No meio de tudo, você. por JuliaR
Summary:

Alice vivia uma vida tranquila, familia, estudos, namorado tudo estava em perfeita harmonia. Tinha seus sonhos e objetivos traçados, era aparentemente satisfeita mesmo que no seu íntimo ela soubesse que lhe faltava emoção. Tudo muda quando seu caminho inevitavelmente se cruzará com um alguém desconhecido e capaz de quebrar todas as suas barreiras.


Categoria: Romances Characters: Original
Challenges:
Series: Nenhum
Capítulos: 32 Completa: Sim Palavras: 72336 Leituras: 147032 Publicada: 29/09/2015 Atualizada: 22/12/2016

1. Capítulo 1 por JuliaR

2. Capítulo 2 por JuliaR

3. Capítulo 3 por JuliaR

4. Capítulo 4 por JuliaR

5. Capítulo 5 por JuliaR

6. Capítulo 6 por JuliaR

7. Capítulo 7 por JuliaR

8. Capítulo 8 por JuliaR

9. Capítulo 9 por JuliaR

10. Capítulo 10 por JuliaR

11. Capítulo 11 por JuliaR

12. Capítulo 12 por JuliaR

13. Capítulo 13 por JuliaR

14. Capítulo 14 por JuliaR

15. Capítulo 15 por JuliaR

16. Capítulo 16 por JuliaR

17. Capítulo 17 por JuliaR

18. Capítulo 18 por JuliaR

19. Capítulo 19 por JuliaR

20. Capítulo 20 por JuliaR

21. Capítulo 21 por JuliaR

22. Capítulo 22 por JuliaR

23. Capítulo 23 por JuliaR

24. Capítulo 24 por JuliaR

25. Capítulo 25 por JuliaR

26. Capítulo 26 por JuliaR

27. Capítulo 27 por JuliaR

28. Capítulo 28 por JuliaR

29. Capítulo 29 por JuliaR

30. Capítulo 30 por JuliaR

31. Capítulo 31 por JuliaR

32. Capítulo 32 por JuliaR

Capítulo 1 por JuliaR

Meu nome é Alice, vivo uma vida pacata, apesar da juventude dos meus 19 anos, não me enquadrava no perfil de uma jovem da minha idade, aventuras e irresponsabilidades nunca estiveram presentes de forma acintosa em minha vida, apesar de me divertir de maneira saudável.

Era Virginiana, e como não podia ser diferente, tudo que eu fazia era pautado numa linha tênue entre o certo e o errado, o que é socialmente aceito ou não. Minha personalidade mais conservadora me impedia de certos atos, me autocensurava, buscando sempre dar o melhor, ser a melhor. Essa mania de perfeição que era constante em mim.

Vinha de uma família tradicional, pais separados. Meu pai era empresário, enquanto minha mãe uma estilista famosa que vivia rondando colunas sociais, apesar de não ter o mínimo interesse em holofotes, entendia que aquele era o trabalho dela, e o quanto ela se esforçou para chegar até ali.

Estudava Direito, cursava o sétimo período, pretendia seguir a carreira de advogada, apesar de saber as mazelas que a profissão padecia.

Tinha dois irmãos, João o mais velho, e Guilherme, que faleceu quando ainda criança éramos gêmeos e até hoje sinto que algo em mim esta mutilado, talvez essa experiência, apesar de traumática, tenha servido para que eu desse mais valor a vida e as pessoas a minha volta.

Namorava Bernardo há 2 anos, e sabe quando você tem a sensação de que  nasceu para amar alguém? O frio na barriga só de estar perto? Vontade de passar a vida inteira do lado de alguém? Pois é, nunca senti isso.

Não, nunca, em tempo algum.

Ele me tratava bem, tinha caráter, tinha os mesmos propósitos que os meus, era uma boa companhia, e naquele momento aquilo me bastava.

Até aquele momento...

Minha mãe havia me lembrado que tio Antoni  vinha nos visitar e em comemoração um jantar os aguardava. Dessa vez vinha com a noiva, namorada, esposa, não sabia bem, trocava de mulher freqüentemente.

--Espero que não tenha esquecido do jantar hoje, filha. – Minha mãe havia dito pela terceira vez em um só dia.

--Bem que queria esquecer. –Disse com enfado já prevendo o que estava por vir.

--Não fale assim, ele é meu irmão, seu tio. Não quero desavenças na família.

--Diga isso a ele, não sou eu quem se apossou da herança deixada por meus avós— falei por impulso

Disse tão espontaneamente e por quase um segundo me arrependi ao ver o olhar triste de minha mãe sobre mim. Não queria magoá-la, mas minha mãe era daquelas pessoas que tem o coração grande demais, perdoava fácil demais, esquecia.  Fui até ela e depositei um beijo em seu rosto.

--Desculpa, não quis te magoar. Estarei lá para recebe-los, não se preocupe.

Apesar da pouca idade, recordava de ter passado minha infância vendo minha mãe trabalhando dias a fio, para salvar a empresa dos meus avos, enquanto Antoni  torrava a herança, deixando um rastro de dívidas.

Agora, anos mais tarde, tentava passar uma imagem de homem correto, empresário de sucesso, responsável. A quem ele queria enganar, eu não sei, mas a mim não convencia.

Agora ele viria apresentar sua namorada, não a conhecia, apesar de mamãe ter dado boas referências. Dificil de acreditar na credibilidade de alguém que namora com Tio Antoni. Deve ser mais uma dessas mulheres fúteis que só pensam em dinheiro.

Enfim, já estava no meu quarto, pronta para me arrumar, apesar de mamãe ter dito que seria um jantar simples, só com a família, não deixei de me precaver e vesti algo mais formal.

Um vestido amarelo com detalhes dourados, salto alto, uma maquiagem leve realçando meus olhos e os cabelos ruivos soltos ondulados.

Do meu quarto já podia ouvir musica instrumental que tocava, desci a escada dando de cara com rostos conhecidos, alguns primos distantes, amigos da família. Cumprimentei todos educadamente enquanto me sentava no sofá, acompanhando a festa de maneira distante, enquanto era servida com vinho pelo garçom.

Ouvi um burburinho vindo da sala principal, levantei já sabendo o que me esperava, aproximei e de longe vi o casal que ainda de costas era rodeado  de pessoas que cumprimentavam.

A mulher  tinha os cabelos loiros numa trança francesa, o vestido mostrava parte das costas, onde uma tatuagem colorida se fazia presente.

Não sei ao certo o que aconteceu comigo, quando ela se virou e aqueles olhos se encontraram com os meus.  Foram segundos, mas o suficiente para me deixar paralisada.

Azuis, profundos demais.

Misteriosos, eu diria.

O que pareceu segundos foi o suficiente pra fazer meu coração disparar. Aliás, qual a necessidade de bater tão descompassado?  Era apenas Tio Antoni e a namorada.

Nosso contato foi quebrado quando mais uma pessoa foi cumprimentá-la dando boas vindas. Não sei o por quê, mas algo me dizia que aquilo não era bom, virei de costas e caminhei até a mesa onde serviam bebidas, minha boca estava seca, e enquanto bebia em pequenos goles a taça de vinho sentia alguém me observar. Senti minha nuca queimar, tamanho desconforto que sentia.

‘’Visão periférica’’—Pensei, mas evitei olhar para trás, não queria dar de cara com aquele mar azul.

A voz de mamãe, próxima a mim me tirou da abstração do meu pensamento.

--Filha, vem cá cumprimentar seu tio! –Falou animadamente enquanto segurava minha mão.

Suspirei, contei até 10, deixei a taça sobre a mesa com receio de derramar o vinho, tamanho era o tremor das minhas mãos.

Caminhei até eles, sendo observada minuciosamente por ela, que me sorria de forma contida.

--Ora vejam só, se não é minha sobrinha! —Tio Antoni me abraçou sorrindo.—Quero que conheça Letícia, minha namorada.

Ela me cumprimentou com dois beijos na face, senti meu rosto queimar no simples roçar dos lábios dela em minha bochecha.

--Prazer, Letícia.—Disse coma voz baixa, quase sussurrada.

--Mas pra que tanto formalismo, ainda mais agora que ela será sua tia.—

Sorri sem graça para ela, em resposta ao sorriso aberto que ela me deu.

--E qual é o nome da minha sobrinha? –Perguntou com um sorriso divertido nos lábios enquanto  os olhos que bailavam sobre mim pareciam curiosos e analíticos demais.

--Alice- disse ríspida, querendo a todo custo dispersar meus pensamentos

--Protetora...—

--Como? –Falei sem entender o que ela queria dizer com aquilo

--O significado do seu nome...-Disse me sorrindo, olhando em meus olhos.

--É um nome lindo, eu que escolhi, nome tão lindo quanto meu bebê—Mamãe falou apertando minha bochecha e beijando o alto da minha cabeça.

 

Não precisava daquilo tudo, ali não, não na frente daquela mulher que nem sequer conhecia, mas me senti profundamente constrangida em saber que ela presenciou aquela cena, minha mãe me tratando como criança. Definitivamente constrangedor.

Aproveitei a conversa entretida entre minha mãe e Antoni, e pedi licença, dei voltas pelo salão principal tentando inutilmente acalmar o turbilhão de sentimentos confusos que habitavam meu peito. Por algum motivo, até então desconhecido por mim, não fui ao jantar aquela noite, disse a mamãe que não estava me sentido muito bem, que ia deitar.

Achando que uma boa noite de sono seria capaz de dissipar meus sentimentos dúbios, enganei-me.

Foram os olhos azuis que estiveram presentes em meus sonhos.

 

A noite toda.

Capítulo 2 por JuliaR

Depois de sonhos um tanto confusos, onde me entregava aos beijos com alguém, que não se parecia em nada com Bernardo, alguém que tinha o olhar forte e intenso demais, no sonho havia uma atmosfera de sedução que não sobe explicar, quanto mais entender, vários flashes em que se quer sabia distinguir a boca que tocava a minha.



Acordei, com uma ressaca DA-QUE-LAS, se é que podem me entender...



 



E como não basta estar de ressaca, tinha que ser acordada por uma mãe aos berros, puxando o cobertor.



 



--MEU DEUS, NÃO ME TIRE ELA AGORA NÃO POR FAVOR, NÃO NÃO! –Ouvia uma voz aguda, estridente, alta, perto da minha cama.



-Mã, ma..MÃE o que a senhora ta fazendo? Me acordando assim na melhor parte – respondi irritada, enquanto via aquele ser com olhos esbugalhados lhe olhando.



 



-Graças a Deus, ta viva, meu bebe! – sorriu me apertando em seus braços, com tanta força que me deixava sufocada



 



--O que a senhora pensa que está fazendo? – Falou a ver a porta do seu quarto -o qual tinha  trancado na noite anterior--completamente escancarada.



 



--Meu bebe, você está dormindo a 15 horas seguidas!, Achei que você tinha morrido minha filha! ou sofrido algum acidente, caído no banheiro talvez....A  porta estava trancada! Como saberia se você estava bem? Se estava viva? Tive que arrombar a porta, e ainda vejo você deitada sem nem ao menos se mexer, então resolvi tapar seu nariz pra ver se você conseguia respirar, já que a sua pulsação estava tão fraca. fiz técnicas que aprendi no meu curso de...



 



--Ta mamãe, não precisa contar o resto, ok! Eu não sei porque ainda me surpreendo com a senhora, por que sinceramente...Vem me acordar bem na hora, na hora que eu...- falei tão emburrada quanto perplexa com a atitude e a tagarelice de minha mãe.



--Que você o que? – Perguntou-me sem entender



-Nada mamãe, esquece. Já me acordou mesmo – Respondi com aflição, vendo que já ia falando demais



-Perdoa, bebe? Mamae tava preocupada com você...-  Liza fez uma cara tão penosa  que não resisti



--Que mania de me chamar de bebe, mas perdôo, né, fazer o que, se te amo...- levantei ainda tonta pelo efeito da ressaca e abracei minha mãe.



Sorri imaginando como uma mãe poderia ser tão protetora como a minha mesmo vivendo ocupada com o ateliê, nunca se fez distante de mim e do meu irmão. Mimava sempre que possível, fazia minhas vontades, talvez por isso eu tenha tanta dificuldade em aceitar que nem tudo é como eu quero.



Voltando minha memória a noite anterior, não posso negar que fiquei surpresa com a chegada de Tio Antoni, não por ele, que não mudou em nada. Mas pela namorada.



Era bonita, bem, na verdade era linda, tinha um porte altivo, elegante. Não era tão jovem quanto eu, mas também não era tão velha como Antoni, devia ter uns 30, não muito mais que isso.



O cabelo loiro, a cor da pele apesar de clara, aparentava um leve brônzeo nas marcas de biquíni que ficam acima dos seios.



Bem, eu reparando nos seios dela, era no mínimo inusitado.



Mas apesar de dispersa, não deixei de notar que ela me olhava com a mesma amplitude que eu a ela. E foi perceptível a surpresa quando Antoni me apresentou como sua sobrinha.



‘’Sobrinha’’, não sei precisamente o porquê, mas não fiquei a vontade com aquela nomeação.



Alice, sua louca deixe de pensar besteiras, para quem até ontem não a conhecia, já está pensando demais nessa senhora.

 

Deixei de lado pensamentos confusos, olhei o relógio que já marcava 4 horas da tarde,  fui em direção ao banheiro tirando a roupa disposta a tomar um banho relaxante, revigorante. Enchi a banheira e liguei o aparelho de som: Head Over Hells – Tears of Fears. Cantei empolgada, no ritmo, enquanto estalava os dedos imitando as batidas da musica. Terminei o banho, e vi uma bandeja de ‘’café da manhã’’ na cama, sorri.



--Mamãe não tem jeito.



Desci as escadas lentamente, olhando para os lados, procurando alguém, como quem não quer nada. Ninguém na sala, ninguém no jardim, na varanda..Fui a cozinha.



--Boa tarde, Babá!—Falei com Nona, a secretária que desde criança cuidava de mim.



Sim, quando era criança a primeira palavra que disse foi ‘’Babá’’, apelido que ela leva até hoje. O nome dela de verdade era Maria, mas nunca me acostumei a chamar assim. O amor que ela tinha por mim era maternal, me conhecia como ninguém e eu a amava como se fosse minha segunda mãe.



--Boa tarde, Alicinha. Seus tios foram conhecer a cidade —respondeu animada enquanto beijava o alto da minha cabeça —Você viu a namorada do Antoni? Como é linda e simpática!



Quando finalmente esqueço ela por um segundo, vem a babá e me lembra da criatura.



--Jovem também, deve ter idade pra ser filha dele... – falei enquanto comia uma fatia de bolo, tentando não mostrar muito interesse



--Não é pra tanto, menina! E se for também, não é problema. O amor não tem idade, não é mesmo? --Babá gargalhou



--Sei não, Nona. Vou para casa do Bernardo, não sei que horas volto.—Falei me levantando a caminho da porta de saída.



--Não vai ficar para o jantar? –Perguntou risonha



--Provável que não, beijo.—Disse enquanto saia



 



Fui para casa de Bernardo, de lá fomos para um clube com amigos, ele com os dele, eu com o meus, ficamos conversando amenidades, enquanto bebiam, menos eu, é claro. Ainda sentia o efeito da ressaca do vinho, isso que dá não ter o costume de beber. Enquanto Bernardo ficava na piscina com os amigos dele, eu tentava manter um diálogo com Ana e Patrícia, minha amigas, enquanto meu pensamento ainda estava longe



--Ta dispersa hoje, hein Alice. –Ana falou interrompendo meus pensamentos



--Como?  --Perguntei enquanto elas sorriram



--Você ta bem? –Patrícia perguntou olhando para mim



--Claro que sim, por que?



--Estamos conversando a meia hora e você até agora não falou nada, parece que ta no mundo da lua. É algo com o Bernardo?—Ana perguntou visivelmente preocupada



--Até parece que Alice se incomoda com Bernardo --Patrícia falou sorrindo



--Ai, também não fala assim, Patrícia... –Ana falou censurando



--Sério, e existe namoro mais sem sal que o de vocês? Sem querer ofender!



--Acho que no fundo Patrícia tem razão, Ana.  Nosso namoro está pautado na comodidade... —falei com pesar, apesar de tudo me sentia mal por não corresponder a altura o que ele sente.



--Namoro unilateral, ninguém merece. Bernardo é legal, mas ele é certinho demais, que nem você amiga. O almofadinha e a princesinha, isso só dá certo em contos de fadas... –Patrícia falou enquanto bebia um gole de uísque



--Isso é jeito de falar! –Ana falava indignada enquanto dava um tapinha no braço de Priscila. --Eu acho Bernardo um cara legal, estudioso, trabalha bastante, responsável. E sim vocês formam um casal lindo. –Ana falou fuzilando Patrícia com o olhar



Me diverti com a cena, era sempre divertido sair com elas, enquanto Ana era como uma mãe para mim, sempre me dando conselhos, cuidando, me ajudando. Patrícia mais parecia uma criança, agia sem pensar nas conseqüências, falava o que vinha a mente,  para ela tudo era fácil demais, prático, tinha a imaturidade daqueles que só fazem o que tem vontade.



--E eu não disse a verdade? Acordem, a vida é curta demais pra ficar perdendo tempo com quem a gente não ama. Tanta gente no mundo, tantos lugares, pessoa, bocas, sorrisos e vocês se anulando pra vida! Isso é um desperdício de vida! –Falava com tão convicta que era impossível não rir.



Apesar de ter levado na esportiva o que Patrícia falava, não deixei de refletir sobre o que ela dizia, não fazia sentido estar num relacionamento que não trazia felicidade, aliás, nem sabia se cabia felicidade no mundo tão perfeitamente ordenado como o meu.  Sentia inveja --uma inveja branca, claro—de Patrícia, da liberdade com a qual ela vivia, desprovida de medo do que os outros achariam.



--Você tem razão, Patrícia. –Ana me olhou assustada, como se não esperasse aquela frase vinda da minha boca.



--Até Alice me deu razão, ta vendo Ana!



--Você fala como se tudo fosse muito fácil— Ana devolveu em tom crítico.



--Vocês complicam demais as coisas, como disse Florbela ‘’Só se pode ser feliz simplificando’’



Sorri, Patrícia era uma graça, seja qual for o assunto nunca deixava de lado o tom poético, como se isso dessa mais veracidade ao que dizia, melhorasse seus argumentos.



 



Até para escolher o local que íamos ficar foi uma discussão, Patrícia queria ir para a boate, eu e Ana queríamos mesmo ficar no Pub. Por decisão democrática esticando mais à tarde no Clube, e fomos para um Pub novo que tinha sido inaugurado na cidade, dessa vez fomos apenas nós três, Bernardo retornou para casa, tinha que trabalhar cedo no outro dia.



 



O ambiente era agradável, bem medieval como garçonetes que mais pareciam preparadas para uma batalha envolvidas por algumas armaduras, os móveis rústicos davam um charme especial ao lugar.



 



--Lindo né? –Ana falou. E eu balancei a cabeça em concordância.



 



--É, até que é legalzinho—Falou Patrícia não querendo dá o braço a torcer e reconhecer que aquele era o lugar mais apropriado aquela noite



Rimos.



***



Cheguei em casa já se passava de 1 da manhã  entrei pela porta dos fundos e subi as escadas em direção ao quarto, não sabia dizer porque, mas tive a sensação de que estava sendo observada,  a penumbra da sala não favorecia a minha visão, que já não era tão boa nem com a claridade.

 



Tomei um banho quente, devo ter passado uma meia hora naquele banho, terminei vesti um baby doll rosa,  pus meus óculos de grau, e desci as escadas, já sentia minha barriga reclamar das horas que passei sem me alimentar.



Fui em direção a cozinha, ansiando comer algo, abri a geladeira, procurei, procurei até achar um achocolatado de caixinha, coloquei o canudinho e suguei com tanta satisfação, quando fechei a geladeira  o susto foi tamanho que quase caia pra trás.



Ela.



Os azuis me fitavam se divertindo.



Enigmáticos. Ela vestia um robe preto semi aberto com detalhes azuis bordados no decote, e um baby doll por baixo. Aquele nó, mesmo frouxo dava uma noção do quanto seu corpo era bem feito, a sua cintura era fina, e os seios firmes.



Derrubei a caixinha levando minha mão ao peito, tamanho era o susto.



 



--Perdão, não queria te assustar – Ela falou sorrindo, enquanto se abaixava para pegar a caixinha e estende-la para mim - Pegue, não derramou.



--Ah...—Fiquei atônica, nem sabia o que dizer naquele momento.



--Muita fome? –Perguntou e aquela voz calma, quase rouca, me fez despertar.



--O que? Ah  é...am...sim, um pouco – Sim, eu estava uma completa idiota, nem sequer consegui formar uma frase decente. Também, aqueles olhos eram tão inquisitórios que mal conseguia me concentrar no que aquela boca rosada dizia.



Ela sorriu.



--Quer que eu faça alguma coisa pra você comer? –Nunca pensei que eu pudesse ter um pensamento tão torpe, mas a simples menção de ‘’comer’’ me fez arrepiar.



--Não precisa se incomodar... —falei tentando ser educada.



--É um prazer te servir, sobrinha–Ela falou com um sorriso que se não fosse de alguém que eu mal conhecesse, poderia dizer que era...sensual.



Não, só podia estar ficando louca! Ela era namorada, daqui a algum tempo seria esposa do meu tio.



Meus pensamentos estavam libidinosos demais, para alguém que até ontem era hetero e ‘’bem resolvida’’



--Ok –disse suspirando.



Sentei na cadeira, enquanto ela abria a geladeira e tirava alguns ingredientes que eu nem sequer me atentei, tamanha era minha atenção nos seus movimentos, a forma com que ela manuseava, que caminhava, as vezes virava em minha direção e me sorria.



Não, ela está sendo apenas simpática, Alice.



Prestando atenção nos detalhes do seu corpo, já que agora as lentes do óculos me davam uma visão mais apurada, dava pra perceber que ela tinha minha altura. 1.68, não muito mais que isso. Os cabelos eram loiros, claros, e agora sem o penteado dava pra se ver o tamanho real, um pouco mais curtos que os meus, que ficavam no meio das costas.



 



‘’Ela é minha tia’’ repetia esse mantra inúmeras vezes, que nem percebi quando ela pôs um sanduíche natural sobre a mesa. 

De fato parecia gostoso, ela realmente sabia como se virar na cozinha, coisa que eu admiro em qualquer pessoa. Ainda desconsertada, dei uma mordida, enquanto ela me olhava.



Aliás, Que olhar era aquele?



Ela matinha o queixo apoiado na mão, e pelo crepúsculo da noite, me permitia ver com atenção o perfil de seu rosto, enquanto ela me olhava com atenção parecendo estar atenta a qualquer reação minha.



 



--Muito bom—disse depois de engolir com contentamento.



--Gostou?  -- ela me olhou com satisfação



--Sim, obrigada, Letícia. –Falei com sinceridade, agradecida pela generosidade dela.



Ela deu uma risada gostosa. Não entendi bem  o porque.



--O que foi?—Encarei a mulher a minha frente com curiosidade.



--A forma como você pronuncia meu nome. Achei...bonitinho. –Ela disse divertida



--E não é assim? – Indaguei



--É sim, é que tanto tempo morando fora, Itália e Espanha, quase ninguém acertava a pronúncia, quando você falou meu nome tive até a impressão que se tratava de outra pessoa. --falou divertida



O sorriso dela era lindo, a forma que ela sorria, deixando à mostra as covinhas em suas bochechas, tão espontânea e mística ao mesmo tempo, que  me atrevia a acompanhá-la com um sorriso, apesar de tímido.

 



Com a proximidade em que estávamos, frente a frente, sentadas a mesa, pude me ater melhor as detalhes de seu rosto, o nariz afilado assentavam-se perfeitamente com os olhos analíticos, azuis ou seria violeta. Lembravam-me os de Elizabeth Taylor.



--Hoje conheci um pouco de sua cidade – falou ela



-- Soube mesmo que vocês tinham passado a tarde passeando—



--Foi um passeio turístico, nada agitado, mas ainda pretendo conhecer a noite, deve ser mais animado.



--É, na verdade sim, apesar de não ser tão chegada a baladas – falei e ela me olhou com estranheza



--Da sua idade eu gostava bastante, aliás até hoje. Podíamos combinar pra sairmos juntas, se você não se incomodar.



Fiquei por alguns segundos estática, não esperava aquele convite, não tão rápido. Porém não tentei não transparecer a surpresa.



--Podemos combinar de sair...com algumas amigas minhas.



 



Não sei se foi coisa da minha cabeça, ou eu realmente vi um pouco de frustração no olhar dela. Antes de pensar melhor a respeito, ela interrompeu meus pensamentos.



--Claro, tenho certeza que será divertido...

 



Meu espírito covarde não quis me deixar ficar mais um pouco conversando, no fundo eu tinha medo de deixar transparecer algo estranho em relação a ela, poderia ter ficado a noite conversando, escutando aquela voz rouca, o jeito leve dela falar, mas terminei inventando uma desculpa e me despedindo dela.



—Bom, já é tarde, vou deitar um pouco, amanhã tenho que ir no salão cedo...



--Não me diga que vai mudar o cabelo... –falou num tom quase de reprovação, não entendi bem...



--Na verdade sim, um pouco, por quê?—Respondi com estranheza.



E por quase um segundo me arrependi... Ou não.



Ela fez um gesto que quase paralisei tamanho minha surpresa, se fosse qualquer pessoa no mundo eu acharia normal, mas vindo dela era quase épico.



Ela lentamente tirou a mão que até aquele momento estava dando sustento a seu queixo e foi em direção ao meu cabelo e com a ponta dos dedos colocou um mecha atrás da minha orelha e ficou tocando minha bochecha com o dorso da mão.  



--Muda não, acho lindo ele assim...ruivo. –Falou ela enquanto me fitava intensamente.



Senti minhas mãos gelarem, arrepiei inteira. Tive medo de ter um sincope quando senti seu toque queimando meu rosto.



A voz dela estava próxima demais.



 A respiração, a forma como aqueles olhos --que nem distinguia mais a cor-- me olharam.



Mordi os lábios involuntariamente, isso sempre acontecia quando ficava nervosa.  E me arrependi por um instante quando seus olhos desceram automaticamente e fitaram minha boca.



Suspirei.



Desviei o olhar.



E o ‘’carinho’’que ela até então fazia no meu cabelo se dissipou quando tive o ímpeto de me levantar.



--Então, tenho que ir. Boa noite, tia! –Fiquei tão nervosa que acabei a chamando de Tia, como eu era idiota.



Ela pareceu achar divertido,  pela forma que me olhou e deu uma risada que eu já não sabia que gostava ou não.



--Boa noite, sobrinha. Bons sonhos. –Falou com o olhar agora divertido parecendo se deliciar com minha inquietude.



 



(...) Mal sabia ela que meus sonhos se tornariam melhores depois de sua chegada.



***



Amar é dar a vida a um outro. A sua. A única. Arriscar tudo. Tudo. A magnífica beleza do amor reside na total ausência de planos de contingência. Quando se ama, entrega-se a vida toda, ali, desprotegido, correndo o tremendo risco de ficar completamente só, assumindo-o com coragem e dando um passo adiante. Por isso a morte pode tão pouco diante do amor. Quase nada. Ama-se por cima da morte, porquanto o fim não é o momento em que as coisas se separam, mas o ponto em que acabam.



 

José Luís Nunes Martins

Capítulo 3 por JuliaR

Acordei com os raios solares invadindo o quarto pelas frestas da cortina, olhei para o relógio do celular e constatei que já estava na hora de levantar. Eram 7:20 e levando em conta o tempo em que ia levar para me arrumar, tomar café, além de enfrentar o trânsito não poderia me dar ao luxo de dormir mais.

Senti-me estranha, não só pela noite anterior que apesar de ter sido maravilhoso estar ao lado dela, não deixei de sentir uma ponta de culpa. Embora não tenha feito nada errado, meus desejos, sonhos, sensações me condenavam mais do que qualquer outra coisa.

Fui tomar um banho quente enquanto pensava melhor sobre o ocorrido. Parece que debaixo daquela água quente era o melhor lugar para refletir. 

Sempre fui careta demais, em relação a tudo, estudos, namoro, família. Para mim era inconcebível trair, atraiçoar alguém. E agora me via diante de alguém que simplesmente com um sorriso me faria cometer a maior das loucuras.

Inacreditável, não? Mas era assim que me sentia em relação a ela.

Ela era comprometida, eu era comprometida também, e como tal, não poderia me dar ao luxo de ficar desejando outra pessoa a não ser Bernardo. Coitado. Espero que nem em sonho ele desconfie quem povoa minha mente em devaneios tórridos. Prometi a mim mesma que evitaria qualquer forma ter contato com ela, por mais que meu corpo e minha mente desejassem o contrário do meu bom senso.

Ah que saudade do meu bom senso! Parecia que tinha se dilacerado após a chegada dela.

Na verdade nem sei que tanta indagação interna é essa, Alice?

Nem sequer sabe se ela realmente estava interessada. Talvez só quisesse ser educada, prestativa pela boa receptividade que demos a ela.  Mas e todos aqueles olhares, e a carícia em meu cabelo? Será se ela só achou bonito, ou tinha mais coisa ali.

Não sei, não era a primeira pessoa que dizia isso, e eu também adoro o fato de ser ruiva, modéstia parte achava meu cabelo lindo, mas nos últimos tempos considerei a possibilidade de mudar um pouco a tonalidade, o corte, não sei.

Encerrei o banho e fui me arrumar, coloquei um vestido florido e uns brincos verdes musgo que combinavam com a cor dos meus olhos. Desci as escadas disposta a tomar um café reforçado. Fui direto para a cozinha e por sorte, ela não estava. Mas como alegria pouca era bobagem, dei de cara com Antoni acompanhado de mamãe.

--Bom dia.—falei sem animo.

--Bom dia, bebê

--Bom dia, Alice. Que milagre acordou cedo, ou caiu da cama? –Disse com aqueles ‘dentes de abrir garrafa’

Desagradável como sempre. Não podia ser diferente. Neguei-me a responder.

--Ela está de férias, Antoni.  Tem o direito de ficar dormindo até tarde, meu bebê. –Mamãe falou enquanto dava um beijo na minha bochecha.

--Liza, Liza, não vá acostumar mal essa mocinha

--Então, você vai sair, filha?

--Vou ao salão do Márcio.

--Achei que ia sair pra passear num dia tão lindo como esse. Aliás, Letícia adorou a cidade, não descarto a possibilidade de ficarmos aqui. Para morar.

Ai meu Deus! Quase me engasguei com o suco.

--Mas que ótima noticia, Antoni! Tenho certeza que será uma ótima escolha.

 

Não podia acreditar naquilo! Meu tormento ---ou meu deleite-- não seria tão temporário assim. Mesmo não querendo, não pude deixar de imaginar como seria se eles ficassem aqui.

Que droga, Alice!

--Tenho que ir, estou atrasada. –Disse saindo pela porta da cozinha.

Peguei meu carro e fui até o Salão, chegando lá encontrei Márcio cortando o cabelo de uma cliente a navalha. Fiquei observando a cena, sem me decidir ainda o que queria fazer no meu cabelo. Poderia optar por ser atendida por outra profissional do salão, já que tinham várias, mas já estava acostumada com ele, e confiava.

--Olá gatinha!! –disse efusivo após terminar enquanto me abraçava e pegava no meu cabelo.

--Oi Márcio, como vai?

--Bem, agora senta deixa eu ver esse cabelo ma-ra-vi-lh-so! O que ta pensando em fazer?

--Ai Márcio, nem eu sei. Acredita?

--Indecisa? Da ultima vez disse que ia tonalizar, mudou de idéia?

--Na verdade sim, não quero mexer na cor dele, sabe? Mas também não quero que fique do mesmo jeito de agora.

--Já sei! Vamos deixar ele mais leve, de forma que não fique tão pesado como está!  Sei um corte que cairá muito bem nesse cabelo lindo!

--Te dou carta branca, faça o que achar melhor

--Adoro.

Falei e poucos minutos depois ele já exibia uma tesoura e com cuidado foi cortando minhas mechas de maneira uniforme enquanto via meu cabelo caindo, algum tempo atrás eu estaria chorando mais que Carolina Dieckman em Laços de Família quando raspou a cabeça. Brincadeirinha.

Mas odiava mesmo cortar meu cabelo, e não sabia o porquê mais agora me olhando de frente pro enorme espelho do salão eu senti vontade de mudar, de ficar mais bonita mais atraente. Mais mulher, menos menina.

--Prontinho! –Falou terminando de secar

Levantei passei a mão no meu cabelo e confesso que adorei o resultado. Ele não tinha tirado no comprimento, apenas deixou o cabelo com mais camadas. Simplesmente lindo.

--Nem preciso dizer que você é o máximo, ou preciso?

--Na verdade eu sabia, mas diga. –Falou ele todo serelepe

--Convencido

Disse me despedindo enquanto ia para a recepção pagar pelo trabalho. Cheguei em casa e todos estavam a mesa. Sim, ela também estava. Qual não foi minha surpresa ela está do lado de Antoni, quando adentrei na sala ainda pude perceber que ela sorria de alguma coisa que ele dizia. Um casal de amigos de mamãe também estava lá. Cumprimentei todos.

--Olá

--Alice, chegou a tempo estávamos falando justamente de você! –Mamãe disse apontando a cadeira para que eu sentasse a mesa

Ótimo, mal cheguei e já sou o centro das atenções

Letícia me olhava surpresa, focando seu olhar em meus cabelos e parecia estar satisfeita com o resultado.

--Liza estava lembrando de quando você era criança—Disse Flávia, amiga de minha mãe

--Eu lembro dessa época, ela era apenas uma bolinha gorda e careca. Ainda bem que cresceu e puxou a mãe, nem quero imaginar como seria se parecesse com seu pai —Antoni, como sempre.

Revirei os olhos e nem contive a resposta.

--Meu pai, ainda está melhor forma que o senhor, tio. –Sorri falsamente, enquanto era acompanhada pelos demais a mesa. Inclusive ela.

--Devia ser um bebê muito fofo, quero ver fotos depois Liza.

--Pode deixar que eu mostro, tenho vários álbuns.

A voz rouca soou quase em provocação, olhando para mim com um sorriso de canto de boca.

Eu bem que tentei ficar imune, mas não segurei acabei retribuindo o sorriso.

O almoço continuou com um papo leve, descontraído, até que terminamos e após me despedir dos amigos da minha mãe fui para meu quarto, assisti um filme bobinho que passava na TV fechada e depois liguei o computador e entrei em contato com meu irmão João via skype, ele me dava noticias, falava sobre o trabalho, perguntava como estava mamãe e disse que papai disse que estava com muita saudade de mim.

 Enchi meus olhos de água, eu também sentia saudade do meu pai, há meses não nos víamos, morávamos longe demais e ele era muito ocupado. Por fim, João disse para mim avisa mamãe pra ela entrar em contato com ele, já que não tinha conseguido ligar para ela ontem.

Desci as escadas disposta a dar a o recado de João, não encontrei-a na sala então fui em direção a varanda de onde ouvia sua risada alta inconfundível, pela vidraça da porta vi que tinha alguém que pela opacidade do vidro não consegui distinguir, mas julguei que fosse ela.

--Mamã...

Chamei antes de empurrar a porta e dar de cara com Letícia.

--Saiu, foi atender um telefonema— disse calmamente enquanto me analisava da cabeça aos pés.

--O que você ta fazendo?

--Estava olhando você... sem roupa. –Falou com um sorriso jocoso nos lábios

Arregalei os olhos.

Prendi a respiração. Senti meu rosto queimar devo ter ficado da cor de um pimentão.

Fui ao inferno, e voltei.

--Como? –falei sem acreditar

Então ela puxou uma foto de um dos álbuns que estavam espalhados na mesa em frente as cadeira.

Uma foto minha com uns 2 anos de idade.

