Fronteiras por millah
Summary:

Que tipo de fronteiras você seria capaz de cruzar para que sua filha realizasse seus sonhos? Que tipo de fronteiras você seria capaz de cruzar para proteger sua mãe? Seus amigos? E que tipo de fronteiras você seria capaz de cruzar para proteger o seu morro? O destino vai encarregar que nada seja tão fácil no fim do mundo.


Categoria: Contos, Romances Characters: Original
Challenges:
Series: Nenhum
Capítulos: 43 Completa: Não Palavras: 146891 Leituras: 13916 Publicada: 26/06/2021 Atualizada: 16/05/2022
Notas:

Mais uma das minhas historias e essa é bem minha queridinha. tem tudo que eu gosto fim do mundo.zumbis e mulheres fodas.

espero que curtam e comentem para avaliação dos padrões de qualidade isso é super importante.sejam criticas ou elogios a gente ta aqui pra isso.

Sejam bem vindas a fronteiras do inicio do fim e boa leitura

1. Capitulo 1 A garota,a mãe e a rainha do morro da prata. por millah

2. Capitulo 2 Fogo contra fogo por millah

3. Capitulo 3 Sem ar por millah

4. Capitulo 4 Uma surpresa por millah

5. Capitulo 5 Na boca do povo por millah

6. Capitulo 6 Nada mais que um dia comum por millah

7. Capitulo 7 Confiança é a base de toda relação por millah

8. Capitulo 8 SAVE THE DATE por millah

9. Capitulo 9 Esses sentimentos me aprisionam ou me libertam de você? por millah

10. Capitulo 10 Acredite se quiser por millah

11. Capitulo 11 O caminho de migalhas por millah

12. Capitulo 12 Escudo necessário por millah

13. Capitulo 13 O lado bom de um raramente sempre é pago outro dia por millah

14. Capitulo 14 Mais que amigos? por millah

15. Capitulo 15 A dona do morro tem seus meios.. por millah

16. Capitulo 16 Uma festa de incertezas por millah

17. Capitulo 17 no fim a festa sempre acaba por millah

18. Capitulo 18 conexões por millah

19. Capitulo 19 O diario por millah

20. Capitulo 20 Sob pressão por millah

21. Capitulo 21 O cão por millah

22. Capitulo 22 O plano da rainha do morro por millah

23. Capitulo 23 o roubo quase perfeito por millah

24. Capitulo 24 os novos dias são assustadores por millah

25. Capitulo 25 Corpo recheado por millah

26. Capitulo 26 O casal perdido por millah

27. Capitulo 27 Ela tentou por millah

28. Capitulo 28 Aquela sua parte presa no casulo por millah

29. Capitulo A garota e suas mais novas noticias por millah

30. Capitulo 30 A princesinha samurai por millah

31. Capitulo 31 Duas cabeças pensam melhor do que uma por millah

32. Capitulo 32 hora das compras por millah

33. Capitulo 33 Não estamos tão sozinhos por millah

34. Capitulo 34 O que fazemos no tempo livre por millah

35. Capitulo 35 A boa filha ao morro retorna por millah

36. Capitulo 36 A espera pela decisão por millah

37. Capitulo 37 Somos uma boa equipe..não è? por millah

38. Capitulo 38 nossas melhores versões por millah

39. Capitulo 39 trilha em chamas por millah

40. Capitulo 40 A votação por millah

41. Capitulo 41 Dois corpos de molho por millah

42. Capitulo 42 Reino Ameaçado por millah

43. Capitulo 43 O conto do flautista por millah

Capitulo 1 A garota,a mãe e a rainha do morro da prata. por millah

 

A minha vida começou na favela. Minha mãe me teve literalmente descendo as escadas do labirinto de casas e vielas, desviando de becos escuros e indo o mais rápido que podia para me confortar além do terror que ela já sentia e quando ela gritou no meio da calada da noite eu cai do meio de suas pernas e por sorte não me arrebentei inteira nos degraus graças ao cordão umbilical. Ninguém se importou com ela quando ela desmaiou de tão cansada e ali dormimos ate o sol raiar e a primeira coisa que vi além da cara entristecida e doente da minha mãe era a cara de pena de varias pessoas ao nosso redor.

 É uma memoria tão estranha para se lembrar. Eles nos levaram no hospital e lá ganhei meu nome. Maria e que originalidade da minha mãe. Eu devia ser mais uma Maria em meio às milhares e ninguém ligou, ninguém ligava para nós.

Volta pra vida mulher e leva tua cria.

 Devem ter dito isso. Era uma vida difícil para uma mulher como minha mãe. A vida sempre era para uma mulher solteira e pobre como nós.

Mas não era impossível.

Morávamos na casinha mais feia daquela favela e era horrível receber tratamento especial ate dos pobres como nós. Era uma hipocrisia e eu cresci vendo minha mãe sorrir a cada um deles mesmo depois ouvir as merdas que eles falavam da gente pelas costas. Diziam mil mentiras. Mil teorias de nossas vidas. Diziam que eu era filha de traficante, de estuprador, até de um velho do interior que minha mãe enganou. A mais surpreendente era que nos escondíamos da policia. Ninguém sabia quem era meu pai e muito menos queriam saber da minha mãe. Ninguém nunca via ela acordar as quatro da manha e ir trabalhar fazendo faxina nas casas das madames de prédios chiques bem ao lado da nossa favelinha ou as vezes voltar tão tarde por trabalhar tão longe.

Eu tinha seis quando eu a acompanhei pela primeira vez ao trabalho, eu estava tão empolgada, íamos passear juntas eu pensava. Quando chegamos vi minha mãe ser tratada como bicho na casa da velha patroa e o filho dela me jogava pedras e me molhava com aquelas malditas pistolinhas de agua. Acho que peguei um trauma de armas dali. Aquele garoto me fez parecer que tinha me mijado e eu tinha que ficar lá calada com cara de idiota, quietinha. Eles se achavam melhores do que nós por morar na porra de um apartamento e que tinha a mesma vista linda da nossa favela. Também era por isso que rico tinha cortinas enormes, para não ter pena da gente quando não quisesse mais olhar pela janela.

Quando entrei no colégio eu tentei fazer tudo direitinho e me ceguei para as gangues que já se formavam. Da maconha que todos fumavam e do cheiro que me dava dor de cabeça. Eu tentei me concentrar em todo conteúdo e não ficar chapada com toda fumaça ou tentar não me assustar com as brigas e cadeiras que jogavam nos professores. Éramos animais aos olhos de todos e isso me enchia de raiva. Eu não era um animal e estava ali pela minha mãe. Eu ia tirar ela desse lugar. Eu ia tirar ela do morro da prata.

Terminei os estudos e dei graças a deus por isso. Quando deixei o ensino médio e vi o rosto da minha mãe brilhar de alegria eu me vi dando uma esperança para ela, algo que ela pudesse acreditar. Algo que fez as outras mãezinhas da comunidade me invejarem pela boa filha que eu tinha me tornado e não tinha abandonado a escola como a maioria. Era muito bom ver ela feliz mas nem meu certificado mudava o fato que ainda precisávamos de dinheiro e comida.

 Por isso procurei um emprego. Eu tinha que achar um que me aceitasse o mais rápido possível. Atropelando todas as minhas vontades e sonhos de um dia ser medica para pensar antes em nós. Quanto mais tempo eu procurava mais chances eu teria, mas não era tão fácil assim e nem tão simples como na teoria.

Eu rodei os shoppings, as lojas, os mercadinhos, os carrinhos de lanche de rua tudo, nada queria uma garota que morava na favela para seu negocio. Me falaram que eu precisava de um curso para ser aceita e o curso mais barato custava todo o salario da minha mãe. Não morreríamos de fome por curso nenhum. Foi ai que comecei a fazer bicos pelo morro. Eu era baba de uma criança ali, lavava toneladas de roupas aculá.

Precisávamos de dinheiro e eu não tinha tempo para a porra das provas de vestibular e toda a ilusão de seguir meu sonho e todo meu dinheiro ia pra nossa comida ou para o aluguel da casa por incrível que pareça, eram trocados que valiam mais que milhões para mim. Então, num belo dia descobri os cursos gratuitos da comunidade recém abertos mas também descobri a frustração que aquilo era. Ninguém ligava se você ia aprender alguma coisa naqueles computadores defeituosos com uma aula gravada sendo rodada por uma net que caia a cada minuto. Os professores nunca estavam por lá e isso não era nem o começo, havia coisas maiores para me distrair quando todos morriam de medo do furacão que fazia tudo tremer.

Marga, a mulher com o sorriso malicioso, os cabelos pretos e curtos e bem alinhados na altura dos ombros tinham o corte perfeito e sua beleza fria nada se comparava com sua fama de tão temida como o próprio diabo. Ela dominava o morro da prata e não aceitava homem algum no seu exercito que a cada dia crescia. Ela dizia que se tem duas cabeças e não pensa com nenhuma não presta pra nada, muito menos com uma arma. Ela falava e todos obedeciam. A rainha da porra toda. E se a rainha queria você no exercito dela você não pensava você aceitava e era como ganhar na loteria para algumas. Dava as mulheres um pouco de orgulho próprio mas nada de bom saia de Marga.eu não tinha medo dela mas me escondia toda vez que ela surgia nos lugares onde eu ia por causa da minha mãe. Aquela merda de curso vagabundo era um desses lugares que ela adorava infernizar e buscar novas células para seu exercito. Eu fazia isto pela minha mãe e eu não entendia porque Marga insistia em estar em todos os lugares em que eu me encontrava. Eu não queria aquele lugar plantando suas raízes em mim, penetrando e sugando toda coisa boa minha e manchando minha alma com uma guerra de gangues sem logica ou por uma simples vontade de Marga. Ela me caçava e eu fugia porem quando se é a merda de uma rainha do morro todos os olhos e ouvidos passam a ser os seus e depois de mais um dia cansativo eu voltei para casa e a melhor parte desse dia fodido foi encontrar Marga tomando um café com minha mãe.

--cafezinho gostoso mamãe.—disse ela deixando minha mãe calada com o elogio.

--Mari.—minha mãe parecia aliviada ao me ver tanto que se ergueu da cadeira e veio a mim.--Marga queria te ver.—falou minha mãe observando cada expressão minha. Ela não estava gostando nada mas estava ali aturando a companhia de Marga em nossa casa.

--gostei desse apelido..Mari. É por isso que não ouvia quando eu te chamava?—perguntou Marga se referindo as varias vezes que fugi só que ela não me assustava.

--Mari ta estudando Marga. Esta fazendo um curso e ta procurando emprego. Ela ta sempre ocupada.

--eu sei muito bem disso. Não tem tempo nem pra mim. vamo lá fora. Quero saber mais desse curso.

Ela levantou da cadeira agradeceu minha mãe e Marga não era amigável com ninguém e ali em casa ela estava sendo um anjo duvidoso demais. Ela pousou sua mão no meu ombro e caminhamos lá pra fora. Foi a primeira vez que não vi os vizinhos me criticando com todos aqueles olhos críticos. Na verdade eles nem estavam mais lá e o beco ficou vazio em segundos quando começamos a caminhar. Para mim era novidade, mas para Marga era algo normal.

Também podia, Marga tinha suas guarda costas. Munidas de fuzis e facões pendurados na cintura por coldres bainhas. Eram mulheres de todas as idades, todas perigosas da mesma forma. Todas com seus rostos marcados pela violência e brutalidade da vida. A raiva estava estampada mas para mim eram apenas soldados do crime.

--vamo lá em casa.—falou ela colocando o braço em meu ombro. Era muita intimidade da qual não tínhamos.

--O que tem pra falar pra mim que não pode falar aqui?

Marga me olhou e se pudesse arrancaria minha língua mas um fuzil na minha cara foi minha surpresa. O furo do cano gelado na minha bochecha me fez temer pelo que aconteceria depois.

--e se eu furar sua cara com uma bala vai preferir subir ou ainda vai querer conversar aqui??

Era a Lina,o braço direito da Marga. Ela era um problema de 1,75 de altura e altamente explosiva e com aquele fuzil na minha cara ela se achava poderosa o suficiente para explodir meus miolos e pior que ela era mas Marga abaixou o cano e ela sossegou mesmo contra sua vontade.

--ela vai para minha casa e não vai ganhar um arranhão..só se quiser.(rs).—ela sorriu e aquele sorriso me preocupava.

A casa da Marga era a casa mais luxuosa do morro mais também a mais escondida. Ficava no alto, quase no topo da montanha escondido por ser feita dentro da pedra e camuflada pela mata verde. Era impossível alguém de fora descobrir e apenas poucas pessoas privilegiadas conheciam sua real localização já que era afastada das outras casas. Ainda me lembro do dia que descobri este segredo, eu tinha doze quando a segui só para passar bem longe de onde essa maluca morava.

O caminho era de dar calafrios. Um labirinto de casas e becos que subiam o morro e logo depois a trilha invisível na mata. Seguíamos caminhando com ela na minha frente e Lina nas minhas costas me olhando feio e por todos os lados seu exercito de mulheres ficavam evidentes. Armadas, vigiavam incansavelmente o caminho da rainha e não era difícil entender do porque da policia jamais alcançar metade deste caminho. Tudo era organizado e com Lina no controle de tudo Marga podia ser juíza, acusadora e dona daquela porra de morro.

Logo chegamos e o paredão de pedra que parecia fim do nosso caminho se revelou a passagem secreta para sua mansão. Quando a porta se abriu era como visitar um desses apartamentos que minha mãe limpava, tudo brilhava, tudo era novo. Tudo era caro demais. A recepção era chique o bastante para me constranger e o barzinho que ela tinha num cantinho foi a primeira parada de Marga.

--soube que quer fazer um curso. Um decente.—disse Marga para minha surpresa enquanto preparava sua bebida.

Fiquei com medo ate de responder e com Lina me encarando feio eu não tinha muitas escolhas.

--é, para uma vaga de emprego.—expliquei e ela abriu um sorriso.

--(rs) isso me traz tantas lembranças.—ela me respondeu e Lina riu.

Marga veio a mim com dois copos e me ofereceu um.

--eu não bebo.—falei mas Marga continuou estática.

--agora bebe.—disse Lina ao meu ouvido e isto me fez gelar.

--pode ir Lina.—Marga falou e Lina a olhou surpreendida pela ordem mas acatou e saiu.

Marga tomou sua bebida e a minha e todo seu jeito poderosa me encarando estava me fazendo contar os segundos para partir. Ela me olhava estranho, analítico e cheio de obscuras intenções das quais me enchiam de curiosidade. Fugi dela como o diabo foge da cruz e agora estava ali imaginando porque a dona do morro queria tanto saber sobre mim.

--você lembra a mim. Lutando para fazer meu nome, acreditando que a sociedade adoraria meu grande entusiasmo. (rs) ate ela cuspir na minha cara e dizer que era chuva.eu tentei e como tentei (rs) ate o dia que conheci sua mãe.—me atentei a sua historia. Minha mãe?

--conheceu minha mãe? Ela..nunca me falou de você.

--sério?(rs)talvez agora seja diferente..sabe, fui eu quem ajudei ela quando ela praticamente pariu você nas escadas.

--o que?—aquilo me assustou.

--era pra eu estar na faculdade e preferi vir ao morro e ela estava lá sentada nas escadas principais rodeada de gente com você nos braços. Era tão cedinho. Pensei ate que estava morta..tive que fazer alguma coisa. Nenhum hospital queria aceitar ela e você. Você praticamente rasgou sua mãe para sair e ela conseguiu o grande feito de pintar todo caminho de vermelho mas não era culpa dela ou sua. Isso me mostrou que somos idiotas por ainda necessitar do governo para qualquer coisa. O bom é que com minha entrada triunfal no mundo do crime só quem ganhou foi o morro que finalmente ganhou um posto, não é irônico?

--porque disse que agora seria diferente?

--(rs) depois do que fiz pela sua mãe deu pra ver que virei não só a pagina mas terminei o livro. Na época eu não era nada agora tenho o morro na palma da minha mão. Eu o conquistei sozinha Mari, eu corri atrás do que eu mais queria nessa vida. O engraçado é que eu me vejo em você. A minha..eu mais lesada daqueles dias.(rs) pela sua mãe eu posso te dar tudo.

--eu só preciso do curso e posso conseguir sozinha.

--um cacete! Você precisa de dinheiro para sobreviver e esquecer de vez que seus sonhos existiram para simplesmente comer e beber e ter o mínimo na sua casa! É por isso que quer tanto qualquer curso vagabundo..mas sei bem o que quer da sua vida. Quer  fazer aquilo que gosta de verdade sem se preocupar com todo o resto..Eu pago.

--por quê? Por causa da minha mãe? Não nos deve nada.

--(rs) não devo? Foi por causa dela que eu fiquei assim..tão má e tão boa no que faço. Ela não contou isso também? Que malandrinha.—ela levou a mão ao meu queixo e todo meu corpo arrepiou-se com seu toque e com aqueles olhos sobre mim.eu me afastei assim que senti aquela vibração e ela sorriu com isto.—sua mãe me fez ver que o mundo lá fora ta cagando pra gente. É isso mesmo Mari gente pobre não tem chance aqui no pais. Pessoas como eu e você que sabem das dificuldades, do esforço que fazemos todo santo dia para conseguir no mínimo descansar a cabeça aliviada de contas ou dividas ou ate mesmo inimizades, fora deste complexo, deste morro, não valemos nada! Este lugar nos define você querendo ou não.

--isso não é verdade.

--não é verdade? Vamos lá,eu acompanho você desde que era uma merdinha andando pelos corredores da favela então me diga, por que tantas caras feias para você? Ou sua mãe? Por que acha que as pessoas desta favela sequer falam com você mas por alguma razão vocês são o alvo preferido das fofocas?

--....

--por minha causa. Elas sabem que eu as ajudei e por causa de vocês eu comecei a me preocupar com cada problema desta favela e foi o que me trouxe a morar aqui. Claro, minha gentileza se acabou naquele mesmo ano quando decepei a cabeça do chefão do crime da época. (rs) eu tinha o que 23?(rs) elas tem medo de vocês por minha causa. Elas ignoram vocês, por minha causa. Então porque não posso ajudar alguém que só me fez o bem?

--eu não quero seu dinheiro. Eu agradeço pelo que fez pela minha mãe e por mim naquele dia. E é isto.

--(rs) é igualzinha a mãe. Vou adorar a companhia de vocês aqui.

--o que?

--vem comigo.eu vou te mostrar teu quarto.—ela tentou me puxar pela mão mas eu a surpreendi me afastando dela ainda perplexa com o que tinha ouvido.

--como assim? Eu não vou ficar aqui!

--é claro que vai. Sua mãe a esse momento deve estar arrumando as trouxinhas e vindo para cá com suas coisinhas e as dela também. Se você precisa de algo eu te dou. E é assim que vai ser.porra,ate agora,eu gosto de vocês.

--engraçado, gostava tanto que deixou minha mãe naquela casinha velha.

--(rs) adoro esse tom, por que não pergunta a sua mãe o motivo disto? Pergunte a tão orgulhosa Helena.venha..

Marga caminhou adentrando na casa passando pela sala magnifica com sofás brancos e cumpridos e uma tv de no mínimo 55 polegadas na parede. Ela queria me encantar com todo seu luxo. O carpete de pelos decorava boa parte do piso próximo ao sofá e a tv mas eu não ousaria pisar ali enquanto a seguia. Era loucura o que ela estava propondo e mais louco ainda me ver seguindo ela. Aquele olhar que ela me lançava me neutralizava em qualquer ação. Eu não sabia o que ela pretendia com aquilo.

Ela subiu as escadarias largas e me surpreendi com o que vi no primeiro andar.

--esta é a academia. Tem de tudo aqui e mais um pouco. —Marga parecia querer ver alguma reação impressionada vinda de mim já que me encarava a espera disso, e ver que ate um ringue existia não foi uma tarefa tão difícil.

Ela bateu no meu braço e me alertou para seguir ela ao próximo andar.

--o andar dos dormitórios, quatro quartos. O meu, o primeiro, o da sua mãe, o seu e o da tortura.

Eu a olhei tentando achar a graça daquilo mas ela reparou na minha falta de humor negro para suas brincadeiras e parou de rir.

--será que você ainda vai sorrir para mim algum dia?—perguntou ela indo parar no terceiro quarto e abrindo a porta ela me chamou.

Meus passos eram lentos mas quando eu vi aquele quarto eu sabia na hora que ela queria me comprar.

Tinha uma cama grande, uma boa vista para a cidade e todos os mimos de qualquer patricinha. De notebooks a um closet de onde eu via as varias roupas e os inúmeros sapatos no piso.

--eu comprei umas coisas..quero dizer mandei comprar nessas lojas chiques lá dos shoppings. Deve ter alguma coisa que goste.—Marga falou com tanta tranquilidade que levei segundos para notar o que ela tinha me dito.

--estava planejando tudo isso? Desde quando? Por que quer a gente aqui?

--vai mesmo ficar de perguntinha? Quando eu consegui todo esse dinheiro eu comprei tudo que eu queria mas quer saber não é tão divertido, não quando se faz tudo sozinha. Pensei que se me afastasse da sua mãe você cresceria e não saberia metade dessa merda mas eu te vi andando pelos becos e...(rs) como você é ligeira pra fugir de mim. O que é engraçado porque eu sempre sei onde você esta, não importa para onde vá. As meninas da sua idade se matariam para estar aqui. Na minha casa..então vê se não fode com tudo.

--por que acha que minha mãe vai concordar com isso?

--ela vai.

Ela me deixou ali no quarto e saiu. Marga continuou um mistério para mim e quando vi Lina pela janela trazendo minha mãe com duas malas velhas eu sabia que logo teríamos problemas. Marga recebeu minha mãe de braços abertos e com um grande e apertado abraço demorado. Pareciam velhas amigas e o problema era esse, porque ela nunca me falou de Marga???ela nunca pisou na nossa casa e agora isto.

Minha mãe por outro lado parecia feliz e aliviada e com isso tive que descer para recebe-la mas eu estava tão preocupada que parei nas escadarias e fiquei ali a observando entrar sem entender nada desta decisão. O que estava acontecendo? Por que ela nunca me falou sobre Marga e por que eu sentia que teríamos grandes problemas pela frente?

Notas finais:

Eai o que acharam de Marga a rainha do morro da prata?ela faz jus ao nome??

Mari e sua mãe Helena terão muito com o que se preocupar daqui pra frente.

Capitulo 2 Fogo contra fogo por millah

 

Ela entrou deslumbrada com a casa da Marga e com isso sentei no degrau ainda curiosa com essa amizade improvável. Marga a recebeu mas a sala e cozinha no térreo cegaram minha mãe com tanto luxo.

--tudo é tão lindo Marga. E olha essa cozinha!—ela estava impressionada de fato e Marga não tirava os olhos brilhantes dela.

--é,(rs) de linha,ultima geração. Fogão por indução, a geladeira tem ate musiquinha se você quiser ouvir (rs) bancada de mármore e pia com todos os apetrechos de madame.

--to vendo..

--eu te falei..não é tão ruim assim.

--sabe bem que não é sobre isso..

Elas me viram e logo a cara preocupada da minha mãe que por instantes apareceu sumiu e veio sorridente a mim.foi estranho mas não me apeguei a isto.

--viu só como a casa da Marga é incrível filha.—ela estava empolgada ou queria me passar isso.

--mãe.

--é bem mais bonita do que aquelas casas das madames rica da agência de onde trabalho.

--vá ver os quartos. Mari ganhou um e o seu te espera. —Marga adentrou em nossa conversa e era só sorrisos.

Mamãe subiu as escadas as pressas toda animada como uma adolescente e aquilo era estranho ate para mim.eu não estava acostumada a ver minha mãe tão deslumbrada de algo como agora. Marga por outro lado assistiu minha mãe subir as escadas e seus olhos marcados pelo lápis e delineador de cor forte acompanharam a subida dela em cada passo com seu vestido florido. Parecia ate se deliciar com a boa vista. Minha mãe era linda dos pés a cabeça com seus quarenta e cinco de puro trabalho duro,tinha belos olhos que prendiam a atenção de qualquer um e um sorriso brilhante,ela era linda de qualquer forma e eu diria isto ate mesmo dos ossos calejados da minha mãe mas ver Marga apertar os lábios com os dentes já era demais. Que abusada!

Lina entrou e veio com a mesma cara feia de cachorro bravo ate Marga e cochichou algo no ouvido dela sem tirar os olhos de mim.

--eu tenho que ir. Volto a noite e com isto cuida da minha casa e da sua mãe.—disse Marga apressada.

As duas partiram e não perdi um segundo e procurei minha mãe e a encontrei em seu quarto como diria Marga.

--por que a gente tem que ficar aqui?

--filha, a Marga sempre foi minha amiga e..eu deveria ter te contado mas..ela me ajudou com você. Ela ajudava pessoas como nós, se importava com as crianças dessa comunidade, ate com o esgoto ela se preocupava.(rs)

--É, e agora mata traficantes, vende armas, encheu o morro de minas armadas e sabe lá o que ela foi fazer que teve que ir correndo! Não vamos ficar aqui, vamos embora!

--não filha.

--a gente vai sim!!nem que seja pra morar na rua.

--você não vai morar na rua Mari! Você não aguentaria um dia virgem na rua!!...a nossa casinha foi tomada. Ela foi construída pelas minhas mãos, mas o terreno não é nosso, é do vizinho. Ele me cobrou aluguel e eu paguei mas agora ele quer fazer um puxadinho para o filho dele e..viramos merda para ele.

--mas a gente pagava né,temos todo o direito de..

--ele não quer saber filha. Ele ate aumentou o aluguel pra fazer a gente correr de lá.

--por que não me contou isto?

--eu não queria te preocupar.

--mas mãe..eu faria de tudo!!

--por isso mesmo Mari..olha,Marga tomou difíceis decisões na vida que a tornaram quem ela é hoje. Mas eu a conheço sei da sua historia e sei que ela ainda é uma pessoa boa embaixo daquela casca dura. Ela nos trouxe ate aqui e acredite quando digo que não pedi por isto. Dá uma chance a ela Maria. Não é isso que você tanto preza? Uma chance de mostrar sempre o melhor de nós?—ela falou e eu tinha que admitir,ela usando minhas palavras contra mim pareceu um bom argumento. Ela conhecia um lado de Marga ainda desconhecido por mim então eu tinha que dar o braço a torcer.

--..ate eu conseguir meu emprego.

--ótimo! Não mais que isso.

--ai alugamos uma kitnet e voltamos a nossa vida.

--como quiser, mas não quero ver você discutindo com Marga filha. A gente pode ser amiga mas não posso garantir nada com ela. Não quero que ela te machuque.

Depois daquele aviso da minha mãe eu não queria nem saber o que Marga era capaz de fazer comigo depois de qualquer não meu. Morar ali seria algo temporário para nós mas minha mãe já mantinha o sorriso no rosto ansioso para cozinhar na luxuosa cozinha da Marga então o tempo que passaríamos ali por ela seria muito bem aproveitado.

****

Passou algumas horas e usei para ajeitar minhas coisas no quarto e mal dei por mim a noite caiu e as luzes da cidade se acenderam e iluminaram a vista da minha janela.eu podia ver o mar ao horizonte e as estrelas no céu tão nítidas pra mim era como se eu estivesse mais perto delas ate as luzes do morro se fizeram presentes como luzinhas em uma arvore de natal. As casas morro abaixo se iluminavam e tudo se tornava tão belo que eu poderia ficar ali tirando de mim toda essa carga emocional e de tantas surpresas em um só dia. Era a coisa mais linda que já vi. Contudo o cheiro do jantar subiu ao meu nariz e o meu estomago logo reconheceu o cheiro da comida da minha mãe.

Ironicamente, Lina e Marga chegaram e ver aquela dupla rindo na porta da casa me fez pensar que seria assim daqui para frente.do café da manha ao jantar, a rainha do crime e sua sombra. Meu sossego não existiria naquela casa.

--valeu Lina. Por hoje vou ficar de boa.—disse Marga já perto da porta principal.

--qual é Marga, me deixa experimentar a comida da patroa também.—Lina abriu o sorriso e estava ouriçada se aproximando dela apressando os passos.

--não.—retrucou Marga secamente virando-se a ela.

--eu tô com fome! E aquele cara deu trabalho.

--eu sei, por isso vá pra casa ou melhor, arranja uma garota no baile e como sempre coma na casa dela.

--(rs) eu sou irresistível mas com fome Marga?Eu sou péssima! E meus direitos trabalhistas? Libera ai..

--(rs) vai.

Lina voltou pelo mesmo caminho e pensei que estava escondida o suficiente na minha janela mas Marga olhou para mim antes de entrar e isso foi assustador, eu não tinha feito um som sequer daquela janela.eu tinha que me acalmar pois meu peito só faltava sair pela minha boca.

--tudo vai ficar bem.eu só preciso de um emprego e a gente da o fora daqui. É isso! Um emprego..mas ainda preciso do meu curso..tudo bem,eu consigo. Tudo vai se resolver.

Demorou um tempo para eu criar coragem e descer as escadas para o jantar. Aquele lugar me oprimia e jogava na minha cara todo luxo que uma pessoa consegue trapaceando. Não era justo ela ter tudo aquilo e as pessoas que ralava terem tão pouco. Respirei fundo e continuei, porem as vozes baixas na cozinha me fizeram parar antes do fim da escadaria e isso já era a segunda vez que eu me prestava aquele papel.

Minha mãe preparava a comida nos pratos e Marga a observava meticulosamente por trás.

--sabe que não precisa se preocupar com isso. Podemos pedir um ifood.

--nada disso. Comida caseira é a melhor coisa do mundo.

--você é a melhor coisa do mundo.—ela se aproximou da minha mãe e a agarrando pela cintura ela roçou sua boca no pescoço dela. Minha mãe riu apesar da tentação e continuou calada. Eu surtaria no lugar dela e não entendi porque ela também não estava surtando. O que me deixou bem curiosa com essa amizade da minha mãe e Marga. Que tipo de amiga era essa??

--nem venha. Não vou cair mais nessas suas cantadas.—disse minha mãe tentando afasta-la enquanto preparava a salada.

--(rs) poderia dar certo.de novo.—Marga não escondeu o sorriso tímido ao falar.

--deu um tempo atrás e o que você fez?

--você me deixou por aquele cara lembra? E onde ele esta agora? Onde eu sempre estive?

--porra Marga, nunca daria certo. Você era jovem,eramos..e seguimos rumos diferentes.

--e agora estou velha? É isso? Temos quase a mesma idade querida e pelo que eu sei você não foi para lugar nenhum.

--você sempre distorce as coisas.

--então vai me dizer que não quer me beijar agora? Isso é distorcer a verdade? Quando vejo nos seus olhos implorando por isso. Sabe que eu poderia te dar tudo né?—disse Marga e isso me assustou. Que conversa era essa???

--não...—minha mãe virou e sua cara não era de muitos amigos. Ela estava ficando puta e eu conhecia bem a figura quando ficava assim.

--Mari esta no quarto. Deve estar adorando ele.curtindo tudo..assim como voce também deveria.—disse Marga abrindo o sorriso mais safado que já vi e do nada ela puxou minha mãe pela nuca e a beijou. Uma surpresa que me fez tremer.

Não era qualquer beijo, Marga esperava por isso há muito tempo já que pegou minha mãe com vontade arrancando dela suspiros quando ela esbarrou suas costas a bancada totalmente presa naquele beijo.Marga sequer permitia ela se afastar com suas mãos bobas percorrendo do seu queixo ao pescoço e dele descendo mais pra baixo do qual tava me deixando tensa somente em olhar.Que porra era aquela??!! Meu coração batia acelerado vendo ela devorar ela fazendo minha mãe esquecer toda a comida para sentar na bancada enquanto ela se deliciava da minha mãe. Aquilo me paralisou eu não parava de assistir Marga beijando minha mãe e tocando todo seu corpo com vontade e nem menos chocada por ver minha mãe profundamente se acabando no beijo dela. Era obvio que estava maravilhoso para as duas porem novamente fui pega por ela. Marga abriu seus olhos e me viu mas diferente do que pensei ela não parou nem se assustou ou hesitou. Ela continuou beijando minha mãe enquanto me observava. Eu não podia fazer nada além de subir de volta, mas somente o suficiente para fazer o barulho necessário que Marga e minha mãe ouvissem e acabassem com aquela palhaçada.

Eu ia fingir que não vi nada e Marga ia com toda certeza fazer o mesmo. Por isso desci calmamente.

--filha, o jantar esta pronto.—disse minha mãe da forma mais amável do mundo e que nem parecia que estava cheia de tesão segundos antes.sorte a dela não esta de batom.

--com fome Mari?—perguntou Marga com uma cara debochada que tive que me controlar.

--eu não sei..tem tanta coisa acontecendo que é difícil saber.—falei e Marga no mesmo instante me encarou seriamente.se pudesse me esganaria.

--(rs) você logo se acostuma.—falou Marga me dando umas batidinhas nas costas e ajudou minha mãe com a mesa e esse jeito dela estava começando a me irritar.

Jantamos e era inacreditável. Elas conversavam como se não estivessem se comendo minutos antes. eu não ia aceitar isto.

--sério que vocês não vão me falar nada?—soltei os talheres e falei ganhando a atenção de ambas.

--do que esta falando Mari?—minha mãe se fez de desentendida.

--Mari não seja inconveniente.—Marga completou ainda de boca cheia.

--por que estavam se beijando??

--o que?—minha mãe ainda estava tentando me enganar porem ate na cara dela estava explicito seu desespero.ela ria de nervoso já Marga estava a mesma de sempre e continuou comendo.

--mãe eu vi!

--o que tem de mais?—perguntou Marga raivosa.--Você tem alguma coisa contra? É preconceituosa??!(rs) e eu pensando que esses jovens fizessem cada coisa pior.

--Marga para com isso.eu sabia que isso ia dar merda..—retrucou minha mãe sem muita vontade de continuar a comer.

--Helena vá para o quarto.—disse Marga e com isso estranhei.aquilo foi uma ordem?

--(rs) ela é minha filha e dela cuido eu.—respondeu minha mãe mas Marga suspirou recostando-se na cadeira e me encarou.

--eu não vou fazer nada com ela, só vamos conversar. Meu lado dessa historia é bem mais interessante.—dissera ela e seu ligeiro sorriso me interessou ao que ela queria falar.

Minha mãe suspirou e aceitou nos deixar mas eu via a preocupação em seu rosto e quando ela sumiu depois de subir as escadarias Marga veio ate mim como uma leoa pronta para me devorar. Ela se ergueu de sua cadeira e me puxou pelo braço e me levantou da cadeira e chocou minhas costas na parede.

--você disse que não ia fazer nada!—a lembrei e ela riu brevemente.

--para sua sorte! Essa aqui é a porra da minha casa entendeu. Eu faço o que eu quiser com tudo que me pertence. Você ainda não sabe a sorte que tem por ela ser sua mãe porque depois dessa (rs) se ela não ligasse eu arrancaria a tua pele e veria quanto tempo você aguentaria viva!

--não vai usar minha mãe como uma puta sua!—retruquei no mesmo tom irritado do dela.--E eu tenho todo o direito de saber! Porque foi por isso que fez essa caridade? Pra ficar com ela?!!vai se foder!!—gritei mesmo morrendo de medo de levar um tapa na cara com ela tão perto de mim.

--(rs) você não sabe o quanto eu gosto dela.

--então onde estava quando ela precisou de você? Quando ela adoeceu ou quando passamos uma semana sem ter o que comer porque nos roubaram!

--sua mãe sempre foi orgulhosa..acha que eu não queria cuidar da pequena Mari?—ela passou seu dedo no meu rosto e bati em sua mão. Ela ria disso tudo tao debochada que nada parecia real saindo daquela boca.

--me larga!—me sacudi mas ela não me soltou.

--ela escolheu viver la mas isso aqui é uma vida nova, um novo começo para você e para ela então se vai me desrespeitar eu vou ter que cortar a sua língua. Porra não é crime gostar da sua mãe.(rs) eu vi o jeito como nos olhava..essa raiva não é de uma filha ciumenta. O que foi? Ela nunca te deixou curtir uma buceta também?

Eu me livrei dela com um empurrão e subi as escadarias ate o meu quarto. Marga me irritava tanto e nem com minha mãe implorando na minha porta eu ficaria ali. Peguei minha bolsa e atolei algumas roupas apressada e sai do quarto.

--filha não faz isso.—pediu ela me seguindo no corredor.

--quando ia me contar?!

--a gente não tem nada!!

--nada?transariam na cozinha se não fosse por mim então fiquem a vontade!!

--Mari?!!

--não é o fato de você gostar de mulher mãe mas o fato de ser ELA!!de todas logo ela!?

--não temos nada Mari!ela que é insistente!!

--exatamente, sua mãe só sabe me usar e abusar.—ela apareceu  nas escadas e não estava nenhum pouco preocupada com aquele sorriso no rosto.

--Marga.—minha mãe repreendeu ela mas eu não queria saber.

--eu vou embora.—falei e ela não disse nada quando passei.

--filha.

--se você sair acredite mocinha quando voltar vai ficar de castigo.—Marga falou toda irônica mas estava adorando tudo aquilo,esta nítido no semblante sorridente dela.

Eu não ligava para essa coisa de gangue e muito menos para as ordens da Marga e sai. Foi simples deixar a casa dela e voltar para os becos escuros, mas quem me dera fosse fácil sair do morro sem ser vista por seus olhos vigilantes.eu estava indo muito bem ate ouvir os rádios comunicadores delas passar a ordem de Marga para me acharem. Eu me apressei para descer assim que via cada uma delas correr atrás de mim. Eu era rápida e conhecia aquele labirinto como ninguém e para mim era apenas mais um dia como outro qualquer, fugindo das garras de Marga.

Fui cansar já ao alcançar o baile próximo de uma das saídas do morro mas aquela multidão de gente dançando e som alto me fizeram arriscar entrar naquele mar de gente desviando de todos com seus copos de cerveja na esperança de deixar aquele lugar o mais rápido possível.

De repente a minha frente Lina surgiu conversando com uma garota sentada ao seu colo em uma das mesas do bar. Não preciso nem falar que minha sorte se acabou ali quando ela parou de sorrir e me encarou feio como sempre.

--fala sério.—falei cansada e ela realmente tinha me visto.

--HEY o que você..

Eu corri e ela veio atrás de mim assim que me viu com minha mochila nas costas.eu tropecei mas nem assim deixei de me mover por baixo daquele baile e entre pernas eu escapei da Lina. Acho que ela me perdeu de vista assim que cai. Foi o tempo que eu precisava para fugir do baile e descer as escadarias o mais rápido que podia.

Agora era só eu e a saída e assim que deixei a entrada do morro eu respirei aliviada. O mundo por ali ainda era normal. As pessoas viviam de verdade suas vidas e não aquela loucura de rainha do crime e seus súditos.

--licença. —parou um rapaz a minha frente e eu parei.ele parecia perdido junto com mais um amigo.

--sim.

--você é Maria não é? Filha da Helena?—perguntou ele e ate estranhei.

--..sou.

--é ela.

--o que?

O cara que o acompanhava me pegou e me colocou sobre o ombro e fui levada a força de volta a favela. Que droga!!não importava os socos e chutes ele não me soltava.Quem eram aqueles merdas?!!

Notas finais:

em um grau de 0 a 10 quanto vocês acham que Mari esta ferrada?deixem a moita e comentem.

Capitulo 3 Sem ar por millah

 

Eles me levaram para uma das casas abandonadas no começo de uma das entradas do morro onde os escombros ainda serviam de esconderijo para os invasores e pela cara deles seria perfeito. Ele me jogou no chão da sala empoeirada e me amarrou.

--eu vou ser o mais franco possível e espero que também seja.

--não, nem vem!eu estava indo embora desse lugar! Eu não tenho nada haver com as merdas desse morro!—respondi na hora.

--nem mesmo com a Marga? –perguntou ele me erguendo isso já me preocupou.ele estava impaciente e era obvio que ia dar merda aquela conversa.

--porra que garota ingrata.—disse o outro.--Todo mundo sabe que você e sua mãezinha foram contempladas na loteria da favela em morar com ela.

--porra de favela fofoqueira!—retruquei e eles riram.

--(rs) as noticias correm gatinha. Você é mais valiosa do que qualquer um então acho justo Marga pensar bem antes de me trazer o meu irmão.

--e eu lá sei!—respondi desinteressada mas ele fechou o sorriso e veio para mais perto.

--Marga o trouxe para cá e com aquela vadia grandona ela pegou meu irmão na porrada.eu quero saber cadê ele!

--eu não sei!—respondi e ele me empurrou contra a parede e socou ela para me assustar.

--cadê ele sua piranha!!!?

--eu não tenho nada haver com os negócios daquela maluca!

--(rs) olha essa sem noção.—eles estavam rindo tão forçadamente mas também ficando bravos comigo de uma merda que eu nem sabia.

--é sério!eu não sei o que ela fez com teu irmão.—respondi a eles mas pareciam que minha palavra não tinha validade.

--só me diga onde ele esta. Onde?

--você é burro? Eu não sei!!Quantas vezes tenho que falar isso?

--(rs) já cansei dessa menina.chama aquele idiota la na rua..—a ordem dele ao grandão que o acompanhava me fez engolir seco.

Agora dois brutamontes estavam junto com aquele desgraçado e o barbicha agora só tinha um sorrisinho malicioso no rosto que me encheu de nojo.me pegaram e me dobraram numa mesa velha no canto da sala e com meus braços presos nas minhas costas eu comecei a me preocupar com o rumo das coisas.

--espera..não pode fazer isso.eu não sei de nada!

--Marga pegou o meu irmão e na pior das hipóteses ele ta morto!—disse o careca exaltado.--Nada mais justo que deixarmos uma surpresinha para ela também!(rs) depois de hoje queridinha você vai fazer parte da lista de mortos de Marga.—ele me deu um tapinha no meu rosto como se aquilo fosse uma forma de lembrar que eu que fui a idiota parando para esses cretinos.

Eles avançaram em mim e começaram a rasgar minhas roupas, apertavam meus peitos e me seguravam com tanta força que eu era incapaz de lutar contra os três.eu chutei, mordi e levei um tapa forte no rosto.minha bochecha ardeu e toda a esquerda da minha mandíbula agora doía. Eles iam me foder naquele buraco imundo e fedorento sem qualquer chance de escapar.eu queria chorar mas nem isso eu conseguia por tanto ódio da Marga. Era por causa dela que eu estava ali e se sobrevivesse nunca mais queria ver aquela mulher mas pelas frestas da janela velha eu vi ela.

 Marga vinha caminhando acompanhada de Lina e Lina vinha acompanhada de sua arma a tão temida AK-47 mata geral e eu sabia que no momento que ela apontou seriam segundos para tudo acabar. Eu ouvi o assobio de Marga e quando senti que aquelas mãos que me apertavam me soltaram eu tratei de pular a mesa e me encolher no chão. Levaram segundos para tudo acabar. Segundos de um potente tiroteio sem misericórdia e que penetravam meus tímpanos e parecia que o tempo não passava com meu peito apertado. e o silencio, quando finalmente chegou, só foi quebrado com os passos delas.

--eu falei que a gente tinha feito certo matando aquele filha da puta.—Lina falou mas nem isso me ajudou a sair daquele estado de nervosismo.

--olha todo esse estresse..esses ratos não param de entrar nessa porra de morro trazendo essa droga maldita e depois sobra para mim..se livra desses corpos.—ordenou Marga tranquilamente.

--vou fazer um colar de piroca pra mim (rs)

--só joga fora esses merdas!

--vou chamar as meninas, fica calma Marga.

Eu não conseguia parar de tremer enquanto elas conversavam, e ver aquele sangue que se aproximava de mim pelo piso me deu coragem para levantar com a agonia que ele encostasse em mim e me deparei com esses caras todos no chão e todo aquele sangue não me deixava menos aliviada ou feliz pelo que aconteceu, na verdade tirou todo o ar dos meus pulmões e tudo que eu podia dizer era que era mais uma das minhas crises.

Marga se aproximou de mim e ficou me encarando em pé do meu lado. Minha blusa tava toda rasgada e fiquei cobrindo meus seios e nem a pau eu queria olhar para ela.

--viu só o que acontece com você sem minha proteção? Foi o quê quinze minutos?—ela pegou minha mochila do piso e abriu. Tirou um par de roupas e jogou em mim. Por sorte ela também achou minha bombinha e me entregou e pude novamente respirar. Foi mais uma surpresa para ela porem nada quis dizer o que eu também preferi assim. —se troca..antes que venha mais gente.—ela falou e tive que olhar bem para ela para entender.—anda!...não vai querer que sua mãe te veja assim né? Eu viro e não vou nem olhar..—ela virou como disse e tentando não pisar naqueles cadáveres procurei me vesti.

Eu me troquei com ela me lançando espiadinhas. Tentei não ligar e quando finalmente terminei ela me puxou pela mão me tirando daquele lugar e voltando para os becos do morro.

Era tão estranho estar segurando sua mão, me dava segurança e me fazia me sentir uma criança ao mesmo tempo. Com ela andando na minha frente me puxando quase obrigada por ter feito aquilo me fazia me sentir pior, pois ela estava certa. Só pensei na minha mãe. Ela deve ter insistido a Marga para me buscar e só de pensar que ela seria minha babá daqui pra frente já me irritava. Ela matou três homens para me salvar e sei que eram péssimos, mas morreram por minha causa. Eu não sabia se me sentia péssima ou agradecida.

Chegamos a casa de Marga e minha mãe me abraçou forte.

--nunca mais faça isso entendeu?!Nunca mais! Eu te conto o que você quiser, mas não me abandone como seu pai fez.—nunca pensei que veria minha mãe daquela forma. Ela estava gelada e o olhar o mais triste possível ao lembrar do meu pai.

--tem alguma coisa para dizer Mari?—Marga passou por nós mas desta vez ela estava certa.

--..desculpa mãe.eu agi por impulso.

--viu só! Ela ta bem. perfeitamente bem.—enquanto Marga sorria satisfeita para minha mãe. Para ela não tinha sido nada e era o que mais me espantava.

--você não vai querer jantar?

--to sem fome.eu..só quero ficar um pouco sozinha.

--ok..me avisa se..ficar com fome.

--claro.

Voltei para meu quarto e tudo que eu mais queria era um banho.eu me esfreguei tanto que minha pele ficou vermelha e só de lembrar daqueles homens me tocando eu esfregava mais e mais e a agua do banho que já perdia toda a espuma e a esponja que apenas arranhava minha barriga me livrava daquelas lembranças e foi quando lembrei dela. Todo aquele sentimento ruim sumiu do meu corpo e os arranhões e a agua fria que corria por ele passaram a ser um conjunto que arrepiava minha pele e endurecia meus músculos ao pensar em Marga. Ela havia me salvado sendo quem é ou não ela fez isso e isto me esquentava ate a alma.

Eu escutei as batidas na porta e logo depois passos, mas nenhuma palavra foi dita. Era ela.

Peguei minha toalha e me cobri e deixando o banheiro eu a encontrei parada no meio do quarto.

--espero que esteja melhor.

--minha mãe sabe?

--não. Lina me ligou dizendo que você corria mais rápido do que dona de casa em promoção de supermercado. Sorte a sua que ela te viu saindo e voltando com os três ratinhos. Tudo que sua mãe sabe é que eu saí e te achei a tempo para te convencer a voltar.

--melhor assim.

Me sentei na cama e eu não parava de lembrar como aqueles imbecis haviam me tocado. Era como um filme se repetindo e me enojando. As gotas do meu cabelo caiam e Marga veio e se sentou ao meu lado na cama.

--eles não..chegaram lá né?—perguntou ela e a encarei.

--não!—respondi prontamente.

--tem certeza?

--eu sei como um pau entra em uma mulher Marga!

--ok,ok!eu só..queria saber.

--então agora já sabe.

Marga me analisava e tentando pegar no meu rosto me fez afastar meu rosto de sua mão.

--sua mãe não me contou que era asmática. E essas coisas comem dinheiro.

--o que você queria? Que ela procurasse você a cada crise minha? Ela me criou muito bem obrigada.

--você é igualzinha a sua mãe.(rs) orgulhosa ate o ultimo fio de cabelo. Tínhamos o quê quando você nasceu..24?é isso mesmo.eu estava no meio da minha faculdade de direito e ela já trabalhando tanto que poderia ter outra carteira de trabalho. Ela não tinha as mesmas oportunidades que eu tinha, mas valia mais do que um diamante e larguei tudo para fazer deste lugar um lar para ela.(rs) Helena nunca aceitou um real meu.ai seu pai apareceu, encheu o buxo dela e foi embora. Mudamos muito..mas nunca deixaria nada acontecer a vocês e esse tipo de merda não é algo que se brinca. Por isso, não me decepcione fugindo novamente.—disse ela me dando medo com tamanha seriedade naquele rosto frio mas que por incrível que parecesse ela estava se preocupando comigo.—não foi tão ruim né?

--eu quase fui estuprada!

--quase. Pra mim é um passo bem distante do que poderia ter acontecido. Nada vai te acontecer do meu lado.

--você sequer se importa! Se tivessem chegado minutos depois..

--mas não cheguei.—disse ela convicta de suas palavras.

--mesmo assim se tivesse acontecido estaria aqui com a mesma cara, me dando o mesmo sermão.

--(rs) minha sororidade já fez demais por hoje Mari. Não me faça ouvir que vai ficar traumatizada por aqueles babacas. Você é mais forte do que isso. É a primeira que tem coragem de me desobedecer e me xingar sem medo de morrer. Isso já é muita coisa.

Ela saiu do quarto e só me restava ir dormir. Eu poderia dizer que aquilo foram palavras de força, mas vindo de Marga era difícil ate de acreditar. Enxuguei meu cabelo, vesti meu pijama e se fosse fácil depois de tudo que passei procurei ter sono. Apaguei a luz e deitei naquela cama. Uma cama macia e grande o suficiente para duas de mim. Eu me sentia solitária e vulnerável naquele lugar estranho e tão grande. Tanta coisa tinha acontecido e aquele sentimento vazio dentro de mim só me consumia.

Fechei meus olhos e afundei em meus sonhos se bem que poderia chama-los de pesadelos. Eu estava lá novamente e desta vez Marga não me ajudava. Ela ficava lá me assistindo junto a Lina enquanto eles me torturavam e abusavam de mim. Eu sentia tudo entrar, o suor de seus corpos e perfumes baratos e de suas bocas lambendo meu corpo. Eu sentia toda a dor e ela apenas ria de mim.

Acordei sem ar mais uma vez e minha bombinha dessa vez não me ajudou. Parecia que minhas crises me afetariam mais ali do que em qualquer outro lugar. Poderia ser o ar do alto da montanha eu não sei ou era apenas o medo daquilo tudo de novo. Eu apertei a bombinha e nada saia e isso não seria a primeira vez. Marga tinha razão quando dizia que aquele tipo de medicamento comia dinheiro. Agora eu estava ali passando mal sem minha bombinha.

Me levantei da cama e sai tombando pelo quarto ate o quarto da minha mãe. Bati na porta e ela veio sonolenta ate ver meu estado.

--Mari respira. Cadê sua bombinha?!—perguntou ela e reuni forças para responder.

--acabou..

Ela buscou a bolsa dela e sua carteira mas eu já estava entrando em um estado que não podia controlar. Recostei na parede e minhas pernas não aguentaram e escorreguei ao piso me sentando.

--eu vou comprar mais uma bombinha na farmácia enquanto isso você segura as pontas!!

--então vai.

--você vai ficar bem?

--mãe!!

--eu vou chamar a Marga!!

--não precisa..mãe!

Ela saiu correndo e eu estava implorando para ela passar reto pela porta da Marga mas eu mal conseguia ficar de pé agora enquanto ela esmurrou a porta e correu. Era impressionante, minhas crises não eram constantes mas aquele susto parecia que tinha piorado minha situação. Eu estava engasgando com o pouco de ar que eu engolia enquanto minha garganta trancava. Meu corpo todo amoleceu.

Marga apareceu na porta e me olhou curiosamente sinistra como sempre. Ela não demonstrava nenhum sentimento ou sinal de empatia e veio ate mim e me olhou como se eu fosse nada ali no chão.

--o que esta acontecendo com você? Aqueles filhos da puta te assustaram mesmo ein.—calma ela falou e nem sei como conseguia.

--não consigo respirar.—falei desesperada.

--cadê sua mãe?

--..foi..comprar mais uma bombinha. A minha..acabou e isso ta me ferrando..

--ok,para de falar. Já liguei para Lina para ajudar ela quando descer. —ela veio ate mim e me pegou no braço e me levou para o meu quarto. Não posso dizer que aquilo não foi uma surpresa. Ela me levantou tão rápido e sem problemas.

Na cama minha falta de ar não melhorava mas ela sentou-se atrás de mim e me assustei com suas mãos envolvendo minha barriga entrando por baixo da camisa.

 --o que ta fazendo?--Ela me apertou e pousou seu queixo no meu ombro esquerdo. O que ela queria?

--respira direito, ajeita a postura..controla o ar que entra nesses pulmões.

--não dá..—tentei tirar as mãos dela de mim mas ela me apertou e me puxou para mais perto dela.

--tem que fazer dar!—respondeu ela e quando virei para olhar para ela percebi que apenas centímetros nos separava.--Respira comigo.—ela inspirou profundamente e pude sentir em minhas costas seus peitos me empurrarem. Ela estava muito perto de mim e isto estava piorando minha situação.eu tentei seguir com seu plano e como me doía forçar o ar entrar.eu mal conseguia me concentrar. Todo aquele calor tava começando a me afetar como da mesma forma que me acolhia. Meu corpo estava todo arrepiado e minha mente apenas estava ali, preso naquela proximidade e o medo que eu tinha dela se aproximar mais.—agora expira pela boca.—o ar que saiu de sua boca tocou meu pescoço e tive que me segurar em seus braços e em seu aperto para conseguir fazer o mesmo.eu sentia ela me olhando e era sinistro. Me deixava nervosa cada segundo que passava porque com ela atrás de mim eu não sabia o que esperar. Não quando ela olhava para minha boca e para o fundo do meus olhos.

Ficamos ali repetindo aquele processo e estava realmente me ajudando.eu ficaria feliz se não tivesse ela me encarando de tão perto mas enfim respirar já era bom demais.

--melhor?

--sim..

--(rs) então não sonhe mais com bandidos.—ela se afastou e levantou e não sei porque mas agarrei seu braço.

--fica comigo!—nem sei o que deu em mim para pedir aquilo tanto que Marga me olhou surpresa.

