim, mas meu envolvimento com os negócios do papai não incluem formação de quadrilha e essa série de crimes hediondos os quais não foram provados contra ele. Minha função sempre foi mais ligada ao marketing dele, até mesmo pela minha formação de publicitário.


 


- Conta outra Danilo! Você agora quer posar de santo pra mim? Você sempre foi capacho do papai. Vai dizer agora que você era um inocente marqueteiro político?


 


- Nem tanto Diana. Cometi atos ilícitos e imorais para manter a imagem do papai intacta. Subornei, chantageei, intimidei, manipulei, acredite não me orgulho disso, mas para ser Toledo Campos, o senhor Acrisio deixa muito claro suas regras.


 


- E você nunca soube dos assassinatos dos quais o papai foi suspeito de ser o mandante?


 


- Os únicos casos que tive a confirmação pelo próprio papai, foi da chamada solução definitiva dele, o sumiço de gente suja criminosa. Os métodos violentos do papai não eram segredo para mim, no entanto eu preferia só não me envolver, me omitindo na maioria das vezes.


 


- Você foi cúmplice do mesmo jeito. Por piores que fossem as pessoas que o papai aplicou sua solução definitiva para cala-las, isso foi assassinato, sem contar em ocultação de cadáver e tudo mais.


 


- Você tem razão. Eu não tenho a sua integridade minha irmã, mas não sou a mente criminosa por trás dos atos do papai.


 


- Disso não tenho dúvidas! O papai tem falta de escrúpulos o suficiente para se fazer criminoso sozinho.


 


- E se eu te disser que nosso irmão é pior do que o papai?


 


- O Douglas pior que o papai? Para com isso Danilo.


 


- O Douglas é sádico Diana. Ele é cruel, comete os crimes não por uma necessidade como o papai se justifica, ele os comete por prazer, com satisfação. Ele tortura pessoalmente os inimigos do papai. Foi isso o que descobri, testemunhei.


 


- O que exatamente você viu?


 


- Como te disse eu não me envolvia nessas armações violentas do papai com o Douglas e os capangas deles. Fui cúmplice por que chegava para eles e simplesmente expunha o problema, alguém que precisava ser calado, ser neutralizado, quando não cediam aos meus métodos mais sutis e ainda denunciava aqueles que não colaboravam, pouco tempo depois essas pessoas sumiam ou apareciam mortas em assaltos ou acidentes.


 


- E você não desconfiava de nada? Ai Danilo deixa de ser hipócrita!


 


- Claro que desconfiava, tinha certeza na verdade. Mas, me omitia. Lavava minhas mãos. Mas agora não posso mais me omitir Diana.


 


- Por quê? Por que testemunhou o Douglas matar alguém na fazenda e isso te traumatizou? Danilo não dá pra acreditar nisso.


 


- Não foi só um assassinato que testemunhei. Depois que vi a primeira morte de um trabalhador que estava tentando fugir das terras, fiquei abalado com o sadismo do Douglas, ele é doente Diana, completamente doente. Tanto que ao notar meu abalo ele começou a me levar para ver todas as vezes como ele resolvia as coisas, mais uma atitude sádica dele, me testando me provocando. Diana debaixo das terras da Verdes Canaviais tem um verdadeiro cemitério, provavelmente alguns corpos será difícil até o reconhecimento dada a crueldade com os quais foram mortos: amputações, esfolamentos, alguns foram completamente queimados vivos!


 


- Que horror! Para Danilo!


 


- O papai não conhece essa face do Douglas. Muitos desses assassinatos ele sequer tem conhecimento, nosso irmão está fora de controle, especialmente depois da morte da mamãe, desde então, o papai está mais ausente dos negócios, deixando tudo nas mãos do Douglas.


 


- Mas isso está acontecendo desde antes da morte da mamãe. O papai não é um inocente nisso.


 


- Não, não é. Mas não na dimensão que esse massacre tem.


 


- Ok, então conte a ele o que você viu.