Nua. Mostrando minha bundinha branca e sorrindo com dois dentes na boca. E o pior, uma tiara com duas orelhas de coelho parecendo uma coelhinha da playboy. Lembrei-me  do meu  pai comentando que tinha sido idéia dele tirar essa foto.

Respirei aliviada.

Ela parecia segurar uma gargalhada, enquanto via meu alívio.

Deu um risinho cínico. Encostei-me na pilastra da varanda com as mãos entrelaçadas, nervosa.

--Achei um gracinha. Aliás, você emagreceu bastante.

--Eu era uma criança obesa, eu sei. –Falei envergonhada

--Eu acho que você é a coelhinha mais fofa da história da playboy. E sexy também. Mas essa anda é a minha favorita.

Estendeu-me uma foto minha vestida de bichinho da Parmalat.  Sorri e ela acompanhou.

--Se eu roubar essa foto promete que não conta para sua mãe?

Sorri.

--Senta aqui.

Meio sem jeito sentei do lado dela, estávamos próximas e o vento que vinha em minha direção trazia o cheiro dela.

Um cheiro doce.

Inebriante.

Aproveitei que ela olhava distraídas as fotos e fechei os olhos e inspirei no ar seu perfume, lentamente.

Quando voltei a abrir os olhos ela me encarava séria, o que me desconcertou muito. Após segundos naquela troca de olhares, ela sorriu e desviou os olhos para meus cabelos.

--Mudou.

--Mas não a cor. –Disse lembrando o pedido que ela fez na noite anterior.

Ela esboçou um sorriso.

--É obediente. Gosto assim.

Ficamos mais um tempo olhando fotos e comentando, ela parecia estar bem interessada, sempre perguntando sobre mim, enquanto eu não sabia quase nada da vida dela. Fui tirar uma foto do álbum quando sua mão vagarosamente capturou a minha que estava repousada sob minha perna, e com a ponta dos dedos foi fazendo um carinho sobre minha mão, ora entrelaçando seus dedos nos meus ora passando a unha de leve.

Meu coração disparou, minha mão gelou tamanho susto daquele gesto inesperado.

E meu desespero ainda foi maior quando minha mãe voltou e eu tentei tirar rapidamente  minha mão da dela, mas ela segurou firme. Minha mãe continuava a falar no telefone gesticulando, e em nenhum minuto voltou a atenção a nós duas, mesmo assim estava nervosa com a proximidade. Mesmo sabendo que seria impossível ela ver algo já que nossas mãos se encontravam debaixo da mesa.

Enquanto eu tentava controlar meu desespero, Letícia se mantinha impassível, continuava a acariciar minha mão enquanto fazia cara de paisagem, vez ou outra sua mão ultrapassava os limites da minha e encostava-se à pele da minha coxa.

Minha mãe se despediu rapidamente alegando que estava com problemas com ateliê, acabei nem dando o recado de João a ela, tamanho era minha preocupação em me livrar das mãos quentes de Letícia.

Quando minha mãe saiu. Suspirei alto. Letícia tirou nossas mãos de debaixo da mesa e passou seus dedos no anel envolto no meu dedo anelar.

--Comprometida?

--Sim

--Hum, qual sua idade?

--Dezenove.

--Nova para compromissos sérios.

Disse soltando minha mão delicadamente.

--E a senho...Você?

--Adivinhe... —Me disse sorrindo

--Trinta?

Ela me olhou surpresa.

--Acertou, mas achei que ia dar menos que isso.

--A quanto tempo está com meu tio? – perguntei de supetão e ela pareceu surpresa, acho que não esperava essa pergunta vindo de mim.

--Três anos...

--Muito tempo.

--Depende.

--O quê?

--De o que você considera o tempo, de como mede o tempo...

--Calendários, relógios, noites, dias? –Falei não entendendo bem o que ela queria dizer

--O tempo se mede em batidas, podem ser as batidas de um relógio, ou podem ser as batidas de um coração. Eu prefiro medir com as batidas do coração.

Olhou-me sorrindo. E eu sorri também.

Uma garoa começou a cair na varanda ampla, entramos em casa. Ela se despediu com um aceno e foi para o quarto dela e eu para o meu.

Entrei em meu quarto flutuando. Me pus diante da imensa janela vendo surpresa que o dia já estava anoitecendo. Rápido.

Só então entendi o que Letícia quis dizer com aquelas palavras.

Coloquei a mão no lado esquerdo do peito, e percebi que o tempo em que estive com Letícia não foi medido com as batidas do relógio, mas sim do coração.

E há tempos que meu coração não batia assim.

Sorri.

 

 ***

 

 

 

O tempo, embora faça desabrochar e definhar animais e plantas com assombrosa pontualidade, não tem sobre a alma do homem efeitos tão simples. A alma do homem, aliás, age de forma igualmente estranha sobre o corpo do tempo. Uma hora, alojada no bizarro elemento do espírito humano, pode valer cinqüenta ou cem vezes mais que a sua duração medida pelo relógio; em contrapartida, uma hora pode ser fielmente representada no mostrador do espírito por um segundo. 

Virginia Woolf - "Orlando"

Capítulo 4 por JuliaR

Letícia

 

 

 

Já havia embarcado há uma semana disposta a curtir férias e sair um pouco da rotina estressante Italiana, há anos Antoni dizia querer viajar para rever sua família, mas nunca me senti interessada a conhecer, apesar dele sempre lembrar como sua irmã, Liza Ferronato era receptiva e comentava freqüentemente que ela desejava conhecer sua nova namorada.

 

Apesar de aparentemente ele ser ligado a família, nunca deu maiores detalhes. O pouco que sabia era que vinham de uma linhagem de indústriais que investiam a anos em fábrica de tecidos, exportando para vários países, e que sua irmã era muito conhecida no Brasil e no exterior por estar sempre envolvida com moda, eu mesma já ouvi falar dela diversas vezes, e que há muitos anos foi casada com um empresário e que tinha um casal de filhos.

 

Mas a viagem até seria providencial, tento em vista que eu já ansiava a algum tempo ver pessoalmente como andava a filial da minha empresa no Pais onde meus pais nasceram, mas que a muito não visitava.

 

Chegamos a residência e como esperávamos uma pequena festa jazia na mansão dos Ferronato, de certa forma aquilo me incomodou, depois de uma viagem custosa, tudo que queria era descansar

 

Entramos e fomos recebidos por Liza, uma mulher extremamente elegante e extrovertida, já tinha visto por fotos em matérias de revista, tinha alguma semelhança com Antoni, mas nada além do ordinário, já que eram irmãos.

 

Cumprimentou-me calorosamente, e eu retribui,  pelo pouco que conversamos ela pareceu ser uma mulher íntegra e autentica, algo raro no mundo tão sórdido da moda.

 

Apresentou-me amigos, igualmente simpáticos, enquanto Antoni conversava animado com alguns senhores sobre bolsa de valores, eu engatava uma conversa com Liza e outras mulheres sobre a viagem e a saudade que tinha do País.

 

Ela se retirou um segundo, justificando que ia buscar alguém para apresentar-nos, imaginei se tratar de algum amigo da família, mas me enganei. Vi que ela atravessava o salão com uma linda menina.

 

Não sei dizer ao certo o que senti quando vi, mas não consegui tirar os olhos dela. Era de uma beleza angelical, a pele alva, contrastava com o cabelo ruivo de uma tonalidade tão ímpar, digno de estar nas melhores campanhas de cosméticos. O corpo era feminino e curvilíneo caia perfeitamente no vestido dourado.

 

Sequer desviei o olhar, a conversa dantes tão interessante agora meus ouvidos capturavam somente zunidos cada vez mais distante.

 

Desejei intimamente que aquela garota não fosse quem eu desconfiava ser.

 

--Ora vejam só, se não é minha sobrinha! —Antoni a abraçou —Quero que conheça Letícia, minha namorada.

 

Infelizmente era.

 

Sorri para ela, e ela permaneceu séria, parecia trepidante, dei dois beijinhos na face rosada quando fomos finalmente apresentadas.

 

 

 

--Prazer, Letícia.—Disse ela coma voz baixa, quase sussurrada. Num sotaque lindo, uma voz manhosa...

 

--Mas pra que tanto formalismo, ainda mais agora que ela será sua tia.—

 

Antoni falou e ela pareceu se incomodar, ficou toda sem jeito, acanhada. Achei luminoso aquele jeitinho meigo dela.

 

Linda.

 

Resolvi entrar na brincadeira, tentando deixá-la mais a vontade.

 

--E qual é o nome da minha sobrinha?  --Falei sorrindo para ela.

 

--Alice- disse simplesmente, monossilábica.

 

--Protetora...—Falei, lembrando-me do significado do seu lindo nome.

 

--Como?

 

--O significado do seu nome...-Disse me sorrindo, olhando em seus olhos.

 

--É um nome lindo, eu que escolhi, nome tão lindo quanto meu bebê—Liza apertou e beijou carinhosamente a face de Alice.

 

Aquele gesto singelo me adoçou, já Alice parecia incomodada com o apelido afetuoso.

 

Era mesmo um bebê, parecia um anjo, não devia ter mais que 20 anos. O nariz empinado, o queixo carregava um furinho charmoso, o que me fez pensar que deveria ser uma garota muito mimada e voluntariosa.

 

Olhava-a fixamente, analisando os traços daquele rosto tão bem feito, parecia ter sido ‘’feita a pincel’’ tamanha delicadeza das circunscrições da sua face. Enquanto ela me devolvia um olhar sobressaltado, de estranhamento. Não soube qual o motivo, mas acredito que ela esperava encontrar outra pessoa como namorada do seu tio.

 

Para minha surpresa ela pouco depois pediu licença e saiu do salão, se despedindo de todos.

 

De repente a tudo ficou tão vazio, e a festa até então acalorada, perdeu um pouco do brilho quando aquele olhar verde já não figurava entre os demais.

 

Daquele dia em diante minha aparente calmaria se dissipou, tanto tempo tentando manter o controle e agora já sentia ímpeto de deixar minhas vontades ocultas aflorarem depois de tanto tempo.

 

Nunca me imaginei vivendo uma vida tão superficial, aparente e teatral como vivia atualmente:  Um casamento de fachada, que ao invés de felicidade me dava conforto. E mesmo sabendo que o verdadeiro aconchego não se encontra em uma mansão, com carros de luxo, viagens pelo mundo, e sim no coração.

 

 Jamais almejei dinheiro nem poder, mas nos últimos anos tinha me tornado tão mesquinha, que deixei para trás o que era realmente valioso, me sentia na tão falada Prisão Dourada de Fiodor Dostoievski.

 

Mas ao chegar naquela casa, algo em mim mudou, senti que a Letícia de antes despertava dentro de mim, meu espírito jovem começava a falar mais alto, já sentia dificuldade de controlar o ímpeto de me aproximar mais de Alice, e aquilo estava me matando.

 

Sempre fui adepta do jogo da conquista e sem falsa modéstia nunca fui de colecionar ‘nãos’, e quanto mais difícil o desafio, mais me sentia ávida a conquistar, porém dessa vez era diferente, devia ser precavida não poderia ser imprudente e ir com sede ao pote. Era diferente.

 

Mais do que saciar minha vontade, sua singela presença alimentava minha alma, aquele sorriso tímido quase imperceptível me fazia perder a noção, adoçava meu coração, embaraçava meus sentidos, me enchiam de ternura.

 

Alice não era uma adolescente qualquer, e sua singularidade era o que mais me encantava, parecia ter sido tirada de um conto de fadas, uma princesa medieval, diria. Logo se via que tinha sido criada como uma, não possuía a trivialidade, a vulgaridade comum de meninas da idade.

 

‘’Santinha’’

 

Sorri com o pensamento bobo que me veio em mente.

 

Aquela viagem aparentemente sem graça começava a ganhar sentido cada vez que aqueles olhos verdes cruzavam com os meus.

 

***

 

Acordei hoje com tal nostalgia de ser feliz. Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim. Eu queria uma liberdade olímpica. Mas essa liberdade só é concedida aos seres imateriais. Enquanto eu tiver corpo ele me submeterá às suas exigências. Vejo a liberdade como uma forma de beleza e essa beleza me falta.

 

 

 

 

Clarice Lispector – Liberdade Olímpica

Capítulo 5 por JuliaR


                Voltei da festa e já eram uma da manhã, Bernardo me deixou em casa, andei pelo jardim, percebi que a luz da varanda no andar de cima estava acesa, e minha mãe não costumada a ficar até tarde acordada.

Entrei na casa tirando os saltos e subindo as escadas em direção ao meu quarto. Lá tirei minha roupa e fui em direção ao banheiro, tirei a maquiagem e fui tomar um banho relaxante, após o termino usei o secador, pois não gostava de dormir com cabelos úmidos. Terminei e usei um conjuntinho, short e camiseta de seda verde.

Fiquei um pouco receosa de sair do quarto assim e ir para a varanda, meu inconsciente sabia que no fundo eu a procurava, não a tinha visto o dia todo e sentia falta do seu sorriso, da sua risada gostosa, da forma como me olhava, me analisando. Cobiçando.

E por um segundo deixei a razão se esvair e segui minhas vontades, meus anseios.

Simplesmente fui.

A casa estava um tanto escura, naquela escuridão só se via a luz da varanda acesa, aproximei lentamente enquanto ouvia uma musica ressoar, entrei pela varanda e a vi encostada ao peitoril, alheia tomando vinho, olhando na direção oposta a que eu estava, com um cálice de vinho entre as mãos. Sua feição, sua elegância, o charme tudo nela era digno de estampar obras de artes dos melhores pintores.

--Chegou tarde, sobrinha-Falou ela sem sequer virar-se na minha direção

--Um pouco, desculpa te incomodar – falei sentindo meu coração sair pela boca.

Então ela virou-se e me olhou dos pés a cabeça sem pressa, se atendo a cada detalhe, depois levou a taça aos lábios e tomou um generoso gole de vinho.

Ela estava com um robe amarelo lindo, combinava perfeitamente com ela. 

--Imagine, estava aqui sozinha. Me faz companhia?  -- Falou tão delicada que não resisti.

--Claro.

--Quer um taça? – falou olhando para algo atrás de mim, só então me dei conta que me recostava na mesa onde a garrafa de vinho estava posta.

--Não costumo beber, sou fraca.

Ela deu uma risada gostosa.

--Você é um bebê mesmo, mas só uma taça, prometo. E amanhã ainda é feriado, não é?

--Sim, se você faz questão então aceito, mas só uma taça.

Como resistir? Eu nem sequer conseguia dizer não há algo que ela pedia.

--Ótimo. –falou e pegou uma taça que repousava ao lado da sua.

--Como sabia que era eu que estava aqui, quando cheguei? –

Perguntei curiosa enquanto ela se aproximou me olhando, em poucos passos e já estávamos a centímetros uma da outra, dava até para ouvir sua respiração de tão próxima que estava do meu rosto. Éramos da mesma altura, então os olhos, nariz e boca se encontravam no mesmo patamar.  Aquele olhar libertino, intenso fez meu corpo esquentar de imediato, tamanho calor que vinha do seu corpo.

Na posição que eu estava, completamente recostada a mesa de costas, apertei as mãos que se encontrava na borda, tentando controlar o ímpeto que sentia de beija-la. Tamanha vontade que sentia em que ela me tomasse em seus braços.

Ela segurou minha cintura com delicadeza. Suspirei. Fez carinho subindo e descendo as mãos quentes e me causando arrepios, achei que não podia estar mais vulnerável, me enganei.

Letícia afastou uma mecha do meu cabelo e encostou o nariz a pele do meu pescoço e aspirou, fazendo-me eriçar cada pêlo do meu corpo, fechei meus olhos e cerrei meus dentes, tentando controlar o gemido.

Quando ela encostou os lábios úmidos na minha orelha e falou com a voz mais deliciosa do mundo.

--Reconheci você pelo cheiro. Adoro seu cheiro.  –Falou aspirando mais profundamente enquanto apertava mais minha cintura, me pressionando contra ela, senti sua barriga encostar-se à minha. Quase desfaleci.

--Deve ser o perfume-falei com a voz entrecortada.

Só então percebi que já estávamos indo longe demais, tirei usas mãos da minha cintura e ela fez uma carinha tão linda, fez um bico com os lábios, parecia uma criança quando perde o doce.

Suspirou frustrada, então colocou vinho em uma taça e me ofereceu.

--Com quem estava? Vi um carro parando lá fora, e não era o seu. –perguntou direta

--Era Bernardo...

--Quem é Bernardo? – ela olhou-me curiosa

--Meu namorado.

--Interessante. Na minha época não era assim –falou e pôs uma cadeira na minha frente, sentando-se de frente pra mim, enquanto ainda me mantinha em pé.

--Sua época? –falei sorrindo

--Quando tinha sua idade...

--E como era, então?

--Digamos que meus pais eram rígidos com esse assunto. Não podia chegar depois das oito, tinha que namorar em frente à casa, e só se podia sair juntos e sozinhos em ocasiões especiais –Falou sorrindo

--Absurdo

--Na época essa severidade me aborrecia, hoje vejo que era melhor assim. Era mais gostoso.

--Por quê?

--Namoro a moda antiga é bem melhor, andar de mãos dadas, flertar, esperar o tempo certo para as coisas acontecerem. Não gosta? -ela falava me olhando, acho que queria saber se concordava.

--Prefiro assim também.

--Acha que estou indo rápido demais?

--Como?

--Se você acha que eu estou apressando as coisas...contigo? –ela me olhava fixamente

--Não entendi.

--Acho que entendeu sim.

Ela estava aos poucos jogando as cartas na mesa, naquele momento em especial, apesar de não estar sendo tão clara, era notório que assunto ela estava tratando.

--Um pouco. –falei quase que me arrependendo imediatamente.

Ela ali, em minha frente, sondando o terreno e eu dando corda, incentivando-a a continuar a aquela paquera que antes velada, agora tinha ganhado ares petulantes.

--Tem razão. –falou segurando minha mão e depositando um beijo.

Aquele beijo me incitava, optei por mudar de assunto antes que não respondesse mais por mim.

--Gosto de Diana Krall – falei referindo-me a musica que tocava no pequeno aparelho de som

--Minha cantora favorita. Gosta de soul?

--Sim, rhythm and blues, jazz...

--Magnífica.

--Diana?

--Você, Alice.  Fico instigada a saber mais de ti

--Já sabe tanto sobre mim, eu que não sei quase nada sobre você.

--Respondo tudo que você quiser! É só perguntar.

Da posição que estava, acima dela, me davam uma visão privilegiada dos seus olhos que brilhavam inquisidores em minha direção.

--Um resumo da sua vida, seria de bom começo.

--Sério? –falou me olhando com os olhos arregalados

--Sim –falei divertida, ela não parecia ser alguém que gostasse de se expor

--Posso omitir algumas partes e contar só o relevante?

Dei uma risada.

--Fique a vontade, não mentido pra mim é o suficiente. Não suporto mentiras.

--Bom, nasci a 30 anos atrás- olhou sorrindo-me. – Morava em Sicília com meus pais, que são brasileiros, mas se mudaram para lá e sempre vinham aqui quando era criança, porém passei  longos anos sem vir, no entanto considero meu País. Eles tinham vinhedos no interior da cidade e vendiam vinho para toda a Itália e logo depois para outros países, só que em pequena quantidade. Nada tão grandioso, era uma empresa de porte médio, prezávamos mais a qualidade que a qualidade propriamente, mas inevitavelmente os negócios cresceram e passaram a produzir em grande quantidade...Enfim, era uma vida tranqüila, cresci estudei economia me formei, decidi continuar os estudos com  mestrado, doutorado. Logo depois dei  aula em uma universidade no norte da Itália, lecionar é minha paixão.—Por um segundo sua voz embargou e ela desviou os olhos dos meus-- Mas me ausentei da sala de aula para cuidar de um negócio, a empresa teve problemas e tive que assumir a frente, foi uma grande crise mas há alguns anos a situação se estabilizou. Com ajuda de algumas pessoas, acabou tudo ficando bem.

--Interessante.

--E agora estou aqui, retornei ao meu País, conheci uma pessoa maravilhosa, encantadora, inteligente mas que se recusa a tomar o vinho vindo diretamente do meu vinhedo e que escolhi a dedo para essa noite.—Falou apontando para a taça anda intacta em cima da mesa.

Sorri.

--Perdão, estava tão concentrada que esqueci de beber. –Falei dando um gole

Ela deu um sorriso tão lindo que quase me engasguei, os dentes perfeitamente alinhados, as covinhas que tanto me cativavam.

Letícia passou a ser sinônimo de irresistível.

--E então? O que achou?

--Bom, não devo conhecer tanto sobre vinhos como você. Mas é bem saboroso. –dei outro gole, de fato o vinho era uma delícia.

Continuávamos conversando amenidades, enquanto eu continuava provando do seu vinho, em dado momento ela buscou outra garrafa e continuávamos bebendo e dando risadas. O papo dela era deliciosamente atraente, a forma como ela falava, se expressava, gesticulava. Era como seu corpo todo falasse.

 

--Cuidado para não exagerar na bebida –Ela disse enquanto eu colocava mais vinho na minha taça

--Eu também não sou tão vulnerável assim. –falei com a voz vacilante com o efeito da bebida

--Você ainda é um bebê, sabia? Posso ser presa por fornecer bebida alcoólica a uma criança

Disse enquanto contornava a renda do meu baby-doll com a ponta dos dedos e me olhava sedutoramente

--Exagerada.

Fiquei tão nervosa com o gesto dela que acabei por derrubar a taça, que se espatifou no chão.

--Não disse, já é o efeito da bebida.

--Foi sem querer.

Falei enquanto tentava juntar os cacos do chão, e acabei me espetando com um estilhaço pequeno.

--Droga – falei

--Cortou muito? Deixe-me olhar -- Letícia levantou-se e colocou suas mãos entre as minhas e tirou o estilhaço que ainda estava fixado ao meu dedo indicador.

--Aii – gemi

--Desculpa, meu anjo. Ta doendo?

A vontade que tive foi de mentir, exagerar, dizer que minha dor era descomunal, excessiva, para que aquele carinho se prolongasse, pra sentir suas mãos mais tempo acariciando a minha. Mas foi só uma espetada, um pequeno furo. Uma gotícula minúscula surgiu e ela fez algo que me excitou completamente.

Beijou meu dedo, passando a língua envolta, circulando até colocar a pontinha na boca dando um pequeno estalo. Mordi meu lábio tentando controlar o gemido.

Respirei fundo.

--Não faz assim-falei sem me conter, estava prestes a avançar naquela boca que parecia ainda mais apetitosa ainda.

--Assim? –Falou e repetiu o gesto, mas dessa vez beijou todos os dedos, um por um, lentamente.

--Preciso ir dormir... –falei completamente abismada, tentando recuperar o controle

--Deixa eu te pôr na cama deixa?  

Falou abraçando-me novamente, dessa vez mais apertado, colando seu rosto no meu, ela falava baixinho no meu ouvido, dessa vez salpicava beijinhos no meu pescoço, na minha orelha...

Suas mãos acariciavam minhas costas, primeiro por cima do tecido, mas logo depois por dentro, me arrancando suspiros todas as vezes que suas unhas encostavam-se a minha pele.

--Não pode –falei num fio de voz

--Só vou te por pra dormir, Bobinha.  Além do mais você não está em condições de responder por si. Deixa que eu cuido de você. Vem –falou me puxando pela mão em direção ao corredor.

A cada passo que dava sentia meu coração palpitar mais forte, minhas mãos gelavam, enquanto acompanhava seus passos. Ela tinha razão, eu já não respondia mais por mim, meu olhar fixava-se aos seus quadris que rebolavam enquanto ela caminhava.

--É esse aqui –falei quando cheguei a porta do meu quarto já no final do corredor.

--Eu sei.

Abri a porta e adentrei.

--Com sua licença.

Ela entrou e ficou olhando ao redor, acho que a decoração do quarto a tinha agradado. Depois olhou a cama de casal com estranheza.

--8 Travesseiros? Quantas pessoas dormem aqui? –perguntou divertida sentando na cama

--Eu gosto.

-- Deita aqui – falou apontando para a cama.

Deitei sendo acompanhada pelo olhar dela. Acomodei-me na cama e ela me cobriu com o cobertor

--Ta tudo girando – falei sorrindo.

--Embriaguei você, estou me sentindo culpada, tenta dormir agora.

Falou acariciando meus cabelos e eu acabei dormindo.

Não sei ao certo quanto tempo dormir, mas quando acordei o dia já estava amanhecendo.

No criado mudo uma jarra de água, um copo e um analgésico acompanhados de um bilhete.

 

 

Obrigada pela companhia deliciosa, anseio

passar outras noites ao seu lado...

Ps : Espero que isso te ajude com a ressaca,

Beijo,

Letícia

 

 

 

** *

 

Por todas as razões e mais uma. Esta é a resposta que costumo dar-te quando me perguntas por que razão te amo. Porque nunca existe apenas uma razão para amar alguém. Porque não pode haver nem há só uma razão para te amar.

Amo-te porque me fascinas e porque me libertas e porque fazes sentir-me bem. E porque me surpreendes e porque me sufocas e porque enches a minha alma de mar e o meu espírito de sol e o meu corpo de fadiga. E porque me confundes e porque me enfureces e porque me iluminas e porque me deslumbras.

Amo-te porque quero amar-te e porque tenho necessidade de te amar e porque amar-te é uma aventura. Amo-te porque sim mas também porque não e, quem sabe, porque talvez. E por todas as razões que sei e pelas que não sei e por aquelas que nunca virei a conhecer. E porque te conheço e porque me conheço. E porque te adivinho. Estas são todas as razões.

Mas há mais uma: porque não pode existir outra como tu.

 

 

 

Joaquim Pessoa, em 'Ano Comum’

Capítulo 6 por JuliaR

Acordei com uma ressaca descomunal, o excesso de vinho não me fez bem, me acordava freqüentemente com a boca seca, em busca da água que Letícia tinha posto no criado mudo. Agradeci aos céus por ela ter tido aquela atitude, não tinha condições de levantar e ir buscar algo na cozinha.

Assustei-me quando olhei no relógio e marcavam 14 horas, levantei calmamente sentindo pontadas na cabeça, e a visão opaca, voltei a deitar, devo ter enrolado mais algumas dezenas de minutos na cama quando senti minha barriga reclamar. Era hora de descer.

Antes sair do quarto tomei banho gelado, vesti uma saia curta de tecido e uma regata branca, por baixo um biquíni rosa, nos pés uma plataforma e brincos grandes de argola, estava disposta a passar a tarde na piscina me refrescando já que o dia estava mais quente que o comum. Olhei-me no espelho e não gostei do resultado, parecia que tinha sido atropelada por um caminhão rolo, tinha uma aparência de cansada, então me lembrei de por um óculo escuro um tanto grandes, que disfarçasse minha feição abatida.

Desci as escadas cobiçando tomar um café da manhã leve, que dissipasse aquele mal estar causado pela bebida, logo ao abri a porta dei de cara com babá confeitando um bolo.

--Acordou cedo, menina! –falou dando risadas

--Engraçadinha – fui até ela e dei um abraço

--A noite deve ter sido boa, hein.

--Nem me fale! O que tem pra comer?

--Seu tio esta fazendo um churrasco, então nem me dei ao trabalho de fazer nada de especial como ele ordenou.

--Agora ele quem ordena as coisas aqui? Você sabe que só de ouvir falar em churrasco já me dá enjôos-falei irritada, nada pior do que comida assada quando se esta de ressaca

--Eu sei, falei isso a Letícia, então ela logo aproveitou pra fazer uma sopinha leve para você, parece bem apetitosa.

A simples menção daquele nome fez meu coração bater descompassado  enquanto revivia as lembranças da noite anterior

--Hum.

--Quer que eu esquente?

--Sim

Falei toda monossilábica tentando disfarçar meu contentamento em saber que ela tinha se preocupado em me agradar mais uma vez, toda minha irritação se desfez ao saber daquilo, meu coração se encheu de ternura, afinal ela devia gostar de mim para se dar ao trabalho de cozinhar.

Um risinho tolo se fez em meu rosto ao pensar que eu era especial para ela, do mesmo modo que ela era para mim.

--O que foi? – Babá perguntou

--O que foi o quê?

--Essa cara de tacho...

--Ah me deixa babá!

Comi a sopa, estava deliciosa como tudo nela, pensar aquilo me fez imaginar coisas torpes das quais não deviam se passar pela minha cabeça.

E ali estava eu no meio daquela cozinha sentindo a ansiedade tomar conta de mim, querendo vê-la, sentir seu cheiro, ver suas covinhas que sempre brotavam quando sorria, seu olhar emblemático. Aquele jeito de olhar que era só dela, que me fazia flutuar. Saí da cozinha disposta a encontrá-la, fui guiada pelo som da musica alta de gosto duvidoso que se fazia presente na direção da piscina.

Cheguei ao jardim a vi.

Distraída ela tentava procurar algo na churrasqueira enquanto tio Antoni a abraçava por trás e depositava beijo em sua face.

Nojo definiria aquele momento.

E a vontade de vomitar antes causada pelo vinho, agora tinha outro ensejo. Felizmente estava de óculos escuros que serviam de barreira para que ela não visse a raiva que eu sentia em ter presenciado essa cena.

Da minha boca desapareceu o sabor da sopa que minutos antes sorvia prazerosa e agora amargava o sabor do ciúme.

Sim, eu estava com ciúme.

Por um instante queria sumir, dar dois passos para trás e fingir para mim mesma que não tinha visto aquilo. Tarde demais.

--Bom dia, ou melhor, boa tarde, Alice –

Ele falou tirando a atenção dela que só então me olhou, a expressão de susto foi visível para mim, tentou num ímpeto afastar as mãos do meu tio que se apossavam da sua barriga descoberta. Ela usava uma canga que deixava a barriga descoberta, não queria admitir para mim mesma, mas é obvio que ela estava linda. Enquanto ele usava um samba canção, Antoni além de um atentado a moda, era um atentado ao bom senso. Mas foi interessante perceber que alguém ainda usava isso no século XXI.

Quis forçar um sorriso, mas não obtive sucesso, passei por eles e desejei um singelo:

--Boa tarde, ‘’tios’’.  –

Falei e passei direto, ignorando o olhar de Letícia, além deles dois outros amigos de minha mãe se encontravam no que parecia uma ‘’festinha’’, cumprimentei todos forçando uma simpatia que não existia, não naquela situação. De rabo de olho sentia que ela me observava, enquanto eu fingia uma displicência que nem de longe sentia, sentia ímpetos de sair dali correndo e ir pro meu quarto, mas meu orgulho foi maior. Fiquei, sentei na espreguiçadeira até que alguém interrompeu meus pensamentos

--Oi Alice – uma voz tímida soou atrás de mim.

Virei de dei de cara com Clara, uma garota filha de da dona de uma boutique famosa que trabalhava com minha mãe. Estudei com ela no colegial, depois mudei de colégio, não éramos melhores amigas, mas nos víamos freqüentemente em eventos sociais, visto que nossas mães compartilhavam da mesma profissão, gostava dela já afinal ela sempre fazia questão de me tratar bem, era simpática, doce.

--Oi Clarinha – falei dando um abraço nela

--Como você está?

--Bem e você?

--Ótima. Perguntei por você a sua mãe e ela me disse que estava dormindo...

--Exagerei um pouco na bebida ontem.

--Você?? –Me perguntou surpresa

--Acredite.

Não sei se realmente tinha mudado ‘’de lado’’, ‘’de orientação sexual’’ ou aquilo era coisa da minha cabeça, mas depois de conhecer Letícia, minha visão antes restrita, estava mais ampla em relação às mulheres. Vendo-me ali com Clara, ambas sentadas em espreguiçadeiras de frente para outra, passava um filme em minha cabeça, o jeito dela mexer no cabelo, o olhar algo me fazia crer que ela pudesse gostar de mulheres também.

Não poderia ter certeza daquilo, nem ao menos tinha ficado com uma mulher, como saberia descobrir. Era apenas intuição, no entanto deixando minha memória vagar sobre tempos atrás, a maneira como ela me tratava quando estudávamos juntas, ou quando conversávamos esporadicamente não deixavam dúvidas que ela tinha algum interesse em mim. Ela era a garota mais popular do colégio, tinha várias amigas, e mesmo assim sempre que me via dava toda atenção do mundo.

--Morrendo de calor, vou dar um mergulho. Vem comigo? – perguntou tirando a canga

Fiquei quase embasbacada com a cena, ela tirando a canga mostrando um corpo perfeito, malhado, ainda permanecia sentada enquanto ela ficava a minha frente em pé.

--Vou sim. –Falei tirando minha roupa e mostrando apenas o biquíni.

    Assim que tirei o biquini sem querer meu olhar se cruzou com o de  Letícia, que percebendo minha atenção, levantou seus óculos de sol, como quem quisesse ''ver melhor''

Clara também não ficou indiferente, a forma como ela me olhou-me ver serviu para reafirmar minha constatação, diferente de mim os olhos descobertos, sem óculos de sol não deixavam esconder o interesse nada velado daquele olhar.

Entramos na piscina, entre um nado e outro, conversávamos amenidades sobre família, namorado, faculdade etc.

Sempre que possível olhava disfarçadamente para Letícia que parecia me fuzilar com aquele olhar, ela estava deitada numa espreguiçadeira do outro lado da piscina fingindo ler um livro, mas vez ou outra levantava o olhar para me encarar, supus que a leitura não estava tão agradável assim, parecia estar com ciúme, e não vou negar que aquilo acalentou meu ego e senti um gostinho de contentamento, afinal não era ela que minutos antes estava sendo abraçada pelo meu tio? Agora saberia o que senti.

Simpatizava Clara, e lógico que não precisei fazer nenhum esforço para ofertar-lhe toda atenção da qual ela merecia, ao passo que, me aproveitava da situação para me vingar de Letícia.

Toda vez que a via com aquela cara de emburrada sentia ímpetos de rir alto, tamanha graça que ela ficava quando estava contrariada. Clara olhou para o relógio e disse que precisava ir, tinha um aniversário do qual não podia faltar, se despediu de mim e saiu da piscina, me aproveitei da ausência dela para olhar mais uma vez para trás, e minha vontade de rir se dissolveu quando observei que Letícia levantava-se da espreguiçadeira e tirava a canga lentamente.

Nossos olhares se cruzaram e ela fez questão de me encarar. Tirou primeiro a parte de cima que dessa vez não só a barriga ficou descoberta mas os seios firmes ficaram cobertos pelo pequeno biquíni, que mostravam marquinhas ainda visíveis.

Quase desfaleci.

Que ela queria me provocar, isso já havia ficado claro, e tinha conseguido com uma facilidade humilhante.

Letícia era charmosa, atraente demais, a forma como mexia os cabelos displicentemente enquanto desamarrava o laço da saia segurando na barra e descendo lentamente pelas pernas torneadas, deixando a mostra aquela tatuagem tão misteriosa quanto ela.

Me olhando, analisando minhas reações enquanto eu tentava inutilmente parecer imune àquele charme todo. Sem sucesso.

‘’Sequei’’ ela, da cabeça aos pés. Encarei, cobicei, não disfarcei em meio a algumas pessoas alheias me permiti olhar...Desejar.

Quando finalmente tirou toda a canga, Letícia me olhou e piscou o olho para mim. Não precisou mais que uma piscadela para que meu plano de vingança fracassasse. Antes de entrar na piscina ainda sorveu um longo gole de uma bebida que parecia ser uísque pela cor, talvez quisesse criar coragem para algo.

Ela entrou na piscina e eu nem sequer me preocupei em desviar meu olhar, ainda me sentia hipnotizada pelos olhos azuis, ela vinha em minha direção calmamente a cada passo que dava sentia meu coração palpitar forte, até que ela se pôs na minha frente.

--Gostou, meu amor? –Perguntou com aquela voz rouca, gostosa.

--De que? –perguntei com a cara mais deslavada do mundo, entrando no jogo dela.