--..o que?

--aqui..eu não quero ficar sozinha. Nem ter outra crise.

--(rs) Helena logo vai chegar. E você vai me odiar assim que voltar a respirar direito.

Minha mãe entrou no quarto quase derrubando a porta e me entregou a bombinha. Lina parecia pior do que eu,e eu já imaginava ela pulando da cama para ajudar minha mãe na farmácia. Ela sempre se desesperava com minhas crises.

 Marga me assistiu usar a bombinha esperando estar certa de suas palavras e quase não escondeu o sorriso com isto mas minha mãe estava nervosa ainda.

--então..funcionou?—perguntou minha mãe quase roendo as unhas.

--eu..to melhor.—respondi para ela e seu alivio foi imediato.

--graças a deus. As meninas elas..correram ate a farmácia comigo e (rs) elas são ótimas para convencer os atendentes a agilizarem o serviço.—minha mãe estava mais que aliviada pela rapidez em me ajudar.

--é, por isso que elas tem armas.—dissera Marga e era obvio que as mulheres do morro da prata estavam dispostas a ajudar a qualquer momento.

--é de família a correria. Helena parecia o vento correndo.—Lina falou e Marga conteve o riso.

--obrigada Lina.—falei e ela acenou com a cabeça.

--vou voltar para o meu barraco. Qualquer coisa tô la embaixo Helena,Marga,Mari.

--já fico feliz por resolver isto a tempo. Esta tendo uma confusão em uma das entradas no lado leste, tem ate policia por lá.—minha mãe mal sabia que essa era a entrada que quase fui estuprada e Marga também permaneceu sem alterações com aquela conversa.

--as meninas devem ter bloqueado a entrada de traficantes.Esses ratos sempre tentam entrar no morro da prata.—Marga estava calma mas temi esse papo.seus olhos focavam em mim e preferi ficar calada.

--enfim você esta melhor e longe de passar por uma crise pior como naquele dia.

--nem vem mãe.

--o que aconteceu?—perguntou Marga curiosa e minha mãe ate perdeu o sorriso.

--bom,ela foi assaltada voltando do colégio e perdeu a bombinha junto com os livros.eu estava sem dinheiro e ela..passou o dia desse jeito ate eu receber a grana do emprego e..foi horrível.

--poderia ter me avisado.—disse Marga conseguindo a atenção da minha mãe.

--eu não precisava do seu dinheiro Marga.eu recebi naquele mesmo dia.

--nem pela sua filha? Ela passou o dia desse jeito?!

--eu resolvi não foi? Aliás, não precisa fingir que se preocupa. Não vamos ficar aqui para sempre..logo vamos para uma kitnet e..—Marga riu interrompendo minha mãe e isso a deixou furiosa encarando ela.

--kitnet? Você já olhou em volta?

--é por isso que nunca deu certo Marga. E nunca vai dar.—minha mãe deixou o quarto e agora Marga estava ali parada no meio do quarto coçando a cabeça controlando-se para não surtar ate virar para me olhar.

--viu o que você fez?!!—disse ela a mim toda brava.

--ah agora ate passar mal eu não posso além de fugir?eu não tenho nada haver com vocês e essa relação maluca.

--(rs) eu enfio essa porra de bombinha no seu cu se me encher o saco de novo.

--É, você tinha razão, eu te odeio.

--É, procura outra buceta para chupar essa noite.

Eu lamentava pelo palavreado dela mas não era novidade ouvir coisas do tipo. Infelizmente esse era o morro da prata e ela a rainha da favela e toda essa bosta toda. Educação é pra todos mas enfim uma escolha. Depois de ouvir minha mãe dizer que elas já não tinham e nem podiam ter alguma coisa fez minha noite menos dolorosa. Ela havia me salvado e eu estava devendo este favor a ela mas Marga não era a melhor escolha de pretendente para minha mãe e com isso eu tive que rir mas por que eu estava tão feliz?

Notas finais:

Mari e Marga são a razão e a emoção e é impressionante que de toda conversa tenha uma discussão.

e porque será que Mari ficou feliz??

Capitulo 4 Uma surpresa por millah

 

No outro dia acordei e minha mãe já estava mimando a cozinha com o café da manha gostoso que só ela fazia. O cheiro estava ótimo e subiu ate meu quarto. Desci as escadarias e no primeiro andar vi Marga treinar na academia. Ela socava o saco de pancada como ninguém.

--bombinha!—ela me chamou quando eu já estava descendo e tive que voltar.

--não me chama assim.

--Mari.querida, amorzinho, bebezinho da mamãe.—ela se divertia me zoando.

--só Mari.

--vamos sair depois.

--para onde?

--uma surpresa.

Tentei não me preocupar com o seu sorriso e continuei a descer as escadas pensando o que poderia dar de errado naquele dia.

--mãezinha que café é esse?!—disse Lina tomando café e comendo pão desesperadamente na cozinha. Minha mãe estava adorando ver ela comer.

--bom dia mãe.—falei me aproximando vendo Lina devorar tudo.

--bom dia Mari.—respondeu ela com um abraço e um beijo.

--ae bombinha, tua mãe fez o melhor café que já tomei! Bem melhor do que o do seu zé la na padaria.(rs)—Lina pelo visto já sabia meu mais novo apelido.

--é ela faz mas não me chama assim.É Mari.

--eu posso comer com presunto?eu queria fazer um sanduiche igual aquele da propaganda.

--faça como quiser mas deixe pelo menos um para Marga. (rs) Depois de ontem ela..ate que merece.

--não me diga que reconsiderou?—falei e minha mãe tentou esconder o sorrisinho mas parecia inevitável.

--ela te trouxe de volta, mas não vou ficar com ela, somos amigas e ela merece realmente este sanduiche. Quero dizer, Marga abriu sua casa e nos recebeu e ela se preocupa mesmo com a gente..sei que deve ter sido um susto para você saber que eu já tive..uma relação com uma mulher.—Minha mãe falou e Lina engasgou-se com o suco.

--voce gosta de buceta?(rs) voce é perfeita.—Lina estava adorando a novidade porem não tentei dar corda.

--o fato de você ter mentido para mim e escondido tudo isso causou mais.—falei e minha mãe murchou.

--eu não sabia como te contar isto filha.

--que tal assim?hey filha eu como xereca além de salsicha.—olhamos para Lina e seu sorriso irônico e tentamos demonstrar para aquela desmiolada o quão inapropriado foi aquele comentário. E ainda bem que ela voltou a comer seu sanduiche tentando não ouvir mais nossa conversa.

--poderia ser uma das opções mas eu não conseguia.—disse minha mãe.--Ela era diferente na época e eu também!(rs) estávamos começando nossas vidas e ela se perdeu lutando por essa favela. Ela teve resultados, mas eu queria conquistar tudo com meu suor e quando formos embora daqui quero sair de cabeça erguida por ainda saber que apesar de tudo Marga ainda é uma amiga quem eu sempre amei e não sendo uma ingrata com ela.

--você nunca vai ser uma ingrata comigo Helena.—Marga tinha os ouvidos aguçados e desceu as escadarias vindo ate a bancada da cozinha onde estávamos. Aquela cara séria dela fazia qualquer um repensar bem o que ia dizer na frente dela.—sabe que pode ficar aqui quanto tempo quiser e acho que também deve ser a única que pode me dar um fora quando quiser.(rs)

--para onde vamos?—perguntei e ela olhou para mim como se incomodasse seu papo com minha mãe.

--eu já disse, é uma surpresa.—Marga exibia o sorriso mais intrigante que poderia me dar.

--Marga, Mari não gosta de mimos.—lembrou minha mãe.

--é porque não viu ontem.—ela olhou para mim como uma pervertida me deixando morrendo de vergonha por lembrar dela atrás de mim.

--eu estava passando mal.—respondi sem jeito.

--vão sair agora?eu preciso ir ao trabalho.—disse minha mãe curiosa.

--pode ir Helena, eu cuido dela.—tentei não pensar que morreria com ela sendo minha babá.

--você não vai aprontar com minha filha né?posso ir? Sossegada? Posso confiar nas duas??Lina?

--como dois anjinhos na missa de domingo.—respondeu Lina terminando o pão com um sorriso safado na cara e que minha mãe preferiu acreditar.

--bom.então estou indo.—ela me beijou quase mordendo minha bochecha e Marga me invejava, estava na cara dela já que nos encarava de cara fechada.—se cuida.

Minha mãe subiu para se arrumar para o trabalho e Marga me olhou com aqueles olhos marcantes de gata e não parei de me perguntar para onde ela ia me levar??

--Lina vai preparar meu carro e vê se deixa a arma em casa.

--sério Marga? Para onde a gente vai?

--eu não já falei que é uma surpresa porra!vai logo!

Lina levou o copo de café com sua correria.eu não queria ficar ali sozinha sem ter o que conversar com Marga e seu mais novo mistério por isso voltei para o quarto e esperei ela se arrumar e o retorno de Lina.

Por incrível que parecesse eu não parava de pensar no que seria aquela surpresa. Marga me deixava ansiosa e me fazia rodar o quarto de um lado a outro fazendo barulho com meu tênis e esquentando meu jeans de tanto andar.

--O que ela ta aprontando??—perguntei a mim mesma de frente ao espelho.

Logo as batidas na porta me alertaram. Respirei fundo e fui ate ela.ao abrir me deparei com uma estilosa Marga.do coturno a calça justa nas pernas, a blusa preta e a jaqueta de couro e o cabelo preto bem penteado fizeram de Marga mais linda do que já era. Ela me surpreendeu por estar bem demais além do estilo que já tinha.

--o que foi?vai ficar me encarando ai?!—disse ela me tirando dos meus pensamentos.

--desculpa é que você..

--eu sei bem gostosa. Anda logo.—seguimos para o térreo e já caminhávamos para a porta principal.

Lina apareceu e seu riso ecoava na porta da casa.

--olha só a rainha do morro e a princesinha.(rs) o carro ta limpinho lá embaixo.—dissera Lina toda animada.

--ótimo, vamos.

Descemos o morro e Lina foi a primeira a entrar no carro. Um mustang shelby antigo da cor vermelha. O modelo deveria ser caríssimo. Ela ia dirigir e estava animada com isto.

--hey isso aqui não é velozes e furiosos então pega leve no transito. Mari, entra no carro.—mandou Marga abrindo a porta.

Fui para o banco de trás e Marga ficou no passageiro na frente. Foi melhor assim.

--então sua mãe sabe?—perguntou Marga a mim porem não entendi do que se tratava.

--do que?

--(rs) que você curte a mesma frutinha gostosa que a gente.—sabia que era piada e ela estava adorando junto da Lina que ria da minha cara.

--não sei de onde tirou isso.—respondi séria.

--enquanto estava tendo sua crise senti que gostou do meu abraço. Estava tão vermelhinha como nenhuma hétero conseguiria ficar.

--e-eu não..—eu não conseguia nem responder e muito menos olhar pra cara dela e preferi olhar pelo vidro a rua do que me lembrar dela daquele jeito comigo.

--é sério Marga? A bonitinha gosta mesmo?—Lina continuou me zoando mesmo já ligando o carro e descendo a rua.

--olha pra frente Lina.—Marga reclamou mas eu deveria ter imaginado que essa viagem seria uma bagunça.

--então Mari, o que tem em sua defesa?—perguntou Lina e tentei não me irritar.era tudo que elas queriam.

--como vou saber?eu nunca fiquei com mulher nenhuma.

--nem homem?—perguntou Marga.

--não!

--esse papo ta me deixando com tesão. A princesinha é virgem.(rs)

--Helena como sempre sendo a mãezona.—Marga falou e eu queria enterrar minha cabeça no primeiro buraco que visse.

--podemos simplesmente mudar de assunto?

--claro Mari, ninguém vai contar seu segredinho.

Virei meu olhar a janela e a rua lá fora começou a ganhar um novo contraste a nossa dura realidade. Lojas famosas, colégios particulares, restaurantes, estávamos entrando na parte boa da cidade, a parte da cidade que certamente aquelas duas teriam problemas em pisar e posso dizer que também me incluo nessa lista.

--ta bom eu sei que não quer nos contar para onde estamos indo mas você não é sei lá procurada pela policia ou coisa do tipo?—perguntei curiosa.

--(rs) olha para mim e diz,me pareço com uma bandida?—ela perguntava bem confiante da minha resposta.

--não.—retruquei.

--ta parecendo uma daquelas madames ricas de festas.(rs)—disse Lina e nisso eu tinha que concordar,ela tava no nível de qualquer classe alta.

--a sociedade quer se sentir protegida mas se esquece da porra da hipocrisia. É bem simples de entender.um ladrão de terno e roupas chiques é bem mais aceitável do que um pé rapado de chinela entrando na sua casa. Eles não me reconhecem porque sou boa no que faço. Porque no fim todo mundo tem suas vidas para se preocupar e não imaginar em como se parece a terrível dona do morro da prata. A terrível Marga.(rs)

Depois de alguns minutos a mais Marga pediu para Lina parar o carro em um estacionamento privado.

--chegamos.

Sai do carro e Lina e Marga fizeram o mesmo e eu já deveria imaginar.

--os melhores cursos na melhor faculdade. Para você estudar pelo futuro do qual realmente quer..ou por uma merda de emprego. Escolhe o que você quiser e eu pago.—disse ela a mim e parecia certa.

--porra Marga, você nunca me deu uma regalia dessas.—Lina estava impressionada assim como fiquei.

--...por que?

--por que não? Não é o que quer para seu currículo ficar perfeito?!para finalmente conseguir um emprego e sair da minha casa para morar em uma kitnet com sua mãe?

--se isso for um favor pode esquecer.

--é um presente! Não vai me dever nada em troca.

Ate Lina estava surpresa. Marga tomou a frente e seguimos as três para dentro do prédio. Tudo era incrível, Lina estava deslumbrada pela recepção chique, pelo cafezinho de graça, pelas estudantes do curso que entravam.eu só via patricinhas loirinhas debochando da cara dela e suas cantadas.

--opa vem aqui princesa.—dizia Lina a elas.--Sério que vai embora sem me dar teu numero?(rs)

--sério Lina?—falei e ela voltou sua atenção a mim. Aquelas meninas só riam da cara dela.

--o que foi Mari, olha tudo isso aqui.(rs) é demais. Ate eu ia querer estudar com esse povo.

--esse povo ta cagando pra gente.

--ué gente rica sempre foi assim. Pra andar com os melhores você tem que ser descolada. Ou melhor bem filha da puta.

Marga falou com a recepcionista e voltou a nós que esperávamos em um sofá e já de cara se deu conta das pernas abertas de Lina.ela tava toda espaçosa no sofá e Marga voltou seus passos fazendo cara feia ao sentar do meu lado. Lina que cruzou as pernas olhou bem para Marga e a novidade que trazia.

--vão nos chamar daqui a pouco.—disse Marga com um tom nada satisfeito e era inquietante aquela espera.

Todos, do porteiro aos alunos nos observavam estranhamente. Marga era uma calmaria lendo uma revista, Lina não ligava mas eu via todos nos julgando. Pareciam se perguntar “o que elas estão fazendo aqui?” Eles pareciam sentir o cheiro de gente pobre e isso estava tirando o pouco ar que meus pulmões conseguiam respirar.

Minha perna não parava de mexer com a demora em nos atender e Marga me assustou quando segurou ela impedindo de continuar a chacoalhar.

--que porra você tem?—perguntou ela.

--por que tinha que ser aqui?—perguntei inquieta.

--porque é o melhor curso da cidade.

--já tem mais de meia hora!

--você é muito apressadinha.

--ae Marga ela tem razão. Eles estão dando um chá de cadeira na gente. Sorte que a vista daqui é muito boa.

Marga olhou bem pra mim e no fundo ela sabia que era verdade e não só ansiedade minha. Ela se levantou e me puxou.

Caminhamos ate a recepção e Marga abriu o sorriso mais falso que já vi, a mulher que no telefone falava logo revirou os olhos.

--com licença.—disse Marga e a mulher pedira um pequeno tempo a ela e o olhar que Marga me lançou certamente ela mataria aquela recepcionista.

Ela examinou bem o balcão da recepção e avistou um copinho com lápis,canetas,réguas e tesouras e quando vi Marga pegando a tesoura e cortando o fio do telefone ela ganhou não somente a atenção da recepcionista como a minha.

--vai lá dentro e chama o seu chefinho.se ele não estiver aqui em cinco minutos aquela maluca ali no sofá vai quebrar tudo isso aqui. Logo hoje que ela não tomou os remedinhos.

A mulher praticamente correra com medo de Marga e saiu em busca do gerente. Era inacreditável e Marga ria do seu feito.

--vamo lá.

--não vamos esperar ela voltar?

--você acha mesmo que ela foi atrás do chefe dela?LINA!!—o grito da Marga ecoou por todo o salão e Lina correu ate nós.

Entramos e Marga foi direto para o escritório do poderoso chefinho. Ela e Lina colaram seus ouvidos na porta e riram.

--acho que eles estão falando mal da gente.(rs)—disse Marga com um malvado sorriso.

--é,(rs) ela vai chamar a policia.—completou Lina.

--o que?!—eu não queria ficar ali e fazer parte disso. Não desse jeito.

--Lina,faz as honras?—Marga deu espaço a Lina.

--com todo prazer.

Lina arrombou a porta com um chute e a recepcionista e o gerente tomaram um susto de empalidecer.

--Ia mesmo deixar suas mais novas clientes esperando lá fora magrinho?—perguntou Marga entrando na sala e me puxando.

--que coisa feia. Sua mais nova aluna é uma comedora de livros. Para dar orgulho! E você faz isso com a gente?

--ah..a recepcionista ela pediu que esperassem la fora pois eu estava no meio de uma ligação e.

Lina pegou pelo braço a recepcionista e a empurrou para fora da sala e fechou a porta o que fez Marga se sentir mais confortável ao se sentar de frente a mesa do gerente.

--gostei do escritório. É espaçoso, bem iluminado, cheio de fotos de família..—os olhos de Marga sobre as fotos fez o gerente paralisar.

--o-obrigado.—respondera ele temeroso praticamente com seu corpo travado ao encara-la.

--então vamos ao que me interessa. A garota quer um curso e eu vou pagar. Que tal dois ein Mari? Assim você me deixa em paz?(rs)

---(rs)..eu não sei se vocês foram informadas mas nossos cursos eles..estão preenchidos e as aulas vão começar amanha então se quiserem realmente o curso terão que esperar..o próximo semestre.—Marga ouvia aquele homem mas não acreditava em nenhuma palavra.eu podia ver bem a mudança acontecendo. Os olhos marcantes jurando ele de morte, a respiração calma e o rosto sem expressão. Era como uma maldita leoa pronta para o bote.

Do nada ela agarrou os poucos cabelos do gerente e puxou sua cabeça ao encontro da mesa e seu nariz espirrou sangue e não duvido nada que tenha quebrado.

--sua vaca..escrota!!—ele levou as mãos ao nariz e Lina riu.

--eu vou pagar adiantado e a vista. A garota vai ser tratada aqui como a filha do dono okay e ai do seu filhinho porque se eu voltar aqui ele não vai mais ver o papai ou será o papai que não vai ver mais ele?

--Marga!—a chamei e ela olhou para mim daquele jeito maníaco e fiquei me perguntando se ela notava o que estava dizendo. O garoto na foto nos braços da mãe não parecia ter uns três anos.

Marga respirou fundo ao me encarar e sorriu.

--estamos entendidos?—perguntou ela e o gerente logo buscou uma ficha de inscrição e tudo que eu precisava para o curso.

--qual curso a senhorita escolheu?—perguntou ele tremulo.sendo recolocado em seu acento e ajeitado por Marga.

--medicina.

--pelo bem maior de todos.—debochou Marga e eu só queria que tudo aquilo acabasse.

Depois de toda a papelada saímos e retornamos para o carro.eu estava com tanta raiva que não aceitava ver ela rindo perto de mim.

--a cara dele foi tipo “eu me borrei? Eu me caguei??ta fedendo??!”(rs)—Lina tava morrendo de rir e Marga também aproveitou o momento.

--vocês tem ideia do que fizeram?!—perguntei e elas pararam.

--ele era esnobe e nos desrespeitou.—respondeu Marga seriamente.

--sou eu quem vai ficar aqui vendo a cara feia de todos ate o fim do curso!—retruquei.

--você ta pagando. Nem se cagasse na mesa dele ele ia dizer algo contra você.—disse Marga com toda a convicção do mundo.

--e se ele ficar enchendo o saco é só falar com suas titias queridas.—Lina brincou e não tinha jeito discutir.

--não Lina,tia é demais.—respondeu Marga.

--ah foi mal tia Marga.(rs)

--vocês realmente não ligam.—falei me recostando no banco e cansando daquele papo.

--que drama Mari. Aceita logo que voce vai estudar ai e vai ser demais.

Voltamos para a casa da Marga mas ela e Lina apenas me largaram lá e já estavam de saída.

--você fica bem sozinha não é?

--claro, não sou criança.

--ótimo. —Marga saiu e trancou a porta.

--(rs) que maturidade!—gritei pela porta e ouvi uma risadinha.

--fugir também é bem adulto. —respondeu ela do lado de fora.

Notas finais:

Eu particulamente amo os deboches da Lina,ela foi feita para ser a desbocada parceira da Marga sem contar que elas duas juntas causam demais. e coitada da Mari com um presente desses não pode ficar nem feliz kkkkk Marga e seu jeito de resolver as coisas.

Me digam o que estão achando das personagens.

Capitulo 5 Na boca do povo por millah

 

Como Marga me irritava. Voltei para o quarto e esperei minha mãe voltar do trabalho e foi uma maravilha ter a casa só para mim ate as duas da tarde já que Marga não retornou nem para o almoço. Era estranho porque ela mandava na favela, mas eu não sabia exatamente o que ela fazia que tanto ocupava seu tempo. Tudo que eu sabia era que drogas não entravam no morro e isto era tentador para os traficantes de fora. Um paraíso imaculado que atraia suas vitimas a perdição. Muitos vinham ao morro da prata e por achar que Marga só tinha mulheres em seu exercito e todo aquele pensamento machista de que somos fraquinhas fazia os amadores tombarem ao pensar em que tomar o morro seria uma tarefa fácil, mas não era.

 Minha mãe e eu nos jogávamos com frequência no chão com medo dos tiros e eram apavorantes os gritos quando elas acertavam alguém. Era como um jogo para elas acertar invasores. Um jeito tribal de defesa sei lá. As amazonas protegendo a ilha paraíso. Isso me lembrava de Lina metralhando aqueles estupradores. Parecia que tinha ganhado um prêmio.

 O que elas tinham feito com os corpos? O que a policia tinha feito a respeito? Eu não sabia e ficar longe de toda e qualquer noticia me deixava louca. Eu morava onde as paredes tinham ouvidos e as bocas sussurravam historias, ali naquela casa escondida, no meio do mato fechado do topo do morro eu não tinha nada além da belíssima vista do céu.

--que droga.

Sai do quarto e decidi que ia sair de qualquer jeito para buscar informações e com a porta principal trancada eu tinha que ser mais inteligente do que a Marga.eu tinha que pensar como ela nunca pensaria. Ela tinha uma mansão dentro da montanha de pedra e corredores ate interessantes.um deles, atrás da cozinha me levou a garagem com alguns de seus carros mais preciosos. Caríssimos para falar a verdade. Pelo vidro do portão da garagem eu vi uma trilha diferente para sair da casa e que certamente levava para a entrada sul do morro e o botão daquele portão estava ali do meu lado e apertar o botão para abrir a porta automática foi moleza.

--O que ela pensa que eu sou? Um cachorrinho?—sai, mas esbarrei em Lina e isso só podia ser brincadeira.

--vai para onde princesa?—perguntou ela colocando no ombro a flanela suja de óleo por limpar sua moto ali estacionada do lado.eu merecia.

--sair!—respondi.

--sair você já saiu, mas Marga não vai gostar nada de te ver por ai.

--(rs) eu não ligo.

--se vai descer para procurar pistas do que aconteceu com os corpos eu te digo.—aquilo me fez parar e avaliar a ideia.—se você jogar um pouco comigo.

Eu não entendi bem ate Lina me arrastar de volta para casa e me sentar no sofá da sala para jogar vídeo game com ela. Lina estava mais que ansiosa para isto e não tive como recusar. A TV de Marga era enorme de 55 polegadas em seu exagero e eu tinha que admitir aquela tv era espetacular.

--Marga quase nunca me deixa ficar jogando. Ela acha que sou..competitiva demais.—disse ela bem empolgada com o controle na mão me entregando outro.

--eu..(rs) não sei jogar.

--eu te ensino. É moleza.(rs)

--vai mesmo me contar o que houve com eles?

--claro, Marga e eu..a gente queimou tudinho.(rs) não sobrou nada.—ela me respondendo isso com um sorriso maroto no rosto como se não tivesse acabado de falar que queimou corpos e isso me chocou.não era nada para ela??

--mas e a policia?

--eles sempre aparecem quando tem tiroteio. Querem investigar tudo pela frente.(rs) a fama da Marga não deixa eles entrarem além da primeira rua dessa favela. Os becos são lugares malditos para os policiais. Agora vamos jogar.

--como queimaram os corpos?

--pra que você quer saber cabaço? A gente queimou e pronto! Não precisa saber dos detalhes.(rs) agora joga.

--...já disse não sei.—eu ainda tava chocada isso não ia negar mas toda aquela despreocupação de Lina de certa forma me fez não querer pensar nisso..por enquanto.

Ela sentou mais próximo de mim e me ensinou os botões certos. Lina era alta e tinha os cabelos castanhos como os meus, amarrados em um rabo de cavalo o que não impedia eles de continuarem volumosos mais cheios de graça. Ela era engraçada tentando me ensinar a jogar aquele jogo de luta e era legal e rapidamente aprendi em meio as risadas dela.

--eu não acredito. Porra você me ganhou cabaço!(rs)

--não me chama assim.

--é impressionante!

--eu dei sorte.

--não, você ser cabaço. Acho que nem me lembro de quando fui cabaço.(rs) deve ser..angustiante bater siririca e não poder..desfrutar dos dedos direito.

--na minha antiga casa eu e minha mãe dormíamos na mesma cama. Era chato para mim e para ela acredite.

--puta merda então você nunca bateu nenhuma???!..olha eu posso te chupar gostoso,fazer direitinho.nisso você já se entende se gosta de homem ou mulher. O que você acha?

A porta principal se abriu e Marga veio do hall de entrada ate a sala onde estávamos com olhos fixos em mim e ainda bem que não respondi Lina e sua ideia maluca.

--quantas vezes eu tenho que dizer para não jogar na porra da minha tv?—disse ela toda bravinha.

--ah qual é Marga o videogame vive parado ai,e a garota tinha que se ocupar com alguma coisa hoje né além de fugir.—respondeu Lina me dedurando.era inacreditável.

--ela tentou de novo?eu avisei a ela que não queria fugas novamente. Ela pode se machucar seriamente.

--dá para parar de falar como se eu não estivesse aqui?—pedi e ela me lançou aquele olhar de gata raivosa.

--tentou sair de novo.—disse ela como se eu fosse uma prisioneira.

--eu queria saber dos corpos que queimou.—falei e ela me encarou com toda aquela seriedade.

--é muita coragem sua me falar disso, logo você que ficou toda sem ar ao lembrar deles.

--querendo ou não estou envolvida com a morte deles.—respondi.

--não esta não. Eles vieram na meu morro atrás do outro merdinha da gangue deles. E não foi nem por saudade. Tinha um carregamento de drogas escondido aqui e o alecrim dourado sabia, pena que achei antes essa porcaria. Você foi a maneira que eles acharam de me atrair ate eles. Como se fosse funcionar..

--então veio armada atrás de mim por quê??

--xeque mate! Nessa ela te pegou Marga.—Lina riu mas graça eu não achei em nada.

--eu não quero ficar trancada aqui.—reclamei e ela apertava os olhos se controlando pra não se exaltar.

--some da minha frente. Anda!—me levantei e caminhei em direção a saída da casa e Marga me deu passagem do jeito mais irônico e debochado possível me reverenciando.—pronta para o próximo sequestro né?

--vai se foder.—respondi passando por ela ouvindo sua risada macabra.

--deveria investir nessa carreira. Uma perfeita atriz!(rs) aqueles seus gritos estão ecoando na minha cabeça.

Eu deixei a casa e encontrei minha mãe na descida e ela teve que me parar porque eu só tinha Marga na cabeça me irritando.

--para onde vai Mari? Como foi no curso?—perguntou ela toda confiante que aquela surpresa renderia boa coisa.

--ah o curso? Foi maravilhoso, vou estudar no melhor curso da cidade e graças ao dinheiro da Marga e de um nariz quebrado e uma ameaça básica de sequestro vou ser a melhor aluna de todos os tempos por lá,a queridinha.—o deboche na minha animação foi assistido pela cara curiosa da minha mãe.

--a Marga é terrível.(rs)

--nada justifica mãe. Você sabia que ela queimou uns caras ontem?

--parece que descobriu o brasil.eu deixei Marga por isso Mari..ela fez deste lugar intocável para que ela governasse como dona de todos nós.se alguém testa ela é isso que acontece. Ela é esperta, fria e ela esta se apegando a você. Isso é bom.

--bom??Como pode ser bom ela esta se apegando a mim? Hoje ela me trancou naquela casa!

--por causa de ontem? Da sua fuga? Ou da tentativa de estupro?

Aquela foi mais uma surpresa que me congelou e que me gelou a espinha. A cara séria da minha mãe me encarando era assustador.

--Mari,todo mundo sabe de tudo aqui. Basta limpar bem os ouvidos.—minha mãe tava séria demais falando isso e ate me assustou.--que queimem no inferno!Marga fez bem!!

--se sabia por que não falou comigo?

--se quisesse me falar tinha dito ontem e não mentido com Marga fingindo esta tudo bem!!

--(rs)...claro, vamos falar de uma tentativa de estupro no café da manha!—eu não queria mais falar e por isso continuei a descer mesmo com ela me chamando e pedindo para voltar.

Parecia que eu não conhecia mais minha mãe. Era como se Marga tivesse ativado seus aspectos mais ocultos, mais meticulosos. Tudo parecia um jogo agora do qual eu não queria participar e do qual ela não me incluía.

Cheguei à rua novamente onde me pegaram e aquelas velhas casas abandonadas agora me davam calafrios e mesmo assim entrei vencendo meu medo. O chão parecia queimado, como se alguém tivesse limpado a cena do crime. Era impressionante, não havia uma capsula sequer no chão mas minhas lembranças ainda me sufocavam naquele lugar.

--deve ter sido horrível.—uma voz atrás de mim me assustou e me fez virar na hora somente para me dar conta do distintivo pendurado pela corrente no pescoço destacado pela camisa social branca.

Ela era uma policial e só podia estar perdida para estar tão longe de casa.

--por que diz isso?—perguntei e a loira se aproximou.

--ouvir tiros e mortes todo santo dia deve ser horrível. Não acha?—perguntou ela e que papo era aquele? A policia mandou investigadores para resolver o caso?

--..

--meu nome é Alice Valentin e você é?

--Mari.

--só Mari?(rs)..sabe o que houve aqui Mari? Recebemos uma denuncia de um dos condomínios da quadra que houve disparos bem aqui neste local, e incomodaram a vizinhança. Três homens conhecidos como membros ativos da gangue pedra do leão foram vistos entrando aqui com mais uma garota. As câmeras de segurança tinham as imagens bem escuras e esta rua não tem muita iluminação já que é uma das entradas da favela. Sei que não vai me dizer nada por represália, mas ainda tenho que te perguntar..você sabe de alguma coisa?—ela me perguntou porem parecia que sabia bem mais do que aquilo para interrogar uma simples moradora da área como eu e justamente e certeiramente a envolvida no caso.

--é eu sei. Todo santo dia como você mesma disse é o inferno mas o engraçado é que vocês não vem aqui todo dia.

--desapareceram três pessoas. É por isso que estou aqui.

--desaparecem muito mais todos os dias..não só ontem.

--o que esta insinuando Mari?

--não esta aqui por eles. Está aqui por Marga.

Ela não sabia mais o que falar além de me olhar estática diante minha descoberta. Não era nada para mim. A policia não vinha ao morro da prata por nada e aqueles homens não valiam uma investigação mas mesmo assim eles fizeram. Então ela sabia perfeitamente quem era a garota que no caso era eu. Malditas câmeras.

--...infelizmente não estou aqui pela Marga mas eu gostei de você Mari. Pega..—ela retirou do bolso um cartão da policia com seu nome nele e me entregou.—fica com ele.eu vou ter o prazer em te ajudar quando precisar. Claro se souber de mais alguma coisa sobre os tiros..pode me ligar.—ela sorriu e com toda sua beleza fria seguiu seu caminho.

Aquilo me fez pensar como nunca antes. Aquela tal de Alice Valentin estava aqui por Marga mas eu seria capaz de entregar sua localização? Dedurar ela as autoridades pelo que fez? Seria o certo a se fazer, mas eu vivia na realidade e não na porra de um seriado americano.eu devia um favor a ela e agora acho que meu silencio pagava esta divida.ai como eu odeio a Marga!me senti mais uma de suas peças funcionais do morro.

Fui ao mercadinho de um velhinho que costumava ter um bom papo comigo.eu sempre comprava sorvete e conversávamos sobre as noticias no jornal mas agora ele parecia ter medo de mim e isso ficou nítido assim que entrei no estabelecimento. Peguei meu corneto e aquela cara dele me preocupou.

--o que foi Joaquim?

--nada não.—respondeu ele prontamente já desviando o olhar nervoso.

--eu tô com tempo livre. Pode me contar quem morreu, quem roubou (rs) vou ter o prazer de ouvir ate minha casquinha acabar.—falei mas ele recuava de mim como se fugisse de uma doença.

--eu não quero problemas Mari. Por favor..—era quase como um pedido para cair fora e seria assim em cada lugar que eu fosse.eu não era burra para perceber que era por causa de Marga.

Eu deixei o mercadinho e subindo a rua me deparei com mais uma novidade. O posto estava sendo reformado. O engraçado era que tinha mais mulheres da gangue da Marga do que trabalhadores reais. Elas mandavam e riam. Estavam mais felizes do que pedreiros perto de loja de peças intimas paquerando os coitados.

--ae Mari,ta precisando de alguma coisa?—gritou uma delas do alto do alpendre. Era estranho ouvir aquilo, toda vez faziam questão de me ignorar quando não me faziam correr pelos becos assustada agora queriam me fazer favores.

--não.eu to bem.—respondi.

--ta certo..ta vendo ai bando de puta,essa menina é firmeza. Ela sabe que a gente ta ocupada.(rs)

Era estranho todo mundo estava me olhando diferente. Como se não me conhecessem mais.eu passava pelos becos e todos me analisavam, eu ouvia os cochichos.me achavam parecida com a Marga, eu tinha o mesmo olhar que a Marga, ate na presença sentiam que eu tinha algum tipo de autoridade. Esse povo estava maluco. Cheguei a escutar de uma das mães da creche que Marga tinha muitos segredos e que agora a historia mais triste do morro da prata, da mãe que deu a luz nas escadas poderia ser mentira para encobrir algo maior e isto me congelou. Todo mundo já falava da minha mãe antes e agora eu ouvia eles falando sobre elas.de como ela estava se aproveitando da Marga e ate tendo um caso com ela. Fiquei mais de duas horas sentada no degrau de uma escadaria de um beco sujo vendo meu corneto derreter tentando não duvidar da minha própria mãe e nem confiar naquelas vozes que por cada beco que eu passei me enchiam a cabeça.

Era impossível!!eu não acreditava que todo mundo ia começar a ficar com medo de mim e enlouquecendo por causa de Marga e queimando minha mãe pelo morro!

Voltei para a casa da Marga e ela estava lá no sofá lendo um livro. Até parecia gente. Passei pela sala e o barulho do livro se fechando não me assustou, mas era um sinal claro para que eu parasse.

--onde estava?—perguntou ela e isso estava me cansando.

Eu não queria falar com ela mas entreguei a Marga o cartão de Alice e ela encarou aquilo com surpresa. Ela olhou para mim e eu via toda sua desconfiança reinar. Segui ate o quarto da minha mãe e a encontrei arrumando algumas roupas no closet e minha cara fechada foi o suficiente para ela parar e me olhar.

--o que foi Mari?voce ta bem?—ela me perguntou isso e eu a abracei quase não segurando minhas lagrimas.

--todo mundo do morro ta me olhando diferente e falando coisas estranhas sobre nós.

--eles primeiro nos nega ajuda e agora falam tolices..não ligue para nada vindo deles.nada!—ela me apertou firme e nenhuma de nós queria se soltar.

--Você sabia do que aconteceu comigo e não falou nada!eu fiquei sem saber o que fazer.

--eu não falei porque justamente graças a Marga não aconteceu nada! Você ficou na sua e eu fiz o mesmo! E Marga não me contou nada também..foi esse povo ai fora que me contou tudo! O que acha que senti quando me vieram perguntar se você estava bem?te deixando aqui com a Marga eu esperava o pior! Eu sou sua mãe e essas pessoas sabem muito bem que você é minha filha e é a única coisa que me importo.

--então o que esta acontecendo com todo mundo??!ninguém quer estar perto de mim ou falar direito comigo..as poucas pessoas que me viam como gente agora só me querem a distancia. Elas falam do curso que ela me pagou, do jeito que ela me trata! Tem gente que realmente acredita que vocês tem um caso! Que você esta me preparando pra ela!!estão falando coisas terríveis a nosso respeito!!

--esqueça isso. Você é minha filha e é a garota mais honesta e justa deste morro e pronto.—era tudo que eu precisava para respirar um pouco mais aliviada.—(rs) e eu nem sei porque esta com tanto medo disso?e se fosse verdade?eu e Marga?(rs) ou se ela estivesse gostando mesmo de voce?

--não fala isso.

--por que?(rs) o que aconteceu aqui ontem?—a pergunta dela por alguma razão me fez lembrar aquele momento com Marga a me abraçar.

--nada! Nada mesmo!—ate senti meu rosto queimar dizendo isso.

--..vou preparar algo para comer. Vamos.

Descemos ate a cozinha e em silencio minha mãe preparou um lanche para mim. Daqueles que te enchem não somente o bucho, mas também a alma.me sentei a bancada mas Marga também se sentou e com seus olhos sobre mim tentei não me irritar com ela. eu sabia da verdade mas aquele pinguinho insistente em mim queria ouvir da boca dela. Somente para não me sentir estranha lembrando dela tão perto de mim.eu ia por um fim nessas teorias.

Não éramos tão parecidas, já que ela abusava do lápis preto nos olhos e mantinha o olhar de maníaca sempre a disposição. A pele pálida com sua seriedade e beleza de mármore. Ela era estranha mesmo com toda sua beleza.

--por que ta me encarando desse jeito?—perguntou ela com seu tom bravinho e dei de ombros já movendo meu olhar pra longe dela.

Minha mãe serviu os sanduiches e realmente as pessoas estavam ficando malucas. Marga e eu comemos em silencio mas ate minha mãe achou a estranheza do momento insuportável de manter ali na cozinha.

 --O que você disse a esse povo sobre Mari?—perguntou minha mãe a Marga que não estava nada interessada a conversa além de devorar seu sanduiche.ela abriu um sorrisinho.

--por que vocês duas tem que ser tão paranoicas?!Eu não falei nada. Claro que só ressaltei que se tocassem em qualquer uma das duas eu mesmo esfolaria.—disse ela tranquilamente.

--(rs) é por isso!—minha mãe parecia aliviada e ate explicava.--como pode dizer isso a essas pessoas que já vivem assustadas Marga? Todo mundo ta falando que ela pode ser sua filha, que pode ser sua mais nova amante e eu uma biscate que vende a filha. Sabe o que é isso para uma garota como Mari que nunca fez nada pra ninguém?. Logo eu que passei horas naquela porra de escadaria parindo ela tenho que escutar isso graças a você.

--eu me preocupo com ela mas o titulo de mamãe é todo seu, a não ser que repensou e  já posso me considerar a madrasta má da historia. (rs) ou vão inventar agora que sou homem também! Porque isso vai ser o fim da minha carreira.

--da minha filha cuido eu. Agora, se por acaso eu morrer tem todo o direito de cuidar dela ao seu bem entender.—minha mãe falou e Marga acenou me lançando uma olhadinha.

--(rs) como se eu fosse alguma criança também.—falei ganhando sua atenção.--É bom saber que as duas estão preocupadas comigo mas..sei que isso é o de sempre, esses ataques. Depois do que aconteceu sei que não estamos seguras mas..ta tudo acontecendo muito rápido.é muita coisa para digerir.

--tudo bem filha.eu entendo. Depois de ontem eu acho que ate Marga entendeu.

--espera ai, você sabia da tentativa do estupro? Dos caras e tudo mais?—perguntou Marga virando-se curiosa pela resposta dela.

--olhos e ouvidos bem atentos Marga.—respondeu ela e era tão obvio que assim que ela chegasse isso não demoraria em chegar ate ela.

--bando de fofoqueiros.

 --enfim, tem que entender mais uma coisa Mari, daqui pra frente as coisas podem sair do controle e ficarão bem feias então não se surpreenda se tivermos que sair em meio a tiros pela janela. Essa eu conheço bem.—avisou minha mãe recebendo o sorriso nostálgico de Marga.

--(rs) bons tempos Helena.

Lina entrou com uma bolsa transversal azul e se aproximou da bancada animada pelos sanduiches disponíveis no prato e já enfiando um na boca ela entregou a bolsa a mim, o que foi uma surpresa porque ela não estava vazia.algo pesava dentro dela.

--o que é isso?—perguntei a ela curiosa.

--suas coisas, para o curso.—ela respondeu o que só me encheu de curiosidade.

--pedi para Lina comprar algumas coisas a mais para você.—Marga respondeu e continuou comendo.

Abri a bolsa e tinha de cadernos novos a canetas caras, estojos recheados de marcadores e ate algumas apostilas de medicina.eu queria não ficar feliz com tudo aquilo mas tudo me ajudaria com o curso e por um momento ate esqueci de quem era aquele presente.

--gostou?—Marga perguntou tentando esconder o sorriso e ate eu estava tentando não ficar feliz.

--é a segunda vez que tenta me comprar.—falei e ela me olhou bem nos olhos.

--só quero que pare de pensar que isto é dinheiro sujo e veja como esta feliz agora.

--(rs) vou entrar para os negócios da família agora?

--poderia se dar muito bem..—disse ela sedutoramente e olhar para aqueles olhos dela de alguma forma me faziam crer em cada palavra dela.de que ela me queria bem e que de algum modo meu sonho se realizaria.eu estava empolgada mesmo não querendo assumir.

--nem quero saber disso.—retrucou minha mãe me tirando daquele transe.

--nossa filhinha precisa aprender..a ser minha futura dona do morro?—ela falou e minha mãe já a olhou feio com a brincadeira e ate um tapinha no ombro ela levou.

--Marga não começa.

--(rs) não imagino a Mari com uma arma defendendo o morro, a gente morreria se fosse depender dela.—Lina falou me dando um tapinha nas costas.

--eu sempre quis cursar medicina para fazer exatamente o oposto.—falei e só de pensar que eu iniciaria o curso que eu sempre quis me fez sorrir animada.eu não queria controlar.

--salvar pessoas..se o mundo não fosse tão cheio de filha da puta ate que eu concordaria com você.

Notas finais:

teve tanta coisa nesse capitulo mas a certeza é que querendo ou não esse quarteto da super certo. quero só pontuar algumas partes.

Mari e Lina juntas é risada na certa,Helena consolando a Mari pelos boatos e eu não esperaria outra coisa de uma super mãe como ela que entende perfeitamente como o morro é da sua pior forma.Helena e Marga que se entendem tão bem revivendo esses momentos do passado e a escolha da Mari não entregando Marga a policial. curiosas com a Alice Valentin???

Deixem nos comentários o que acharam do capitulo vou adorar receber o feedback de vocês que a proposito eu amei. bjs e ate a proxima.

Capitulo 6 Nada mais que um dia comum por millah

 

Eu não tinha palavras contra a teoria da Marga. Ela estava certa, por baixo de toda mascara a um. Escondido ou adormecido e quando você cresce na favela aprende isso rapidinho.me lembrava do vizinho que tinha me amarrado no poste como brincadeira e me deixou lá das quatro as seis da noite. Minha mãe me resgatou e no outro dia ele riu de mim. Claro que quando se é criança as consequências pouco importa mas quando fiz quatorze eu fiz ele comer meio quilo de areia para me vingar em um surto meu que nem eu entendi direito na época e logo depois ele sumiu.

 Contra aquela teoria eu não poderia ser do contra porem, as pessoas boas, elas ainda existiam e eu ia fazer de tudo para ajuda-las.

--você é muito negativa sabia?(rs)—disse minha mãe a Marga e seu sorriso escondia algo mais além da impressionante maneira como elas se entendiam. O sorriso da minha mãe estava tão cheio de paz e felicidade ao lado dela que me surpreendia como dificilmente eu o via assim. Tão aberto.

--foi você que me deu um pé na bunda lembra?—revelou Marga.

--isso não foi ser negativa foi ser realista.—retrucou ela.

--podemos ser realistas agora. A realidade é que você me olha e lembra de todas as coisas boas que vivemos.—a voz de Marga ao responder ate possuía outro tom, um tom bobo apaixonada e minha mãe não ficava atrás permanecendo naquele olhar eterno.

--(rs) essa ela não esperava, vem Mari essas duas agora vão ficar nessa melação a noite toda.—Lina pulou da cadeira mas me prendi aquilo ate ela me puxar.

Acompanhei Lina ao sofá da sala, mas não conseguia tirar os olhos da minha mãe e Marga. Elas discutiam mas os sorrisos não saiam de seus rostos e algo dentro de mim lutava para gostar daquilo.eu não entendia o porque desse bloqueio.

Logo elas vieram para o sofá e Marga me encarou estranho mais ainda pra Lina ao meu lado.

--da pra dar espaço Lina?—pediu ela já de cara fechada.

--o que? O sofá é grande da pra você sentar e a Helena também.—respondeu ela daquele jeito rebelde tentando assistir a tv.

Marga lançou a ela um olhar raivoso persistente e ela estava quase decidida a arrancar Lina do meu lado quando ela respirou fundo.

--tudo bem pode ficar ai Lina.—conformou-se Marga.

--viu só?!(rs) ela não se importa.—Lina se acomodou mais perto de mim e vi seu braço se acomodar atrás do meus ombros no sofá. Marga ate parou seus passos diante disso. Se não fosse por minha mãe dar um toque a ela puxando Marga para se sentar ao seu lado Marga tinha bancado a cachorrinha com raiva e esse comportamento controlador dela era impressionante, ela mal me conhecia e já estava com este estranho sentimento de posse e depois que ela se sentou ela não tirou os olhos de mim.

--o que vamos assistir?—perguntou minha mãe interessada ao menu.

--um filme que acabou de lançar.

--espero que seja bom. não quero perder meu tempo.—respondeu Marga amargamente.

O filme ate que foi interessante, me prendeu do começo ao fim mas não era a toa o sentimento de vigia. Marga passou o filme olhando para mim com aquela cara irritada. Talvez porque Lina e eu estávamos mais que juntas no nosso cantinho. Lina comentava varias vezes do filme para mim ao meu ouvido já que a tv estava alta e as vezes tive que rir de suas criticas e foi uma surpresa tanto humor. Olhar para Marga era cavar a própria cova mas evitei ficar olhando e quando as luzes da sala se acenderam minha mãe já se preocupou com o jantar primeiramente.

--vou fazer algo para a gente comer.

--não precisa Helena.

--eu to cheia de fome.—disse Lina com um salto do sofá.

--você nem mora aqui. —ressaltou Marga vendo ela seguir para a cozinha.

--que consideração. Negando um pratinho de comida?—reclamou ela.

--(rs) isso nunca foi um problema para você. O que houve com aquela menina do baile?—perguntou Marga e Lina riu debochada.

--deu pra dar uma chupadinha e eu poderia ter comido ela com toda a emoção do primeiro encontro se não fosse uma certa fujona me atrapalhar.—ela olhou pra mim e tive que rir pelo menos um pouco.

--o que? A culpa é minha?(rs)—me ergui do sofá me aproximando da cozinha e fui recebida por Lina sentada na bancada e seu sorriso e olhos brilhantes. Ela era engraçada isso eu não ia negar.

--olha essa carinha linda.—apontou ela para mim vendo não sei o que de tão extraordinário.--(rs) é por isso que eu não mato ela. Por sua culpa aquela menina ficou achando que tu era minha ex.

--me desculpa por isso.

--não precisa,eu comi ela ontem.

Marga tentou não sorrir ou mostrar que estava adorando tudo aquilo mas entendi bem o que ela pretendia ao deixar Lina bem próximo a mim. Mostrar que Lina era uma cafajeste com peitos foi bem efetivo.

Jantamos e subi para meu quarto acompanhada da minha mãe que era só sorrisos. Ela parecia ter adorado passar o filme ao lado de Marga e depois o jantar que ela e Marga não paravam de relembrar os bons tempos. A vida caótica delas e a ascensão de Marga. A carinha bonita não revelava mas quando Marga contou que seduziu o antigo dono do morro e quando teve a chance e arrancou a goela do cara aos dentes enquanto esfaqueava ele e ela seria uma santa se parasse por ali mas Marga contou com gosto como arrancou a cabeça dele e desceu o morro limpando cada soldado do crime em sua fúria. Aquilo me fez pensar, as mulheres do morro que viviam de cabeça baixa e temendo que seus maridos voltassem para casa cheirados de cocaína viram em Marga a salvação. A libertação de uma vida presa a um merda que somente as levariam a morte. Por alguma razão ver onde meu pai se enfiava nisso tudo era de mal a pior. Ele havia abandonado minha mãe gravida e não duvido que tenha compactuado com o antigo rei do crime já que minha mãe nem citava o nome dele. Eu não queria saber dele, eu não queria me apegar aquele lugar por mais que Marga e minha mãe estivessem sei lá,flertando?eu não queria saber.

--eu não entendo você.—falei e minha mãe ate parou de sorrir.

--a gente se dá bem e dai? Isso não quer dizer que vou voltar pra ela.

--não? Tem certeza?

--e você? Esta querendo isto pra mim?

--não!

--então, minha única preocupação é que você se torne a medica que deseja ser e que nossa casinha venha o quanto antes. Não por suas mãos mas pelas minhas! Sei que tem muita coisa jogada nas suas costas mas..tem seus sonhos para realizar e sei que consegue realiza-los. Quem sabe você ate trabalhe no posto daqui. Viu como esta acelerada a obra?

--cuidar dessas pessoas do morro? Depois de tudo mãe?

 --sim Mari. Tem muita gente aqui que nos julga porque somos diferentes, porque ficamos no nosso cantinho mas..você disse que queria lutar pela vida então não escolha quem salvar. Sei que consegue dar o melhor de si então não se preocupe comigo.

Ela me passou nas escadas mas eu tinha que abraça-la e por isso agarrei suas costas e ela parou.

--me perdoa..

--eu não sei. Talvez se me der mais alguns desses abraços por dia eu posso aceitar.—eu a enchi de beijos e abraços e ela sorriu animada.

--agora vá descansar porque amanha você começa o curso e acho que estou mais ansiosa do que você.

--por quê?

--essa ideia da Marga de te colocar em um lugar tão caro, deve ta cheio de gente de todos os tipos.

--esnobes e ricos você quis dizer?

--você entendeu.

--(rs) depois do que ela fez não duvido ser atirada a rua ou a um camburão assim que pisar naquele lugar.

--(rs) ainda bem que você sabe correr bem rápido.

Me despedi da minha mãe e segui para meu quarto.eu preparei tudo na bolsa e não tinha como negar eu estava ansiosa também pelo dia que viria por isso dormi como uma pedra.

*****

Amanheceu e não esperei um segundo mais naquela cama. Tomei um banho, vesti uma roupa legal, penteei o cabelo e fiz um rabo de cavalo e peguei minha bolsa. Eu estava mais do que pronta.

Minha mãe com sempre estava na cozinha e o cheiro do café explodia dentro de casa.

--bom dia e cuidado com o café, esta quente.

--bom dia mãe.—peguei a xicara e quase me engasguei.

--menina..

--eu to bem.(rs) mais que bem.—depois do maravilhoso desjejum me despedi dela com um beijo e sai da casa de Marga.

Era muito bom respirar aquele ar friozinho pela manha e aquele calorzinho do sol sem Marga no meu pé ou me trancando naquela casa ou pior, mandando Lina me vigiar. Acho que foi a primeira vez que desci aquelas escadarias e percorri aquele labirinto feliz por sentir que pelo menos hoje tudo estava como antes. Parecia que eu estava sonhando, finalmente um curso decente e sendo uma coisa boa eu comecei a pensar em agradecer Marga e isto já era um caso bem diferente e complicado. Ela me deu tudo que eu mais queria sem que eu pedisse e isto seria o mais difícil para mim. Ela estava tentando ser legal comigo mesmo eu sendo um saco com ela.

Ao ouvir o barulho da reforma do posto eu via que já estava chegando na metade do morro e no meio de tantas marteladas eu ouvi Marga reclamando com alguém da obra e quando virei a esquina eu a vi conversando com uma das suas minas guardiãs. Ela mais brigava e isso fazia qualquer um sair de perto. Porém meu caminho era aquele então não tinha jeito.eu tinha que continuar.

--ae Marga desculpa.—disse uma das mulheres sem jeito.

--desculpa você pede para essas porra de pedreiro. Será que nunca viu homem??deixa os caras trabalhar!—reclamou ela.

--é que eles são bem gostosinhos. Quando passam o cimento na parede com aqueles corpinhos suados.—a mulher tava bem animadinha com um sorriso safado no rosto.

--não quero saber, esse posto tem que ta pronto o quanto antes e você sabe bem porque. Para no dia que você estiver ai toda fodida ter pelo menos um lugar para te levar.

--(rs) meu plano de saúde.se botar um desses como medico vou adorar os tiroteios.

Eu estava quase perto delas mas Marga já olhava pra mim atenta aos meus passos e quando passei ela pousou sem braço sobre meus ombros e me acompanhou.

--o que foi?—perguntei a ela e seu silencio do qual ela usava para me analisar.

--ta indo para o curso? eu te levo.

--eu vou de ônibus.

--(rs)..ta falando sério?

--estou,eu tenho um passe.

--é o seu primeiro dia e você vai chegar de busão?

--não vejo problema.

--claro, porque Lina seria a mais indicada te levar pra lá não é?