 


- Fui isso o que tentei fazer depois de uma discussão que tive com Douglas na fazenda em Campo Grande, mas foi quando ele manifestou seu total descontrole, ele me seguiu enlouquecido, e me atirou fora da estrada.


 


- O quê?!


 


- Isso mesmo que ouviu.


- Danilo o que você está esperando para contar tudo ao papai?


 


- Esse é o problema Diana, por isso eu chamei você aqui. Preciso de você.


 


- Precisa de mim exatamente para que?


 


- Para me ajudar a proteger alguém muito especial para mim e depois disso, frear as insanidades do Douglas.


 


- Espera um pouco... Proteger alguém especial para você? Quem?


 


- Minha mulher.


 


- Han?! Sua o quê?


 


- Casei-me em segredo há cerca de dois anos Di.


 


- Mas... Como? Por quê? Você não namora a filha do rei da laranja? Por que casaram em segredo?


 


- Por que não me casei com Heloísa. Casei-me com Lídia.


 


- Lídia?


 


- Lídia, a filha de Bernadete, nossa cozinheira.


 


- O quê?! A Lídia, aquela menininha que brincava conosco? Danilo você ficou louco!


 


- Diana na adolescência, eu e Lídia namoramos, éramos completamente apaixonados, mas sei que o papai nunca aceitaria esse namoro, não tive coragem de enfrenta-lo, foi quando fui embora de Campo Grande para Brasília cursar minha faculdade, e Lídia foi morar com um tio no nordeste, lá ela fez faculdade também e há quatro anos voltou para Campo Grande e nos reencontramos e desde então estamos juntos. Há dois anos nos casamos, a mamãe sabia de tudo e prometeu me ajudar a contar tudo ao papai, mas logo em seguida ela adoeceu depois de uma briga que teve com Douglas.


 


- Briga com o Douglas? Foi por causa dele que a mamãe adoeceu?


 


- Diana o coração da mamãe já era muito frágil, não podemos culpar ninguém por isso.


 


            Diana levantou-se atordoada com a quantidade de revelações que o irmão despejara.


 


- Como você espera que eu te ajude a proteger a Lídia?


 


- Quero que você a tire do país Diana, estou pedindo isso a você porque o Douglas vai me vigiar todo tempo agora, ele descobriu sobre o meu casamento e está me chantageando, mas não vou retroceder, mas para isso, preciso que Lídia esteja a salvo com nosso filho que ela está carregando.


 


- Filho?


 


- É, ela está grávida de pouco mais de oito semanas. – Danilo falou emocionado.


 


- Meu Deus! Você está tão ferrado meu irmão... Você vai acabar com os planos do papai de fundir o açúcar dele com a laranja do pai da Heloísa...


 


            Danilo não segurou o riso.


 


- Diana, quero desbaratar essa quadrilha que o Douglas lidera.


 


- Você está ciente que o líder é o nosso pai? Que fatalmente isso também vai respingar em você? Nos crimes que você também cometeu?


 


- Bom, eu também conto com seu apoio para isso. O delegado das investigações é seu amigo, a promotora é sua ex-namorada. Quero fazer um acordo, usar a delação premiada como benefício.


 


- Danilo isso é muito corajoso de sua parte, mas não sei se é a saída mais inteligente. Parecerá um complô nosso contra o papai e o Douglas...


 


- Diana escute-me – Danilo interrompeu. – Eu quero estar vivo e ao lado do meu filho quando ele nascer, quando ele crescer, ser o pai que não tivemos. Quero que ele sinta orgulho do pai que tem, não quero que ele cresça e descubra que o pai é um covarde e criminoso. O papai cometeu muitos erros e crimes, mas na prática, há muito pouco a se provar contra ele, mas o Douglas vem deixando um rastro de mortes que será muito difícil ocultar.


 


- Não consigo enxergar diferenças entre o papai e o Douglas.


 


- Acredite em mim Diana, o Douglas é muito pior. Ele não tem só a malícia e a sede de poder do papai, ele tem a crueldade, inteligência e, sobretudo o prazer em ostentar seu poder, seus atos violentos como uma qualidade. O papai nunca faria algo contra nossa integridade física, o Douglas tentou me matar!