Ela deu um sorriso e eu me segurei para não sorrir também, ela era muito cínica, Letícia olhou querendo constatar se ninguém observava aquela cena.

Senti sua mão segurar a minha, por baixo da água que se encontrava a altura dos nossos seios, impedindo uma visão apurada das pessoas presentes. Ela guiou minha mão até sua perna, e eu temi desmaiar ali mesmo naquela piscina, ficou passeando minha mão pela sua coxa, depois pela barriga lisinha...

--Tudo seu.

--Meu é?

Perguntei a encarando, enquanto passava as unhas pela sua barriga, ouvindo-a suspirar.

--Seu. Para fazer o que quiser. Na hora que quiser... Do jeito que você quiser.

Ela falava com uma voz pastosa, devido ao efeito do álcool.

--Não fale isso. –falei retirando minha mão da sua barriga.

--É a verdade. To morrendo de vontade de você, sabia?

Ela fez uma carinha tão fofa que tive ímpeto de beijá-la na frente de todos, sem me importar com o que iam pensar sobre minha insanidade.

--Não, não sabia. É melhor parar com isso, Letícia.

--Quero te ver mais tarde, sai comigo hoje à noite? Ou já tem compromisso com a sua ‘’amiguinha’’ –falou fazendo cara de enfado.

Impressão minha ou ela estava com ciúmes?

--Melhor não.

--Por favor, não custa nada. Além do mais você me prometeu, lembra?

Pensei por alguns segundos e como num desenho animado, um anjinho e um diabo se colocavam próximo a mim, um de cada lado. Contraditórios, um me advertia que já estava passando dos limites aquela relação, o outro que eu deveria seguir minhas vontade e pelo menos uma vez na vida ser passional. E fui.

--Tudo bem.

Letícia não disfarçou o contentamento que sentia ante a minha resposta, deu um sorriso clarificado, me fazendo deixar de lado o ciúme e me permitir desfrutar mais da sua companhia.

Saímos da piscina, ela disse que queria beber algo  e sugeriu que fossemos procurar no frigobar,  sentamos nos bancos que ficavam em frente ao balcão próximo da piscina, peguei um achocolatado de caixinha aproveitei a distração dela que nesse momento preparava uma dose de uísque para observar sua tatuagem nas suas costas, nunca tinha visto de perto, mas agora sentada ao seu lado tive uma visão privilegiada daquele lindo desenho. Uma Fênix, colorida, um desenho exótico de uma beleza inigualável que combinava perfeitamente com aquele corpo e com a personalidade que ela tinha.

--Gosta de tatuagem? –ela me perguntou sorrindo enquanto via meu olhar sobre seu corpo

--Nos outros, sim.

--Não tem vontade de fazer?

--Não, acho que não combina comigo. Além do que, meu pai não deixaria.

Ela sorriu pra mim, parecia se divertir. Ficou me olhando, encarando atentamente, enquanto eu tomava meu toddynho.

--Que foi?—perguntei sem entender

--Você é um bebê, como pode mexer tanto comigo? Me diz.

Arregalei os olhos, assustada. Letícia era de fato uma mulher direta, e nem que eu quisesse teria respondido àquela pergunta a queima roupa.

--Não sei.

--Prefiro você assim também, sabia? Lisinha, com o corpo intacto. Dá vontade deixar marcas no teu corpo todo, só que de outra forma.

Ela piscou para mim e eu devo ter ficado multicolorida com aquela investida, fiquei tão envergonhada que desviei o olhar, desconcertada. Diante do meu completo silêncio ela continuou, provocando:

--Eu tenho outra, mas é um pouco mais escondida, só mostro pra você.

Aquele papo já estava indo longe demais, decidi da um ''freio'' nas segundas intenções dela

--Letícia, vou indo pro meu quarto. Mais tarde te chamo se você ainda quiser sair. –Falei me levantando de supetão.

--Vou contar os minutos, sobrinha linda.

Saí apressada, tentando controlar as batidas do meu peito que palpitava em ritmo de escola de samba só em saber que passaria o resto do dia em sua companhia.

 

Sem saber o que esperar daquela noite. Sem saber o que esperar de Letícia.

 

** *

Só a raros eleitos é dado o milagroso dom de um grande amor. Eu teria muita pena que o destino não me trouxesse esse grande amor que foi o meu grande sonho pela vida fora. Devo agradecer ao destino o favor de ter ouvido a minha voz. Pôr finalmente, no meu caminho, a linda alma nova, ardente e carinhosa que é todo o meu ampa­ro, toda a minha riqueza, toda a minha felicidade neste mundo. A morte pode vir quando quiser: trago as mãos cheias de rosas e o coração em festa: posso partir contente.

 

 

 

Florbela Espanca, em "Correspondência (1930)"

Capítulo 7 por JuliaR

Nem preciso dizer que me encontrava a flor da pele desde o momento em que tinha combinado com Letícia de sairmos juntas à noite, se fosse em outra circunstancia, se não sentisse todo o interesse que de fato degustava, não haveria nada demais em sair com uma ‘tia’ como se fossemos boas amigas.

Mas não éramos amigas, a cada gesto, palavra, olhar que ela me lançava me faziam ter um presságio do que aconteceria horas mais tarde. Já não sentia mais aquela sensação de insegurança, de inocentemente achar que tudo não passava de fantasias minhas, Letícia tinha deixado claro o que queria e não poderia negar para mim que ansiava o mesmo.

Eu queria tanto quanto ela, não vou ser hipócrita ao ponto de me enganar sobre o que sentia, me interessei por ela desde o primeiro olhar, a primeira vista, mas isso não era minha maior preocupação, interesses são naturais da própria essência humana.  O meu verdadeiro receio eram as proporções que aquele ‘’interesse’’ estava tomando, se agigantando em meu coração, ocupando espaços vazios, fazendo-me sentir o que nunca antes experimentei por alguém.

‘’Um alguém que pertencia a outro alguém’’ –pensei

E aquilo martelava em minha mente, saber que no fundo ela era dele, e eu não poderia mudar isso. Estava deitada em minha cama, olhando o teto branco e refletindo sobre as atitudes delas...sobre minhas atitudes diante daquilo. Ironicamente eu que sempre fui tão certa, e reprovava qualquer atitude que fugisse do campo ético e moral, estava cada vez mais envolvida  com uma pessoa comprometida, além de tudo mulher. Mulher do meu tio.

Estar com Letícia, era como estar caminhando em uma linha imaginária entre o certo e o errado, entre razão e coração.

Eu queria, mas não devia.

Ansiava, mas não podia.                                                                                                                  

A tentação de estar ao seu lado, sentindo seu cheiro, ouvindo sua risada rouca era maior que qualquer resquício de racionalidade que poderia ter.

Olhei por relógio e só então me dei conta que já se passavam das 22:00, era hora de me arrumar, já que Letícia tinha insistido que fôssemos a 23:00.

Eu poderia escolher qualquer roupa, uma mais despojada, que não despertasse tanto interesse dela, mas além de não ser meu estilo, ainda queria impressioná-la, queria que ela gostasse de mim, me achasse atraente. Desejasse-me.

Peguei o vestido mais lindo do closet, devo ter passado algumas dezenas de minutos para escolhe-lo, mas tinha a certeza que tinha sido o melhor para a ocasião. Ele era preto com detalhes brancos, o salto era preto agulha, nada muito vulgar, mas era acima do joelho e ficou colado no meu corpo, era um vestido tubinho que realçava meus seios. Nunca tinha me vestido assim, nem mesmo para Bernardo.

Caprichei na maquiagem, escura, mas não tão pesada, o ideal para sair a noite, o cabelo deixei solto, só usei um pouco de fixador para deixar os fios mais comportados.

Para finalizar borrifei um pouco de perfume.

Sai do quarto e nem precisei dar-me o trabalho de ir atrás dela, já que a encontrei no corredor avulsa, parecendo me esperar, o barulho do meu salto enquanto caminhava a fez despertar dos pensamentos e olhar em minha direção.

Sorri para ela, tímida enquanto nossos olhares se fixaram

--Uau! –Ela falou me olhando dos pés a cabeça.

--Oi...

Não podia negar que também estava surpresa em vê-la, estava simplesmente maravilhada com a minha visão, Letícia era tão linda que chegava a me doer o coração. Usava uma saia colada ao corpo branca e uma blusa de seda preta, os cabelos soltos em cascata davam ainda mais charme ao seu look

--Simplesmente linda, sobrinha.

--A senhora também.

--Nossa, me arrumo toda para parecer tão jovem quanto você, e ainda me chama de senhora!–falou fazendo uma cara engraçada

Sorri e ela me acompanhou.

--Vamos?

--Claro.

 

Saímos de casa e fomos em direção a garagem pegar meu carro, destravei a porta para abrir.

--Se preferir, eu posso dirigir...—

--Está insinuando que não sei dirigir?

Ela sorriu entrando do lado do passageiro.

--Imagine, confio em você de olhos fechados.

--Percebi.

--Seu carro é lindo, aliás, é o carro mais limpo e cheiroso que já entrei. –

Ela falou sorrindo para mim enquanto eu tirava o salto para dirigir melhor. Liguei o carro em direção a saída da casa.

--Se importa se eu escolher o lugar para onde a gente vai?

--Depende de qual lugar...

--Segredo!

Letícia logo pegou o celular e foi me dando as coordenadas pelo GPS, dizendo qual caminho deveria seguir, vez ou outra ela dava uma risadinha me deixando mais curiosa ainda sobre os planos que ela teria.

--Sorrindo do quê, posso saber?

--De felicidade, afinal estou feliz por estar saindo com minha sobrinha, não posso?

Quando chegamos não contive a surpresa ao ver o local onde iríamos ficar, olhei incrédula para Letícia.

--Uma boate alternativa?

--O que tem? –me olhou como se fosse a coisa mais natural do mundo.

--Nunca entrei em um lugar assim.

--Tudo tem sua primeira vez, não é verdade? –falou me olhando enigmática

--Nem tudo...

--Vamos entrar logo, antes que fique lotada.

Descemos do carro após ter sido deixado no estacionamento, fiquei meio desconcertada pois andava ao lado de Letícia, e ela ainda fazia questão de por a mão na minha cintura enquanto caminhávamos em direção a entrada. Já adentrando no espaço percebi que se tratava de um ambiente duplo, em baixo  pista de dança grande e um bar coletivo figuravam, já na parte de cima era uma espécie de camarote bem menos pessoas, com uma pista de dança pequena e um bar e garçons servindo as mesas.

--Quer subir? –Letícia perguntou ao meu ouvido, devido a musica alta

Meneei a cabeça afirmando, ela então me puxou pela mão e falou com o garçom entregando o cartão de crédito, que logo após liberou nossa entrada.

Subimos, e lá de cima vimos que o ambiente era bem mais reservado, eu diria até romântico visto a quantidade de casais que se encontravam lá. Homens dividiam mesas com homens, e mulheres com mulheres. Olhei com estranheza para Letícia enquanto escolhíamos uma mesa.

--Só tem casais aqui...

Letícia ainda olhava concentrada o cardápio, mal ligando para minha observação, só soltou um sonoro:

--Hum, sim. Quer beber algo?

--E você acha isso normal? Nós duas no meio de tantos casais, vão pensar que a gente...

Ela então tirou a atenção do cardápio, e pediu ao garçon dois martinis. E me olhou carinhosa, segurando minhas mãos por cima da mesa e fazendo um carinho gostoso.

--Porque não relaxa um pouco? Estou tão contente por estar aqui contigo. Só nós duas. E não quero que se sinta desconfortável, mas se realmente não tiver gostado e quiser procurar outro lugar ou mesmo ir pra casa, eu vou com você pra onde quiser.

Derreti, né?

Ela sabia como me conquistar, isso era fato. A cada palavra carinhosa, um frio na barriga.

--Quero ficar com você aqui.

Ela me deu um sorriso aberto, me desconcertando. Só então percebi o sentido dúbio di qual ela interpretou o que eu disse.

--Quero ficar aqui em sua companhia, isso que quis dizer

Ela fez um biquinho lindo, o que fez meu coração vibrar ainda mais.

--Já estava ficando feliz.

O garçon logo nos interrompeu colocando sobre a mesa duas taças de Martini.

--Desculpe a indiscrição, senhorita. Mas você é maior de idade? –falou ele olhando diretamente para mim, enquanto Letícia sorria. Debochando.

Não estava acreditando naquilo, mas acabei abrindo minha bolsa e levando a carteira de motorista para ele. Que logo constatou minha idade e se desculpou mais uma vez pela inconveniência.

--Imagine, ela parece mesmo um bebezinho mesmo. –Letícia ria sem parar me olhando divertida.

Se aquela risada não fosse tão gostosa ousaria dar-lhe um tapa, por fazer minha vergonha aumentar. Revirei os olhos, incomodada por ser alvo de tantos risos.

--Ai, não fica brava comigo, vai?

--É um absurdo, primeira vez que isso acontece.

--Posso ver sua carteira?

Entreguei a ela, que parecia observar com atenção.

--Só você mesmo pra sair linda em uma foto 3x4...

--Obrigada.

Bebemos o Martini calmamente, enquanto a musica que soava no ambiente era ótima, alternava entre anos 80 e 90, e eu que apesar de ter estranhado e ficado até desconfortável no inicio começava a relaxar com aquele som que parecia me transportar para décadas atrás.

--Adoro essa, dança comigo?

--Agora não, dança você. Te espero aqui.

Ela foi para pista de dança enquanto tocava Depeche Mode, fiquei observando-a caminhando para a pista de dança, a forma com que ela dançava era sexy demais, charmosa demais, e era uma exímia dançarina.

Em meio as outras pessoas, ela parecia se destacar mesmo alheia a todos, dançando de olhos fechados, estava arrancando olhares não só meus, mas de outros que presenciavam a cena o que me incomodou. Como se sentisse que era observada, virou para mim e abriu os olhos me olhando.

Ela sorriu.

Sorri para ela também.

Ela beijou sua própria mão e assoprou na minha direção, como se ‘’enviasse’’ um beijo. E com um simples gesto desse fez com que eu flutuasse, levando meu pensamento para outra dimensão. E cada gesto tolo, me davam ainda mais vontade de seguir em frente, arriscar. Me deixar levar pelo mar azul dos seus olhos.

Ainda olhando ela dançar, vi que uma morena se aproximava dela, sussurrando algo em seu ouvido e Letícia sorriu para ela.  Senti meu sangue ferver com aquela cena, a morena também sorria abertamente pegando na cintura de Letícia enquanto conversavam ao ‘’pé do ouvido’’.

Raiva era a definição perfeita do que eu estava sentindo naquele momento, a vontade que tinha era de ir lá separar aquelas duas nem que fosse no tapa. Minha raiva ainda aumentou quando Letícia apontou para mim e a morena deu uma risada  e comentava algo em seu ouvido.

Deveria estar caçoando de mim, no mínimo teria dito para ela que eu era sua sobrinha e estava acompanhando, só em pensar naquilo me faz ter um incomodo incomum. Estava chateada com Letícia por estar com ela, não comigo. Por preferir a companhia dela. Não quis mais olhar aquela cena, virei o rosto e pedi um bebida para o garçon que prontamente trouxe. Devo ter bebido tudo num gole só, tamanho nervosismo com a cena.

Demorou pouco e senti um abraço por trás e seu perfume invadiu enquanto sentia seus lábios na minha orelha.

--Dança comigo, meu amor?—falou beijando minha orelha

Não queria transparecer meu desconforto, mas não me contive.

--Chama sua amiga pra te fazer companhia, Letícia.

Ela saiu de trás de mim e se pôs na minha frente, e para minha surpresa sentou nas minhas pernas de lado, fazendo carinho no meu rosto e sorrindo.

--Você faz uma carinha deliciosa quando esta com ciúmes. Dá vontade de encher de beijos.

Fiquei calada diante da investida dela, na tentativa de fingir que era indiferente aos seus toques, Letícia então tocou meus lábios com o dedo indicador e fez todo o contorno, olhando fixamente para minha boca enquanto passava a língua lentamente nos seus próprios lábios.

--Posso te contar um segredo? –me perguntou enquanto mordia os lábios

--Diz...

Ela tirou uma mecha no meu cabelo e sussurrou no meu ouvido:

--To louca pra te beijar. Deixa?

--Aqui não...—falei me arrepiando inteira.

Ela me olhou surpresa.

--Em outro lugar, então...

Apenas balancei a cabeça afirmando, ainda hipnotizada pelo seu olhar. Encantada por cada toque, ela me sorriu enquanto estávamos a centímetros de distancia e deu um beijo na pontinha do meu nariz.

--Agora vem dançar comigo. É um ordem. –Falou me levantando pelas mãos

Suspirei, me sentia tímida dançando com ela. Na verdade nem sabia se era realmente timidez ou receio de perder o autocontrole pela proximidade que meu corpo se encontrava do dela, e ela sabendo do me atingia provocava ainda mais dançando com o corpo próximo ao meu.

A musica eletrônica facilitava a aproximação de Letícia, que fazia questão de colar no meu corpo, suas pernas expostas pela saia curta se encostavam a minha descoberta pelo vestido, vez ou outra colocava a mão na minha cintura, barriga. Sorria pra mim de forma safada, tentava aproximar sua boca da minha.

Eu desviava. Ela insistia.

Nós duas riamos desse jogo.

--Adoro um doce.

Sorri. E assim se foi com as cinco ou seis musicas que se seguiram, até falar pra ela que estava cansada e queria voltar a mesa.

--Você é muito fraquinha.

--Você que tem fôlego demais.

Sentia meu corpo quente, mesmo com a boate climatizada ainda sentia calor, fiz um coque no meu cabelo enquanto era observada atentamente por ela que me olhava intimamente.

--Que foi?

--O que?

--Me olhando assim.

--Planejando o que farei mais tarde, talvez... – piscou o olho para mim.

A cada investida dela eu bebia um pouco mais, como se aquilo amenizasse minha apreensão.

Um, dois, três goles e quanto mais bebia mais Letícia parecia se divertir.

--Bebendo assim pra criar coragem, é?

Quase pulei da cadeira quando senti  suas pernas encostem as minhas por baixo da mesa, subindo e descendo, fazendo-me arrepiar inteira. As cadeiras por serem altas, e a mesa por ser pequena, facilitavam o movimento ousado, ao mesmo tempo em que suas pernas bailavam junto as minhas, seu olhar permanecia estático diante do meu. Aquele olhar safado me fazia acender inteira.

Fomos interrompidas pelo garçom que trouxe junto com a bebida um bilhete para mim, dizendo ter sido mandada por uma mulher. Li e me surpreendi com o que havia escrito:

Numa multidão de olhares anônimos o seu fascinante me chamou atenção.
Assim é o seu olhar, tem o brilho ofuscante
tem algo de diferente, finge ser indiferente quando cruza o meu.
Me dá o prazer de ver-te de perto?

Por mera curiosidade perguntei quem era, ele logo apontou para uma loira no canto do bar que me sorria simpática, e eu já desconfiava que fosse ela pois desde que adentrei naquela boate ela me olhava fixamente. Era de fato uma mulher linda, aparentemente mais velha, senti meu ego deleitar diante do interesse dela. Porém estava com Letícia e não iria ser deselegante ao ponto de me deixar levar por uma desconhecida que apesar de linda, não fazia meu coração bater como a mulher a minha frente.

Falei no ouvido do garçom para que agradecesse a ela pela gentileza, mas que estava acompanhada.

--Vamos para casa? –Letícia falou com uma voz seca.

--Já? Ainda nem são 3:00 e...

--Estou cansada, quero ir.

--Tudo bem. Vamos.

Pagamos a comanda e antes de sair ainda tive tempo de ver a mulher do bilhete me sorrir e acenar se despedindo, sorri de volta para ira de Letícia. Chegamos ao estacionamento sem dizer qualquer palavra, Letícia apenas bufava e trincava os dente parecendo segurar algum palavrão, não posso negar que aquilo me divertiu, era bom fazê-la sentir na pele o que eu havia experimentado horas mais cedo.

Destravei o carro ela tomou as chaves da minha mão e entrou do lado do motorista,  não me restando outra alternativa a não ser entrar do lado do passageiro, ela bateu a porta com força, arregalei os olhos olhando-a que ignorou totalmente minha surpresa, coloquei o cinto e pedi pra que ela fizesse o mesmo.

--Pra que? –perguntou toda emburrada enquanto ligava o carro

--Pra sua segurança, obvio.

--Segurança é tudo que você não pode oferecer.

Olhei para ela magoada, não gostei em nada do que ela me disse, o tom duro em que suas palavras sairam não lembravam em nada a forma doce da qual ela sempre falava. Eu poderia revidar dizendo que a segurança que ela queria só o meu tio poderia dar, mas optei por ficar calada, não queria prolongar, nem falar algo que pudesse me arrepender depois. Fiquei olhando distraída a paisagem da janela, as centenas de carros passando pelos viadutos, os prédios com as luzes acesas...

--Perdão.

--Ta. O que deu em você?

--Ciúme.

Olhei-a incrédula.

--Ciúme de quê?

--De você.

Ela falava apertando as mãos no volante, seu olhar ganhou tons avermelhados, parecia exasperada, descontrolada, tensa. Falava mecanicamente, e eu tentava absorver aquelas palavras com dificuldade.

Não dissemos mais nada no trajeto até minha casa, o silencio imperava em meio ao barulho das rodas sobre o asfalto e as buzinas dos outros carros, liguei o som e por um segundo quase me arrependi, ao ouvir a musica. Fiz menção de desligar, quando Letícia pediu docemente:

--Deixa.

(...)

So good on paper/É tudo tão bom na teoria

So romantic/ Tão romantico

But so bewildering/ Mas tão assustador

 

I know nothing stays the same/Eu sei que nada permanence a mesma coisa

But if you're willing to play the game/ Mas se você estiver com vontade

It's coming around again/ Tudo pode acontecer novamente

So don't mind if I fall apart/ Então não se importe se eu cair aos pedaços

There's more room in a broken heart/ Pois há mais espaço num coração partido

 Carly Simon – Coming Around Again

Ela acompanhava a musica cantando baixinho, sua voz era ainda mais linda quando cantava, de certo deveria ter feito aulas de canto, pois seu cântico era de uma entonação ímpar.

 

Chegamos e Letícia pôs o carro na garagem sem nada dizer, estacionou. Seu olhar agora era triste e olhava fixamente para a direção, no fundo eu sabia que era para não me olhar, e eu não queria tornar aquele momento mais constrangedor fiz menção de sair quando senti sua mão segurar a minha, me puxando delicadamente.

--Não suporto a idéia de você se interessar por outro alguém.

Ela disse isso me olhando, eu via sinceridade em seus olhos, que apesar de tristes estavam mais lindos ainda, a simples idéia de que  me quisesse somente para ela fazia subir um frio na barriga, uma sensação gostosa de ter um sentimento recíproco. Olhar naqueles olhos. Ver aquela boca vermelha entreaberta implorando pela minha.

Precisava senti-la.

Segurei sua face delicadamente entre minhas mãos enquanto a fitava intensamente, aproximei os meus lábios do seu queixo e depositei um beijo carinhoso, sentindo-a suspirar densamente, ansiosa para saber até onde eu iria.

--Não existe ninguém no mundo que me interesse mais que você...

E beijei aquela boca, que há tanto tempo ansiava sentir na minha, que ambicionava sentir o gosto.

E pela primeira vez em toda minha vida, não me arrependi de ter seguido meu coração.

 

 

** *

No nosso amor, tu dás-me a mão e eu coro; convidas-me para sair e eu hesito; brincas com os meus caracóis e eu gosto; bebemos chá e ficamos ébrios; passeamos à beira-rio e pode ser que nos beijemos. No nosso amor, não somos só amantes, mas somos cúmplices. E companheiros. Olhas para mim e lês-me nas entrelinhas. Olho para ti e sei-te de cor. Sorrio e mergulhas nesse sorriso. Abraças-me e absorves-me inteira. Dizes-me «amo-te» e eu acredito.

O amor que me ensinaste é puro, é natural, é biológico, sem corantes nem conservantes. Mas deixa-me contar-te um segredo: nesta era, que já não é minha, já não é tua, já nem é nossa; o nosso amor, ainda encanta!

 

 

Ana Rita da Silva Freitas Rocha, em 'Textos de Amor – Museu Nacional da Imprensa'

Capítulo 8 por JuliaR

Leticia*

 

 

Indescritível a sensação de sentir os lábios de Alice nos meus, apesar de ter passado noites e dias imaginando como seria ter sua boca colada a minha, nem em sonho imaginei que pudesse suplantar minhas expectativas.

O beijo teve gosto de surpresa, pois a iniciativa foi dela, e pela primeira vez não tinha sido eu que tentava algo, pensar nisso me fez perceber que o interesse não vinha somente de minha parte, era recíproco.

Nunca tinha provado nada mais delicioso que sua boca, o gosto, a forma como ela me beijava segurando delicadamente meu rosto, enquanto eu acariciava seu cabelo, puxando para mim. Me deleitava inteira ouvindo seus suspiros, mais parecia uma gatinha ronronando, ela oferecia a língua e eu fazia questão de sugar, tão gostoso era, que me imaginava sugando seu corpo inteiro, imaginando que gosto ela teria...

Vez ou outra ela fazia menção de separar, mas eu insistia não deixava, queria mais dela, queria mais daquela boca que me fez perder noites de sono.

--Estou sem ar – ela disse quando separamos nossas bocas por um segundo.

Sorri para ela, e ela me sorriu também.

Eu estava ali toda encurvada no banco, só quando desgrudei minha boca da dela percebi quão desconfortável era a posição em que me encontrava, no entanto a satisfação em beijá-la era tão grande que nem me dei conta.

Fiquei olhando o seu rosto corado, seu olhos não disfarçavam o excesso de bebida, a boca vermelha devido aos inúmeros beijos trocados ficava ainda saborosa.

--Quero mais. Muito mais.

Voltei a beijar sua boca, dessa vez explorei também o pescoço onde espalhava beijinhos até chegar na orelha. Mordi e ela suspirou aumentando ainda mais minha cobiça de senti-la mais próxima.

--Vem pro meu colo, princesa...—falei quase sem voz

Ela pareceu hesitar um pouco.

--Ta desconfortável pra mim...

Acho que ela não resistiu a minha cara de ‘’pidona’’ e acabou sentando, posicionei suas pernas ao redor da minha cintura, deixando-a alguns centímetros mais alta, facilitando meu acesso ao seu pescoço.

--Adoro seu cheiro, sabia?

 

--Humm

--Adoro tudo em você.

Ela olhou-me séria depois sorriu.

--Eu também, confesso.

Dessa vez quem sorriu fui eu, sentia meu coração acalentado a cada frase que saia daquela boca linda que me fazia perder o pouco juízo que eu tinha, dessa vez a beijei mais profundamente, explorando cada cantinho da sua boca, sentindo ela se arrepiar inteira.

Acariciava sua cintura e sua barriga por cima do vestido, a vontade que tinha era arranca-lo e sentir sua pele sem barreiras, desci minhas mãos e acariciei suas pernas e fiz menção em levantar a barra do vestido, quando senti suas mãos frearem as minhas, impedindo meus movimentos.

--Não pode?

--Não

--Ta bom.

Obedeci seu pedido, tudo que não queria era deixá-la insegura, voltei a afagar somente sua cintura.

Não sei quanto tempo ao certo passamos ali, trocando carinhos, só percebi quando ouvi a voz assustada de Alice.

--Meu Deus, já amanheceu o dia!

--Não exagera, o sol ainda nem nasceu direito.

Ela saiu apressada do meu colo e sentou no bando olhando-se no espelho do carro.

--Minha mãe acorda cedo, e se ela me ver assim, com essa cara...

A apreensão dela chegava a ser cômico, tamanho o nervosismo.

--Com cara de que?

--Com essa cara de quem tava fazendo coisa errada.

Não segurei a risada, Alice era uma figura. Que outro ser humano do mundo se preocupa com a cara de quem faz algo errado? Só ela mesmo. Me davaconta que me encantava mais a cada gesto, atitude dela.

Era visível nos seus olhos o quanto ela queria ir além, mas sua índole não permitia. Colocava dificuldade em tudo. Se ela soubesse que isso só fazia minha vontade aumentar, talvez cedesse.

A verdade é que eu AMO uma dificuldade.

--Como é uma cara de quem faz coisa errada?

Ela me olhou com enfado.

--Sério, você não sabe apenas fingir que nada aconteceu? E também não estamos fazendo nada demais —falei tentando deixa-la mais calma.

--Eu vou ficar vermelha, gaguejar, minha mãe percebe quando eu estou escondendo algo e se ela souber di...

--Alice! Pelo amor de Deus, não vai acontecer nada, relaxa. Só precisamos retocar um pouco o batom, que ficou um pouco borrado quando a gente se beijou...

--Não precisa dizer isso.

--Que a gente se beijou. Por quê?

--Quer que eu me sinta mais culpada ainda?

Falou abrindo sua bolsa enquanto eu fazia o mesmo.

Saímos do carro e fomos direção a casa, Alicia havia exagerado, o dia ainda não tinha amanhecido, a neblina ainda cobria a atmosfera e nem havia sinais de raios solares, olhei para o relógio e comentei:

--Ainda são 05:30, ainda dava pra aproveitar mais um pouco.

Ela virou-se para mim, irritada.

--Você não teme que alguém possa ver? E se nos discobrirem?

--Estou feliz demais para pensar nas conseqüências, você deveria fazer o mesmo.

 

Chegamos a entrada e Alice um tanto nervosa e com as mãos tremulas tentava encaixar a a chave na fechadura. Abriu e entramos, não havia nem sinal de alguém, o que pareceu tranqüilizá-la após soltar um suspiro audível. Segui seus passos que subiam as escadas, sem deixar de fixar o olhar no seu quadril, naquele corpo bem feito que me fazia perder os sentidos.

Ela chegou a porta do seu quarto, virou-se para mim e sibilou um  ‘’Boa dia’’. Continuei parada, aproximei-me dela esperando alguma reação dela, quem sabe ela tomasse iniciativa como fez horas mais tarde e iniciasse um beijo cálido.

Ela não o fez.

Mas não ia ser agora que me fingiria de rogada, empurrei-a delicadamente para dentro do quarto, fechei a porta atrás de mim enquanto fitava seu olhar assustado.

Puxei seu corpo pra perto do meu, segurando sua cintura e beijei com urgência que as palpitações do meu coração exigiram. Beijei, suguei, mordi aquela boca que já me sentia dona, não queria parar. Meu corpo, minha boca pedia mais.

Desgrudei nossos lábios com dificuldade, me afastei do seu corpo e me despedi.

--Agora sim: Bom dia!

E saí sorrindo da cara extasiada que minha sobrinha linda fez.

Fui no meu quarto, Antoni estava no milésimo sono, tirei minha roupa com pesar pois nelas  estavam invadido pelo cheiro de Alice, na minha boca ainda sentia o sabor doce dos seus lábios.

Tudo nela era gostoso demais, senti ímpetos de invadir seu quarto e passar a manhã toda a enchendo de beijos não somente na boca, mas pelo corpo inteiro.  Não me lembro da ultima vez que havia experimentado uma sensação de tamanha felicidade. Sim, esse era o sentimento que traduzia o que Alice me trazia, e era tudo que eu mais queria retribuir. A Felicidade, a Alegria em tê-la ao meu lado. Compartilhando sorrisos, beijos, olhares.

Alguém que entrou em minha vida em tão pouco tempo e já ocupava meu coração e minha mente como ninguém mais ocupara antes.

Olhar Antoni dormindo, me vez ver que apesar de gratidão, não sentia absolutamente nada por ele, nem tesão, nem amor, nem felicidade. Tudo era uma questão de gratidão.

E Alice, será se sente o mesmo pelo namorado. Ou será se o ama? Será se pensa em construir uma família.

Falar em família me fazia doer o peito, era um assunto que me desequilibrava, uma ferida que levaria por toda a vida, que talvez nunca curasse. Porém não era o momento de pensar sobre isso, estava feliz demais para pensar em coisas que só entristeciam o coração. Lembrei da frase que era quase um mantra nos últimos anos, ‘’Nenhum sofrimento é em vão’’, e pensar nisso me fez ver que Alice não havia entrado na minha vida por acaso, e depois de tanto sofrimento, não posso deixar de me dar uma oportunidade de ser feliz.

E depois de uma noite tão intensa, dormi pensando em como era bom sentir o coração invadido outra vez.

 

** *

 

Basta-me um pequeno gesto,

feito de longe e de leve,

para que venhas comigo

e eu para sempre te leve...

- mas só esse eu não farei.

 

Uma palavra caída

das montanhas dos instantes

desmancha todos os mares

e une as terras distantes...

- palavras que não direi.

 

Para que tu me adivinhes,

entre os ventos taciturnos,

apago meus pensamentos,

ponhos vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

 

E, enquanto não me descobres,

os mundos vão nevegando

nos ares certos do tempo

até não se sabe quando...

- e um dia me acabarei.

 

 

Cecília Meireles - Timidez

Capítulo 9 por JuliaR

Depois que Letícia saiu daquele quarto ainda fiquei alguns minutos tentando me recompor de todas aquelas emoções vividas em uma só noite, coloquei a mão no peito  e o sentia o coração bater feito louco, sensação inédita até conhecê-la.

Não sabia lidar com aquela ousada, aquela sensação de nunca esperar o que há por vir quando estava diante dela, a insegurança de quem não tem nada a ganhar. De quem não tem nada a perder. Estava tão confusa, e o pior, não tinha a quem recorrer, Patrícia e Ana não iriam compeender o que nem eu mesma entendia, como poderia explicar que a namorada do meu tio mexia tanto comigo?

Naquela manhã a insônia imperou, não consegui pregar os olhos, o sol raiava lá fora, ouvia passos pelo corredor, fica apreensiva só em imaginar que pudesse ser ela, que a qualquer momento pudesse entrar de novo e me arrancar beijos. Só em lembrar de seus beijos me fazia suspirar, revivendo a sensação de ter seus lábios colados aos meus me tirando o fôlego e o juízo.

Acordei com o relógio marcando 17 horas, depois de sonhos desconexos e sem sentido levantei da cama e fui para um banho caprichado enquanto pensava nela, estava ansiosa para encontrá-la apesar da minha timidez não podia negar o quanto era agradável ser alvo de suas investidas. Vesti uma roupa leve e fui para o corredor toda sorridente procurando-a pelos cantos.

Meu sorriso se desfez quando escutei uma gritaria vinda do quarto dos meus tios, parecia uma discussão acalorada, dei alguns passos em direção a porta mas não era possível ouvir com exatidão o que diziam, mas se tratava de uma briga feia visto que não era do feitio de Letícia falar alto.

Meu dilema no momento era se interromperia ou não aquela discussão, me doía o coração saber que o idiota do Antoni estivesse fazendo algo que a incomodasse, porém também temia que ele pudesse ter descoberto alguma coisa. Pensar nisso me deixava completamente apreensiva, recuei e voltei para o outro lado do corredor fazendo jus ao meu lado virginiana covarde.

Desci as escadas da sala, fui a cozinha não vi ninguém. Nem sinal de Nona, nem de mamãe,  pela vidraça da sala vi que o jardineiro regava uma planta, o que me deixou ainda mais nervosa pelo fato de estar apenas nós três na casa.  Sentada naquele sofá aguardei até que aquela briga acabasse ansiosamente, o que demorou bastante, só então vi Antoni visivelmente estressado descendo as escadas rapidamente. Ele nem sequer me cumprimentou de tão irado que estava, mal esperei ele abrir a porta e fui correndo em direção ao quarto de Letícia.

Respirei fundo antes de empurrar a porta entreaberta, enquanto a via de costas para mim, olhando pela janela de vidro, era possível ouvir seu choro baixinho enquanto via ela com uma das mãos enxugar as lágrimas, enquanto a outra acariciava a barriga.