--isso não tem nada haver.

--não foi o que me pareceu ontem. Risinhos, chamego, espero que tenha sido o suficiente.

--essa é pra mim gargalhar? Imagina se você fosse realmente minha mãe. (rs) Aquilo não foi nada. Lina é legal, ela é muito engraçada mas isso é maldade da sua cabeça.

--(rs)...eu conheço Lina já tem uns bons anos. Ela foi minha primeira recruta.com doze já corria atrás de mim por esses becos. Querendo fazer algo pra mim (rs)..ela é como uma irmã mais nova pra mim mas não quero você caindo na conversa dela.

--a amizade dela já é o suficiente. E tem outra coisa, também não quero que..se arrisque por mim.eu agradeço pelo curso mas  o que fez..não precisava.

--olha, olha..você se importando comigo?(rs) logo eu? a madrasta má. Foi por isso que me contou sobre aquela policial? Poderia ter levado ela lá pra casa.

--eu não sou dedo duro. Por mais que você seja..você, eu não queria falar nada. Ela me encheu de perguntas. Ela conseguiu assistir a gravação de uma das câmeras do prédio em frente a entrada do morro, viu eles e certeza que me viu. Ela sabe quem são mas não me inseriu..é obvio que ela quer te pegar.

--você acha? Ela bem que esta tentando. Alice Valentin tem uma longa ficha de renome no banco de dados da policia e isso é bem interessante.

Aquilo era estranho e estava nítido que para Marga ela pensava o mesmo. Marga me surpreendeu ao ser tão poderosa ao ponto de ter acesso ao banco de dados da policia e isto a deixava um passo a frente sempre em qualquer situação. O fato de Alice não ser uma policial qualquer e ter possivelmente um cargo na alta cúpula me fez avaliar o quanto Marga era procurada pela lei.

--(rs) esqueça isso. O que achou? O posto ta sendo reformado e ta ficando melhorado com tudo que outros postos não possuem. —dissera ela com um jeito orgulhoso do local que tomava uma forma de respeito, bem diferente de como era antigamente.—o antigo posto que nem vacina tinha agora vai receber alguns médicos de responsa. Instrumentos pra dar inveja a qualquer hospital da cidade.

--eu espero mesmo que não seja aqueles pedreiros.(rs)

--(rs) eu pensei que poderia se unir a essa equipe que ta chegando. Sei que começou agora mais..poderia dar certo.

--isso seria pretencioso demais. Eu vou começar meu curso e longe de mim já querer algo assim.

--eu sei,eu sei mas..Helena me disse que você é bem mais inteligente e já esta avançada na matéria e toda essa porra.

--é claro que eu ajudaria quem precisasse, mas é loucura tentar fazer tudo sem pratica.

--(rs) engraçado eu já costurei a perna de uma garota sem pratica alguma. Era isso ou deixar ela sangrar pelos becos depois do tiro que levou.

--deve ter ficado uma merda.

--só estou dizendo que quem quer consegue.

--eu entendi seu ponto de vista.

Chegamos ao ponto de ônibus e o busão já se encontrava na parada recolhendo pessoal. Claro que beijinhos e abraços não seria o indicado comigo e ela mas eu não sabia o que fazer com Marga por isso trocamos um olhar esquisito e de corpos travados.

--tchau.

--tchau.—ela retrucou mas me deu um tapinha nas costas que quase estralaram minhas costas. Bruta do caralho.

Como o de sempre na minha cidade querida fez do meu ônibus empacar como um burro teimoso no engarrafamento. E era engraçado nas varias coisas que existiam ao meu redor que puxavam minha atenção para longe da minha ansiedade, como o gordo que tossia sem parar ou na mulher que devorava um cachorro quente contaminando as mãos com germes daquela haste que segurava. Eram coisas aleatórias que me incomodavam de um jeito pior que meu atraso.

Eu me atrasei para o meu primeiro dia e cheguei correndo no curso. Tanto que fui parada por um fiscal de corredor dentro do prédio.

--ta bem tarde para entrar agora querida.—disse ela me parando.

--Mari.—falei e ele só faltou virar os olhos ao suspirar.

--a garota nova?

--sim!!eu entrei..

--tanto faz. Qual curso?

--medicina.

--(rs)..—ele pegou um cartão e me entregou.—passa isso na catraca toda vez que entrar no prédio. Volta la e passa.

--o que? Agora vocês me dizem isso?

--você tem que marcar sua presença querida.

--Mari! Esse é o meu nome.

--o que esta acontecendo aqui?—perguntou um cara de terno vindo apressado e bem que tinha cara de diretor ou supervisor chefe mas quando me viu não sei o que deu nele mas travou. Ele deve ter conhecido o método de Marga.—volta lá e passa seu cartão na catraca. Disso você deve entender não é?

Eu senti o seu tom ressentido. Marga fez do nariz daquele cara uma maçaneta de tão amassada e agora esse descontar suas raivas em mim não era o melhor jeito de começar aquela situação porque eu não estava ali para ser chamada de pobre mas para estudar então depois daquela indireta respirei fundo para não acender meu pavio.

--tudo bem.

--o que vai ser mais uma catraca no dia não é?—disse ele irônico em ser um bosta.

--eu não tenho vergonha alguma de usar uma catraca senhor. Tenho orgulho em dizer que a uso no meu dia a dia e não somente como uma alegoria de marcar presença. É um sinal da minha independência. Eu não sou como esses filhinhos de mamãe ou queridinhas do papai e muito menos uma selvagem como Marga.—respondi e ele cruzou os braços e sorriu.

--não vai ter ela para te defender aqui, fique ciente disso.

--(rs) isso ainda é uma escola não é? Não tenho nada para me preocupar.

Passei deles e fui ate minha sala e a aula realmente já tinha começado e entrar lá não foi como ser recebida de braços abertos e sorrisos gentis, estava mais para o jeito que me olhavam sempre em todos os lugares que eu ia quando sabiam perfeitamente de onde eu vinha e olha que eu estava com as roupas que Marga havia me dado.

--deve ser a estudante nova.bom, sente-se e da próxima vez chegue na hora.—disse o professor com um livro na mão e a lousa cheia de garranchos de explicações.

Achei uma mesa vazia na ultima fileira embaixo do ar condicionado. Aquilo seria péssimo para mim mas me sentei e como não era a primeira vez que sentei no fundão ao contrario do que todos pensavam eu me senti confortável.

A aula já estava avançada alguns capítulos, mas ainda não era novidade em nada do que eu havia estudado em casa. Acho que foi surpresa para o professor quando me encheu de perguntas que foram todas respondidas por mim sem hesitar. Infelizmente eles não se surpreenderam pelo motivo certo.

--como sabe de tudo isso?—perguntou o professor curioso.

--estudando..como todo mundo.—respondi já estranhando sua pergunta e os olhares virando-se para mim.

--deve ser difícil..

--por que seria?

--bem,o nosso reitor nos falou que você mora no morro da prata. Onde se esconde a traficante de drogas mais procurada do país. Deve ser difícil estudar com toda aquela baderna e funks de madrugada.(rs)

--ela não é traficante de drogas.—respondi e todos me olharam mais uma vez surpreendidos.

--...perdão?—perguntou o professor confuso.

--Marga não é traficante.—retruquei e ele conteve seu risinho.

--mas é uma bandida como todas as outras. Enfim que conversa terrível.(rs)

Todos riram e não sei onde viam graça naquilo mas continuamos com a aula e o professor tentou me esquecer um pouco e isso foi um alivio.

Não era como eu esperava. Nada era na minha vida. Fora a atenção do professor ninguém havia falado comigo além do garoto que sentava do meu lado que me informou a pagina do capitulo e pelo visto ali não seria diferente do morro. Os cochichos e olhadinhas estranhas já começavam do outro lado da sala e tentei não ligar.

--hey..—chamou ele minha atenção.—não liga para ele. É um maluco lunático.(rs)—disse ele baixinho a sorrir.

--percebi.(rs)

--conhece mesmo ela?Marga?—perguntou ele baixinho e bem curioso sorrindo a mim com dentes brilhantes e um jeitinho encantador se encolhendo pelo frio que ali fazia.—me desculpa,(rs) deve ser chato falar sobre isso direto. Desculpa.

Parei para observa-lo e pensar que seria assim meu começo naquele curso de um bando de gente curiosa pra saber sobre o morro e Marga me incomodava contudo, ele rapidamente compreendeu isso. O que não era tão mal assim.

--ela..me ajudou a entrar aqui.—respondi receosa porem ele se mantinha tão atento e com aquele sorriso no rosto que tive que encara-lo ate onde isso iria.

--legal!!!eu sabia que nem tudo era verdade.—ele não parava de sorrir e não pude deixar de notar que ele ate que era bem gatinho.

Notas finais:

Eu adoro o fato de que mal começamos a historia e elas ja se parecem com uma grande familia kkkk digam ai se vocês já estão shippando alguém com quem e que final ein,Mari e sua mais nova amizade?

obs:adoro ver vocês comentando!!!me divirto demaais com vocês!!!bjs e ate a proxima.

Capitulo 7 Confiança é a base de toda relação por millah

 

No intervalo todos seguiram com seus amigos e minha nossa nunca pensei que sentiria falta de companhia como sentia agora. Fui ate a lanchonete no térreo e pude perceber as centenas de olhos que me vigiavam.

Eu tinha que agradecer a Marga por isso e quando finalmente achei uma mesa vazia para sentar para comer meu sanduiche e tomar meu suco vi um rosto conhecido,o homem que agora tinha um curativo no nariz e muita raiva estampada na cara e quando me viu abriu um sorriso no rosto e se posicionou na minha frente.

--espero que esteja adorando sua estadia aqui.—disse ele com um sorriso falso estampado.

--se não me quer aqui é só dizer mas não me venha com falsidade.—respondi calmamente porem seu sorriso se fechou e ele se dobrou para falar comigo.

--seu lugar não é aqui e você sabe! Seu lugar é no morro com aquela vadia!—dissera ele com aquele tom falso passivo agressivo. Respirei fundo.

--então por que não disse isto a ela quando Marga quebrou teu nariz?

--deveria ter chamado a policia. Teria sido um fim para esta dor de cabeça.

--(rs) a policia? Pode chamar. Eu não quebrei seu nariz.

 --eu vou te tirar daqui.(rs) pode apostar nisso.

--depois de tudo eu só digo uma coisa, coragem.

Ele me olhou com receio e entendeu minhas palavras como uma ameaça. Eu via isto escrito na cara dele. Ele foi embora e me deixou comer em paz, mas ele tinha que entender que isto era para o bem dele. Se ele continuasse aquele ódio gratuito sobre mim Marga certeza que voltaria aqui e acabaria com ele. Porém resolver tudo sozinha também seria uma boa e evitaria mais uma confusão.

Eu sabia que não era bem vinda mas tentei meu melhor, só desacreditei que também tinha mais gente se esforçando por mim. O garoto da sala apareceu no refeitório e veio direto para minha mesa com seu sorriso branco de dentes perfeitos.

--posso sentar?—perguntou ele com sua bandeja.

--claro.

--eu não te disse meu nome. Sou Angelo Gomez.

--Maria Cruz mas todo mundo me chama só de Mari.

--(rs) é o nome da minha mãe.

--que coincidência.

--as pessoas aqui ficaram bem curiosas a seu respeito. E quem não ficaria?—sentou-se ele mordendo sua maçã.

--nunca viram uma favelada? Não é assim que falam?

--(rs) não se ofende com esse termo? Ninguém é melhor que ninguém.

--para os ricos sim, somos BEM diferentes.

--Eu moro próximo ao morro da prata no condomínio luzes do amanhecer.

--minha mãe já trabalhou por lá..e não é tão perto..

--sério? Ela trabalhou em um dos escritórios de advocacia? Ou do doutor Afonso? Ele é um ótimo psicólogo.

--não, ela é uma faz tudo. Doméstica.

Ele escondeu seu sorriso mas não o olhar bobo para mim. Ficou ali calado tentando me entender e isso me fez corar e fugir daquele olhar sereno.

--alguns teriam vergonha de dizer isso.—disse ele e pra mim aquilo não era.

--isso é coisa de imbecil. Ela me criou sozinha e eu só sou o que sou por causa dela.eu só tenho a agradecer.

--deve ser uma grande mulher. Não a conheço mas a considero pakas depois dessa. (rs)

Depois do lanche e do intervalo voltamos a sala e nosso papo rolou tranquilamente. Parecíamos amigos de longa data e logo estávamos a vontade para resolver nossas atividades juntos. Foi uma boa conquista.

E no fim das aulas deixamos o prédio e ele fez questão de se despedir de mim na entrada do prédio com um abraço e não posso negar que tudo em mim se arrepiou. Aquele peitoral definido, o cheiro do perfume e as mãos geladas dele apertando minha mão uma ultima vez. Ele partiu e dentre os vários motoristas que esperavam as patricinhas e filhinhos de papai eu vi Lina sentada no capô do mustang vermelho e seu sorriso a me ver me afastou de toda aquela fascinação.

 --olha minha medica!—gritou ela batendo palmas pra mim chamando atenção com todo seu entusiasmo. --Espero que esteja aprendendo a tirar balas e costurar pele porque não vou querer outra pessoa além de você cuidando de mim.—dissera ela bem enfática.

--(rs) eu não sei se ia querer te ver assim..

--é sério, Marga não tem piedade comigo não.—ela desceu do capô e não pude deixar de notar os risinhos atrás de mim. Essas pessoas me incomodavam tanto..—o que foi? Esses filhos da puta ainda não aprenderam a lição?

--como eu disse, ele não gostou nada de me ter aqui. Todos.—entrei no carro e Lina me acompanhou.

--nem todos, não é? Quem era o garoto?

--ninguém.—retruquei rápido demais e Lina já começou a suspeitar.

--abraça qualquer um daquele jeito? Imagina quando eu te pedir um abraço..

--é só um colega da sala. O único que falou comigo como gente.

--e trata ele como um zé ninguém?

--eu sabia que ia implicar com isso por isso o ninguém.

--só to perguntando porque Marga quer saber de tudo.

--ah não, ela não precisa saber de nada.

--mas esse é o meu trabalho. Ai eu posso ir lá dentro e arrancar o saco desse merda da diretoria com minhas mãos! E quem sabe do pivete também!

--não Lina.

--um arrombado! Isso que ele é!

--eu sabia que isso ia acontecer. De todos os lugares Marga tinha que me por logo aqui?

--sabe como é, ela tem grana e aqui é  a melhor faculdade mas não fica assim. Pena que ta cheio de otario aqui! Um pra irritar e outro pra te comer!—ela tava furiosa e segurar ela gritando no meio da rua fazendo um escândalo foi uma barra.eu tive que ser rápida e abrir a porta do carro e puxar ela pra dentro dele.

--não fala assim...só não precisa contar a Marga ok. Ela é um furacão, vai arruinar tudo.

--então..o que você me oferece?

--o que você quer?

Ela me olhou maliciosa e eu suspirei com aquele sorrisinho se abrindo.

--sem ser eu.—completei.

--que chata. Bom,seria legal você ir comigo num lugar ai..e quem sabe eu não conto nada para Marga.

--nada?

--Isso eu te garanto.eu vou por um sorriso nesse rosto já já .

--o que?(rs) para onde vai me levar? A gente precisa voltar para o morro, minha mãe me mata se eu não chegar antes dela do trabalho.

--calma ae,a gente vai pro morro. Só não vamos para casa agora.(rs)

Assim que chegamos no morro Lina me encheu de curiosidades para onde me arrastaria e era de se esperar que ela me levasse ao lado leste onde na praça a musica alta da quadra latina já tocava alto.

Era impressionante saber que o morro da prata era o perfeito modelo da globalização. Para cada lado havia de latinos a asiáticos, tínhamos também os russos. Era de tudo um pouco e algo mais e ninguém poderia dizer que isso não era verdade e que no morro da prata tinha tudo que precisávamos. Se o pais quisesse viraríamos outro. E lá estava eu sendo puxada por Lina entrando na festa, tudo para que Marga não soubesse dos novos fatos.

--a festa aqui acontece dia inteiro. Marga autorizou a galera a se divertir e investir seu tempo nessa baladinha de onde sai ate uns djs bacanas, umas gatinhas que cantam para caralho, um pessoal da dança e arte. Todo mundo se tornou artista depois que ela acabou com o trafico desta parte do morro.

--como ela fez isso?

--Marga detesta drogas e quando viu que a galera daqui estava usando ate as mães para enganar ela Marga só precisou degolar um para o resto entender que se ela não queria drogas aqui era exatamente isso que eles iam atender.

--e quem era?

--Ruan,ele tinha dezenove na época e ele se confiava achando que ela não o mataria por ser um garoto bonitinho que ia a igreja. Ele vendia drogas na escola e durante a madrugada.(rs) ele se enganou completamente e vacilou com o personagem. Depois que ela baixou a regra os filhos começaram a ouvir suas mães e todo mundo virou cidadão de bem.

--ela não fez isso..

--ele era um escroto Mari. Ele enviou a própria mãe para a Europa com o estomago forrado de capsulas de cocaína e para azar dele uma delas estourou. Ela morreu e quando a policia rastreou de onde as capsulas tinham vindo, o morro da prata foi o primeiro lugar suspeito da lista da policia. Marga tinha todo direito de degolar ele e se quer saber, a mãe dele era uma boa mulher e não merecia esse fim. enfim, esquece isso e vamos dançar!

Lina me puxou para o meio da quadra e ela já requebrava com os cabelos ao vento toda sorridente mas eu não entendia aquela frieza dela. Lina havia me contado de uma das piores coisas que ouvi da Marga e ela estava ali rindo a toa dançando na minha frente. Como ela não sentia remorso por compactuar com esse sofrimento? Por que nenhuma delas sentia?

--vai, se diverte! Dança comigo!—disse ela já dançando animada na minha frente.

--eu..não sei dançar.

--como não?(rs) qualquer um pode dançar.

--não eu não levo jeito..

Ela me pegou pela mão e me aproximou dela. Lina era alta comparada a mim mas isso não nos impediu de nos olhar nos olhos e nem dela levar minhas mãos ao seu quadril.

--sente meus movimentos e me imita. —ela se movia devagar balançando os quadris e copiar ela não foi difícil.—isso ae.no ritmo.—disse ela enquanto tocava umas batidas latinas e logo eu entrei mesmo no ritmo.

--(rs) eu nem sei se estou fazendo certo.

--tá maravilhosa!(rs) esquece aquele otario.

Eu realmente me deixei levar pela musica e Lina e eu começamos a dançar sem nos importar com mais ninguém e isto só fez Lina tomar intimidade do meu corpo. Ela me rodopiava e me puxava para mais perto em nossa dança e quando me dei por mim suas mãos já estavam em grudadas na minha cintura, seus olhares mais fixos aos meus e suas intenções certamente já não eram somente a dança.

Logo a musica com Con calma começou e fiz o ritmo aumentar e ela se empolgou. Lina tomou meus quadris por trás e me guiou em meu rebolado. Senti ela atrás de mim e isto me envergonhou um pouco.

--ta sentindo?—perguntou ela comigo sentindo suas mãos abarcar minha barriga e ela me tinha onde queria. Seu rosto começava a se encaixar no meu ombro e aquela dança estava saindo do meu controle e só pensei nas palavras de Marga. Ela estava dando encima de mim.

Ela guiava meus movimentos e seu corpo atrás do meu era arrepiante mas me virei e não somente eu como ela deu de cara com Marga bem ao nosso lado.

--o mais rápido possível não é Lina.—disse Marga e Lina não sabia como explicar nosso desvio e me surpreendia ela estar nos esperando.

--...é que a gente deu uma paradinha rápida aqui.—explicou Lina temendo aquela calmaria fria.

--e você?—perguntou ela a mim.

--quer mesmo que eu responda?

Ela me pegou pelo pulso e me arrastou pela multidão a tropeços deixando Lina para trás tentando justificar mas ela estava furiosa e rápida demais.me fez andar pelos becos quase me chocando contra tudo e todos.

--dá pra me soltar!?—tentei arrancar a mão dela do meu pulso mas ela me apertava de um jeito que foi impossível tirar aquelas garras de mim e sem ela dizer uma palavra eu comecei a me perguntar do porque de tudo aquilo.

Chegamos a casa dela onde apenas depois da porta ela me soltou.

--eu pedi a Lina para te buscar e te trazer de volta para casa e não para a porra de um baile se esfregar com ela!—reclamou ela alto e em bom tom.

--olha, obrigada pelo curso, mesmo. Por realizar meu grande sonho de conviver com tantos babacas mas não vou deixar você fazer isso comigo. Não vai mandar em mim como mais uma dessas garotas do seu exercito. —respondi no mesmo tom e ela estava se controlando com aquele olhar raivoso virando-o pra mim.

--eu não quero você saindo com uma sem noção como a Lina!

 --ela me diverte e dai??!Não estou fazendo nada demais! Você diferente dela sequer me ouve e vive brigando comigo! Fica impossível!

--o que? Quer que eu escute você reclamar dos merdinhas daquela bosta de curso? Não mesmo. Como você mesma disse era seu grande sonho. Agora que esta morando aqui eu não quero você passeando pelo morro, se distraindo. Principalmente com ela!

--mais que coisa! eu não posso fazer nada!

--não com ela!!Não sabe a raiva que esta me dando agora garota. Eu deveria te arrastar para o quarto e te dar umas porradas!—ela veio andando na minha direção mas não recuei.

--toca em mim que eu conto tudo para minha mãe.—a respondi e eu estava brincando com a sorte.

--(rs) ela conhece Lina tão bem quanto eu e sabe que ela ia te comer e te deixar como uma uva passa no natal. No mínimo ela ia me ajudar a te deixar roxinha só por ter se negado a me ouvir. A Lina é bonita? É, mas se acha que vai me desrespeitar assim acho bom repensar agora.

--por que?ta com ciúmes?—perguntei mas preferi não ter feito.

Ela começou a me olhar de um modo bem assustador e isso foi o bastante para começar a pensar em correr e foi o que fiz.

Eu subi as escadarias correndo e olhar para trás foi meu erro. Ela esta me seguindo furiosa e era meu fim.

--eu vou te pegar.—ela riu adorando me perturbar e com isso virei ao chegar no terceiro andar.

--para com isso!

Ela parou e me deu um risinho demoníaco e não esperei mais para comprovar seu teste de loucura. Fui para meu quarto e tranquei a porta. Ela que se lasque.

Não demorou muito tempo para ouvir um grito de dor mas não era de Marga. Isso me fez abrir aquela porta o mais rápido que podia e receosa desci e já do andar da academia eu conseguia ouvir e distinguir de quem se tratava. Era Lina implorando e da forma como pedia para Marga parar eu sabia que meus passos dali para frente deveriam ser silenciosos e sorrateiros, degrau a degrau e despercebida cheguei a metade da escadaria.

--para cacete!!!você vai cortar meus dedos!!!me solta!—gritou Lina tendo o braço segurado por Marga montada sobre ela no piso com a maluca segurando uma faca brincando de furar enquanto ela torcia deitada no chão para que não se machucasse. Tudo aquilo por causa de hoje?

--eu mandei você trazer ela diretamente para casa!—Marga fincou a faca mas graças a deus ela acertou a madeira.eu poderia ficar aliviada e Lina também mas ela continuou a fincar a faca tentando de todas as formas acertar a mão dela mas depois do terceiro golpe errado eu vi que ela estava tentando assusta-la e estava conseguindo.

--a garota só quer se divertir!!—disse Lina em sua defesa.

--ela ou você???!desde que Mari veio pra cá eu vejo você igual um urubu pronto para atacar.

--fala sério Marga!!Mari é gostosa fazer o que?

--tem preferencia por um dos seus dedos? Acho que não né..vou cortar todos e vai ser como uma castração para você.

--me mata então!!!mas poupa meus dedinhos!!!

--ta gostando né? posso quebrá-los também.

--ta desculpa, perdão pelo vacilo e tudo mais deusa misericordiosa mas fora o deboche de amigas porque somos amigas não é?eu só queria...dar uma chance para ela com o curso sabe. Mostrar pra ela que..pode confiar na gente!

--aquele desgraçado esta arrumando problemas né..—eu vi bem a hora que Marga desceu a ponta da faca lentamente sobre as costas da mão de Lina e ouvi bem quando ela gritou sentindo a ponta perfurar a pele.

Marga tinha o semblante pensativo e muito menos ligava para o desespero de Lina presa em seu joguinho desesperada para se desvencilhar dela. No que ela estaria pensando?

--ele não vai causar problemas e ela ta se enturmando. tá tudo bem.

--ela fez amigas?—perguntou Marga curiosa.

--(rs)...só um amiguinho.

Me levantei e caminhei descendo as escadas pois eu sabia que ia dar merda porque se ela estava me proibindo de andar pelo morro e sair com Lina a mente dela a esse momento estava fervendo de raiva.

Por alguma razão ela não se surpreendeu em me ver ali e muito menos soltou Lina.

--solta ela.—pedi e Marga gargalhou de mim.

--a gente só ta brincando..não é Lina?

--é por essa e outras razões que não quero que se envolva nos meus problemas.—retruquei ganhando novamente sua atenção.

--eu te paguei a merda desse curso.

--e eu já agradeci.

Ela soltou Lina e Lina não perdeu tempo e saiu enquanto que Marga veio a mim com a faca em mãos.

--(rs) seus problemas?—ela com sua faca encostou a afiada ponta no meu rosto. Arranhava e estava gelada mas eu não sei, eu não conseguia ficar com medo dela quando seus olhos me olhavam tão bem como agora.

--eu não tenho medo de você.—falei com toda a minha calma e ela sorriu.

--você ainda nem me conheceu para ter certeza.

--não quero que volte lá.

--e porque acha que vou acatar uma ordem sua?

--é mais um pedido. Não quero que aconteça nada com você lá fora.

--hmm ta com vergonha de mim também?

--depois de tudo que me fez..só não quero virar mais um problema pra você ou ser um motivo para que isso aconteça.me deixa cuidar do resto na faculdade..vai ser melhor. Sei que posso cuidar disso. Depois de ter me salvado daqueles caras, você ainda tem Alice por ai..só to usando um pouco o cérebro.

Ela pela primeira vez me olhou confusa. Até a lamina que tocava meu rosto ela fez questão de tirar.de repente a porta principal se abriu e minha mãe chegou já falando e enquanto ela ganhava a atenção de Marga eu peguei da mão dela a faca e fui para a cozinha.

--hoje ta muito quente. Talvez chova mais tarde.—dissera ela deixando a bolsa na recepção.

Aproveitei para guardar a faca e Marga me olhava tão pensativa que se esqueceu de responder minha mãe.

--vi Lina lá fora..é impressão minha ou alguém andou aprontando?—minha mãe era esperta e Marga logo disfarçou.

--não foi nada.—respondeu ela calmamente.

--não me diga que ainda ameaça cortar os dedos dela?—minha mãe falou porem de tanta ironia nem parecia que era verdade o que ela dizia. Mal sabia.

--só de vez em quando. —retrucou Marga e minha mãe balançou a cabeça talvez imaginando a cena.

--como foi na aula?—perguntou ela vindo me abraçar.

--foi legal.—respondi apenas lembrando do perrengue com o diretor.

--já fez alguma amizade?

Eu olhei para Marga e ela já tinha seus olhos sobre mim e parecia mesmo que ela queria ouvir da minha boca.

--um garoto falou comigo.

--hmmm um garoto? Ele era bonito?—curiosa minha mãe perguntou com um sorrisinho maldoso no rosto.

--ela ta la para estudar né?ou já vai avançar para anatomia?—perguntou Marga e aquele tom já me foi o bastante para escolher muito bem minhas palavras.

--ele só foi legal. O professor ficou falando sobre o morro e você sabe..

--(rs)..quando vão falar bem daqui? Não se incomode.—disse Marga e isso era verdade por um lado.

--enfim não foi a primeira vez que defendi você não é mesmo?—respondi.

Marga me viu passar e quase entortou a cabeça para isso. Era bom ver que ela reconhecia pelo menos meu esforço com ela.

Notas finais:

Coitada da Lina kkk quem ta ai pronta pra passar o pano pra ela?ela só queria se divertir! E Marga pelo visto vai ter que controlar seus impulsos e crises de ciumes pois Mari esta de olhos bem abertos e conquistar a confiança dela vai ser um grande desafio.

digam ai nos comentários o que acharam do capitulo, já fico agradecida por vocês tirarem um tempinho pra historia.amo vcs!!!bjs e ate a proxima!!

Capitulo 8 SAVE THE DATE por millah

 

Depois de toda aquela bagunça só sei que as três da tarde realmente começou a cair um toró interrompendo meus estudos. Fechei a vidraça da janela e voltei a mesa e foi quando minha mãe entrou no quarto com um copo de suco.

--será que você não cansa de estudar?

--é minha obrigação não é? Se quisermos mesmo sair daqui.

--(rs) fez aquilo mesmo?..defendeu Marga?

--chamaram ela de traficante. Isso ela não é. E sabe como eu sou..

--você odeia injustiças..—ela entregou o suco a mim e sentou na cama. Parecia pensativa ate mesmo com aquele sorrisinho e olhos perdidos.—sei que pensa o mesmo. Que se ela não estivesse no meio de tudo isso ela pudesse..

--estar com você? Ela é instável e controladora. Ela teve sua chance e fez sua escolha..

--eu sei. É que as vezes penso que posso ajudar ela mas sei que não posso. Não me enterrando de novo em um buraco.

--você nunca me falou sobre isso..sobre..porque tem medo de voltar a ser a mesma com ela.

--e nem vou..eu não me orgulho disso mesmo ela gostando tanto do que fui pra ela..

--(rs) Ela faz uma carinha ate que bonitinha quando ta interessada em algo. Quero dizer..—acho que me precipitei e minha mãe ate me olhou curiosa abrindo seu sorriso a mim.

--(rs)...vou deixar você estudar. Mais tarde podemos fazer alguma coisa se quiser.

--tipo o que?

--não sei. Tem a festa latina, o restaurante da Hyung com aquela comida japonesa maravilhosa e ate a sorveteria do grandão russo. O morro tem tanta coisa.

--as portas do castelo de marga estarão abertas?

--ela vai com a gente..claro se não quiser a gente pode ir sozinhas como antes..

--não, tudo bem mãe. Talvez seja interessante. A gente ir junto..todas nós.

--ta certo.—minha mãe era apenas sorrisos quando deixou o quarto e eu ainda não sabia porque aquilo me incomodava tanto.

Era obvio que ela estava gostando da Marga de novo e esse pedido seria apenas um encontro disfarçado. Ela tava brilhando.

Depois dos estudos guardei meus livros e tentei descansar, mas um barulho constante vindo da academia me tirou toda a vontade de dormir. Eram socos e como a casa estava silenciosa os ecos não me chocaram.

Marga estava lá socando um saco de treinamento, e quando me ouviu descer os degraus rapidamente olhou pra mim e puta merda como ela era desconfiada. Minha presença mesmo em silencio recostada a parede assistindo ela já era o suficiente para tirar sua concentração, por isso ela veio ate mim e deu pra perceber que pelo seu jeito cansado ela já estava ali por um tempo. Seu cabelo molhado e rosto suado se mostrou evidente. Sua roupa de treino, a calça moletom colada as pernas e o top branco e a pele molhada de suor que escorria pela barriga definida só permitiram me impressionar em ver como ela estava em forma. As mãos enroladas em faixas e ate alguns adesivos analgésicos nos braços me revelavam o quanto ela levava a sério o treinamento já que a dor parecia ser um objetivo a evitar julgando pelo balde de gelo em um cantinho ao seu lado. Detalhes que notei bem durante minha analise. Ela se aproximou tanto de mim que de onde eu estava eu podia sentir seu calor. Estávamos a centímetros uma da outra.

--o que foi?—perguntou ela bem intimidadora por invadir seu território.

--nada.—lancei meu olhar para longe dela fugindo dos seus tão fixos a mim.

--ninguém fica me encarando por nada e os que fazem isso estão enterrados.

--se você diz..sobre Lina..

--ela esta bem. Vai poder bater sua siririca por mais um dia. Como se eu fosse cortar mesmo os dedos dela.—ela se afastou voltando ao que estava fazendo e pude respirar aliviada.

--de você eu espero tudo.

--Lina é a pessoa mais próxima que tenho depois de sua mãe. Ela foi a única que queria estar perto de mim quando toda a merda aconteceu. Depois que virei a dona do morro da prata.(rs) e eu a coloquei para fazer tantas coisas..coisas que ela jamais contaria a você. Coisas que se eu mandasse ela obedeceria e sequer hesitaria. Ela é um alvo assim como eu por isso todos nos evita, todos tem medo da gente. Lina é tão brutal quanto eu.Ela sem dedos não me serviria de nada.

--ela não se importa..não se ficou tanto tempo com você.

--ela não tinha ninguém. Você tem sua mãe para chorar por você.

--falando nela, minha mãe quer sair mais tarde..

--eu sei. Ela me chamou.

--você vai?..mesmo?—aquilo foi uma surpresa. Não achei que ela iria aceitar dar uma volta com a gente.

--(rs) por que? Você vai também?—perguntou ela interessada da mesma maneira.

--vou é claro.

--(rs)...pensei que íamos sozinhas.—ela avaliou tudo com um maldito sorriso no rosto e era obvio que ela já estava pensando besteira da minha mãe.

--(rs) sabe que esta se enganando de novo né?

--sei e seria bom dividir o quarto com mais alguém..não acha?

Aquele sarcasmo era pior do que ver ela em fúria. Eram momentos como esse que toda raiva que eu podia sentir por ela eu sentia tudo de uma vez.

--se vai ficar com raiva de mim entra na fila mas faz um favor vem preparada. Vem aqui.—ela me chamou para o interior da academia e tentei não me irritar.

Ela riu tirando as luvas e sem temer caminhei ate ela. Marga pegou minhas mãos e colocou uma luva em cada. Elas eram pequenas e não iguais as de boxe que eu costumava ver por ai. Eram leves mas eu sentia a diferença.

--não tenho nada para ensinar a você é só bater.—ela se posicionou atrás do saco o segurando e eu fechei bem os punhos.

--posso fingir que é você?

--vou adorar.

Eu soquei o primeiro golpe, o segundo parecia fácil demais e foi ai que ela empurrou o saco e me acertou.

--viu só o que acontece se você se meter em uma briga? Ou achou mesmo que ele ia ficar aqui parado? Apanhando calado.

Apesar de estar dolorida depois daquela eu me coloquei novamente para socar e mais uma vez ela me bateu e mais uma vez e mais uma vez ate me fazer desviar da maneira certa o que não demorou mais que uns cinco golpes dela.

--você esta aprendendo mas ainda tem muito o que fazer.—ela me bateu novamente com o saco  de pancadas e nessa não teve como desviar. Ela estava adorando e minha paciência acabando.—da próxima você se defende assim..—ela veio ate mim e me ensinou o jeito certo de posicionar meu braço para uma defesa.—dificilmente alguém vai socar sua cara dessa forma.

Meus braços e ante pulsos já estavam doloridos dos impactos mas me propus a ficar ali aprendendo com ela.

--vocês estão ai.—minha mãe apareceu com um sorriso no rosto que logo sumiu ao ver Marga segurando meus pulsos próximo da minha cabeça e para ela parecia loucura já que bufou em um suspiro..—o que pensa que esta fazendo Marga?—o tom dela não estava nada agradável.

--ensinando a garota.—calmamente ela respondeu.

--ela não precisa aprender isso.—era nítido que minha mãe havia se irritado.

--sua garota burra vai acabar me colocando em problemas mais cedo ou mais tarde. Pelo menos quando isso acontecer ela vai pelo menos saber se defender.

--eu já te disse Marga, você não vai recrutar minha filha.eu não quero você colocando ela para ser sua nova Lina, braço direito ou esquerdo, nada!

--não recrutaria essa idiota nem que me pagasse. —eu tive que olhar desacreditada pra Marga.

--hey eu ainda to aqui!!e que merda de historia é essa?—falei.

--Marga sonha com alguém inteligente ajudando ela com esse morro.

--você ta praticamente chamando Lina de burra.—retrucou Marga cruzando os braços.

--ela é quando quer! E você faz ela se esquecer que de rainha você só manda aqui.

Marga riu debochada parecia que minha mãe não sabia um terço de nada.

--eu mando só no morro? que piada Helena.

--não quero que você machuque Mari.

--eu não vou. Somos grandes amigas já.—Marga me puxou e nem parecia que estava me chamando de burra a segundos atrás. Pousou sem braço sobre meus ombros e me apertou. Pensei que não pudesse piorar ela vem e me beija na bochecha. Seus lábios estavam gelados e se fosse somente aquela vez ela veio de novo e parecia que minha pele tinha aquecido sua boca. O que estava acontecendo? Minha cara brava fez minha mãe me puxar dos braços dela e me envolver nos dela. Ai que briguinha!

--(rs) você é uma idiota.—dissera ela a Marga.

--ta vendo? Fala assim de mim na frente dela e essa nojentinha vai ficar cheia de liberdades comigo.—ela me olhou torto mas tentei não ligar.

--ai eu não quero discutir. Hoje eu quero me divertir.

--devo te lembrar que ficar saindo por ai não é muito a minha praia. Ainda mais em grupinho.

--ué?você é a dona do morro da prata não é?(rs) nada vai nos acontecer estando com você.—minha mãe nos deixou e eu tive que me segurar para não rir. Marga estava sem fala e minha mãe partiu toda animada.

--nada vai nos acontecer..—repeti adorando essa parte que tanto preocupava Marga.

--e não vai mesmo. Aquela policial não vai entrar no meu morro.

--então é por isso que esta tão preocupada com a gente. Esta com medo que ela nos ache ou melhor seu esconderijo.(rs) quanto tempo essa mulher esta atrás de você?—perguntei e ela me olhou surpresa em seu silencio.

--(rs)..—ela não tinha como esconder que era justamente sobre aquilo que a incomodava ao pensar em sair por ai,só que rir a toa de Marga nunca era uma boa ideia e com isso ela me socou na barriga. Foi ate leve apesar de um pouco dolorido.

Só sei que a noite chegou e me arrumei como minha mãe tinha pedido.um jeans,uma blusinha de alça preta e um salto era o suficiente.me maquiei, caprichei no delineador e penteei bem meus cabelos jogando de lado. Adorava como minhas mechas mais claras ficavam.de todo modo, eu sempre me preservava com um elástico no pulso caso precisasse amarra-lo. Olhando pra mim no espelho tudo parecia ir bem demais.

Íamos jantar no restaurante de Hyung o que não era sempre mas todo mundo que ia fazia questão de ir muito bem vestido. Hyung era de uma família vinda de Okinawa e com seus pais altamente tradicionais mas falidos trouxeram ao morro da prata suas deliciosas receitas japonesas. Ela com seus 25 já sabe de cor todas as receitas de família e comanda o restaurante dragão vermelho. Ainda me lembro dos dias que trabalhei para ela lavando os pratos e ela sempre me esperava terminar tudo para fechar o restaurante com ela. Também me lembro das fofocas ao redor do seu nome, algo que também nos uniu. Diziam que ela era filha de um caso vindo da coreia porem era a filha favorita e mais velha da família e super respeitada. Enfim, a chuva era apenas uma lembrança da tarde e agora o céu escuro estava mais que estrelado. Fui para a sala de estar e encontrei Lina com seu tênis bonitão e short jeans claro e sua camisa florida de botão. Ela estava linda.

Ela olhou para mim e por alguma razão conteve o sorriso.

--você esta bem?—perguntei.

--claro. Aquilo não foi nada.—ela me mostrou a mão e o furo da faca quase era invisível além do vermelhidão.

--não deveria deixar Marga fazer essas coisas com você.

--(rs) fico feliz que..você se preocupe comigo mas Marga e eu já saímos no soco se quer saber. Ela finge que ta com raiva e eu finjo que to com medo.

--finge é?—Marga apareceu descendo as escadas já com os ouvidos atentos ao nosso papo.

Seu cabelo como sempre estava impecavelmente ajeitado e alinhado, a cor preta dos fios estava brilhante. Ela não estava tão diferente de mim tirando a jaqueta jeans e o coturno preto.

--(rs) linda como sempre.—Lina elogiou desviando do assunto e Marga se dirigiu ao sofá e se atirou nele.

--sua mãe vai demorar muito?—perguntou ela pra mim enquanto conferia as unhas.

--vai depender do quanto ela esta afim..—ela me olhou e vi que aquele ar esperançoso voltou ao seu semblante e ate quase um sorriso quando fiz questão de sentar no sofá ao lado.—de ir é claro.—ela revirou os olhos e virando a cara e de uma certa forma era bom ver ela bravinha.

--pois eu sempre estou afim de ir na Hyung.—Lina sentou ao meu lado e claro não deixou de pousar seu braço sobre o meu ombro e com isso Marga logo voltou sua atenção a nós.

--conhece Hyung?—perguntei a Lina.

--se conheço?(rs) ela tenta se enganar dizendo que não gosta de mim MAS esse ser ainda não existe na terra. É tipo impossível alguém não gostar de mim!(rs)

De repente minha mãe desceu as escadarias com um vestido florido e o cabelo magnifico. Seu sorriso brilhava e pela maquiagem bem feita eu sabia que ela bem animada com esse passeio.

 Marga de mim olhou para ela e na hora se ergueu do sofá. Ela era daquelas que adorava esconder seus sentimentos então ficou ali séria tentando controlar cada sorriso que dava.

--sua mãe ate que é gostosa.

Olhei para Lina e ela me lançou um sorriso.

--to brincando.

--então, vamos?—perguntou minha mãe botando no ombro a alça de sua bolsa.

--só to aceitando isso porque me pediu com carinho.(rs) não gosto de ficar andando pelo morro.—disse Marga e minha mãe soltou um riso.

--desde quando?—perguntou ela desconfiada.

--(rs) pra quê ela ia querer?—perguntou Lina.—ela tem tudo aqui.

--e qual a graça? Não tem ninguém.—falei.

--não preciso de ninguém.—respondeu Marga a mim.

Marga tomou nossa frente e saímos em grupo.

O morro da prata definitivamente não era um morro qualquer era uma cidade dentro de outra cidade. Um lugar único com seus becos e que em qualquer escolha que fizesse entraria em um lugar totalmente diferente do outro, com seus detalhes humildes porem cheio de cores. Marga estava no topo, mas tínhamos uma cadeia alimentar para nós, pobres plebeus.

Hyung e sua família podiam ter chegado ao morro sozinhos porem as coisas deram tão certo para eles que logo as casas do alto se tornaram como parte de outro pais. Era lindo andar pelos becos e ver toda aquela decoração de luzes e lojas que surgiam a cada esquina, muitos de sua família. Era como ir ao Japão em poucos minutos. Minha mãe logo se juntou a Marga e iam a frente conversando e Lina ia bem do meu lado. Ela tinha um sorriso incomum no rosto olhando para mim.

--o que foi?—perguntei.

--ela surtou com seu boy?

--não.

--que coisa estranha..

--por que?

--..(rs) nada não.

--então não vejo porque a surpresa.

--ela sempre surtou com sua mãe sobre qualquer homem perto dela. O engraçado é que parece que isso passou para você também.

--não acho.

--depois daquele surto dela comigo?

Lina abriu mais uma vez seu sorrisinho e me puxando para perto pousou mais uma vez seu braço sobre meus ombros e riu alto. Marga que estava tão concentrada no papo com minha mãe fez questão de virar seu olhar a nós para dar uma conferida. Foi impressionante, depois de mais alguns passos e mais uma conversinha com minha mãe eu vi minha mãe virar e me esperar para andar do meu lado. Lina nem fizera questão de dizer uma palavra e avançou para acompanhar Marga mais a frente.

--O que ta rolando?—minha mãe perguntou baixinho e ate estranhei.

--eu não to fazendo nada. Você tá?

--(rs) eu já falei que não quero mais nada com Marga além da nossa boa e velha amizade mas Lina Mari (rs) ela não quer bem isso com você.

--ela ta sendo legal e amiga também.

--ela ta querendo te pegar isso sim e se acha que ser legal é sinal para minha aprovação você ta muito enganada.

--(rs) calma ai mamãe. Por enquanto eu e Mari somos só amiguinhas.—disse Lina virando-se para a gente com seu sorriso e me puxando para seguirmos na frente.

--viu só? Até disso ela vai suspeitar.—Lina disse isso no meu ouvido e olhamos para trás e as duas estavam lá com cara feia e tivemos que rir baixinho e contido.

Não posso negar que era divertido fazer aquilo com Marga e Lina sabia como mexer seus pauzinhos. Era possível ouvir ela reclamando com minha mãe o que só confirmou o que Lina dizia.

Logo chegamos ao restaurante da Hyung. Ele era todo esquematizado para se parecer com um templo então vermelho e preto e o tom de madeira eram predominantes e já na entrada vimos que estava lotado.

--Lina e Helena poderiam procurar Hyung e pedir pela melhor mesa dela? Ela saberá o que fazer.—pediu Marga e minha mãe calmamente aceitou.

As duas trocaram olhares e adentraram e nisso Marga olhou bem para mim, diria ate que no fundo dos meus olhos com aquele jeito ameaçador. Tentei não ligar olhando para outra coisa mas ela pegou no meu queixo e virou minha atenção a ela.

--esta tentando me irritar e esta conseguindo.—ela falou e tive que puxar meu rosto daquela mão.

--ah claro porque agora você me comprou né? Eu tenho que fazer tudo que você quer.

--quem me dera. Seria tão bom para minha paz.

--é por causa do garoto né?

--eu to cagando para o que faz naquela merda de faculdade. Quer dar para ele dá. Não vou te impedir.

--(rs) eu acabei de conhecer ele.

--(rs) ah claro. Da mesma forma que você se ilude com Lina?

--do jeito que você é já deve estar ciente que não vou ter nada com Lina. Desde o começo você nunca implicou mas desde que ela te contou do garoto você ta surtando.

Minha mãe voltou acompanhada de Lina e Hyung e tive que fingir que não estava discutindo já que a bonita da Marga se colocou como desinteressada a tudo que vinha de mim com aquela pose orgulhosa.

--Marga, seja bem vinda e bem vinda a todas.venham comigo.—Hyung cumprimentou a todas e nos guiou.

Ela percorreu boa parte do restaurante ate a escadaria para o primeiro andar onde permanecia vazio.

--espero que gostem da comida. Temos pratos maravilhosos hoje e é muito bom ver você novamente Mari, ainda mais viva.—disse ela a mim e Marga lançou um olhar cheio de seriedade.

--o que é isso? Virei o monstro da historia?—reclamou Marga a Hyung e infelizmente Hyung era corajosa demais para abaixar a cabeça e preferiu encarar o olhar de Marga do que calar-se.

--ta mais para fera. O morro todo ta comentando do que aconteceu.

Marga suspirou e subiu as escadas ignorando Hyung e minha mãe assim como Lina subiram para acompanha-la.

--você realmente esta bem?—perguntou Hyung e seu semblante mudou completamente.

--estou é claro.—falei tentando acalma-la.

--todo mundo fala mil coisas e isso me deixou bem preocupada.

--não somos reféns e muito menos estamos lá obrigada.só..não tínhamos mais para onde ir e minha mãe fez as honras.eu nem sabia que eram amigas.

--isso me deixa um pouco mais aliviada. suba, antes que ela reclame.

Subi e eu ainda me impressionava com o que Hyung e sua família fizeram naquele lugar. Era praticamente um restaurante de luxo de tão perfeito.

--ai Mari,me passa o numero da Hyung?—pediu Lina com uma carinha de criança marota e os olhos a brilhar. Dava pra ver de longe seu interesse por ela.

--(rs) de forma alguma. Ela jamais me perdoaria.—respondi reparando na forma que aquela mesa tomou.

Minha mãe de um lado com Lina e Marga de outro sozinha com a mão no queixo rindo da de Lina e sua cara implorando pra mim.

--ta vendo Marga. Você fica fazendo minha fama por ai ta vendo que acontece?!—embirrou Lina.

--agora a culpa é minha? Você que não consegue manter nenhum relacionamento. Sempre procurando qual a grama mais verde para ciscar..—respondeu Marga.

--o que mais me impressiona é você ter feito Hyung reservar uma mesa tão boa como essa pra gente..da pra ver todo o restaurante daqui.—me sentei ao lado de Marga olhando tudo ao meu redor e toda sua estética oriental.

--(rs) a família dela chegou aqui sem nada mas cheia de ideias. O avô e o pai tinham um dojo no Japão e o velho sabia fazer espadas samurais. Eu sempre gostei de espadas então dei a eles o que eles queriam.—disse Marga tranquilamente.

--por uma espada?—perguntou minha mãe.

--(rs) o velhote me treinou a usar facas e todas as armas com uma boa lamina afiada. Foi uma semana foda.logo a família aumentou e eu precisava de pessoas na minha equipe. Ainda bem que gente não falta e as mulheres asiáticas sabem preparar o melhor picadinho de gente que já vi.(rs)—Marga se deliciava contando suas historias e era impressionante cada uma delas.

--se lembra daquele cara que a Yozora fez?—perguntou Lina e já me preocupei com todo o resto da conversa e minha mãe pela cara pasma a mesma coisa.

--(rs) lembro, ele já veio temperado.—as duas riam e minha mãe e eu tentávamos não imaginar a cena.

--a gente vai comer suas idiotas.—reclamou minha mãe com toda a razão.

Hyung voltou trazendo seus ajudantes e o melhor que seu restaurante podia oferecer.

--aproveitem.

Era uma enorme barca cheia de peças de sushi que encantou nossos olhos e a garrafa de saquê era bem tradicional e vinda diretamente do Japão. Parecia um item raro encima da mesa. O lamen foi preparado na nossa frente e o cheiro da sopa de missô abriu meu estomago.

--itadakimasu que fala né?—perguntou Lina a Hyung que apenas acenou. Parecia nervosa com Marga mas Marga sequer se importava com ela.

--espero que tudo esteja do agrado de vocês e qualquer problema pode me chamar.—dissera ela pronta para sair.

--eu tenho um problema.—disse Marga atraindo nossos olhares a ela.

Hyung ate paralisou na espera.

--o peixe ta cru.—Marga riu e Hyung respirou fundo e saiu com seus ajudantes.

Enquanto ela e Lina riam minha mãe fez cara feia.

--precisava disso?—perguntou minha mãe a Marga.

--ela não tem humor?—respondeu ela.

--posso saber se tem alguém aqui do morro que você não já ajudou?—perguntei.

--deixa eu pensar.....não. Todo mundo come aqui na minha mão.—respondeu ela orgulhosa.

--como é que come com esses palitinhos?!—Lina estava toda atrapalhada com os hashis.

--é só unir eles Lina.—expliquei mas ela ainda tava complicada.

--pra comer macarrão!? Fala sério! Palito de merda!

--olha a boca.—repreendeu Marga.

--são hashis.—falei mas Lina fincou seu hashi como se fosse um garfo no sushi e sua dificuldade para comer sumiu.

--e la vamos nós!—Lina enfiou o sushi inteiro na boca e eu me segurei para não rir.

--menina não faz isso!—minha mãe puxou o hashi da mão dela e ficaram numa luta pela posse dele.

--o que??—reclamou Lina tendo o hashi tomado por ela.

--é assim que se pega no pauzinho.—minha mãe mostrou perfeitamente como segurá-los e Lina depois de assistir soltou um sorrisinho.

--(rs) pegar no pau? cê ta doida!—brincou ela e era uma moleca.

--presta atenção é assim.—minha mãe ajeitou os hashis na mão dela e começou a ensinar Lina e não parou mais de falar e Lina ouvia a tudo como uma boa aluna debochada.

Foi apenas o barulho do pedaço de carne jogado na chapa da mesa pela Marga que a fumaça subiu e ela parecia bem mais concentrada em seus pensamentos com sua seriedade do que nelas.

Ela olhou para mim e por um momento eu esqueci da dupla atrapalhada do outro lado da mesa.

--isso foi uma surpresa também para você? O que fazemos com aqueles que nos contrariam?—perguntou ela a mim.

--(rs) por que quer me impressionar com as estruturas do seu reino do medo?

--(rs) essa é ótima. Reino do medo. A visão que você tem de mim é bizarra. Eu tenho sentimentos também.

--recebe uma grana dessas pessoas.

--uma grana justa. Eu não ganho dinheiro com pó.

--é uma coisa que eu ainda não acredito.

--sabe com o que eu trabalho? Chega a ser uma piada essa acusação sua. Armas! O morro da prata é impenetrável e eu gosto muito dessa palavra ultimamente porque pode não parecer mas eu me preocupo com essas pessoas.

--é mesmo?

--você não faz ideia.

--mas eles tem medo de você Marga. Hyung estava branca.

--eu não posso fazer nada em relação a isso. Passa com o tempo. Lina segura essa merda de hashi direito!

De repente ouvimos algo pesado cair no andar abaixo e víramos nossos olhos para espiar por cima do parapeito.

Lina riu mas eu me preocupei.

--olha só, um cara gordo ta enfartando.—ela era a única que sorria vendo aquilo mas ele não estava enfartando.

--não é isso.—me ergui da cadeira e corri ate o andar abaixo.

O homem estava se contorcendo no piso ficando vermelho implorando por um pouco de ar. A aglomeração já estava feita ao redor dele e nisso abri caminho.

--Hyung peça para que se afastem.—pedi ao me aproximar do cara.

--vamos pessoal!!façam o que Mari pediu.

Ele desmaiou no piso e pude verificar melhor do que se tratava.

--ele é alérgico a algo que comeu. A garganta dele ta travada.

Eu tinha que ser rápida e pensar em algo. Logo Marga e Lina e minha mãe apareceram e minha mãe já estava surtando.

--anda Mari, você quer ser medica. Salva o gordão pra gente ver.—Marga falou e quando olhei para ela eu sentia o quanto ela estava adorando meu desespero. Ela estava me desconcentrando, mas eu sabia exatamente o que fazer.

--eu preciso de uma caneta.—falei tentando manter minha calma e Hyung assim como todo mundo exibiram suas caras confusas.

Hyung correu para pegar uma e em japonês colocou seus empregados para procurar também.

--será possível que ninguém tem uma caneta aqui?!—reclamou Lina atenta as pessoas que mexiam nos bolsos.

--eu tenho!—uma mulher apareceu no cerco e com uma caneta esferográfica ela me entregou assustada.

Com a caneta já em minhas mãos eu tirei o tubo de tinta e sua ponta e tampa ficando apenas com a casca de acrílico nas mãos. Eu tinha que furar o seu pescoço porem inserir aquela caneta nele estava me deixando mais nervosa ainda. Minha mão tremia para posicionar a ponta sobre a pele e apesar de nunca ter machucado alguém ao ponto de furar uma pessoa eu sabia que era necessário agora.