 


- Ai eu não sei Danilo.


 


- Diana eu conheço o papai, e conheço nosso irmão. O papai tem essa moral própria dele, a ética dele é completamente questionável, isso é verdade. Mas ele não cometeria as atrocidades que o Douglas tem praticado esses anos. Ele acredita estar fazendo justiça, acredita estar protegendo a família, que isso tudo que faz é parte de um grande legado a nos deixar...


 


- Pode parar Danilo! Só falta você me dizer que o papai é um grande homem exemplar!


 


- Para algumas pessoas sim! Um homem que veio do nada, tudo que tinha era a herança do avô de um punhado de terra, e construiu um império. Diana, nosso pai não recebeu uma educação convencional, os valores eram outros, ele protegia seus bens como podia, o campo era terra sem lei.


 


- Não posso aceitar esse conceito assim Danilo. O fato do papai ter vindo do nada, aprendido a ler e escrever quando conheceu a mamãe, e toda história dele na política não o exime das culpas pelos crimes que ele cometeu nesse percurso, logo ele que vivia lendo sobre leis, até falava em latim! Passar por cima dessas leis, e por cima de todos que tentam cumpri-la é injustificável, inaceitável!


 


- Diana!  O papai só suborna, compra sentenças por que tem gente disposto a se vender, a se corromper!


 


- Essa discussão não vai nos levar a nada. Sua defesa não vai mudar o que penso sobre o papai. Se você está mesmo disposto a levar esse seu plano adiante, saiba que terá que expor também tudo que o papai fez pelo menos o que puder ser provado e se preparar também para pagar pelo que você fez.


- Você está do meu lado nesse plano?


- Não sei se estou disposta a me tornar uma justiceira contra Acrisio Toledo, e agora contra o Douglas também. Penso na mamãe sabe? Como ela ficaria se estivesse viva nos vendo assim: unidos contra nosso pai e nosso irmão.


 


- Minha irmã, sente-se aqui.


 


            Danilo segurou a mão de Diana e prosseguiu:


 


- Você sabe que foi justamente essa avalanche de escândalos, crimes e sujeiras que fragilizou nossa mãe. Até o papai reconhece isso. Isso tem que parar minha irmã. Além do mais, você tem outro motivo para aceitar meu pedido.


 


- Que motivo?


 


- É a única forma de proteger a Natalia de qualquer mal que o papai ou Douglas possam cometer contra ela. Eles não fizeram nada até agora, por que já faz um tempo que ela não consegue nada contra eles, mas a qualquer hora a bomba vai explodir. Os trabalhadores estão revoltados, se eles se organizarem e lutarem contra os capangas da fazenda, a Verdes Canaviais vai protagonizar outro massacre e aí o caos vai estar instalado e a polícia e o Ministério Público vai ter munição suficiente, mas a custa de muitas vidas, pra se livrar da condenação nem o papai, nem o Douglas vão poupar esforços, e Natalia estará na mira deles.


 


            Diana ficou pensativa por alguns segundos, antevendo as consequências daqueles fatos que o irmão previu, e encheu-se de temor pela vida de Natalia, além de imaginar a tragédia que poderia acontecer a trabalhadores inocentes.


 


- Tudo bem meu irmão. Estou com você nessa. Hoje mesmo vou ligar para um amigo meu em Nova Iorque, ele é muito bem relacionado, vamos encontrar algum sítio, alguma propriedade afastada dos grandes centros dos Estados Unidos, mas que ofereça conforto e segurança para Lídia.


 


- Ótimo. A Bernadete vai com ela e um segurança que trabalha comigo, de total confiança. Assim que ela estiver fora do país, começaremos a agir, o primeiro passo é uma conversa com a promotora Natalia Ferronato.


 


*************


 


            O show da pré-estreia do CD de Rosana, agora Miss Flower, foi dirigido para um público seleto de convidados da gravadora. Pessoas influentes no meio comercial fonográfico, mídia, celebridades e empresários ligados ao ramo cultural. A casa estava cheia, o que obviamente deixou Rosana além de feliz, muito nervosa.