Espantoso o quanto aquele gesto me doeu, o quanto fiquei mortificada a vendo ali, tão fágil diante de mim.  Bati levemente na porta e anunciei minha chegada.

--Sou eu, Alice.

--Eu sei —ela falou depois de alguns segundos em silencio, com a voz embargada

--Posso ir aí?

Ela apenas balançou a cabeça e eu tranquei a porta atrás de mim, enquanto me aproximava cuidadosamente dela, segurei seus ombros que estavam nus devido ao vestido sem alças que ela usava, afaguei sua pele fazendo uma leve massagem, ela estava tensa mas parecia relaxar com meu toque.

--Vira pra mim.

Ela virou lentamente, de frente pra mim e só então pude ver o quanto ela estava abatida, seus olhos inchados e vermelhos lacrimejavam sem cessar, ela me olhava abertamente sem disfarçar a tristeza.

Enxuguei delicadamente cada lágrima que caia em seu rosto com o dorso da mão, sem parar de olha-la.

--Não quero mais ficar nesse quarto.

--Vem comigo.

Segurei sua mão e levei-a em direção ao meu quarto, arrumei a cama deixando o mais confortável possível e ajudei a deita-la e sentei ao seu lado, acariciando seu rosto, suas mãos geladas. Queria que ela me dissesse o que aconteceu, me faltava coragem para perguntar, no entanto ao ver que ela continuava acariciando a barriga não segurei.

--Ele te agrediu? – perguntei pondo a mão por cima da sua barriga e olhando nos seus olhos

--Não, não agrediu.

--Hum...-

Levantei e fui em direção a caixinha de remédios pegar um calmante e um copo de água pra ela.

--Toma, pra te ajudar a relaxar

Ela não protestou, tomou sem nada dizer permanecia calada, ás vezes parecia estar em outra dimensão, me olhava envergonhada, tímida. Nunca a tinha visto assim, tão insegura diante de mim.

Desviava os olhos para um ponto qualquer, mas não me olhava.

Tão linda, tão distante.

Mesmo melancólicos os traços do seu rosto ainda eram belos, uma beleza triste é claro, mas nem por isso menos linda, olhava para ela embevecida tentando decorar com o olha aquela imagem que levaria por toda a vida na memória e no coração. Ainda enxugava uma ou outra lágrima que teimava em cair.

Ela virou o rosto de repente e flagrou olhando-a intimamente, feito uma boba e fez um gesto que me encantou densamente, segurou minha mão, beijou, cheirou, passou demoradamente pelo seu rosto me fazendo prender a respiração.

Depois desceu colocando minha mão sobre o seu seio esquerdo, as batidas que senti eram tão intensas que senti um tremor subir pela minha espinha.

--É assim que ele fica toda vez que você olha pra mim desse jeito. Posso te dar um abraço?

Nem sequer respondi, fui imediatamente a sua direção de braços abertos, abraçando-a forte, tentando lhe passar segurança, querendo que ela soubesse com um singelo abraço que eu estaria ali, sempre que ela quizesse, sempre que precisasse.

Não queria de forma nenhuma invadir sua privacidade, constrange-la com perguntas invasivas mas me sentia na necessidade de ajuda-la, de aliviar um pouco daquele sofrimento, daquela dor. Se existisse um modo de arrancar todo aquele sofrimento, de delongar pra mim, de modo que aquele fardo não ficasse somente em suas costas, eu certamente faria.

Mas não poderia.

Ali abraçada comigo, na minha cama me limitei a perguntar.

--Letícia...

--Hum?

--Se quiser desabafar, se precisar de algo por mais bizarro que possa parecer, conte comigo. Faço o impossível pra não te ver sofrer assim. Só me diga do que precisa, eu prometo que te ajudo.

Ela afrouxou o abraço e me olhou nos olhos.

--Só preciso de você perto pra ficar tudo bem. Não precisa fazer nada, só fica aqui comigo. Por favor.

--Fico sempre que você quiser.

Instintivamente fui lentamente em direção aos seus lábios e depositou um selinho.

--Obrigada

--Pelo beijo?

--Pelo bem que você me faz.  Pela felicidade que você me trás. Pelo cuidado constante.

Impossível não sorrir feito boba.

--Mas é claro, pelos beijos também. Os melhores que já provei.

--Boba.  Não gosto de te ver chorar.

Disse tirando uma mecha do seu cabelo e acariciando seu rosto ainda úmido.

--Devo estar horrível mesmo.

--Não, até que fica bonitinha com esses olhos inchados, a maquiagem borrada e essa cara de quem comeu e não gostou.

Ela sorriu mesmo triste esboçou um risinho, o primeiro durante nossa longa conversa, o que me impulsionou a descontrair mais nossa conversa.

--Tão ruim assim?

--Claro que não, só foi uma tentativa bem sucedida de fazê-la sorrir.

Ela ainda punha as mãos sobre o ventre, acariciando vez ou outra me causando estranheza.

--Dor no estômago?

--Não é que...

Pus as mãos sobre a barriga e quando fiz menção de levantar vi uma cicatriz, que apesar de ter contornos finos era perceptível a espessura. Letícia tentou afastar minhas mãos com uma expressão de susto, mas não permiti.

--Dói?

Ela me olhou toda constrangida, mas não iria desistir de saber o que tinha acontecido.

--É uma dor mais psicológica do que física.

--Não entendi.

--Acidente, Alice...

Agora foi minha vez de ficar completamente constrangida diante da revelação feita por ela, nas palavras carregadas de nostalgia que ela falava.

--Desculpa ter sido invasiva. Mesmo, prometo ficar em silencio agora em diante e sem fazer perguntas impertinentes. Juro.

--Já estava na hora de falar sobre isso com alguém.

Culpei-me instantaneamente, o quanto tinha sido custoso arrancar-lhe um sorriso, e agora por idiotice minha tinha trazido a tona um assunto desagradável que a fazia sofrer. Fiquei calada, , querendo passar segurança segurando suas mãos entre as minha, para que ela soubesse que não importava o que tinha passado, eu estaria ali.

--Letícia não precisa fa...

--Perdi meu filho, Alice. Num acidente de carro.

 

Nem sequer pude esconder a surpresa com aquela revelação, fiquei apalermada com o que ela me disse, jamais imaginei que ela pudesse ter tido um filho, constituído uma família.

--A cicatriz, apesar de ter feito algumas sessões a laser para tirá-la decidi posteriormente não fazê-lo mais, é como uma lembrança que tenho dele. Da qual não quero me desvincular.

--Qual era o nome da criança?

--Marco Antonio.

--Lindo nome.

--Significa inestimável, magnífico.

--O significado também é lindo...

--Eu que escolhi.

--Aposto que o Marco Antonio lá do céu, não quer ver a mãe dele chorando, sabia?

--Ele deve achar a mãe dele uma boba, certamente.

--A boba mais linda do mundo inteiro.

--Às vezes olho crianças, imaginando como seria ele, como seria o cabelo, a voz, a jeitinho dele, sabe? Será se era mais levado, ou tímido? É tão inexplicável, um dia você saberá como é ter um filho no ventre, e amá-lo desde o dia que você descobre que ele está ali, quando ainda é apenas uma sementinha. Imaginá-lo fazendo milhares de coisas, crescendo ao seu lado, aprendendo contigo...

--Deve ser uma sensação ímpar, não penso em ter filhos agora, mas quando tiver um dia, vou tentar ser a melhor mãe do mundo.

--A criança vai ser linda, vai parecer com você.

Sorri.

--Letícia, eu sei que uma criança não substitui outra, e que Marco sempre terá um espaço desmesurado no seu coração e nas suas lembranças. Mas você é uma mulher jovem, nada te impede de ser mãe outra vez, de amar e educar uma criança sua. Se você acha que não é o momento agora tudo bem, mas permita pensar sobre.

--Se tiver um, apesar de ainda não estar preparada psicologicamente, e um filho também tem que ser gerado com amor...

--Se tiver um, futuramente, é claro. Adoraria ser a madrinha. Isso foi uma intimação!—sorri para ela

--E mãe?

--Como? –Não entendi onde ela queria chegar.

--Ser mãe de um filho meu, o que acha?

Ela me olhou profundamente, e eu gargalhei ainda mais esperando que ela sorrisse ou esboçasse algum sinal de que não deveria levar o que ela falava a sério. Meu riso foi morrendo em meus lábios a medida que ela me olhava com seriedade.

--Ta brincando, né?

--Não. Iria adorar ter um bebê ruivinho que nem você.

Engoli seco.

Aquela conversa com ares estranhos foi interrompida com Nona batendo na porta do meu quarto, avisando que o jantar estava na mesa.

 

** *

 

Saí do quarto e Letícia apesar da minha insistência, avisou que não ia descer até sala de jantar, pois não queria ver Antoni, só a deixei jantar no quarto porque sabia que após o calmante que dei a ela não haveria disposição para muita coisa.

Quando vi minha mãe na sala de jantar, falei resumidamente para ela que Letícia e Antoni brigaram, sem dar detalhes, claro. E ela acabou concordando que Letícia deveria passar a noite em meu quarto já que não havia clima para que eles dormissem no mesmo lugar que ele.

Enquanto Nona preparava a bandeja  para que eu levasse o jantar para Letícia que estava em meu quarto, aproveitei para ir no escritório. Peguei um livro de um autor que adorava e copiei um trecho  do livro num papel e levar para Letícia junto com o jantar. Era uma surpresa bobinha mas sentia necessidade de demonstrar o que sentia sobre ela.

 

‘’ Conta comigo sempre. Desde a sílaba inicial até à última gota de sangue. Venho do silêncio incerto do poema e sou, umas vezes constelação e outras vezes árvore, tantas vezes equilíbrio, outras tantas tempestade. A nossa memória é um mistério, recordo-me de uma música maravilhosa que nunca ouvi, na qual consigo distinguir com clareza as flautas, os violinos, o oboé.

O sonho é, e será sempre e apenas, dos vivos, dos que mastigam o pão amadurecido da dúvida e a carne deslumbrada das pupilas. Estou entre vazios e plenitudes, encho as mãos com uma fragilidade que é um pássaro sábio e distraído que se aninha no coração e se alimenta de amor, esse amor acima do desejo, bem acima do sofrimento.

Conta comigo sempre. Piso as mesmas pedras que tu pisas, ergo-me da face da mesma moeda em que te reconheço, contigo quero festejar dias antigos e os dias que hão-de vir, contigo repartirei também a minha fome mas, e sobretudo, repartirei até o que é indivisível. Tu sabes onde estou.

Sabes como me chamo. Estarei presente quando já mais ninguém estiver contigo, quando chegar a hora decisiva e não encontrares mais esperança, quando a tua antiga coragem vacilar. Caminharei a teu lado. Haverá, decerto, algumas flores derrubadas, mas haverá igualmente um sol limpo que interrogará as tuas mãos e que te ajudará a encontrar, entre as respostas possíveis, as mais humildes, quero eu dizer, as mais sábias e as mais livres. ‘’

Conta comigo. Sempre.

(Joaquim Pessoa)

 

 Dobrei o bilhete e coloquei sobre a jarra de suco que estava sobre a bandeja e segui subindo pelas escadas, abri a porta do quarto e vi que se encontrava na mesma posição deitada na cama. Deixei a bandeja sobre o criado mudo sendo observada por ela. Disse para ela que passasse a noite em meu quarto, que era mais aconchegante e que eu iria para o quarto de hóspedes para não incomodá-la

Apesar dela ter relutado alegando que devíamos dormir juntas, não quis arriscar passar a noite ao seu lado e acabar dando vazão aos meus instintos, mas disse que ela poderia me chamar para o que precisasse e que ia vez ou outra no quarto ver como estava.

 

 

Sai do quarto com um misto de alívio e de insegurança. Alívio por ver que ela estava mais tranqüila, e insegurança por não saber quantos mistérios ainda guardava aquela mulher

Capítulo 10 por JuliaR

Logo após deixar o jantar para Letícia, fui ao quarto de hóspedes tentar descansar um pouco e antes de me aprontar para dormir recebi uma ligação de meu pai e como sempre acontecia quando ele me ligava, passei horas conversando e matando a saudade, ele por ser muito ocupado me ligava nos horários mais estranhos, as vezes a noite, de madrugada mas nem por isso sua ligação se tornava menos agradável. Já se passava de 1 da manhã quando desligamos o telefone e fui em direção ao banheiro tomar um banho gostoso que aquela noite quente pedia, logo após o término vesti apenas uma pequena calcinha e um sutiã pois o clima abafado não permitia me cobrir com roupas como eu desejava,  deitei-me na cama para me deleitar com mais um livro, não sei ao certo quanto tempo se passou, só fui desprender minha atenção daquelas páginas quando ouvi batidas em minha porta. Estranhei mas tinha certeza que deveria ser a mamãe ou Nona. Nunca pensei que pudesse ser Letícia, mas descartei por achar que ela já havia dormido em razão do calmante que dei a ela mais cedo.

Fui atender a porta, e eis que me surge minha tia em carne e osso, me olhando de cima a baixo com a cara mais desavergonhada do mundo, o que me deixou completamente quente.

--Letícia, o que veio fazer aqui?

--Esqueci.

--Como assim esqueceu?

--Eu sabia exatamente o que falar, mas vendo você assim acabei esquecendo.

E sorriu da forma mais safada do mundo inteiro. Como aquela mulher me dava trabalho, como tinha a capacidade de me desmontar apenas com um sorriso, um olhar.

--Para de ser boba.

--Me deixa  entrar?

--Entra.

Só então percebi o quanto ela estava linda naquela camisola de seda preta sempre rendada, ela sentou-se sedutoramente na minha cama, me olhando detalhadamente, como ela sempre fazia, me deixando sem graça.

--Vem aqui.

Ela pediu e eu sentei ao seu lado, enquanto ela segurava minhas mãos com delicadeza e olhava em meus olhos.

--Amei o bilhete.

Não disse nada, apenas observava aquela boca rosada falando com uma voz tão gostosa que não ousava interromper.

--Na verdade vou usar isso como um termo de compromisso, caso um dia você me largue vou mostrar pra você esse bilhete e sua promessa de nunca me deixar.

Sorri alto, Letícia tinha um senso de humor peculiar que eu simplesmente amava.

--Eu tenho palavra, não precisa disso.

--Não tenho tanta certeza, falou pra mim que ia ver como eu estava no seu quarto, e até agora nem pôs os pés lá.

--Achei que você estivesse dormindo...

--Dormi de tanto esperar!

O seu tom de indignação me fazia rir ainda mais.

--Desculpe, não vai acontecer de novo.

--Mas não vai mesmo, porque hoje eu vou dormir aqui com você.

--De jeito nenhum, você vai ficar quietinha lá, descansando!

--Eu tenho medo de dormir só... –ela fez uma carinha tão desprotegida que fiquei até com dó.

--Para de fazer essa cara, parece até o gatinho do Shrek!

--Por favor, eu vou me comportar.

--E se alguém vê a gente acordando juntas?

--Você e sua mania de achar que o mundo todo está espiando a gente. Além do mais eu acordo cedo e vou pro seu quarto, relaxa. Dorme comigo, bebê?

Pensei por alguns segundos na próxima loucura que eu ia cometer.

--Está bem, só vou colocar uma roupa melhor.

--Fica assim, ta ótima. Sério, nós somos mulheres não precisa dessa cerimônia toda.

Olhei com enfado, ela só podia estar brincando.

--De verdade, pode ficar a vontade não vou fazer nada...Nada que você não queira.

Piscou o olho pra mim.

--Não vou querer nada, ok?

--Ok, mas tem um detalhe importante, que espero que não se incomode. Eu só durmo nua.

Arregalei meus olhos.

--Para que o susto? Não vamos fazer nada mesmo, então não tem problema algum a forma como eu vou dormir.

--Faça como achar melhor então...

--To brincando com você, bobinha.

Deitei na cama, bem no canto liguei o ar condicionado no máximo e me cobri, aguardando Letícia que foi em direção ao banheiro

Ela voltou do banheiro e deixou a porta semi aberta, a luz que vinha de lá deixava o quarto pouco iluminado, mas o suficiente para admirar sua silhueta, deitou na cama cuidadosamente, não demorou nem um segundo até sentir seu corpo se aconchegar ao meu e experimentar um arrepio que subiu ate a espinha.

Seu nariz recostou na minha nuca, aspirando, cheirando enquanto pousava seu braço delicadamente sobre a minha cintura. Sua perna subiu e se pôs entre as minhas, da posição que estávamos, ela por trás e eu de lado permitia que suas mãos tivessem acesso ao meu corpo.

Sua mão pousou em minha barriga que contraiu imediatamente ao sentir seu toque quente, acariciava, passava as unhas de leve me arrancando suspiros, sua penas subiu mais encostando no meu sexo, senti minha calcinha molhar imediatamente e dessa vez quem suspirou foi Letícia, que passava sua língua escorregadia no meu pescoço e me fazia idealizar como seria sentir sua língua entre minhas pernas, me sugando inteira.

Quando ela fez menção de descer a mão que já acariciava a lateral da calcinha, me afastei, evitando o contato.

--Fica – Ela disse ofegante

--Agora não, Letícia.

--Quando então, já não to agüentando mais de vontade. Faz isso comigo não.

--Hoje não. Quem sabe outro dia, em outra ocasião, em outro lugar que não seja  aqui em casa, não me sinto confortável.

Letícia fez um bico, toda emburrada. Virou para o outro lado, parecendo aquelas crianças birrentas.

--Vira pra mim, Letícia.

--Não quero.

--Letícia...

--Qual o meu problema? Estou gorda, feia? Porque você é evidente que você não me quer, que não sente vontade de ficar comigo.

Sorri daquela frase que nunca imaginei que fosse proferida por ela, sempre tão segura, cheia de si, Letícia exalava confiança, autoestima. E agora estava ali toda insegura, se sentindo rejeitada. Não nego que aquela ‘’fraqueza’’ dela me comoveu.

Ela me fuzilava com o olhar magoado o que ainda me dava mais vontade de rir.

--Só você faz isso comigo.

--Isso o quê?

--Me desprezar. Pois saiba que isso nunca aconteceu! E digo mais, você não sabe o que está perdendo só para você ficar sabendo.

Ela tagarelando ficava ainda mais linda, e não que eu seja malvada, longe disso, mas era bom ver que conseguia tirar ela do sério. A verdade é que eu não resistia aquela mulher, vê-la brava me atraia ainda mais, aquela testa que formava ruguinhas quando ela se irritava era simplesmente irresistível.

Não me agüentei e comecei a espalhar beijinhos por todo seu rosto, enquanto ela ainda falava.

--Você é uma boba, sabia?

--Claro que sei,você me faz de boba todo dia.

--Pára, Letícia. Você também não colabora...

--Como assim  ‘não colaboro’?—perguntou com estranheza

--Acha mesmo que eu teria alguma coisa com você aqui? Olha onde a gente está? Esse lugar não é nada especial...

Ela ficou pensativa por alguns instantes.

--Isso importa tanto para você?

--Claro.

--Desculpa, eu não sabia. Pra mim todo lugar é bom.

--Sério?

Ela balançou a cabeça afirmando.

--Mas comigo não é assim.

--Agora eu já sei das suas exigências vou providenciar algumas coisinhas. Apesar de achar que s melhores coisas vem sem prévia combinação.. —Falou piscando o olho

--Você é uma tola, sabia? E já está ficando tarde, melhor dormimos.

--Certeza que quer dormir? –Falou arqueando a sobrancelha

--Letícia!

--Desculpa ,era só para ter a certeza. Você sabe que eu não desisto fácil.

--Sério, se não tivesse dito nem saberia!

Ela sorriu.

--Sua mãe me convidou para sair com ela amanhã ver alguns detalhes do ateliê, acho que ela precisa da minha ajuda como economista.

--De manhã?

--Sim.

--Vamos dormir então, já está tarde.

--Não ganho nenhum beijinho de boa noite?

Impossível resistir aquele pedido, beijei-a com vontade para que ela sentisse desejada, para que soubesse que me atraia da cabeça aos pés, que jamais seria indiferente a toda aquela beleza.

** *

O resto daquela madrugada transcorreu sem maiores emoções—e provocações—por parte dela. Dormimos com as mãos entrelaçadas de conchinha.

Acordei e não a vi ao meu lado, provavelmente já teria saído com minha mãe.

Era domingo e soube por Babá que mamãe e Letícia realmente tinham saído para uma reunião no ateliê. Agradeci-a mentalmente por não estar em casa, visto que Bernardo ligou avisando que iria me visitar.

Não poderia inventar uma desculpa qualquer, ele era meu namorado e já tinha me distanciado muito dele nos últimos dias sem motivo aparente, o que me fez ser questionada por ele alguns vezes sobre o porquê de tanta distância. Senti-me muito mal por isso, ele estava tentando manter nosso namoro nos conformes enquanto eu nem sequer lembrava dele nos últimos dias.

Infelizmente essa era a verdade, meus pensamentos confusos só se direcionavam a uma pessoa que ironicamente já estava comprometida como eu.

Babá foi até meu quarto avisar que ele havia chegado e me esperava na sala. Desci as escadas enquanto ele me acompanhava com o olhar. Sorri e ele retribuiu me dando um beijo e abraçando-me:

--Saudade. –Falou sussurrando

--Eu também –falei beijando seu rosto sentindo a barba por fazer. –E trate de tirar essa barba. –falei sorrindo

Segurei sua mão e o levei até o sofá, só então pude ver que ele trazia nas mãos uma caixa dos meus bombons favoritos.

--Pra você.

--Que fofo.—falei com sinceridade. Bernardo era um ótimo namorado.

Olhando com calma pude ver todos os detalhes, de fato era um homem lindo, os cabelos pretos perfeitamente alinhados, sobrancelhas grossas, os olhos cor de mel.

Nem sua aparência de cansado fazia sua beleza abrandar.

--Trabalhou até tarde ontem? –perguntei enquanto ele fazia carinho no meu cabelo.

--Até duas da manhã. –falou enquanto colocava a mão na boca, bocejando.

--Muito puxado, ainda nem sei o que farei quando acabarem minhas férias. Mas porque você não tira uns dias pra descansar?

--Estamos numa negociação muito importante com outra empresa, infelizmente é impossível pensar em férias antes da transação se realizar. Ainda não sei se eles aprovarão meu projeto, fico receoso caso eles não aceitem...

Só então pude ver o quanto tinha sido egoísta nesses últimos dias, Bernardo estava simplesmente sendo um dos responsáveis pela construção de uma  rede hoteleira do Estado, tudo que ele sempre quis, e eu me mantendo avulsa sem estar do lado dele nesse momento tão importante.

Inevitável me sentir culpada.

Sim, porque ele sempre esteve do meu lado, em momentos alegres e difíceis, mesmo sendo um homem ocupado, nunca deixou de se fazer presente em minha vida.

Levantei meu olhar e o encarei.

Dei um selinho.

--Tenho certeza que você vai tirar de letra. –Falei fazendo carinho no colarinho de sua camisa.

--Se você estiver ao meu lado, eu poderei tudo. –

Falou enquanto me apertava em seus braços, beijando minha boca com vontade, enquanto apertava minha cintura.

Bernardo beijava bem, sabia bem como eu gostava de ser beijada. Mas faltava algo, sabe? Não era a mesma coisa de antes.

Mesmo não sentido a mesma vontade que ele, correspondi o deixei  explorar minha boca o quanto quisesse. Só parei quando ele acariciou minha barriga.

Ainda estávamos na sala, não ia permitir que ficássemos ali.

--Para, Bernardo. –Falei enquanto cessava o beijo e tirava a mão boba dele.

--Faz tempo que a gente não faz nada, estou com saudades.

--Não.

--Porque não?

Como eu ia explicar pra ele? Iria dizer que outra pessoa surgiu em minha vida e com sua chegada se foi toda minha vontade de ficar com alguém que não fosse ela?

--Porque não estou afim. E se dê por satisfeito. —falei já perdendo a paciência

--Eu tenho minhas necessidades, Alice.

--Se é por sexo, então procure outra. Mulher pra você certamente não irão faltar.

Ele pareceu irritado com o que eu disse.  Mas não havia nada a fazer.

--Se eu quisesse outras mulheres não teria escolhido namorar você.

--Não acredito que vamos brigar por isso, Bernardo.

--Desculpa, não quis te irritar. –falou acariciando meu cabelo.

Ficamos mais algumas horas trocando carinhos no sofá, estava sentada no colo de Bernardo enquanto ele fazia carinho nos meus cabelos e vez ou outra cheirava meu pescoço. De repente tive uma sensação incomum de ser observada por alguém, olhei para os cantos e nada.

Quando levantei os olhos a vi.

Linda. Do alto da escada. O olhar jocoso tão peculiar deu lugar a um olhar cheio de significados. Séria.

Meu susto foi tão grande que Bernardo percebeu e a viu também

Acho que devo ter ficado corada. Tamanha vergonha que passei.

Vendo que foi percebida, desceu as escadas calmamente. Enquanto eu e Bernardo nos pomos de pé.

--Boa tarde. Não vai me apresentar seu namorado, Alice? –falou num tom provocante.

--É... Bernardo essa é minha tia, Letícia. Letícia, esse é Bernardo, meu namorado.

Cumprimentaram-se formalmente.

--Não sabia que Antoni tinha tão bom gosto. –Bernardo falou, educadamente.

--Certamente você tem bem mais que ele. Minha sobrinha é uma moça linda. –falou com os dentes cerrados.

Poderia até estar enganada, mas ela parecia estar com ciúme.

Bernardo concordou com a cabeça e depositou um beijo em meus lábios.

Não estava acreditado naquilo. Só posso ter jogado pedra na cruz.

--Bem, foi um prazer conhecê-la, Letícia.  Mas tenho que ir pra casa.

--O prazer foi meu, Bernardo.

Ele sorriu.

--Me leva até a porta, amor.

--Claro, com licença.

Disse enquanto ia de encontro à saída da casa de mãos dadas com ele.

Antes de ir, ainda ouvi um comentário infeliz de Bernardo.

--Sua tia é linda, viu? Se não fosse tão apaixonado por você juro que arriscaria. —falou ele entre sorrisos.

A vontade que eu tive foi de deferir uma tapa com força nele, até sentir minha mão arder. Nem sequer me dei ao trabalho de disfarçar o incomodo que aquela frase me causou.

--Ei, calma, amor. Não precisa ficar com ciúme. Você sabe que eu seria incapaz de te trair, ainda mais com sua tia.

O tapa que segundos antes tive pretensão de acertar em Bernardo, agora a vontade que tinha era de estapear-me após o que ele disse. Senti-me sórdida.

Forcei um sorriso sem graça enquanto me despedia dele e o via caminhar em direção ao seu carro.

Na volta para a sala, estagnei quando a vi de pernas cruzadas acomodada confortavelmente numa poltrona. Olhava-me profundamente, sem sorrir.

Se aquela cena fizesse parte de um filme, certamente seria Instinto Selvagem.

Não sabia se olhava para o azul de seus olhos, ou para suas pernas torneadas, que me pareciam um tanto convidativas.

--Não quer sentar? –falou-me séria, me encarando

--Onde? –Falei sem me dar conta do que ela disse pois ainda encarava suas pernas.

Descruzou as pernas lentamente, parecendo querer me provocar ainda mais, subiu a barra da sua saia, deixando-a mais curta e deu dois tapinhas, como se assinalasse para que sentasse ao seu colo.

--Aonde quiser...

--Babá, deve estar na cozinha e Antoni deve estar...—falei rapidamente como se me justificasse o fato de não fazer o que eu tanto queria.

--Sua babá saiu mais cedo, e Antoni ainda não voltou,  sua mãe ainda vai demorar. Estamos sozinhas, agora vem.—Disse em tom de ordena. Sexy.

Ela parecia morder o dedo indicador, enquanto seu olhar parecia me despir.

Impossível resistir a ela, o tom imperativo com qual me ordenava.

Como não obedecê-la?

Fui caminhando até ela, minhas pernas tremiam, minha boca seca e o coração dando pulos no peito.

 

Sentei, de costas para ela, quando senti minhas pernas de encontro à dela. Ouvi-a suspirar alto.

Suspirei também.

O short curto que usava fazia com que a pele exposta da minha coxa encostasse-se à coxa dela, descoberta pela saia que usava.

Quase gemi tamanha excitação de sentir ela atrás de mim, sua respiração pesada arrepiava cada pêlo do meu corpo.

Ela pegou meu cabelo delicadamente e pôs de lado, deixando meu pescoço e nuca expostos ao seu bel prazer.

Senti seu nariz aspirando meu pescoço e me arrepiei inteira.

 

--Gosta de namorar no sofá? –falou com aquela voz sexy, provocadora atiçando meus sentidos.

 

** * Continua

 

Os amantes de hoje preferem a droga mais leve, o tabaco mais light ou o café descafeinado. Já ninguém quer ficar pedrado de amor ou sofrer de uma overdose de paixão. As emoções fortes são fracas e as próprias fraquezas revelam-se mais fortes. Os amantes, esses, são igualmente namorados da monotonia e amigos íntimos da disciplina. O que está fora de controlo causa-lhes confusão, e afeta-lhes uma certa zona do cérebro, mas quase nunca lhes toca o coração. O amor devia ser sonhado e devia fazê-los voar; em vez disso é planeado, e quanto muito, fá-los pensar.

 

Sobre o amor não se tem controlo. É um sentimento que nos domina, que nos sufoca e que nos mata. Depois dá-nos um pouco vida. No amor queremos viver, mas pouco nos importa morrer e estamos sempre dispostos a ir mais além. Deixamo-nos cair em tentação, e não nos livramos do mal, embora procuremos o bem. No amor também se tem fé, mas não se conhecem orações: amamos porque cremos, porque desejamos e porque sabemos que o amor existe. Amamos sem saber se somos amados, e por isso podemos acabar desolados, isolados e deprimidos. Que se lixe! O amor não é justo, não é perfeito; no amor não se declaram sentenças nem se proferem comunicados. O amor prefere ser imprevisível, cheio de riscos e de fogo cruzado. No amor os braços não se cruzam, as palavras não se gastam e os gestos servem para o demonstrar. Amar também é lutar, e enfrentar monstros fabulosos com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de dragão. É uma ilusão, um sonho, um absurdo e uma fantasia. O amor não se entende, não se interpreta, não se discerne nem se traduz. Quem ama acredita, mas não sabe bem porquê, não sabe bem o quê, nem percebe bem como.

Capítulo 11 por JuliaR

Ela pegou meu cabelo delicadamente e pôs de lado, deixando meu pescoço e nuca expostos ao seu bel prazer.

Senti seu nariz aspirando meu pescoço e me arrepiei inteira.

--Gosta de namorar no sofá? –falou com aquela voz sexy, provocadora atiçando meus sentidos

***

 

--Não sei -- mal conseguia pensar, quanto mais responder.

--Seu namorado é muito simpático...e bonito.

--Obrigada...quer dizer, ele é uma boa pessoa--falei ja me arrependendo.

--Pensa em se casar com ele? --ela falou. Sorri.

--No momento não é um dos meus planos...

--Ainda bem, você ainda é muito novinha pra um compromisso tão sério...

Sua mão quente passeava em meu corpo, observando atentamente meus lábios, logo em seguida contornando-os com o dedo indicador.

--Você é muito nova, tem muito que aprender e viver antes de se prender a alguém.

--Hum -- não conseguia formular uma frase decente sequer, sentindo sua boca atrevida contornar meu pescoço.

Ela sorriu e tirou as mãos da minha barriga e afagou minha perna, me fazendo suspirar alto.

--Quero te contar uma coisa

Relutei, já pressentindo o que viria, mas arrisquei saber o que se passava naquela mente.

--Sim...

Leticia mordeu os lábios e lentamente pôs a boca próxima ao meu ouvido, causando arrepios em todo meu corpo. Antes de falar, passou os lábios lentamente por toda extremidade da minha orelha.

--Sua tia está morrendo de ciúmes de você.

 

Meu espanto por tê-la ouvido não foi maior que a surpresa ao ver Letícia sorrindo timidamente, como nunca tinha visto antes, parecia estar com vergonha por ter me dito aquilo, talvez não quisesse demonstrar sua vulnerabilidade.

 

Ouvimos barulho de um carro estacionando na garagem, e saiu rapidamente do colo de Leticia que suspirava toda descontente.

 

Tentei fazer com que meu coração batesse mais devagar, tamanho efeito da surpresa que tive. Um momento de racionalidade povoou minha mente fiquei me perguntando se a minutos atrás quando estava com Bernardo,  quanto tempo ela ficou ali nos olhando? E se ouviu algo do que dissemos? E se ouviu algo que disse a Bernardo sobre sexo? Meu Deus! Respirei fundo tentando manter a tranquilidade

 

--Hoje a noite você vai sair comigo. –disse se levantando da poltrona e desamassando a roupa.

--É um convite ou uma ordem? --falei sorrindo

--Como não aceito não como resposta, entenda como uma ordem. Ás 21:00. 

--Onde?

--Vou te levar pra jantar. Um jantar romântico --Piscou o olho.

--Nós vamos sair juntas? E se alguém estranhar? E o que vamos diz...

--O que tem de mal? Já falei com sua mãe que você ia me mostrar a cidade, que iriamos sair como boas amigas...

--Falou pra minha mãe antes de sequer me convidar? 

--Digamos que já sabia que você não me negaria esse convite tão simples e despretensioso.

 

Nada do que vinha dela era simples, muito menos despretensioso.

 

Os passos próximos à porta já eram audíveis, não demorou e vi minha mãe entrar na sala sorridente cumprimentando-nos e convidando Letícia para tomar um chá e contar as novidades do ateliê. Ela levantou-se e seguiu minha mãe pela varanda aproveitando a distração dela para me mandar um beijinho. Sorri pra ela.

 

Retornei ao meu quarto e só então vi inúmeras chamadas não atendidas no meu celular, eram minhas amigas me convidando para sair, confirmei que iria e não demorei muito a me arrumar e já fui ao encontro delas, antes de chegar ao meu carro que estava na garagem, pude ainda ver Letícia e minha mãe conversando na varanda.

 

***

 

Cheguei quando já era noite, a mesa já estava posta e nela se encontravam Mamãe, Antoni e Letícia que pareciam ter recém-iniciado o jantar. 

--Boa Noite.

--Não te esperamos para jantar, porque achei que fosse voltar tarde, filha. Clarinha ligou pra mim, disse que não conseguia falar com você – 

 

Mamãe falou enquanto eu me deparava com o olhar disfarçadamente inquisidor de Letícia.

--Pois é, acabei vindo acompanhar vocês. E meu celular descarregou, deve ser por isso...

--Que bom, já estávamos sentindo sua falta, Alice.--falou falou em um tom tão fofo que a vontade de tive foi de encher sua face de beijos

Um barulho de toque de celular soou no ambiente, e Antoni, como aquela eterna cara de tédio logo pediu licença para atender. Pude perceber que o clima entre ele e Letícia ainda estava estranho, algo ali ainda não estava no lugar.

 

--Estou muito feliz que vocês estão se tornando boas amigas, Letícia. Não que Alice não seja uma moça educada, mas ela nunca fez questão de ser muito gentil com Antoni, e por isso temia que esse desagrado se transferisse a você, mas pelo visto não. E fico muito feliz sabendo disso. 

 

Mamãe foi tão meiga que chegou a ser cômica, eu e Letícia amigas? Só no pensamento dela! 

--Também fico muito feliz em poder desfrutar da amizade e da companhia dela, sem duvidas temos muito a acrescentar uma a outra.

 

Fiquei em silêncio, afinal o que poderia falar numa hora dessas?

 

--Inclusive estávamos falando também que poderíamos aproveitar de passar alguns dias no sítio, aproveitar o feriado e tomar um pouco de ar puro, essa rotina de trabalho nos deixa estressadíssimas. Não concorda Letícia?

--Claro que sim, adoraria conhecer. Amo fazendas.

--Adorei a ideia, mamãe.

--Além disso, pode ser uma boa oportunidade de se entender com Antoni e dissipar esse clima tenso entre vocês.