--anda Mari! O cara ta ficando roxo!!

--para de apressar ela Lina!—retrucou minha mãe também nervosa.

--ela não sabe fazer.—disse uma mulher e logo mais uma e outro começaram a falar e o pouco da minha concentração estava se perdendo.

De repente Marga apareceu do meu lado e se abaixou tomando da minha mão a caneta e cravando exatamente onde eu havia demarcado. Ela sequer hesitou e o ar que estava preso nos pulmões do tal homem saiu como um assovio baixo por dentro da caneta. Ele voltou a respirar e eu sequer tinha reação para isso. Os aplausos vieram mas eu olhei para Marga e ela ainda esperava de mim algo que explicasse tudo aquilo.

--a ambulância já esta vindo.—disse Hyung porem isso não me tranquilizava.

--deixem ele..na mesma posição.—falei e com tantos olhares sobre mim eu me senti uma idiota por não conseguir ajuda-lo direito e assim que vi que estava tudo bem,a ambulância tinha chegado e levado ele eu só queria deixar aquele restaurante.

Virei meus passos para longe dali e procurando minha bombinha no bolso. Era bom sentir o peito mais leve depois daquele susto e se não fosse por Marga eu sequer tinha conseguido.

--espera.—ouvi ela me chamando alguns metros atrás mas não queria parar.

--filha!—minha mãe gritou e assim que virei meu olhar a elas vi Marga falar com Lina e pelo visto ordenou ela a levar minha mãe de volta para o esconderijo de Marga.  Eu queria muito que todas tivessem ido mas Marga apressou o passo ate mim.

--o que foi aquilo? Estava indo muito bem ate a parte quando decidiu não fazer.—disse Marga curiosa mas eu não queria falar daquilo.

--eu ia furar ele com a porra de uma caneta!—virei a ela e quase desmoronei.eu podia sentir meus olhos se enchendo mas de forma alguma eu ia chorar pra ela.

--não achei tão difícil.

--essa é a diferença entre mim e você. Você sente gosto nisso eu não.

--assim pareço uma maníaca. Eu faço porque é preciso. Aquilo foi preciso e uma hora você vai ter que fazer.se quer ser medica vai ter que fazer.

--eu sei..é que todo aquele sangue..me faz pensar em muita coisa.

--não era tanto. Foi uma grande ideia. Você foi rápida e salvou aquele homem.

--não,foi você.

--porra me escuta..eu só fiz um furo já você foi genial.

Era estranho ver Marga tentando me consolar e mais ainda ver que ela havia conseguido. Foi então que vi minha mãe e Lina retornarem descendo a rua vindo ate nós.

--você ta bem?—minha mãe me abraçou e quase não me soltou.

--to mãe.

--desculpa Marga,Helena é difícil de domar.—se justificou Lina.

--eu não ia deixar minha filha ter uma crise sozinha.

--mãe eu não to tendo nenhuma crise ok.eu só..

--arregou.

--(rs)

--Sem Mari aquele homem tinha morrido. Essa é a verdade que conheço. Foi brilhante a ideia e um dia você vai superar esse medo eu sei que vai e vai ser a melhor medica deste mundo.—minha mãe conseguiu arrancar um sorriso meu e ela era demais.

--que exagero.—dissera Marga cruzando os braços tentando estragar aquele momento feliz.

--cala a boca Marga.—retrucou minha mãe e ela me encarou.

--só estou dizendo que se tem medo de um sanguezinho talvez isso demore.

--você é um saco Marga.—respondi e ela gargalhou.

--(rs) eu mais que ninguém estou esperando você conseguir fazer isso. Tirar um pouco de sangue seja como for.—Marga me deu alguns tapinhas nas costas e sempre com sua mão pesada me puxou com seu braço sobre meu ombro.—e já que salvou aquele balofo, a gente bem que poderia curtir lá no baile né? Já que estamos nessa de rolê pelo morro. O que acha Lina?

--uma bebidinha vai ser a melhor coisa.eu sei fazer uma parada com frutas e vodca vão adorar.

--bebida não é comigo..

--ta na hora de experimentar algo novo. Bora curtir!—Lina falou e eu já me preocupava com esse rolê.

Notas finais:

dessa vez o capitulo foi daquele jeito,grandão nervoso!!

temos mais uma nova personagem na historia, seja bem vinda Hyung e já começamos com a unica certeza nessa historia,se tem essas quatro em qualquer lugar teremos um problema. Mari foi rapida ajudando o cara e Marga viu um pouco do potencial da menina apesar do seu medo do sangue. por sorte o date ainda não acabou então nos vemos no proximo capitulo.bjs amo vcs!!

Capitulo 9 Esses sentimentos me aprisionam ou me libertam de você? por millah

 

Eu nunca tinha bebido nada na vida e quase nunca via minha mãe bebendo e ver que ela queria se divertir pelo menos uma vez na vida sem preocupações e ainda mais para me animar eu vi o quanto aquele olhar pensativo para mim representava.

--amanha Mari tem aula então..nada de extravagancia.—minha mãe baixou a regra.

--isso!!!agora a gente vai poder dançar de novo!—Lina falou e eu fiquei vermelha de vergonha ao lembrar.

--que historia é essa?!—minha mãe perguntou curiosa e nisso Marga lançou um grande suspiro ao meu lado já me soltando para seguir ate minha mãe.

--vou adorar te ver dançando de novo. Como nos velhos tempos.—Marga falou e minha mãe controlou o máximo que pode o sorriso que se abria.

Seguimos ate o baile e a praça estava lotada e as luzes e toda a mudança no visual eram nítidas. De luzes ocidentais fomos a fervorosa noite latina de canções calientes e Lina já tinha segurado minha mão e me levou ate o bar. Meus olhos perderam Marga e minha mãe na multidão mas pareciam conversar tranquilas da ultima vez que as vi.

Eu sequer entendia minha preocupação quanto a isso e tentei esquecer, Marga era dona do morro então com ela nada a aconteceria. Nada.

--sério que nunca bebeu nada?—perguntou Lina e neguei com a cabeça. —(rs) to vendo que vai ser interessante.

Chegamos ao bar e Lina pulou a bancada deixando o dono do bar de olho nela. Se fosse qualquer outro, talvez ele estivesse surtando, mas Lina era como o braço direito e o esquerdo de Marga então ele apenas deixou ela se divertir catando algumas frutas e dois copos para os drinks.

--você tem que tomar isso. Eu fico toda molhadinha depois da segunda dose.—Lina era rápida preparando os drinks e era divertido acompanhar tudo.

--(rs) Lina eu acho que não é uma boa ideia.

--qual é?!só pra dar uma animada.—enquanto ela falava manhosa eu via a quantidade de garrafas que já tinha passado pelas mãos dela e a mistureba que ela fazia dentro daqueles dois copos já estava me preocupando.

Ela empurrou um copo na minha direção e o outro ela entornou com um gole. Meu fígado ia embora depois disso.

--eu nunca bebi e provavelmente vou morrer depois disso.

--para Mari, deixa rolar.eu to aqui não to?sua mãe,Marga.vai na fé.

Parecia realmente que estava tudo seguro. Peguei o copo e com cuidado bebi mas isso não evitou da minha garganta quase pegasse fogo com o sabor do álcool e das frutas me ferrando goela abaixo.

Lina riu da minha careta e ficou ali com as mãos no queixo me encarando a sorrir. Ela tinha o sorriso de menina marota pronta para aprontar.

--o que foi?—perguntei.

--você se preocupa com Marga. Tirando sua mãe e eu...isso me surpreendeu. Quando eu vi aquela policial disfarçada puxando papo contigo eu pensei que ia ter que te dar uns tapas, mas...você contou a Marga. Contou a Marga para ficar esperta. Ate Marga estava surpresa.

--não sou x-9 mas não é porque fiz isso que to do lado de vocês.

--aham,claro.você é uma cidadã de bem.(rs) mas foi bom ver que antes de qualquer coisa você pensa em nós..Marga é como uma irmã pra mim. Jamais me perdoaria se algo me impedisse de ajuda-la.

--como a conheceu?

--ela não contou?(rs) eu morava na rua. Perdi meus pais para as drogas e acho que nem se eu os achasse novamente eles me reconheceriam. Era apenas eu e minha sombra quando vivendo mais um dia de roubos no engarrafamento do túnel da rodovia bem ai ao lado do morro que eu e minha mente brilhante inventamos de roubar o carro dela. Ela sequer hesitou quando botei o ferro na cara dela. Eu ia atirar mas aquele olhar desafiador me fez ficar com medo se errasse. E ela bem calma sorriu pra mim e saiu do carro. Me deu a chance de tentar, eu paralisei porque no mínimo eu conseguia algumas carteiras, outras vezes algumas joias mas o carro dela era tão foda e no engarrafamento parado ela disse. “Leva.”(rs) eu tava com tanto medo dela que ameacei atirar e ela me provocou, ela queria muito que eu atirasse com aquele sorriso na cara. Ela ficou lá pedindo,atira!anda atira!e eu engatilhei a arma e porra quando ela disse que eu não tinha coragem eu atirei. Meus ouvidos se prenderam no barulho do túnel e...ela ainda estava lá de pé.eu tinha errado e ela (rs) nem havia se mexido..

--você quase matou ela..

--(rs) cheguei nem perto.eu errei. Ela me contou que ninguém teve coragem para isso.

--que besteira isso.

--ela é a Marga garota, todo mundo teme ela e no começo não era diferente.eu fiquei apaixonada.(rs)

--você vê nela uma heroína.

--ela foi para você naquele casebre com aqueles caras porque por mim..eu tinha ficado no baile. Agora entorna tudo isso ai e vamo pra pista. Vai!—peguei o copo mais uma vez e antes de sentir mais um golpe do álcool virei meu olhar para minha mãe no meio da praça dançando com Marga e a conversa parecia ter sido esquecida com elas dançando animadas e bem coladinhas.foi um motivacional. Virei o copo sob aplausos da Lina que já me puxava para dançar.

--vamo dançar daquele jeitinho que te ensinei ok!—Lina tava animada e ela me levou para bem perto de Marga e da minha mãe. Eram apenas alguns três metros de distancia mas que me inibiram.

Lina já tava toda empolgada assim como minha mãe e Marga.

--anda se solta e dança comigo.

Lina me fazia rir e acabei cedendo. Ela me pegou pela mão e começamos a dançar aqueles hits latinos mais uma vez. Ela requebrava com aquele quadril e me rodopiava e sua pegada na minha cintura era impressionante. Estávamos rindo de nós mesmas tentando dar nosso melhor e ate me esqueci do casalzinho que de vez ou outra lançava seus olhares sobre nós. Dona Helena não queria se divertir com Marga? Eu só digo bom proveito e meu pensamento ate que deu certo já que elas se afastaram da multidão que dançava e escolheram um banco da praça para conversar. Marga podia estar de olho em nós mas estava ali atenta a conversa da minha mãe. Por que eu me preocupava tanto com isso??era ciúmes da minha mãe ou o quê?!

Liguei o foda-se e dancei com Lina do jeito que eu queria.

Lina era mais alta do que eu então me dominava com seus passos e como ela mesma tinha dito aquela bebidinha estava começando a fazer efeito. Meu corpo já estava ficando quente da dança e devo dizer que aquele drink só ajudou a intensificar.diminui nosso ritmo e Lina me envolveu nos seus braços me abraçando por trás.

--você realmente aprendeu a dançar garota.

--você é uma boa professora.

--eu vou pegar mais um drink pra mim.quer mais um?

--acho melhor não, minha mãe vai surtar se amanha eu faltar aula.

--amanha é sexta!

--amanha é quarta.

--só mais uma dose.

--Lina eu não vou ficar molhadinha se é isso que ta querendo.

--eu??jamais!!credo!vê você..molhadinha e toda cheia de tesão??..isso não é pra mim.—olhei para ela sobre meu ombro e aquela carinha estava ansiosa para aprontar.tava na cara que ela estava gostando de mim além do que devia. Ela olhava para minha boca e voltava aos meus olhos e quando isso se repetia em questão de segundos dava pra sentir o quanto a vontade que ela tinha de mim crescia.

--só mais uma dose.—falei e ela animada saiu em busca dessa dose. Ela me animava mesmo com meu estomago me pedindo arrego com isso.

--se divertindo?—a voz de Marga ao meu lado fez meu coração disparar com o susto e ela já muito curiosa me olhava desconfiava e também tentou achar Lina na multidão.

--o que foi?—perguntei a Marga e sua cara cheia de seriedade e cabeça cheia de pensamentos maldosos pelo visto me fitou.

--cadê ela?

--foi buscar mais um daqueles drinks dela pra mim.

--(rs) você gosta né?

--é só um drink.

--deveria ter negado. Amanha tem aula.

--parece que tudo que faço te incomoda..

--não, só essa parte. Não quero que pare na cama dela.

--por que se incomoda tanto com isso? Estamos começando a nos entender e o que é ótimo e é somente isso!

--(rs) ela vai te comer todinha e você não vai nem conseguir andar amanha se continuar assim!

--nossa que exagero. Olha, sei que faz isso por causa da minha mãe e eu sei mais do que ninguém que ela ta te deixando louca principalmente agora. Então vai lá, sobe para sua casa e fica com ela de uma vez e me deixa em paz!—isso saiu de mim quase como um fardo pesado que eu estava cansada de carregar e saber e pelo visto me deixava tão nervosa que saiu da forma mais zangada possível.eu via isso no semblante dela me olhando raivosa calada como a porra de um bloco frio de gelo.

--é, seria uma boa subir e ficar com sua mãe, mas to aqui enlouquecendo com você! Querendo o melhor para sua buceta e toda essa sua marra acabaria em um piscar de olhos se me visse subindo com ela.

--(rs) vai em frente...eu sei perfeitamente quando minha mãe esta afim de algo e infelizmente é de você. Então só..me deixa em paz!

Ela me olhou com toda aquela seriedade e um pingo de surpresa quando acenou com a cabeça.eu nem sabia se pedir aquilo era bom mas me preocupava com todo o resto que viria mas eu não queria que ela fosse.

Ela sorriu e Lina voltou com mais dois copos na mão.

--se o seu objetivo para hoje é deixa-la bêbada vou cumprir o que falei e cortar os seus dedinhos. Eu não quero problemas com a Helena.—dissera Marga e Lina logo se preocupou ao chegar.

Lina e eu trocamos um olhar mas somente Lina soltou um riso que logo ela conteve.

--eu vou tomar os dois se esse é o problema..—Lina falou porem Marga tomou os dois copos das mãos de Lina e os derramou no chão.

--quero você em alerta e sabe bem o porque.—retrucou ela devolvendo os copos vazios a Lina.

--desculpa Marga isso aqui nem arranha.

--com essas festas não duvido nada que aja infiltrados por aqui. Depois daquela Alice eu não duvido de nada. Amanha quero resolver a parada dos portões o mais cedo possível.

--certo.

--que portões?—perguntei curiosa.

Marga me olhou pensativa e Lina em seu silencio só confirmou que elas estavam pensando em mais alguma coisa para o morro e isso já era obvio demais. Minha mãe logo apareceu com uma garrafinha na mão e ela parecia animada.

--ai estão vocês. Já tinha um tempo que eu não vinha aqui e toda essa energia boa era o que eu precisava pena que meia hora de dancinha seja o suficiente pra mim.(rs)—disse ela com um sorriso largo e ate cansada.

--cala a boca você ainda é gostosa.fala como se fosse uma velha acabada.—Marga puxou minha mãe pela cintura e eu quase tive uma sincope. Foi um alivio ver ela beijando apenas sua bochecha e eu queria muito não sentir tanto ciúme assim dela mas tava pesando.

--ta calor né?—falou minha mãe separando-se de Marga.—que tal um sorvete?

--sorvete?

--sorvete de responsa só la no russo.—respondeu Lina.

--eu não vou lá no Russo.—falou Marga a Lina.

--é o melhor sorvete.—retrucou minha mãe.

--é do outro lado do morro.—respondeu Marga.

--eu pego o carro.

Marga parou Lina e tomou as chaves da mão dela.

--eu pego mas vamos para casa. Manda o Russo deixar lá em casa.

--aah qual é Marga. Só pra fechar nossa noite.—minha mãe estava empenhada em fazer Marga mudar de ideia já que para ela parecia ser mais difícil de negar.--Ah vamos Marga.eu pago essa rodada.

--sorvete de graça??!—Lina me fez rir com sua empolgação.

--não mime ela Helena. Vai ficar mal acostumada.—respondeu Marga encarando Lina.

--Hey!!

Marga não demorou em voltar dirigindo seu carro. Era um jeep preto e deveria ser caríssimo.

O vidro da porta do motorista se abriu e ela nos olhou.

--vambora.só você mesmo pra me fazer ir de carro comprar sorvete Lina.

--(rs) eu sei que você me ama.

Entramos e minha mãe preferiu o banco da frente ao lado de Marga e Lina eu ficamos com os bancos traseiros todo nosso. Era obvio que dos poucos minutos dali pra lá Lina ia me contar mais uma de suas historias engraçadas e por incrível que pareça ela conseguia me fazer rir como ninguém.

--então eu corri e esse cachorro me seguiu sete quadras ate perceber que minha bundinha ele nunca ia morder.

--(rs) essa foi a coisa mais maluca que eu ouvi.—falei a ela realmente surpresa com toda aquela historia.

--fazer o quê?era um pé de goiaba e elas eram enormes.eu tinha que tentar a sorte.—respondeu Lina bem convicta daquela maluquice.

--quase perdeu a vida por causa dessa porra de goiaba.—disse Marga não deixando de mostrar que em cada aventura doida de Lina ela também estava presente.

Chegamos lá na sorveteria do Russo e poderia ser interessante para Marga chegar atraindo olhares mas para mim e minha mãe foi algo inusitado.de sorrisos a rostos preocupados eles nos encaravam em silencio. Estava cheio de famílias e alguns adolescentes reunidos em um grupão, ate velhinhas pararam suas conversas ao nos ver. Eu entendia estar daquele lado. Eu fugia toda vez que ela aparecia porque sempre dava problema e eu percebia que desde que chegamos ela pisava em ovos por nossa causa.

--eu quero cheescake.pede cheescake.—falou Lina ao ouvido de Marga acompanhando seus passos.

--você veio aqui atrás de sorvete safada.—respondeu ela a Lina.

--ué vamo aproveitar né?!já que a mãezona vai pagar tudo!

--mas vamos com calma ok.eu não dormiria se não pagasse algo hoje. Já fazia tanto tempo que eu não saia assim com Mari, pra dançar e se divertir..—minha mãe sorriu pra mim e era obvio que isso me alegrava pois eu sabia o quão raro era passeios como aquele.

--sabe que poderíamos aproveitar bem essa noite mal dormida.me deixa pagar vai..—Marga recebeu o olhar repreensivo da minha mãe. Como se ela fosse aceitar essa facilidade.

--não! Jamais me perdoaria.—respondeu ela.

Ver a cara de Marga toda boiolinha com minha mãe negando algo a ela só me dava a certeza que se fosse por Marga elas já estariam na cama junto desse sorvete.

Cheguei a bancada e eram tantas opções a mostra na vitrine, dentre doces e bolos e os sorvetes decorativos, sorte que o Russo chegou para nos atender.

--Ora,ora.pensei que o dia terminaria sem perdas e vocês me aparecem.—a voz grave com sotaque se fez presente no salão.o cara era uma parede humana mas o avental tirava todo medo que alguém poderia ter dele.

--hoje eu só vim atrás de comer mesmo Russo. —respondeu Marga tranquila que não haveria confusão.

--e eu estou aqui para assegurar.—completou Lina.

--assim espero.

O Russo era um cara grande e parrudão e como o próprio apelido diz ele era russo, que com as dificuldades da vida o trouxeram para este morro. Ele era um cara legal, gentil com as crianças e fazia a alegria de todos quando o assunto era sorvetes e confeitaria. Ele tinha os melhores bolos, os melhores doces e claro sabores de sorvetes que nunca acabavam.

--escolham a vontade levarei tudo a mesa de vocês.—dissera ele orgulhoso do seu grandioso cardápio.

--tão atencioso. Naquele dia foi diferente.—Marga escolheu a mesa e logo puxou a cadeira para de sentar.

--claro que foi Marga! Você congelou um cara lá dentro!—Russo foi enfático.

Eu senti os olhares de todos no salão mas com Marga também reparando todo mundo preferiu continuar a comer.

--foi divertido.—Lina retrucou rindo sentando-se ao lado de Marga e Marga não resistiu em soltar um sorrisinho contendo o riso.

--congelou um cara aqui?—perguntei me aproximando e minha mãe já estava atenta ao papo.

--ele tentou me roubar.—justificou ela deixando tudo mais problemático.

--o que??—perguntou minha mãe.

--relaxa, ele era um cara mal. Pena que a gente também!(rs)—Marga parecia que adorava ser a garota má quando bateu na mão de Lina.

--perai,ele morreu em um freezer seu?—perguntei ao Russo e ele ate pigarreou para que os outros clientes não ouvissem.

--eu tive que joga-lo fora! Um freezer de dois mil!!novinho!—respondeu Russo e deu pra sentir sua dor.

--ta ta ta.foi triste para ambos mas é o que acontece quando me irritam e ainda tentam me roubar.—respondeu ela já cheia daquele papo.

--o que ele roubou?—perguntei e ela me lançou um olhar mortal.

--não te interessa. Agora façam logo os pedidos.—Marga pegou o cardápio e entregou a Lina e para minha mãe que sentava-se do seu outro lado.

 --não vai comer?—minha mãe perguntou a Marga e ela sorriu virando-se a nós.

--me surpreendam.

--(rs) ela acha que esse charme funciona.—disse minha mãe baixinho pra mim e aquele sorriso tava me preocupando.

--não?—perguntei de volta no mesmo tom.

--(rs) não faz isso ok. não me joga para cima dela.—sussurrou ela quase muda.

--ela anda se preocupando demais comigo.—retruquei mais baixo ainda enquanto Lina tinha a atenção de Marga na mão.

--por uma boa razão.—me respondeu minha mãe para minha surpresa.

--fala sério.

Nos viramos e encontramos Lina ditando sua lista de pedidos então tentei escolher meu pedido.

--eu só quero que não caia na de Lina.—de novo minha mãe com isso.

--Jesus. Ela...não me parece tão ruim,e se eu gostasse não seria com ela minha primeira vez no mundo lésbico!

 --pelo menos isso!

--acho que por hoje é só.—disse Lina terminando seu pedido e paramos nossa conversa paralela.

--Amem agora podem escolher seus pedidos?

--eu quero sorvete de brigadeiro com serenata.—escolhi passando a vez para minha mãe.

--eu quero...sorvete de morango com...limão.—dissera ela ao Russo.

--morango e limão?(rs) com mais de cem sabores você escolhe os mais óbvios?—perguntou ele nada surpreendido.

--(rs) Helena sempre foi old school.—a voz feminina que deixou os fundos da loja era da bela morena de dreads longos no cabelo e um vestido que só realçava suas curvas. Era a Rita mulher de Russo.

--viu só Mari a Rita me aceita do jeito que eu sou. Morango e limão são uma delicia ainda mais com um pedaço de seus maravilhosos bolos depois.—disse minha mãe a recebendo com um sorriso amigo.

--(rs) é bom ver vocês duas se divertindo além de trabalhar e você estudar. Mesmo...acompanhadas dessas duas ai.—Rita sorriu porem não muito vendo nossas companhias.

--estamos passando um tempinho com Marga e já peço desculpas pelo..

--pelo cara morto no freezer? Deixa minha querida. Eu fiz Marga nos dar um freezer novo. Essa parte da historia ninguém conta né?—ela olhou para Marga e esperou uma resposta com um sorriso provocativo no rosto.

--gosto da parte que você não foi implorar isso para ela.—Russo falou e Marga adorou.

--é o que meu bem?!Eu, Rita Barbosa deixar Marga me pisar? (rs) comigo não. Ela sabe bem que eu odeio esses atos imprudentes que ela apronta aqui no morro. Faz todo mundo pensar que ela é uma maluca desgraçada. Ela já escolheu o pedido dela?—perguntou Rita espiando o bloquinho do Russo.

--hmm ela me pediu para escolher.—respondeu minha mãe ainda deslumbrando o cardápio.

--sabe o gosto dela mãe?—perguntei e o sorriso alegre não deixou seu rosto.

--(rs) Marga diferente de você come de tudo mas como hoje ela ta cheia de regrinhas para este encontro eu vou escolher para ela o sorvete de vinho e frutas vermelhas.—minha mãe escolheu e Rita acenou.

--(rs) para a Madame o melhor né? Traremos tudo daqui a pouco.

Rita botou o russo para trabalhar e Lina cochichou algo no ouvido de Marga e elas riram.

--o que foi?

--nada não, só lembrando o quanto Rita a cada dia fica mais gostosa.—Lina comentou quase saboreando cada palavra e Marga não escondeu seu olhar a mim. Parecia que ela achava mesmo que eu não sabia a fama de Lina, a pegadora desapegada do morro.

--tira o olho, a morena já é bem comprometida.—disse minha mãe a ela porem o sorriso malandro não deixou o rosto de Lina.

--homens vem e vão já mulheres..—Marga só precisou de um olhar para chamar a atenção da minha mãe que a estapeou com o cardápio.

--nem começa Marga!

--sua mãe era doidinha por mim.—dissera Marga pra mim. Ela só podia estar me zoando.

--(rs) não sei onde.—respondeu minha mãe desconfiada das boas palavras.

--ela me converteu sabia.

--mas olha, isso é mentira!

--(rs) de mulher eu só beijei você.

Os olhares que elas trocavam só faltavam sair faíscas e por alguma razão, algum devaneio meu eu me sentia culpada por permitir me calar quando isso acontecia. Era ciúmes demais para uma só pessoa como eu e depois do que falei para Marga, deixei o caminho livre para ela. algo em mim não se conformava e não estava nada bem.

--ela tinha potencial de me ajudar em muita coisa nesse morro...—Marga parecia perdida em meio a tantas lembranças.

--eu não poderia te ajudar com tudo Marga..eu sabia que não.eu não teria coragem de congelar uma pessoa ou muito menos fuzilar pessoas.—minha mãe respondeu e eu vi Marga se perder naqueles pensamentos e deu pra sentir que minha mãe atingira um ponto critico nela.

--fizemos pelo morro. Para proteger essas pessoas.—disse Marga séria ate demais e isso tirou todo sorriso daquela mesa.

--poderiam ter terminado diferente. Não poderia?—tristemente minha mãe respondeu.

Marga permanecia pensativa e em seu silencio apenas acenou confirmando. Seus olhos brilhavam para a imagem da minha mãe. Ela era justa e certa em muitos aspectos e aquela conversa a fizera entristecer. Não era o que eu queria.

--Marga você dança muito mal.—falei e com isso minha mãe caiu na risada.

--eu não!—respondeu ela entendendo bem do porque daquele comentário.

--nisso eu concordo Marga.--Lina continuou e Marga olhou para ela e a viu as gargalhadas ao seu lado.

--o que?

--tem que ser mais sensual cara. Rebolar um pouquinho mais.—explicou Lina remexendo na cadeira enquanto que Marga apenas a encarava.

--(rs) era só o que me faltava.

--eu te dou umas aulinhas depois.—respondeu Lina adorando zoar Marga.

--falou a dançarina do Faustão.—retrucou Marga e essa eu quase gargalhei.

--Mari ta de prova que eu danço bem né garota?!—ela falou tão serio que tive que parar de rir.

--ela dança bem.—confirmei deixando Lina toda serelepe.

--(rs) agora vai ser assim?

--se quer saber sempre gostei do seu jeitinho de dançar.—minha mãe falou e Marga sentiu-se maravilhosa ao erguer a cabeça orgulhosa.

Logo Rita veio desfilando pelo salão trazendo nossos pedidos.

--espero que esteja no “nível” da dona do morro.—dissera ela em tom de ironia porque tudo estava lindo naquela bandeja.

--sério que ainda esta brava com o cara picolé? Isso é passado e se me lembro bem você gostou muito do freezer novo.

--toma!—brincou Lina.

--sabe que poderia ser genial nisso tudo mas se perde quando se trata desse seu temperamento.—reparei em Rita e realmente eu concordava com ela mas Marga suspirou e ate fingiu que dormia no banco com o discurso moralista.

--mais essa agora. Eu não quero me candidatar a prefeita não Rita. Não ficando no meu caminho você já ganha mais um dia de vida.—retrucou Marga e o tom já era de ameaça.

--ta vendo? Ela não vai aprender.

--e nem quero.

--você precisa de Jesus Marga.(rs) aproveitem.

Lina já devorava seu cheesecake com a calda vermelha brilhante que abria nossos estomagos pelos olhos. Minha mãe já cobria suas bolas de sorvete com calda de morango e claro eu já devorava o meu de brigadeiro.

Diferente de nós Marga ainda examinava seu sorvete curiosa pelo sabor mas sem ousar prová-lo.

--anda, come logo isso porque eu escolhi muito bem o seu sabor.

Ela pegou uma colher e provou primeiramente o sorvete de vinho e seu olhar tão bem delineado focou na minha mãe e seu sorriso no cantinho da boca se abriu.

--você se lembra?

--que é o seu favorito? Claro.(rs) cada mania, cada detalhe..—quanto flerte e olhares de admiração. Elas duas seriam fofas se não fosse a Marga.

 --o outro é de quê?—perguntou Lina roubando uma colher do sorvete de limão dela o que fez Marga olhar para ela desacreditada.

--esse limão é cremoso demais.

--da pra parar de comer minhas coisas?—reclamou ela e Lina riu da cara brava de Marga.

--ou o que?

--vou começar a comer as suas.—Marga roubou um pedaço do cheesecake e Lina achou um absurdo. Claro que as carinhas bravas não deveriam ser levadas a sério já que minha mãe olhava para elas bobamente com um sorriso no rosto.

Eu deveria aproveitar talvez. Lina e Marga pareciam outras pessoas quando sorriam, pareciam inofensivas. Minha mãe já estava na delas e eu ainda ali temendo cada movimento meu.

De repente senti o puxão no banco me aproximando mais de Lina e ela não se fez de tímida ao colocar seu braço sobre meus ombros quando enfiou dois dedos no meu sorvete para provar.

--o seu também é bem gostoso.—olhei para minha mãe e ela permanecia calada a nos olhar com a mesma cara boba para Marga.

 --e ainda dizem que sou eu que caio no papo dela.ta vendo né mãe?

--não vê não Helena.—Lina pegou a colher e pegou um bom bocado do meu sorvete.

--(rs) você vai comer todo meu sorvete?!—perguntei a Lina e ela de boca cheia apenas negou balançando a cabeça.

--você não viu nada. Lina é um saco sem fundo.—avisou Marga porem pensei em algo melhor.

--que tal um desafio? Quem come primeiro.—falei e ela logo se alertou.

--eu topo!!—prontamente Lina respondeu.

--então larga meu sorvete. Vai sobrar alguma coisa dai?

--eu fiz um favor pra você. está em vantagem.

--(rs) não vejo por esse ângulo.

--po popó. É assim que você fala agora? Pó po po po!!—Lina imitava direitinho uma galinha e estava atiçando meu lado competitivo.

--eu cedo meu sorvete para isso!—minha mãe passou sua cumbuca de sorvete e Lina se animou.—vamos ter uma competição justa aqui.

--essa eu quero ver.—Marga ate sentou-se melhor para nos assistir.

A noite estava maravilhosa para me preocupar então seria uma boa aproveitar pelo menos uma vez.

--ta bom Lina,vambora.

Ela bateu palmas e nos preparamos. Minha mãe por outro lado fez a contagem e quando ela deu a largada Lina e eu começamos a devorar nossos sorvetes, mas ela era rápida demais e era impressionante, minha mãe ria da minha cara pasma e Marga não resistiu, ela tinha um sorriso lindo e contagiante e quando focou em mim parecia que ela era outra pessoa e essa pessoa era algo que me fez pensar no quanto ela mudaria por nós.

--PERDEU!!—Lina gritou em meio a palmas da minha mãe me tirando daquela hipnose proporcionada pelos olhos de Marga.

Lina me zoou e me zoou mais ainda quando saímos da sorveteria do Russo. Porém apesar da chatice boa dela no carro bagunçando meu cabelo como se fosse uma irmã mais velha encrenqueira.

Chegamos na casa de Marga por um caminho estranho que nunca vi mas nada me surpreendia. Depois que ela guardou o carrão na garagem deixamos o carro sendo acompanhadas por Lina ate a casa.

--você sabe bem o caminho para a sua casinha.—falou Marga a Lina.

--ah qual é! tava legal demais para ser verdade.

--veja para mim aquela parada. Pode ser?—aquele papo da Marga com a Lina me chamou a atenção. Que parada era essa?

--pode deixar. Boa noite dona Helena.

--boa noite Lina.

--boa noite linda.

Eu olhei para Lina e ela era apenas sorrisos quando partiu não esperando uma resposta minha.

--ela ta xonadinha em você e isso ta me deixando bem preocupada.(rs)—minha mãe esperou um sorriso meu mas não adiantou.

--para com isso. Já falei que isso não vai rolar.—respondi.

--e que parada é essa Marga? Parece bem interessante.—minha mãe se aproximou dela abrindo a porta e Marga lançou seu olhar a ela sem muitas escolhas a não ser responder.

--portões.—dissera ela somente destrancando a porta.

--para o morro?

--é..

--só falta isso para sua fortaleza impenetrável né?—falei e era impressionante como Marga queria transformar o morro em uma prisão controlada por ela.

--(rs) falou a garota da boca toda manchada de sorvete.—ela falou e claro no mesmo instante passei a mão mas em vão porque ela ria da minha cara.

--ai gente, acho que nem vocês acreditam mais nessa birrinha de vocês. Amanha tenho trabalho e você aula.

--é o jeito que sua filha escolheu me amar. Fazer o que?—Marga pegou um cigarro do bolso e o acendeu e minha mãe depois de um beijo na minha bochecha seguiu seu caminho para o interior da casa.

Estava fazendo frio mas mesmo assim a vista a noite daquele ponto do morro era incrível. Era como ver o mundo de cima com todas suas luzes, todos os seus efeitos.

--o que foi?—perguntou Marga e eu fiquei desacreditada.

--nunca percebeu a vista que tem daqui?—ela lançou seu olhar a toda a paisagem e seu semblante cheio de seriedade continuou o mesmo ao soprar a fumaça de seu cigarro.

--...me parece normal.—respondeu ela e era como falar com um bloco de gelo.

--(rs) deveria usar mais sua sensibilidade para mais coisas. Tipo quando...você sorriu. Parecia...diferente.

--que merda é essa?(rs) tipo ser como você?

--só um pouquinho.

--para que? Perder minha pose de bandida? Não. Demorou muito para me tornar o que sou. Você bem que gostaria da madrasta boazinha.—ela sorriu e mesmo negando esse lado dela não me impediu de olhar para ela da mesma forma.

--foi loucura a minha pensar que por alguma razão você ainda pudesse ser algo próximo a isso..mas hoje ate que foi..legal. Ela nunca teve tempo para sair assim comigo e quando tinha mal gastávamos, e ela se preocupava sempre com o dinheiro e quando sorria era para me agradar. A cabeça dela vivia cheia de preocupações. Hoje ela sorriu de verdade.eu agradeço.

--...ela sabe que agora se ela quiser ela não precisa se preocupar com mais nada na vida. Aliás, vocês duas. Só precisam ficar..—Marga me olhou e ela realmente esperava que minha resposta fosse bem diferente da qual eu já tinha e era estranho ela querer ouvir isso logo de mim e não da minha mãe já que era ela a quem tanto interessava. Eu nem mais sabia.

A pose de bandida estava a um fio de sumir com aquela esperança e apesar da noite maravilhosa eu não poderia me esquecer de que ela ainda era Marga mesmo não entendendo tudo aquilo que eu tanto sentia por ela.

--não da.—falei e isso foi um alivio.

--claro que da.—retrucou ela insistente.

--e tipo ate quando? Ate você ser presa, ou melhor, minha mãe se machucar?

--eu jamais permitiria isso!

--isso não depende apenas de você Marga. Estamos aqui por não ter para onde ir e o tanto que esta nos ajudando nisso você tem meu total respeito, mas não dá para esquecer de onde tudo isso vem ou do que você faz. O essencial é legal mas é só isso.um dia iremos embora, eu não posso me esquecer disso.

Eu entrei e ela ficou lá fora com seus cigarros e pensamentos e foi assim que vi ela pela ultima vez naquele dia já minha mãe fez uma visita surpresa no meu quarto antes de dormir.

--vim te dar boa noite.(rs) hoje foi bem divertido.—minha mãe estava radiante mesmo tão cansada.

--isso tenho que admitir. Ela se esforçou. Ambas.

--sabe...eu queria muito que ela fosse assim vinte e quatro horas por dia mas sei que é impossível. Era algo que eu amava nela. Ela sabia me fazer esquecer todo o resto, todas as preocupações.

Olhei para ela e a vi no meio do quarto bem mais que pensativa olhando para o nada antes de me encarar. Eu gelei porque sabia bem o que isso significava mas ela sorriu e veio ate mim.

--ela gosta de você. Da pra ver quando ela te escuta e se preocupa. (rs) queria que isso tivesse acontecido desde que você nasceu. Que ela tivesse escolhido a gente ao invés de tudo isso.—minha mãe conseguiu me assustar falando daquele jeito. Ela buscou minha cama para sentar e balançou a cabeça a negar, talvez se lembrando de todas as vezes que pediu a ela para esquecer essa vida de crimes.eu sabia que sim. Minha mãe dificilmente lamentava-se de algo porque na maioria das vezes fazia o que era certo.

--foi por isso que desistiu dela?—perguntei ate temendo o resultado mas ela suspirou e olhou pra mim.     

--o que você acha? Você não viu nenhum pouco do que Marga é capaz de fazer. Ela preferiu estar nas sombras nos vigiando de longe, fazendo mil coisas para conquistar o que quer..e nada teve sentido além do dinheiro. Hoje ela me fez lembrar os bons tempos.

--vou te dizer a mesma coisa que falei para ela. Faça o que tiver vontade eu..vou tentar não me intrometer e vou focar nos meus estudos.—ela olhou para mim abrindo seu sorriso tão belo quanto surpreso e passou a mão no meu rosto.—esqueça por um dia quem ela é e escute seu coração.—aquelas palavras saíram pesadas da minha boca e uma dor no meu peito de estar entregando a coisa mais importante para mim para Marga se mostrou tão forte que foi dizer o quanto isso me afetava.

Minha mãe agora tinha olhos brilhantes e um sorriso de liberdade. Ela me beijou e saiu do meu quarto me dando boa noite bem animada. Ela estava feliz e eu deveria também ficar.

Exalei fundo e fui ao banho. Minha mãe estava feliz porque ia tentar a sorte com Marga e estava tudo bem. Eu tinha que fazer disso meu mantra. Eu tinha que pensar que ela estava feliz para que eu pudesse ficar feliz e mesmo que eu tentasse ficar algo em mim estava surtando. Eu no fundo sabia que não me sentia feliz. Toda aquela agua não estava me ajudando.

Parecia que algo terrível ia acontecer e era um sentimento tão estranho que não queria sair de mim mesmo pensando mil coisas boas depois do sorriso da minha mãe. Vesti meu pijama e eu me olhava no espelho a me pentear e eu via no meu rosto a minha tristeza. Eu sentia que não estava bem.

Apaguei a luz e tentei esquecer que a essa hora ela estaria lá no quarto da Marga e isso me estremecia, me fazia deitar na cama e não ter um pingo sequer de sono. O que elas estariam fazendo naquele quarto? Ate minha respiração estava pesada ao imaginar, os lençóis que me cobriam estavam quentes porem eu os queria mais próximo de mim apenas para me sentir abraçada quando meus olhos que já cheios quisessem transbordar.

--o que ta acontecendo comigo? Por que eu ligo pra isso!?

Me virei de um lado a outro. Olhei para o teto tentando achar respostas mas nada além do silencio.

Poderia não ser hoje, poderia nunca acontecer. Era amizade como minha mãe sempre dizia. Mas foi a musica ligando em meio aos meus pensamentos em desordem que me fizeram travar.

Por que a essa hora ela iria ouvir musica tão alto dentro do quarto? Marga estava me fazendo surtar em meio a uma crise de ódio e ansiedade. Me faltava ar e muita indignação no peito. Poderia ser qualquer uma mas tinha que ser minha mãe. A única pessoa que eu não podia decepcionar ou lutar contra. Eu queria que a cama me segurasse porque meus olhos focavam na porta e minha ansiedade detonava meu peito. Eu ia começar uma crise e minha falta de ar marcou presença.

Me levantei procurando a bombinha e quando a achei voltei para cama. Apertei duas vezes e o ar me invadiu novamente. Era um alivio mas não para minhas crises. A musica alta no quarto da Marga podia chegar abafado no meu quarto mas seria o suficiente se essas duas quisessem ultrapassar todos os limites??Minha respiração entrava novamente em colapso. O choro começava a descer e meu ódio inexplicável da Marga estava me sufocando.

Mais uma vez usei minha bombinha e a noite apenas começou. Eu dormi por desistência do meu corpo cansado. Eu tinha que me controlar..

Notas finais:

Vocês já devem ter percebido do quanto gosto de escrever kkkkk

mas que fim de noite ein.

Mari não sabe o que sente por Marga e saber que sua mãe esta tão envolvida novamente com ela dificulta muito.ciumes,odio ou simplesmente um amor não compreendido? Marga também não ajuda já que demonstra querer se aproximar da menina e mesmo com esperanças de que Helena possa voltar atras de sua decisão ela fica no meio. eu acho ate que ela vê uma grande diferença na Mari que a Helena do passado não tinha que é o senso moral do que é o certo. o passado pode ter sido muito bom para elas mas a Marga gosta dessa inocencia na Mari.

comentem ai,saiam da moita.

O que vocês acharam desse final de capitulo??

Capitulo 10 Acredite se quiser por millah

 

 Me acordei tentando esquecer aquela merda de noite.

Na minha mão eu segurava a bombinha vazia e eu já tinha me esquecido das vezes que usei naquela noite. Eu sentia meus olhos ainda arderem mas me levantei e segui ate o banheiro. O sol enquanto eu caminhava ate lá já invadia meu quarto pela janela e o clareava por inteiro. Era um novo dia para esquecer aquela noite sem sentido.

Eu tinha mesmo chorado por aquelas duas?

Liguei o chuveiro e retirei minhas roupas já tendo minha mente no lugar desta vez. Era tudo que eu precisava, esquecer aquela noite.

De repente alguém entrou no meu quarto e veio animada com seus passos rápidos.

--bom dia filha. vim trazer uma toalha nova para você usar.—minha mãe falou de fora do banheiro e eu só consegui perceber sua felicidade.

--valeu mãe.

--(rs) e não demore. Estou preparando o café da manha.

--ok..—eu ouvi quando ela saiu e fechei o chuveiro.            

Levei um tempo para me mover pensando no que encontraria quando saísse daquele quarto. Me vesti o mais lento possível e preparei minha mochila para sair daqui o quanto antes.

Desci ao térreo e entrando na cozinha minha mãe me beijou e já me entregou uma xicara de café.

--to fazendo croissant recheado. Tem uns pãezinhos crocantes para você também.—minha mãe estava radiante.

O cabelo solto castanho dançava a cada passo e o sorriso estava estampado no rosto. Era obvio que elas tinham transado. Tudo era tão suspeito.

Fui me sentar a bancada e estava bom demais ate que vi Marga descer as escadarias com o sorriso mais safado do mundo para mim.

--ah não..—depois do meu primeiro gole de café minha fome desapareceu.eu queria ate esconder minha cara em qualquer lugar para não olhar para ela.

--bom dia família!!—ela chegou causando já buscando o banco da bancada ao meu lado.—bom dia meu amor.—ela falou e tive que olhar para aquela cara debochada dela. Com quem ela ta falando?

--bom dia.—falei seca e ela estava com um sorriso tão descarado que tenho certeza que ela estava adorando me ver ali me controlando para não explodir.

--bom dia Marga. Seu café.—minha mãe entregou uma xicara a ela e o café preto ela tomou sem tirar aquele sorrisinho do rosto dividindo olhares pra mim e pra minha mãe.

--eu amo seu café. Não sei como passei tanto tempo sem ele.—dissera ela cheia de graça.

--(rs) com seus cappuccinos e mocha? Se duvidar nem lembrou.—respondeu minha mãe e realmente Marga deveria estar acostumada com o melhor por ali.

--não tem nem comparação. Inclusive, a fantástica noite de ontem..—disse ela e congelei e minha mãe a olhou como se fosse repreende-la.

--para.—minha mãe a alertou mas estar no meio delas duas tava me dando um negocio que nem sei como ainda não tinha dado um grito.

--eu tenho que falar Helena..

Olhei para Marga e não sei porque um pouco daquela agonia de ontem me voltou. Ela estava adorando fazer isso.

--vocês transaram?—perguntei seriamente.

--(rs)—Marga riu contida mas minha mãe ainda queria me responder.

--não! Filha?—minha mãe envergonhou-se.

--qual é? Foi sensual. —retrucou Marga.

--foi apenas uma massagem. —disse minha mãe dando um soquinho no braço dela.

--nada mais?—perguntei aterrorizada.

--pensei que estava tudo bem e não estava?—minha mãe notou na hora meu terror.

--ela tem ciúmes.—Marga como sempre muito metida.

--não tenho não!—respondi amargamente.

Marga me olhou com aquela cara séria e desacreditada como se eu fosse ceder sob aqueles olhos frios dela.

--nem vem Marga isso não vai funcionar comigo.

--eu dei uma massagem nela. Foi só isso.—revelou minha mãe para alivio meu.

--ontem foi um dia muito cansativo.—Marga estava adorando me irritar. Claro, eu estava duvidando da minha mãe e era tudo que ela queria.ela havia alugado minha cabeça para encher de paranoias.

--ela ta brincando Mari.

--você consegue tirar qualquer paciência minha.—falei e Marga realmente parecia estar se divertindo.

--ainda bem porque adoro essa sua carinha raivosa.—ela tentou pegar na minha bochecha mas estapeei a mão dela.--(rs) mas quando disse vá em frente, não ligo,eu jurei que estava tudo bem.—me lembrou ela esperando uma resposta minha.

--eu preciso de outra bombinha.—fingi que não ouvi e mudei de assunto.

--ué,eu comprei outra não tem nem uma semana.—reclamou minha mãe.

--ontem foi um dia muito cansativo. Tenho que ir.—peguei minha mochila e me levantei do banco.

--Mari, pega pelo menos algo para comer.—minha mãe gritou mas eu já tinha chegado a porta e já estava de saída.

Desci pela trilha e depois de chegar na rua fui parada por Marga que veio correndo me trazer meu lanche.

--você é tão marrenta e Helena pior por me fazer correr ate aqui para te alcançar.—reclamou ela afundando o lanche na minha mão.

--é por isso que tem uma academia.

--eu sei que te irritei mas...você me disse..

--não precisa me lembrar. Eu falei que não ligava e mesmo assim to me importando. Você não é qualquer criminosa. Isso pesa.

--(rs) isso é verdade. Sou aquela que vai direto pro inferno.

Caminhar junto de Marga ainda mais em silencio estava me enchendo de arrepios. Lembrar que ontem elas estavam juntas enquanto eu me acabava no choro no quarto me fazia me sentir uma idiota. Uma palhaça.

--não rolou ok.—disse ela bem mais tranquila do que jamais imaginei . Eu olhei para ela surpresa e ela com aquela cara séria nada me passava. Eu estava ali quase surtando e ela sequer demonstrava algo.

--por que não rolou?

--tínhamos muita coisa para conversar mas isso só quer dizer que ontem ela ganhou. Ainda tenho tempo não é? De fazer a coisa certa.

--ela queria que tivesse feito isso anos atrás.

--nem sempre conseguimos o que queremos. Infelizmente. —ela tomou um novo rumo e se juntou com algumas de suas guardiãs  e começaram a conversar. Nem se despediu e ignorou totalmente minha existência para tratar dos assuntos do morro.

Segui meu caminho não esperando por mais vindo dela. Minha mãe tinha razão, Marga dificilmente mudaria quando se tratava de tirar dela o morro da prata e seu titulo.

Peguei meu busão e eu estava odiando a vela de esperança que eu mantinha acesa dentro de mim. Minha mãe gostava dela e Marga pelo visto também mas por que não rolou? Ambas estavam afim, elas queriam..o que as atrapalhou? Que tanta conversa foi essa??

Voltei dos meus pensamentos com um cara tossindo várias vezes quase sem ar no corredor do onibus. Foi um susto necessário. Marga tinha que sair da minha cabeça.

Só sei que cheguei na faculdade e encontrei na porta Angelo me esperando. Ele acenou de longe assim que me viu e veio correndo.

--eai Mari.

--tava me esperando?

--na verdade não (rs) mas te vendo descer do ônibus me fez mudar de ideia. Meus amigos sabem bem o caminho ate a sala.

--eu também.

--já aborrecida de manha cedo? O que foi?

--Marga ela..sabe como me irritar.

--(rs) não vou negar..eu queria muito conhecer ela.

--por quê?

--as historias são impressionantes. Antes de medicina eu quis muito seguir em jornalismo e o que ouço falar dela..seria uma grande matéria.

--acredite ela não iria gostar de te conhecer.

Entramos e fomos direto para a sala. A aula seguiu bem com alguns espirros e tosses no ar o que me foi mais uma surpresa.

--surto de gripe?—perguntei a ele sentado ao meu lado.

--parece que sim. Tem chovido demais esses dias.

--tomara que Lina esteja bem.

--Lina?

--uma amiga. A gente se acabou no sorvete ontem.

--de Marga também né?

--como sabe?

--(rs) braço direito da poderosa do morro da prata.eu gosto de pesquisar sobre seus roubos. Ela é surtadinha né?(rs)—ele ria como se Lina fosse uma piada ou um personagem. Eu não sei onde ele estava se informando mas não gostei nada.

--me desculpa mas..não fala assim.

--..desculpa Mari eu..tava brincando. Eu vi uns vídeos delas e..me desculpa. Só achei que elas não ligariam para isso.

--elas realmente não se importam mas eu sim.

--e eu posso saber do porque a carinha feia?

--ontem foi uma noite legal demais.

--sério? Com elas?—ele estava tão animando que tava me incomodando.

--..estamos indo bem demais. Infelizmente é isso.

Ele não entendeu bem minha colocação e eu queria deixar assim para evitar mais perguntas dele sobre Marga. Não entendi esse súbito interesse dele por ela e acho que era ate melhor não falar dela por ali e estava indo muito bem ate que no meio da aula eu vi um rosto famíliar abrir a porta da sala e mirar diretamente para mim.

--desculpe atrapalhar a aula professor mas preciso de uma aluna sua.—o medalhão pendurado no pescoço, a blusa preta de mangas curtas e a calça e botas. Era aquela policial loirinha mais uma vez.

Ela não precisou dizer ou mandar para toda a turma se calar pois o silencio reinou diante de sua presença. Certeza Marga estava aprontando e agora ela ia pegar no meu pé para descobrir pistas sobre ela.

Me levantei e ela sorriu quando todos os olhares vieram para mim.

--obrigada Mari pela cooperação.—ela falou com toda sua autoridade e balancei a cabeça por aquela vergonha.eu fazia de tudo para que ela não abrisse a boca naquela sala.

Deixamos a sala e o corredor vazio seria o palco da nossa conversa.

--bom dia Mari.

--acho que já passamos dessa parte quando você invadiu minha sala.

--eu queria falar com você, apenas isso.

--o que quer saber da Marga agora?

--não me leve a mal, mas você é a pessoa mais próxima e disponível dela.eu seria uma idiota se não tentasse.

--eu não vou me meter nos assuntos dela e muito menos falar algo para você.—fui firme e pra mim aquela conversa acabaria ali.

--não precisa ter medo.

--pff medo? Olha quem fala. Ela esta no morro da prata, o que custa a você ir ate lá e pega-la!?

--(rs) você só ignorou todo seu exercito e claro todas aquelas armas.se ela não fosse tão safa,não estaria aqui pedindo a ajuda de uma garota de dezoito.

--tenho vinte.

--desculpa, uma garota de vinte. Só que tem aparecido muitos corpos ou diria o que sobram deles enterrados em cemitérios com plaquinhas bem interessantes de se ler.—ela retirou do bolso algumas fotos e o jeito que enterraram aquelas pessoas tão desleixado, com partes aparecendo era desprezível e as placas debochadas não me pareciam coisa de Marga.se bem que ontem mesmo estávamos falando de um cara picolé.—essas mulheres foram identificadas como moradoras do morro da prata e possíveis células a mando dela. Lê essa.

--aqui jaz aquela que traiu a família, aqui jaz a traidora maldita. Isso...não é coisa da Marga.—falei e Alice me olhou cuidadosa.

--por que não? É doentio demais? Essa mulher foi partida ao meio e suas pernas enterradas em locais diferentes.

--Marga não se prestaria a fazer isso!!ainda mais com as mulheres do morro.

--como sabe?

--não sei mas isso é..pior!

--por isso quero pega-la. Ela não protege o morro Mari, ela se colocou no topo mais alto para mandar e desmandar, matar quem a contraria.

--do que esta falando? As mulheres do morro me parecem bem satisfeitas com ela no comando. Principalmente as que são bem pagas por ela.

--(rs) eu soube que essa aqui queria sair do time.

--...então foi ao morro?

--...o filho dela me contou.na delegacia é claro. Bem longe dela. Ele disse que Marga nunca deixaria sua mãe sair do crime, algo que ela mais queria.

Tudo estava tão confuso. Meu coração acelerado olhava para aquela foto e não acreditava na capacidade doentia de Marga. Ela não faria aquilo. Faria? E para piorar a voz da minha mãe me recordava exatamente disso.do que Marga era capaz e do porque eu deveria acreditar naquilo.

--posso ficar com a foto?—perguntei para surpresa dela.

--o que esta pensando em fazer?

--eu só quero entender isso..

--entenda, ela é uma criminosa. Vai mentir se você perguntar a ela sobre isso porque é conveniente a ela te manter por perto. Soube que sua mãe e ela são bem próximas.

--(rs) ate você já sabe? Vai se fuder!

--(rs) então você também não gosta? Ou só não gostou de ver que era com a Marga?