            Diana estava ao lado dela todo tempo, compartilhando as emoções da namorada que vislumbrava um salto na sua carreira também no Brasil, tantos anos depois de partir do seu país de origem com poucas expectativas para sua carreira artística.


- Meu bem, será um sucesso, tenho certeza.


 


- Obrigada por estar aqui comigo meu amor. – Rosana falou segurando as mãos de Diana.


 


- Se alguém aqui merece gratidão é você, a minha gratidão, por não ter desistido de mim, eu não poderia estar em outro lugar que não fosse ao seu lado compartilhando sua felicidade. Não poderia e nem ia querer também! Estou muito orgulhosa de você.


 


            As palavras honestas de Diana emocionaram Rosana, e mais que isso lhe deu uma motivação a mais para brilhar naquele palco, e foi o que ela fez. A cantora conquistou o público com sua voz inigualável e seu carisma tão brasileiro. Além do ritmo envolvente das suas composições, Rosana incluiu sucessos populares da “world music”, imprimindo seu talento nas versões.


 


            Na plateia, uma admiradora do seu trabalho, desde que viu sua apresentação em Nova Iorque aplaudia empolgada o show de Rosana, ignorando a ironia do destino que as unia. Eduarda era uma das patrocinadoras da vinda de Miss Flower ao Brasil naquela pré-estreia, e já era fã incondicional do trabalho dela, tanto que insistiu com Natalia para acompanha-la ao espetáculo. No entanto, a promotora exatamente naquele dia, ficou presa em uma audiência e não pode estar com Eduarda no show. Durante a apresentação a empresária insistia com a namorada:


 


- Meu amor ainda não acabou essa audiência?


 


- Sim, já acabou. Mas não estou vestida para ir a um show Duda. E mesmo que eu fosse já teria acabado quando eu chegasse aí.


 


- Então vá para a Lances, convidei a cantora e alguns produtores para jantarmos lá.


 


- Tudo bem eu estou indo para lá.


 

2.15 Ex abrupto por contosdamel
Notas do autor:

De repente; inopinadamente. 

Rosana comemorava no camarim com Diana a ovação que recebera ao final do espetáculo quando um dos produtores surgiu parabenizando-a e convidando-a para o jantar com uma patrocinadora em uma Boate no centro da cidade.


 


- Jantar em uma boate?


 


- Não é só uma boate, tem um espaço gastronômico lá, é bem interessante.


 


- Então vamos não é amor?


 


            Diana sorriu e acenou em acordo. Seguiram para a Lances, elas não imaginavam quem o destino colocou no caminho delas naquela noite.


 


*********


 


            Natalia já esperava Eduarda quando ela chegou à boate a fim de acertar os detalhes para o jantar.


 


- Eles chegam daqui a pouco. Meu amor queria tanto que você tivesse ido à apresentação. Ela é espetacular! Desde que vi a apresentação no Queens fiquei encantada com o estilo dela.


 


- Teremos outra oportunidade. Mas trate de conter essa empolgação viu? Esses adjetivos aí você só pode direcionar a mim!


 


- Que ciumentaaaa!


 


            Eduarda abraçou Natalia fazendo cócegas na sua cintura, arrancando os sorrisos da namorada, quando os convidados para o jantar adentraram pelo espaço reservado para o evento.


 


- Chegaram amor.


 


            Eduarda anunciou se desvencilhando dos braços de Natalia. Os segundos seguintes foram de choque para os dois casais: um em frente ao outro. Diana e Rosana encarando pálidas as não menos atônitas Natalia e Eduarda.


 


            Até a música pareceu não ser ouvida.


 


            Os olhos de Natalia e Diana se encontraram por segundos, o suficiente para fazer romper um casulo cheio de lembranças, mágoas, saudades e desejos confundidos por uma estupefação óbvia na reação de ambas. As esmeraldas cintilantes no rosto das duas evidenciaram quão vivo era o sentimento que as atraía ainda, ao menos para elas que sentiram cada célula do seu corpo reagir naquele reencontro.