 

O suco que estava tomando desceu amargo com o que minha mãe disse. Com esse proposito a ideia não era tão boa assim como eu imaginada...

--Sim, claro. --Letícia respondeu meio a contra gosto.

 

--Vamos então amanhã cedo de preferencia, a estrada é longa e não é bom sairmos tarde demais, quero chegar antes do almoço.

--Tudo bem.—Disse Letícia, e eu concordei.

 

 

Retornei ao meu quarto, estava com uma enxaqueca fora do normal, e aquilo me causava um estresse imenso. Mal tive tempo de sair do banho e já ouvi batidas na minha porta. Abri e me deparei com Letícia, aquilo já estava ficando comum na minha rotina.

Percebi a malícia no seu olhar ao me ver ainda de toalha.

--Quem é Clarinha?

Olhei-a com enfado.

--Boa noite pra você também, Letícia. Como vai?

Ela sorriu, desfazendo a cara amarrada.

--Boa noite, estou bem melhor agora. E você não respondeu minha pergunta...—falou entrando no quarto e sentando na cama.

--Clara é minha amiga.

--Hum...

--Veio até aqui pra me perguntar isso?

--Não, vim saber do nosso jantar—Disse enquanto se acomodava na minha cama cruzando as pernas.—Cama confortável...

--Letícia, ou você está com amnésia. Porque nós acabamos de jantar...

--Mas ainda não matei minha fome...

--Já eu, estou cheia.

--Não é pelo jantar em si, mas pela sua doce companhia.

--Infelizmente não vou poder, estou cansada e sem disposição para sair além do mais minha mãe disse que vamos sair cedo amanhã, a viagem vai ser longa e é melhor descansarmos. –falei impaciente

Ela desfez imediatamente o sorriso me olhou com um misto de incredulidade e decepção, parecia achar absurdo que não quisesse sair com ela, ou talvez pela minha resposta apressada.

Levantou-se da minha cama, ficou alguns segundos olhando pra um ponto fixo e foi em direção a porta.

--Boa noite. –disse encostando a porta.

 

Só então percebi que poderia tê-la machucado.

 

**

 

De tudo, ao meu amor serei atento 
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto 
Que mesmo em face do maior encanto 
Dele se encante mais meu pensamento. 

Quero vivê-lo em cada vão momento 
E em seu louvor hei de espalhar meu canto 
E rir meu riso e derramar meu pranto 
Ao seu pesar ou seu contentamento. 

E assim, quando mais tarde me procure 
Quem sabe a morte, angústia de quem vive 
Quem sabe a solidão, fim de quem ama 

Eu possa me dizer do amor (que tive): 
Que não seja imortal, posto que é chama 
Mas que seja infinito enquanto dure.
 

(Vinicius de Moraes - Soneto de Fidelidade)

 

 

Capítulo 12 por JuliaR

Acordei com minha mãe batendo na minha porta e me chamando pra tomar café da manhã, mas meu sono era tamanho que ignorei, virei de lado e voltei a dormir.



Não deve ter passado nem dez minutos e fui acordada mais uma vez.



--Já estou descendo, mamãe.



--Seus tios já tomaram café, só falta você descer. Já estamos prontos.



--Estou indo.



 



Devo ter tomado banho e escovado os dentes na velocidade da luz, não queria ser inconveniente e atrasar a viagem, para minha sorte tinha lembrado de fazer as malas ontem, antevendo que provavelmente me atrasaria devido a dificuldade que tenho de acordar cedo. Na mala pus as roupas de sempre, com a diferença que desta vez coloquei algumas coisinhas a mais que me ajudariam no plano que traçara na noite anterior. Sorri maliciosamente com meus pensamentos.



 



A verdade é que existia em mim um sentimento de culpa por ter tratado Letícia tão friamente, a ultima coisa que se passava em minha mente era magoa-la, tive receios de que isso tivesse acontecido.



 



Desci as escadas e minhas duvidas esvaeceram quando cumprimentei Letícia e Antoni, e recebi dela um olhar gélido e um ‘’bom dia’’ um tanto formal. Confesso que aquilo me abalou um pouco, estava muito mal acostumada com seu sorriso sedutor, do olhar afetuoso, no entanto não iria me dar por vencida, definitivamente estava disposta fazer as pazes, custasse o que for.



Tomei café ligeiramente na cozinha o fato de minha mãe ficar me apressando não ajudava muito.



Logo fomos pra caminhonete, enquanto Antoni colocava as malas no bagageiro, Letícia permanecia encostada ao carro, os óculos escuros de lentes enormes não me ajudavam muito a desvendar o que se passava naquela mente, aproveitei que minha mãe a Antoni estava conversando e me permiti observar, ela estava linda, como sempre, aliás.  Dessa vez com um visual mais despojado do qual não estava acostumada a vê-la, um short jeans que evidenciava suas pernas torneadas e uma camiseta de seda que cobriam um colo bem feito. Ela deve ter percebido meus olhares furtivos em sua direção, no fundo fiz questão que notasse, no entanto não esboçou nenhuma reação.



 



Letícia estava fazendo jogo duro, naquele momento percebi que os papeis iam se invertendo, mas se era isso que ela queria, quem sou eu para me fingir de rogada.



Estava decidida, ia jogar seu jogo.



 



Entramos no carro, eu e mamãe no banco de trás, enquanto Antoni dirigia com Letícia no banco do passageiro.



O vento que saia do ar condicionado espalhava o perfume dela, tão doce e suave que me fez aspirar aquele ar ao máximo, meu suspiro deve ter sido ouvido por ela, pois notei que ela me olhou pelo espelhinho do carro.



A viagem deve ter demorado umas três horas, o trajeto foi feito quase todo em silêncio, exceção de alguns comentários triviais que me davam o prazer de ouvir aquela voz suave.



Já estávamos chegando na fazenda, o verde da mata já aparecia, descemos do carro e aquele cheirinho de mato invadia o ambiente dando uma sensação de tranquilidade e paz, logo vieram os funcionários para retirar a bagagem e dar boas-vindas.  O casarão remetia a uma arquitetura antiga, os tijolos avermelhados e a madeira em tons verniz davam um ar rustico e imperioso ao lugar, contrastando com as plantas coloridas do jardim.



--Arquitetura magnifica, Liza. Adorei o local.



--É realmente linda, tivemos que reformar ano passado é uma casa muito antiga.



--Não imaginei que tivesse ficado tão bom assim. –Antoni disse.



--Vamos entrar? –Mamãe convidou enquanto nós acompanhávamos



 



Entramos e logo mamãe pediu que o funcionário subisse com as malas, ao ser perguntava em que quarto colocaria a bagagem de meus tios, minha mãe logo se apressou em dizer:



--As bagagem de Antoni e Letícia podem pôr no quarto ao lado do meu. E de Alice no quarto de sempre.



 



Procurei o olhar de Letícia, tentando encontrar algum vestígio, mas ela permanecia impassível, pelo visto os dois não estavam tão brigados, para minha contrariedade.



 



--Mãe, vou pro meu quarto, se puder peça pra alguém levar meu almoço no quarto. Tudo bem? – disse sem disfarçar o descontentamento.



--Tudo bem, meu amor. Descanse.



 



Fui para meu quarto ainda aborrecida, não gostava de sequer imaginar Letícia e Antoni voltando as boas, e sei que meu pensamento é egoísta, mas adoraria o fato deles estarem brigados, não suporto a idéia de ter que dividi-la com outra pessoa, ao mesmo tempo que tenho plena consciência que sabia onde estava me metendo quando me deixei envolver pelos seus encantos.



A frieza de Letícia me doía, pesava no meu peito o fato de que por um pequeno deslize poderia por tudo a perder, porém isso não me faria desistir de conquista-la, agora mais do que nunca percebi o quanto estou envolvida, já não conseguiria me ver sem ela, necessitava vê-la, ouvir sua voz, sua presença ao meu lado estava se tornando vital.



 



***



 



Acordei ouvindo o barulhinho da chuva que insistentemente respingava na janela de vidro, abri um pouco só para ter o prazer de sentir aquele cheirinho de terra molhada que eu amava, adorava esse clima frio principalmente para dormir.



Olhei o relógio e já eram 5 da tarde, de fato tinha dormido muito. Espreguicei-me na cama e fui ao banheiro tentar desamassar um pouco minha cara de sono e tomar uma ducha passei pelo quarto da minha mãe mas o encontrei vazio, no quarto de Antoni e Letícia também estava silencioso, talvez estivessem dormindo, pelo menos era o que eu preferia acreditar, bloqueava da minha mente qualquer outra hipótese de imaginar o que eles poderiam estar fazendo. Desci as escadas e estranhei não ter ouvido barulho algum, quando cheguei a sala vi aquele cabelo que conhecia bem, era ela sentada na poltrona próxima  a uma grande janela lendo um livro volumoso.



Olhei em volta e não vi ninguém, era a minha chance de tentar conversar com ela.



 



--Oi... –falei ainda tímida encostada na porta desviando a atenção dela do livro para mim



--Olá, Alice.



Se possível ela estava ainda mais charmosa com aqueles óculos de grau delicados. Fui me aproximando dela mas permaneci em pé.



--Tudo bem? – perguntei



--Ótima e você?



--Mais ou menos.



--Hum –disse fechando o livro e colocando no criado mudo, enquanto me analisava.



--Me desculpe por ontem, estava meio cansada e...



--Tudo bem.



--Te chateei, não foi?



Falei tentando não transparecer a tensão que sentia na minha voz, e ela demorou alguns segundos para me responder parecendo escolher as palavras cuidadosamente antes de proferir.



--Já passou. Sente-se.



Sentei meio que sem jeito ainda, aquela conversa estava sendo formal demais para mim, tudo que não queria de Letícia era distância.



--Certo, mas mesmo assim queria que você soubesse que não foi minha intenção. Se puder haver algum modo de reparar esse mal entendido...



--O mal entendido já foi resolvido, liguei ontem desmarcando o jantar no seu restaurante preferido e desfiz a reserva no hotel mais caro da cidade. Até que passar meu aniversário sozinha não foi tão ruim assim –falou com um sorriso irônico



Arregalei os olhos de surpresa, não imaginei que a intenção fosse essa, se possível fiquei com a consciência mais pesada ainda.



Me senti a pessoa mais idiota do mundo, era aniversário dela e eu a tinha dispensado.



--Poxa, lamento muito mesmo ter te causado tamanha frustração.



Devo ter feito a cara mais triste do mundo, digna de cachorrinhos abandonados, de modo a fazer Letícia se sensibilizar com minha culpa e tê-la feito sorrir, dessa vez de maneira doce e compreensiva.



--Já passou, te desculpei  e não precisa ficar com essa carinha, senão quem vai acabar se sentindo culpada sou eu.



--Onde estão Antoni e mamãe?



--Estão no jardim. Por que? –falou estranhando minha pergunta.



Levantei  e tranquei a porta na chave, sendo acompanhada pelo olhar curioso de Letícia.



--O que está fazendo? –



Perguntou  erguendo as sobrancelhas, enquanto eu sentava do seu lado, sequer respondi minha boca se ocupou de algo mais importante do que falar.



 Beijei Letícia com vontade, com cobiça sentindo meu coração palpitar descontroladamente, enquanto era correspondida com ardor, ficamos nos beijando por um tempo que não sei calcular, minha boca somente se separava da dela para explorar seu pescoço, queixo.



--Saudades. –falei ainda ofegante sentindo Letícia salpicar beijinhos pelo meu rosto.



--Está mentindo pra mim.



--Não estou não.



Peguei sua mão e pus delicadamente no lado esquerdo do meu peito, para que ela sentisse que só de estar do lado dela meu coração disparava.



--Toda vez que fico perto de você ele fica assim, sabia?



Letícia deu um sorriso encantador que eu já não mais sabia se viveria sem.



***



Agora que sinto amor



Tenho interesse no que cheira.



Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.



Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.



Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.



São coisas que se sabem por fora.



Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.



Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.



Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.



 


 

Alberto Caeiro

Capítulo 13 por JuliaR

A proximidade dos nossos corpos fazia reascender em mim uma vontade louca de toma-la em meus braços como a muito tempo tinha vontade, o gosto viciante de sua boca me deixava completamente alucinada.

--Você se arriscando assim, inédito --falei quando ela desgrudou a boca da minha 

--Está insinuando que sou covarde? --olhou nos meus olhos com uma expressão falsamente desafiadora.

--Medrosa, eu diria.--falei salpicando beijos em seu queixo enquanto acariciava seu rosto.

--Sei ser corajosa nas horas certas, sabia?

--Ah é? Gostaria muito que tivesse coragem para fazer uma coisa...

--Que coisa? --se fez de desentendida

--Você sabe muito bem.

--Não, não sei. Pode me dizer? 

Tive vontade de rir, Alice estava brincando com fogo me desafiando daquele jeito, atiçando meus sentidos propositalmente enquanto seu olhar me questionava esperando de mim uma reação.

Olhei ela de cima a baixo, seu vestido curto que exibia suas pernas bem feitas, nem disfarcei meu olhar safado enquanto acariciava seu joelho e ia subindo sobre suas coxas, apertando, alisando enquanto mantinha o olhar no seu, que naquele momento tinha o brilho da luxúria, subi um pouco mais quase alcançando a calcinha e fui detida por ela que delicadamente deteve minha mão.

--Quero pra mim. 

Mordi meus lábios sem me conter.

--É isso que você quer? 

Falou com uma voz dengosa sussurada, enquanto nossas bocas estavam a centimetros de distancia e minha mão continuava a acariciar.

--Não somente isso, mas não posso negar que neste momento é o que mais desejo.

--E depois? 

--Depois o que?

--Depois que tiver o que tanto dejesa, o que fará? --falou mordendo meu lábio inferior

--Vou querer fazer de novo e de novo...

--E se eu não gostar? 

Fez uma cara divertida, querendo me provocar. 

--Tenho certeza que vai gostar.

Falei beijando sua orelha.

--Será que vou?

--Quer uma amostra? 

Passei a lingua na sua orelha, enquanto ouvia sua respiração ofegante.

--Amostra do que exatamente?

--Do que vou fazer contigo mais tarde.

Disse enquanto segurava o laço delicado de sua blusa, que cobria o decote.

--Deixa? 

Perguntei, enquanto a ouvia balançar a cabeça em afirmação.

Desatei de uma só vez, enquanto derecionava minha boca ao seu colo, beijando molhado, salpicando em direção aos seus seio ainda cobertos por um sutiã.

--Por que mais tarde? Esqueceu de onde estamos? --Me questionou com estranheza.

--Sua mãe a Antoni vão voltar mais cedo, algum problema coma empresa pelo que entendi.

Senti seu corpo enrijecer e suas mãos me empurrando com delicadeza, fazendo eu me arrepender de ter tocado no assunto.

--O que?! Que problema? Como você sabe disso?

Sua fronte mostrava uma preocupação, uma estranhesa como se tivesse falado a coisa mais absurda do mundo.

--Ah Alice, esquece isso! Somente vi eles comentarem algo, mas logo vim pra cá. Pelo que sei foi algo relacionado a problemas com um repasse a um fornecedor. Vamos continuar como estávamos...-- Falei beijando seu pescoço.

--E porque Antoni vai?

--Não sei, acho que vai axiliar ela em algo.

Alice deu um sorriso irônico, se levantando e fechando sua blusa.

--Aonde você vai?

--Falar com minha mãe.

--Alice, que bobagem deve ser um probleminha qualquer, vem cá!

--Não posso. 

Falou destrancando a porta e caminhando em direção a sala, fiquei alguns segundos estatica, me martilizando mentalmente por ter tocano nesse assunto. Mas como iria saber que isso iria deixa-la tão incomodada? Levantei e tentei acompanha-la, quando vi que ela entrou no escritório.

Pretes a adentrar pela porta entreaberta, ouvi a voz de Liza, e achei melhor não prosseguir, suspirei derrotada e quando ia sair escutei as duas conversando de maneira energica e detive o passo, deixando a curiosidade de sobrepor a educação me permiti ouvi-las.

--Desde quando existem problemas com investidores? 

--É um balancete que não fecha, Alice.

--E o que Antoni tem a ver com isso? 

--Nada! Ele só vai me ajudar a contornar isso tentando convence-los.

--Ele ajudar? Você só pode estar brincando. Sabemos muito bem que não podemos confiar.

--Alice! Não permito que fale assim dele. Antoni cometeu os erros dele, como todos nós cometemos, as pessoas mudam.

--Carater não muda!

-- Assunto encerrado. Se você quiser ficar aqui, fique. Eu estou indo, e ligo quando chegar.

 

Quando percebi que a conversa estava acabando sai rapidamente em direção a entrada da casa logo vi que havia no jardim havia uma caminhonete parada e ligada, pelo visto eles ja estavam de saída. O clima estava frio, e uma garoa leve se anunciava aos poucos enquanto o céu escurecia, vi Antoni sair com uma bagagem pequena acompanhado de Liza e Alice com a cara emburrada atras. Liza me explicou rapidamente que houve um contratempo e despediu-se de mim sem tecer maiores explicações, quando Antoni foi fazer o mesmo tentou em vão me dar um selinho na boca, o que me fez desviar solenemente de seus labios fazendo com que ele somente acertasse minha bochecha. Recebi um olhar raivoso dele, mas não me importei, não submeteria Alice aquela cena, além do mais se não o fizesse estaria jogando minhas chance de ter algo com ela hoje por agua abaixo.

--Até logo. Boa viagem. -Disse a eles enquanto desciam para a o carro, Liza ainda abaixou o vidro do carro antes de sair dizendo para mim.

--Cuide bem dela, Letícia. 

--Pode deixar, cuido sim.

Quando o carro saiu, pisquei para Alice e consegui ao menos arrancar um sorrisinho dela.

--Enfim, sós!

--Pois é. --falou com a voz um tanto desanimada, recostando os braços na pequena mureta com um olhar perdido observando o carro de longe.

--Nossa, quanta felicidade da sua parte. Eu aqui toda contente e você com essa cara de paisagem.

--Não é por você, acredite.

--Humm. Então, sua mãe pediu pra eu cuidar de você, não posso desobedece-la.--falei me posicionando atras dela, com as mãos em sua cintura.

Sorriu.

--Afinal você é um bebe, precisa de cuidados.

--Não sou não.

--É sim, e é melhor te tirar dessa frio todo, antes que pegue um resfriado. Vem? --

Estendi a mão e ela veio comigo para a casa ainda silenciosa.

--Não ficou nenhum pouquinho feliz em saber que vamos ficar sozinhas?

--Só um pouquinho.

--Vamos pro meu quarto?! Aproveitar que estamos sozinhas --falei na esperança que ela aceitasse.

--Letícia, Maria ainda esta na cozinha, não tem como.

--E que horas ela vai?

--Não sei, mas acho que depois do jantar. 

 

Adentrei no seu quarto lentamente e a vi, perfeita sentanda diante de uma penteadeira enquanto escovava os cabelos  brilhosos. A clareza de sua bele contrastava com o vermelho da sua boca e do cabelo, me deixando ainda mais desejosa de beija-la. Vestia uma baby doll de seda preta, curto evidenciando suas formas. Não tinha percebido a minha presença, e se assustou com meu reflexo no espelho, alguns metros atras dela.

--Linda.

--Me observando?

--Sempre.

Levantou-se e passou por mim lentamente deixando seu perfume em mim e trancou a porta, fui em sua direção a abraçando por tras.

--Não vou te deixar fugir dessa vez. --Sussurei no seu ouvido

--E quem disse que eu quero fugir?

--Menina...

Ja afundava meus rosto no seu pescoço tentando captar ao maximo aquele cheiro delicioso que só ela emanava. Virei seu corpo e a pus de frente, seus olhos avermelhados denunciavam o desejo, não me segurei e tomei sua boca entre meus labios, o gosto inigualável se misturava ao suave sabor de alcool, era possivel sentir o que tornou o beijo ainda mais saboroso.

--Bebeu pra criar coragem, sobrinha?

--Não me provoque.

Senti suas mãos delicadas subindo pelos meus ombros num toque sutil, porém firmes, mal tive tempo de raciocinar e fui empurrada para a cama.

Dei uma risada gostosa, enquanto me apoiava nos cotovelos, e só parei quando percebi seu semblante sério, seu olhar intenso sobre mim. Mordi os lábios com aquela visão, a sensualidade de Alice parecia mais aflorada do que nunca, talvez pela desinibição que o alcool produz, talvez pela química inegável que existia entre nós...

Desviei meu olhar do seu e percorri seu corpo de modo que não pude esconder meu desejo latente diante de sua silhueta. Senti sua mão levantar meu queixo de modo que meu olhar voltasse a encarar o seu.

--Andei pensando numa maneira de me redimir pelo que fiz na noite passada...

--Se quiser uma sugestão minha essa é a hora perfe... --ela pôs o dedo em minha boca, para que fizesse silêncio.

--...Ao mesmo tempo em que me lembro que você não têm se comportado bem esses ultimos 2 meses.

Sorri, enquanto ainda sentia seus dedos contornando meus lábios quentes e desejosos da sua pele. Naquela posição em que Alice estava havia um aurea de poder, e eu não me continha estava adorando aquela faceta malvada dela, tão diferente da menina doce que havia conhecido. 

Ela continuou falando enquanto via sua feição ficarar cada vez mais séria. Ja sentia meus batimentos mais fortes e minha boca secar.

--Me provocando esse tempo inteiro, não houve um só dia que tenha me deixado em paz, me atiçando, instigando...estimulando até o limite do suportável. Tem idéia de como eu me sinto, Letícia?

Não soube o que responder, o magnetismo que vinha dela era tamanho que não havia possibilidade de reação.

--Responde. Tem idéia de como me sinto?

--Não.

--Mas agora vai saber.

Se afastou e foi em direção a um pequeno aparelho de som, não demorou muito o que me fez pensar que ela teria algo premeditado aumentando a niveis estratosféricos minha ansiedade.

Logo ouvi o som, não soube distinguir a melodia de forma clara, mas parecia Portishead. Ela virou ainda com aquele olhar enigmático e desatou o laço do robe, que ao cair lentamente ao seus pés, fez também cair meu queixo.

Fiz menção de tocar sua cintura, mas recebi um tapa repreensivo na mão que me assustou.

--Só quando eu autorizar.

Me recompus na cama e parei para observa-la, Alice era de uma beleza angelical, um rosto meigo com traços juvenis constratando com um corpo estonteante com curvas que fazia qualquer um perder a razão, corpo de mulher.

Sentia minhas pupilas dilatarem ao passo que minha boca salivava de vontade, apertava de forma nervosa minhas mãos na colcha de seda que cobria a cama, tentando controlar ímpetos de devora-la. De ataca-la.

Me provocou de todas as formas possíveis, encostava, me olhava com luxuria, vez ou outra fazia menção de tirar o sutiã, outras vezes a calcinha mas parava, me deixando numa linha tênue entre a expectativa e a frustração.

Ela dançava no ritmo da musica, de maneira tão sensual que não contive o gemido ao sentir meu intimo inundar completamente. Estava enlouquecida! Senti-a aproximar de mim lentamente ainda no ritmo envolvente da canção pôs as as duas mãos sobre minhas pernas, apertou enquanto mantinha os olhos nos meus e desceu até o chão lentamente. 

Senti meu sangue gelar quando Alice sentou em meu colo, de frente.

--Agora você pode. --falou mordendo meu pescoço, me arrepiando inteira.

Senti sua pele febril e constatei que aquele desejo louco não era só meu, beijei seus lábios com vontade, mordendo, explorando cada canto daquela boca que também era minha. Apertei sua cintura, arranhei enquanto me deliciava ouvindo seus suspiros.

--Vai me deixar eu fazer o que quiser?

--Só hoje, eu deixo, tia.- Sorriu debochada.

Nos levantamos ainda com as bocas grudadas e eu a pus cuidadosamente na cama, de modo que ela ficasse deitada e eu ainda de joelhos tirei cada peça diante do seu olhar curioso. Deitei sobre ela e senti sua pele eriçar inteira com aquele contato, por um pequeno instante percebi sua relutancia em tocar meu corpo, parecia insegura passando  o dorso da mão delicadamente sobre meu colo, ela me sorriu em graça.

--É que ainda não sei direito...

--Sem problemas, eu adoro ensinar. --falei piscando o olho para ela.

Tomei seus lábios enquanto guiava suas mãos sobre meu corpo, se no inicio seu toque ainda era insegura, depois de alguns instantes ela parecia saber exatamente o que fazer, me apertava, arranhava minha barriga inteira enquanto lambia seu pescoço e descia para seu colo, tirei o sutiã e vi seu olhar desejoso. Eram lindos, lindos como ela, não poderiam ser diferentes, apertei nas minhas mão. Redondos e quentes.

--Vontade de chupar.

--Faz.

Beijei, lambi, chupei com vontade, enquanto com a outra mão apertava eu era estimulada pelos seus gemidos que agora estavam mais intensos e me davam vontade de me perder ali mesmo. Voltei a beija-la enquanto sussurei no seu ouvindo pedindo para que ela abrisse mais as pernas dando passagem para meu corpo.

Me posicionei entre elas de modo que meu sexo tivesse o maior contato possivel com o dela, mesmo com aquele pequeno tecido da sua calcinha impedindo um atrito maior era possivel sentir sua umidade que nesse momento ja se misturava a minha.

Dessa vez o gemido foi únissono, nos duas ao mesmo tempo traduzindo num pequeno som a vontade que nos atormentava a meses, a satisfação do corpo sentindo o desejo ser saciado. 

Robolei entre suas pernas enquanto via Alice cerrar os olhos numa expressão clara de desejo, senti suas unhas machucando minha pele a cada movimento que ousava fazer. Seus gemidos me enlouqueciam, perdia completamente a razão em vê-la ali nos meus braços tão entregue.

--Sobrinha gostosa, se continuar gemendo assim vou comer você a noite todinha. -- disse sussurrando em seu ouvido enquando ouvia sua risada.

--Você acha que da conta a noite toda? --Perguntou devolvendo aquela provocação.

--Vou mostrar para você. 

Em um só ato tirei sua calcinha, devo ter feito tão rapidamente que ganhei um olhar surpreso de Alice.

E naquela noite fizemos tudo que desejávamos desde o primeiro dia, desde o primeiro beijo, tudo que queríamos e negávamos, todo o desejo acumulado serviu de combustível para incendiar o quarto, deixar os corpos ardentes, entrelaçados e sedentos falarem mais alto. A  submeti de todas as formas, me deleitei em meio a palavras safadas sussurradas ao pé do ouvido, carregadas de um desejo incontido e sentimentos inconfessáveis.

Naquela noite foram desfeitos pudores, e Alice não mentia quando disse que tudo me permitiria.

 

 

***

Quis achar no teu corpo uma loucura nova 

alguma coisa viva 

que lá não estava 

e que era só minha 

e que eu te emprestava. 

 

Então, deu-me saudade 

do tempo em que teu corpo 

fruta à prova 

 

já era, por si só, uma loucura nova. 

 

Renata Pallottini

Capítulo 14 por JuliaR

Cumpri a promessa  sussurrada que fiz em meio a gemidos e espasmos. De fato fiz amor com Alice a noite inteira, quando o sol já ameçava raiar no horizonte pela janela, nossos corpos se separaram exaustos e molhados. A respiração falha, a falta de folêgo deu espaço ao sossego.

Logo depois de me desejar um feliz aniversário atrasado, mas que para mim foi a mais importante felicitação que ja tinha recebido, Alice me perguntou com uma voz rouca, que externava o cansaço após ver um grande sorriso nos meus lábios. 

--O que mais posso fazer para te deixar feliz? 

 Não existiam espaços para respostas, para palavras, nem havia o que falar naquela ocasião, o meu olhar sobre ela dizia mais do que qualquer som que  minha boca proferisse, e o seu simples gesto de tocar meu rosto e afastar meu cabelo atras da orelha em um toque delicado tinham mais significados do que um dicionário inteiro. Não soube o que responder, sempre tão cheias de respostas convictas, me vi sem saber o que dizer diante daquela pergunta tão despretenciosa, mas que para mim teve um significado sem igual.

Sorri enquanto acariciava seus cabelos.

Seu olhar tão meigo que me enchia do mais lindo sentimento, a ternura que fazia meu coração bater disparado no peito e que deixava as borboletas do meu estomago frenéticas.

E como um anjo, a vi fechar os olhos lentamente, na face uma expressão de exaustão. Também pudera, não dei um só segundo de paz naquela noite. Pensar isso fez um sorriso malicioso brotar em meus lábios enquanto observava seu sono leve. Acariciei seus cabelos ruivos, acobreados que ficavam ainda mais brilhosos ao refletirem os raios de sol que começavam a transceder a janela de vidro.  Devo ter ficado um bom tempo observando-a, não sei precisar, talvez houvesse passado horas velando seu sono.

Soube ao vê-la dormir que minha vida se dividira, antes e depois de conhecê-la. Sabia que diante de mim poderia estar meu maior obstaculo, o meu maior perigo mas que haveria ali também minha fortaleza, meu porto seguro.

Sugiram sentimentos em mim que achava eu ser incapaz de sentir outra vez, tanto quis sentir o amor outra vez, mas nunca imaginaria que ele viesse dessa forma. Uma sobrinha.

A cada avançar desse romance proibido sentia que era um passo em direção ao precipicio, e sobre minhas costas pousava o fardo de ter causado tudo aquilo, Alice disse somente a verdade na noite anterior, eu havia provocado toda essa situação, se não a provocasse tanto, se não a procurasse incontáveis vezes isso jamais haveria acontecido. Seria só mais uma paixão impossivel, um sentimento guardado a sete chaves sem pretensão de existir. Mas na minha vida o querer sempre andou entrelaçado ao ter, não me bastava desejar, tinha que possuir, não me contentava em imaginar uma história sem ir as ultimas consequencias. E aquilo sempre havia funcionado, até então tudo havia sido como eu planejava, como eu queria, mas com ela era diferente, existiam pessoas entre nós, laços que poderiam ser desfeitos, pessoas poderiam sair machucadas. Era tão dificil admitir para mim mesma que aquilo era mais que uma conquista, mais do que um jogo que sedução.

Não consegui dormir, ainda me sentia em completo ecstasy relebrando as cenas picantes que protagonizamos horas antes, me levantei da cama não sem antes acomodar Alice sobre a cama, e salpicando um beijinho no rosto rosado.

Tomei uma ducha rápida e fui em direção ao meu quarto para procurar alguma roupa confortável, desci as escadas e fui ao jardim, tão lindo era repleto de flores das mais variadas espécies e cores, tocava as pétalas onde ainda era possivel sentir o orvalho da manhã, levei meu nariz a uma em especial que tinha a cor amarela, mas não sabia que especie pertencia, consegui sentir seu cheiro e lembrei de um poema que li e dizia: Agora que sinto amor/Tenho interesse no que cheira./Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro./Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova. 

E era exatamente assim que me sentia, de repente tudo parecia ter um significado, minha sensibilidade antes camuflada agora se encontrava a flor da pele. Num gesto quase que infantil, retirei a flor e carreguei comigo de volta para casa.

Estava faminta, precisava recarregar as baterias por sorte cheguei em casa e senti meu nariz ser arrebatado por um cheirinho de bolo recém saido do forno. Delicioso. Dei um bom dia a cozinheira simpatica chamada Maria e ela logo se ofereceu para me servir café, em meio a conversas sobre o dia-a-dia na fazenda, ela me indagou se deveria levar café a Alice. 

Neguei ja temendo o que ela encontraria no quarto caso entrasse lá, roupas jogadas aos quatro cantos do quarto, leçois bagunçados seria no minimo constrangedor. Inventei uma desculpa qualquer, disse que Alice estava indisposta e que não precisaria se incomodar que eu mesma levaria o café para ela. 

Subi as escadas com uma bandeja repleta de guloseimas, e ainda me dei oa trabalho de colocar um copo de agua para abrigar a pequena flor, não sei se era cultura popular, mas ouvia dizer que prolongava a curta vida da planta.

Abri a porta com cuidado, mesmo assim não consegui evitar o grunido da porta rustica de madeira antiga, mas por sorte Alice não acordou e ainda permanecia no mesmo local, num sono tranquilo, um ressonar tão lindo que dava até pena de acordar. Depositei a bandeja no criado mudo e fui tentar arrumar um pouco da bagunça daquele quarto. Olhei despretensiosamente para a escrivaninha de Alice, lá junto a alguns livros, havia porta retratos com fotos diversas de amigas, familia, e um com Bernardo abrançando-a de forma apaixonada, aquilo me doeu, senti uma fisgada de ciúmes tão forte que me revirou o estômago. Virei o porta retrato para parede, não queria ficar me torturando olhando aquela foto que me dava nauseas. 

Lembrei então de quando Alice escreveu num bilhete um poema lindo e me deu em um momento doloroso, gesto esse que nunca esquecerei.  E naquele momento resolvi retribuir o carinho e com um poema respondi a pergunta que ela me fez antes de dormir. O que ela faria para me deixar mais feliz?

 

''Basta Você... "

Por Você

que encontro e vejo,

- que é como um sonho bom que eu sonho

e em vão desejo, 

E só porque a tenho ao meu lado

em nome dos meus olhos:

- Obrigada! 

Obrigada, por Você!

Basta você ser Você. Para que mais?

E por essa alegria que Você me dá,

por essa estranha felicidade, inexplicável,

que me faz ser feliz sem saber bem por que,

só por isto, e por tudo isto, eu lhe agradeço,

 

Pois o destino achou que 

vez por outra mereço

Você!

 

Basta Você ser Você. Basta, por um segundo

sentir a sua mão na minha mão,

tão pouco, pensarão!

- e, entretanto, para mim é tanta coisa, um mundo

encantado...

 

Mesmo sem nada me dar, Você já está-se dando

com a sua presença,

e isto é quase tudo para quem não pode, como eu,

senão sonhar acordado!

Sim, porque tudo, já se vê,

 

tudo:    seria Você!

Capítulo 15 por JuliaR

A noite ao lado de Letícia não poderia ser definida de outra forma senão excitante. Nem nas minhas maiores expectativas imaginaria que seria tão delicioso como de fato foi,  sexo para mim não era novidade, ja tinha dormido com Bernardo, mas nem havia como comparar, ter estado nos braços de Letícia foi uma sensação ímpar, nunca havia provado nada igual.

Na verdade, inicialmente, já havia planejado tudo milimetricamente, antes de viajar tinha ido comprar uma lingerie especial ja imaginando o que aconteceria e mesmo sabendo  que seriam raros os momentos que ficaríamos sozinhas em casa e tendo premeditado tudo me senti surpreendida a cada atitude de Letícia. 

Até então me perguntava intimamente se aquela mulher realmente existia, depois da noite descobri que sim, irresistivelmente deliciosa, ela sabia como me agradar, sabia exatamente o que fazer para me deixar a vontade, para me livrar das amarras. Ela esbanjava sensualidade sem vulgarizar, sabia conquistar cada cantinho do meu corpo.

 

Letícia era atrevida, não tinha vergonha de pedir nada, e fazia isso de uma forma tão direta que não dava espaços para negativas.

Era gostosa, e digo isso não de uma forma obscena pelas formas de seu corpo, mas pela sensação de querer sempre mais dela, provar mais e mais.

Era instigante, vez ou outra em meio a carícias observava a ''performance'' dela e me perguntava se ela já haveria tido outras experiencias, era praticamente impossível fazer tudo aquilo sem ter estado com uma mulher antes.

Ainda de olhos fechados preguiçosamente passei a mão na cama procurando o corpo quente de Letícia, mas não encontrei, abri os olhos e a vi sentada na cadeira perto da escrivaninha me observando. Sorri.

--Bom dia - falei

--Bom dia, lindinha.

--Me observando?

--Poderia ficar assim por horas, acredita? 

--Bobinha.

--Agora tome o seu café, meu bebe.