Voltei a sala e peguei minha bolsa.eu não teria cabeça ficando ali sabendo que Marga esta envolvida com algo daquele tipo. Por isso, guardei rapidamente meus livros e caderno e isso foi uma surpresa para Angelo.

--o que aconteceu?—perguntou ele preocupado e bem curioso.

--eu tenho que ir.

--para onde? A policial..aconteceu alguma coisa?

--não aconteceu nada!—infelizmente gritei e Angelo me encarou com olhos frios e com um semblante bem sério. Ate ele estava surpreso por me ver tão descontrolada.

Sai de lá e fui acompanhada por Alice ate a saída do prédio.

--não pense que vou te ajudar com alguma coisa pois não vou. O que vou fazer é pela minha mãe e mais nada.—falei com ela me seguindo.

--(rs) eu só quero que abra seus olhos. Uma hora Marga vai explodir e não vai sobrar nada por perto.

Eu não queria sentir o poder daquelas palavras mas ela estava certa. Marga era um perigo ate para ela mesma e aquela foto ela ia me explicar.

Coloquei a foto no bolso da calça e segui ate a parada de ônibus.

--sério? eu te levo para o morro.—disse Alice me seguindo. Era muito solidariedade. Não neguei,eu queria chegar o quanto antes mesmo achando muito estranho.

--esta estudando para o quê?—perguntou ela enquanto dirigia.

--medicina.

--(rs) você é perfeita para ela.

--nos seus sonhos.

--estou ha anos estudando o caso dela. Não tem um departamento de policia que não queira pegar Marga.se ela deixar aquele morro é o fim para ela.

--(rs) acha que ela tem medo? Ela saiu outro dia comigo.

--eu sei e infelizmente eu preciso de pessoal para pega-la. E nem me fale de toda papelada..mas seria incrível.um sonho de consumo para mim.com o plano perfeito ela cairia nas minhas mãos sem nem ao menos saber.

Alice parecia falar sério mesmo com o sorriso no rosto. Seria este o maior sonho dela? Capturar Marga??

Demorou pouca coisa e muito pouco papo entre a gente para chegar ao morro da prata.

--valeu.

--não diga a ela sobre a carona. Ela vai surtar.

--eu não sou idiota.se bem que as vezes nem preciso disso. Ela tem olhos por todos os lados.

Entrei no beco e apesar de ver Alice partir não deixei de avaliar o que aconteceu. O que ela ganhava me deixando por dentro do assunto com aquela foto? Eu estava puta pois apesar de tudo que Marga fazia em nome daquele morro e de sua fama como dona dele eu nunca ouvi falar dela derramar sua raiva com alguém dele e muito menos com alguma daquelas mulheres que a protegia. Eu só queria saber a verdade.

Notas finais:

As coisas estão pegando fogo e Marga esta sob a mira de Alice em mais um crime e ela acredita que Marga pode ser a mandante.será que Mari vai ter coragem de confrontar a dona do morro??

Capitulo 11 O caminho de migalhas por millah

 

Subi a rua, corri quando comecei a chegar mais perto do seu esconderijo. Aquele corpo mal enterrado, as entranhas sujas de areia preta de cemitério e todas aquelas moscas. Aquela foto nojenta me enchia de raiva e me motivava a correr ate ela.

Cheguei em casa e a achei no sofá deitada fumando e ouvindo musicas com fones nos ouvidos. Só sei que joguei minha mochila no piso e fui ate ela.

Ela permanecia de olhos fechados viajando naquela fumaça com a musica tão alta que dali do lado do sofá eu podia ouvir o rock e suas batidas.

Não falei nada e usei ate esse tempo que ela ainda não tinha me notado para diminuir toda aquela raiva que eu estava sentindo e quando ela finalmente abriu os olhos seu olhar veio direto pra mim com um leve susto.

--porra Mari..você não deveria estar na faculdade com aqueles metidos a doutor?

Retirei a foto do bolso e mostrei a ela.

--que merda é essa?!—ela se alertou rapidinho vendo aquele terror.--olha direito pra foto e me diz que não fez isso.

Ela bufou e sentou-se tomando das minhas mãos a foto e não foi preciso um segundo para ela perceber a gravidade da situação. Ela paralisou e depois me encarou. Poderíamos muito bem competir em quem fazia a cara mais irritada mas de fato ela estava começando a me superar.

--quem te deu isso?

--a pergunta não deveria ser essa! Você fez ou não fez isso com ela!??

--mais que merda!—ela estava furiosa olhando para aquela foto.—acha que eu seria capaz de fazer isso com uma das minhas?—ela se levantou e claro recuei vendo seus passos ate mim.

--você congelou um cara. Por que acha que eu não acreditaria na Alice depois dessa?!!

--aquela policial safada!?Foi isso que ela te falou? Que esse resto de gente agora também esta na minha conta?

--eu vi mais duas fotos com ela Marga. São mulheres do morro, suas subordinadas. Não importa o que elas tenham feito ou o titulo que ganharam como traidoras nada justifica uma morte tão doentia dessas.

 --por que ta me dando um sermão?!?eu não fiz isso!!—ela se exaltou mas não me deixei levar por aquela voz grave.

--é difícil acreditar!—retruquei no mesmo tom e ela soltou um riso desesperado.

--(rs) claro eu sou uma criminosa mentirosa né. Qualquer um inclusive ela pode dizer o que for sobre mim e vai estar automaticamente correto e validado!!—ela começou a avançar seus passos em minha direção e tive que recuar mais uma vez.

--não é bem assim.

--você ta com medo de mim!

--eu nunca estive!—retruquei e ela parou e mais uma vez, depois de um pesado suspiro olhou a foto.

--Essa aqui é a Suzana. Sei disso pela tattoo dela no pulso. Ela desapareceu, tipo do nada! As outras duas devem ser as amigas. Quando ela sumiu elas vieram me falar..o filho dela se me lembro bem não gosta nenhum pouquinho de mim e não queria que a mãezinha dele trabalhasse comigo. Desde então pof..

--pof?..(rs) você é inacreditável. Ela foi cortada ao meio!!

--rasgada seria o certo. Ta vendo a corda presa nas entranhas?—ela trouxe a foto para perto de mim para me mostrar e mesmo difícil olhar aquilo dei atenção ao que ela queria mostrar.

--eu não queria ver isso de novo!!

--mas é..ela estava presa em algo antes de ser jogada nesse buraco.—ela disse bem analítica.

--Alice esta só esperando você colocar o pé para fora desse morro Marga.

--cala a porra dessa boca e para de me encher o saco com essa Alice!eu vou sair.—ela estava mais séria do que o normal e estava levando a foto, o que só me fazia me preocupar no que ela se meteria.

--vai para onde?

--quando sua mãe voltar eu vou dizer pra ela que cabulou aula só para me infernizar. —ela seguia para a porta e virou-se com aquele sorriso cheio de sarcasmo.—você adora não é?

--vai se foder Marga!

--esta crente que fiz isso não é? Essa atrocidade ambulante.

Eu não respondi vendo ela se distanciar mas eu não podia negar. A culpa estava caindo sobre ela.

--que bom o seu silencio, só assim pra te manter bem longe de mim.

Ela abriu a porta e deu de cara com Lina a espirrar. Marga não quis papo e desviou e seguiu com passos largos e que logo sumiram da minha vista.

--hey!!eu vim falar dos portões! Mas que porra. O que deu nela? Você não deveria estar na facul?—Lina entrou fechando a porta e veio caminhando um pouco mais lenta do que o normal.

--eu estava ate aquela policial ir ate lá.

--pra que?

--umas mulheres aqui do morro foram encontradas mortas. Ela esta achando que Marga as matou.

--deve ser a Suzana e as amigas dela que estavam desaparecidas. A gente colocou o morro abaixo depois que o filho dela chorou pra caralho.—ela espirrou mais uma vez porem uma tosse incansável tomou seu peito e ela estava péssima. Lina mal conseguia respirar e aparentava estar super cansada.

 --você realmente não esta bem.

--aquele sorvete acabou comigo.—ela buscou o sofá e me sentei ao seu lado para conferir sua temperatura e simplesmente ao tocar nela senti a temperatura anormal.

--você ta queimando!

--eu tive que trabalhar nos portões e ela nem foi olhar.—a voz dela mal saia sem força de tão mal estava. Era anormal e aquela tosse sem fim me preocupava.

--fez isso ainda de madrugada? Deveria ter ido para casa.

--agora é tarde.

--achei que esses portões não seriam tão importantes assim.

--deve ter entrado pela entrada leste né? É a única entrada que falta colocar um dos portões. O resto agora só entra com autorização. Ordens da mal humorada. Você tem que ver eles, são enormes e bem resistentes. Foram colocados nas ruas principais do morro assim como postos de vigia e os paredões rodeiam todo o morro.ta parecendo a porra de um castelo.

--ok, agora precisa esquecer os portões e ir ao medico.

--eu já tomei umas aspirinas e uns antibióticos..

--e mesmo assim não passou? É perigoso se automedicar Lina.

--minha cabeça tava explodindo!eu precisei.

--vamos ao posto.

--eu to de boa Mari.

--sério, por favor, você ta muito quente e eu vou te levar ao medico.—peguei sua mão e a puxei mas ela e seu corpo mole só dificultava tudo. Ela estava queimando de febre e meu medo era ela desmaiar ali dura no chão.

--hmm adoro ver você preocupadinha ainda mais comigo.—ela sorriu e pelo menos se ergueu do sofá.

--aham.vambora.

Lina estava tombando quando caminhava e realmente aquela gripe estava a um passo para virar uma virose ou coisa pior. O que era a coisa mais estranha esse tempo de evolução. Ela tossia fortemente e perdia o ar e pelo caminho tive que apoia-la em mim para que ela pudesse caminhar já que ela mal tinha forças sozinha, e ao chegarmos ao posto por incrível que pareça a recepção que estava lotada não se importou quando Lina se enfiou na sala da medica furando a fila.um silencio prevaleceu e um sentimento de culpa por ela fazer isso me invadiu. Pedi desculpas mas parecia que éramos invisíveis. Eles fingiram que não nos viram. Enfim entrei na sala.

Havia um cara sendo atendido e Lina o puxou pelo colarinho e o jogou para fora da sala.

--Lina!—reclamei e ela buscou a cadeira para sentar já aparentando um grande cansaço.

--eu não posso perder tempo gata.

--pra que? Pra dormir no sofá?—ela me encarou mas não liguei para a cara feia que ela me fez.

--o que temos aqui?—perguntou a medica me vendo forçar Lina a falar e ela de braços cruzados me dava sinais para falar em seu lugar. Ela parecia criança assim.

--ela esta com febre, acho que uns trinta e sete ou oito e um pouco tonta. Esta espirrando e tossindo muito e isso foi de ontem para hoje. Ela se automedicou mas isso não adiantou. Nunca vi uma gripe ser assim.eu poderia tentar um chá mas preferi vir aqui.—falei a medica que me olhou com atenção.

--uau.(rs) nem parece que precisava de uma medica desse jeito Lina.—a doutora Roberta tava adorando me ver preocupada com ela. Lina tinha tanta saúde que ate doente o povo estranhava.

--pois é. Ela vai roubar seu posto.(rs)—ela riu debochando da medica mas sua tosse invadiu nossa conversa. Ela estava péssima.

--vou te indicar alguns medicamentos e muita agua e repouso.—dissera a medica já anotando algo em sua ficha.

--eu não gosto de ficar parada.—respondeu Lina.

--mas esses dias você vai. Nada de esforço, nada de se preocupar com quem Marga manda matar.—falei e ela me olhou como uma garotinha teimosa de oito anos.

--hey esse é o meu trabalho.—retrucou ela mas o riscar de caneta de Roberta me chamou a atenção.

--eu não queria ser fofoqueira mas já é a quarta mulher associada a Marga que vem aqui para consulta e me fala sobre as mulheres mortas por ela. Devo me preocupar?—isso me alertou.

--o que??!Como assim??Mais gente sabe disso???—perguntei.

--pelo que eu sei o filho não quer papo com ninguém depois da morte da mãe e os boatos que estão circulando é que Marga as matou porque Suzana queria sair e ela não queria deixar. As outras duas morreram porque descobriram e o sumiço delas esta alarmando todo mundo.—relatou Roberta cuidadosa ate com a voz.

Lina se ergueu da cadeira e puxou a mulher pelo jaleco. Ela estava cara a cara com uma Lina furiosa que olhava em seus olhos e os enchia de medo.

--Marga não mataria ninguém do seu exercito! Suzana nunca quis sair das M.A!—disse Lina furiosa.

--o que é M.a?—perguntei curiosa.

--minas armadas. É como chamamos o grupo das meninas.—ela falou e com isso aproveitei para faze-la soltar a doutora.

--não sabia que tinha um nome.—falei e ela voltou a se sentar para alivio da doutora.

--tentamos ser organizadas.—respondeu Lina cansada se acalmando.

--mas agora vai ter que esquecer um pouco das minas armadas ou vai piorar!—a doutora ajeitou o jaleco e voltou a sentar.--tem que toma-los assim que receber. Hoje mesmo! É uma gripe incomum e deve ser levada a sério.

Ela me entregou a receita de medicamentos e claro a fila para pega-los também não ousou impedir Lina de furar mais uma fila.

--sempre foi assim?—perguntei.

--você acha mesmo que eu ficaria na fila esperando algo?

--para ser justa com as outras pessoas, sim.

--(rs) acha que pode levar a vida sendo certinha sempre? Uma hora você vai ter que fazer algo que não quer ou que vai contra sua tão digna moralidade. É questão de tempo.

--queira deus que não.

Pegamos seus remédios e voltamos para a casa de Marga e depois de medicar Lina com o remédio que Roberta indicou percebi que a casa ainda estava vazia com a dona da casa sumida.

--ela sempre foi assim. Some de vez ou outra e do jeito que saiu brava daqui deve ta com ódio de você.—se Lina queria me animar ela foi pelo caminho errado.

--de mim? Ela é acusada de matar três mulheres do grupo dela e que Alice esta atrás dela e possivelmente vigiando seus passos. Ela deveria considerar muito bem o que eu falei para ela.

--de uma coisa eu sei, não foi ela. As meninas confiam em Marga e Marga nelas. Essa historia ta muito mal contada.

--pois é..os portões estão ai para isso né?

--a fama da Marga de dona do morro da prata já assusta muita gente, mas os portões são uma garantia. Outro dia achamos uma casa lotada de tiras disfarçados como novos moradores e claro coloquei todos para correr com os ossos bem moídos. Alice deve ter tido uma trabalheira com os braços e pernas quebrados naquele dia. Isso só mostra que não somos malucas por completo. Temos o nosso limite.

--claro, e o surto é picolé de homens.

--(rs) o cara era um estuprador e queria matar Marga. Sem contar as crianças do morro.eu achei foi pouco.

--ta certo então deita ai e descansa.—ela deitou e sentei acomodando suas pernas no meu colo.

--esse sofá ate que é legal mas..eu soube que seu quarto tem uma cama bem grande.—disse ela toda manhosa sentando-se novamente.

--nem vem.(rs)

--qual é? Essa febre ta me deixando com muito frio.—disse ela se aproximando mais de mim e suas cantadas já nem me afetavam mais, o que estranhei foi ver encima da hack da tv uma câmera filmadora com sua luzinha vermelha.

--o que é aquilo?—perguntei com ela já a desnudar meu pescoço o cabelo do meu rabo de cavalo.

--esta carregando.(rs) e a gente poderia dormir de conchinha pra ver se passa.—disse ela mas era obvio que aquilo não estava desligado ou carregando.

--você não perde a oportunidade não é?(rs)

--seria uma boa memoria para assistir.

Ela se acomodou melhor ao sofá puxando uma almofada para manter sua cabeça na altura certa e estava sorridente aproveitando o descanso. Já eu, deveria aproveitar o tempo para estudar e esquecer Marga ate minha mãe chegar, mas algo não saia da minha cabeça. Por que Alice me contou tudo isso? Depois de ter certeza que Lina estava bem descansando no sofá fui para meu quarto e antes do meio dia Marga retornou e chegou reclamando, tanto que do meu quarto eu podia ouvi-la.

Desci e ela estava lá reclamando com Lina que se atolava no sofá sem entender muita coisa em meio a tantos palavrões talvez ate meio lenta por causa dos remédios.

--eu to te falando Marga ninguém sabe do campo verde.—respondeu ela nervosa.

--alguém descobriu porque a merda dessa corda deixou marcas em uma das arvores!!—retrucou Marga impaciente.

--que corda?

Marga retirou do bolso a foto que eu a entreguei e quase esfregou na cara de Lina. Ela viu a foto tomando um susto ao ver o corpo de Suzana pela metade e mal enterrado na terra daquele cemitério. A corda em meio a suas entranhas era chocante e claro deixou Lina sem fala em meio ao surto de raiva de Marga.

--mas que merda é essa?!?

--essa corda aqui enrolada nessas tripas deixou sua outra metade lá no campo verde completamente suja de sangue e eu não me lembro de ter partido ninguém ao meio recentemente Lina!!

--perai!!!!eu também não!!!—ela se ergueu do sofá indignada e foi ai que me aproximei ganhando a atenção de ambas.

--então alguém descobriu assim do nada!?O nosso lugarzinho secreto!

--o que é esse campo verde?—perguntei e ganhei o olhar furioso de Marga.

--não se mete!—retrucou ela andando de um lado a outro.

--agora é tarde pra falar isso. O que é?—perguntei e o silencio delas era preocupante.

Elas trocaram olhares como se avaliassem muito bem o que iam me contar e isso claro me arrepiou toda a coluna. de segredos aquelas duas estavam cheias.

--..campo verde é um lugar no matagal na parte alta e afastada das casas do morro onde a gente...lava roupa suja.--Lina sentou-se novamente cansada pelo esforço do súbito levantar e daquela historia não esperava coisa boa.

--traduzindo, vocês torturam pessoas lá!—falei e Lina preferiu pensar muito bem antes de continuar com sua voz cansada.

--só os caras maus, bem maus. —respondeu ela.

--essa historia ta ficando fodida demais Marga!—falei temendo por Marga.

--você que me trouxe esse problema lembra Mari?

--Alice esta a um passo de enterrar essa historia na tua conta!

--eu to cagando para Alice!

--tenho quase certeza que fez os portões por causa dela e agora ela deve ta por ai só esperando você pisar para fora do morro!

--(rs) ela não tem essa coragem toda e nem vai ter de fazer o certo porque a verdade é bem diferente dessa ai.

--descobriu algo?—perguntou Lina cheia de esperanças.

--eu fui ao campo verde e achei a arvore onde foi usada para amarrar Suzana. A corda deixou marcas ao redor da madeira coisa que nenhum ser humano teria força para fazer, e o restante da corda, que rompeu também se encontrava lá e ela não foi cortada mas sim partida com toda a força..

--a gente não leva ninguém já tem um tempo para lá e essa ideia é macabra demais!—disse Lina assustada.

--fala sério, o homem picolé ainda existe.—lembrei a elas.

--mas ele era um fudido.é diferente.—respondeu Marga pensativa.--alguém subiu ate la de carro com ela e fez o serviço sujo. Só isso para explicar.

--a gente bem que poderia chamar o filhote dela para saber quem poderia ser..Suzana era querida por tanta gente não vejo quem teria essa raiva toda dela aqui no morro.—Lina falou recostando as costas no sofá despreocupada e nem parecia que sua ideia fosse a luz daquele túnel escuro.

Marga e eu a encaramos e ela logo entendeu.

--vai chamar ele.—ordenou Marga a Lina.

--eu to de repouso!—respondeu ela indignada.

--vai logo chamar ele Lina!!puta merda!!

--ele mora lá embaixo Marga!

--e dai?!! nem que fosse na porra do inferno.

--ela ta doente, saiu tombando comigo ate o posto quem dirá descer todo o morro.—falei ganhando o riso raivoso de Marga.

--(rs) é impressionante como vocês gostam de me contrariar! eu vou então!!—dissera ela toda bravinha.

Marga saiu e Lina respirou aliviada.

--se eu soubesse que descansar aqui é mais estressante do que la em casa eu tinha ficado em casa.—Lina agarrou-se na almofada e realmente os dias estavam ficando estressantes.

--desculpa por isso.

--nah eu já to acostumada com esses surtos mas que isso tudo ta esquisito ta ate demais.(rs) Suzana traidora? Ela amava ser parte da M.A.foi uma das primeiras se me lembro bem e o que fizeram com ela foi fodido. E as outras?

--ficaram com Alice mas eu vi bem os tiros..havia varias perfurações.

--tiros??por que a pessoa que quer mandar uma mensagem faz a primeira vitima ser rasgada ao meio presa a um tronco de arvore e nas outras só atira? Não faz sentido..

--ao menos que..nada seja verdade. Todas as provas que temos..talvez não estejam erradas.

--só sei que esse garoto vai ter que explicar tudinho pra Marga e do jeito que ela ta sem paciência ele vai ate chorar.

--onde ele mora?

--perto da entrada Leste do morro.

Não sei porque mas todas aquelas voltas e rodeios daquela historia me levaram a lembrar da fala de Alice.

“seria incrível.um sonho de consumo para mim.com o plano perfeito ela cairia nas minhas mãos sem nem ao menos saber.”

A voz dela mansa e seus olhos sobre mim vendo cada reação minha eram mais uma pista além da foto que ela me mostrou.

--não é a entrada que esta sem portões?—perguntei e Lina olhou pra mim e mal sabia a loucura de ideias na minha cabeça.

--é, faltou um portão quando encomendamos.

--Alice disse que o filho de Suzana depôs contra Marga e que a mãe queria sair do grupo e que ela não queria.—Lina me ouviu e foi impressionante ver sua mudança de humor.foi como um choque de energia em seu corpo.

--é uma armadilha! Mari, corre e vai avisar a Marga!!!—disse ela conseguindo me paralisar de medo.

Capitulo 12 Escudo necessário por millah

 

 Meu coração veio a boca mas meu corpo não esperou pelo medo e nervosismo daquela situação.eu corri saindo da casa de Marga não temendo cair em meio a trilha de terra, mato e pedras para enfim chegar a rua e nem assim avistar Marga. Eu estava desesperada.

Corri descendo a rua entrando pelo beco que levava a entrada leste do morro da prata contando com a chance de que eu poderia alcança-la. Eu ainda tinha tempo de impedi-la já que o morro da prata era grande o suficiente para se levar minutos para descer então em meio a tantos desvios e escadas e com meu folego a sumir eu avistei seu cabelo preto a virar em um corredor e apressei meu passo.

Só de pensar em Alice conseguindo o que queria me fez gelar em ver Marga quando finalmente cheguei ao mesmo corredor que ela. Eu desesperadamente não queria isto.

Eu a peguei segurando firme seus braços, me colocando a sua frente para impedir ela de continuar e nisso ela me olhava como uma verdadeira louca que eu certamente parecia.

Eu estava cansada mas tomei folego para falar com ela.

--fica. —falei e ela me olhou curiosamente surpresa. —Alice deve estar por lá.

--por que acha isso?—ela parou e foi de certa forma um alivio.

--é a única entrada que não tem portão, justamente esta que é mais próximo da casa do garoto e um pé fora do morro. É uma armadilha!

 --mas isso ainda não resolve todo esse mistério. Suzana ainda esta na minha conta lembra?

--eu vou ate lá. Falo com ele.

--leva ele la em casa.ai sim a coisa vai ficar interessante.—ela falando baixo parecia uma psicopata com tanta raiva.

--só me prometa que não vai surtar.

--pff

--prometa!

--ta ta eu não vou surtar. Agora vai.

Eu olhava para ela e naquele sorriso e eu não encontrava um pingo de confiança para crer nas palavras dela. Ela ia surtar.

Segui meu caminho morro abaixo e catando algumas informações pelo caminho eu achei a casa de Suzana. Era simples com paredes amarelas e plantinhas penduradas na frente. O portão preto gradeado estava trancado mas apertei a campainha e dali ouvi seu som tocar dentro da casa.

Não levou segundos para um rapaz aparecer na porta. Deveria ter uns dezessete ou dezoito anos, com cabelo bem cortado, cara de garoto marrento e vestido de jeans e camisa preta e um tênis de marca. Ele parecia muito bem apesar da cara amargurada que me fazia.

--quem é você?—ele me perguntou incomodado pelo sol quente daquele dia.

--meu nome é Mari.

--ah..a garota nova de Marga.—ele parecia vazio de emoções e nada interessado a falar comigo já que olhava para os lados procurando algo.

--não sou garota dela.—retruquei e ele me lançou um olhar que durou mais que um segundo.

--..sou Lucas.—ele cruzou os braços e parecia se controlar a minha frente e era obvio que ele já estava na defensiva para qualquer papo que teríamos.

--vim aqui por causa da sua mãe.

--o que Marga quer saber que não pode vir ate aqui?                                                                

--eu só estou tentando resolver isso da melhor maneira para ambos os lados.

--resolver? Minha mãe queria parar com essa merda de soldado de morro e Marga cagou pra ela.

--pensei que sua mãe gostasse do que fazia.

--você ao menos a conhecia??via ela chegar em casa cansada e..

--perai apressadinho. Só estou dizendo o que me passaram. Você também não me conhece e esta ai,cuspindo fogo pela boca.

--desculpa é que..minha mãe morreu e Marga nem tem a coragem de vir ate aqui me confrontar.

--ela esta te esperando lá encima.eu só vim aqui te falar isso.

--(rs)—ele deixou o portão e saiu tomando o caminho a subir o morro.

O garoto estava cheio de marra mas parada ali observando ele subir me atentei o quão perto estava da saída leste. Eram alguns passos a rua que levava a saída do morro da prata e nisso minha curiosidade reinou. Eu queria ver se era verdade.se aquilo que eu pensava realmente poderia se cumprir e mesmo não botando fé de que Alice estaria ali naquela rua eu fui. Eu queria que fosse mentira, eu não queria me sentir tão desesperada para saber disso porque só era uma prova que eu estava me apegando aquela cretina. Me apegando mais do que minha mãe mais do que eu imaginava para tão pouco tempo.

Por isso respirei fundo e fiz dos meus passos os mais lentos possíveis e segui ate aquela rua.eu podia ver a mudança drástica no ambiente das fronteiras do reino da Marga e do fundo exterior e com mãos geladas eu sai.

A rua movimentada, os carros que passavam na pista que levava a rodovia e ao túnel estavam como sempre bem normais. As pessoas transitavam pela calçada em ritmo de trabalho e tudo estava como deveria ser. Era um pouco de alivio para minha mente paranoica e ate sorri desacreditada no meu surto.

--Marga vai me deixar maluca.—me virei e mesmo que o sol estivesse no topo e alto sobre minha cabeça ele jamais brilharia como refletiu em uma janela de um prédio bem a frente.

Eu fiquei ali de costas a rua analisando do porque o sol ter refletido tão intenso em uma janela senão por causa de uma lente. Uma lente de uma arma? Talvez. Me virei a rua novamente e meu olhar caçou bem a janela com o brilho incomum e de fato havia algo lá e eu fiz questão de olhar bem para aquela janela.

Era ela com uma sniper em mãos pronta para acertar Marga. Era uma pena para ela que eu não era Marga.

Entrei no morro e era inacreditável. Eu estava certa. Eu tinha que contar isso a Marga e não desviei meu caminho e segui ate a casa dela. Não tive pressa. A esse momento Marga estaria gritando e berrando com Lucas e Lina ameaçando a bons cascudos, eu fui o mais calma possível de volta.

Passei pela rua dos mercados, onde todo mundo trabalhava a todo vapor. As pessoas gostavam de comprar peixe e frutas para o almoço e era maravilhoso caminhar por lá e encontrar as caras mais conhecidas do morro.

De longe eu avistei Hyong a comprar. Isso me fez lembrar o tempo que ela me fazia ajuda-la a carregar suas compras na sua busca pelo peixe perfeito. Depois daquele dia com o cara morrendo em seu restaurante acho que me ver seria a ultima coisa que ela queria mas assim que passei ela me chamou.

--eu não tive a chance de te agradecer.—dissera ela e tive que sorrir.

--não precisa.

--aquele homem ia morrer..

--e eu não tive coragem de furar a garganta dele para ajuda-lo.

--mas Marga sim e vi que ela só fez isso por sua ajuda. Por ela, Marga terminaria o serviço.

--pelo menos ela me ajudou com uma coisa boa..soube algo dele?

--bem é claro. Como esta sua mãe?

--trabalhando como sempre. Ontem foi um dia bem especial para ela. Já tinha um tempo que a gente não saia. Obrigada pelo jantar.

--(rs) sabe que é sempre bem vindas no meu restaurante.me surpreendi com Lina e Marga mas acho..que posso me acostumar em ver elas mais vezes já que elas estão bem mansas com vocês. Posso estar enganada, mas elas estão tentando passar uma boa impressão? Eu nunca vi Marga assim, tão de boa andando pelo morro. O que você fez?

--nada.

--apesar do que ela fez a minha família o estilo de vida dela...é preocupante. Ela brinca com a vida de todos com tantas armas nesse morro e os roubos atraem um olhar negativo ao morro da prata. Essas mulheres que ela tanto apoia e logo depois enfia uma metralhadora ou um escopeta nas mãos são voláteis, são instáveis. Muitas saem de lares violentos e cheias de ódio. Torna nosso lar uma prisão para todos e para ela uma fortaleza. Você por exemplo vivia fugindo das mulheres do morro.

--a verdade é que..depois de descobrir que minha mãe tem sentimentos por ela parece que todo meu ódio não é nada. A real é que depois dessa nem eu mais consigo sentir algo em relação a Marga. Ela me irrita, tudo é confuso e eu sempre acho que não devo confiar nela..mas eu to aqui feito idiota.

--se precisar de mim, para qualquer coisa, conte comigo.

--valeu Hyong.

Me despedi dela e segui ate a casa da Marga. Logo as duas da tarde minha mãe chegaria e era de se esperar que todo o papo com Lucas e Marga já tivesse encerrado mas assim que toquei na maçaneta encontrei a porta trancada. O problema maior foram as batidas que eu podia ouvir e o gemido de raiva de Lucas.

--o que ta acontecendo?—perguntei a mim mesma me afastando da porta, com meu coração acelerando em meio a tanto receio.

Me lembrei da garagem que tinha acesso a casa e corri pra o portão dela do outro lado da casa. Ele se encontrava fechado mas comigo forçando a porta elétrica a subir e abrir não demorou para que pelo menos uma brecha embaixo fosse o suficiente para mim passar.

Eu entrei depois de me rastejar e dali ao lado dos carros e motos de Marga eu já ouvia a voz alterada de Lucas a gritar. Algo não estava certo porque eu não ouvia Marga responder.

Tive que ser silenciosa com meus passos e seguindo para a casa eu avistei da cozinha lá no meio da sala Lucas espancando Marga violentamente com chutes e mais chutes e ela caída no piso encolhida tentando se proteger recebia os golpes e pisões em silencio.

--por sua culpa eu tive que fazer aquilo!!por sua culpa ela não me ouviu!!!!Como consegue fazer isso??Como consegue fazer as pessoas ficarem cegas por você!!—gritava ele enlouquecido.

--eu não matei sua mãe! Você fez isso seu miserável!!—Dissera Marga e isso era assustador.

--(rs) e quem vai acreditar??!eu sei que você já estava de olho em mim e mandou aquelas duas me vigiarem.eu me livrei delas também e basta eu chorar na frente de todo mundo que nenhuma dessas vadias vai acreditar em você Marga!(rs) ate a policia se eu rir na cara deles vai dar mais importância ao que vou dizer do que a você seu lixo!!!—disse ele com gosto.

--ela trabalhava para mim por sua causa. Para dar a você um teto e comida na mesa seu imundo!!

--você fez ela escolher você do que a herança do meu pai!!

--aquele velho nojento igual a você?—respondeu Marga e Lucas surtou.

Ele voltou aos chutes e pisões e eu precisava fazer alguma coisa e na hora vendo ele de costas a mim comecei meu caminho ate ele. Toda a raiva que ele possuía em meio a gritos e xingamentos estava me enfurecendo. Ele estava machucando Marga, ele ia mata-la e com minha visão quase turva e o ar que começava a faltar em meus pulmões eu peguei a haste de ferro do abajur perto do sofá e acertei as costas dele o derrubando ao piso. eu vi bem a hora que a lâmpada no topo estourou com o impacto e a barra de ferro toda tremeu na minha mão.

Eu não sei o que deu em mim eu só continuei a bater nele e a repetir o mesmo golpe.eu não medi minha força.eu usei ela com toda a intensidade dos meus braços o que foi anormal porque eu queria devolver a ele toda a dor que ele causou a ela.eu ate joguei longe aquela haste e montei sobre ele para socar aquela cara idiota dele e só parei porque Marga gritou meu nome.

Eu tinha saído de mim e ela estava ali sentada no chão me encarando perplexa a sangrar. Ela cuspiu sangue e eu estava mais do que ofegante.

--(rs) puta merda Mari, você conseguiu..olha quanto sangue..—ela falou aquilo e foi ai que me toquei do que eu tinha feito.

Lucas estava desmaiado e com o rosto fodido e minhas mãos machucadas e todo aquele sangue sobre nós me deu vontade de vomitar.

--meu deus. —me levantei vendo aquela cena horrorosa do Lucas caído no chão e todo aquele sangue no rosto dele e machucados que nem mesmo eu acreditava que tinha feito.

--(rs) veja por esse lado, você perdeu o medo de sangue. Pode fazer a operação que quiser agora.—ela se levantou com dificuldade e foi ate o seu bar para encher um copo de whisky e enquanto ela bebia para aliviar a dor eu ainda estava ali paralisada encarando Lucas desmaiado.—esse desgraçado.—Marga voltou do bar com uma pistola em mãos.

Ela destravou a arma e veio furiosa.

--espera!!—a parei e ficar em frente de uma arma não era uma boa escolha.

--ele ia me matar!!

--não, por favor..se fizer isso só vai piorar as coisas.

--e como vamos explicar isso a Alice? Porque sei que vai querer salvar esse merdinha!

Eu pensei rápido, eu tinha que ter uma solução para acabar com aquela fúria de Marga e a solução veio como uma luz vermelha sobre o hack. Era a câmera de Lina que ainda estava ali, gravando tudo.

Desconectei a câmera e com Marga bem atrás de mim eu verifiquei se realmente estava tudo gravado e ate me surpreendi quando me vi batendo em Lucas.

--o que essa câmera estava fazendo ai ligada?—perguntou Marga desconfiada.

--Lina.

--safada que eu amo.

--onde ela esta?—perguntei.

--eu mandei ela ir embora.

--não deveria ter feito isso ainda mais com esse maluco!

--ué, ela tava doente né!?

--que horas?

--uma e vinte e sete. Por quê?

--minha mãe vai chegar as duas. Precisamos ajeitar tudo isso.—eu olhei para Marga e em seu rosto corria o sangue de uma sobrancelha cortada e a boca vermelha pelo sangue.

A bagunça daquele confronto, o corpo ao chão, o abajur quebrado e todo o sangue ao piso.

--o que vai fazer?—perguntou ela curiosa.

--precisamos limpar tudo isso e levar ele para Alice.

--(rs) com a gravação? Vai ser perfeito. Adorei a parte que você desce o cacete nele por mim.com toda certeza não deve ser difícil achar Alice hoje né?

--ela esta la fora do morro. Perto da entrada leste.

--então vai joga-lo la na rua?

--ela tem uma sniper pronta para acertar sua cabeça. Acho que esse recado todo fodido ai no chão vai ser o suficiente.

Marga arrumou uma corda na garagem e amarrou bem os pulsos de Lucas.

--para meu azar esse merda sabe chutar. to toda dolorida.—ela passou a mão sobre a sobrancelha e sujou a mão de sangue.

--eu posso..—apontei para o corte e Marga logo entendeu e acenou.

Fui buscar o kit medico ainda com as pernas bambas de tanta adrenalina. Tive que usar minha bombinha umas duas vezes para regular minha respiração. Toda aquela merda tinha acontecido rápido demais e ainda nem tinha acabado. Deixei o banheiro e desci as escadarias ate a sala porem Marga e Lucas haviam sumido.

Deixei a casa correndo e avistei Marga arrastando Lucas por uma corda. A câmera que estava com a gravação tinha sumido e logico que ela tinha pegado.

--mais que merda!

Corri ate ela e quando olhei para Lucas ele tinha acordado e agora tinha uma fita na boca. Seus olhos estavam vermelhos de raiva quando olhou para mim.

--o que ta fazendo??

--vou levar ele pra Alice.

--ela vai atira em você assim que te ver!

De repente ele conseguiu descolar a fita da boca e começou a gritar.

--ASSASSINAAA!!!VOCÊ MATOU MINHA MÃE!!!!VOCÊ MATOU MINHA MÃE!!!

Logo chegamos a rua principal e os olhares do povo a Marga e aos gritos de Lucas fizeram daquele caminho um momento perturbador para todos.

Ela o arrastava sem problemas e ele estava desesperado tentando queimar a imagem de Marga as mulheres que a protegia e todas que paravam para assistir o observavam em silencio. Não havia duvidas e muito menos desacordo com o que viam. Parecia que o que ela falava ou fazia nada era contestado.

--ela matou minha mãe, ela matou Suzana!!!!Me ajudem!!!!Por favor!!!Me ajudem!!!—ele só faltava chorar em meio a tantos gritos enquanto era arrastado e Marga apesar de estar toda dolorida o puxou ate a entrada leste.

A câmera pendurada no pulso de Marga balançava ate este momento. Ela a pegou e conferiu bem toda a gravação.

--(rs) boca de sacola. Se tivesse ficado quietinho não teria me dado a carta que eu precisava.—Marga o chutou no rosto e ele desmaiou em meio ao chilique de fúria para alivio dela.—vai me ajudar ou só veio ficar olhando??—ela pegou a corda e já estava pronta para puxa-lo para fora do morro.

--ela vai atirar em você!

--eu vou contar com a sorte.

Me adiantei e o peguei pelos braços e o ergui. Marga por sua vez me vendo fazer aquilo também pegou as pernas dele e juntas carregamos ele ate a entrada leste, e na calçada o deitamos.

Eu vi bem Marga depositar a câmera sobre a barriga dele.

--me fala onde ela ta?—pediu Marga e assim como ela se curvou eu vi bem a pistola que ela escondia no jeans em suas costas. Ela queria se acertar com Alice mas aquela não era a hora.

Eu olhei rapidamente para a janela do apartamento onde a tinha visto pela ultima vez e ela ainda estava lá com a arma apontada para a entrada e agora mais do que nunca seu dedo deveria estar ansioso para apertar o gatilho.

Me posicionei em frente a Marga e a empurrando de volta para o morro eu só vi o sorriso dela a mim e aos prédios daquela rua.

--ela esta por aqui não é?—sua ansiedade estava no ápice olhando para os lados e eu mais que nervosa de estar ali.

--ela vai atirar no meio da sua testa se não entrar logo.—eu a fazia recuar deixando para Alice apenas um gostinho de ver a criminosa mais procurada e não poder fazer nada comigo de escudo.

--eu quero ver Mari.

--não!—me coloque bem a sua frente e de volta ao beco estávamos seguras.

De repente desceu varias mulheres da M.A e muito bem armadas fecharam a entrada com seus corpos. Uma barreira humana cheia de armas que se deparou com cinco policiais vestidos para o combate, mas de frente a elas não ousaram a atirar e muito menos tentar invadir.

Lucas já seria um bom enigma para Alice decifrar e ver ele sendo levado pelos policiais e a câmera eu tinha certeza que isso traria consequências mais tarde.

--esse puto não entra mais aqui!!—gritou Marga ao povo.--Suzana deu a vida por ele e ele preferiu a matar do que ver ela trabalhando para mim.

Marga só precisou disso para todos voltar para suas rotinas e esquecerem que ate agora a pouco ela havia arrastado Lucas para fora do morro. Era como se eles esperassem o veredito final da dona do morro para não acabar falando demais e acabar como ele.

--anda! Sua mãe já deve estar chegando.

Voltamos para casa e Lina estava lá nervosa a tossir.

--você deveria ta em casa!—Marga reclamou mas Lina não estava nenhum pouco afim de falar sobre sua saúde. Ela ainda tava péssima.

--eu falei pra você que não era uma boa!eu falei pra você!—disse ela a Marga.

--agora já foi.

--Lina você ainda ta com febre. Precisa descansar e só.—falei ainda sentindo ela quente ao tocar seu braço.

--sem mim essa maluca só se fode. Pelo menos matou o miserável??—cansada ela sentou-se perguntando a Marga que pela cara também estava tentando acalmar-se de toda aquela situação. Ela levou uma boa surra mas ainda estava ali pensativa.

--Alice vai cuidar dele. —dissera ela seguindo a cozinha e na geladeira achando um pouco de agua.

--uma porra que vai!—retrucou Lina.—essa safada ta na nossa cola doida pra ferrar a gente!

--graças a sua câmera a gente tem provas que ele matou Suzana e as duas mulheres. Marga entregou ele junto da câmera.—falei e Lina acalmou-se no sofá.

--eu copiei a gravação para o meu celular antes disso então ela que não venha me ferrar de novo.—Marga retornou bebendo um copo de agua.

--você vai me dar uma câmera nova.—disse Lina e Marga virou seu olhar pra ela na hora.

--vou e vou enfiar ela no seu cu se tentar outra merda dessa com a Mari! O que tinha na cabeça?!filmar putaria na minha sala?!—perguntou Marga engrossando e tirando o sorriso de Lina do rosto.

--(rs) eu só tava brincando. Não ia rolar nada.—respondeu ela prontamente porem me lançou um olhar curioso.

--não quero saber! Dá o fora daqui!—reclamou Marga e Lina bufou.

--você ta bem né?

--to..

--de verdade? Porque ta parecendo bem mais puta e machucada. Mari pode te ajudar caso precise.—Lina examinou Marga de longe e com isso tive que concordar.

--ele estava espancando ela quando cheguei. Tive que fazer alguma coisa.—falei e Marga me olhou na hora.não era pra mim me preocupar?

--puta merda!(rs) você salvou a Marga?? Acho que depois dessa vou pedir umas férias. OUVIU MARGA?!!—Lina riu alto.

Marga subiu as escadarias calada e Lina terminou tudo tossindo. Aquela gripe estava muito forte e ela tossia com tanta força que só me preocupava mais.

--você tomou os remédios?

--claro, quase não passaram na minha garganta.

--posso fazer um chá para você melhorar sua garganta.

--nah eu tomo isso lá na hyong.cuida da Marga. Ela precisa de um cuidado maior.

--eu sei..

Lina saiu e peguei o kit medico que havia deixado ali na sala e fui atrás de Marga e a encontrei em seu quarto. A porta estava aberta e antes que eu pudesse colocar um pé naquele lugar o receio me lembrou que aquele era O SEU quarto. Marga ainda me causava uma certa estranheza mas depois de hoje acho que tínhamos uma evolução. Entrei e logo no banheiro eu a vi se olhando no espelho redondo contemplando o machucado em sua sobrancelha.

Ela assim que me viu ela saiu do banheiro e com a cara raivosa sentou-se na cama.

--ainda não aceitei o que fizemos...eu poderia ter acabado com ele.—disse ela puta e era nítido que era seu ego ferido.

--isso só confirmaria a versão dele.

--e você acha que eu ligo??ele me deu uma surra. Foi um puta ataque covarde pelas minhas costas mas eu vacilei e se não fosse por você..

--estaria de pé tenho certeza.—ela me olhou surpresa.—foi apenas um susto.

--foi um susto fodido.

Abri o kit e peguei o antisséptico e o algodão. Ela por sua vez me encarava como um cachorro prestes a me morder e estava na cara que estaria doendo mas que jamais ela admitiria ou exibiria fraqueza com isso. Não faria diferença pra mim que comecei a limpeza do seu corte e ela permaneceu ali imóvel. O que me intimidou por um momento foram seus olhos tão fixos aos meus, tão invasivos ao me encarar de tão perto. Era impossível se concentrar com ela daquele jeito me tirando a atenção e me fazia lançar a ela cada olhar desconfiado ao seu silencio. Limpei todo o sangue do corte e tentei não ligar mas dali de frente a Marga e tão próximo percebi que era um bom momento para descobrir o que havia por trás daqueles olhos zangados. Era de um castanho iluminado e de uma atenção que nunca ninguém teve em mim.me peguei lembrando das vezes que a encontrei me observando, era sempre o mesmo olhar curioso e raivoso de agora. Eles me tiravam a concentração e era o que ela queria.

De repente ela pegou minha mão e me assustou.

--esta machucada.—dissera ela seriamente.

Olhei para minhas mãos e realmente, ambas estavam vermelhas. Foram tantos socos que dei que achei valido a dor que sentia. Minha pele estava um pouco rasgada nas costas da minha mão e meus ossinhos visivelmente machucados porem percebi o quanto Marga alisava seus dedos contra esses machucados.com um toque sensível e cuidadoso sobre minha pele ela ficou ali avoada a pensar.

--precisa de gelo.—continuou ela.

--não se preocupe.

Ela se ergueu e saiu do quarto. Marga me fez esperar alguns minutos pelo seu retorno para voltar com uma compressa para minhas mãos. Eu a vi sentar-se do meu lado e pegar minhas mãos para cuidar. Eu olhava para ela e ela olhava para o nada enquanto gelava meus machucados. Marga evitou meu olhar ate que não pode mais.

--sua mãe vai me matar quando souber disso.

--pode ser.

--acha que podemos manter isso em segredo?—disse ela tão mansa que era bom pra mim desconfiar.

Minha mãe chegou e nem precisou Marga contar algo, o morro fez isso por nós e nunca pensei que minha mãe ficaria furiosa comigo por algo que fosse o certo a se fazer.

Ela nos fez sentar no sofá e o sermão já estava no ponto.

--nunca mais ouviu bem!!Nunca mais resolva as merdas da Marga!!—disse ela irritada indo de um lado a outro na frente do sofá da sala.

--e eu ia deixar ela ser morta por Lucas? Aqui na sala!??!—retruquei e minha mãe soltou um riso.

--(rs) Marga morta por um pivete?logo ela, a dona do morro da prata! A mulher que todos temem ficar trancada em um quarto com ela.--eu olhei para Marga e ela fazia questão de não olhar para minha mãe tentando fingir pouca importância a minha conversa com ela. --sei que fez na maior das boas intenções Mari mas não se arrisque!!não por ela!

--não acredito que esta dizendo isso. Logo eu que te acolhi!!—dava pra sentir o sarcasmo no tom de deboche de Marga e minha mãe parecia odiar aquele jeito irônico dela.

--é a segunda vez Marga que põe ela em risco por causa das suas merdas! Você e eu sabemos bem que se quisesse mataria esse menino não apenas com as mãos mas também usaria ate os dentes!!assuma seu planozinho de uma vez.—minha mãe não estava brincando com o que dizia e Marga preferiu o silencio e encara-la com um sorriso no rosto.

Ela olhou para mim e minha mãe esperava sua resposta e Marga realmente estava pensando pra me responder e isso já estava me emputecendo. Ela tinha mesmo um plano alternativo.

--precisávamos de provas não é?—dissera ela.--(rs) eu não poderia deixar minhas marcas nele. Isso ia contra o plano que era tudo que ele mais queria.me tornar um monstro.

Eu me levantei do sofá e joguei a almofada nela. Como ela tinha a cara de pau de me dizer isso??que preferiu não se defender para não se incriminar??!!

--eu devo ter quebrado duas ou mais costelas dele!!e tudo por você!!—eu estava chocada.

--eu sei!!(rs) eu agradeço. O miserável não prestava.—ela se ergueu calmamente com um sorriso no rosto, como se divertisse com minha cara surpresa.—eu tinha reparado na câmera e eu sabia que voltaria e mesmo você demorando pra cacete sabe-se lá porquê tudo deu certo no final. Era isso ou empalar ele mas precisávamos provar não é? Que ele fez tudo aquilo e foi perfeito.—ela parecia se orgulhar do que aconteceu e o sorriso naquele rosto me incomodava.

--eu nunca bati em ninguém daquela forma e você quase me fez quebrar a mão de tanto ódio por aquele moleque!!—gritei a ela e parecia uma reação exagerada para Marga.

--você queria ele vivo agora ele é problema daquela intrometida.—dissera ela se justificando mal entendendo do porque me arrisquei.

--EU queria VOCÊ viva!!puta merda Marga!!—falei porem frieza era o sobrenome da Marga.

--sua filha é tão dramática. Nem parece que é sua filha. —retrucou ela a minha mãe e era inacreditável.

--ela se preocupou com você e você a usou. Forçou ela a tomar uma decisão que ela jamais tomaria!

--mas se você tivesse visto Helena estaria orgulhosa. PA PA PA!!!Ela acertou tão bem aquele filho da mãe.

Me irritei com aquele maldito sorriso dela e caminhei em direção ao meu quarto. Ela tava cagando para como eu me sentia.

--você tinha que falar com ela assim??—minha mãe era doce demais para essa mulher e mesmo comigo saindo fora ela ainda tentava a sorte.

--ela só ta chateada porque sujou as lindas mãozinhas. A historia se resolveu. Agora eu to cagando pro resto.—ela foi para o bar e o jeito que ela resolvia as situações me frustravam porque era exatamente como eu pensava que ela ia resolver.

Minha mãe olhou pra mim cheia de pena mas subi o mais rápido que podia e eu tava me controlando para não surtar.

Capitulo 13 O lado bom de um raramente sempre é pago outro dia por millah

 

Eu só queria ficar lá sozinha no quarto com as minhas mãos doloridas chorando de raiva porque Marga tinha encenado tudo daquilo e ainda tinha se irritado porque demorei para voltar para casa e salva-la em frente a camera.eu deveria ter demorado mais para ela apanhar mais um pouco.

Eu tava me controlando para não descer e surrar ela eu mesma. Eu pensei que estava a protegendo, mas estava ali sendo usada para redimi-la desse crime. A coitada da Marga sendo acusada injustamente. Ela não precisava perante as regras do morro dela para agir mas ela mesmo assim fez somente para me ver espancando Lucas e não duvidava que fosse por causa do homem alérgico do restaurante. Ela queria ver sangue em minhas mãos e conseguiu. Ela poderia ter se defendido..ela poderia ter se defendido e mesmo assim não fez!

 Eu não queria sentir o tanto que aquilo estava me corroendo e eu nem entendia porque era tão forte. Machuquei uma pessoa por ela, mesmo sendo quem era fiz algo que foi contra meus ideais por ela.

Não demorou para alguém invadir meu quarto como sempre e era ela, Marga. Eu ate limpei meu rosto e me deitei de costas a porta para não ver a cara dela e depois de alguns passos se aproximando e um pesado suspiro cansado eu já ate adivinhava que ela não viera porque quis.

--Helena me fez vir aqui pedir desculpas.—começou ela como o esperado.--Eu deveria ter feito tudo isso com mais sutileza para a princesinha não se envolver.

Não respondi, mas ela se jogou de uma vez na minha cama e tive que me virar para ver ela.

--vai,fala..vai dizer que não gostou de bater naquele punhetinha nervosa. Depois de tudo que ele fez para Suzana e as meninas eu virei sua fã.—Marga queria mesmo ver o lado bom daquele momento mas nem tudo se resumia a isso.

--a questão não é essa! Eu nunca quis machucar ninguém na minha vida ao ponto do que eu fiz hoje e eu fiz por você. Logo você!eu achei que você tinha perdido o controle da situação..mas era mentira.

--hey..o fato deu ter deixado você tomar essa decisão não anula o fato que você fez..você me salvou.

--você não precisava e isso conta muito! Você manipulou a situação. Não há ganho saber machucar as pessoas. Você só carrega isso na sua consciência e depois da primeira vez tudo parece fácil demais se você pega o gosto mas não é verdade. Depois não importa o quão forte bata ou quantas vezes faça, nada será como antes.. Eu não quero tornar isto algo normal para mim.

--qual é..você só colocou sua moral de lado para me salvar. Foi uma coisa boa.

--não foi.

--pra mim foi..eu só queria que você fizesse tudo possível para salvar alguém e você fez. Lá no restaurante eu me assustei com sua ideia, furar um pescoço de um cara pra ajuda-lo e mais ainda quando você quase fez! Só que você hesitou e eu vi que precisava de coragem para esquecer um pouco quem é para se fazer determinada ação. Ele morreria também se eu não tivesse essa coragem? Pode não ter gostado do que fez para me salvar porque eu simplesmente poderia me defender, mas não condene essa sua coragem..isso não vai mudar quem você é.um dia pode precisar dela de novo. E sei que não quer isso para sua vida mas..eu queria dizer..é que..obrigada. Por se arriscar por mim. posso ter manipulado aquela briga mas de todas as possibilidades eram pouquíssimas as chances de que te via reagir, ainda mais por mim..

Ela deixou meu quarto e suas palavras me fizeram pensar. Tínhamos pontos de vistas bem diferentes, e eu entendia que, desta coragem em superar desafios impossíveis para mim,ela construiu pontes para o que ela queria. Todos tinham medo dela por esta coragem de fazer o que poucos podiam. Eu nem sabia como ela dormia a noite depois de tudo que eu já ouvi sobre ela. Como eu fui tão idiota em achar que ela estaria mesmo com problemas e o melhor da minha burrice era ainda pensar que eu ainda quero a proteger.

--de onde ta surgindo isso??

****

No restante da tarde eu não queria deixar o quarto e da minha janela vi o céu escurecer e mais uma tempestade se aproximar. Pelo menos eu tinha tempo agora para focar no meu curso e não me preocupar mais com as goteiras ou os moveis e eletrodomésticos que iam se molhar. Minha mãe e Marga passaram a tarde silenciosas demais dentro daquela casa e ate parecia que eu estava sozinha naquela mansão. Tudo era silencioso. Peguei o controle da tv e liguei.

Eu não queria iniciar minhas paranoias em relação as duas e depois de uma boa respirada bem fundo me concentrei nos meus estudos ate o jantar.

Minha mãe bateu na porta três vezes para me lembrar. Organizei tudo e fui ao banho. Aquelas horas sozinhas me faziam milagres. A agua morna descia pelo meu corpo e a chuva lá fora era um acompanhamento perfeito.

Eu esperava que com o tempo daquele jeito Lina estivesse quietinha em casa em sua cama melhorando daquela virose.

Me preparei, vesti um vestido florido, enxuguei e escovei meu cabelo e depois de pronta desci para o térreo. Marga já se encontrava na cozinha junto da minha mãe e elas preparavam com todo o cuidado cada detalhe da refeição. Minha mãe estava feliz vendo Marga se dispor a ajuda-la e claro da sua maneira.