 


            Rosana teve a sobriedade suficiente para quebrar o clima constrangedor instalado e apresentou fingindo naturalidade:


 


- Olá Natalia, quanto tempo! Como vai? Que surpresa reencontrá-la!


           


            A cantora cumprimentou com simpatia Natalia, visivelmente atordoada mal conseguiu retribuir aos dois beijinhos de comadre. A promotora sentia-se incapaz de pronunciar uma palavra, a mais simples que fosse sentindo seu coração saltar à boca, assim apenas sorriu.


 


- Você eu não conheço ainda. – Rosana se dirigiu à Eduarda.


 


- Que anfitriã mais relapsa que sou! Desculpe-me, Eduarda Lancester.


           


            A empresária estendeu a mão para Rosana empolgada.


 


- Sou fã do seu trabalho desde que a vi em um bar no Queens a cerca de dois anos.


 


- Fico lisonjeada com sua admiração Eduarda. Deixe-me apresentar, essa é Diana Toledo Campos, minha parceira.


 


            Rosana mantinha sua postura a fim de minimizar o desconforto, mas ficou reticente na escolha do título para apresentar Diana. Eduarda estendeu a mão para a loirinha e disse:


 


- Também sou uma admiradora do seu trabalho Diana, vi algumas exposições suas em Nova Iorque também.


 


            A exemplo de Natalia, Diana limitou-se a sorrir e retribuir o cumprimento de Eduarda não conseguindo se expressar.


 


- Creio que vocês já se conhecem não é?


 


            Eduarda disse apertando a cintura de Natalia encarando a namorada objetivando tirá-la do estado de choque que ela aparentava estar.


 


- Claro, como vai Diana? - Natalia perguntou com a voz trêmula.


 


- Bem e você Natalia? – Diana respondeu pálida.


 


            Não ousaram um contato físico, o choque do reencontro desenvolveu uma espécie de campo de força que as isolava.


 


- Miss Flower é uma honra recebe-la, vamos nos acomodar? – Eduarda convidou.


 


- Ah! Por favor, me chame pelo nome, Rosana Campos.


 


- Campos? – Eduarda franziu o cenho. – Vocês são casadas?


 


            A pergunta de Eduarda empalideceu mais uma vez Natalia e Diana imediatamente.


 


- Ah... Ainda não, é só uma coincidência de sobrenomes mesmo.


 


            Rosana respondeu sem graça.


 


- Quando se casarem nem vão estranhar a mudança não é?


           


 


            Eduarda tentou brincar, mas, o desconforto da situação não permitia descontração.  Acompanhados de dois produtores que se aproximaram os dois casais se acomodaram na mesa preparada para o jantar que mesmo antes de ser servido já mostrava ser indigesto.


 


            O esforço de Rosana e Eduarda para promover a cordialidade naquele clima de saia justa do destino não teve efeito nas suas respectivas namoradas, que limitaram suas manifestações durante as conversas variadas emplacadas pela empresária e pela cantora. As tentativas de qualquer troca de carinhos entre elas foram discretamente freadas pelo constrangimento gritante.


 


            Não suportando o peso daquela situação Natalia cochichou para Eduarda:


 


- Estou cansada, você se incomoda se eu for pra casa agora?


 


- Claro que me incomodo meu amor.


 


            Deduzindo o que se passava, Diana pediu a Rosana:


 


- Meu bem, vamos indo? Temos uma agenda cheia amanhã.


 


- Temos? – Rosana franziu a testa.


 


- Sim, temos... – Diana apertou o joelho da namorada sinalizando a desculpa para encerrar o jantar.


 


- Ah! Sim, temos sim! Que cabeça a minha! Diana tem dezenas de coisas a fazer amanhã.


 


            O mal estar instalado evidente configurou-se em tortura para Natalia e Diana. O fim do jantar representou o anúncio das consequências daquela noite para os dois casais.


            No caminho para o hotel Diana permaneceu muda, com o olhar distante contemplando a paisagem da janela do carro. Rosana temendo enfrentar a sua própria insegurança preferiu dar espaço a loirinha, limitando qualquer diálogo no trajeto, supondo o impacto daquele reencontro na estabilidade do namoro delas.