 

Só então percebi o café posto no criado mudo ao meu lado. Arregalei os olhos, surpreendida pela quantidade de comida que ela trouxe.

 

--Tudo isso para mim? 

 

--Você merece isso muito mais.

 

Me sentei ainda me espreguiçando na cama, com o lençol tentei cobrir meu corpo amarrando  sobre meu colo,  comi com satisfação um pãozinho caseiro e tomei o suco de laranja fresquinho. Senti o corpo conhecido se aconchegar atras do meu, causando um arrepio bom no meu corpo, seus braços envolviam minha cintura enquanto sentia seu nariz se aninhar ao meu pescoço.

 

--Você quer me engordar, é? Mas que bom que trouxe, acordei faminta! --falei isso pegando um fatia de bolo

--Claro que não, só me senti culpada por ter feito você perder tanta energia ontem, agora tem que repor.

 

Meu rosto corou na hora, Letícia sorriu.

 

--Você fica mais linda assim envergonhada, sabia?

--Imagino que devo estar linda com essa cara de sono. 

  Sentia os lábios quentes de Letícia espalharem beijos ternos na minha nuca me deliciava com aquele café saboroso que ela trouxe. Como era bom a sensação de ser cuidada!

--Tenho que tomar um banho, linda.

--Ainda está tão cheirosa...

--hmm, e essa flor? 

--Achei que não tinha notado.

--Estava com tanta fome que nem reparei, acredita? 

Era uma flor linda, o aroma era incrível, um doce citrico delicioso.

--E o bilhete não vai ler? 

--Claro que sim. 

Desdobrei aquele papel e li tudo atentamente, um poema lindo cujo autor não conhecia, mas que escrevia com uma profundidade inigualável. 

Foi inevitável não me emocionar.

 

Sorri e depositei um beijo leve sobre a bochecha de Letícia ainda encantada com o gesto.

--Me basta, é?

--Sim, basta você. Não preciso de mais nada.

Fiquei ainda alguns minutinhos curtindo aquele carinho gostoso que Letícia fazia.

--Preciso tomar banho agora, sério.

--Ai, não deixo. Fica aqui!

Suas mãos delicadas me seguravam para que eu não saisse, as segurei e beijei-as.

--Já volto para você.

Me desvincilhei do contato do seu corpo delicioso que me abraçava com carinho, apanhei um roupão felpudo e fui em direção ao banho, tomar uma chuveirada fria para despertar minha sonolência e começar o dia disposta. No banho, observando-me atentamente pelo espelho via em meu corpo algumas pequenas marcas da noite anterior, nada tão perceptível, não fosse minha pele tão branca e sensível sequer seriam percebidas a olho nu.

E água corria no meu corpo me fazendo lembrar da noite anterior, do toque, da sensibilidade que Letícia era capaz de causar na minha pele, no meu coração.

 

Enxaguei meu cabelo, tirando toda espuma depois escovei meus dentes e sai. Encontrei Letícia na mesma posição, sentada na cama sorrindo para mim.

 

--Acredita que ja estava com saudades? --falou com um ar divertido.

--Não! 

 

--Sim. Vem cá! -- falou me puxando pelas mãos.

 

--Calma, tenho que me vestir, Letícia --falei indo em direção ao armário escolher uma roupa.

 

--Deixa eu vestir você? 

 

Veio me abraçando por trás falando no meu ouvido, causando arrepios pelo meu corpo.

 

--Acordou disposta? --falei escolhendo um vestido e retirando

 

--Se bem que prefiro sem roupa!

 

--Safada.

 

Letícia me virou de frente e beijou meus lábios com vontade. Abraçando meu corpo me deixando sem ar.

 

--Quero mais, Alice. 

--Você vai ter

 

Letícia me encostou na parede explorando meu corpo com vontade, sentia seus beijos ávidos se espalharem pelo meu pescoço, enquanto uma de  suas mãos subia pelo meu colo, a outra puxava meu cabelo delicadamente me arrancando suspiros.

 Ouvi o barulho chato do celular, ignorei a primeira chamada. 

Continuou. 

Ignorei a segunda.

 

--Atende, linda. Deve ser sua mãe...--Letícia falou com a voz entrecortada

Suspirei e fui até a escrivaninha e tive um susto quando  vi no visor do celular o rosto conhecido. 

Era Bernardo.

 Na foto que tiramos no seu ultimo aniversário há 4 meses atras. Pisquei várias vezes enquanto olhava para a tela, minha respiração cessou enquanto um sentimento de culpa me invadia. Olhei ao redor como se estivesse sendo observada, mas só via Letícia me olhando com estranheza, porém não era o olhar dela que buscava, por mais que racionalmente saberia ser impossível que Bernardo estivesse ali, meus sentidos me afligiam pela possibilidade de ser observada. 

Me senti constrangida, como se ele pudesse naquele momento me ver, como se ele pudesse saber tudo que havia acontecido.

 

--Alice? 

Letícia tocou o meu braço levemente, mas retirei imediatamente repreendendo abruptamente aquele contato. Olhei para ela com aflição.

--O que houve? Quem era?

Suspirei alto enquanto fitava o teto, tentando evitar o maximo olhar Letícia.

--Bernardo.

--E...? --Letícia indagou sem entender.

--Preciso retornar.

 

Me retirei do quarto com as mãos trêmulas, ainda sentia o sangue faltar quando li sua mensagem.

Amor, preciso falar com você urgente. Quando puder me retorna.

 

Disquei o número conhecido rapidamente. Ele atendeu no segundo toque, com a voz conhecida.

--Oi

--Bernardo? Tudo bem?

--Não.

 

Senti sua voz estranha, parecia triste, melancólico. Não a reconhecia, sempre tão entusiasmado. Temi que houvesse acontecido algo realmente grave.

 

--Aconteceu algo com seu pai? Seu projeto deu certo?

--Ele está bem, tudo certo com o projeto. É outra coisa que queria te falar. Quando você volta, Alice?

--Amanhã, Bernardo. Por que? Me diz o que houve.

--Sobre a gente.

 

Senti a voz dele fraquejar e temi que ele soubesse de algo, que tivesse desconfiado, que alguém tenha visto algo e contado para ele.

--O que tem a gente? 

--Preciso te ver, quero conversar contigo pessoalmente. Com quem você está aí? Vi sua mãe e ela disse que você tinha ficado.

Meu coração quase parou. 

--É fiquei aqui no sitio sim, alguma coisa séria? Me diz logo.

--Muito séria, eu preciso de você. Te amo tanto, meu amor. 

 

Ele falava coisas sem nexo, sua voz pastosa denunciava que havia bebido.

 

--Bernardo, você bebeu?

--Um pouco.

--Em plena terça feira?! Com quem você está?

--Sozinho, eu precisava, você não entenderia.

--Está ao menos perto de casa? 

--Estou num bar próximo. Não se preocupa, amor.

--Faz o seguinte, vai pra casa, amanhã quando retornar conversamos, tudo bem?

--Sim, vou fazer isso. Alice?

--Oi

--Te amo muito. Você é tudo para mim, nunca esqueça disso.

Suspirei.

--Você também é muito importante para mim, você sabe disso. Se cuide, Bernardo. Boa noite.

 

Desliguei sentindo o peso do olhar de Letícia sobre mim, via ela parada na porta com braços cruzados numa expressão clara de irritação.

***

 

Trovas de ciúmes

 

"Dosado", o ciúme é tempero

que à afeição da mais sabor...

Mas, levado ao exagero,

é o pior veneno do amor...

 

Cão de guarda, ameaçador,

a rosnar, furioso e cego

eis afinal, meu amor,

este ciúme que carrego...

 

Do amor e da desconfiança

infeliz casal sem lar,

nasceu o ciúme, - essa criança

tão difícil de educar...

 

Perigoso, onipotente,

verdadeiro ditador...

o ciúme é um cego, doente,

ou um doente, cego de amor?

 

Eis como o ciúme defino:

mal que faz mal sem alarde

corte de alma, muito fino,

que não se vê... mas como arde!

 

O ciúme, desajustado,

por louco amor concebido,

era uma amante, (coitado)

 

a padecer... de marido!"

Capítulo 16 por JuliaR

Ter visto o olhar faiscante de Letícia me fez perceber a urgencia que tinha em resolver logo aquela situação no mínimo embaraçosa, não poderia continuar a me encontrar com ela enquanto ainda estava comprometida com Bernardo, vivia uma fase delicada da minha vida, que jamais imaginaria viver, teria que optar.

Letícia ou Bernardo?

Coração ou Razão?

De um lado a segurança, a certeza, o conforto de estar com alguem que me ama e que muito provavelmente estaria sempre do meu lado, compartilhando uma vida sem grandes emoções, com uma tranquilidade que sempre almeijei, até conhecer Letícia.

Do outro,  a emoção a flor da pele, a insensatez, a paixão flamejante a aventura constante, que fez despertar em mim sensações que até então não conhecia, e por mais deliciada que estivesse com esse turbilhão de sentimentos, sabia que não fazia parte do meu feitio viver a vida correndo riscos. E essa sensação fazia brotar em mim um sentimento antagonico de que aquela relação não daria certo.

Bernardo me pressionava de um lado, cobrava de mim a namorada carinhosa, cuidadosa, que sempre havia sido e que apruptamente deixou de existir. Ele tinha total razão. 

De Letícia havia uma cobrança, as vezes velada, as vezes dita em alto e bom tom.

--Porque não termina com ele, Alice?

As palavras saíram de sua boca de maneira tão formal que davam um tom quase lógico a sua pergunta, como se aquela decisão fosse algo tão fácil, tão despendiosa.

Eu que nunca fui de decisões e palavras impulsivas senti vontade de devolver a mesma pergunta com o mesmo tom lógico em que ouvira: Por que você não termina com meu tio, Letícia!? Mas calei. Aquele talvez não fosse o momento de falar sobre o relacionamento dela e Antoni, mas meu coração dizia que não demoraria o dia em que cobraria explicações.

--Não é uma decisão fácil. Mas conversarei com ele, sim.

--Você ficou tão séria, aconteceu algo?

--Nada, bobagem.

Voltei ao quarto e me recostei sobre a grande janela, ainda perdida em meus pensamentos, fazendo um breve retrospecto do que havia vivido naqueles meses, se minha vida virasse um filme, com certeza seria algum de Woody Allen, carregados de dramas e sentimentos controversos.

Ouvi um barulho caracteristico e olhei Letícia deitada com uma camera fotográfica antiga sorrindo.

--O que está fazendo?

--Fotografando minha modelo favorita.

Falou logo após um novo clic.

--Para.

--Por que? Você fica linda assim, concentrada, distante.

A medida em que tirava fotos, elas saiam automaticamente de sua maquina.

--Já chega, Letícia.

--Só paro se você vier aqui. 

Falou com a voz doce, irresistível. Fui até ela, sentei ao seu lado enquanto ela olhava fixamente para meu rosto.

--O que se passa nessa cabecinha?

--Nem queira saber...

Letícia sorriu.

--Somos confidentes agora, pode desabafar comigo.

--Confidentes, é?

--Claro que somos, temos segredos que só nós duas sabemos, não é verdade?

--Sim.

--Vem cá. 

Leticia me puxou delicadamente para seus braços, me fazendo afundar o rosto no seu pescoço, sentindo o perfume incomparável invadir meus sentidos

--As vezes, Alice, é preciso deixar preocupações de lado e viver um dia de cada vez, sabe? Não nos angustiarmos tanto com o futuro, viver o momento sem grandes pretenções, nos permitir vivenciar experiencias, sem fazer juízo de valor se é errado ou não. É muito doloroso pensar no amanhã, talvez ele não chegue e você perda a oportunidade de vivenciar aquilo que seu coração quer. Adiar é perder.

--Só não queria que minha felicidade fosse as custas da dor dos outros.

--Impossível viver sem magoar ninguem, seria ótimo se fosse assim, mas nunca é. Sempre haverá alguem que espera mais da gente, alguem que não aceita nossa escolhas, nossas vontades. É preciso estar de braços abertos para aceitar o novo e mais abertos ainda para deixar ir...

--Vou pensar mais sobre isso.

Peguei no sono após refletir sobre as palavras tão docemente proferidas ao meu ouvido.

 

**

O resto do dia passou devagar, o contato com a natureza me deu a leveza necessária para esquecer um pouco a decisão que teria de tomar, aquele dia ao lado de Letícia me fez refletir que por mais infeliz que fosse minha situação, não viveria sem ela. Me tomava no peito a triste constatação de que eu estava completamente, ridiculamente, perdidamente apaixonada, por ela. 

Você percebe que esta realmente apaixonada por um ser quando tudo que ela faz é lindo aos seus olhos. E tudo nela era lindo. Tudo. Por mais estranho que pareça até a forma como ela espirrava era encantadora, o barulho caracteristico soava como melodia aos meus ouvidos.

As covinhas delicadas toda vez que ela sorria arrancavam de mim suspiros mais sinceros, a voz gostosa, a pronúncia do meu nome, seu sotaque a forma convicta em que expressava suas opiniões, a personalidade forte, o magnetismo que só ela possuia.

Não sou de ter ataques de baixa estima, mas era recorrente a pergunta: O que será que ela viu em mim? De forma alguma me sentia feia ou algo do tipo, mas o que uma mulher como Letícia, tão madura, vivida veria em uma menina simples como eu? 

Meu questionamento só abrandava quando me lembrava que Letícia estava com Antoni, o que me fez ver que ela teria um gosto bem peculiar.

No nosso ultimo dia na fazenda cavalgamos, banhamos de cachoeira e tiramos dezenas de foto das paisagens, não houveram grandes momentos de intimidade, não que Letícia não tentasse, mas não me sentia completamente a vontade depois da ligação de Bernardo, expliquei minha situação a ela, que pareceu compreender com a promessa de que depois que resolvesse minha situação voltaria aos seus braços.

Dormi sentindo a mão de Letícia sobre meus cabelos, num carinho que me enchia ainda mais de amor por ela e certeza de que tomaria uma decisão, se não a mais correta, com certeza a que meu coração pedia.

O dia amanheceu e com ele veio a triste constatação de que deixaria o paraíso para enfrentar a vida real, aqueles dias ao lado de Letícia foram os melhores, a muito tempo não me sentia tão feliz com alguem, ao passo que teria que voltar para casa, teria que enfrentar Bernardo. Teria que tomar uma decisão.

Entramos no carro, e a sensação de saudade daquele lugar parecia ser mútua entre nós, como se parte daquilo que vivemos ficasse para tras, olhando pelo retrovisor a paisagem era ofuscada pela poeira da estrada.

Me acomodava melhor no banco, suspirando cansada, me pus a observa-la. Dirigindo ao meu lado. Seu olhar penetrante completamente concentrado na estrada, seus braços cobertos por uma blusa manga longa de linho preto, contrastava com o cabelo loiro brilhante. O perfil dela parecia ter sido esculpido a pincel tamanha perfeição. O nariz afilado, o queixo protuberante dava ares de superioridade. 

Leticia era dúbia, as vezes impenetrável, tantas vezes transparente, todo dia parecia estar diferente, todo dia descobrira uma caracteristica nova e igualmente apaixonante. Agora por exemplo, parecia fria, o olhar distante que de tão misterioso nem distinguia o tom azul dos seus olhos, hoje estavam especialmente gélidos, tristes talvez.

Me via observar cada gesto que ela fazia, a forma de mecher o cabelo e coloca-lo de lado, ou de ajeitar os óculos de grau, afundando-os no rosto, as mãos que se punham de forma firme no volante. Quando nos aproximamos da cidade, o transito intenso e estressante a fez proferir dois ou três xingamentos em um tom de voz excessivamente baixo, me surpreendendo. Ainda me espantava com o fato de terem saido daqueles lábios rosados de onde costumeiramente soavam palavras doces

--Me olhando?

Fiquei meio sem graça com o flagra, somente balancei a cabeça concordando.

--Você está diferente hoje.

--Estou? 

--Anham

--Por que?

--Sempre tão alegre e hoje te achei meio comedida.

--Todos nós temos um lado sombrio, querida.

De fato, minha tia tinha razão, só não sabia se estava preparada para descobrir o lado sobrio dela, estava deveras mal acostumada com seu lado encantador que não imaginaria minha reação ao ser surpreendida com seu lado oposto.

Chegamos na estrada da casa, o portão abria lentamente e com ele minha apreensão de voltar a rotina, a dura realidade que nos aguardava. A sensação de desconforto latente em meio ao vazio que se encontrava no meu peito.

Letícia estacionou o carro na garagem deserta e com um suspiro denso tirou a chave da inguição.

--Chegamos.

--Sim. Acho que vou indo então - meu tom de voz deveria ter sido tão triste que fez com que ela me olhasse com atenção

Tirei o cinto apressadamente, enquanto me inclinava sobre o banco tentando buscar minha bolsa de mão que ficara no banco de tras.

Abri a porta do carro e quando tentei sair, mas fui puxada pelas mãos delicadas e firmes de Letícia.

--Apressada? --me questionou com as sobrancelhas mais arqueadas que o normal.

--Tenho algo a resolver. 

--O que?

--Bernardo...

Falei simplesmente, não querendo alongar naquele assunto que ja era por si só agonizante. Letícia me fitou intensamente, enquanto sentia sua mão quente apertar levemente a minha como se quisesse me passar segurança.

--Já está decidida no que vai fazer?

Percebi uma curiosidade genuína mesclada com uma apreensão em sua voz.

--Para ser bem sincera, não. 

--Posso fazer algo para te ajudar a tomar uma decisão?

Falou com um tom de voz que não poderia descrever de outra forma, senão sedutor, enquanto seu rosto delicado se aproximava perigosamente do meu, da distancia em que podia sentir seu hálito doce sobre meus lábios entreabertos. 

Lutei com todas as minhas forças, para não desviar meus olhos dos seus, mas meu desejo me traiu e fitei seus lábios com expectativa.  Enquanto fitava sua boca a vi prender seu lábio inferior entre os dentes denotando uma apreensão que eu também compartilhava.

O contanto entre os nossos lábios foi inevitável, um beijo doce porém exigente surgiu quando senti sua lingua pedir espaço entre meus lábios, e suas mãos se apossarem da minha nuca aprofundando ainda mais o beijo intenso que trocávamos. Letícia explorava cada canto da minha boca, sua lingua contornava meus lábios, e vez ou outra predia o inferior entre seus dentes, ocasionando arrepios por todo meu corpo. O gosto do seu beijo a sensação inigualável de sentir minha lingua sendo sugada pelos seus lábios e principalmente a palpitação constante no meu peito me deram a certeza que eu precisava.

Letícia finalizou o beijo perfeito dando estalinhos na minha boca.

--E agora? Já tomou uma decisão?

Sorrimos juntas.

 Sai do carro me virei por um instante e pelo vidro do carro aberto pude vê-la me olhando com um sorriso compenetrado no rosto, sorri de volta  e mandei um beijinho no ar para ela.

 

***

Anseios

Meu doido coração aonde vais, 

No teu imenso anseio de liberdade? 

Toma cautela com a realidade; 

Meu pobre coração olha cais! 

 

Deixa-te estar quietinho! Não amais 

A doce quietação da soledade? 

Tuas lindas quimeras irreais 

Não valem o prazer duma saudade! 

 

Tu chamas ao meu seio, negra prisão!... 

Ai, vê lá bem, ó doido coração, 

Não te deslumbre o brilho do luar! 

 

Não estendas tuas asas para o longe... 

Deixa-te estar quietinho, triste monge, 

Na paz da tua cela, a soluçar!... 

 

Florbela Espanca

 

 

Capítulo 17 por JuliaR

Sentir os lábios de Letícia sobre os meus me deu um sopro de coragem que a muito não sentia, o gesto carregava todas as respostas que eu precisava. Mas eu questiono, pergunto-me, será que são necessárias as palavras? Letícia entendia até mesmo oque não sei dizer! Entre nós haveria de ter barreiras e fronteiras nos separando. Mas naquele momento éramos uma única rocha, firme e inseparável, era como se um simples tocar de lábios fosse suficiente para dissipar todos os martírios que sofreríamos na incessante busca de nós mesmas. O mundo entrou nos eixos de novo. Seu olhar, naquele instante, se eternizou sobre mim, ainda sentindo o gosto doce em meus lábios me fez pensar quão corajosos podemos ser quando estamos apaixonados.

Li uma certa vez que  todos os dias Deus nos dá um momento em que é possível mudar tudo que nos deixa infelizes. O instante mágico é o momento em que um 'sim' ou um 'não' pode mudar toda a nossa existência.

Não lembro há quantos anos atras havia lido aquilo, mas certamente no momento que li aquela frase não fazia tanto sentido como no momento presente. Eu tinha em minhas mãos a oportunidade única de mudar meu destino, de dar uma reviravolta na minha vida, de fazer uma escolha que por mais dolorosa que fosse, haveria de ser feita.

Poderia ter esperado algum tempo, ter ficado em casa até ter tempo de acalmar o turbilhão de sentimentos que invadiam meu coração, ter agido covardemente como naqueles dois meses protelando minha decisão, mas por mais incrivel que se pareça decidi seguir em frente, os lábios quentes e macios de Letícia me davam a certeza que precisava, mesmo sendo inevitável sentir o nervosismo de ir em frente.

Meus dedos tamborilavam na direção enquanto as goticulas de chuva deslizavam suavemene sobre o vidro do carro em que dirigia, o céu possuia uma coloração cinza, ainda eram onze da manhã de acordo com o painel do carro, mas o sol parecia se esconder diantes de nuvens escuras e sombrias.

Talvez aquele dia denotasse bem meu estado de espirito, aquela inquietação e a tristeza que carregava comigo.

Vez ou outra meu celular apitava em um barulho sutil mas que me davam um arrepio a cada toque.

Uma, duas, três mensagens de Bernardo, todas elas me questionando se iria mesmo aparecer em sua casa conforme o combinado. Aquilo me soava tão estranho, era inédito vê-lo tão nervoso, parecia ter uma urgencia em falar comigo que nunca tinha visto antes.

Diferentemente das outras vezes em que ele sempre dizia que queria me ver, nas ultimas vezes que nos falamos ele sempre mencionava a necessidade de conversar. De me falar algo que eu sequer desconfiaria, mas no fundo do meu insconciente temia que ele houvesse descoberto algo.

Com a proximidade da casa que me era tão conhecida sentia minhas mãos suarem enquanto tentava enxuga-las no meu jeans. Sentia meu peito apertar. Parei o carro em frente respirando fundo enquanto percebia a fina garoa se desfazer. 

Naquele momento senti que iria fraquejar, por mais decidida que achei que estivesse há alguns minutos atras, quando se esta mais proximo a realidade, era inevitável ser arrebatada pelo medo.  Minha covardia as vezes me surpreendia.

Ouvi meu celular apitar mais uma vez e de forma impaciente deslizei meu dedo sobre a tela, mas quando vi a remetente da mensagem logo meu coração se abrandou.

''Opte pelo que faz seu coração vibrar'' Letícia.

Como se de alguma maneira ela soubesse minha indecisão, por mais irreal que pareça sentia como se eu e Letícia tivessemos uma ligação incomum, uma sintonia tão perfeita que chegava a ser assustador.

Desci do carro e adentrei no jardim, sentindo os respingos do orvalhos sobre a grama molhar meus sapatos e a brisa daquele dia frio me atingir em cheio causando arrepios. Abri a porta da frente que estava destrancada, e estranhei o silêncio incomum da casa, não havia visto ninguem na sala. Fechei a porta com cuidado enquanto ia em direção ao escritorio onde supus que Bernardo estava, aquele era o lugar preferido dele na casa, sempre cuidado dos seus inúmeros projetos. Sentia meu ar faltar a cada passo que dava e tentei acelerar a caminhada como se quisesse acabar com aquilo de uma vez.

Suspirei antes de bater levemente a porta com as costas da mão recebendo de volta a voz rouca:

--Entre

E a cena que vi foi de cortar o coração. Aquele nem de longe parecia ser meu namorado. Bernardo estava sentado no pequeno sofá de couro vermelho escuro, com os cotovelos apoiados nas pernas enquanto suas mãos agarravam de forma tensa os cabelos desgrenhados. Ele fitava o chão, evitando manter o contato visual comigo. Ao seu lado pude ver um copo com liquido amarelado pela metade que julguei ser da garrafa de uísque dispota em cima da mesa ao lado

Parecia tão abatido, tão fraco que não pude evitar me sentir a pior pessoa do mundo.

Eu ainda estava estatica parada sobre a porta o olhando enquanto segurava minha pequena bolsa com as mãos tremulas e sentido meu peito apertar.

--Bernardo, o que houve?

Perguntei visivelmente preocupada, mas com receio de me aproximar, afinal até aquele momento não sabia o que me esperava, por qual motivo ele estava me chamado, que tipo de conversa teríamos. Só então ele me olhou, como se tivesse saido do transe em que se encontrava, seus olhos úmidos e vermelhos, sua barba por fazer dando ao seu rosto um expressão deprimida, apesar de bela. 

--Sente-se.

Ele me disse enquanto colocava a mão sobre o sofá.

Sentei receosa, e extremamente angustiada com aquela situação, apertava nervosamente minha bolsa sobre meu colo como se pudesse buscar força que eu não tinha, conseguia ouvir seus suspiros pesados ao meu lado e como se fosse possivel aquilo aumentou ainda mais minha tensão.

--Eu nem sequer sei por onde começar...

Ele murmurou em voz baixa após um longo período de silêncio, dando um gole na sua bebida, enquanto eu fitava os móveis bem decorados daquele cômodo. Eu o encarei enquanto ele continuava olhando para o nada, com a expressão mais melancólica nos olhos. Queria saber em que estava pensando, o que se passava em sua cabeça. O que o fez ficar tão triste? Queria tanto abraçá-lo.

Então o olhei no exato momento em que ele pôs os olhos em mim, e seu olhar aflito me causou pena.

Peguei suas mãos frias delicadamente e apertei como se aquele gesto incentivasse a ele prosseguir a conversa. Ele me olhou surpreso, mas pude ver que além da surpresa havia ternura naquela iris que me analisava com tanta intensidade.

--Eu te amo tanto. Tanto.

Ele disse olhando-me enquanto via duas lagrimas  cairem de seus lindos olhos.

Apesar de ser palpável a tristeza em que ele me dizia isso, esbocei um sorriso contido por saber quão sincero ele estava sendo.

Ele enxugou as lagrimas, enquanto eu permanecia fazendo carinho em sua outra mão.

--Namorar com você foi a melhor coisa que aconteceu comigo, não me lembro de ter sido tão feliz antes disso. Você é perfeita pra mim, sempre foi, desde a primeira vez que pus meus olhos em você eu soube que era contigo que eu queria passar o resto da minha vida.

--Bernardo...

Falei sentindo minhas bochechas corarem e uma culpa imensa me invadindo.

--Antes de tudo, eu realmente preciso te dizer isso. Acho que as vezes você não tem dimensão do quão maravilhosa você é, e da sua capacidade de encantar as pessoas com os mais simples gestos, eu tenho uma verdadeira adoração por você, Alice. --ele me olhou embevecido me causando tremor sobre meu corpo.--Por cada milimetro de você, eu te tenho decorada na minha mente, cada feição sua, cada mínimo detalhe, até mesmo os defeitos que para mim são lindos. E te amo mesmo sabendo que  você não me ama da mesma intensidade, e por mais estranho que seja, isso me faz te amar ainda um pouco mais...--ele deu uma risada nasal--O pouco que me dá já me faz ser o homem mais feliz do mundo só por saber que entre tantas pessoas no mundo, eu tive a sorte de ter você. 

As palavras me atingiram em cheio e por mais doloroso que fosse ouvi-las era ainda pior sabe que eram verdades. Tentei fechar os olhos inutilmente mas dessa vez não pude me conter, e senti as lágrimas quentes descerem pelo meu proprio rosto. Não ousei interrompê-lo. 

--Mas apesar disso, ultimamente tudo tem estado tão estranho. É como se algo entre nós tivesse mudado, e se possível te senti ainda mais distante e isso me afetou tanto, você talvez não faça idéia. Eu posso estar forte para o mundo inteiro, mas você sempre será minha fraqueza, você me afeta tanto, cada pequeno gesto seu pode me levar do céu ao inferno. Eu estava tão carente então acabei --ele pausou a respiração enquanto desviava o olhar do meu envergonhado.

--Acabou o quê, Bernardo? --Falei ansiosamente tocando o seu rosto e o virando em minha direção de modo que nossos olhares se cruzaram. 

Senti seu olhar tristonho sobre mim e seus lábios comprimidos em evidente tensão, sentia sua barba arranhar levemente minhas mãos enquanto segurava seu rosto o olhando fixamente.

--Acabei cometendo o maior erro da minha vida.

--O que você fez?

Ele relutou em dizer, enquanto eu tentava desvendar o que ele me diria, senti suas lágrimas molharem minha mão e seu rosto franzir.

--Eu trai você.

Ele me olhava deprimido, como se esperasse alguma reação, enquanto eu me mantinha imóvel como uma estatua ainda tentando digerir aquelas palavras. Aquilo era sem dúvida a ultima coisa que esperava que ele me dissesse.

Pisquei meus olhos várias vezes como se tentasse entender tudo que ele acabou de me dizer, minhas mãos continuavam no seu rosto enquanto seu olhar delineava uma profunda expectativa e estranheza, como se esperasse uma reação enérgica vindo de mim.

E na verdade o que não pude foi  evitar sentir um alívio, por saber que meu temor de que ele tivesse descoberto algo não merecia crédito. 

Eu então olhei para aquele homem que mais parecia um menino e sorri tristemente. Ele me olhou mais assutado ainda ao tempo em que sentia apossar-se de mim um sentimento de profunda ternura e admiração.

Bernardo foi corajoso como eu nunca fui, enquanto eu escondia covardemente minhas atitudes, ele estava ali de peito aberto, confessando erros dos quais ele sabiam que colocariam tudo a perder.

Foi naquele momento que percebi que eu estava enganada quando achei que não o amava, talvez não o amasse do mesmo modo que ele a mim. Mas eu o amava, e me sentia orgulhosa de ter junto a mim alguem tão honesto, corajoso, íntegro que me deu o amor mais lindo, do qual eu não merecia.

Nossos rostos estavam tão próximos e como se não houvesse uma forma mais propícia naquele momento de demonstrar todo aquele carinho que eu sentia por ele, aproximei de seus labios, selando-os.

O contado não deve ter demorado mais que alguns segundos, quando me afastei de seus lábios vi seus olhos esbugalhados me fitando em choque.

Sorri e acariciei seu rosto e com a outra mão alinhei seus cabelos bagunçados. Enquanto ele ainda estava paralisado.

--Você é tão lindo, Bernardo. Incrivelmente lindo. Por dentro e por fora. 

Falei observando com atenção todos os traços dele, era uma beleza triste, mas ainda sim era tão lindo e todas as suas atitudes o deixavam ainda mais especial aos meus olhos.

Então como se ele saisse de um transe, me abraçou apertado aspirando com força meu pescoço enquanto suas mãos firmes se apossavam da minha cintura. Ele cerrou os olhos quando aninhei minha cabeça em seu ombro e, naquele instante, nada mais parecia ter importância. 

--Me perdoa, meu amor. Me perdoa.

Balancei minha cabeça enquanto sentia seu aroma que mesmo com o cheiro forte de alcool, ainda era possivel sentir o seu perfume.

--Claro que te perdoo.

Então pela primeira vez na conversa ele me sorriu, um sorriso triste e contido, mas sorriu.

--Eu não mereço você. --Ele disse enquanto beijava minhas mãos com adoração.

--Não, Bernardo. Eu que não te mereço. 

Disse de uma forma triste a mais pura verdade.

--Eu juro para você, por tudo que me é sagrado. Isso nunca mais vai acontecer, eu nunca, nunca mesmo vou te trair. 

--Nós não vamos continuar, Bernardo.

Sua expressão agora era completamente confusa.

--Mas você me perdoo, não?

--Sim, eu te perdoei mas...--falei ainda acariciando sua face rosada depois de tanto choro.

Naquele momento eu me senti na obrigação moral de ser honesta como ele, eu o devia aquilo. Não era justo deixa-lo com a culpa que não era dele. Eu precisava ser sincera.

--Eu não vou fazer de novo, eu prometo eu...

--Não é pelo que você fez, Bernardo. É por mim.

Ele me olhou sem entender.

--Eu me apaixonei por outra pessoa.

 

**

Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta. O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar. Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera. (...)Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados. Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.

Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!

Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! 

 

Martha Medeiros em Por que você ama quem você ama? 

Capítulo 18 por JuliaR

Bernardo que até este momento se ajoelhava entre minhas pernas, apoiando a cabeça no meu colo enquanto segurava minhas mãos delicadamente retesou o corpo de maneira tensa, ainda tive tempo de ouvir seu suspiro pesado.

--Está brincando comigo, não é? Está falando isso para me machucar depois de tudo que eu fiz...

--Não, Bernardo. Eu gostaria que fosse mentira mas...

--Não posso acreditar nisso. --Falou tirando as mãos que se enlaçavam as minhas e me fitou com desespero

--Me sinto na obrigação de te dizer e pelo menos uma vez na vida ser sincera.

--Não quero ouvir. Isso não importa.

Falou enquanto colocava infantilmente as mãos nos ouvidos e seu olhar perdido me fez ter pena.

--Você precisa, Bernardo. Quando me apaixonei por...

--Eu não quero ouvir! --ele gritou--Será que você pode me poupar disso, Alice?! 

--Eu não tive culpa, quando me envolvi ja era tarde demais.

--O que você sente é só uma paixão, só uma paixão idiota, você não consegue ver isso?! --

Ele falava passando as mãos sobre os cabelos bagunçados, enquanto via dor em seu olhar distante.

--Eu sei, mas...

--Eu não me importo. --ele falou em voz alta como se quisesse convencer a si mesmo do que falava.

--O que? 

--O que você sente é tão fulgás, é passageiro, logo você vai se dar conta e ver que o que temos é mais forte que isso...Eu, eu consigo lidar com isso. Eu posso. Nós dois juntos vamos passar por isso, vou  te reconsquistar. Só preciso de uma chance, só preciso que você me aceite e nós vamos superar.

--Não posso, Bernardo. Eu ja te machuquei demais, você não pode aceitar menos do que merece...

Ele se levantou e me olhou com um sentimento que até então não tinha visto nos seus olhos. 

Raiva.

Mágoa.

Bernardo me olhava tão intesamente que me senti fuzilada com aquele olhar frio, ressentido, fazendo com que eu me sinta a pior pessoa do mundo. Se distanciou de mim enquanto pegava o copo de uísque com as mãos trêmulas e levava aos lábios. Eu não tirava meus olhos dele, sentindo remorso. A dor de partir o coração de alguem que me ama.

Tomou todo o conteúdo em um gole só e depositou em cima da mesa com força, fazendo ecoar o barulho por todo escritório.

Não ousei falar mantendo meu olhar no seu. Enquanto ele prosseguiu.

--Ele nunca vai te amar como eu te amo. Ele não vai ser capaz de largar tudo por você, como você sabe que eu faria. Ele não vai fazer planos tão lindos como os que eu fiz. Você sabe disso, não sabe?

Não ousei falar mantendo meu olhar no seu. E dessa vez senti minhas lagrimas brotarem com força sobre meu rosto, sabendo o peso que aquelas palavras tinham, a verdade que elas carregavam

--Sim...eu sei.

--E mesmo assim prefere ficar com ele. Eu só preciso saber: Por quê?

-- Porque eu sou egoista demais. E acho que vou ser mais feliz assim...

--Nao. Você nao vai, voce vai se lembrar de mim, vai sentir minha falta. Porque ninguem vai te amar como eu te amo.

--Bernardo...

--Era só isso que tinha pra me dizer? --Ele falou com uma raiva imensa na voz.

--Eu...

--Vá embora.

--Bernardo...

--Vá embora, não era isso que você queria? Ter o caminho livre, tirar esse peso das suas costas? --pegou a alicança do seu dedo anelar e colocou na minha mão.-- Seja feliz com ele. Feliz como eu não fui capaz de te fazer.