--cuidado pra não derramar o arroz na bancada.—avisou minha mãe.

--eu sei caralho.e para de tentar tomar a colher.—retrucou Marga e era impressionante, pareciam um casal brigando.

--você não sabe colocar porra e vem se meter na minha cozinha.—respondeu minha mãe esquentadinha.

--a cozinha é minha sabidinha.

 Assim que aproximei eu pude ter uma dimensão maior de tudo. A mesa estava fantástica. Tínhamos peixe grelhado e o cheiro estava maravilhoso. Dava pra sentir o tempero salgado de tudo de onde eu estava, o arroz tinha acabado de sair da panela e Marga estava minunciosamente sendo cautelosa com o preparo dos pratos. As verduras e legumes estavam brilhantes de tão verdes e nem era um terço das coisas que tinha sobre aquela mesa. A farofa já me dava agua na boca e a feijoada estava perfeita e bem no centro da mesa dividindo lugar com o peixe grandão.

--gente, o que é tudo isso?—perguntei curiosa.

--meu pedido de desculpa, parte dois.(rs)—disse Marga tentando não parecer tão estranha como era normalmente em sua seriedade. Até um sorrisinho ganhei, claro de poucos segundos visivelmente possível.                                  

--acredite, ela fez quase tudo.—revelou minha mãe com um sorriso especial no rosto. Até ela estava impressionada.

--para foi meio a meio.—dissera Marga tentando reverter a sua situação.

--o peixe foi um presente da hyong.—disse minha mãe ao me ver admirar o peixe sobre a mesa.eu estava encantada com o dourado dele.

--ele é enorme.—falei e notei Marga me encarando ao meu lado ate minha mãe rir na cozinha.

--ela gosta mesmo de você Mari. Parece ate que adivinhou que você não estava tão bem, já que te encontrou no mercado.(rs) acho que você é a única que se preocupa com a Marga nesse morro além de Lina.—dissera minha mãe ganhando o olhar de Marga.

--como assim dona Helena? Quando te contei tudo você me pareceu bem surtadinha.—dissera Marga contestando minha mãe.

--claro, estamos falando da minha filha.

--e de mim.(rs) eu não vou me estressar, vamos comer. E mais uma vez Mari, me desculpa.—dissera ela mais uma vez e ate me arrepiei. Ela só podia estar doente.

--aproveita, ela nunca fez isso pra mim.—respondeu minha mãe e ate ela percebeu.

Marga parecia verdadeiramente arrependida de me enfiar em seu plano brilhante e com aquele jantar eu preferi dar mais uma chance a ela. Eu tinha surrado Lucas e minhas mãos ainda estavam doloridas mas elas estavam ali fazendo de tudo para me ver sorrir.

Isso valia muito para mim pois tudo que eu e minha mãe tínhamos era uma a outra e comer com ela contando causos de sua vida com Marga e ela a olhava tão interessada e hipnotizada para minha mãe que foi impossível não perceber o carinho que havia por trás. Ela a respeitava e a pedido da minha mãe ela foi ao meu quarto pedir desculpas. Querendo ou não eu fiz a coisa certa e não deveria ficar triste pelo jeito que eu fiz.

No outro dia bem cedinho, corri para a faculdade e depois de me despedir da minha mãe e pegar meu lanche desci o morro tendo um longo dia pela frente do qual eu queria me dedicar somente aos meus estudos.

Logo pelo caminho Lina apareceu e veio cheia de energia.

--bom dia Mari!!olha quem melhorou!!(rs)—ela estava toda saltitante com seu copinho de café na mão e me fez rir de toda aquela animação.

--impressionante.—falei feliz por ela.

--aqueles remédios quase me mataram engasgada e eram piores do que uma pica na garganta mas tudo deu certo graças a você Mari.eu agradeço mesmo.

--(rs) deveria descansar e eu não fiz nada.se tem que agradecer a alguém vá no posto.

--ah fala sério.

--isso é sério. Os médicos de lá estão trabalhando dentro do morro da Marga e te ajudar é uma grande responsabilidade. Você é trabalhosa demais.

--(rs) acha que isso mudaria a visão que todos tem de mim?

--de barraqueira? Claro.(rs)

--(rs) quer saber um negocio? Não pensei que seria assim.

--você não me conhecia.

--eu queria atirar na sua cara. Era a única coisa que eu tinha em mente de você...eu pensei que não ficaria na casa de Marga e que levaria sua mãe para bem longe daqui.

--e quem disse que eu não faria? Vocês são criminosas.

--(rs) mas somos legais, isso você tem que admitir..Marga pediu desculpas?

--pediu.

--isso é raro.eu queria ter visto você surrando o Lucas antes de terem entregado MINHA maquina para aquela policial. Marga achou divertido.

--eu não queria.

--eu sei que não. Você é boazinha demais. Isso um dia pode te matar.

--é uma questão minha e um problema meu para a Mari do futuro resolver. Não quero pensar nisso tão cedo de novo.

--(rs) só sei que Marga ta contando pro morro inteiro do seu feito e posso dizer que ela parece orgulhosa. Ta me lembrando do dia que a gente fez nosso primeiro assalto.

--nem vem, ta cedo demais pra me irritar com ela. Só falta me dizer que ela quer me iniciar no crime.

--(rs) será que estou diante da próxima dona do morro?

--(rs) eu quase tive uma sincope com isso.

--sincope que? Fica com suas palavras difíceis que agora tenho que verificar os portões.

--se eu fosse você continuava a descansar!

--eu to ótima e pronta pra próxima. E se eu fosse você levava um guarda chuva, vai chover com certeza. A cidade toda ta gripada com esse tempo louco.

Olhei para o céu e apesar de nublado não achei que iria chover ao ponto de me alcançar ate a faculdade mas ela tinha razão,eu não podia vacilar.

--minha mãe levou o guarda-chuva.

--Marga esta com um lá no mercado.

--eu não vou pedir a ela.

--deixa de ser birrenta garota. É isso ou comprar um.

Continuei meu caminho e já bem próximo do comercio central no meio do morro eu ouvi a risada da Marga em meio a outras risadas de mulheres e Lina tinha razão ela estava contando pro morro inteiro o que eu fiz e as que ouviam sentadas ao redor dela naquela mesa de bar pareciam surpreendidas.

Ela me viu mas não ousei me aproximar para pedir o guarda-chuva.

--Mari!—ela me chamou e quando me virei novamente para olhar para ela vi a salva de palmas das mulheres na mesa com direito a assovios e palmas.

--mandou bem garota!!—disse uma batendo palma.

--vingou Suzana por nós nesse cabaré!!—disse outra tirando o cigarro da boca para falar.

Marga correu para me acompanhar e hoje ela estava bem animada.

--vai chover.—disse ela olhando para o céu e continuamos a caminhar.

--vou chegar antes que qualquer pingo.

--pode levar meu guarda chuva se quiser.

--esta contando para o morro inteiro sobre o que aconteceu ontem?

--tô.foi foda.

--não começa, não tão cedo.

--eu vacilei ontem e você é uma garota legal por incrível que pareça e juro, sua mãe não me pediu pra dizer isso ou coisa do tipo. Sei que esta acostumada com minha imagem mas eu tenho meus dias de calmaria também.

--como os mares antes dos furacões. Eu só não quero me meter de novo com problemas e principalmente os seus.

--eu sei, foi demais para você. E fique sabendo que todas as meninas que trabalham para mim estão agradecidas como aquelas surtadas ali (rs) seu surto de raiva animou a galera. Os portões estão sendo um trabalho tedioso mas necessário. Poderíamos tentar de novo só que desta vez com aquela policial Alice.

--você realmente não me escutou.

--não, seria diferente. Já tem um tempinho que eu quero dar um susto nela. Você viu ontem? Ela queria atirar em mim! (rs) eu queria muito ver a cara dela depois que descobriu que aquela peste matou Suzana.

--esquece ela ok.por enquanto..

--esquecer? Ela vai voltar querendo ou não porque não é de ontem que ela quer me pegar.(rs) ela sabe ser insistente quando quer e um pé no saco também. Enfim, se ela aparecer me avisa.

Marga olhava para mim e eu via a vontade explicita da maldade que a invadia. Alice era seu alvo e na primeira chance Marga ia mata-la.

--só sei que não quero mais me ver daquele jeito. Então esta por sua conta e risco.

--(rs) que cruel. Como poderei viver sem sua ajuda?—ela e sua ironia podiam se proteger sozinhas e apesar do sorrisinho no rosto parti.

Deixei o morro e peguei meu ônibus, de dentro eu ainda podia ver ela ali agarrada as grades do portão me vendo partir e me peguei pensando naquele semblante que ficava para trás tão entretida na minha ida. Seria possível que no fim de tudo isso seriamos mais do que conhecidas? Amigas?

Cheguei a faculdade e tudo estava indo muito bem ate eu chegar na sala e parada a porta Alice estava me esperando toda vestida de policial o que só fazia todo mundo me lançar olhares duvidosos.de novo!

Fui ate ela e parecia que minha indignação era seu divertimento.

--quantas vezes vai continuar vindo aqui?—perguntei nada confortável com a calmaria dela.

--depois de ontem se for preciso virei todos os dias. Que merda foi aquela?

--qual parte? Aquela que você usou Lucas para me enganar ou daquela que quase atirou na cabeça da Marga?!

--eu não ia atirar.

--então porque estava segurando uma arma Alice??se eu não estivesse lá tudo seria maravilhoso não é?

--não estou entendendo seu tom e acho bom ter cautela com o que diz. Eu não sabia que o garoto era culpado mas que o usei para tirar Marga do morro isso não nego. Ele também tinha seus motivos para aceitar. Ele morava tão perto de uma das saídas daquela fortaleza, seria idiotice não tentar. Eu ate interceptei um dos portões que ela havia encomendado. Só não achei que Marga também te usaria para levar ele ate ela sem precisar descer.se você não estivesse na frente dela..com Lucas acusando ela de assassinato eu logo vi que não demoraria para que naquele mesmo dia ela fizesse uma besteira. Do jeito que ela age, ela teria descido furiosa para pega-lo e seria perfeito para mim.

--(rs) você a considerou culpada antes mesmo de identificar as provas.

--a ficha dela colaborou.

--seu julgamento falhou. Não deveria se gabar.

--ela matando ou não Suzana Marga não deixa de ser uma criminosa e a partir do momento que você ajuda ela em um crime seu julgamento também se torna duvidoso. Eu amei a parte que Lucas da uma surra nela, mas você também não ficou de fora. Acho que qualquer juiz também julgaria errado se te visse daquela forma. Foram impulsos bem fortes para proteger alguém que conheceu recentemente ainda mais sendo a Marga. Se continuar nessa, da próxima vez pode ser que a promotoria não acredite mais em suas palavras..ou gravação.

--fiz minha parte. Ela sendo criminosa ou não eu impedi Lucas de cometer mais um crime.

--(rs) Marga já esteve presa e acredite ela poderia fazer daquele garoto um pedaço de papel e rasga-lo ao meio. Ela te usou para se limpar desse crime e isso você não condenou né?

--eu fiquei puta! Como estou ficando agora. O que você ganha com isso? Vindo ate aqui me dizendo essas coisas? Por que se importa?!

--prezo pelas vidas dos inocentes que agora estarão presas naquele morro graças aqueles portões. Você e sua mãe são duas que também me preocupo. Não quero que caia nessa vida. Seu professor diz que você tem um grande potencial de se tornar medica e continuar perto da Marga é por tudo isso no lixo. Pode deixar aquele morro e não precisar lidar com essas merdas. Ela vai te transformar, te forçar a fazer coisas que não quer, coisas que vão te mudar para sempre.

--ta atrasada com esse conselho.

--então pense em sua mãe!

--não mete minha mãe nessa Alice!

--Marga é uma assassina, uma ladra de bancos e traficante de armas. Ela não vai parar só porque sua mãe quer viver como uma mulher decente agora.

--o que quer dizer com esse agora?!o que ta insinuando??

--(rs) acha que não sei que sua mãe foi quem introduziu Marga nessa de dona do morro? Sua mãe na sua idade só não seguiu pelo mesmo caminho que Marga porque não quis, porque a ficha dela só não ficou mais suja por falta de vontade.

--(rs) quanto medo de duas pessoas inocentes. Não precisa se preocupar tanto com a gente.—tentei passar por Alice mas ela segurou meu braço  e na hora senti toda a pressão do aperto da mão dela. Agora ela estava bem perto de mim e seu olhar continha todo temor e raiva que uma mulher poderia carregar.

--acho bom parar de proteger Marga. Da próxima vez pode ser que eu não pare para pensar se atiro ou não se você se meter no meio. Isso também vale para sua mãe.

--se envolver minha mãe nos seus planos para pegar Marga ai teremos um problema.—retruquei no mesmo tom ainda mais uma ameaça a minha mãe.

--(rs) só não entre em meu caminho e siga o seu. Será melhor assim, não acha?

Notas finais:

genteeee a Alice ta com sangue nos olhos pra pegar Marga e ta sobrando ate pra Mari.

comentem ai o que acharam do capitulo. bjs amo vcs.

Capitulo 14 Mais que amigos? por millah

 

--Mari, algum problema?—virei meu olhar ao garoto ao meu lado e percebi que era Angelo acompanhado de uma menina.

--tenha um ótimo dia de aula Mari. Licença. —ela me soltou e voltou a pose de policial comportada e acenou com a cabeça para ambos na nossa frente partindo como se não estivéssemos naquela boa discussão.

Alice partiu pelo corredor com toda aquela marra de policia e eu tentei não demonstrar o quanto aquele aviso tinha me pegado de surpresa.

--o que essa mulher queria de novo Mari?—perguntou Angelo curioso.

--ela acha que estou protegendo Marga.(rs)

--minha mãe trabalha no morro da prata e conhece muito bem a dona do morro e pelo que eu sei ela não precisaria de uma garota do seu tamanho para isso.(rs)—disse a menina de cabelo preto e mechas verdes com um sorriso grande e debochado no rosto. Era da nossa idade,de semblante maroto e mesmo com as roupas rebeldes ela me parecia familiar.

--sua mãe trabalha no morro?—perguntei e ela ate se ajeitou para responder.

 --ela é a medica chefe do posto.—dissera ela e eu só conhecia uma pessoa e era a mesma que atendeu Lina quando estava doente.

--a doutora Roberta é sua mãe?

--Milena.—ela me cumprimentou e tive que rir. Que mundo pequeno. Quem diria que alguém daquele lugar cheio de privilégios tinha alguém que trabalhava no morro.--(rs) e deveria mandar essa nojenta pra puta que pariu. Daqui a pouco vai achar que você participa dos roubos com Marga.

--ela ta pegando no meu pé desde que comecei a estudar aqui. Acredita que ela ia atirar na Marga durante uma operação?

--minha mãe diz que Marga não perdoa quem atravessa o caminho dela e que a policia nem ousa entrar no morro.—Milena estava muito bem informada e pelo visto Roberta também.

--isso é verdade, mas me comparar com ela já é demais. Sei que Marga tem sua fama mas isso não significa que vou ajudar.

--não deixe que Alice abuse de sua autoridade. Ela só esta frustrada porque não tem coragem de entrar no morro.—Angelo completou mas pelo visto ela estava pouco se importando.

--se ela entrar no morro haverá uma guerra..e isso Marga não vai deixar barato.—falei e só de pensar percebi o estrago que aconteceria.

--esse papo ficou mórbido demais.—Milena simplesmente falou cortando o silencio entre nós.--Que tal a gente ir pra minha casa? Mamãe esta no morro mesmo.

--seria uma boa.—completou Angelo.

--eu..não acho uma boa ideia.—falei incomodada. Mal nos conhecíamos.

--por quê? O que você tem contra mim?—ela fez uma cara brava e não tive coragem para responde-la. Angelo riu e ela também.--(rs) relaxa.eu te deixo na porta do morro.

--sua mãe deixa você dirigir o carro dela?—perguntou Angelo surpreso.

--na verdade é o carro do meu pai só que ele ta doente e como esta internado o carro e a casa estão a minha total disposição.—Milena parecia mais feliz do que devia e também me pareceu a garota rica e problemática.

--credo, o que ele tem?—perguntou Angelo.

--ele pegou essa nova gripe. Os médicos dizem que não viram nada igual.de minutos espirrando e tossindo ele precisou ser internado e respirando a aparelhos. Mas também, ele é velho.—disse ela fazendo de tudo para não sentir o peso daquela informação.

--quando foi isso?—perguntei.

--ontem. Parece que minha mãe teve contato com algum contaminado sei la..—disse ela sem muito interesse.

--mas isso..seria..rápido demais.—falei e ela deu de ombros.

--deveria estar em pânico.—disse Angelo.

--(rs) eu não. Ele sempre foi um merda comigo. Então vamos? Depois da aula?

--eu to dentro.—Angelo já estava empolgado.

Eu queria muito pensar que minha demora não fosse algo para a dona do morro se intrometer e surtar durante o resto do dia em que eu estaria fora mas também eu não poderia deixar de viver minha vida por causa dela.

Eu tive todo tempo de aula para pensar e na saída Milena e Angelo já me esperavam.

--vambora.—falei e eles ficaram tão animados e tenho que admitir que também fiquei. Seria a primeira vez que eu fazia amigos fora do morro e ia pra casa de um deles.

--vocês vão adorar. Tenho netflix, videogame e claro uma boa verdinha.—Milena tava com um sorriso grande e me surpreendi que ela fosse filha de Roberta. A doutora é a mulher mais ajuizada que já vi ali.

--(rs) e que tal uma geladinha?eu tenho grana.—Angelo completou e isso começava me preocupar.

--eu não acho uma boa ideia.—falei a ele e Angelo fez uma cara confusa.

--o que?

--se não quiser beber ou fumar tudo bem Mari.—Angelo tentou ser compreensivo mas Milena já me olhava torto.

--espera você nunca..fumou um cigarrinho?—Milena me olhou dos pês a cabeça.

--não.—respondi prontamente.

--(rs) tudo tem sua primeira vez né?

--como sua mãe ainda não te matou eu não faço ideia Milena.—saímos do prédio e partimos para o estacionamento onde o carro volvo xc40 branco nos esperava.

--entrem logo no carro vadias.—dissera ela toda animada e Angelo soltou um sorrisinho desacreditado.

--não me chama de vadia.—retrucou ele e contive o riso. Eles pareciam ser grandes amigos mesmo com esse nível de intimidade.

Milena entrou no carro e Angelo e eu entramos logo em seguida. Dava pra ver que mesmo Roberta trabalhando no posto do morro ela ganhava bem e o marido também para ter um carro daquele nível e por isso pensei que Milena teria um pouco de cuidado no transito com ele mas ela dirigia tão rápido que fizera Angelo colocar o cinto no banco de trás.

--você ficou maluca porra. Vai devagar!—falei nervosa com ela ultrapassando os carros no transito.

--Milena eu não quero morrer antes de me formar caralho!—reclamou Angelo e Milena era só gargalhadas.

--como vocês são frouxos eu to indo ate devagar.—disse ela desviando de carros como em um jogo de corrida.—vamos passar no posto, abastecer e você Angelo pode catar umas cervejinhas.

--se chegarmos vivos..

Enquanto Milena estava adorando nos fazer tremer no carro eu tinha meus olhos no relógio. A essa hora Marga ou Lina já estavam percebendo minha demora.

Passamos no posto, Ângelo comprou um engradado de cerveja e Milena do nada já abriu uma.

--você ta dirigindo.—lembrei ela e ela continuou a beber.

--ah Mari,eu não vou bater o carro com uma latinha de cerveja.

--é imprudente. —ressaltei e ela deu um grande suspiro que ate me lembrou Marga.

--Mari tem razão.se formos pegos por ai..—Angelo tomou a lata da mão dela e pude ficar um pouco mais aliviada.

--relaxa Angelo,ate parece que você já não fez isso comigo não sei quantas vezes.(rs) somos parceiros de farra.

--desculpa Mari se ela ta conseguindo te assustar.

--(rs) me assustar? Vocês riquinhos gostam de brincar de filhinhos rebeldes.

--você nunca brincou?—perguntou Milena com um sorriso malicioso no rosto.

--não!

Chegamos rapidamente e o apê da Milena era o típico classe media alta. O lustre no alto da sala, a vista maravilhosa da cidade na varanda eram padrões. Angelo jogou a mochila sobre o sofá e se atirou nele.

--fiquem a vontade.—Milena jogou as chaves longe e a bolsa também.

--tem pizza?—perguntou Angelo sentando-se no sofá.eu ainda estava fascinada com os quadros belíssimos nas paredes e como era luxuoso aquele apartamento.

--sempre tem. Minha mãe trabalha então eu só como isso.

Angelo ligou a tv e Milena foi para a cozinha e eu fiquei la, no meio da sala sem conseguir ter a mesma audácia do Angelo.

--to parecendo folgado?—perguntou ele deitando-se novamente com um sorriso no rosto.

--um pouco.—respondi.

--(rs) eu conheço a Milena desde criança. Meu apê é bem no andar de cima e já perdi as contas de quantas vezes vim pra cá.

--já tem anos que quero me livrar dele mas ele não me larga Mari.—Milena ouviu da cozinha e alto informou.

--(rs) crescemos como irmãos e acredite cuidar dessa princesa dá trabalho.—respondeu ele piscando pra mim.

--exagero dele.

De repente na tv mais noticias sobre a gripe chamaram minha atenção.

--devido aos números crescentes, os contaminados da nova e mais estranha doença denominada react pelos especialistas da CDD seguem em busca de um tratamento adequado para amenizar os efeitos da super gripe. Médicos e cientistas trabalham juntos para duplicar a força da dosagem de uma vacina comum. Sabemos que esta nova gripe tem um alto índice de evolução então tomem cuidado ao terem contato com os contaminados. Seguimos com o tempo..—a mulher do noticiário, apesar da seriedade do assunto conseguiu por um sorriso no rosto e continuar com o assunto do tempo porem somente aquilo foi capaz de impressionar.

--ouviram isso? Essa nova gripe ta evoluindo. Lá na sala tem três ou quatro filhos da puta tossindo.—Milena retornou da cozinha e sua expressão não era muito diferente da minha.

--pode não ser a mesma coisa. Seu pai pegou e em um dia foi parar em um hospital.—Assim que Angelo falou isso minha atenção voltou a ele na hora. Aquilo era muito estranho.

--essa merda logo vai acabar, tenho certeza. E talvez dê certo que para uma super gripe tenha que ter uma super dosagem. Vamos ver os próximos capítulos.—Milena parecia confiante e isso era uma surpresa ainda mais tendo o pai doente.

--você não tem medo?—perguntei ela me olhou e pensou.

--medo de que?—aquilo era idiotice. Milena era a típica garota problemática e egoísta, infelizmente.

--minha amiga pegou essa gripe, tenho quase certeza que era essa react...ela gripou e em questão de horas estava em chamas...eu nunca tinha visto algo do tipo, ela tava muito mal..mas ela melhorou com apenas alguns antibióticos do posto que sua mãe receitou. Seu pai ta internado..talvez devesse tratar isso com mais cuidado.—falei cautelosa.

--ele não ta só internado Mari, ele ta em um dos melhores hospitais da cidade. (rs) se sua amiga piorou e melhorou da noite para o dia foi por causa da minha mãe. Meu pai também vai se curar. Sem sombra de duvidas.—eu senti que havia incomodado Milena com isso mas por incrível que parecesse ela não me passava temor pelo pai mas uma raiva nada inteligente. Talvez houvesse muito mais por trás de sua relação com ele para tanta displicência.

--vamo mudar de assunto? Que tal um jogo?

Angelo tirou do empilhado de jogos na hack embaixo da tv um já conhecido por mim graças a Lina.

Esquecemos toda historia de doença e jogamos por horas.eu consegui desbancar Angelo e mesmo entretida jogando percebi seus olhares para mim e era obvio que cada vez que eu pegava estes olhares eu tinha Milena atenta a cada movimento meu e seu sorrisinho era a prova que ela também já tinha entendido o interesse de Angelo sobre mim.

--se me dão licença eu vou la no quarto em busca da minha verdinha. Fiquem a vontade.

Não vou negar que eu entendi bem do porque aquela safada saiu bem na hora que o clima ficou tão estranho e minha cara nervosa só contribuiu para que Angelo me encarasse ainda mais.

--tem medo de mim?—perguntou ele e tive que parar de jogar.

--não, medo tenho da Marga.—respondi mesmo não me entendendo do porque respondi isso.

--(rs) então por que ta me olhando assim? Nunca ficou sozinha com um garoto?

--não..quero dizer..(rs) você é legal, é sério mas..não vai rolar.—falei e ver ele se surpreender com isso exibindo aquele sorriso me fez temer qualquer insistência. Porque eu me conhecia e amar ele nem me passava pela cabeça.

--antes mesmo de começar?—perguntou ele curioso.

--é..

--(rs) ainda bem que sou paciente e talvez você mude de ideia.

Angelo sorriu e como ele era bobo sorrindo. Milena voltou e trouxe três cigarros de maconha. Ela colocou um na boca e outro entregou para Angelo.

--quer provar Mari?—ela se atirou em uma poltrona e parecia um diabinho para me tentar. Só faltou a cauda.

--não Milena,to de boa.—respondi.

--(rs) certo,eu não quero ser uma escrota em falar isso mas pensei que a galera do morro curtia mais uma dessas do que a gente, não?—ela riu com seu próprio comentário preconceituoso e Angelo também escondeu o risinho mas não me abalei. Ouvir aquilo também era rotina.

--tem quem curte mas isso comigo não rola,e ainda tem a Marga.—respondi e Milena me encarava confusa soltando aquela fumaça da boca.

--o que? Ela virou tua mãe por acaso?(rs)—perguntou ela com um tom irônico.

--ela não gosta de drogas..e eu também não.—respondi.

--mas é um cigarro.—teimou Milena.

--feito de maconha.—retruquei.--Certeza que ela vai reclamar só por causa do cheiro em mim.

--essa fragrância maravilhosa?(rs) isso deve passar batido la no morro.

--me desculpa mas..já é quase quatro e eu tenho que voltar para casa.—me levantei e não escondi que aquele papo tava super me incomodando.

--você nem bebeu nada.(rs) senta ai mulher eu te levo no morro.—disse ela sem muita vontade de se levantar.

--não gente eu realmente preciso ir. Marga já vai me infernizar quando eu voltar.

--eu te acompanho ate lá embaixo.

Milena viu o pulo de Angelo do chão e sua tão boa vontade de me acompanhar ate a rua e seu sorriso já tinha a certeza dos mesmos pensamentos que eu. ele tava afim de mim pra valer.

Dentro do elevador foi de um silencio constrangedor. Eu simplesmente não conseguia dizer nada e ele sempre com aquele sorriso bobo no rosto me lançando olhares cautelosos e cheios de suspeitas me acompanhou ate a rua como ele havia pedido.

--a gente não vai te ferrar com sua mãe por causa desse atraso não né?

--também tenho essa esperança.(rs)

--desculpa a Milena ok..ela tem essa ideia de que no morro..

--tudo é liberado.eu entendi. Todo mundo de fora pensa assim.

--e me desculpe se eu..ri um pouco.

--humrum.                                                                                  

--eu não queria..te magoar.

Ele sorriu e me despedi dele. Claro que minha mãe deveria estar surtando e fazendo Marga surtar ainda mais depois de tantas confusões naquele morro mas tentei caminhar calmamente ate onde a vista do Angelo alcançava e claro na primeira esquina eu corri para pegar o ônibus que me levasse para o morro mais rápido possível.

Levou uns vinte minutos para chegar enfim na casa de Marga e na sala eu já via Marga deitada no sofá lendo um livro e minha mãe na poltrona ao lado roendo as unhas. Ela estava tão imersa em sua preocupação que não percebeu eu bem ali parada.

--..cheguei.—tive ate medo de falar.

Minha mãe me encarou e no mesmo instante se levantou tirando a preocupação do rosto para algo que ia comer minha alma e veio voraz com seus passos.

--onde você estava??!?—perguntou ela se controlando.

--..na casa de uma amiga.—respondi e logo percebi Marga também curiosa lançando umas olhadinhas pra mim.

--que amiga?—começou o interrogatório com minha mãe e com isso era impossível fugir.

--..a filha da Roberta.—falei e minha mãe não demorou para lembrar dela.

--a medica do posto? Ela estuda lá também?

--é uma faculdade cara. É logico que estuda.

--ainda bem que sabe, porque se eu te pegar cabulando aula..

--arrghr eu fui depois mãe!!

--não me responde assim! Você tem ideia do quanto fiquei preocupada??Depois de tudo que ta rolando você some, Marga não me diz nada e você na casa dessa menina despreocupada que a gente poderia ta surtando aqui?!

--eu sabia perfeitamente que estaria surtando. Eu deveria ter avisado mas foi algo inesperado. Eu conheci ela hoje.

--e já foi se enfiar na casa dela?!!

--com certeza isso tem um dedo do anjinho.—disse Marga piorando minha situação.

--Marga. –reclamei e ela voltou ao seu livro com um sorrisinho maligno.

--que historia é essa?—perguntou minha mãe já com cara de poucos amigos.

--o Angelo foi também mas..

--presta atenção. Você foi pra lá pra estudar e não ficar se iludindo com a vida mansa que aqueles riquinhos tem. Você hoje pode ser novidade mas depois vão ter a mesma ideia que sempre tem da gente.

--eu sei mãe.

--eu não quero saber de garoto e de garota nenhuma daquela faculdade. Você me entendeu?

--entendi. —respondi e vi Marga escondendo o rosto rindo de mim pelo esporro que levei no meio das paginas do livro.

Fui para meu quarto e eu entendia minha mãe mas tinha vezes que ela me protegia demais. Agora morando com Marga qualquer demora seria um surto e era super justificável.na minha primeira demora tentaram me estuprar.

Fui tomar um banho e na saída dele,com minha roupinha limpa dei de cara com Marga parada no meio do meu quarto. Isso tava virando mania.

--o que você quer?

Ela me entregou uma caixinha e quando analisei melhor era mais um presente.

--talvez isso ajude.—disse ela e me apressei em abrir.

--um celular??

--é,é isso que usam atualmente para ligar para a policia, para os amigos, para o samu e para a mamãe caso não queira levar um esporro por voltar tarde. Já tem meu numero o da sua mãe e o de Lina. É tudo que precisa.

Eu nem sabia o que dizer quando eu sentia que minha mãe estava certa. Milena e Angelo estavam longe de serem iguais a mim mas eram os únicos que falavam com a garota do morro e agora eu estava com medo de que todo aquele esporro se tornasse realidade. Eu não queria ser a garota que esquecia de onde vinha ou que seria o encaixe de estereótipo que eles sempre tentavam me empurrar goela abaixo.

 --minha mãe ta certa né?a maioria ta só esperando eu errar para apontar o dedo na minha cara.

--eu não. Ela sempre surtou com os riquinhos, mas acho que eles não fazem sua cabeça. Só acho.

--(rs) me sinto um ser de outro mundo com eles. Toda vida que tô longe daqui pra falar a verdade.

 --se quer saber a maioria deles só tem o dinheiro. E na maioria eles só queriam ter um pouco do que nós temos.(rs) seria demais ter você por aqui..quero dizer,sei que esta contando os dias para seguir com sua vida e da sua mãe bem longe de mim mas te ter por perto seria..uma boa também. Sabe bem do que todo mundo precisa. Nunca tem médicos no posto quando a gente tem uma bala no rabo.

--não vou tirar suas balas Marga.

--(rs) poderia.—ela sorriu e mesmo com aquele papo estranho me fez ver um lado interessante sobre mim que nem eu mesmo percebia ate ali,o morro me fazia bem mais ainda estando com quem eu gostava de estar.

De repente minha mãe só faltou derrubar a porta desesperada e estava com a camisa toda suja de sangue.

--precisa me ajudar.—o olhar dela era de puro terror e por um momento achei ate que ela cairia no piso.

Notas finais:

Mais um capitulo e que amizades ein. Angelo ta caidinho por Mari e Milena é filha de Roberta e com toda essa rebeldia podem apostar que logo esse genio dificil vai incomodar Mari.

Contudo a relação de Marga e Mari esta melhorando mas esse final foi preocupante.

digam nos comentários o que acharam do capitulo. a bela autora agradece.~<3

amo vcs e ate a proxima.

Capitulo 15 A dona do morro tem seus meios.. por millah

 

Seguimos ela ate a sala e Lina estava sendo colocada no sofá aos gritos por duas mulheres da segurança do morro.

--o que aconteceu??—Marga nos ultrapassou e chegou a Lina temendo pelo pior. Era muito sangue.

--eu acabei de ficar boa dessa porra de gripe e já levei um tiro!!—Lina respirava controladamente para impedir a dor, mas pela cara dela isso era uma tarefa quase impossível.

--é a policia. Estão tentando quebrar os portões. —disse uma das mulheres que a trouxera.

--aquela desgraçada atirou em mim!!—reclamou Lina e eu tinha que fazer alguma coisa.

Me aproximei dela e verifiquei em meio todo aquele sangue no ombro dela se a bala tinha deixado seu corpo e nas suas costas o furo confirmava.

--não atingiu nenhum órgão. Você vai ficar bem.—falei tentando acalma-la.

--ela ta lá embaixo com um caveirão tentando derrubar o portão norte.—Lina era puro ódio e Marga rapidamente se contaminou. Só podia ser Alice.

--eu vou matar essa desgraçada!!—Marga gritou furiosa.

--não Marga! Mãe!—pedi para ela a segurar mas os ânimos não estavam dos melhores.

--Marga!deve ta uma confusão do caralho lá embaixo não se atreva..—minha mãe se colocou a frente dela mas Marga estava irredutível.

--é o meu morro!!!e essa vagabunda sujando o meu sofá e atirando na minha melhor amiga??! Ela ta morta!

Marga puxou uma arma do coldre de uma das mulheres que a acompanhava e deixou a casa sendo seguida por elas.

--aquela vadia só errou porque a bala ricocheteou na grade do portão.(rs) foi uma puta sorte!—Lina ria da sua sorte mas cuidar daquele ferimento com ela inquieta só deixava tudo mais difícil.

--não é sorte foi deus! Você acabou de fica boa dessa merda de gripe! Acha que seria fácil assim para você morrer?

Do nada ouvimos uma explosão. Alice estava levando mesmo a sério seu plano de capturar Marga e me deixando desesperada.

--você fica aqui e cuida dela Mari.eu vou atrás da Marga.—minha mãe me deu um toque no ombro enquanto eu cuidava de Lina e isso tirou toda a minha concentração.

--o que sua mãe vai fazer??—Lina perguntou curiosa me deixando em pânico.

--mãe!!!?eu preciso de você aqui!!

Eu nunca tremi tanto na minha vida vendo minha mãe sair daquela casa toda decidida a fazer alguma merda.

Enfaixei Lina com meus olhos naquela merda de porta ouvindo os tiros e explosões e quando terminei e ela enfim depois de duas doses de vodca poder descansar eu sabia que teria que fazer alguma coisa.

--eu tenho que ir lá.—falei e Lina me segurou pelo braço me parando.

--não, Marga falou pra você ficar aqui porra!—disse ela seriamente.

--e deixar ela e minha mãe se foderem la embaixo??!!—me soltei dela e Lina me olhou indignada.

--que merda você pode fazer Mari???fica aqui!

Minhas pernas já não estavam mais me obedecendo e me apressei para sair da mansão com Lina gritando me pedindo para não ir mas eu fui.

Assim que cheguei à rua principal vi as pessoas subindo desesperadas e entrando em suas casas e corri contra o fluxo. Os tiros começaram a ficar mais potentes e a bagunça na entrada norte estava feita. Eu corri para tentar achar minha mãe e só via as mulheres de Marga atirando contra aquele caveirão e aos policiais que tentavam passar dali.

--MÃE!!!—gritei tentando acha-la naquela loucura mas eu não a via em lugar nenhum mas Marga estava lá na frente do portão atirando contra aquele tanque preto, gastando suas balas porque aquela merda era blindada e enorme.

Ela estava furiosa e tinha cerca de mais trinta mulheres muito bem posicionadas na rua escondidas atrás de carros e becos atirando contra eles.

De repente o portão quebrou e o tanque avançou porem Marga atirou e se colocou a frente dele e no meio de tantos tiros eu corri para impedir que aquela louca se machucasse e mesmo com seus tiros não tendo efeito algum contra o tanque ela ficou la atirando ate suas balas acabarem e acabaram.

O tanque estava perto de alguns metros dela mas consegui derrubar Marga no chão com um agarrão antes da chuva de tiros dos policiais que entravam junto do tanque. As mulheres que estavam na defesa revidavam os tiros enquanto estávamos lá, caídas na rua, protegidas apenas por um carro no caminho daquele colosso invasor.

--o que ta fazendo aqui porra?!!—reclamou ela se encolhendo comigo atrás daquele carro.

--eu vim atrás da minha mãe e te achei aqui querendo morrer! Não dá pra destruir um taque desse!!—falei enquanto ela me encarava desacreditada.

--sua mãe não ta aqui! Deveria ter ficado com ela la encima!—brigou ela.

--e você acha que ela me obedece??

--puta merda Mari!!—assoviando forte Marga chamou uma das mulheres do outro lado da rua e ela lhe arremessou mais um pente de balas.—peguem o quebra tanque e atirem naquelas merdas de tapete!!

A mulher correu para o beco e sumiu. Outras já começavam a acertar alguns policiais no portão e aquilo só não era uma bagunça maior porque Marga ainda tinha o controle da situação.

--tenho certeza que Alice esta dentro desse tanque.—disse ela calmamente recarregando sua uzi.

--ela te odeia tanto assim por quê??

--(rs) quem não me odeia?

De repente mais alguns tiros e desta vez bem mais intensos acertaram o tanque e desta vez foram certeiros de que ele não andaria mais e assim que ele avançou ele quebrou.

--(rs) ela ta fodida.—Marga estava certa de suas palavras mas o cano do tanque virou ate nós e isso foi aterrador.

--você tem cinco segundos para se entregar antes que eu dispare.—a voz no alto falante do tanque era parecida com a de Alice e Marga também tinha percebido isso.

O silencio tomou conta da rua e Marga esperou pela contagem.

--5

--essa imbecil pensa que é quem?—ela ainda estava calma mas eu já estava surtando.

--4

--eu não vou me entregar Mari.—disse Marga e era uma loucura.

--ela vai atirar com aquele troço!—falei já desesperada pra sair dali mas Marga nem se exaltou com a ordem. Ela era pura calmaria.

 --ela não vai.—respondeu ela.

--3

--ela derrubou seu portão é obvio que ela vai! Você já deixou ela puta o suficiente!

--2

--a gente tem que sair daqui!!—falei pronta pra correr.

--não! A gente vai ficar juntinha.

Marga me puxou e me tomou como refém ao se levantar.

--mas que merda Marga!!me solta!!—eu senti Marga torcendo meu braço nas minhas costas e era inacreditável.de todos os planos ela tinha que fazer isso logo comigo!!

--se estragar tudo eu atiro na merda da sua cabeça!!

Ela me fez andar ate o meio da rua e ver o cano daquele tanque nos acompanhando me fez gelar.

--quer atirar em mim Alice??Vai ter que matar ela também. Anda!!me deixa ver o quanto você ta preocupada.(rs)—Marga tinha pirado de vez e me tinha presa a ela.

Não demorou para que Alice aparecesse do alto do tanque e observasse melhor aquela cena da gente. Eu não via medo em seu olhar mas que ela estava irritada isso Alice nem escondia.

--logo hoje que te deixei avisada você cai nessa Mari.—lembrar que Alice realmente me avisou do perigo que Marga me colocaria não era a coisa mais animadora no momento.

--do que ela ta falando?—Marga perguntou baixinho no meu ouvido.

--ela foi na facul mais uma vez.—respondi no mesmo tom e ela me manteve olhando para frente com sua arma apontada pra minha cabeça.

--(rs) parece que ela ta querendo te comer também.—Marga estava adorando nos atormentar.

--se lembra do que eu te falei né Mari?nada vai me impedir de pegar Marga.—Alice parecia bem calma a respeito disso e sem nenhuma pressa.

--eu to bem aqui amor.é só vim aqui.—atiçou Marga rindo dela.

--pode ter acertado alguns policiais e quebrado a lagarta do tanque mas esta em desvantagem.eu ainda tenho vinte homens com a mira apontada para sua cabeça. Eles podem errar como podem acertar e eu não ligo contanto que esteja morta.

--meio sombrio para você mas vai mesmo atirar nessa carinha inocente? Tão linda e morrendo de medo? Sua boa reputação permitiria isso??—perguntou Marga me apertando mais nela.

Alice sequer mudou sua expressão zangada e isso me preocupou.

--seu plano não ta dando certo.—falei baixinho e Marga soltou um risinho.

--você não tem coragem Marga.—Alice a provocou e eu ia me foder com isso.

--como é?

--você não vai matar ela Marga.—disse Alice e Marga calou-se.—por isso recomendo que termine logo esse show.

--(rs) olha em volta Alice. Vocês é que estão fodidos nessa historia. Vinte caras armados não se comparam com a minha maravilhosa equipe.

--sem preparo elas só viram alvos.

De repente os policiais começaram a atirar mas não era contra a gente. Todas as mulheres que cercavam o local e estavam bem escondidas sob as casas e protegidas na rua pelos carros foram acertadas e agora agonizavam pedindo ajuda. Alice deu uma boa lembrança a Marga que aquelas mulheres podiam ser o que for mas na pratica não saberiam todas as manhas de combate.

--achou mesmo que dando uma arma nas mãos delas faria atiradoras profissionais?(rs) vamos terminar logo isso.

Os policiais começaram a adentrar além do portão e Marga começou a recuar e a me puxar e estávamos fritas se eles resolvessem esquecer um pouco da lei pelos policiais abatidos. Realmente a situação tinha fugido do controle de Marga e sentir ela soltar meu braço e abaixar a arma era ter a certeza que ela estava sem ideias.

--some daqui.—disse Marga baixinho pra mim e diferente do que pensei ela estava me deixando ir temendo o que aconteceria depois.

 E de todas as coisas que eu pudesse fazer eu fiz a mais divergente pra mim. Eu fiquei e ela me vendo ali parada na sua frente me encarou por trás e eu diria que ficaria mas o barulho de um forte disparo foi ouvido.

Nossos olhares congelaram e depois de segundos paralisadas vimos que nenhuma bala havia nos atingido mas sim a um dos policiais que caiu duro ao chão. Alice assim como os outros lançaram seus olhares surpreendidos.

--um tiro na cabeça??—perguntou um dos policiais próximos ao policial morto no chão onde a poça de sangue já se formava.

--mas como??não to vendo ninguém!—dissera outro assustado já procurando o atirador.

Os policiais moveram suas armas para o alto, para as entradas dos becos, para todo e qualquer lugar que poderia haver algum atirador e eles estavam perdidos.do nada mais tiros e de um em um os policiais foram caindo ao chão.

--de onde estão atirando??—perguntou Alice curiosa.

--dali!!—disse um deles e todos apontaram para lá sobre uma laje.

--não, é ali!!—dissera outro mirando e assim como eles todos apontaram para o segundo andar de uma casa.

--onde esta droga!?!—Alice estava se irritando.--mande parar Marga!!mande!!!—Marga estava com uma cara tão confusa quanto a minha mas exibiu o sorriso mais satisfeito que já vi ate agora.

--(rs) foi mal Alice nem eu mesma sei quem é essa boa alma.—respondera ela daquele jeitinho doce debochado e feito para irritar que só ela fazia.

Alice vendo todo aquele massacre pulou do tanque e pegou uma das armas caídas de um dos policiais mortos. Marga por outro lado me pegou pela mão e fugimos pelos becos o mais rápido que podíamos enquanto que Alice disparava uma rajada de tiros e por incrível que parecesse eu podia ouvir Alice gritar de raiva. Corremos como nunca subindo as escadarias e pegando todos os atalhos possíveis para ficar em segurança.

--que merda foi aquela??—perguntei sem parar de correr.

--ela se fodeu e vai socar essas mortes no meu rabo também. E da próxima vez que eu pedir pra você correr, você corre!

--eu não ia deixar você lá sozinha!

--então você é burra!

Marga no meio do caminho já comunicava as outras mulheres que desciam para cuidarem do portão leste e apesar do inusitado ter acontecido parecia que era mais um dia normal no seu mundinho fora da lei. Ainda existia um pouco de calma nela que em mim já não existia.eu sentei no degrau enquanto ela tomava mais informações e tentei me acalmar para não precisar utilizar a bombinha no meu bolso.eu tinha que respirar com calma.

--já levaram todas as mulheres feridas?—perguntou Marga a uma das mulheres que descia.

--sim Marga, estão todas no posto.

--ótimo, fechem o portão e se aquela idiota ainda estiver por lá matem ela. A proposito, quem me ajudou??

--(rs) você nem imagina.—respondeu a mulher a ela e Marga me lançou um olhar curioso.

Ela tomou a frente subindo correndo o morro e no momento foi um alivio para mim. Toda aquela confusão me deixou com minhas pernas tremulas e quando eu voltasse ainda teria Lina para cuidar e minha mãe para achar.

--se eu fosse você também ia lá encima.(rs)—disse a mulher que era apenas sorrisos e isso me intrigou.

--por que?

Uma galera correu subindo as escadas e pela animação o grande salvador do dia já tinha sua fama e quando subi me deparei com uma multidão na rua principal cercando Marga e mais alguém e apesar de tantas mortes lá embaixo tínhamos aplausos. Ninguém ligava para os vários policiais mortos no combate e com isso adentrei naquela bagunça e gelei com que vi.

Minha mãe segurava uma svd, um puta rifle de combate e depois de ter abatido todos aqueles homens e nos salvado ela estava ali envergonhada e com um sorriso bobo no rosto por Marga pedir aplausos para ela. Marga estava orgulhosa e com olhos brilhando pra ela e eu nem reconhecia minha mãe. A habilidade em acertar aqueles homens foi tão impressionante que me fez questionar ate que ponto minha mãe tinha se envolvido com o crime.

--isso merece uma comemoração!!Amanha teremos uma festa em homenagem a ela!!a salvadora do meu rabo!!—Marga gritou aplaudindo deixando minha mãe vermelha.

--não tem graça nenhuma. —disse ela a Marga e pela cara séria não tinha gostado nada assim como eu.

--vai ser só uma festa.—Marga a abraçou e minha mãe parecia aliviada.

--mãe?—me aproximei e ela virou sua atenção pra mim e derrubou aquela arma no chão e me abraçou.

As mulheres do comando já faziam todos dispersar e minha mãe já tinha voltado para suas preocupações comigo.

--eu fiquei desesperada te vendo lá.—ela não queria me soltar do abraço e eu não queria sair dele.

--eu fui atrás de você so que não te achei.

--(rs) eu deveria saber.—ela beijou minha cabeça e me soltou e virou-se a Marga.--E você teve a cara de pau de pegar minha filha como refém.

--eu sabia que ela não ia atirar.—disse Marga vindo a nós.

--ah sabia?

--(rs).—Marga ainda estava besta pelo feito da minha mãe e não tirava o sorriso da cara porem minha mãe entregou a ela a arma e me fez caminhar de volta para casa junto a ela.—fala sério, não fica com raiva de mim por causa disso. Até Mari se divertiu.

--eu mesma não.—retruquei na hora.

--eu tive que matar todos aqueles policiais para salvar o seu rabo por causa da minha filha.—minha mãe socou o braço de Marga mas a dona do morro não tinha nada a reclamar mas mostrava o sorriso satisfeito a ela.

--a proposito, onde estava?—perguntou ela curiosa.

--bem aqui nesta rua de cima, tendo toda a visão do portão leste.

--eu pagaria para ver isso. Sua mãe sempre teve uma boa mira e sempre vai me fazer falta aqui.—disse ela pra mim e quase pensei que ela tinha me esquecido do seu lado.

--(rs) desiste Marga.—falei mas Marga nem piscava pra minha mãe.

--depois dessa não mesmo.

Notas finais:

devo dizer que eu adoro a Helena e sua especialidade de arriscar tudo por Mari. tenho na cabeça que ela resgataria Marga mas vendo Mari em risco ela se propos a esquecer sua nova versão para dar uma chance das duas escapar com vida e é um lado da Helena que nem Mari conhece e isso fica bem nitido neste capitulo.ela matou geral por elas.Marga por outro lado adorou rever a Helena dos velhos tempos agindo.

digam ai nos comentários o que acharam do capitulo. Lina só se ferra ou to equivocada?essa festa em comemoração vai dar b.o ou não vai?

Capitulo 16 Uma festa de incertezas por millah

 

Voltamos para a casa da Marga e Lina já estava de pé bebendo um gole de whisky e não escondeu seu nervosismo quando nos viu entrar.

--e então?—perguntou ela ansiosa.

--esta tudo bem. Alice se fodeu.—respondeu Marga para alegria de Lina.

Lina queria comemorar mas nem o braço ela conseguia levantar.

--(rs) a sua definição de bem sempre me impressionou Marga..—sentei no sofá cansada e Marga soltou um riso olhando pra mim.

--mas que merda. Eu to feliz pelo que aconteceu. Não posso??

--você sequer se importa né?tem varias mulheres feridas agora no posto e sua amiga ta aqui ferrando mais ainda o ombro bebendo.

--só foi um gole.—disse Lina baixinho já deixando o copo sobre a bancada.

--elas estão vivas Mari é o que importa.

--é, vivas e com uma bala de presente presa no corpo.

--sem mim estariam todas mortas. É isso que eu acho.—disse minha mãe acabando com nossa discussão.-- Da próxima vez organiza essa merda melhor Marga.

--não chama minha galera de incapacitada. Aquela maluca entra aqui com um tanque e você quer que elas segurem aquela merda sem matar a desgraçada??

--eu matei vários por você hoje sua filha da mãe.se ela descobrir que fui eu, pode ter certeza que mato você.—minha mãe estava tão séria mas Marga sorria empolgada.

--(rs) você tinha que ter visto Lina. Ela acertou na cabeça de todos os miseráveis. (rs) e ainda bem que eu tinha Mari por lá né dona Helena. O que seria de mim sem vocês.—Marga falava tão animada que parecia orgulhosa.

--vai se foder Marga.—minha mãe tentou mas Marga quando queria era insuportável.

--eu tô mais apaixonada agora por você querida.(rs)—Marga tava zoando demais mas era nítido também que aquelas palavras ditas em tom de brincadeira pra mim soavam tão reais. Nem Marga notava o sorriso que ela sequer tirava do rosto. Tentei não me incomodar.

--se eu fosse você aproveitava Helena.—Lina riu.

--(rs) ela vai acabar te matando hoje mesmo Marga.—falei e minha mãe ate saiu de perto para não explodir.

--eu deixo. E você Mari? Também ta irritadinha?—perguntou Marga pra mim ao se sentar do meu lado.

--com você? Sempre. Foi loucura dar confiança a Alice. Ela mesmo me disse hoje que nos mataria se nos visse em uma merda juntas de novo.—vi bem que minhas palavras conseguiram tirar o sorriso de Marga do rosto.

--ela te ameaçou?—Marga perguntou mas eu não queria responder isso.

--Lina, precisa passar no posto. Posso ter dado um jeito nisso mas é preciso.—falei e Lina nada disse vendo Marga esperando minha resposta.

--ela te ameaçou???!—repetiu Marga com um tom mais sério me puxando pela camisa e ganhando toda minha atenção.

--o que importa? Agora ela já deve nos odiar por igual.—respondi.

--deveria ter acabado com ela quando teve chance Marga.—disse Lina.

--eu fui uma idiota sendo misericordiosa com ela.—reclamou Marga.

--o que fez para ela? para Alice ter tanto ódio de você?—minha mãe queria saber, mas sabia que isso só se tornaria mais um motivo para ela se preocupar então adiantou seus passos ate as escadarias.

--eu matei o marido dela.—respondeu Marga e minha mãe hesitou subir.--Ele ia me matar e ela ia fechar os olhos para a merda que ele ia fazer.(rs) nem parece que ele me quebrou inteira na frente dela...eu só fui mais rápida do que ele.—assim que ela terminou minha mãe subiu as escadas.

Eu ainda não tinha me acostumado com o fato de que para Marga tudo parecia tão natural. Ela matou o marido de Alice e estava tudo bem ver a policial puta com ela. Ela sequer ligava para a merda onde me envolveu porque estava achando foda demais o resgate da minha mãe. Hoje foi muita sorte ela não ter atirado em nós porque eu vi o quanto Alice estava se controlando para não esquecer que eu estava ali, bem na frente da Marga e era a única coisa que a impedia de mata-la.

--ela pode brincar a vontade de ser policial mas nunca vai me pegar. Amanhã, vou dar uma festa e ta todo mundo convidado.(rs)—ela se ergueu do sofá e já estava cheia de ideias.

--eu já to dentro!!—Lina logo se animou.

--você vai para o posto.—falei e ela logo fechou o sorrisão.

--e depois festinha né?—insistiu ela.

--(rs) se a Mari ta falando você vai para o posto.—pela primeira vez Marga concordou comigo.

--ah qual é?eu mal to sentindo meu ombro! Isso é coisa boa né?ta melhorando.

--não, você precisa ir ao posto.—respondi.

--vou precisar te levar cacete!?—perguntou Marga a ela.

--não Marga, eu vou viva pra lá.

Lina deixou a casa e como minha mãe estava lá encima pensei em subir e fazer companhia para ela.

--Mari..eu queria dizer..—fui pega de surpresa pela voz de Marga que lentamente se apresentou e me chamou a atenção.

--desculpas?—falei mas Marga me olhou confusa.

--...pelo o que?

--você me pegou de refém e me chamou de burra.—eu não tinha esquecido disso.

--ah para! Eu não fiz por mal.

--(rs) você é inacreditável!—me ergui e era impossível bater boca com ela.

--ta,a parte do burra eu exagerei.—ela se ergueu do sofá e finalmente ela assumiu algo.

--não, você disse isso porque era bem capaz de que se fosse o contrario você me largaria.

--pff que papo é esse? Eu seria tão má ao ponto de fazer isso?deixar você sozinha com ela?—ela veio ate mim e mesmo com aquela cara debochada dela com um fino sorriso no rosto ela tinha em sua expressão corporal a forma certa para me fazer recuar. Ela era um pouco mais alta do que eu então já me via de cima para baixo impondo toda sua marra e beleza como se estivesse pronta para brigar com qualquer miserável tolo suficiente para bater de frente com ela e ultimamente nem eu sabia como ela ainda me aguentava mas ela estava ali, me olhando tão profundo em seu silencio, depositando sua mão as minhas mechas teimosas e não foi difícil me sentir intimidada por aquela leoa quando ela começou a descer e foi tocando meu rosto ao queixo ate chegar ao meu pescoço. Um simples toque onde suas curtas unhas roçaram na minha pele e o calor da sua mão se misturou ao meu. Meu corpo todo arrepiou com aquele toque que no mesmo instante tive que recuar para escapar dele.um aperto dela era a ultima coisa que eu queria.