            Acomodadas na suíte, a cantora e a fotógrafa trocaram poucas palavras, até Rosana romper a barreira de interrogações a respeito dos sentimentos da namorada para indagar:


 


- Você está bem?


 


- Um pouco aturdida. Sinto-me um pouco zonza.


 


- Seu reencontro com Natalia te abalou tanto assim?


 


- Claro que me abalou Rosana, mas não se trata só do encontro com Natalia. Esqueceu-se da minha conversa com Danilo?


 


- Você não me deu detalhes da conversa.


 


- São coisas tão escabrosas que não quis te deixar tensa antes do show, preferi falar depois da sua apresentação.


 


- Nossa... Quer me contar agora?


 


- Está tarde, foi um dia muito intenso, estou cansada, amanhã te conto tudo minha querida. Vamos dormir.


 


- Tem certeza?


 


            Diana acenou em acordo e apagou a luz do abajur, recolhendo-se alheia aos carinhos de Rosana. No pensamento a loirinha refazia seu encontro dom Natalia e a imagem da promotora não deixava sua mente tirando seu sono. Sentiu-se sem espaço, sufocada naquela cama ao lado de Rosana, sentou-se no sofá da suíte e olhando pela janela a selva de prédios e luzes da noite paulistana, Diana se perdeu no emaranhado de emoções e fatos, coincidências e providências que o destino preparara para trazer Natalia de volta à sua vida. Assim assistiu o amanhecer da cidade. O dia que acabara de nascer deu a certeza à loirinha que aquela armadilha do destino teria mais efeitos em sua vida do que ela podia supor.


 


**************


 


            Natalia não escondeu o abalo da noite. Visivelmente exausta no escritório da namorada avisou:


 


- Duda eu estou indo para casa. Preciso descansar.


 


- Vamos pro meu apartamento então.


 


- Duda, eu estou exausta, você ainda vai demorar.


 


            Eduarda se aproximou de Natalia acariciando seu pescoço, tentando provocar a namorada.


 


- Descanse aqui, depois vamos para meu apartamento.


 


- Não minha querida. Vou para casa, nos vemos amanhã.


 


            Natalia respondeu se desvencilhando dos braços de Eduarda, recusando suas investidas. Irritada Eduarda comentou:


 


- Por que isso agora? Você sempre dorme aqui e depois vai comigo pra meu apartamento, está assim tão abalada por rever sua ex?


 


            Natalia bufou nitidamente contrariada.


 


- Eduarda eu passei o dia inteiro em um julgamento interminável, saí do fórum direto pra cá para te fazer companhia nesse jantar, te compensar porque não fui ao tal show. Amanhã tenho o dia inteiro de audiências, estou exausta!


 


            Insatisfeita com o tom da namorada, a empresária retrucou:


 


- Essa é sua rotina e você nunca deixou de dormir comigo quando pedi.


 


- Que seja a primeira vez então. Estou cansada Eduarda, preciso de algumas horas de sono. Por que isso tem que virar uma DR?


 


- Por que você está aí toda balançada por ter visto seu grande amor. Eu sabia que quando você se reencontrasse com ela isso ia acontecer! A prova está aí. Morrendo de ciúmes da Diana, você ainda é louca por ela! Eu sabia!


 


- Como é que é? Você sabia? Que prova Eduarda? Espere... Você fez isso de propósito não foi? Fez tanto empenho para eu que eu te acompanhasse nesse show, como não deu certo inventou esse jantar aqui. Você sabia que ela era a namorada da Diana não sabia?


 


- Você está sendo ridícula Natalia! Acha mesmo que sou desse tipo de mulher? Acha que sou capaz dessas armações?


 


- É o que está parecendo.


 


- Quer saber? Vá para sua casa, agora sou eu que não quero dormir com você hoje. Por que hoje você vai dormir com Diana Toledo no pensamento, não quero ouvir de novo você chamando por ela nos seus sonhos ou pior enquanto transa comigo!