Suspirei alto, tentando secar as lágrimas que caiam insistentemente com o dorso da mão, recolhi minha bolsa encostada sob a poltrona, observando-o de costas para mim, com a cabeça baixa.

--Obrigada...

Ele não me olhou, e eu continuei enquanto meus lábios se abriram hesitantes e trêmulos

--por ter sido o melhor namorado que eu poderia ter--minha voz falhava-- eu sei que provavelmente você não me queira ver tão cedo,  e eu...Eu vou respeitar sua decisão,  por mais egoísta que eu possa ser, eu peço que você não saia da minha vida.  

Ele deu um riso sombrio de escárnio, que quase me fez calar. Mas prossegui.

--Por mais magoado que seu coração esteja, espero que guarde a lembranças boas,  por que nós tivemos uma história, Bernardo. E por mais contraditório que tudo isso te pareça, eu me orgulho muito dela.--sorri tristemente-- Mas se você não puder me perdoar, e quiser sair da minha vida, eu só peço que você se cuide e encontre alguem que te faça feliz, você merece isso, mais do que ninguem. Mas do que eu mesma. 

Ouvi seu choro baixo retornar.

--E eu te amo. --as minhas lágrimas voltaram a cair--Muito. Talvez não da mesma forma como você, talvez de um jeito estranho, mas, definitivamente, eu amo.

Abri a porta e me retirei do escritório.

Meus passos pesados iam em direção ao jardim, enquanto um misto de sensações contraditórias me invadiam. Uma mistura de alívio e culpa.

Eu só precisava de um abraço, de colo, de conforto.

Me sentia frágil, dolorosamente frágil como a muito não me sentia.  

Precisava dela. De suas palavras doces e reconfortantes para me dar a tranquilidade que eu precisava. 

Liguei meu carro e fui em dirigindo cautelosamente por entre as ruas com o transito tranquilo, o clima, no entento, não queria colaborar pois a cada momento a chuva torrencial aumentava, frustrando a minha expectativa de chegar em casa.

Mas tudo sempre poderia piorar.

Meu carro estagnou no meio do caminho, não conseguia sequer liga-lo, apesar de tentar várias e varias vezes. Isso nunca tinha acontecido.

Inferno.

Sai do carro sentindo os respingos fortes e congelantes me atingirem em cheio enquanto abria o capô que fumaçava incessantemente me vazendo tossir por ingerir boa parte daquela fumaça.

Eu sequer entendia algo sobre mecanica, no entanto meu desespero para chegar em casa era tamanho que tentava inutilmente descobrir uma maneira de consertar daquela droga de motor.

Tentei puxar uma mangueirinha e para meu desespero espirrou uma quantidade assustadora de agua no meu rosto.

Mil vezes inferno.

Só então desisti e voltei ao meu carro procurando nos contatos o numero do guincho, me disseram que chegariam em dez minutos, mas para minha infelicidade demoraram quarenta  minutos, e nesse intervalo de tempo devo ter espirrado algumas dezenas de vezes. Olhei-me no espelhinho e vi meu nariz e maçãs do rosto vermelhissimos.

Minha sinusite voltou, que maravilha.

Entreguei as chaves para o rapaz do guincho e esperei um taxi enquanto me abrigava debaixo de um ponto de ônibus, a maioria deles me ignoravam, estava ensopada e se recusavam e me levar. Até que um senhor de bom coração parou e me levou até em casa me fazendo sentar no tapete de borracha para não molhar seu banco.

Mal cheguei na minha rua e a chuva cessou, dando lugar a um sol brilhante, me deixando irritada. O universo estava conspirando contra mim. Paguei a corrida e me dirigi a porta principal completamente molhada, olhos inchados, cabelo bagunçado, nariz vermelho, sandália nas mãos. 

Abri a porta e como se tudo não pudesse ficar ainda pior encontro minha mãe e meus tios num papo animado tomando chá.

Aliás, meus tios um tanto próximos, Letícia sentada quase colada em Antoni, enquanto seu braço rodeava os ombros dela. Linda cena.

--Alice, veio de carona com a enxurrada. 

Revirei os olhos

Idiota. Antoni, como eu te odiava. Mas pior do que sua brincadeira infame, foi ouvir a risadinha cínica de Letícia, dando corda a sua piada, se possível, me senti ainda mais ridicula.

Nem sequer me dei ao trabalho de responder e subi as escadas.

--Meu bebê, você está bem? -- ouvi minha mãe perguntar com um tom preocupado enquanto subia a grande escada.

--Estou ótima. 

Fui ao meu quarto. 

Chorei, dessa vez de raiva. De decepção. De frustração.

Tomei um banho com água quente tentando relaxar a minha tensão muscular e depois apaguei na cama, colocando o despertador para algumas horas mais tarde.

Quando acordei fui imediatamente me arrumar, depois daqueles longos 3 meses de férias, minhas aulas retornariam, de fato não estava nem um pouco disposta a ir a faculdade, mas saberia que perderia muita coisa caso faltasse.

A responsabilidade falou mais alto e me levantei, sentindo meu rosto quente e olhos ardendo. Tomei uma ducha rápida em seguida liguei para Clara, minha colega que estudava na mesma faculdade que eu e morava a algumas ruas da minha casa, ela prontamente aceitou me dar carona, ja que meu carro ia ficar uns dias na oficina. 

Me arrumei, optando por uma calça jeans bem justa e um pouco rasgada, salto alto preto e uma blusa manga longa de tecido de grosso de lã. Uma maquiagem mais escura nos olhos para tentar desviar a atenção do meu nariz avermelhado, essa técnica sempre funcionava. 

Penteei meu cabelo e deixei-o solto, acho que era uma das raras pessoas que dormiam com o cabelo molhado e acordava com ele bonito. Dei umas boas borrifadas de perfume me olhando no espelho e honestamente, gostei do resultado.  Parecia futil da minha parte, mas quando me sentia triste gostava de me arrumar mais, me senti bonita, isso me ajudava de alguma forma.

Desci das escadas, torcendo para não encontrar Letícia, o episódio de mais cedo me magoou profundamente. Não era nem de longe a recepção que esperava que ela me daria.

Felizmente não havia ninguém na sala, e me dirigi a porta principal abrindo-a enquanto esperava Clara na varanda em frente ao jardim.

Me destrai lendo a mensagem de Clara que já estava chegando enquanto senti uma fragrancia amadeirada me atingir em cheio.

Tentei controlar minha respiração enquanto a sentia se aproximar de mim por tras.

--Começaram as aulas? 

Fechei os olhos quando ouvi sua voz rouca próxima a mim.

--Sim. --respondi friamente.

--Sua mãe comentou que ligaram da oficina, seu carro ficará mais uns dias para o concerto.

--Hm. Certo.

--Ela saiu no carro dela. Mas posso te levar no meu. --falava com uma voz doce, porém controlada enquanto se punha ao meu lado me olhando.

--Não precisa se incomodar, Letícia. Obrigada. --falei ainda olhando o smartphone, sem manter contato visual nenhum com ela.

--Na verdade não será incomodo nenhum, eu faço questão, só preciso de dois minutos para...

--Já tenho carona.

--Com quem você vai?

Nem sequer tive tempo para responder, logo o carro esportivo de Clara estacionou em frente ao jardim, bem proxima a nós duas, baixou os vidros sorrindo docemente para mim.

--Boa noite. Espero não ter demorado, Lice.

--Imagine, Clarinha. Você chegou na hora exata.

Do canto do olho pude ver Letícia travando o maxilar, mas foi educada suficiente para cumprimenta-la.

Entrei no carro, fazendo questão de cumprimenta-la com um abraço e um beijo no rosto. Abraço mais apertado e beijo mais demorado que o habitual, ter os olhos de Letícia sobre nós me deu combustível para ser mais afável possivel com Clara, de quem sabia que ela tinha ciúmes.

Confesso, como era doce o gostinho da vingança.

 

 

**

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está? 

Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar. 

É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução. (...)

Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado. 

O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar. 

Miguel Esteves Cardoso- Como se esquece de alguem que se ama?

CAP 19

Passei o percurso inteiro conversando com Clara, fazia algumas semanas que não conversávamos e devo confessar que senti sua falta. E também não pude deixar de perceber seu olhar atento sobre mim, poderia estar soando pretenciosa mas tinha quase certeza que ela sentia algo por mim, e naquele momento isso significava muito.

Chegamos a faculdade e me despedi dela ficando de ligar caso decidisse voltar para casa com sua carona.  

Meu dia ainda carregava uma aurea pesada, quando entrei na sala atrasada sobre o olhar censurador da professora de Internacional. Mas para meu alívio tinha a companhia de Ana e Patrícia, minhas amigas que tanto sentia falta, elas viajaram boa parte das férias, sendo raras as vezes que nos encontrávamos nos ultimos meses. Definitivamente eu as amava.

Soltei um suspiro aliviado quando o sinal do intervalo tocou como música aos meus ouvidos, e fomos nós três rumo a praça de alimentação.

Conversamos trivialidades quando Ana me indagou:

--Aconteceu alguma coisa? 

A olhei desconfiada.

--Não sei. Por quê?

--Estou te achando desanimada. 

Falou enquanto eu sugava o canudinho do suco tentando aparentar naturalidade com aquela constatação.

--Um pouco, talvez.

--Hmm. Deixe-me ver...  --Patrícia murmurou enquanto arqueava a sobrancelha me analisando calmamente.

--O que foi?

--Terminou com Bernardo?

Arregalei os olhos, era impressionante como ela conseguia ser certeira.

--Como você sabe?!

--Está sem o anel de compromisso.

--Ahh. --Olhei para minha mão logo desviando o olhar para a cara de tristeza de Ana, que logo pegou minhas mãos apertando delicadamente como uma forma de me dar força.

--Sinto muito, Alice. Se precisar desabafar, pode contar comigo. 

--Pode contar com a gente--Patrícia corrigiu.

Dei um sorriso triste.

--Obrigada. Eu amo vocês.

--Nós também te amamos, amiga--Ana me lançou um olhar terno.

--Mas voltando ao assunto...quem está na jogada?--Patrícia falou com um riso malicioso nos lábios.

--Patrícia!--Ana censurou.

--Meu Deus, só estou fazendo uma pergunta! Ou você acha que Alice teria coragem de terminar sem ter um bom motivo?

--Não sei...teria? --Ana me olhou confusa.

Baixei os olhos, não sabia nem por onde começar com aquele assunto do qual definitivamente não queria falar.

--Oh my god! --Ana falou surpresa colocando as mãos na boca

--Eu sabia! 

--Mas não é um assunto que me deixe confortável para falar agora, ainda é bem dificil assimilar...

--A gente entende, mas não vejo a hora de conhecer o rapaz viu? --Ana sorriu

Coitadas, se elas soubessem...

O sinal tocou e nós retornamos a aula chata, aquele período não seria fácil, e o pior era saber que o ano estava apenas começando.

No final da aula combinamos de jantar, era costume entre nós fazermos aquele programa no primeiro dia de aula,  e só então lembrei que não tinha comido nada em casa o dia inteiro. Liguei para Clara avisando que não retornaria com ela para casa, e estendi o convite para irmos ao restaurante, mas ela não pode ir, segundo a mesma, tinha assuntos a resolver em casa.

Enquanto fazíamos o pedido no menu, conversamos trivialidades sobre as viagens que minhas amigas tinham feito nas férias, me deixando aliviada pelo fato de não terem tocado no assunto do meu término.

**

Retornei para casa com Patrícia que me deu uma carona quando ja se passava um pouco da meia noite. Apesar de ter me alimentado, não estava completamente bem, sentia meu rosto quente, e espirrava o tempo inteiro. 

Por sorte quando abri a porta não encontrei ninguém, já deveriam estar dormindo, pensei. Fui em direção a cozinha com o intento de preparar um chá para aliviar minha tosse contínua.

--Um tanto tarde.

Quase dei um grito de susto ao ouvir aquela voz. Levei a mão ao peito sobressaltada, enquanto sentia uma leve arritmia no peito. Aliás, fiquei em dúvida se sentia aquilo pelo susto ou por vê-la tão linda naquele robe de seda que ela sempre usava, dessa vez de cor azul claro.

--Quer me matar de susto?! --falei com a voz alvoroçada.

--Hmm. Perdão, não foi minha intenção.- murmurou me fitando séria com o olhar tipicamente analítico.

Me virei em direção ao fogão observando as água fervendo, aliás tentava olhar qualquer coisa que não fosse seus olhos.

--Quem era ela? --me perguntou formalmente enquanto ouvia o barulho de cadeira arrastando.

--Ela quem? -- questionei me virando e pegando seu olhar intenso sobre mim.

--A garota que te trouxe.

--Ninguém que deva te interessar.

Ela pigarreu descontente

--Ok. Como você se sente?

Dessa vez ela havia se sentado na cadeira enquanto apoiava as mãos graciosamente sobre o queixo.

--Bem.

Tirei o sachê da xícara fumejante e tomei um gole do meu chá, por sorte estava maravilhoso, porém fiquei encostada na bancada da cozinha, não me atreveria a me sentar com ela.

Bem no fundo, tinha medo de não resistir a proximidade com ela, por mais magoada que estivesse era impossível permenacer inerte ao seu magnetismo.

Ela se levantou e veio até mim, aproximando-se perigosamente, da distância em que conseguia captar seu cheiro ainda mais intensamente. Ela encostou o dorso da sua mão macia sobre minha testa.

--Está um pouco febril.

Não respondi, tentando parecer impassível a sua presença.

--Como está se sentido?

Sorri incrédula.

--Se realmente estivesse preocupada teria me perguntado mais cedo. --faleis em esconder a raiva na minha voz

Ela franziu o cenho e sorriu mostrando suas covinhas deliciosas. Maldita.  Era injusto ela conseguir ser fofa quando eu ainda estava chateada com ela.

--Então é isso...

--Isso o que?

--O motivo de tanta rispidez.

Falou se aproximando mais, quase deixando nossos corpos colados. Eu disse quase. Quase, porque a impedi com a mão afastando seu corpo, enquanto ela apoiava seus braços na bancada atras de mim, me deixando encurralada. 

Ela olhou analiticamente para minha mão que se mantinha abaixo do seu pescoço detendo sua aproximação, logo depois a pegou e levou aos seus lábios depositando um beijo terno por um breve segundo antes que eu a puxasse de volta.

--Eu poderia até me desanimar com suas grosserias, mas não posso negar meu contentamento em vê-la sem seu anel.

Revirei os olhos.

--Se me der licença, preciso sair. --Falei olhando seus braços que me rodeavam.

--O que posso fazer para você me desculpar, meu amor? 

Roçou o nariz na curva do meu pescoço aspirando meu cheiro, enquanto ainda sentia o efeito daquelas duas palavrinhas mágicas.

Seus azuis me questionavam.

Não respondi.

Ela se aproximou dos meus lábios mas desviei de sua boca e afastei-a.

--Você foi bem mais receptiva hoje de manhã.

--Para você ver. Às vezes um pequeno gesto muda tudo.

Ela me olhou parecendo captar o que indiretamente quis dizer.

--Eu sei esperar. Você me conhece suficiente para saber sei ser muito persistente quando quero. 

Estavamos próximas demais, era possivel sentia seu hálito doce proximo a mim, a centímetros. Aproximei ainda mais, quase encostando nossas bocas, passei a lingua umidecendo meus lábios sob seu olhar cheio de encantamento.  Vi Letícia fechar os olhos a espera de um beijo.

Um beijo que não veio.

--E você deveria me conhecer o suficiente para saber que não sou tão fácil como você supõe. --Sussurrei ao seu ouvido.

Ela abriu os olhos carregados de surpresa e frustração, enquanto me afastei de seus braços e indo em direção a porta da cozinha enquanto ela ainda permanecia no mesmo lugar, estática.

--Boa noite, Letícia.

Ela não respondeu.


*** 


As carícias do olhar são as mais adoráveis

Chegam ao fundo da alma, aos limites do ser

e libertam assim segredos inefáveis de outro modo em silêncio,

e sem ninguém saber.


Os beijos puros, são grosseiros, junto a elas;

mais que qualquer palavra o seu falar é forte;

nada exprime melhor, no mundo, as coisas belas que passam num momento,

em efêmera sorte. 
Quando a idade envelhece a boca em seu sorrir

que as rugas vão marcando aos poucos de amargura,

intacta ainda, mantém sua límpida ternura.


Feitas para inebriar, consolar, seduzir,

guardam toda a doçura, e os ardores e o encanto!

 

Que outra carícia em luz trespassa o nosso pranto? 

Auguste Angellier - As Carícias do Olhar

Capítulo 19 por JuliaR

POV Letícia

 

Eu mal podia acreditar que estava ali, naquela cozinha, paralisada ainda sob o torpor do que havia acontecido minutos antes. Alice havia me deixado sozinha, ansiando seu beijo, enquanto ela havia me dispensando categoricamente.

Deixando para trás apenas o doce perfume de seus cabelos que havia impregnado no meu nariz. Maldito cheiro de baunilha.

Pisquei os olhos ainda duvidando que aquilo fosse real.

Ela estava magoada. Isso era fato. Mas por um motivo tão bobo que não achei que deveria ser levado a sério, vejo agora que me enganei completamente.

Naquela tarde onde ela entrou pela porta, completamente ensopada, com o cabelo bagunçado, meu intuito inicial, se possível, era de abraça-la e perguntar como havia sido a temida conversa, no entanto, em um momento de completa insensatez me permiti rir da piada de mal gosto que Antoni falou. 

Mas  confesso vê-la frágil diante de mim, febril e o nariz vermelho denunciando um resfriado, fez com que me sentisse mal, desejando voltar no tempo e não ter dado aquele deslize.

Se um sentimento me definisse naquele momento, certamente seria arrependimento.

Mas agora o erro já tinha sido cometido, não há espaço para lamentações e eu estou plenamente consciente de que ela estava certa em se chatear, só me resta correr atras e convencê-la a me perdoar, por mais difícil que pudesse ser, no fundo tinha certeza de que Alice sempre voltaria para mim. 

Um pensamento egoísta, tenho consciência disso,  mas se ela pensou que eu fosse desistir fácil, estava enganada.

 

***

POV Alice.

 

Acordei um pouco mais disposta essa manhã, apesar de ainda não me sentir completamente curada, estava bem o suficiente para encarar um dia de trabalho.

Hoje iria dar adeus definitivo as férias, o ocupar minha rotina entre um dos escritórios mais renomados da cidade e a faculdade, sem dúvidas iria me abarrotar de responsabilidades, mas naquele momento não me pareceu de todo ruim, aliás era até benéfico para me distrair, quem sabe assim esqueço um pouco o turbilhão de acontecimentos que se sucederam nos últimos dias.

Ainda era cedo, aliás era cedo demais, coloquei o despertador aquele horário propositalmente pois não queria tomar café na mesa e dar de cara com Letícia, muito menos com meu tio, seria uma boa forma de evitar começar o dia de mau humor.

Me arrumei calmamente, me vesti um pouco formal demais talvez...exigências do oficio.

Desci as escadas e rumei a cozinha optando por um café reforçado que Nona havia feito. Fui no carro de minha mãe, um que ela não usava com tanta frequência e rumei ao escritório.

Quando cheguei não pude evitar a surpresa em ver o edifício tão lindo e imponente, haviam comentado que seria reformado, mas nem em sonho imaginei que ficasse tão lindo. Prédio imponente, com estrutura de aço e janelas de vidro azul tomavam 12 andares em uma arquitetura moderna.

--Uau. --Não contive a admiração ao estacionar o carro na minha vaga.

Se por fora era deslumbrante, não era preciso nem descrever como estava por dentro. Via os rostos surpresos e alguns buchichos  dos outros funcionários enquanto cumprimentava-os. Devo ter adentrado uns três corredores até finalmente encontrar minha singela sala, que permanecia com os móveis que já estavam antes, mas tudo com uma decoração diferente.

Como havia chegado antes do previsto tive tempo de procurar Patrícia na sala ao lado. 

--Bom dia! 

--Bom dia, flor do dia. --me respondeu quase sem desviar os olhos da tela do computador

-- Só eu que estou surpresa com essa reforma?

--Essa reforma foi a menor surpresa. 

--Como assim? 

Perguntei ainda sem entender.

--Ouvi comentários que teremos um novo chefe. Ou chefa, como preferir.

--Quem? E o Dr. Otávio?!

Falei com olhos arregalados.

--Ele vai continuar, mas atuando bem menos, pelo que soube ele fez sociedade com Victória. Convenhamos ele já é um senhor de idade, está na hora de descansar. Além do que houve aquele problema ocorrido.

O problema ao qual Patrícia se referia eram alguns vazamentos de informações  sigilosas sobre clientes somados a alguns desfalques em dinheiro sofrido no ano anterior, o que tinha comprometido seriamente a credibilidade do Escritório.

--Verdade. Mas quem é  Victoria?  

--Victoria Ferraz

--A criminalista? --arregalei ainda mais os olhos

--Ela mesma! 

--Aqui?!

--Sim ----Patrícia resmungou sem paciência.

--Nesse escritório?! --indaguei ainda sem acreditar.

--Sim, Alice...

--Trabalhando com a gente?! 

Mal podia conter a emoção, ela era uma das advogadas mais brilhantes, uma verdadeira referência no meio jurídico e apesar de nunca tê-la visto, seu renome era conhecido por todos.

--Na verdade, nós que vamos trabalhar para ela...

--Nossa! Será se soa inconveniente eu trazer um livro que tenho dela e pedir para ela dar um autografo? 

Perguntei esperançosa, enquanto Patrícia me lançava um olhar reprovador.

--Inconveniente não sei, mas amador com toda certeza. Além do que, pelo que ouvi nos corredores ela não parece ser a pessoa mais receptiva do mundo, dizem que ela é uma megera e bastante exigente.

--Você a viu?

--Ainda não, deve ser uma velhinha rabugenta e mal amada.  Me comunicaram que vai haver uma reunião de boas vindas com os advogados daqui a pouco no auditório. Aliás --Patrícia olhou o relógio--É melhor irmos, já deve estar começando.

Pelo menos aquilo não havia mudado, era tradicional a cada começo e final de ano haver uma singela comemoração com todos os funcionários reunidos, pelo menos no primeiro dia de trabalho não haveria aquela hierarquia tão aparente entre chefes e subalternos.

Adentramos no local, que também havia sido mudado, todos os assentos eram de cor azul, contrastando com as paredes cor de gelo, havia uma grande telão mostrando o logotipo do escritório que era refletido pelo retroprojetor no teto. Os assentos estavam quase cheios, mas haviam alguns lugares dispostos no meio, e foi para eles que eu e Patrícia nos direcionamos.

Era possível ver o rosto dos funcionários ansiosos, em mim pairava a mesma dúvida e curiosidade para ver a nova chefe que ficaria a frente aquele grande escritório. Dr. Otávio era um dos advogados mais experientes da sua área de atuação, e também um exemplo de chefe, era educado e tratava a todos com respeito o que era muito raro naquele meio, certamente ele faria muita falta. Recordo de ter ouvido mamãe comentar que ele teve sérios  problemas de saúde no ano passado, sua idade avançada não permitia defender suas causas com o mesmo vigor de antes.

Aos poucos foram entrando os advogados, diga-se de passagem só existiam homens trabalhando nessa função no escritório, era terrível ver que mulheres ainda estavam em desvantagem no mercado.

Em meio a cabelos grisalhos, Ela entrou.

Imponente.

Eu e Patrícia nos  entreolhamos rapidamente, era incrível quando você conhecia a pessoa há tanto tempo que conseguia se comunicar apenas com o olhar.

Naquele momento nossas bocas se abriram debilmente em surpresa enquanto nos encarávamos.

--Velhinha rabugenta e mal amada? --sibilei para minha amiga incrédula.

Ela sorriu.

Olhei ao redor rapidamente e percebi que não éramos as únicas surpresas.

Todos olharam surpresos.

Ela era linda, tinha um porte tão elegante e austero que me deixou  ainda mais boquiaberta.  Devia ter entre  quarenta ou quarenta e cinco anos, pele  branca, cabelos negros abaixo dos ombros, olhos escuros e expressivos. 

Nós lábios um sorriso contido que não ousava mostrar os dentes. Usava um vestido azul escuro que parecia ter sido modelado especialmente para seu corpo. Um corpo magro porém curvilíneo, e os saltos a deixavam ainda mais alta do que aparentava.

Sua presença poderia ser resumida em uma única palavra: Impactante.

Meus pensamentos foram interrompidos por sussurros atras de mim, ainda assim não consegui tirar os olhos dela.

--Nossa se eu pudesse...

Ouvi o suspiro alto de João, uma das pessoas mais insuportáveis que tive o desprazer de conhecer. Metido e Inconveniente.

--É melhor tirar o cavalinho da chuva, ouvi dizer que ela joga no mesmo time que a gente.

Eu e Patricia nos olhamos, dessa vez com o cenho franzido

--Não tem problema, faço ela mudar de ideia rapidinho.

Rolei os olhos, mas em meu íntimo pairava uma sensação estranha de curiosidade sobre aquela mulher que pareceu ainda mais instigante após o comentário vil de João.

Dr. Otávio se mantinha ao lado dela sentada na mesa bem posta, enquanto comentavam algo que o fez da uma risada. Ele apenas. Já Victória mantinha os lábios inclinados, sem verdadeiramente sorrir. Ela carregava no rosto uma expressão blasé, como se tudo ao seu redor fosse insignificante demais,  ignorando o olhar admirado de todos.

Ela possuía lindos olhos castanhos escuros  que faziam harmonia com os fios negros de seu cabelo perfeitamente moldado, nenhum fio fora do lugar. Aliás, nada naquela mulher se mantinha fora do lugar, parecia mais uma boneca de cera de tão inexpressiva.

Ri com meu pensamento tolo.

Foi iniciada a cerimônia entre discursos e mais discursos dos advogados presente, todos eles teceram inúmeros elogios a Victória, enfatizando o quão competente ela era e exaltando seu currículo que de longe era o mais impressionante entre os presentes.

Olhava para ela, me detendo em captar qualquer reação sua diante de tanto enaltecimento, mas seu rosto sequer se movia, em seus lábios havia apenas um esboço de um sorriso que supus ser irônico.

Parecia ser tão fria que nem as mais exageradas bajulações a faziam tracejar algum sentimento.

Foi então que seu nome foi anunciado pelo cerimonialista, e ela caminhou imponente até a bancada que ficava mais próxima a mim, há alguns metros a minha frente.

Iniciou desejando um bom dia a todos os presentes e cumprimentado os advogados reunidos na mesa de honra. Sua voz era grave porém suave e externava uma confiança tremenda.  Entretanto, sua proximidade me causou tamanho fascínio, que passei minutos hipnotizada com sua presença, e acabei perdendo o decorrer de seu discurso, captando apenas a ultima parte.

 

--(...)e eu costumo exigir apenas três coisas dos que trabalham comigo –deu uma pausa estratégica– Disciplina– olhou para toda plateia detidamente enquanto levantava o dedo esguio com unhas pintadas de preto – Responsabilidade –  ergueu mais um dedo – e Lealdade –  seu olhar intenso fixou detidamente em mim – a tudo que se relaciona a mim e ao escritório. 

 

Nossa troca de olhares durou alguns breves segundos mas  suficientes para fazer meu ar faltar e e causarem frio na espinha me fazendo questionar a sensação estranha que sentia em meu íntimo.

--Deus, por que meu coração está batento tão rápido?! 

 

***

 

 

Meus olhos sempre inquietos 

Que posso até dizer, 

Só acham n'alma objetos 

Que os possam entreter; 

 

Meus olhos... coisa rara! 

Porque hão de em ti parar 

Como a corrente pára 

Em encontrando o mar!? 

 

E penso n'isto, cismo... 

Mas é tão natural 

Cair-se no abismo 

De uma beleza tal!... 

 

Olhei!... Foi indiscreta 

A vista que te pus. 

A pobre borboleta 

Viu luz... caiu na luz! 

 

Uma atração mais forte 

Que toda a reflexão, 

É fado, é sina, é sorte! 

Me arrasta o coração... 

 

 

João de Deus - Atração

Capítulo 20 por JuliaR

Passei o resto da semana ignorando Letícia, ainda estava magoada, confesso que sou um tanto rancorosa e não costumo perdoar fácil. Um defeito péssimo eu sei, mas como diz uma das minhas escritoras favoritas: Cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. 

 

No começo foi dificil me livrar das suas investidas, mas a rotina atribulada que eu levava me deixava atarefada o suficiente para me distanciar dela. Acordava mais cedo, chegava em casa do trabalho mais tarde, nas ocasiões em que era inevitável nossos encontros eu sempre arranja um jeito que não ficassemos a sós, afinal nem eu mesma sabia até que ponto resistiria.

 

No final de semana haveria uma festa feita por minha mãe, já estava me preparando psicologicamente para aquele evento, ter que fingir aos olhos alheios que éramos uma família feliz, só eu sabia como era custoso aturar todo aquele teatro. 

 

Na quinta-feira ignorei solenemente todas as ligações de Letícia no meu celular, ao todo foram 39 chamadas não atendidas, o que fez questionar como alguem poderia ser tão insistente. Será tão dificil perceber que eu não queria conversar com ela enquanto minha raiva não passasse?

Mesmo tendo-a evitado todo aquele tempo, ela não desistiu. Ligaram da recepção do Escritório para a minha sala, dizendo que haveria uma encomenda no meu nome, o que estranhei muito visto que não esperava nada. Desci pelo elevador com curiosidade para ver o que se tratava.

Fui ao balcão enquanto a secretária me sorria simpática.

--Acho que são para você. 

Disse me apontando um buquê de lírios rosa, me fazendo corar completamente, enquanto todos na recepção me olhavam. 

''Letícia, você me paga''

--Obrigada.--dei um risinho amarelo.

Ia sair em direção a meu andar, mas estagnei quando vi Dra. Victória adentrando pelo hall do prédio. Não a vi desde a cerimônia de boas vindas no inicio da semana. Ela usava um Tailleur preto que moldava perfeitamente seu corpo, scarpin e óculos escuros enormes vintage.  

Sua presença era tão atrativa que todos a olhavam numa mistura de reverência e admiração, acho que a fama de carrasca dela chegou a todos porque quando ela aparecia os funcionários começavam a trabalhar imediatamente, parecia magica. 

Caminhou elegantemente pelo hall com dois seguranças a tira colo, que deveriam ter o dobro do meu tamanho, passou por mim lentamente. Eu ainda estava segurando o maldito buquê e ela baixou o óculos como se quisesse ver com mais nitidez alternou o olhar entre as flores e eu. 

Predi a respiração.

--Bom dia--disse formalmente dirigindo-se as secretárias.

--Bom dia, doutora--todas responderam em uníssono.

Foi em direção ao elevador, deixando apenas o rastro daquele perfume floral delicioso que ela usava. Não a vi pelo resto do dia.

O dia foi um pouco sobrecarregado, no final do expediente eu ainda analisava alguns processos que haviam prescrevido na minha sala quando a secretária me avisou que uma cliente queria conversar comigo. Autorizei a entrada ainda com os olhos nos papeis, quando senti um cheiro conhecido.

--O que diabos você veio fazer aqui? --arregalei os olhos a encarando completamente incrédula.

Letícia estava ali, em carne e osso me olhando sorridente.

--Boa tarde para você também. Como você me ignorou a semana inteira, pensei que pelo menos aqui você teria a obrigação de me tratar bem...--disse como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo.

--Este é o meu local de trabalho, o que você veio fazer aqui?

--Saber como você está? Se o seu dia foi bom?  O que achou das flores?Quando pretende me perdoar? Posso me sentar? 

Falou pausadamente, mais parecia uma daquelas boneca infantis que faziam perguntas aleatórias quando eram pressionadas.

--Letícia, você não pode vir aqui para isso, esse é um escritório sério e a menos que você tenha um bom propósito para procura-lo, você não deveria estar aqui. --falei irritada enquanto ajeitava os papeis na mesa de forma mecânica.

--Adorei sua sala--disse sentando-se na cadeira com um sorrisinho cínico olhando a decoração ao redor.

Letícia tinha a mania de mudar o assunto quando as coisas não iam ao rumo que ela gostaria. Odiava isso nela.

Suspirei cansada a encarando.

--Dez minutos para você me falar o que quer.

--Tudo bem, vamos lá. O que eu faço para você me perdoar?

--Não faça nada, Letícia. Eu não tenho o que perdoar não é a mim que você deve satisfações.

--Hum, isso soa tão rude. Mas não vou tirar sua razão em estar irritada --levantou-se da cadeira e veio em minha direção -- sei que errei e não deveria ter rido daquela piada de extremo mal gosto, se pudesse voltar no tempo não faria --pegou suas mãos entre as suas e beijou--mas peço que me perdoe, isso não vai mais se repetir, meu amor. Eu prometo.

 

 

Eu vi arrependimento no seu olhar, como se implorasse meu perdão. Eu sentia meu ego batalhar com o sentimento que tinha por ela, eu ainda estava machucada, mas não era forte o suficiente para resistir a elas.

Ela ajoelhou-se em frente a minha cadeira, ainda segurando minhas mãos delicadamente.

--Letícia, levanta já daí! 

--Olhe como eu estou, literalmente ao seus pés.--fez um carinha tão fofa que senti vontade de rir.

Era mesmo uma sedutora nata, que meu ego fosse para o quinto dos infernos, eu a perdoaria.

--Ok, desculpo você. Satisfeita?

 O sorriso que ela deu foi tão radiante fez meu coração errar a batida tamanha emoção causada.

--Ainda não, quem sabe não fique após um beijo? --Me olhou significativamente.

--Nem pensar, não esqueça de onde estamos. E ainda tenho que deixar uns papeis na sala ao lado. --Falei me levantando e organizando alguns papeis.

--Para que a pressa? 

Encostou o corpo no meu e uma corrente eletrica passou ela meu corpo me fazendo arfar com sua mão quente pressionando minha cintura, e a outra colocando meu cabelo ao lado, deixando minha nuca a mercê de seus beijos.

--Letícia, pare...

--Não consigo.

Sua mão arranhou minha barriga por baixo do tecido fino da minha blusa, e não pude sufocar o gemido fraco que saiu dos meus lábios. Ela me virou de frente mergulhando a língua em minha boca, me arrancando suspiros entre um beijo e outro e em um movimento firme me suspendeu sobre minha mesa, parando o beijo apenas para sussurrar em meu ouvido.

--Saudades 

Lambeu toda extensão do meu pescoço, eu me segurava na mesa apoiando, enquanto Letícia explorava seu pescoço, ombros, colo. 

Pus a mão em sua nuca e a puxei pelos cabelos fazendo com que ela me olhasse.

--Aqui não...

Ela ignorou pousando as mãos em minhas pernas e as afastando bruscamente deixando minhas coxas ainda mais expostas enquanto minha saia subia e ela se punha entre minhas pernas. Senti minha calcinha molhar completamente. Minha boca se abriu formando um pequeno círculo, mas logo foi coberta pelos lábios desejosos dela. 

Letícia levou a mão até o meio das minhas pernas apertando suavemente.

--Gostosa...--gemeu ao meu ouvido.

Pressionei meus olhos com força e  deti as mãos de Letícia.

--Não, aqui não. --falei ofegante.

--Só paro se você me prometer que continuaremos depois-- falou mordendo meu queixo.

--Prometo, agora vai antes que desconfiem da gente... --falei descendo da mesa.

--Mas que mania essa sua de achar que estamos sendo observadas o tempo todo, eu hein. --suspirou irritada.

--Só estou me prevenindo.

--Hum. Melhor eu ir, sua mãe pediu ajuda para decidir a decoração da festa.

--Nem me lembre dessa festa...

Letícia sorriu enquanto me roubava um selinho.