--convença sua mãe a ir à festa amanha.—pediu ela baixinho.—ela vai se achar a pior pessoa do mundo depois do que fez e não é isso que quero para ela.

Acenei concordando e segui para o quarto da minha mãe e antes que eu entrasse tentei tirar de mim toda aquela ansiedade que Marga me preenchia.

Respirei fundo e entrei no quarto já encontrando minha mãe sentada na cama olhando para o nada.

--desse jeito vou acreditar que não valeu a pena.—falei me aproximando.

--basta uma pessoa de fora saber que fui eu que matei aqueles policiais pra me ferrar.ferrar tudo que construí.—minha mãe estava controlando-se ao máximo mas  todo aquele medo estava consumindo ela.

--ninguém vai saber.

--(rs) você não viu? Tinha helicópteros de um canal de tv sobrevoando.

--mãe, você fez o que fez porque sabia o que ia nos acontecer. Eu fiquei assustada te vendo com aquela arma na mão e tão poderosa ao mesmo tempo. Nenhum dos policiais lá embaixo encontraram sua posição então fica calma.

--eu jamais deixaria você se machucar. Eu sabia que Marga te protegeria mesmo depois de te colocar naquela merda mas é maior do que eu esse sentimento. Eu sei que fiz certo mesmo me sentindo culpada pelas mortes. São pais que não voltarão a ver seus filhos, são mulheres que não verão mais seus maridos e famílias destruídas por mim.

--e eu fico orgulhosa que pense assim..por esses caras. Acho que ate me assustei que esteja disposta a tanto por mim.

--sempre! Mas Marga vê nisso uma oportunidade de que eu volte a ser quem ela mais ama.

--ela te quer na festa amanha.

--(rs) é logico que quer. Vamos ver..

No outro dia sábado chegou e Marga tava empolgadíssima e Lina parecia que tinha ido para um enterro.

--hoje vai rolar umas biritas na praça latina e a musica torando no nosso rabo.—Marga estava bastante animada já Lina parecia que tinha acordado de ponta cabeça.

--hoje só vou ficar bêbada com essa merda de remédio.—disse ela nada satisfeita com o rumo das coisas. Era para o bem dela, o que eu podia fazer.

--bom dia pessoal.—me aproximei e Marga virou rapidamente sua atenção a mim.

--então?—perguntou ela curiosa.

--eu não sei.—respondi e ela logo fechou a cara.

--não sabe?eu falei pra você convencer ela.—reclamou ela e suspirei para melhorar minha paciência.

--ela matou mais de dez pessoas ontem..

--e eu to super orgulhosa. Aqueles filhos da puta iam nos matar!

--Marga, será que eu não posso ir ao baile só um pouquinho?—Lina invadiu nossa discussão e claro ela só pensava em festa.

--não Lina.—Marga a respondeu e ela tinha que aceitar a contragosto.--Eu quero esse ombro novo pra ontem. Você vai ficar quietinha aqui.

--e quanto ao portão?—perguntou ela e era impressionante como Lina realmente era como um braço bastante funcional para Marga.

--as meninas estão cuidando. Hoje seu trabalho é ficar quietinha.

--nem uma bucetinha?—Lina estava implorando.

--nenhuma.

--nem são nove da manha e você já ta no pique da festa a noite??—falei suspeitando de tanta empolgação de ambas.

--eu tenho uma surpresinha para a sua mãe.(rs)—disse Marga toda misteriosa.

E por mais que fosse apenas uma festa de comemoração que somente Marga e Lina naquela casa estavam interessadas a noite chegou depressa e minha mãe que não queria ir também estava necessitada da minha companhia.

--eu só vou se você for.—disse minha mãe ainda deitada no quarto.

--eu queria ficar com Lina.—falei mas ela se alertou e pelo visto ficar em casa não era o que ela queria.

--por favor Mari.eu sei que ela vai me idolatrar nessa festa..mas com você parece que ela se..controla mais.

--(rs) sabe que isso não é verdade.

--gosto de pensar assim.se for comigo teremos menos chances de nos estressarmos com ela.

--então simplesmente não precisamos ir.

--não quero fazer essa desfeita para ela.vi Marga correr para preparar isso e..você sabe Mari.

--isso é pressão psicológica.

De repente Marga entrou no quarto e deu pra ver que a dona do morro tinha caprichado no visual e apesar do jeito bem rebelde gótico de ser Marga me fez examinar ela do coturno nos pés, a calça jeans colada, e com uma corrente pendurada além do cinto, a camisa e jaqueta que bem combinavam com seu jeito marrento de ser e a transformava no que ela era, a bela dona do morro.

--prontas?—minha mãe olhou pra mim e tive que suspirar.eu ia ter que ir.

--vai ter que esperar mais um pouquinho Marga.—minha mãe botou Marga para fora do quarto e correu para se arrumar.

Minha mãe amarrou o cabelo em um meio rabo de cavalo e desta vez havia trocado seus maravilhosos vestidos para algo mais informal. O jeans claro e o tomara que caia vermelho revelava seus ombros e sua mais pura beleza e pelo sorriso de Marga assim que abri a porta para sair que aqueles olhos fixados sobre ela estavam cheios de expectativas para a noite de hoje. Preferi deixar o quarto em silencio e seguir ate a sala onde Lina já devorava um balde de pipoca.

--alguma coisa interessante?—perguntei sentando-se ao seu lado no sofá.

--vou maratonar uma série essa noite e você bem que poderia ficar aqui comigo doutora.

--(rs) eu bem que queria mas minha mãe quer que eu vá. Acho que ela sabe o que a aguarda.

--do jeito que a Marga ta hoje pode esperar pra voltar sozinha. Ela ta vestida pra matar e sua mãe (rs) ta ferrada.

--elas não tem nada.

--(rs) você acredita ainda nisso??da pra ver que Marga ta implorando pra dormir com ela. O que sua mãe fez matou ela de tesão. Marga adora uma mulher de atitudes ainda mais aquelas que se igualam ao mesmo nível de loucura dela.

Eu não queria me preocupar mas as duas ainda estavam la encima e com isso acho que ir a essa festa agora era tudo que eu mais queria. Só pra ficar de olho nelas. Na verdade já tinha um tempo que eu vinha percebendo meus próprios comportamentos.

Por que meus sentimentos ficavam tão conturbados quando se tratava delas? Seria realmente ciúmes da minha mãe?? Uma proteção contra Marga? Ou eu estava mesmo entrando nessa merda por Marga? Todo esse sentimento de um abismo que me pegava e me jogava dentro dele e me dava vontade de chorar com medo de que tudo seria por causa dela?

Respirei fundo e fiquei mais aliviada por ver as duas descendo. Talvez eu só estava pirando a toa.

--espero que se comporte aqui em casa Lina.—lembrou Marga chegando na sala.

--ta mamãe.—respondeu ela e tive que sair de perto para Marga não me ver rir.

--e nada de esforço.

--o único esforço que vou ter é segurar o controle da tv e o balde de pipoca. Podem ir.—mudando o canal Lina caiu em um de noticiais e foi surpresa ver o morro da prata do alto de um helicóptero.

--é a gente!!!—dissera ela e acho que paralisamos.

--(rs) você perdeu a festa Lina.—Marga se assistiu como se aquilo fosse uma grande aventura.

--a gente ta famosa.—falei perplexa porque eles tinham filmagens de toda a ação no portão e me ver sendo refém da Marga foi esquisito porque na hora foi um terror.

--(rs) agora você também ta famosa né Mari.—Marga bateu uma palminha nas minhas costas mas eu ainda estava desacreditada naquilo.

--não vejo graça nenhuma nisso.—minha mãe ate sentou para ver melhor.

--dez foram as mortes informadas pela policia do distrito dezoito na tentativa de invasão ao morro da prata. A operação comandada pela agente Alice Ferraz não foi bem sucedida quando sua equipe entrou em confronto com as células da gangue de Marga, intitulada a dona da região por moradores. Nas imagens podemos avistar ela portando mais uma refém identificada como Maria Cruz, moradora do morro da prata. Ninguém sabe ao certo se ela ainda continua refém mas o departamento permitiu que Alice desse seu depoimento.—a repórter com sua seriedade deixando entender que eu ainda era uma refém de Marga só  me encheu de raiva. Como eu ia para a facul depois disso??!

--olha a vagabunda puta!!(rs)—Marga só faltou gritar com a tv vendo Alice se preparando para a entrevista.

--toda invasão nos causa perdas e mesmo sabendo da dificuldade e do perigo insistimos em proteger a população do que o morro da prata pode se tornar. Marga por hoje ganhou e ambas tivemos nossas perdas e feridos...por esses que perdi e ate mesmo aos que ferimos do lado de lá eu presto minhas condolências.

--ela ta puta.(rs)—riu Lina do jeito controlado de Alice em frente as câmeras.

--obrigada Marga, agora fiquei famosa por ser sua refém. Todo mundo vai querer saber dessa historia de refém naquela merda de faculdade!—reclamei.

--vai ser ótimo para o seu currículo.—Marga me respondeu e eu queria mata-la.

--pelo menos não falaram nada de mim.—minha mãe estava aliviada e era nítido sua mudança.

--e como poderiam? Você foi incrível e graças a você a gente ta aqui. Lindas e plenas. Então não se sinta culpada por eles. Alice se esqueceu que quem entra aqui sem minha permissão so tem a perder. Vamos..

Marga estava animada e levou minha mãe do seu lado e me impressionei que a simples comemoraçãozinha dela se tornou uma grande festa no pátio latino e não era difícil se perder no meio daquela multidão e musica alta mas Marga pegou a mão da minha mãe e a levou para o meio da festa onde todos arranjaram espaço e silencio para ouvir ela falar. Ela tinha tanto poder que nem precisava pedir.

 E não foi diferente do que pensei. Glórias e brindes a minha mãe. Todo mundo estava louco para encher a cara em nome dela, tirar proveito do melhor daquela festa mas dali do meu cantinho eu preferi observar as duas. Marga estava tentando de um tudo para que minha mãe esquecesse a parte ruim do nosso resgate e ela estava conseguindo. Lentamente. E foi assim que Marga e minha mãe grudaram na festa. Eu via Marga conversando com minha mãe e parecia que o mundo nem existia mais para elas. Parecia que nem eu existia já que mesmo com todo aquele falatório da Marga que dali de tão longe eu não podia ouvir, minha mãe não tirava seus olhos e ouvidos dela. Marga era com um imã que aos pouquinhos foi arrancando um sorriso dela, uma risada envergonhada, um drinque e depois de tanta insistência uma dança. A festa estava no seu auge e eu tinha que dizer que eu preferia mil vezes minha mãe feliz do que com o remorso das mortes pesando em suas costas e poderia ser bem escroto de pensar assim mas era o que eu mais queria.

Resolvi buscar uma coca no meio de tantas disponíveis no bar enquanto elas se divertiam e estava sendo ótimo ficar pela festa largada as traças.

--desculpa. —a voz vinda por trás do meu ouvido me fez virar subitamente quase derrubando tudo em mim.

Tive que me acalmar do susto com uma boa e profunda respirada tranquilizadora ao ver que era Marga bem sorridente.

--o que?—perguntei quase não identificando o que ela falou com a musica alta.

--me desculpa..mais cedo te chamei de burra.(rs) eu acho que...exagerei.carinha,pode me arranjar duas doses de gin?obrigada.—dissera ela bem animada ao cara do bar.

--que bom que acha. Contanto que minha mãe esqueça daquelas mortes eu aceito de tudo hoje.

--a festa não é só dela ok.se divirta também.

--não precisa se preocupar comigo aqui quietinha.eu to bem.

 --ela fez tudo aquilo não foi por mim. Eu só vim no pacote.

--por hoje, talvez só hoje..a gente seja a melhor dupla para ela esquecer tudo que fez por nós.—a gente brindou e Marga não esperou para voltar ate minha mãe e levar seu drinque.

Realmente aquela festa era o que o que minha mãe precisava.

Notas finais:

Cada dia mais adorando ver vcs gostando da historia.fico muito feliz!!

e sobre o capitulo de hoje temos a Helena bem preocupada. o medo de ser descoberta tirou o animo da festa porem Mari e Marga rapidamente mostraram a ela que nem tudo seria tão facil assim.

e falando nelas Mari e Marga estão dispostas a evitar confrontos nesta noite pela alegria de Helena e eu sei que vcs querem ver ate onde isso vai durar.

comentem ai o que vocês acharam do capitulo. essa paz vai durar? Marga vai tentar investir novamente em Helena?Mari vai permitir isso?? Lina vai ficar sossegada vendo séries??confiram no proximo capitulo. amo vcs!!

Capitulo 17 no fim a festa sempre acaba por millah

 

--Mari. Mari!—alguém me chamou na multidão e em uma mesa alguns metros a minha esquerda eu vi Rita e o Russo. Fui ate eles e vi que o casal também estava aproveitando a festa.

Russo comia e bebia satisfeito alguns pratinhos e Rita já me esperava cheia de perguntas com suas fabulosas pernas cruzadas e seus maravilhosos e lindos vestidos.

--adorei ver você na tv.—disse ela e tive que bufar.a fama que Marga estava me arranjando só servia para ouvir sermões.

--não começa.—falei e aproveitei para me sentar na cadeira vaga da mesa dela.

--Marga não perdeu a oportunidade de envolver você e sua mãe nessa merda mais uma vez né.se tivesse levado um tiro? Ou morrido??Ela ia estar dando essa mesma festa sem se importar.

--tenho minha parcela de culpa. Desci preocupada com minha mãe e Marga estava lá no meio do tiroteio.eu tive que fazer alguma coisa.

--você sempre com essa frase. Marga não precisava de você movendo um dedo para se safar e pode ter certeza que eu gostava mais de você quando não defendia ela.—Rita fechou a cara e não entendi esse ódio todo.

--eu não to defendendo Marga.—falei mas ganhei o olhar dela e o de Russo. O que eles viam de estranho em mim??

--ta passando um pano legal pra ela.—disse Russo depois da mordida grande no hambúrguer.

--(rs) esta mais próxima dela não significa que precisa dela. Vocês nunca precisaram e estavam melhores.—Rita não escondia o que pensava e era obvio que me senti representada por ela dizendo aquilo. Pois era a imagem perfeita que eu tinha da Marga ou pelo menos a mais parecida.--Sua mãe fez de tudo para se manter afastada de toda essa vibe de Robin Hood que Marga tem aqui no morro para não se esquecer de que o voar é bom mas que o chão também é bem duro quando se cai. Agora olha pra ela..Helena ta se iludindo de novo com a Marga e ela mais uma vez vai plantar suas raízes, suas vontades e teremos mais uma dona do morro.—olhei para elas conversando e como Marga movia sua boca ao ouvido da minha mãe. O meu coração disparou com aquela possibilidade. Minha mãe sempre foi uma pessoa boa e justa desde que me entendo por gente e essa indignação de Rita me preocupou. Certeza ela conhecia seu lado mais obscuro para se prestar a ver tanta maldade.

Minha mãe parecia bem interessada ao que ela falava. Até percebi minha mãe verificando se eu estava por perto mas com tanta gente no meio e eu sentada ali naquela mesa com Rita e o Russo sei que passei despercebida.

--é uma ideia que não te agrada né?—perguntou Russo parando de comer ao me ver verificando elas dali.

--claro que não.—respondi prontamente e Rita riu.

--(rs) não pelo mesmo motivo.—disse ela me encarando com um sorriso no rosto.

--do que ta falando??—perguntei me irritando pelo modo como ela conseguia me ler.

--que ela não é a única iludida. Ta se apegando a Marga..—disse ela tão surpresa quanto eu ao ouvir aquilo. Não podia ta tão nítido.

--(rs) engraçado você querer me julgar. Porque se estivemos bem antes eu não lembro de nenhum de vocês nos ajudando quando não estávamos. Marga pelo menos nos estendeu a mão.

--não precisa ficar com raiva garota.—Russo tentou me acalmar mas eu já estava impaciente com aquele papo.

--não Russo. Marga pode ser quem for mas ela não me julga como vocês. Como todo o morro!

--por que julgar é muito fácil né? Difícil é saber do que ta falando e ter provas disso.Marga com toda certeza conhece bem vocês.—era obvio que Rita não gostava nadinha da Marga mas hoje ela tava insuportável.

--Minha mãe não vai voltar para essa vida de crime.

--aham.continue passando pano pra ela.

Me ergui da cadeira e me afastei daquele barulho da praça e preferi subir as escadarias de um dos becos onde dali eu podia ver tudo de um pouco e ninguém ia me incomodar. E que merda.nem mesmo eu acreditava que todo aquela minha cisma com Marga estava desaparecendo e vendo ela ali conversando com minha mãe arrancando dela sorrisos só me deixava mais mal com meus sentimentos. Elas eram boas amigas e se davam super bem.O que era que eu tinha??Por que eu não conseguia sentir mais aquela raiva da Marga?

De repente Marga parecia ter dito algo mais sério a ela, algo tentador que de tão interessante minha mãe teve as mãos tomadas por ela e ficou ali cheia de expectativas com o olhar domado pelo sorriso dela e não era a toa. Marga a beijou e nada ia mudar o fato que minha mãe muito bem retribuiu.

Eu não ia ficar ali vendo elas. Eu não queria sentir toda aquela merda borbulhando dentro de mim,me fazendo surtar pensando do porque me preocupar tanto com o que faziam.se beijavam, se transavam. Eu estava talvez irritada, furiosa e confusa subindo correndo aquelas escadas para bem longe daquela festa, daquela lembrança. Eu só queria matar Marga.

Voltei para casa e Lina ainda estava assistindo series na sala e estava bem entretida ali no escurinho da sala sob as luzes da tv quando me viu entrar.

--ainda tem vaga para mais uma?—perguntei e ela me lançou o olhar a brilhar.

--(rs) claro que tem! Chega ai.—animada por me ver Lina conseguiu arrancar um sorriso meu.

Sentei do seu lado no sofá e retirei meu tênis para cruzar minhas pernas e me aconchegar melhor ali do seu lado. O cobertor e o balde de pipoca estavam a minha disposição mas minha cabeça ainda tava na festa, naquele beijo. Estava fácil de me sentir fora de mim e tão distante. Eu tava fodida.

--to começando uma série nova. É bem legal. Tem uns espíritos na mansão e..você ta bem? –Lina logo notou meu silencio e acho que ate minha cara colaborou.

--...to.—respondi sem nem ao menos saber o quê.

--não ta não. O que aconteceu na festa?

--nada.

--aconteceu sim (rs) elas finalmente se pegaram??(rs)deve ter sido bem traumatizante para você sair de lá correndo.(rs)

--foi só um beijo! Um..beijo!!e eu tô afim de matar a Marga! Sabe, agarrar ela pelo pescoço e socar!!

--como fez com Lucas?

--aarrggr!!!ela tinha dito pra mim que não ia rolar e minha mãe também e lá estavam elas se beijando!!—eu estava indignada falando aquilo e estava deixando isso claro pra Lina mesmo não querendo.

--e quem começou??

--ora quem??a dona do morro!

Lina gargalhou alto e eu deveria estar muito engraçada morrendo de ciúmes.

--sua mãe deve ter arrasado com os tiros pra Marga cadelizar por ela.—ela tava se acabando de rir mas eu não achei graça nenhuma.

Lina parou de rir e me entregou o balde de pipoca.

--esquece garota. Toca uma siririca e encerra essa assunto.

--eu não vou fazer isso.

--por que não? Não se nega uma siririca garota. acredite, é melhor do que ficar louca pela dona do morro.

--eu não to gostando da Marga! Eu não tô!!eu tô..com raiva dela!!Ódio!!elas...—eu não conseguia entender porque me incomodava tanto e doía tanto.eu não entendia.

--Olha, essas coisas são confusas no começo e você vai tentar a todo custo impedir de ter esses sentimentos tentando encaixar eles em outros para se justificar mas da pra ver que isso ta te incomodando. Ainda mais quando você gosta da mesma pessoa que sua mãe gosta.—Lina falando isso ate me fez pensar. Seria essa minha confusão?

--como posso gostar? Eu nunca pensei em nenhuma garota, eu nunca pensei em nada disso e agora eu quero matar ela. Eu vou matar a Marga!

--não vai.

--vou sim, se ela entrar aqui eu vou voar nela.to avisando. O que eu to sentindo é puro ódio dela!

--podemos comprovar?—olhei para ela e sua pergunta e percebi o quão perto estávamos.—se tem uma coisa que nós lésbicas somos capazes de fazer é compartilhar a fantástica aventura que é a..descoberta.

Sua mão veio ao meu queixo e eu deveria ter adivinhado quando vi seus olhos focados na minha boca, que dali ela me beijaria, mas diferente das outras vezes que eu fugi dessa parte minha que queria saber, que queria enfim comprovar, mesmo sendo pela boca de outra pessoa ali estava eu prestes a ser beijada por Lina.

E foi cuidadoso no começo. Lina tinha os lábios macios e o gosto salgado da pipoca com manteiga me fez querer um pouco mais, algo a mais que um simples encostar de bocas e foi aos poucos que eu fui abrindo, dando espaço para que ela me invadisse com sua língua. Tendo toda a liberdade de me puxar para mais perto para me fazer acreditar que eu gostava e realmente era muito fácil se iludir com aquele teste. Fazer minha mente voar. A vontade em abrir mais a boca, meu corpo todo relaxado e entregue. o que era isso??? Eu queria mais.

--to atrapalhando?—a voz fria da minha mãe veio como um facão cortando toda e qualquer vontade que eu poderia pensar em ter e devo admitir que Lina e eu nos levantamos em uma velocidade sem igual.

Nossas caras de culpadas nem se escondiam e minha mãe estava lá nos encarando obviamente surpresa pelo que encontrou, mas nitidamente tinha desaprovado tudo que viu já que sua cara permanecia naquele ar pensativo indo de mim a Lina.

Logo Marga entrou e estranhou todo o silencio.

--ta vendo? Ela tava aqui o tempo todo.—disse ela se aproximando do silencio constrangedor que fazíamos.

--eu só queria ter certeza.—minha mãe respondeu e com certeza estavam a minha procura.

--podemos voltar? Estava ficando maravilhosa a festa sem ninguém estragar.

Aquela cara de pau me olhou lançando uma indireta e foi inevitável. Eu me vi avançando em sua direção correndo escapando da mão de Lina e derrubando Marga no chão depois de um agarrão tudo que eu queria era matar aquela desgraçada para por fim aquele sentimento.

Contudo só pensei em fazer isso.

E pegando minha bombinha deixei pra lá essa ideia.

--então??—perguntou Marga mais uma vez e minha mãe ainda continuava com aquela cara séria sobre mim.

--acho que por hoje já valeu Marga.—para minha surpresa e a de Lina minha mãe falou.

--sério? Tem bebida de graça, comida e a festa só ta começando..—insistiu Marga mas minha mãe nem se mexeu.

--se quiser voltar pode ir.—retrucou ela com um sorriso no rosto.

--chata.—Marga olhou para cada uma naquela sala estranhamente e como se duvidasse de nós permaneceu em silencio.

Marga saiu e minha mãe ainda ficou ali nos encarando.

--isso não vai sair daqui.—sussurrou ela vindo para mais perto de nós.--Nem pra Marga nem pra ninguém.—disse ela a gente seriamente e minha nossa, aquele semblante dela espantado era de dar calafrios. Nem ela estava conseguindo raciocinar o que viu.

--eu só tava..testando uma coisa.—falei corada de vergonha.

--eu vi.eu vi bem!—respondeu ela e que droga eu nem conseguia olhar direito pra ela.

--desculpa Helena a gente só tava curtindo.(rs)—Lina tentou animar aquela conversa mas minha mãe estava fria como gelo.

--não com minha filha Lina.

--claro, eu sei que ela é DEMAIS para mim.—eu senti seu sarcasmo mas eu preferia ela de boca calada. Aquela seriedade na mamãe ficou assustadora pra mim depois de ver ela detonar aqueles policiais.           

--ta tudo bem mãe. Foi só uma curiosidade.—falei tentando diminuir toda a tensão daquele papo mas minha mãe acenou e cruzou os braços.

--sobe. Precisamos conversar.—disse ela duramente.

Olhei para Lina e ela apesar do olhar solidário voltou ao sofá e a sua pipoca e eu tive que subir com minha mãe para o meu quarto.

--que historia é essa?—disse ela botando pra fora sua surpresa.--Eu chego aqui e você ta com a Lina?ta gostando dela agora? Você sabe que ela é uma malandra né?—ela tava desesperada com essas perguntas.

--eu só quis saber como era!—respondi e minha mãe simplesmente parou e confusa olhou para mim.

--...só isso?—perguntou ela e quase senti uma pontada do seu alivio.

--é.

--nada mais?

--e quanto a você?—perguntei e não ia recuar agora que estávamos tentando entender o que era isso que ambas sentíamos.

--o que tem eu?—retrucou ela e percebi o quanto isso soou falso. Ela sabia bem o que eu ia perguntar.

--com tantas perguntas esta me dando liberdade de também fazer as minhas.

--eu sou sua mãe garota.

--é só uma pergunta. Que mal teria? Não esta fazendo nada de errado né?

--sabe que não gosto que fique insinuando algo..

 --então vou considerar seu beijo com Marga também uma curiosidade.

--eu não beijei Marga.

--sério mãe?!ok então.

--eu já disse para você que não vou voltar para ela. Não importa o que aconteça....ela me beijou mas..ela só esta..feliz pela vitória!Pela minha ajuda e ninguém do morro morreu. Ela começou a falar do quanto estava satisfeita por nos ter por perto e dos planos que teríamos se aceitássemos ficar. Ela sonhou alto e foi tentador..foi só isso. Sei que debaixo daquela carinha linda e de Lina também existe duas feras que se cutucadas ou provocadas, esqueceriam todo esse carinho da gente com um estalar de dedos.

Minha mãe tentou, mas da minha cabeça não saia a imagem dela e Marga se beijando e era como seu fosse um enorme gatilho para minha raiva e toda essa ansiedade acabava com minha bombinha.

Era como se há tempos esperassem por aquele momento, pelos olhares, pelo toque. A noite virou e passei cada segundo me lamentando. Não por elas, isso eu tinha certeza mas por mim por gostar tanto daquele beijo de Lina. O que só me enchia de mais raiva em saber que não era ódio o que eu sentia por Marga.

Notas finais:

esse capitulo teve tudo. Mari pode não entender que ela ta com os dois pés dentro do vale mas isso ta cada dia mais evidente. Marga afeta ela demais mas quem teve a sorte grande foi Lina que testou bem isso, e que beijo foi aquele e com direito a um flagrante da dona Helena.eu ficaria maluca.

digam ai nos comentários o que vocês acharam do capitulo.

 

Capitulo 18 conexões por millah

 

No café da manha de domingo cheguei ao térreo já avistando minha mãe na cozinha preparando ovos e Marga no sofá vendo tv e mais um embrulhado de cobertas ao seu lado. Fui ate a sala e me deparei com Lina ainda dormindo ali.

--shiiiiii—pediu Marga diante da imagem descabelada deitada ao seu lado.

Depois daquela noite mal dormida eu resolvi entrar numa era do gelo com Marga. Eu mal conseguia olhar pra ela então me dediquei a Lina e seu ferimento.

Peguei seu braço caído e posicionei ele melhor e certeza aquele musculo ferido estaria me dando graças. Lina parecia morta naquele sofá de tão pesado era seu sono e aquelas mechas em seu rosto estavam fazendo Lina parecer um fantasma japonês com o tamanho do seu cabelo solto. Segurei meu sorriso quando ajeitei aquele cabelo melhor sobre a almofada e ela agradeceu dormindo. Só não esperava ter Marga de cara amarrada me vendo fazer tudo aquilo. Fechei meu sorriso na hora.

--o café ta pronto.—avisou minha mãe e de repente Lina acordou. Parecia que estava só esperando isso.

--bom dia Mari.—ela ficou toda sorridente em me ver talvez lembrando de ontem e ao se espreguiçar incomodou ate Marga.

--olha essa porra de pé em mim.—Marga se levantou e foi para a cozinha e Lina se ergueu com um pulo do sofá.

--o café ta pronto dona Helena?—Lina caminhou ate la esfregando os olhos e ainda coberta pelo cobertor.

--(rs) esta mas primeiro a senhorita vai tomar um banho. Vai.

Lina bufou mas atendeu minha mãe prontamente e com isso me dirigi a bancada onde Marga já tava sentada aproveitando o café.

--seu café.—minha mãe me entregou um copo e estava maravilhoso apesar das encaradas de Marga mas eu não ia cair nessa.

--ontem foi incrível. Quero dizer, seria um pouco mais se ninguém tivesse sumido de repente. —disse Marga me provocando.

--eu adorei Marga mas se sua ideia era bebermos ate cair eu prefiro deixar pra próxima.—respondeu minha mãe prontamente.

--claro você sempre ficou uma delicia bêbada. Jamais me daria esse gostinho de novo.

Tentei me concentrar só no meu café do que naquela maluca da Marga me provocando tão cedo. Ela me encarava e só esperava que eu a olhasse para continuar o deboche matinal.

--prontinho.to morrendo de fome.—Lina voltou depois de minutos e muito bem arrumada.

--foi o banho mais rápido que já vi.—minha mãe estava de olho em sua chegada.

--ué,eu pelo menos tomei.—respondeu ela prontamente chegando na cozinha.

--cuida desse ferimento direito. Não quero você com o braço fodido.—reclamou Marga.

--hoje eu tinha uma consulta com a dona Roberta e meio mundo que tava no tiroteio mas a veia não apareceu.—Lina falou e todas nós olhamos bem para ela e aquela novidade.

--como é? Ontem ela estava la quando verifiquei.—Marga estranhou e era de se esperar já que Roberta estava no posto todo santo dia.

--pois é. Sumiu.—completou Lina.

--ela é a chefe medica do posto mas sua equipe ainda esta lá e se continuar dormindo do jeito que eu vi vai ter que visitar eles mais vezes.—falei preocupada.

--(rs) por que? Se você poderia muito bem dar um jeitinho em mim?—obvio que ela tinha que brincar e engoli seco com Marga e minha mãe me encarando estranhamente.

--olha o seu café.—minha mãe quase jogou o copo de café em Lina quando o colocou na bancada.eu diria que Lina atiçou o lado mais ciumento da minha mãe naquele momento e felizmente ela não podia dizer nada graças a Marga também curiosa do meu lado como um cachorro prestes a morder.

--o que foi que eu perdi?—perguntou Marga mas meu celular tocou e o nome do Angelo me chamou a atenção. O que ele queria tão cedo?

Peguei o celular e atendi.

--Angelo?o que foi?—perguntei e Marga e minha mãe pareciam duas curiosas tentando ouvir algo.

--eu preciso de ajuda. É a Milena ela ta passando super mal.

--o que? Onde??

--eu vou te mandar a localização mas vem logo.eu to no meio da rua. Acho que é uma overdose.

--ta eu já to indo.

--o que aconteceu??—perguntou minha mãe apreensiva.

--ah..uma amiga precisa de mim.

--como assim filha?

--desculpa mãe eu volto logo.

--se quiser posso ajudar.—Marga falou mas tudo que consegui fazer foi lançar a ela uma olhada fatal. Ela só me causaria mais problemas.

--eu posso ir com você também Mari??—Lina falou e ela estava realmente pronta para ajudar mas definitivamente eu não queria ninguém comigo nessa.

--não Lina, fica.

Avancei ate a porta principal e mesmo com meus passos eu ouvi o riso de Marga de longe.

--ela ta me ignorando?—perguntou ela e que bom que ela percebeu. Era isso ou esganar ela.

Fui rápida para chegar no local marcado por Angelo e não passava de um beco atrás de um bar onde ele cuidava da Milena no chão.

--graças a deus você chegou!—ele estava aliviado por me ver entrar naquele beco sujo.

--chamou uma ambulância? E a mãe dela??—perguntei preocupada enquanto me abaixava para verificar seu estado.

--como eu posso chamar a mãe dela aqui???!!olha o estado dela!—nervoso ele falou quase arrancando os cabelos indo de um lado a outro.

--mas o que aconteceu? Por que ela fez isso??

--o pai dela morreu ontem a noite.—parou ele voltando a se abaixar e me olhar nos olhos indignado.--Roberta cagou pra ela e ta lá naquele hospital cuidando do corpo. Ela não disse nada a ela e nem deixou ela ver ele uma ultima vez.ai ela foi la no morro da prata e comprou essa merda.

--impossível.

--quer me fazer acreditar que naquele morro de merda não tem drogas Mari? Aquelas suas amiguinhas sabem bem como gastar a grana dela né.

--Marga odeia drogas! Isso já é o suficiente para não ter essa porra por lá!

--ela vive indo pra lá e sempre volta com esse tipo de coisa.

--seu idiota a mãe dela trabalha lá. E se você não percebeu ela precisa com urgência ir a um hospital. Chama um uber.

Eu estava puta pela insinuação ao morro mas com a ajuda do Angelo pegamos Milena e levamos ela a um hospital. Ela ia ficar bem de acordo com os médicos e depois disso acho que minha companhia para o Angelo não era mais necessária.

--Mari.—a voz dele era de puro suco do arrependimento e pra mim não era mais a mesma.

--eu to indo Angelo.

--eu sei mas espera.

--pra que? Pra dizer mais uma vez que o morro é lar de traficante??

--eu sinto muito. Tudo saiu...sem querer.

--todo mundo diz isso. E claro que foi sem querer.(rs)—dei as costas a ele e ele tomou minha frente mais uma vez.

--é sério. Me desculpa.de todo coração...eu conheço a Milena desde pequeno. Perder ela agora..seria o fim. Ela só..queria esquecer toda essa merda de família e foi bem burro se jogar de cabeça nessa porcaria que ela cheirou. Só me perdoa pelas coisas estarem tão estranhas.

--eu entendi.

Voltei para o morro e foi certo meu caminho. O fato da Roberta não ter vindo ao morro era porque nem ela podia lidar com toda aquela dor de perder o marido. Logo ele que tinha mais chances do que qualquer um em um hospital privado.

 Aquela doença estava chegando de mansinho, devastando aos poucos as famílias sem distinções, sem preferências, e olhar em volta e perceber que tudo ainda estava como deveria estar me fazia pensar no tanto de tempo que ainda tínhamos. E foi por tão pouco que Lina também não se foi.

Mais eu ainda tinha um mistério em mãos. Como Milena comprava drogas aqui se não existia traficantes no território de Marga?

Subindo o morro ouvi bem os tiros vindo de uma área guardada pelas minas do morro. Estranhei ver tantas cercando o local e elas não me impediram de passar pelo portão de grade para entrar no lugar onde eu vi uma antiga quadra de basquete e um paredão de terra da encosta do morro. Marga estava lá com uma arma na mão colocando um novo pente enquanto duas mulheres trocavam seus alvos na encosta.

--então?—ela virou pra mim armada e curiosa com a minha saída. Acho que meu gelo foi ignorado.

--ta tudo bem agora. Milena teve uma overdose... O pai dela morreu com essa nova doença.

--...não sabia.—Marga voltou sua atenção aos alvos e atirou.

Porem dizer aquilo não condizia com os fatos e me deixou confusa.

--conhecia a família da Roberta?

--a única coisa que conheço da Roberta é que ela serve muito bem para tirar balas.

Ela não era intima da Roberta para saber da morte do marido e nem sabia do motivo que ela faltou hoje no posto e acho que nem conhecia Milena então porque ela diria que não sabia disso??

--Angelo me disse que ela comprou as drogas aqui.—joguei essa no assunto e ela ainda me olhou com um certo desinteresse.

--sabe muito bem que não vendo drogas. E nem se vendesse eu venderia para uma metidinha como ela.

--então conhecia ela.

--(rs) ela é filha da nossa doutora Mari.

--eu to falando sério. Ela quase morreu.

Marga suspirou como se estivesse cansada de me ouvir. E era nítido que poucas coisas se tornavam do seu interesse.

--o que ela faz com o dinheiro dela é problema dela.

--pensei que ligasse para os problemas deste lugar.

Ela não estava nem ai me olhando em seu silencio cheio de superioridade então sai da quadra e ela voltou aos seus tiros e desta vez ela não parou. Ela podia descarregar quantos pentes quisesse, mas não mudaria o fato que tinha algo errado, e domingo correu como o dia mais gelado entre nós. Eu no meu canto e ela em seu silencio entrando e saindo da casa sem olhar na minha cara. Nem Lina escapou em seu descanso tendo que ser levada para longe de mim.

Mas foi no fim do dia, na hora que terminava meu livro no quarto que me bateram na porta e quando abri dei de cara com Marga com as mãos sujas de sangue. Aquela visão dela cansada e com os punhos vermelhos me gelou ate a alma.

--diz pra sua amiguinha quando ela acordar que eu matei o namorado viciado dela.—disse ela sinistra deixando a minha porta e aquilo era como um lembrete de quem Marga era.

No jantar cheguei a mesa e Marga e Lina já se encontravam sentadas. Enquanto Lina verificava seu ferimento, Marga fumava seu cigarro vendo cada movimento meu e claro que percebeu quando olhei para suas mãos e vi alguns machucados e sua pele. Ela não dizia uma palavra no jantar. Preferiu ficar lá me lançando olhares que me deixavam nervosa com aquele jeito marrento de ser e toda vez que a pegava me encarando ela sorria sarcasticamente. Estava ficando ate difícil de comer com ela apoiada a mesa deixando Lina e minha mãe perceber o quanto estava me irritando.

--da pra parar?!!—falei irritada e ela sorriu.

--sabiam que hoje a Mari me ajudou a cuidar de um grande problema? Graças a ela eu limpei uma infestação de ratos. Agradeça sua amiguinha depois das lagrimas.—ela falou e minha mãe me encarou preocupada.

--não envolva Mari nos seus negócios. Eu já falei isso!

--mas meus negócios ficam tão bem protegidos com ela.(rs) de todas as pessoas você tinha que fazer amizade logo com essa menina.

--e qual o problema com a filha da Roberta??—perguntou minha mãe curiosa.

--ela teve uma overdose e Angelo me disse que ela conseguia as drogas aqui no morro.—respondi.

--o que você fez Marga?—minha mãe já estava impaciente com aquele sorriso.

--(rs) o que tinha que ser feito.—respondeu ela apagando seu cigarro no meu suco.

--pelo amor de deus Marga!—minha mãe largou os talheres talvez imaginando o que acontecera.

--dessa vez eu fui discreta.—respondeu ela recostando-se na cadeira.

--da ultima vez foi um show macabro. Sangue jorrando e pedaços da garganta.—Lina conseguiu ser bem detalhista mesmo zoando.

--ninguém vende essa porra no meu morro. E foi bom saber que o dinheiro daquela mimada era gasto com aquilo.

Outra fala estranha. Era como se Milena devesse algo a Marga e isto era sinistro.

--não quero você andando com ela.—minha mãe disse isso na hora.

--mãe, acho que depois dessa ela não toca nunca mais em droga nenhuma. Ela tava péssima.

--não quero saber. A mãe dela ta precisando dela nesse momento difícil e Milena conseguiu causar mais uma dor de cabeça para Roberta. Eu to vendo amigas perdendo o emprego por causa dessa doença. Coisa que eu nunca vi. Então vamos rezar para que Roberta consiga superar a morte do marido e colocar juízo na cabeça daquela lá.

--então a react...é pra valer mesmo?eu..poderia ter morrido?—Lina ainda tinha o temor da doença enraizada nela e eu não a condenava, tinha sido terrível.

--..sim.—respondi mesmo não gostando.

--puta merda.

--mas você não morreu. E eu não deixaria.—Marga falou e Lina melhorou seu semblante preocupado.

--o marido da Roberta tava instalado em um dos melhores hospitais e nem isso o ajudou.eu não sei como você se curou tão rápido mas se chegar aqui com esta intensidade e instabilidade de como o vírus se manifesta em cada individuo teremos um sério problema.—falei e todo mundo me encarou.

--não vai acontecer nada por aqui.—Marga me retrucou e ela parecia desacreditada com tudo em relação a doença.

--eu só to falando que temos que ficar atentas aos sinais. Ninguém sabe como se pega essa coisa. se é pelo ar,pela agua ou por algum produto contaminado.

--alguém morreu por aqui dessa porra?—irritada ela me perguntou e eu odiava sua falta de paciência para me ouvir quando deveria mas por incrível que parecesse minha resposta ia dar a ela o que ela queria.

--..não.

--então não começa essa merda de terrorismo Mari.

--vocês duas querem parar!—minha mãe gritou e só ficamos nos olhares raivosos disparando chamas uma para outra.—vamo rezar então para que essa merda não chegue aqui. Só ponham na cabeça de vocês que são melhores quando não brigam. Que saco.

Minha mãe tinha rezado mas com o passar dos dias tudo ficou tão cinza. As aulas na faculdade estavam tediosas porque só falava daquela doença que mal sabíamos e os alunos que preenchiam a sala foram sumindo um a um. Ângelo ainda estava lá mas não estávamos nos falando e tudo que dizíamos um para o outro era como Milena ainda estava em coma e pela cara dele ficar sem visitar ela só estava colocando ele dentro de um poço sem luz.

Eu me preocupava com ela em um hospital no meio de tantos doentes daquela gripe estranha. Roberta sequer voltou ao morro e Marga não queria acreditar que aquela droga de doença estava chegando no morro mas depois que pontuei esta probabilidade parecia que tinha sido eu que a trouxe ao morro. Minha mãe estava perdendo trabalhos e passava mais tempo em casa mesmo odiando ficar parada e tendo Marga a seduzindo com os trabalhos do morro sua paciência estava menor que um grão de arroz. Lina por outro lado tinha melhorado e se esforçava para tentar animar a casa e o seu humor irônico funcionava comigo e com minha mãe mas por algum motivo Marga nem papo queria. Ela tinha se fechado e eu não queria dizer aquilo mas eu sentia falta dela pegando no meu pé. Agora ela mais parecia uma sombra silenciosa pela casa.

--mãe tenho que te contar uma coisa.—cheguei a cozinha e ela estava terminando de limpar tudo e ao me ver se animou.

--eu primeiro então, hoje enfim consegui um trabalho. Vou a tarde e as nove da noite já estou de volta.

--não. —disse Marga da poltrona da sala e minha mãe olhou para ela desacreditada. E não foi a toa que caminhou da bancada da cozinha ate a poltrona onde Marga estava.

--não pode me proibir de trabalhar.

--você não vai.

--(rs) ta ouvindo isso?—minha mãe me olhou e soltou um riso.

--estão descobrindo que essa merda de vírus começou por esses ricaços safados que nas férias dos sonhos contraíram essa porra. Ir pra casa de um filho da puta desses é trazer essa porcaria pro morro.—retrucou Marga e não podia negar sua logica.

--não vou entrar em contato com contaminados Marga e mesmo se fosse o morro já tem suas figurinhas premiadas no posto.hyong por exemplo. Ta la no posto internada. A Rita também.—isso foi uma surpresa e minha mãe nem me contou.

--e você quer ser a próxima? Porque eu não quero isso.

--(rs) eu não posso parar a minha vida por causa desta doença.

--não vai. Ponto final.

--Mari!—ela parecia totalmente indefesa me chamando mas Marga estava sendo bem logica desta vez.

--...infelizmente,eu tenho que concordar com ela mãe. A faculdade fechou. Estava sendo um polo contaminador. Recomendaram ficar em casa.—a cara da minha mãe me ouvindo foi de pura decepção.

--viu só? Você não precisa se apressar para ter dinheiro no bolso para fugir de mim como fugiu na festa.

 --eu não posso mais ser a filha da puta que precisa Marga! Eu tenho a Mari agora,eu tenho uma vida completamente nova e com essa doença, o que você quer fazer com o morro?

--eu só preciso de alguém para me ajudar com os casos da doença. Por que sem a Roberta e o aumento dos casos eu vou precisar de mais uma doutora.—Marga olhou para mim e ela só podia estar brincando mas não, ela estava la seríssima esperando minha resposta.

 --eu?(rs) não posso.—respondi na hora.

--por que?—perguntou ela e ate parece que ela não sabia.

--porque sou só uma estudante de medicina, tem muita coisa que ainda não sei.

--quanto já leu do seu livro de medicina?40,50 porcento?

--....—eu não ia responder porque na certa ela ia me chamar de nerd.

--do jeito que é fominha deve ter lido ele todo ha muito tempo.

--não..agora eu digo não!—minha mãe se pronunciou e foi um alivio.

--ela já é grandinha. Deixa ela decidir.—disse Marga contrariando minha mãe.

--(rs) você pode mandar em mim e eu não posso mandar nela? É isso?

--é o que você esta dizendo meu amor.

--aargghr!!não aceite!—ordenou minha mãe mas era um pedido muito grandioso.

--o posto ta cheio de doentes. Podemos ajudar o nosso morro Mari.eu e você.

Aqueles olhos castanhos tão convincentes como eram marcados pelo delineador pareciam ter um certo poder sobre mim ainda mais quando me falavam a mais pura verdade. Eles tentavam passar uma decência pelo menos um pingo do que existia nela e mesmo contra minhas expectativas Marga parecia que queria mesmo ajudar e algo em mim implorava para confiar nela só pra ter ela mais perto de novo.

 Eu queria não duvidar tanto dela.

Me aproximei e ela não se aguentou ficar sentada a espera da minha resposta.

--pelo morro.

Ela estendeu a mão e um sorriso fino no rosto que quase sumia apareceu e o olhar esperançoso pela minha resposta ser sim alimentava Marga com suas expectativas e claro que apertei sua mão.

--que ótimo. A dupla maravilha. Eu não posso trabalhar mas as duas querem ajudar os doentes no morro.

--(rs) porque não ajuda também?

--vão fazer um ótimo trabalho. Não precisam de mim.

--cacete.

Minha mãe subiu as escadarias e estava furiosa mas se fosse para escolher ficar dentro daquela casa mofando no quarto eu preferia estar no meio daquela bagunça.

Capitulo 19 O diario por millah

 

--sua mãe nunca foi muito caridosa.

--ninguém desse morro foi com a gente.

--eu fui. Agora como quer começar?

--temos que saber como anda a movimentação do posto.

--podemos ir agora.

--...claro..—Marga estava ansiosa e ate escondia o sorrisinho para minha surpresa.

Enquanto pegava minha jaqueta ela já tinha se dirigido a porta. Ela estava mesmo interessada em começar a combater aquela doença no morro. Quase me animei mas em nossa descida rumo ao posto tudo que ouvíamos era nossos passos na rua escura.

--o que foi?—perguntou ela estranhando meu sorriso no rosto.

--(rs) é um lado seu que..eu não estou acostumada a ver. É estranho. Você ta interessada em algo pra valer.

--eu sempre me preocupei com o morro. Ate demais diria sua mãe..fazer o que? É tudo que tenho. É o meu império. E um império a minha altura é um império livre dessa praga.

--você não faz isso por você..ou faz? É final de domingo e estamos indo verificar um posto cheio de doentes para saber o grau de contaminados aqui no morro. Se preocupa mesmo com as pessoas que moram aqui.—eu não aguentava, tive que dizer aquilo com um bom sorriso no rosto enquanto que ela tentava disfarçar emburrando a cara.

--...o morro da prata é o que é hoje por minha causa. Helena conheceu bem o inferno que era isto antes da minha chegada.

--(rs) minha mãe me contou que você vinha ao morro só por causa dela.

--sua mãe não sabe de porra nenhuma...(rs) por causa dela.—ela riu retirando do bolso do moletom um cigarro da carteira e claro eu peguei o cigarro antes que ela acendesse e o joguei bem longe.—mas que..o que ta fazendo?

--vamos entrar no posto. Não se pode fumar lá.

Entrar no posto me deu uma boa ideia do que íamos tratar. A sala de espera estava lotada. Tinha velhos quase desmaiando e crianças chorando e uma bagunça que quase me fizeram perder Marga de vista quando virei.

Fomos ate o balcão e a atendente estava preocupada demais com o cadastramento de pacientes que cagou pra mim quando chamei.

--oh filha da puta.—Marga falou e ela quando virou a nós engoliu seco diante da dona do morro.

--o que querem?—perguntou ela curiosa.

--quero saber quantas pessoas deram entrada com a react.

Ela voltou sua atenção ao pc no balcão e me virou a tela e os números já passavam das dezenas.

--um terço deu entrada na segunda. Outros na quarta e hoje mais alguns. Os sintomas se repetem e são idênticos a de uma virose quase pneumônica. Estamos tratando todos com antibióticos.—respondeu ela rapidamente tentando voltar aos seus afazeres.

--já tiveram melhoras?—perguntei e ela enrugou a cara.

--mas por que dessas perguntas?

--esta olhando para sua mais nova chefe cacete.—disse Marga e a atendente olhou pra mim e voltou a olhar para Marga na esperança de ser brincadeira.

--ela?(rs) Marga..essa garota?

--é porra, você é cega? Como a alecrim dourado desta merda pulou fora do barquinho Mari vai ocupar a vaga da Roberta.

--eu acho que os outros médicos não vão gostar Marga.

--quem tem que gostar aqui sou eu.

Enquanto Marga batia boca com a atendente resolvi entrar pelo corredor ate alcançar as salas de consulta e atendimento. As salas com macas estavam lotadas vistas pelo vidro da porta e era assustador pensar que tudo parecia uma grande pandemia.

--hey você não pode ficar aqui? Vai se contaminar.—disse um medico vindo todo coberto de uma capa protetora e mascara.

--impossível..eu cuidei da Lina antes dela vir pra cá e não peguei absolutamente nada.—respondi e ele me olhou confuso.

--como sabe disso?—perguntou ele curioso.

--depois de tantas tosses eu ainda estou aqui intacta. Acho que estamos seguros. Não é contagioso pelo ar eu acho..

--(rs) típico estagio um. Espere pelo sangue e podemos começar a conversar. Com certeza vai temer quando ver o estrago.

--tosse e sangue?—isso me assustou.

Ele retirou sua mascara e respirou ate um pouco cansado pela mascara abafada que marcava seu rosto e apesar de um pouco confuso com minha presença ali e antes que ele falasse mais alguma coisa Marga apareceu.

--ah você ta ai.aquela puta tava implorando por um socão.—disse ela se aproximando de nós com um sorriso safado no rosto.

--você não deu né?—perguntei.

--claro que não. Ela chorou antes. Boa noite doutor. Já temos resultados positivos por aqui?

--...alguns mas não como eu queria. Tem casos se agravando rápido demais e depois que Roberta saiu o posto virou uma bagunça. Os remédios que ela passava estão em falta e alguns genéricos parecidos não são tão aceitos pelos pacientes.

--(rs) ainda bem que temos nossa substituta.—disse Marga toda animadinha me segurando pelos ombros.

--essa garota?—perguntou ele e isso estava me irritando.cadê minha credibilidade?

--Mari. Prazer.—respondi.

--(rs) desculpa Marga mas eu aceito muita coisa e se essa é mais uma brincadeira..

--não doutor, Mari vai me manter informada sobre a React aqui no posto. E se achou ruim minha escolha acho bom dizer logo porque não quero problemas mais tarde.

--claro que não..

--que ótimo.

--Roberta estava estudando a react?ela medicou Lina e no outro dia ela estava melhor.—falei e o doutor pensou.

--a maioria dos casos registrados no começo da semana pertenciam ao estagio um, Roberta considerou dois estágios e seu estudo parou já que ela teve a brilhante ideia de abandonar o posto.—dava pra ver na cara do doutor que isso não o agradou.

--o maridão morreu.—respondeu Marga com nenhuma sensibilidade.--Você queria o que? Essa doença ta virando uma dor de cabeça pra todo mundo.

-- de react?

--sim.

--ela não disse nada a respeito dos seus estudos..sendo assim temos um sério problema. Muitos pacientes já não estão no primeiro estagio..vem comigo.na sala dela você pode encontrar mais informações.

--então quer dizer que esse outro estagio é mais perigoso?—perguntei enquanto caminhávamos ate a sala de Roberta.

--nem se compara então não entrem nas salas de macas sem proteção.—disse ele seriamente e isso me fez pensar em quanto a situação estava séria.

--eu nem penso em entrar ali.—disse Marga lançando olhares para as portas.

--a proposito meu nome é Esteban. Medico cirúrgico.—ele apertou minha mão e o velho me pareceu bem confiável.

Esteban nos guiou ate a antiga sala de Roberta e assim que entramos percebi que ainda tinha algumas coisas que pertenciam a Roberta e ela sequer fez questão de vir buscar. Os certificados ainda estavam pendurados na parede, os caros livros de medicina ainda estavam na estante alta.

--fiquem a vontade. Tenho que cuidar de alguns pacientes. Amanhã vai conhecer toda a equipe.

--ela não precisa conhecer ninguém, só fazer o trabalho dela.—respondeu Marga amargamente mas Esteban deu de ombros.

Esteban fechou a porta e Marga sentou na cadeira da Roberta e já de imediato reclinou e colocou as botas sobre a mesa. Que folgada.

--olha só, ela deixou o jaleco.(rs) coloca.—puxando do cabide ela jogou pra mim.

Vestir aquilo ainda mais nessa situação parecia deboche demais. Eu,a porra de uma estudante querer ter direito de vestir um jaleco da Roberta como se isso fosse confirmar de vez que eu era medica.

--eu não vou vestir isso.

--ué,não era seu sonho ser medica? Já tem tudo pra isso.(rs)

--você viu aquela sala cheia de macas? Tem sangue no chão por todos os lados.—não escondi minha preocupação e Marga logo bufou.

--Mari, já superou isso lembra?

--quando Lina ficou doente eles consideraram estagio um por isso não nos contaminamos mas me interessa muito saber como ela pegou esse troço.

--isso é o menor dos seus problemas agora. Eu não quero que só estude essa merda de doença. Eu quero uma solução.—ela só faltava mandar em mim e tive que soltar um breve riso.

--(rs) tava bom demais pra ser verdade ein. Ta achando que eu sou o que?Alexander Fleming??que vou descobrir como fazer esse povo todo levantar como ele fez quando descobriu a penicilina??