 


- Pois eu vou mesmo! Boa noite Eduarda Lancester!


 


            Natalia recolheu suas coisas e saiu pisando firme do escritório de Eduarda batendo a porta com toda força deixando Eduarda transtornada a ponto de arremessar ao chão tudo que estava em sua mesa descarregando sua raiva com a namorada.


 


*************************


 


           


            Rosana acordou e não encontrou Diana ao seu lado nem muito menos no quarto.  Apreensiva rememorando a noite anterior ligou para a namorada a fim de saber seu paradeiro, mas se deu conta que a chamada do celular ecoava no próprio quarto e achou o aparelho de Diana sobre a cabeceira da cama. A apreensão motivou as dezenas de hipóteses a respeito do estado da namorada, a maioria delas antevia o fim do seu namoro com a loirinha, deprimindo Rosana.


 


            No início da tarde Diana retornou ao hotel para o alívio de Rosana.


 


- Meu amor onde você estava? Estava preocupada aqui, não me avisou nada, e esqueceu-se do celular...


 


- Calma Rô...


           


            Diana beijou os lábios de Rosana delicadamente.


 


- Eu não quis te acordar, você estava dormindo tão tranquilamente... Não avisei por que achei que quando eu voltasse você ainda estaria dormindo, pensei que não ia demorar por isso não levei o celular.


 


- Por que demorou então?


 


- Precisei solicitar uma grande soma de dinheiro ao meu banco aqui no Brasil para enviar para o Marco e a burocracia é enorme para desbloquear... Enfim, demorou mais do que eu imaginava.


 


- Marco? Por quê?


 


- Pedi que ele procurasse uma propriedade para locar ou comprar, afastada de Nova Iorque, para abrigar a mulher de Danilo.


 


- Danilo? Mas, ele casou quando?


 


- Longa história honey, vamos almoçar, te conto tudo.


 


***************


 


            O humor de cão de Natalia assustou até mesmo Joana, sua secretária rabugenta que advertiu Carla antes que ela entrasse no gabinete.


 


- Bom dia chefe. Vim avisar que as audiências da manhã foram adiadas.


 


- Era de se esperar se tratando daquele nojento juiz Alencar. Filho da mãe corrupto deve ter sido comprado e está dando tempo à defesa forjar provas!


 


- Ops... Tem gente de mau humor mesmo hoje, bem que me avisaram.


 


            A tentativa de brincadeira da assessora não teve a receptividade esperada. Natalia espalhou os papéis pela mesa procurando algum documento, como não encontrara naquele amontoado, pronunciou alguns palavrões misturados a insultos ao causador desconhecido da bagunça que se transformou seus arquivos na mesa.


 


- Natália o que você está procurando? Posso ajudar?


 


            A promotora nem se deu ao trabalho de responder a sua assistente, concentrada nos resmungos solitários. A chamada do celular só a irritou mais.


 


- Natalia é a Eduarda, não vai atender?


 


            A resposta de Natalia foi o gesto de desligar o aparelho, furiosa.


 


- Ok Natalia chega!


 


            Carla segurou as mãos da chefe, sacudindo os ombros de Natalia chamando sua atenção:


 


- Você vai se acalmar e me contar agora o que está acontecendo antes que você coloque fogo nesse gabinete com as brasas que estão saindo pelo seu nariz!


 


            Rendida à necessidade de desabafar, Natalia jogou seu corpo contra a poltrona, respirou fundo e disse:


 


- A culpa é dela! De novo ela! Ela chega e bagunça minha vida, sempre assim!


 


- Dela? Tudo isso é por causa da Eduarda? Vocês brigaram? O que houve foi tão grave assim?


 


- Não estou falando da Eduarda, falo da Diana.


 


- Oi?


 


- Isso mesmo que você ouviu: Diana. Ontem tivemos um encontro de casais em um jantar que me embrulha o estômago até agora só de lembrar.


 


- Espera Natalia, não estou entendendo nada. Como assim jantar de casais? Ontem você não ia jantar com uma cantora que a Eduarda estava patrocinando?