--acho bom você ser melhor do que ele. Porque se ta achando que meu morro vai virar bagunça pode começar a levantar ate os mortos.—disse ela já abrindo as gavetas do mesão e encontrando um caderno. Lógico que ela tinha que xeretar e folheando as paginas ela sorriu.—parece que a doutora Roberta deixou seu diário.—ela jogou sobre a mesa e pegando ele vi que era um diário de rotina e do seu estudo sobre a react.

Tinha tantas paginas e relatórios de consultas que eu passaria a noite toda lendo.

--ela fez relatórios sobre os casos de react.do estagio um e dois.—falei a Marga vendo tudo aquilo escrito e datado.

--então já tem sua tarefa de casa Mari.

--eu não vou voltar,eu quero ler.—falei curiosa e Marga ate parou de sorrir.

--ta falando sério?

--tô.se quiser pode ir.

Me sentei na cadeira do paciente em frente ao mesão para ler o diário e aquilo já tava me enchendo de curiosidade. Já Marga me encarou desacreditada, mas também não moveu um musculo para sair. Ela ficou lá me encarando mas depois de uns minutos comigo lendo ela preferiu o celular. Acho que ela cansou, o que me deixou me concentrar mais na minha leitura.

“ Começo de semana e já tenho um enigma em mãos. Uma gripe que deixou de ser gripe e virou uma tuberculose em horas. Os sintomas batem mas sua evolução me preocupa. Nunca vi nada assim. Receitei o medicamento padrão para tuberculose rifampicina e isoniazida e espero que os antibióticos resolvam o caso desta mulher.”

“novamente mais um caso, desta vez com uma reclamação. O paciente relata ter contraído por meio de uma relação com uma garota de programa. Apesar dele estar terrivelmente furioso achando que esta com aids eu já acho loucura ele esta vivo com os pulmões tão carregados. Quanta tosse. Vejo os mesmos sintomas estranhos de alguns dias atrás. A febre esta aumentando e nem isso ele deixa de reclamar. Vômitos e tontura me fizeram tomar a decisão de interna-lo e amarra-lo numa maca. Somente assim para ele se acalmar e parar de surtar.”

“hoje tenho mais cinco pacientes que do mesmo modo estão queimando em febre e percebi que essa tuberculose realmente esconde algo por trás de tantas tosses. Tratada corretamente os pacientes relatam melhora de um dia para o outro. Todos dizem que tiveram contato com pessoas gripadas mas gripe nenhuma não agiria tão rápida no corpo humano. Que porra de bactéria é essa??”

“eu deveria adivinhar, quando liguei para a reserva eles só me disseram, continue o que esta fazendo e se tiver resultados positivos nos avise. Ninguém liga para gente pobre mesmo.”

“tive que isolar uma sala para estes pacientes. Os remédios não estão fazendo efeito como antes agora a demora no atendimento também é um problema então estamos fodidos.”

“realmente o tratamento só funciona no inicio. Depois disso é só um prolongamento na agonia.eu to cansada de ver esse povo sofrer e não poder fazer nada. Eles não podem voltar para casa agora.”

“estagio um, contaminados indiretamente por meio de contato intimo, saliva e sangue devem ser tratados com medicamentos no inicio do contagio. Isto no mesmo dia do surgimento dos sintomas. Fora isso fica complicado parar a doença.”

“Nunca vi Lina tão acabada como agora e olha que ela é forte na queda. Sem sombra de duvidas é a react no seu estagio um e espero estar certa se não Marga me mata.”

“Lina veio me agradecer e quase tirei ela daqui a pontapés. eu queria muito ficar feliz mas já vi tanta gente voltar que eu só queria ela o mais longe possível daqui. Tenho que contar isso a reserva.”

“que ótimo, parece que deixar o publico geral na ignorância é mais relevante do que informação. Então boca fechada não entra formiga.”

Aquele diário estava cheio de informação e certamente amanha minha cabeça ia estar virada mas ver que Roberta tinha ideia do que era a react se manifestando aqui no morro e ter guardado isso para ela me faz pensar no que mais ela escondia.

--o que foi?—perguntou Marga e tive que olhar pra ela saindo daqueles pensamentos cheios de teorias.

--hm?

--você fez uma cara estranha.

--a Roberta vem cuidando desta doença desde o começo do mês.

--estamos quase no fim do mês gata. Como ela esconderia uma doença dessas? tão perigosa?

--...é o estagio um. Se parece com uma gripe e evolui para tuberculose em horas. Ela ainda conseguia tratar a react com os medicamentos indicados para pneumonia e funcionava. O que só indica que o que combatemos é uma bactéria em período de mutação. Por que se existe um estagio dois é porque deu tudo errado. E tem tanta coisa ainda para ler..

--vai mesmo ler tudo isso ainda hoje?

--vou.

--(rs)—Marga parecia desacreditada com aquele sorrisinho.

--eu já falei, se quiser ir pode ir. Eu vou ficar bem.

--eu vou ficar caralho.

--por quê? Parece que quer dormir.

--ai Mari,(rs) você realmente não me conhece.

Eu só sei que as horas passavam lentas demais dentro daquele consultório para o tanto de casos estranhos que eu lia. Marga já tinha deixado a cadeira e sonolenta se deitou na maca ao lado e ela mais se parecia um cão de guarda no meu pé. Quando eu pensava que dormia estava ali me lançando um olhar atento a cada movimento meu mas outra hora ela estava ali cochilando. Estava tirando meu foco. Talvez o pouco de receio da minha mãe e seu falatório a fizera ficar e pelo menos, por agora me deu confiança do que eu iria fazer.

Marga acordou com um susto do despertador do relógio apitando e claro meu maravilhoso café foi um bom acompanhamento para o fim daquele diário.

--bom dia.—Marga olhou pra mim desconfiada e realmente eu nem tinha dormido.

--ficou acordada a noite toda?—perguntou ela sonolenta se sentando.

--eu terminei o diário. Foi assustadoramente interessante. O estagio um é algo controlável mas o estagio dois..

--para com essa merda de doutora.vamo pra casa.

--mas..

--aprendeu sobre a react?

--sim mas..

--depois.—ela pulou da maca e veio ate mim me puxando para fora do consultório.

--Marga,eu preciso fazer alguns testes.

--eu to morrendo de fome. Sua mãe vai matar a gente então quero estar de bucho cheio antes.

Na saída encontramos Esteban que estava chegando para mais um dia de trabalho.

--ficaram a noite toda?—ate ele estava surpreso por nos ver ainda ali.

--como adivinhou?—retrucou Marga cheia de ironia no sorriso ao velho mas eu tive que parar para falar com ele.

--Esteban,eu li o diário de anotações da Roberta e o estagio um deve ser tratado com urgência. Faça históricos dos pacientes contendo o dia que foram contaminados e atenda os mais recentes. Aos que passaram de um a dois dias de contagio quero testar uma dosagem maior e também separa-los dos novos contaminados. Dependendo de como estão seus sintomas, havendo febre de mais de trinta e nove graus e tosse com sangue mesmo a mínima que seja eles já devem ser tratados como estagio dois. Devem ficar separados. Tenho que fazer alguns exames de sangue também.—ele tinha uma surpresa estampada na cara e Marga também quando parou de me puxar pela camisa. Eu ativei meu modo doutora e espantei os dois.

--certo.—disse ele apenas.

--tem que ser do estagio dois para ser exata.—ressaltei.

--eu entendi Mari é que..Roberta apenas isolou os pacientes do estagio dois e..já tive dois médicos internados naquela mesma sala por causa deles..

--eu sei, os medicamentos não funcionam. Temos que procurar outro método para ajuda-los.

Ele pensou e acenou com a cabeça ainda distante com tudo que falei.

--posso fazer a retirada para você contanto que tome cuidado quando for examinar.

--ok..

--...(rs) uma noite e você..entendeu tudo..

--te vejo mais tarde.

Ele entrou e Marga me puxou mais uma vez me fazendo caminhar junto dela com seu braço sobre meus ombros.

--que merda é essa? O estagio dois é tão contagioso assim? Por que a doutora Roberta só isolou essas pessoas?

--porque não há nada pra fazer.—falei e ela me apertou com seu braço. Logico que não foi uma resposta valida para ela.—ainda.—pontuei.--por isso preciso do sangue. Tenho que entender qual a velocidade dessa doença. Ver o que ela pode causar no corpo se atingir o ápice.

--então precisa de uma cobaia.

--não.eu falei se.

--mas é. Ou vai arriscar a vida de cada uma delas, com suas historias, famílias??é um peso muito grande para carregar. Você sabe disso né?

--Marga,o que já ta pensando em fazer??

--(rs) me deixa escolher o sujeito certo..você vai adorar.

--Marga..

--Mari!!

Virei meu olhar para a rua e vi minha mãe descendo furiosa.

--tinha que ser. Quando falou que ia cuidar do posto não pensei que ia morar nele!—minha mãe estava mais que preocupada e Marga fechou o bico.

--eu me empolguei. Roberta deixou um diário sobre a react.—a respondi e ela me olhou surpresa.

--e a bonitinha achou legal ficar lá no posto. As duas!—dissera ela lançando um olhar a Marga que enfiou as mãos no bolso não ligando para a dona helena bancando a mãezona.

--eu não vou ficar aqui tomando esporro da mãezinha.—falou Marga bem irônica.

Marga tomou rumo para casa e minha mãe ainda estava ali furiosa.

--eu sabia que essa ideia seria um problema.

--eu to bem mãe.

--o posto ta lotado de doentes.

--eu sei mas dependendo do caso podemos cura-los.

--e aqueles que cospem sangue??aqueles que estão morrendo em uma maca Mari??eu pensei que exibiriam isto na tv mas essa doença já ta se espalhando pelo mundo e o que se sabe é que o melhor a fazer é ficar em casa e a distancia.—dissera ela preocupada demais contudo.

--eu não quero ver essa doença tomar o morro.

--eu sei que quer ajudar.eu sei! Eu fico orgulhosa mas tem que pensar em você antes nessa situação.se ficar doente??Você tem asma, tem mais chance de pegar essa coisa e acha que eles terão a mesma vontade que a sua? Logo eles? Essa doença..estão dizendo que não há cura. Apenas um tratamento para amenizar as dores e pensar que você pode ser mais um deles..

--mãe,eu quero estar aqui justamente por elas.eu vi Lina melhorar e foi a melhor coisa do mundo ainda mais depois do que li..e se o mundo vai virar uma loucura aqui se depender de mim não vai.—respondi e ela suspirou temerosa. Seu olhar pensativo e preocupado já diziam tudo.

--(rs)..as vezes me esqueço que não é mais uma garotinha com medo do escuro. Que não precisa de mim.

--mãe, não é pra tanto.

--(rs) eu deixei Lina tomando um café na casa da Marga. A essa hora as duas devem estar discutindo. Lina ta grudada naquele vídeo game e eu preciso fazer a feira da semana.

--vou tentar não piorar a situação.

Minha mãe desceu a rua e eu subi levando comigo o diário da Roberta. Aquela porcaria conseguiu me impressionar e acho que um merecido descanso de algumas horas era necessário.

Quando cheguei na casa de Marga a gritaria tava pronta.

--desliga essa merda!—gritou Marga na sala.

--eu já to terminando a fase!—reclamou Lina concentrada na tv e o controle do console em mãos.

--por que vocês brigam tanto?—perguntei me aproximando.

--não se mete gatinha.—respondeu Marga pra mim.

--para de me chamar assim!

--(rs) eu falei pra você que essa noite no posto seria uma merda mas ela quis me ouvir? Cagou pra mim pra ler esse diário macabro.—Marga passou pela hack da sala e desligou o vídeo game para desespero de Lina.

--meu save!!!—Lina quase chorou ali mesmo mas pela cara de Marga dormir na maca só rendeu uma dor de cabeça a ela.

--estou apostando minhas fichas em você Mari. Todas elas. Então faz da minha dor de cabeça algo que vale a pena.—Marga mordeu o sanduiche e suspirei. Ela ia ficar toda bravinha ate resolvermos este problema no morro e ia ser um porre.

--se eu fosse você tomava um banho. Bem demorado.—falei e ela ate parou de comer com nojo da própria mão. Sorte a nossa as bactérias terem medo da limpeza da minha mãe.

Capitulo 20 Sob pressão por millah

 

Acabei seguindo meu conselho a Marga mas depois de uns bons minutos fui interrompida por Lina entrando no quarto.

--por que ninguém respeita minha porta quando ta fechada??—perguntei.

--eu só queria falar uma coisa com você, pode ser?

--quando eu terminar. Será que seria demais esperar um pouquinho?

--ui,não fica nervosinha também.eu não vou te atacar.

Me vesti no banheiro e quando sai vi Lina sentada na cadeira da minha mesa de estudos.

--adorei seu quarto.(rs) nem se compara ao meu aqui.

--então o ultimo quarto é seu?(rs)

--é claro que é! Ela diz pra todo mundo que é uma sala de tortura porque no começo eu arrebentava na cama sabe. Este sempre foi o maior problema da casa da Marga, paredes muito finas.

--como posso te ajudar?

--eu queria saber se...o que eu tive..posso ter novamente?

--eu li alguns casos que Roberta pegou sobre repetentes e são para falar a verdade, bem vagos. contudo, entendi que a maioria se contaminou novamente por voltar a conviver com pessoas que estavam entrando no estagio dois. Diferente do estagio um onde é a fase da doença onde podemos tratar antes de uma piora com a evolução temos exemplos dela em que de certa forma ela não sabe como se contaminaram. Eu não sei como se contaminou mas..

--(rs)...eu tava com a Rita. Acho que peguei dela ou com ela sei lá.—disse Lina para minha surpresa e a de Marga.

--o que estavam fazendo?—perguntei.

--o que ce acha?—o sorriso malicioso da Lina me respondiam muita coisa.

--....a Rita??!mas ela é mulher do russo.

--ela gosta de uma bucetinha de vez em quando.—respondeu ela tranquilamente.

--transou com ela??—perguntei novamente ainda surpresa. Pra mim Rita era uma mulher fiel ao russo e que Lina seria loucura demais para sua vida tão certinha.

--deveria estar preocupada com a react!—retrucou Lina.

--ela é casada!

--e o cara é um mala as vezes!

--você realmente não presta.

--eu sou uma alma livre. Dou amor a quem quer este amor.

--(rs) que papo de hippie.

--ela ainda ta lá né?

--..esta. Quando eu voltar vou conferir em que estagio e certamente vou fazer mais algumas perguntinhas a ela.

Desci com Lina na minha cola e minha barriga estava implorando por uma vitamina e uns sanduiches.

--eu queria poder ajudar também. Essa vibe greys anatomy é tudo que preciso. Você e Marga andam de um lado a outro sua mãe também não para quieta.

--Roberta queria você bem longe do posto então é obvio que seu organismo pode se contaminar novamente e com mais facilidade e a proposito seria uma droga pra mim.

--por quê? Não me diga que ficou preocupadinha comigo??

--claro que fiquei.—Marga surgiu na cozinha e já de orelhas em pé com nosso papo ela preparou novamente seu café. Ela jurava que eu não tinha percebido.

Lina era só sorrisos e seu jeito moleque conseguiu me fazer esquecer a react por um instante.

--então, já confirmou se aquilo era o que você queria?—perguntou Lina e minha nossa, esperei Marga sair para responder ela.

--(rs) depois daquele susto com minha mãe?—minha voz saiu quase muda.--Nem me lembro do que senti. Quero dizer..foi bom.eu acho.

--só bom?(rs) tenho certeza que se ela não tivesse aparecido já teria sua resposta ao invés de um talvez.

Aquela malandrinha da Lina. Ela era uma boa amiga apesar do tesão acumulado em roçar em tudo que se move. Ela me acompanhou no café da manha comendo mais uma vez enquanto que Marga calada veio e calada se foi subindo novamente.

 --o que deu nela?—perguntei achando que Lina teria respostas.

--ela não gosta que eu fale essas putarias, principalmente com você. Vai ver sua imagem de garotinha inocente deixa ela com tesão.

--deve ter sido por isso que minha mãe ficou uma fera com a gente.

--ela ficou puta porque ela sabe que eu não sou a nora perfeita.

--para garota.(rs) você sabe que aquilo foi só...

--...um test drive.eu sei.(rs) queria tanto ver sua cara quando chegar na hora de chupar uma buceta.

Olhei para a escadaria e com aquela risada da Lina toda debochada realmente me preocupei que Marga desceria e meteria o cacete na gente mas isso não aconteceu. Lina voltou para o vídeo game e como eu estava cansada resolvi subir para meu quarto e descansar um pouco. Cair no sono não foi problema e assim que deitei apaguei. Eu sabia que tinha que voltar para o hospital mas eu sonhei e queria não ter sonhado.

Eu estava lá olhando aquela porta por aquela vidraça e vi bem toda aquela gente tossindo, o sangue no chão e nas macas e lençóis, os gritos de dores e todos eles se levantando furiosos. Eu queria sair dali mas esbarrei em Marga nas minhas costas.

--você conseguiu Mari, levantou os mortos.

Me acordei sem folego e com meus ouvidos presos ao som agudo de um fio continuo de barulho e o pior Marga estava ali do lado da minha cama o que só me fez sentar de uma vez assustada.

 Eu não conseguia respirar e quando olhei para ela a vi com a bombinha na mão.

--me dá.—ela afastou a mão com um sorriso no rosto se deliciando me ver sem ar.—Marga..—era horrível ficar assim e depender de mais alguém para voltar a respirar. Meu corpo todo parecia pesar e tudo sem o ar em meus pulmões se tornava dolorido demais para fazer e com mais uma tentativa vi ela novamente brincar comigo.

Eu a encarei puta de raiva tentando controlar a ansiedade que estava se alojando na minha garganta e ela me entregou lentamente. Tentou ser piedosa e claro isso é sarcasmo pra mim.

Usar a bombinha foi um alivio mas odiava ficar assim e ainda mais ser vista assim.

--eu deveria dar um soco na sua cara.—falei brava.

--hm eu to tentando ao máximo tornar nossa relação em algo interessante. E realmente ficaria se tivesse coragem de me socar a cara.

--o que ta fazendo aqui?

--pensei que ia para o hospital.

--eu..tinha que descansar. E Esteban esta fazendo o histórico dos pacientes..deve demorar um pouco.

--é isso que me preocupa, o tempo. Ainda não há mortos aqui no morro e quero que continue assim.—Marga e sua seriedade sempre me deixava tensa.

--(rs) ta ai uma coisa que pensamos igual. Vai voltar comigo?—perguntei e ela me lançou um olhar rápido, parecia surpresa.

--eu tenho outras coisas para fazer e nem pense em levar Lina para ser sua baba. Se ela pegar essa merda de novo eu..

--relaxa eu não sou idiota. Eu nem tenho porque pensar nessa hipótese.

--de você eu espero tudo.—era impressionante como seu humor mudava. Ela estava brava comigo por que agora?

--o que eu fiz agora?

--me diz você Mari. Ou melhor, não me diz.—ela parecia impaciente e já não gostei.

--mas que porra você ta falando?—perguntei vendo ela caminhar em direção a saída do quarto.

--ta trepando com a Lina?—voltou-se ela a mim com essa loucura.

--não!!!mas que droga!—corei porque isso só queria dizer uma coisa, ela sabia de algo??

--e o que foi aquilo lá embaixo?—perguntou ela confirmando minha teoria.

--nada que te interesse!—respondi vermelha pulando da cama.

--(rs) deixa só sua mãezinha saber disso.

--eu não tenho nada com ela Marga! E nem se algum dia começasse a gostar não vejo porque você ficaria tão puta por causa disso.

--eu já falei os motivos. Então não começa com isso de novo. Não com ela!

--(rs) gosta de controlar tudo a sua volta. Da mesma forma que te deixa linda...também cansa.

Marga respirou bem fundo e saiu do quarto. Eu só sei dizer que ela se controlou bastante pra não dar na minha cara antes de ir e agora eu entendia perfeitamente porque minha mãe não queria a historia do beijo caindo nos ouvidos dela. Nunca vi uma pessoa tão ciumenta como a Marga.

Voltei para o hospital e já na porta uma multidão.

--a gente quer saber o que ta acontecendo?—perguntou um cara.

--cadê os médicos??—perguntou uma mulher.

--ó porteiro abre isso aqui!!!

As mulheres de Marga me viram chegar no portão e abriram caminho pra mim o que só causou mais indignação.

--por que ela entra e não a gente??—reclamou uma mulher agarrando o portão.

--a gente tem família ai!!—disse um cara atrás dela.

--calma pessoal eu vou ver o que ta acontecendo.—falei e a risada de deboche veio na hora.

--(rs) tu nem é medica Mari sai dai porra!!

As mulheres me empurraram para dentro do posto e trancaram o portão colocando para longe o pessoal irritado. Só aquilo para conter aquele povo.

Entrei e diferente de ontem a noite as pessoas que esperavam não estavam aqui ontem e já no balcão de atendimento a mulher me entregou uma pagina. Era o histórico dos pacientes porem não parecia ter tanta gente quanto ontem.

Fui ate a sala de macas e da porta mesmo sentindo um deavu olhei pelo vidro e metade dos leitos estava vazios.

--eles morreram.—uma voz feminina atrás de mim me fez me endireitar quando quase me matou do coração.

Era uma medica, de cabelos negros em um rabo de cavalo e óculos fino no rosto. Tinha um jeito bem tímido ao falar comigo com as mãos dentro do jaleco e me foi um alivio não ver Marga atrás de mim. Ela deveria ter um pouco mais da minha idade.

--deve ser Mari. Quase não acreditei quando ouvi do Esteban que Marga te quer aqui para nos ajudar.

--e qual a graça?

--você não é..enfim,sou Juliana. Uma das medicas que ficou para trás. A multidão la fora quer respostas e quando descobrirem que metade da ala morreu isso aqui vai ficar uma zona.

--não podem entregar os corpos aos familiares. Eles faziam parte do estagio 2 como diz o histórico.

--eu sei,eles..foram selados e estão no necrotério la embaixo. Estamos esperando o caminhão do controle de doença chegar. O governo esta recolhendo corpos contaminados.

--mas que porra..

--Mari.—Esteban veio as pressas e claro isto nunca era por um bom sinal.—a maioria dos médicos da equipe não vão voltar. Os desgraçados disseram que não iam se contaminar aqui de graça.

--era só o que me faltava.

--pior que aquela multidão enfurecida lá fora não sabe de nada dos mortos de hoje.

--que horas eles morreram?—perguntei diante do nervosismo dele.

--assim que vocês saíram. Tivemos que ser rápidos já que os corpos estavam vazando sangue.

--o corredor la embaixo ta uma bagunça.—completou Juliana.

--ok.podemos limpar a sala do estagio dois e cuidar dos pacientes restantes.to vendo na lista que sobraram vinte. Somente??

--morreram muitos essas horas.

--só com a gente não vai dar muito certo Mari.

--tem que dar. Os contaminados do estagio um são muitos e podemos salva-los.

--eu os organizei e separei em duas salas. A sala um são dos mais recentes e já estão medicados e a sala dois dos contaminados em dois dias. Sete passaram para o estagio dois e transferidos. Isso foi a pouco tempo.

--e quanto ao exame?

--as amostras estão no laboratório.eu deixei tudo pronto pra você.

--vai estudar a fundo esta doença? Não temos condições de parar Mari.

--temos que ter..por aquelas pessoas la fora. Ou pode preparar o rabo porque nem Marga vai nos perdoar.

Fui ao laboratório e no microscópio vi a famosa bactéria estrela da merda que estava acontecendo. Eu poderia estar louca ou realmente tudo que estudei não estava certo do que eu via. Por muitas vezes eu via uma bactéria parasita comum de uma pneumonia, ampliando eu via traços de outra totalmente desconhecida e a que mais me preocupava, Fasciite necrosante. A bactéria dos defuntos. Não era normal uma mutação ainda mais envolvendo três tipos diferentes de bactérias e a forma como reproduzia quando misturado a uma amostra de sangue limpo era agressivo. O sangue do estagio dois com isso se tornava um perigoso agente de contaminação. O pior que já vi.

 

Na lista do estagio um eu vi o nome da hyong e no dois eu tinha a Rita e eu tinha que conferir pessoalmente.

Me equipei com uma mascara bem protegida e um macacão bem selado e a primeira sala que fui foi a dos contaminados pelo estagio um.

Todo recém chegado estavam sendo medicado e a maioria estavam aguentando firme a febre e os calafrios. Eu não sabia como aquela bactéria em mutação tão diferente de tudo que já vi poderia existir. Uma junção biológica de vários traços das piores bactérias em uma pronta para uma perfeita destruição. Isso não era coisa de deus.

Nos últimos leitos encontrei Hyong. Seu leito ainda arrumado e ela bem acomodada, tinha uma mascara no rosto e a ponta afiada de uma agulha no braço para o soro que recebia.

--pensei que demoraria um pouco mais para te ver como medica..—ela tossiu mas me estendeu a mão para me cumprimentar e quando a peguei, mesmo de luva senti sua pele fria.—mas to feliz por te ver.

--(rs) ideia da Marga..e eu não queria ficar sem fazer nada e quando soube que estava nessa não recusei.

--quem diria? Já passei por tantas merdas e estou aqui morrendo com essa doença. Quase não sinto o ar entrar nos meus pulmões. As tonturas e a febre..

--você não vai morrer. Os remédios farão efeito.—examinei seus braços a procura de inchaços e vermelhidão mas Hyong estava de boa apesar do corpo quente e o tremor do suor frio.

--eu vi que de dois dias as pessoas que saem daqui elas não vão para casa, não quando estão piores do que eu.—ela tossiu e quase não retornou a voltar a respirar. Ela estava muito pior do que Lina.

--sabe me dizer como se contaminou?                                                                                         

--...meu amigo trabalha no cais no transporte e armazenamento de peixes. Compro peixes com ele diretamente, os melhores claro. Ele gripou graças as frias condições do armazém e ele acabou passando pra mim. Eu acho.

--ele mora aqui no morro?

--não ele..vem de seis e seis meses da coreia para o pais. Dessa vez veio com essa merda no peito.

--ele ainda esta por aqui?

--não, voltou para a coreia antes de me ver adoecer.(rs) acho que ele surtaria se soubesse.

--ele só ficou na sua casa ou entrou em contato com mais alguém da família?

--como é?

--eu já entendi que o cara vem da coreia passa seis meses em um navio, vende o mais maravilhoso peixe para você e não fica apaixonado? Não vou te condenar ou contar para ninguém.(rs) só quero ter certeza que ninguém mais entrou em contato com ele.

--...ele passou um dia na minha casa e só. Meu pai me mataria só ouvindo isso..ele ainda pensa em um casamento arranjado com um tal joalheiro da coreia.

--então vamos lutar né?vou adorar ir ao casamento.(rs)

--(rs)—ela riu mas a tosse estava acabando com nosso momento.

 Cada vez mais que eu ouvia sobre a react e suas contaminações mais eu tinha certeza de que a doença já estava por ai escondida, a espera apenas do individuo certo para contagiar mais rápido e depois de conferir os outros pacientes do estagio um vi que depois da medicação a calmaria daquela sala era mais sentida.

Saindo de lá e voltando ao corredor ouvi os barulhos do lado de fora do posto e das vozes alteradas das mulheres de Marga mandando todos dispersar e nessas horas eu só me perguntava onde ela estava.

--eu comuniquei a eles sobre os mortos. Entreguei uma lista la fora mas eles estão indignados. Estão culpando os médicos.—Esteban permanecia nervoso com a revolta acontecendo nos portões e com isso tive que me controlar para esquece-los.

--deixa eles descobrirem que não poderão ver os corpos.

--o caminhão chegará as dez. seria melhor chamar Marga.

--esquece isso. Agora me responde, você analisou o sangue dos contaminados do estagio dois?

--....recomendaram não fazer exames Mari. O que fiz a você foi uma exceção.—eu achei estranho o que ele me disse, pois em uma crise daquelas como ele se permitiria a aceitar também?

--quem recomendou?—perguntei ate receosa.

--o controle de doenças. O risco..

--o sangue do estagio dois é um agente contaminante de grau máximo. Ele não só contamina o individuo como também se espalha rapidamente as bactérias na corrente sanguínea quando entra em contato com outro individuo. O que me faz pensar que o estagio um foi um erro no trajeto.

--como assim?

--o estagio um é composto de pessoas contaminadas indiretamente. Sexo, compartilhamento de itens pessoais e ate pelas fezes devido a precariedade de alguns casos. Mas para a doença é uma maneira fraca de contaminação. Com a medicação indicada ela é parada mas então porque no estagio dois a uma piora com o tempo? Porque não é apenas uma bactéria viral. É parasita também. Ela estava passando por mutações utilizando os nutrientes do corpo. Principalmente o sangue. Como os pulmões estão sendo os alvos é obvio que a bactéria já achou um lugar para se alojar.

--posso fazer alguns exames de raio x dos contaminados do estagio dois se quiser.

--faça. Quero examinar os corpos deles também. Se realmente constar feridas e vermelhidão devido aos traços da bactéria da fasciite na pele teremos que higieniza-los. Nos casos mais graves..

--uma cirurgia. Tome cuidado Mari.

--me preocupa saber que o controle de doenças anda dando ordens sobre os exames nos pacientes.

--o que esta insinuando? Eu já expliquei que o risco para eles não valia a pena. Os pacientes do estagio dois foram cuidados integralmente pela doutora Roberta. Eles são instáveis e ela sabia exatamente o que fazer com eles e ate sua saída ninguém tinha morrido.

--foi apenas uma teoria boba minha. Não se preocupe.

--Acha que o governo e o controle de doenças criaria algo mortal assim?(rs) sabe o que eu ouvi uma vez de um infectado do estagio dois? Que a morte seria muito melhor do que sentir tudo morrendo dentro dele.

Todos estavam com os nervos a flor da pele temendo morrer a qualquer instante. Eu não queria este terror nem para meu maior inimigo e nem que ele estivesse naquela sala dos contaminados do estagio dois.

Parecia uma praga, um cenário de uma guerra onde os lençóis sujos de sangue, o cheiro horroroso que passava pela mascara, os tanques de oxigênio que combinados as maquinas que apitavam tentavam esconder os gemidos de dor e tosses, e tentar dar um alivio para eles parecia por um momento apenas um prolongador daquele sofrimento. Eu precisava me concentrar e esquecer as palavras da minha mãe sobre minha asma. Eu não podia ficar com medo de me contaminar e essas mesmas palavras que tanto me assustaram e fazia que minhas pernas ficassem ansiosas para voltar e sair daquela sala também me faziam permanecer no lugar e andando a frente para o centro daqueles leitos. Ate Rita vomitando em um balde ao lado da cama.

--fala..eu to horrível né?—ela tossiu e pegando um lenço cobriu a boca e foi impossível esconder o sangue que manchou o tecido.

--como ficou assim?

--(rs)..como posso dizer. A porra de um cachorro me mordeu.—aquilo foi uma surpresa e me confundiu toda.

--o que?

--meu tornozelo..—ela falou não alcançando e tive que ajuda-la com o lençol e quando ergui vi seu tornozelo. Estava enfaixado mas sua perna estava cheia de feridas, algumas ainda vermelhas e inchadas mas outras tinha uma cor peculiarmente escura.—coça muito..—revelou ela inquieta.

--um cachorro te mordeu e você..começou a se sentir mal?

--eu fui com o Russo buscar um estoque no centro e esse merdinha estava lá no beco que estacionamos e quando entrei no furgão ele pegou meu tornozelo. Russo deu um chute no desgraçado e ele nem parecia que tinha sentido mas dai já tínhamos entrado no carro..—cuspindo sangue no balde Rita tossiu mais uma vez engasgada e esperei.—a febre, a falta de ar..vieram com tudo me ferrando. As vezes não consigo ficar acordada ate sentir  falta de ar e acordar.

--se encontrou com Lina antes ou depois da mordida?—eu tinha que perguntar e ela não escondeu o sorriso no canto da boca.

--(rs) a desgraçada contou pra você?

--fiquei curiosa.

--aquela safada...fui a farmácia e ela..sabe como fazer alguém aceitar uma rapidinha. No dia eu tava de boa e só preocupada com a mordida.

--ela ficou doente se quer saber. Só não entendo porque a doença demorou tanto para se manifestar no seu corpo..

--antibióticos doutora.eu tomei tudo que podia.(rs) isso soa tão estranho..você uma doutora.

--você foi contaminada por um cachorro. Não tinha visto nada assim ainda. Como foi os primeiros dias?

--os remédios eram frequentes e diminuíam a dor e ate melhorou por um tempo..cadê os outros médicos?

--não se preocupe com isso. Continua.

--é que eu não vi mais ninguém desde ontem...o que foi? Estão com medo da gente?—eu não poderia simplesmente falar sobre nossa mais nova crise de médicos e Rita com certeza se exaltaria.

--tem poucos funcionários. E essas feridas precisam de uma limpeza. Acho que a contaminação da react por meio de um animal deve ser diferente..

Anotei isto na minha prancheta e Rita me olhou de uma forma que só Marga havia me encarado.

--que merda é essa?!—ela tentou pegar a prancheta e por pouco quase conseguiu.

--o que?—tive que me afastar um pouco para ela não ver nada.

--ta anotando o quê que não pode me dizer?!—Rita estava desconfiada mas de forma alguma eu poderia preocupa-la.

--só algumas observações.

--então fala pra mim!é minha vida né que ta em jogo.—retrucou ela irritada.

--com os antibióticos você deve ter prolongado o tempo de resistência diante da contaminação. Eu não sei como funciona a react em animais e eu não quero te assustar sem antes ver resultados. Vou pedir ao Esteban um raio x seu também.

--mas que merda..cadê o resto das pessoas que estavam comigo?—ela olhou em volta e percebeu alguns leitos vazios e parecia bem ofegante. Ela não tinha percebido?

--...elas morreram Rita.—temi informa-la disso mas Rita estava ficando desorientada..

....como? Eles estavam todos vivos bem aqui. Alguns estavam bem!—ela começou a se exaltar e eu sabia que tinha feito merda falando aquilo.

--eu quero que descanse.

--não, eles estavam vivos!!

--Esteban e eu vamos preparar uma nova medicação. Vou ter que estudar seu caso mais a fundo.um cachorro né.

--some daqui Mari. Você ta me zoando?!eles estavam vivos droga!!—ela estava ficando furiosa e bem perto de ter uma crise.

--não estou te zoando Rita, a contaminação no estagio dois é muito mais perigosa.

--eu sinto no seu tom!ta ficando igual a Marga!

Ela tava delirando e com uma nova crise de tosses eu tentei ajuda-la a virar mas ela bateu na minha mão e me afastou. Ela tava puta comigo não sei porque.

--só estou tentando ajudar.

--vai se foder!!—gritou ela e sua voz ecoou na sala.

Deixei a sala e assim que sai vi Esteban e Juliana correndo para o portão.

--o que foi?

--é o caminhão, ele chegou.

--não!!—falei e os dois pararam seus passos.—Esteban poderia me levar no necrotério?

Ele olhou para Juliana surpreso, mas acenou.

Descemos os três ao necrotério e a sala de corpos estava cheia, todos devidamente ensacados.

--o que vai fazer?—perguntou ele curioso me vendo examinar aquela bagunça.

--Rita disse que eles estavam bem antes de morrer..

--e ela também vive dormindo. Como pode ter percebido alguma mudança??—disse Juliana um pouco inquieta com os corpos ensacados.

--..eu quero um raio x de uma deles também.—falei e vi Esteban abrir bem os olhos.

--o que???isso é loucura!—retrucou ele.

--temos que ser rápidos. Antes que o controle de doença entre.

--mas eles já estão aqui!—temeu Juliana com a ideia.

--então rápido, separa um deles.

--o que??sabe que não podemos manter eles aqui né?

--Esteban me ajuda porra!e Juliana vai la fora e ajuda os caras do controle a entrar e levar estes.

Levamos o corpo de um dos mortos para a sala de raio x e os barulhos vindos da entrada estavam me irritando.

--eu não sei o que pretende com isso.

--é só um tira duvidas e espero que estes sejam os únicos contaminados aqui do morro. Você cuida do raio x?

--claro, sei que esta doida pra ver a bagunça la fora.

Retirei o macacão e a mascara devidamente e depois de me higienizar segui rumo ao portão onde a muvuca estava feita.

--o que eles estão fazendo??—perguntou uma mulher no portão observando a leva dos corpos.

--pra onde vão levar os corpos??—perguntou outra temerosa.

--pessoal, não podemos manter os corpos aqui.—Juliana falou e mais uma onda de indignação.

A multidão começou a cercar o caminhão e estavam revoltados e a cada corpo levado o choro e a raiva tomavam de conta deles, algo que nem mesmo as mulheres de Marga souberam controlar.

--a gente quer enterrar os nossos!—gritou um.

--o que fizeram com eles??!!—perguntou uma mulher na multidão.

De repente um tiro para o alto e um silencio esmagador. Marga chegou.

Notas finais:

Gente esse capitulo só mostrou como Mari esta empenhada em descobrir uma forma de salvar as pessoas contaminadas. ela ta se colocando em risco pra socorrer a todos e resolver esse grande misterio da Roberta e seu diario.

enfim digam ai nos comentários o que estão achando da historia.

Capitulo 21 O cão por millah

 

--mas que merda ta acontecendo aqui?—perguntou ela e uma mulher de sua guarda se prontificou.

--eles estão levando os corpos! Nem soubemos que nossos parentes tinham morrido.

Marga me encontrou na multidão e eu via o quanto ela tava puta com aquela situação. Ela respirou fundo e guardou a arma vindo ate mim.

--Mari,que merda você já fez!??—ela estava impaciente com tanta raiva.

--quando eu cheguei trinta tinham morrido e os corpos não podem ficar aqui. Devem ser retirados e levados.—a avisei mas Marga agarrou minha camisa e me puxou.

--como se fossem descartáveis? Como se não fossem nada?

--só se todo mundo aqui ainda não entendeu que essa porra de doença é altamente contagiosa! Os mortos estão vazando sangue e foi preciso apenas dois dias para que eles não suportassem mais toda a dor!! Nem mesmo com a ajuda dos medicamentos. Eu sei o quanto é difícil para todo mundo perder seus parentes e não poder se despedir deles adequadamente mas é preciso. Então por favor, vão para casa.—falei em tom alto e firme para que todos pudessem ouvir. E pelo silencio eles ouviram e com isso me soltei de Marga.

Luciana aproveitou e entrou levando consigo os agentes de saúde mas eu ainda estava ali na frente de todos e Marga quando uma mulher abriu caminho ate mim.

--Mari,sei que você nunca perdeu ninguém na sua vida já que só tem sua mãe e ela anda muito bem de vida..mas do fundo do seu coração, pode nos garantir que vai salvar todos os outros, todos aqueles que ainda respiram la dentro??

Aquela mulher, eu não queria mentir para ela quando sabia o valor de cada palavra minha agora responsável pelas vidas do posto. Não era só uma pergunta mas sim uma resposta para varias mães e maridos, filhos e avós. Eu jamais daria a eles o que eu não podia dar a mim. A esperança que conseguiríamos. Eu não ia mentir e ela entendeu meu silencio e partiu. Partiu assim como os outros e os poucos que ficaram a espera dos corpos viram apenas os sacos embalados serem depositados no caminhão. Aquilo não bastava para satisfazer ninguém e me lembrou que contra aquela doença tudo poderia dar errado.

--você ta bem?—Marga me perguntou e tentei esquecer que há minutos atrás ela também me acusava.

--o que você acha? E pior que essa senhora ta certa. Eu to tentando acertar mas sempre que eu chego perto de uma resposta acontece algo novo..é porra de bactéria, é cachorro..e nisso vai morrer gente e vão me culpar e como vai ser??

--para de ser negativa! Que a bactéria e essa merda de cachorro do caralho que se fodam! Nem sei que cachorro é esse mas..

Olhei para Marga e realmente ela parecia confusa tentando entender onde um cachorro se enfiava na react e com isso tive que rir e ela por um momento esqueceu aquela cara amarrada e também soltou um riso.

--Eu coloquei você nessa merda de posto porque sabia que conseguiria fazer algo por essas pessoas.com uma equipe ou só voce..eu sei que não vai desistir.

O raio x que pedi demoraria umas duas horas para sair o resultado e com aquela historia de Rita sobre o cachorro que a mordeu me atiçando de curiosidade e nenhum caso registrado no diário de Roberta eu vi no bom humor da Marga algo que me ajudaria a entender.

--ta livre agora?—perguntei e Marga me olhou interessada.

--para que?

--dar uma volta no bairro comercial.

--HEY!!—Lina descia a rua e já chamava nossa atenção.—sua mãe ta me explorando. Pensei ate em tirar um atestado pro meu ombro.(rs) ela quer limpar a casa toda!

--quer sair com a gente?—perguntei.

--pra onde?

--e quanto a Alice?—Marga logo me lembrou da loira e tentei não temer essa saída do morro.

--vai ser rapidinho.—falei tentando não parecer que teríamos um serio problema se Alice nos pegasse.

Marga e Lina se olharam mas concordaram em ir mesmo não sabendo direito o que faríamos.

--a gente vai com o esportivo né?—empolgada Lina perguntou a Marga enquanto caminhávamos para casa.

--por que tem sempre que escolher meus carros mais caros?

--ué você não comprou pra ficar na garagem pegando poeira.

--vai chamar atenção.

--ok,escolhe ai.eu nunca escolho nada mesmo.—Lina embirrou e Marga riu.

--que dramática. Não sei porque chamou ela Mari.

--porque a Mari me adora e ai?!vai fazer o que?

De repente minha mãe apareceu saindo da garagem e Lina na mesma hora desgrudou o braço de mim.

--não vai me ajudar na faxina mas vai ganhar o rumo com essas duas?—perguntou ela a Lina que pensou bem antes de responder.

--é que..meu ombro ainda ta dolorido dona Helena.—eu tentei não rir vendo ela lançar seu olhar pra mim e para Marga. Estava na cara que ela estava mentindo.

--não me chama de dona que da vontade de te matar. Mari para onde vão?—deixando o saco de lixo na lixeira minha mãe esperava pela verdade.

--ver um pet no bairro comercial.—respondi e ela me olhou confusa.

Marga logo me olhou e acho que entendeu a referencia.

--um pet?não me inventa de trazer um bicho pra cá ein Mari.

--um pet?tipo um cachorrinho ou um gatinho? Mari combina mais com um gatinho. Uma cadelinha também seria show de bola ein?tipo eu.

--você não sossega mesmo esse rabo né.

--(rs) pena que não faço o tipo da Mari.—Lina falou e minha mãe e Marga pareciam um clone uma da outra já que me olharam no mesmo instante e do mesmo modo inconformadas. Olhei para Lina e acho que bastou ou talvez as chamas nos meus olhos prontas para fulminar a Lina foram o suficiente.—quero dizer...os boyzinhos né?por isso não faço o tipo dela.

--boyzinho né?—disse minha mãe avaliando tudo muito pensativa.

--é ela prefere..os malzinhos.—Lina falou e eu queria matar ela. Marga não parava de me julgar com aqueles olhos fixos em mim.

Na bancada atrás dela reparei que no meio de varias ferramentas tinha um taco de baseball e não hesitei, fui ate la e o entreguei a Lina.

--o que é isso?—perguntou ela recebendo o taco.

--acho que vamos precisar.—respondi mesmo não gostando da ideia.

--então a porra do cachorro não era uma piada.(rs) que merda.

Lina estava confusa mas entramos no carro e minha mãe suspirou nos vendo prontas pra partir.

--cuidado viu..—disse ela na minha janela.

--vou ficar bem mãe.

--ela vai ficar bem Helena.—respondeu Marga e minha mãe acenou confiando em sua palavra.

Marga ligou o carro e partimos para o endereço que Rita me deu.

--então quer dizer que a react também contamina animais?—indagou Marga pensativa.

--pois é. Rita foi mordida no bairro comercial só que ela estava se auto medicando durante esses dias e de alguma maneira desacelerou a contaminação ou simplesmente pode ser da própria contaminação. Por fim das duvidas quero ver esse cachorro.

--quer ver.(rs) oh marga, com esse porrete eu não vou ficar encarregada de bater nesse bicho não né?—perguntou Lina com o taco na mão.

--é, só se for necessário. Pra nos defender.—ressaltou Marga enquanto dirigia.

--Ele atacou Rita e foi algo bem sorrateiro.—avisei lembrando o tornozelo dela.

--como você não percebeu que ela tava fodida?—Marga esperou uma resposta de Lina.

--ela tava de boa.eu vi o enfaixado no tornozelo mas nem ela tava ligando. Eu me superei na rapidinha.(rs) depois daquele dia na sorveteria vendo ela com aquele vestidão e com um pouco de cachaça na minha cabeça eu vi que..no fim do expediente..dava pra rolar.

--ta vendo..o perigo que ela é.—me avisou Marga e eu estava mais que surpresa pela coragem da Lina.

--e quanto ao russo? A montanha ambulante parece que nem pegou.—Lina me fez pensar.

--são esses tipos de casos que eu não entendo. No diário da Roberta também continha relatos de casos que de alguma forma só contaminaram um individuo. Mesmo essa pessoa tendo contato indireto com o paciente nada aconteceu mas também devemos relevar porque temos que estudar cada caso individualmente.

--não vejo ele desde a festa.

--que coisa estranha.

--acha que vai encontrar as respostas no pet?pois espero mesmo. Porque não vou ser presa por causa de uma porra de cachorro.

--seria engraçado.

--(rs) bem engraçado. A grande Marga presa na cidade enquanto catava um cachorro sarnento na rua. Sua fama ia pro buraco.—Lina riu e me contive.

--sabe o que essa doença ta me lembrando? O apocalipse. Começa assim, como quem não quer nada e acaba levando tudo ate o mais puro inocente. A porra de uma pandemia.—Lina perdeu a graça com o senso de observação de Marga e claro isso era algo a se pensar.

--nos avisariam se fosse.—falei.

--e se eles não querem nos avisar? Tipo aquele filme da onda gigante e que tinha uma arca.—retrucou Lina curiosa.

--2012?—respondeu Marga.

--isso!!

--(rs) estamos falando de uma doença que querendo ou não ela é controlável. O estagio um é um exemplo perfeito disso. Sendo medicado nas primeiras horas você se livra da react.o problema é o estagio dois e assim que se desenvolve. Depois no segundo dia..algo acontece para os remédios não funcionar mais...algo que não da pra controlar.

--e..como que ta a Rita?—perguntou Lina interessada.

--puta.—respondi.

--eu também ficaria.

Chegamos a rua e o beco onde Rita e Russo pegaram o estoque e onde encontraram o cão não era tão animador.

Estreito, longo e molhado. Era um corredor de portas dos fundos de varias lojas e nenhum cachorro a vista.

--então, o que pretende fazer com este cachorro?—perguntou Marga deixando o carro.

--pesquisa.—respondi fazendo o mesmo.

--olha se esse sarnento me morder..

--só precisamos acha-lo.com toda certeza ele deve ter se assustado com Rita e o Russo.—falei já procurando.

--(rs) claro! O cara parece uma parede ambulante!—Lina e seu bastão já estavam de vigia.

--você reza pra ele não descobrir que é você quem bota os chifres dele. Deve ta ate pesado.(rs)—Marga recostou no carro e a risada de Lina só mostrava que ela tinha adorado a piada.

--eu faço serviço completo. aparo ate os chifres para ver ele feliz.—retrucou ela.

Enquanto aquelas duas riam de besteira e esqueciam o motivo que estávamos naquele beco dei alguns passos adentrando e notei um movimento no meio dos sacos de lixo empilhados. Eu esperei mais um movimento mas não aconteceu nenhum.

--Mari.—Marga me chamou e quando olhei para ela ouvi novamente o mesmo barulho e bem mais forte.

Foi rápido mas recuei dois passos e esperei que do meio daquele lixo não brotasse um cão que comesse minha cara de tanta raiva ou tivesse as mais feias feridas, espumando pela boca e quando foi nítido que algo realmente sairia dali eu ouvi a corrida de Lina ate mim me puxando para trás dela e seu taco.

Lina tava bem concentrada e eu bastante curiosa atrás dela. Marga por outro lado nos observava ao lado do carro e estava pronta para agir já que vi sua mão puxar a pistola. Eu só esperava que aquele cachorro não nos atacasse porque Lina parecia ser bem forte e quando vi a primeira pata deixar seu esconderijo eu me agarrei na sua camiseta.

--para!!!!—gritei antes dela dar a primeira tacada e diferente do que imaginei um cachorrinho de pelo cinza, sujo e molhado nos olhou com um tom de piedade que era impossível machucar aquele baixinho.

Lina parou na hora que percebeu e quando trocaram olhares o rabinho dele começou a abanar.

--mas olha que safado.(rs)—Lina respirou aliviada e riu.

--você quase se borrou Lina.(rs)—Marga completou rindo.

--ele é bem diferente do que a Rita falou.—falei estranhando o cachorro ser tão calmo.

--deve ser outro cachorro.—respondeu Marga já impaciente.

--se fosse outro cachorro esse aqui não ia ta nem vivo perto do outro, ainda mais vivendo no mesmo beco.—disse Lina abaixando a guarda.

--de jeito nenhum. Essa coisa fofa ate que é lindinho né?—falei vendo ele abanar aquele rabinho.

--combina com você.

--cala a boca Marga.—respondi e Marga continuou com a mesma cara em alerta.

Lina me entregou o taco e pegou ele, e o cachorrinho parecia estar se divertindo sendo notado e recebendo carinho. Ele cheirava a poeira e a lixo então meu nariz começou a coçar mas eu precisava checar ele.

--Lina bota esse cachorro no chão. A Mari vai acabar tendo uma crise com esse sujinho.—reclamou Marga.

--ah mas ele é bacana! O único macho que eu gostei nessa vida em tão pouco tempo.(rs) olha Marga!—Lina estava mais que feliz segurando o cãozinho.

--se essa é a fera que viemos buscar eu vou ficar bem irritada Mari.—Marga me olhou cansada dessa historia mas minhas suposições não paravam por aqui.

--e se ele tiver...fugido?—perguntei.

--você acha?—retrucou Marga revoltada.

--eu só to falando.—virei minha atenção para o cãozinho e enquanto ele era entretido com Lina verifiquei suas orelhas, suas patas e sua boca mas assim que abri um pouco mais do que ele queria um rosnado alto dele foi o suficiente para me alertar. Ele tentou me atacar mudando totalmente de personalidade e se não fosse por Lina o segurando eu estaria frita.

--mas que merda!!—Lina gritou.

Um tiro ecoou no beco e Lina soltou o cachorro morto no chão. Marga se aproximou guardando sua arma.

--você..matou ele..—falei olhando para o cachorro a sangrar no chão.

--era ele ou sua cara!—disse Marga brava.

--cacete...ele mudou do nada!—Lina estava perplexa.

--É, e graças a Marga agora vou ter que examinar um cadáver!—falei e Marga me olhou surpresa.

--(rs) você é igualzinha a sua mãe. Se não percebeu eu te salvei. Porra é difícil agradecer?

--pra você? É!!—peguei um saco de lixo e derramei toda aquela merda no chão e catei o cachorro e coloquei no saco.

--entendeu porque não uso meus carros caros?—Marga apontou pra mim e Lina permaneceu calada.

Voltamos para o morro e Marga me entregou o saco.

--vai fazer seu trabalho.—disse ela toda raivosa.

--espera ai.—antes dela me dar as costas eu tinha que me posicionar.—ta achando mesmo que vou fazer isso sozinha? Você matou, você vai enterrar.

--é só um pulguento.

--...será que você não se importa? Nem um pouco?!Como consegue se desligar ao ponto de não sentir nada?—perguntei e ela só me encarava me desafiando a achar minhas próprias respostas com aqueles olhos escuros que as vezes me faziam acreditar que escondiam o pior de Marga era o pior naquele silencio.

Ela balançou a cabeça negativamente e suspirou pesadamente. Parecia que tudo relacionado a mim parecia um peso para ela.

--Lina, vá cuidar dos portões.—ordenou ela a Lina.

--mas eu também quero ver.—a voz da Lina quase não saiu de sua boca de tão fina.

--vai!

--que saco Marga!

--tudo pela nossa doutorazinha do morro.—disse Marga com seu sorriso estampado no rosto.

Seu deboche era um saco mas ela se dirigiu comigo ao posto e por incrível que pareça aquele cachorro estava começando a feder mesmo dentro do saco fechado.

No necrotério coloquei umas luvas e Marga me observou abrir o saco e depositar o cachorro na bandeja de exames.

--nossa...que cheiro horrível.—reclamou Marga tampando a boca com a mão.

Tentei ser rápida.com o ferimento da bala ele sangrava e dificultava na verificação do seu corpo. Os pelos dele foram praticamente pintados de vermelho mas me concentrei e tocando no seu couro senti algumas feridas, também encontrei algumas embaixo dele onde elas eram pequenas mas idênticas as que encontrei em Rita. Na sua boca mais feridas, talvez por causa delas ele tenha me atacado. Peguei e retirei uma amostra de sangue e fiz meu trabalho todo sendo observada por Marga em silencio e isso só deu a ela motivo para ficar mais impaciente e observar tudo ao seu redor encontrando o ultimo morto ensacado do grupo do estagio 2.

--pensei que todos os mortos tivessem sido levados pelo controle de doença.—ela virou pra mim mais que surpresa.

--precisei dele para fazer um raio x.

--e ele vai ficar aqui no cantinho embalado ate quando?

--ah com o defunto você se preocupa?

--agora vai ficar com raiva de mim por causa desse..sarnento?!?Se me trouxe aqui para me fazer sentir culpada ou algum tipo de arrependimento ou remorso não vai conseguir. Eu fiz o que tinha que fazer. Ele ia arrancar sua cara! Preferia assim??porque eu ia te costurar igual a Frankenstein.

--(rs) você atirou e não parou para pensar que era uma vida. Que poderia errar e nos machucar.eu olhei para você e...

--e?

--eu não vi nada. Nenhuma empatia por ele, nenhum traço sequer que isto te afetou.

--e esta triste por mim ou por ele? Conhecendo você diria ambos. Não vai ser a primeira a me chamar de psicopata.—ela ate baixou o olhar ao terminar de falar algo tão ruim de si mesma.

--eu jamais falaria isso pra você.—retruquei na hora e ela me olhou novamente.

De repente Esteban entrou e ficou surpreso em me ver em mais uma situação estranha.

--Juliana me falou que estava aqui e..os exames estão prontos. Eu os coloquei no consultório da Roberta. Espero que..não se assuste.

Virei minha atenção a Esteban e ate Marga ficou curiosa.

--fica