--Vou indo, espero que cumpra sua palavra.--disse desafiadora

--Vou cumprir, quem sabe ainda hoje... --pisquei para ela

Infelizmente não fizemos nada aquela noite, haviam visitas em casa que ficaram até tarde impedindo nossa saída sem que ninguem percebesse.

 

 

 

 

**

 

 

Na sexta o dia foi um pouco menos atarefado, já havia terminado meu trabalho e no final do expediente  e a maioria dos funcionários estavam saindo, fui a sala da Patrícia para conversarmos e combinar minha carona com ela, já que meu carro ainda não tinha voltado da oficina.

Estávamos num papo animado quando uma das funcionárias me avisou que a toda poderosa havia mandado me chamar.

Eu e Patrícia nos olhamos surpresas.

--O que será que ela quer comigo?

--Não deve ser nada sério, João disse que ela também o chamou além de outros funcionários. Deve estar querendo conhecer. Melhor você ir logo, até logo.

--Até.

Fui em direção a sua sala com as mãos geladas tamanho nervosismo que sentia. Ficava no ultimo andar só existiam duas salas ali, a outra era do dr. Otávio. 

Coloquei meu casaco no cabide e sentei no sofá de couro ao lado da mesa de sua secretária que estava ao telefone. Olhei ao redor brincando com minhas mãos num sinal claro de apreensão, tudo ali estava diferente do que era antes, bem mais sofisticado.

Ouvi um bip soar no ar e a secretária autorizou minha entrada. Abri a grande porta de madeira e adentrei na enorme sala congelante de Victória, logo me arrependi de ter tirado o casaco. Ela estava na sua cadeira--que mais parecia um trono-- de costas para mim e parecia falar ao telefone. Sua sala era toda decorada em preto e branco e alguns detalhes em cor vinho, tentei não parecer tão impressionada com o bom gosto.

Ela virou-se para mim ainda segurando o telefone na orelha e eu continuei caminhando lentamente até sua mesa que de tão distante que parecia não chegar nunca.

--Ok...não quero desculpas, preciso do depoimento até amanhã. Tchau.

Ela falava enquanto tamborilava uma caneta dourada na mesma e  se possivel estava ainda mais nervosa ao ouvir sua voz autoritária soar no ambiente.

Engoli ainda em pé entre duas cadeiras a frente de sua mesa enquanto ela me olhava impassível.

--Boa tarde, dra. Victória. A senhora mandou me chamar? --falei quase engasgando.

--Boa tarde...--olhou para uma ficha em cima da sua mesa como se procurasse algo--Alice?

--Sim.

--Sente-se. 

Sentei meio sem jeito já sentindo minhas pernas bambas diante daquela mulher tão fria quanto sua sala congelante.

--Bom, estou tentando conhecer os funcionários da empresa individualmente. Aqui diz que ja está a dois anos trabalhando no escritório. Correto? --ela me olhou por cima do óculos de grau delicado que usava.

--Sim, senhora.

--Pretende permanecer conosco? --me questionou.

--Sem dúvida alguma.

--Ok. Sua média acadêmica me parece satisfatória. Espero que permaneça assim se quiser realmente ficar aqui.

--Eu também...quer dizer, vou me esforçar para que permaneça assim, senhora. --falei me arrependendo de não saber escolher bem as palavras.

--Hum ok.

Ficou alguns segundos olhando para ficha e depois para mim, parecendo relutante em falar algo.

--Mais alguma coisa, doutora?

--Não...

Levantei-me da cadeira me virando de costas sentindo uma sensação de alívio enorme por finalmente ir deixar aquela sala, mas mal dei um passo e sua voz grave ecoou.

--Na verdade, preciso falar algo.

Me virei a olhando detidamente voltando a minha posição inicial ainda em pé em frente a sua mesa.

--Pois não.

Ela suspirou.

--Sugiro que procure outro lugar que não seja a mesa do escritório para sessões de amassos.

Arregalei os olhos.

Não podia acreditar no que estava ouvindo.

 Me apoiei minhas mãos na mesa em frente temendo cair a qualquer momento. 

Meu coração errou a batida e eu podia ouvir nitidamente o som dos seus batimentos.

 

 

Pisquei os olhos várias vezes antes de proferir.

--Co-como? --gaguejei ainda sem acreditar.

Ela me olhou friamente.

--Depois do ocorrido no ano passado e nos desfalques que aconteceram, tomei a iniciativa de colocar câmeras nas salas, por razões de segurança. 

Meu sangue sumiu, senti meu rosto formigar enquanto minhas pernas pareciam gelatina.

Supirei em busca de ar e não me atrevi a falar nada. Enquanto Victória continuou.

--Ninguém exceto eu, doutor Otávio e agora você, sabe disso.  Mas espero que continue em segredo.

Eu pressionava minhas mãos na mesa sentindo um suor frio percorrer meucorpo.

--Os videos passam primeiro por mim, depois vão a uma equipe especialista em segurança da minha confiança.

--Isso não pode estar acontecendo --sussurrei mordendo os lábios nervosamente

--Eu apaguei as cenas antes que elas fossem enviadas, se isso for tranquiliza-la. Mas gravei em dvd caso você queira guardar de lembrança...

Me senti tonta e fechei meus olhos com força sentindo meu rosto arder de tanta vergonha. Ainda tentava olhar Victória quando minha visão ficou turva e tudo que senti foi meu corpo atingir o chão.

--Alice? Alice! --ainda ouvi sua voz distante me chamar

***

 

 

Esquecer e perdoar. É isso que dizem por aí. É um bom conselho, mas não muito prático. Quando alguém nos machuca, queremos machucá-los de volta. Quando alguém erra conosco, queremos estar certos. Sem perdão, antigos placares nunca empatam, velhas feridas nunca fecham. E o máximo que podemos esperar é que um dia tenhamos a sorte de esquecer.

Capítulo 21 por JuliaR

Fui teletransportada para um universo paralelo, onde apenas ouvia sons distantes e imagens desconexas, minha visão era escura e não podia ver com exatidão para onde estava indo, parecia um labirinto, uma estrada cercada de trilhas. Não conseguia sentir meu corpo, apenas uma sensação latejante em minha cabeça que agora era substituída por carícias leves, apenas um forte cheiro adentrado minhas narinas, estranhamente parecia álcool.

 

Abri os olhos de maneira brusca e vi pelas imagens turvas a íris castanha me olhando fixamente, seus olhos apesar de intimidadores revelava um resquício do que pensei ser preocupação. Olhei rapidamente ao redor e me situei, estava em seu escritório, mais especificamente em seu sofá que mais parecia um divã, deitada com a cabeça em seu colo enquanto ela parecia acariciar meu cabelos com uma mão, enquanto a outra segurava o chumaço de algodão próximo ao meu nariz.

 

Infelizmente não tive um pesadelo, realmente havia acontecido o que eu temia.

 

--Oh meu Deus! --Fechei os olhos novamente.

 

--Dificuldade em manter os olhos abertos? --Falou com a voz fria, cessando o carinho nos meus cabelos.

 

--Sim.

 

--Deixe de bobagens, abra logo os olhos.--falou com a voz dura.

 

--Estou envergonhada demais para isso. --falei num fio de voz.

 

--Ora, abra senão chamarei o médico. 

 

Ameaçou e eu abri imediatamente a fitando.

 

--Me diga que nada disso aconteceu, por favor.

 

Ela acomodou-se melhor no sofá, mantendo seu cotovelo apoiado enquanto passava a mão pelos cabelos sedosos, sendo acompanhada pelo meu olhar minucioso.

 

--Não suporto mentiras, então infelizmente, aconteceu sim.

 

--Estou demitida por justa causa? --perguntei com a voz trêmula e incerta enquanto apertava os dedos frios da minha mão.

 

--Não. Mas espero que isso não volte a acontecer, há lugares mais propícios para isso, como motéis...

 

Fechei os olhos sentindo uma onda de vergonha me atingir novamente.

 

--Desmaiou outra vez? 

 

--Não--abri os olhos novamente.

 

--Então levante-se, estou atrasada para uma reunião e não tenho tempo para ficar lhe socorrendo em seus desmaios. --falou olhando para o relógio dourado no seu pulso.

 

Me sentei de imediato, saindo do seu contato e sentando no sofá tentando ajeitar meus cabelos.

 

--Obrigada. --falei sem olha-la.

 

--Pelo quê? 

 

Olhei-a significativamente como se ela houvesse perguntado a coisa mais obvia do mundo.

 

--Por não ter me demitido. E por ter apagado os videos. E por não ter me deixado jogada no chão, e também por...

 

--Chega. Fiz isso pelo bem do escritório. Não se iluda.

 

Meu queixo quase foi parar no chão, me senti tão insignificante.

 

--Ok. Então, boa noite doutora. --falei  me levantando a pegando minha bolsa desajeitadamente.

 

--Boa noite.

 

Sai de sua sala em meio da dilemas, tentando analisar diversas formas de cometer suicídio, deveria me jogar do ultimo andar ou me atirar da escada, eis a questão. Sentia uma raiva tão profunda de mim mesma misturada com uma vergonha descomunal que a minha vontade era isolar-me do mundo.

 

 Senti meu celular vibrar no bolso quando estava no elevador.

 

Era a mãe de Bernardo.

 

--Alô 

 

--Alice? --percebi receio em sua voz.

 

--Sim, tia. Sou eu. Aconteceu alguma coisa?--perguntei apreensiva.

 

--Infelizmente sim...Bernardo sofreu um acidente. 

 

Senti o chão faltar pela segunda vez no dia. Mas a sensação agora era infinitamente pior. Fiquei completamente estática ainda segurando o celular no ouvido.

 

--Alice? --sua voz parecia chorosa

 

--Diga que não é nada sério, por favor...

 

--Ele ainda vai realizar alguns exames, mas seu quadro é estável e ele já esta consciente. Só liguei por que você é namorada dele, e talvez queira vir aqui...

 

--Claro que sim, só me diga onde que eu irei imediatamente.

 

Ela me deu o endereço e fui rapidamente chamar um táxi, sorte que haviam alguns deles próximos ao escritório.

 

No caminho sentia uma sensação estranha, medo de que algo grave possa acontecer me fazendo sentir culpada, mesmo que racionalmente eu soubesse que era impossível.

 

Meu celular tocou mais uma vez. Pelo visor vi que era Letícia, no entanto deixei tocar, não estava com cabeça para atende-la naquele momento.

 

O caminho parecia não ter fim, minha ansiedade em níveis estratosféricos, sentia ânsia enorme de vê-lo, conferir com meus proprios olhos se ele estava bem.

 

Chegamos enfim ao hospital, me identifiquei na recepção e rumei para o quarto onde Bernardo estava, na entrada vi sua mãe e alguns tios dele.

 

Fui abraçada calorosamente por ela que chorava baixinho.

 

--Onde ele está?

 

--No quarto.

 

--O que houve? -- falei me sentando ao seu lado no banco.

 

--O carro dele capotou apos ter colidido com outro.

 

--Meu Deus.

 

--Foi horrível.

 

--E ele? Como ele está?

 

--Estava desacordado, mas agora voltou ao normal. Quebrou o braço, e teve alguns cortes um pouco mais profundos na cabeça, mas esta fora de perigo.

 

--Ainda bem que não foi algo mais grave. Eu posso vê-lo?

 

--Sim, querida. Só estou aguardando o médico  que esta avaliando ele sair do quarto e entraremos lá.

 

--Ok.

 

--Desculpa não ter ligado antes, eu estava muito nervosa, fiquei sem ação.

 

--Não tem problema. --disse enxugando suas lágrimas com o dorso da mão.

 

Logo o médico saiu do quarto e autorizou nossa entrada.

 

Entrei meio receosa no quarto, o vi fitando o teto sem se mover. Sua cabeça estava coberta por ataduras e o braço também, mas fiquei feliz em ver que ele não estava tão ruim o quanto havia imaginado.

 

--Olha quem veio te visitar, filho. --

 

Luiza falou numa voz animada. Mas essa animação não pareceu contagia-lo. Ele me olhou de cima a abaixo com frieza.

 

--Bernardo...--cumprimentei meio sem jeito depois do seu olhar reprovador.

 

Mas ele nada disse. Luiza me olhou com estranheza, parecendo não entender a situação.

 

--Está precisando de algo, filho? --falou acariciando o rosto dele.

 

--Água. Eu estou com sede.

 

--Eu vou buscar Água para você na recepção. --falei de pronto saindo do quarto.

 

Fui a recepção e peguei um copo de água levando imediatamente ao quarto. 

 

--Melhor deixar vocês um pouco a sós. Tenho que pegar algumas roupas em casa e uns documentos para a internação, volto o mais rápido que puder.

 

--Eu fico com ele, não se preocupe. Demore o tempo que precisar.

 

--Obrigada--disse depositando um beijo na minha bochecha.

 

Bernardo observava tudo com a cara emburrada, não parecendo gostar de saber que iríamos ficar a sós.

 

Ouvi a porta bater atras de mim e me aproximei da maca lentamente, apensar de estar um pouco intimidada criei coragem para falar.

 

--Como você está? --falei tocando levemente seus dedos da mão.

 

Ele revirou os olhos e grunhiu como se a pergunta fosse obvia demais.

 

Eu não evitei sorrir, o que pareceu te-lo incomodado ainda mais.

 

--Que pergunta boba a minha. Na verdade o que queria saber é se você está com dores, ou se algo te incomoda? 

 

Ele virou o rosto para a outra direção me ignorando completamente.

 

--Ok, pelo visto isso será um monólogo. Ah! tinha esquecido sua água

 

Peguei o copo da mesa ao lado e fui levando em sua direção, ele parecia relutante em aceitar que eu desse a água em sua boca, mas sua sede falou mais alto, ele tomou todo o conteúdo do copo em segundos. 

 

Ouvi novamente o celular tocar em minha bolsa, mas ignorei. Deveria ser Patrícia ou Ana indagando porque não fui a aula, depois retornaria explicando o motivo.

 

Aproximei mais dele segurando seu queixo delicadamente e o fazendo olhar para mim.

 

--Não vai mesmo falar comigo?

 

Seus olhos brilhavam, e eu conseguia distinguir naquele olhar a mágoa que ele sentia.

 

--O que você veio fazer aqui? 

 

--Não parece obvio? Vim ver você, Bernardo. Saber como está.

 

--Como se você se importasse...

 

--Claro que me importo.

 

--Seu namoradinho sabe que você está aqui? 

 

Perguntou debochado, aquele nem de longe parecia ser o homem que namorei.

 

Pisquei os olhos sem entender. Me sentando na sua maca cuidadosamente.

 

--Eu não tenho nenhum namoradinho, e se tivesse jamais deixaria que interferisse no que tenho com você, Bernardo.

 

--Nós não temos nada, e não precisa vir aqui por pena. Se veio aqui para saber como estou, já viu então pode ir embora agora. Obrigado pela visita.

 

Mesmo tentando usar o máximo de compreensão possível, não me contive em ouvir aquilo, apesar de reconhecer os motivos da sua mágoa, não aceitava ser tratada daquele modo.

 

--Já chega dessa infantilidade! Eu tive um dia de cão, mil e um problemas que você sequer pode imaginar!--falei num tom ríspido e alto.--E mesmo assim estou aqui para saber como você está, tentando te ajudar em troca recebo essas suas grosserias infundadas que ja tiraram o resto da minha paciência. Portanto, pare com isso agora e trate de agir como um estúpido ou eu não respondo pelos meus atos.

 

Bernardo arregalou os olhos me olhando assustado. Acho que no tempo que estivemos juntos raras as vezes que levantei a voz.

 

--Tudo bem--ele sibilou baixinho.

 

--Obrigada. Posso me deitar um pouquinho aqui? --falei apontando pro pequeno espaço vazio da maca.

 

Ele me olhou indeciso.

 

--Ok.

 

Deitei cuidadosamente ao seu lado, enquanto acariciava seu rosto.

 

Passamos longos minutos sem falar nada, apenas ouvindo a respiração pesada dele.

 

--Como você está? --Ele sussurrou.

 

--Melhor agora sabendo que você está bem.

 

--E o dia de cão? 

 

--Coisas do escritório...

 

--Seja lá o que for, espero que tudo se resolva.

 

--Eu também. 

 

**

 

Cheguei em casa já era tarde, tinha passado mais tempo do que imaginava no hospital, era reconfortante estar com Bernardo, apesar das poucas palavras que trocamos, fiquei feliz em ter conseguido instalar um clima agradável entre nós. Aproveitei o tempo também para matar a saudade que tinha da familia dele, não os via a um bom tempo, e aproveitei para conversar bastante, precisa abstrair depois do dia intenso que tive.

 

Seu pai fez questão de me deixar de carro até em casa, alegando ser perigoso andar de taxi aquela hora, nos despedimos e  entrei em casa silenciosamente.

 

A sala estava escura, quando liguei o interruptor me surpreendi ao ver Letícia sentada na poltrona com braços cruzados e  cara de poucos amigos.

 

--Onde você se meteu, garota? 

 

Falou entredentes quando se aproximava de mim. Seu rosto vermelho denunciava a irritação. Uma irritação que quem deveria estar sentindo era eu, afinal Letícia iria me pagar caro pelo que tinha me feito passar no escritório.

 

--Letícia...

 

--Por que diabos não atendeu a porra do celular o dia inteiro? --falou segurando meu braço firmemente.

 

Arregalei os olhos. Que modo era aquele de falar comigo? Ela estava transtornada. Mas eu não deixaria que ela falasse assim comigo.

 

--Eu nem lembro de te dever satisfações, Letícia. 

 

--Ah não deve? Onde você estava? Não minta pra mim por que sei que não foi a faculdade hoje. 

 

--Você ficou louca?! Me solta. --falei afastando meu braço do seu contato, sentindo o cheiro de álcool enquanto sua respiração quente batia em meu rosto.

 

--Estava com ele, não é? Conheço muito bem o carro que veio te deixar.

 

--Estava sim, mas não da forma como você está pensando, estúpida.

 

--Me traindo, não é? Eu devia imaginar que você não passava de uma...

 

Fiz menção de empurra-la mas ela me segurou firme.

 

--Continua, Letícia. Fala o que você acha que eu sou...

 

Ela calou.

 

Ficamos segundos apenas nos encarando, pareciam sair faíscas do nosso embate.

 

Ela pareceu cair em si e baixou o olhar.

 

--Desculpe. Só não quero que você se encontre com ele outra vez. Você é minha.

 

Dessa vez tive que rir, um riso triste que denotava incredulidade no que acabei de ouvir.

 

--Eu sou sua? E você, Letícia? Você é minha? É muito cômodo pra você, não é? Exigir o que quer de mim--ela me olhou tensa enquanto eu apontava o dedo em seu rosto--e eu aqui sempre cedendo aos seus caprichos, suas vontades. Sempre atendendo aos seus desejos, não é? É muito fácil, Letícia. Muito fácil manter seu relacionamento ridículo com meu tio e me ter ao mesmo tempo, na hora que você quer, onde você quer. --ela se afastou de mim assutada.--Cansei de ser a única que cede nessa droga relação, se é que isso pode ser chamado de relação. Cansei, Letícia. Eu cansei. 

 

Me afastei bruscamente dela, subindo as escadas em direção ao meu quarto sentindo as lágrimas molharem meu rosto pela tristeza, mas sentia igualmente a alma leve por jogar para fora tudo que a muito queria dizer, mas não tive coragem.

 

***

 

Há momentos em nossas vidas em que o amor realmente conquista tudo: cansaço, privação de sono, qualquer coisa. E depois há aqueles momentos em que parece que o amor não nos traz nada além de dor. Estamos sempre procurando maneiras de aliviar a dor. Às vezes, fazemos o que temos de melhor. Às vezes há momentos em que perdermos a nós mesmos. E às vezes tudo o que precisamos para aliviar a dor é dar uma simples trégua

 

Capítulo 22 por JuliaR

Tudo ia de mal a pior, se minha vida já estava suficientemente estranha nos meses que se passaram, a ultima semana mais parecia uma montanha russa, as coisas começavam a sair dos eixos sem nenhuma previsão de melhora.Passei quase a noite toda em claro, a discussão com Letícia não me deixou dormir, as palavras carregadas de ira ecoavam em minha mente me deixando se possível mais indignada, se pudesse me teletransportaria da minha realidade, e só voltaria a mesma quando tudo se resolvesse. Minha vontade era de permanecer ali coberta dos lençóis no conforto do meu quarto sem ter que atravessar a porta e correr o risco de dar de cara com ela. Juro que naquele momento ela era a ultima pessoa que gostaria de ver. Nunca imaginei que diria isso.

Pedi para que levassem meu café na cama na tentativa de evitar o quanto pudesse qualquer tipo de aproximação, já estava me preparando psicologicamente, pois teria que almoçar com todos na sala, uma vez que minha mãe receberia visitas. Desci desanimada para a sala, no meio da escada dei de cara com Letícia que carregava um semblante de cão sem dono. Revirei os olhos e tentei passar batido, porém sua mão me deteve delicadamente.

--Alice, precisamos conversar. Quero me desculpar  

Sussurrou com a voz mansa, nem parecia a mesma Letícia de ontem.

--Não. -Disse simplesmente e continuei o percurso.

--Eu estou arrependida por ontem e...--continuou me acompanhando.

--Azar o seu.

Desfiz o contato com dureza e terminei de descer as escadas, com o coração aos pulos, mas acredito que me sai bem tentando parecer indiferente.

--Bom dia!-

Fingi animação que não sentia ao cumprimentar a mesa e ver que nela estava além de mamãe e Antoni, Clara e os pais dela, fiz questão de me sentar ao seu lado, aliás, ate fastei a cadeira para o mais próximo possível dela. Letícia logo adentrou na sala com um sorriso sem graça, mas elegante como sempre naquele vestido bustier azul. 

Desgraçadamente linda. Que raiva!

No entanto tentei parecer o mais indiferente possível, e concentrar meus olhares furtivos em Clara, que parecia bem feliz em me ver e que também estava linda,  juro que inicialmente nem tive a intenção de fazer ciúmes, mas com o assunto da mesa restrito ao mundo chato da moda, foi impossível não me atentar a conversa privada com Clara.

Letícia sempre olhava para mim, analisando minha conversa, parecia frustrada em ter que interagir com os outros, o que impedia de acompanhar o que eu e Clara falávamos. Chegava a ser divertida a cara descontente que ela fazia. Após o almoço fomos todos a sala de estar, escolhi uma poltrona de dois lugares para me sentar com Clara, que estrategicamente ficava a frente da qual Letícia e Antoni estavam sentados, o que proporcionava uma visão privilegiada.

Conversávamos em voz baixa sobre banalidades, vez ou outra tocava em seus cabelos propositalmente enquanto perguntava o que ela estava usando para deixar os fios tão sedosos, um assunto aparentemente banal, mas para quem via de longe parecia um flerte descarado que visivelmente deixava Letícia desconfortável.

Vez ou outra Clara tocava discretamente minha perna, nem era de propósito, eu ja tinha percebido que ela tinha mania de fazer isso com outras pessoas, mas que naquele momento caiu como uma luva.

Letícia nos fitava com olhos semi cerrados e os lábios comprimidos numa clara expressão de raiva. Bem feito, ela merecia isso muito mais.

Ouvi no meio da conversa, mamãe dizer que iria a um buffet com os pais de Clara, Antoni e Letícia, porém insisti que Clara ficasse mais, para que nós conversássemos.

 Recebi um olhar reprovador da minha tia, mas nem sequer me importei. Convidei Clara para ir no meu quarto com a desculpa de que ela me ajudasse a escolher o vestido que usaria na festa, saímos de mãos dadas em direção a escada, olhei para Letícia e senti seu olhar gélido sobre mim, sorri cínica para ela e dei um aceno com a mãe me despedindo. 

Eu e Clara passamos boa parte da tarde jogando conversa fora, conversando sobre filmes, livros, faculdade. Adorava conversar com ela, estávamos cada vez mais próximas, ela tinha se tornado uma grande amiga, apesar de ainda sentir um interesse latente dela em mim. 

Ela se despediu após um bom tempo, e combinamos de nos ver na faculdade depois.

Fechei a porta do quarto e me joguei na cama, com um sorriso compenetrado nos lábios lembrando da cara de contrariedade de Letícia, me deliciava em vê-la daquela forma, me sentia de alma lavada.

Ouvi batidas na porta, estranhei visto que todos tinham saído de casa, me levantei e fui destrancar a porta. 

--Letí...

Mal tive tempo de falar e fui empurrada para dentro do quarto e a vi trancar a porta atras da gente com a expressão completamente transtornada, me segurando pelos ombros.

--Já chega de me provocar, Alice! --falava entredentes pausadamente enquanto me empurrava --Cansei dessas ceninhas!--seus olhos me fuzilavam.

Senti a cômoda atras de mim ainda assustada, sentindo seu rosto proximo ao meu.

--Saia já do meu quarto! --falei num fio de voz.

--Por que? A Clara você deixa, não é? O que tanto vocês faziam aqui?--me olhava com as sobrancelhas arqueadas e os olhos brilhavam de raiva.

--Nem queira saber--sorri debochada virando o rosto.

Letícia me puxou pelo queixo fazendo-me olhar em seus olhos. 

--Não estou para brincadeiras.

--Nem eu!

A senti segurar a parte de trás do meus joelhos e me suspendendo me fazendo sentar na cômoda atras de mim. Afastou minhas pernas e se pôs entre elas, colando nossos corpos. Letícia pôs o rosto na curva do meu pescoço aspirando com força.

--Contava os segundos pra te sentir assim. – Letícia disse em meu ouvido ofegante ao mesmo tempo em que  beijava deliciosamente meu pescoço, enquanto suas mãos quentes apertavam minhas coxas descobertas pelo saia.

--Não faz isso, Letícia.--já pedia sem força sem voz, sendo inebriada pelo cheiro dela.

--Você não quer que eu pare. --falou dando beijos molhados em meu queixo.

Não resisti, juro que tentei ser forte, mas foi impossível resistir. Segurei seus cabelos pela nuca e selei nossos lábios, sedente pelo seu beijo, senti meu corpo arrepiar quando sua língua adentrou entre meus lábios, sendo correspondida de imediato. Nem sei calcular o tempo em que ficamos trocando beijos, só interrompi o beijo quando senti suas mãos subirem minha saia, e seus dedos atrevidos roçaram em minha calcinha arrancando um gemido baixo.

--Deliciosa, não vejo a hora de por minha boca aqui. 

Suspirei alto. 

Não consegui conter os instintos que clamavam pelo gosto doce daquela língua e a beijei outra vez.  Precisava, necessitava daquele contato. Implorava pelo calor que se alastrava por seu corpo como chamas. Sentia uma pontada no ventre cada vez que sentia a lingua aveludada sugar a minha.

Tentei tirar rapidamente o vestido dela, sem sucesso, mas consegui arranhar a pele das suas costas e ombros com força, sem me importar em deixar marcas. Eu queria que ela se sentisse marcada. Aquilo me dava a sensação ilusória de que ela me pertencia.

Ela tirou minha blusa, e logo depois devorou meu colo com sua lingua, beijando, sugando entre o vale dos seios. Os olhos verdes me olhavam com devoção quando tirou meu sutiã, para logo depois devorar meus seios entumecidos, beijando os mamilos rosados e acariciando com a língua quente. 

Gemi alto.

--Gosta assim?

Nem sequer consegui responder, quando ela avançou no outro repetindo o processo e dando uma leve mordida no final. Quase desfaleci.

Deu um sorriso convencido.

--O que eu faço com você, hein? Acho que você merece um castigo depois do que fez...

Sussurrou com o hálito quente em minha orelha, enquanto lambia toda a extensão ate meu queixo, depositando uma mordida um tanto forte no local.

--Ai...

--Doeu? --me questionou com um sorriso malicioso nos lábios.

--Sim...

--Você não viu nada.

Mal tive tempo de respirar e senti suas mãos agarrarem meu quadril e me levando pra ela, me suspendendo fazendo agarrar ainda mais no seu corpo, me tirando da cômoda e me levando com ela a caminho da cama. Me jogou com um pouco de força no meio da cama me deixando esparramada entre meus lençóis fazendo-me apoiar nos cotovelos

--Nossa--falei embasbacada vendo-a terminar de tirar o vestido e aparecer só de lingerie preta e vermelha com cinta liga. Quase desmaiei coma cena.

Piscou para mim.

--Vira. 

--Ahm? --pisquei os olhos rapidamente sem entender.

--Eu mandei você virar.--falou séria me olhando.

Mal tive reação, quando a senti me virar com suas mãos firmes num milésimo de segundos, me deixando mais surpresa ainda e temerosa com o que poderia acontecer. Ela logo colocou dois travesseiros sob minha barriga enquanto ainda estava de bruços me deixando completamente empinada.

Senti a cama afundar do meu lado, e pelo espelho da parede vi  seu corpo se colar ao meu me arrepiando inteira, suas mãos colocaram meu cabelo de lado, e sua boca deliciosa falar no meu ouvido.

--Tem noção do quanto você é gostosa?

Não respondi em completo ecstasy.

--Só eu posso comer você assim. Só eu posso fazer o que quiser com você.

--Só você --repeti completamente ofegante.

--E você vai pagar por ter me provocado hoje, sobrinha. 

Senti ela suspender seu corpo descolando do meu, e minha saia de pregas foi suspensa expondo minha calcinha.

Apertou minha bunda com força e depois fez carinho com o dorso da mão. Estava relaxando com o carinho quando inesperadamente senti um tapa queimando minha pele.

--Ai! 

Franzi o cenho, enquanto via pelo reflexo Letícia sorrir, eu me encontrava com as bochechas completamente vermelhas e com uma expressão assutada no rosto.

Ela subiu novamente pelo meu corpo beijando minhas costas seguindo a linha da minha coluna e cobrindo de beijos molhados até minha nuca onde salpicou mordidas. Mal tive tempo de relaxar meu corpo quando senti outro tapa forte em minha bunda fazendo o barulho ecoar pelo quarto.

Dessa vez nem sequer tive tempo de reclamar e ja senti seu dedo me invadir deliciosamente, enquanto com a outra mão ela fastava minha calcinha.

 Gememos em uníssono. 

Mordi os lábios tentando abafar o som.

--Tão apertada. Quero ver até onde aguenta.

Falou no meu ouvido enquanto inseria mais um dedo  estocando fundo dentro de mim, e eu me sentia vergonhosamente meu liquido molhar a cama enquanto mordia meu lençol com força.

--Não aguento mais

--Claro que aguenta.

Colocou mais um dedo e instantaneamente meu corpo retesou anunciando o orgasmo, enquanto ela diminuía o ritmo me deixando completamente frustrada.

--Ainda não. Quero tudo na minha boca.

Prendi a respiração quando vi Letícia me virar de barriga para cima e me puxar para a borda da cama, enquanto se punha de joelhos entre minhas pernas.

--Oh não...

Falei tentando fechar minhas pernas, mas Letícia foi mais rápida e manteve-as abertas.

--Morrendo de saudade do seu gosto sabia? 

Falava isso arranhando minha barriga de leve com aquelas unhas bem feitas, enquanto olhava para mim com aquele sorriso cínico passando as mãos sobre a borda da minha calcinha de renda rosa.

--Saudades da minha sobrinha gostosa.

Mal tive tempo de responder e senti sua lingua quente contornar minha boceta de baixo pra cima por cima do tecido fino, me deixando mais molhada ainda. Tive que colocar minhas mãos na boca para não fazer escândalo.

--Ai meu Deus--sussurrei sem me conter.

Letícia deu uma risada nasal enquanto assoprava onde antes havia lambido me causando arrepios.

--Tira minha calcinha...

Letícia não se fez de rogada, e para minha surpresa segurou com as duas mãos com força rasgando o tecido e se desfazendo da ultima peça que faltava, me deixando totalmente exposta para ela, seus dedos indicadores deslizaram sobre meu sexo abrindo-o ainda mais enquanto sua linguá me invadiu fundo fazendo minha cabeça pender para trás.

--Humm

Gemi baixinho fechando os olhos, tentando não perder o contato com os seus olhos azuis flamejantes que pareciam me devorar. Senti sua língua circular superficialmente meu nervo rígido, me fazendo erguer mais o quadril em direção a sua boca ansiando um contato maior, mas Letícia afastou seus lábios rindo.

--Não faz isso...--supliquei.

Letícia logo capturou meu clítoris sugando inteiro para dentro da sua boca, a cena mais erótica que já vi em minha vida, ver seus lábios rosados me chupando inteira. Já sentia os espasmos invadirem meu corpo, quando Letícia me lambia recolhendo grande parte do liquido quente em sua boca, me fazendo gemer alto, sentindo meu sexo pulsar contraindo a língua deliciosa em meu interior.

Dali em diante meu corpo não suportou e o orgasmo veio intenso arrebatando meu corpo de uma maneira surreal, nem sequer conseguia enxergar direito, apenas sentia Letícia sugar cada gota do meu gozo enquanto me sentia esgotada sem forças para sequer falar.

Letícia escalou meu corpo salpicando beijos dos pés a cabeça enquanto subia deixando nossos corpos colados me beijando de leve e acariciando meus cabelos.

Devo ter ficado uns 10 minutos ali paralisada, de olhos fechados, esgotada sem forças sentindo apenas os dedos de dela contornarem meu nariz e lábios enquanto recebia beijos carinhosos em minhas bochechas. Abri os olhos e o azul me invadiu com força, eles expressavam carinho, devoção.

--Cansada, amor? --ouvi a voz rouca perguntar com um sorriso contido nos lábios.

Amor. Uma palavra, quatro letrinhas e um efeito devastador no meu pobre coração.

--O que você acha? --perguntei com um tom obvio, porém encantada.

Ela sorriu mostrando aqueles dentes branquinhos e perfeitamente alinhados, me fazendo sorrir também.

--Minha bunda está ardendo, caso queira saber. --falei fingindo irritação.

Ela deu uma risada ainda maior me mostrando aquelas covinhas fofas.

--A minha mão também, caso queira saber...

Revirei os olhos. E ela me roubou um beijo terno enquanto acariciava minhas bochechas. Enterrei meu rosto na curva do seu pescoço e aspirei seu perfume doce.

--Eu senti sua falta. --confessei timidamente sem olha-la.

Ela sorriu.

--Tu me manques.

--Como? --a encarei confusa.

--Sabia que na França, as pessoas não dizem eu senti falta de você. As pessoas dizem ''tu me manques''. Significa algo como você está faltando em mim. E eu amo isso por isso que eu disse, é como se você fosse uma parte de mim, essencial para mim, é como uma parte de mim, meu sangue. Eu não seria a mesma sem você.

Olhava encantada para Letícia, sentindo meu coração descompassado e as borboletas invadirem meu estômago.

Beijei Letícia, como nunca antes havia beijado, havia naquele beijo mais do que paixão, havia amor, carinho, sentimentos até então inconfessáveis mas que ficavam latentes em cada gesto. Bastavam pequenas palavras atingir em cheio meu coração me dando a certeza que ela também fazia parte de mim. Mais do que eu poderia imaginar.

 

***

 

Soneto 116

De almas sinceras a união sincera

Nada há que impeça:

amor não é amor

Se quando encontra obstáculos se altera,

Ou se vacila ao mínimo temor.

Amor é um marco eterno, dominante,

Que encara a tempestade com bravura;

É astro que norteia a vela errante,

Cujo valor se ignora, lá na altura.

Amor não teme o tempo, muito embora

Seu alfange não poupe a mocidade;

Amor não se transforma de hora em hora,

Antes se afirma para a eternidade.

Se isso é falso, e que é falso alguém provou,

Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.

 

William Shakespeare

Capítulo 23 por JuliaR

Olhava encantada para Letícia, sentindo meu coração descompassado e as borboletas invadirem meu estômago. Beijei Letícia, como nunca antes havia beijado, havia naquele beijo mais do que paixão, havia amor, carinho, sentimentos até então inconfessáveis mas que ficavam latentes em cada gesto. Bastavam pequenas palavras atingir em cheio meu coração me dando a certeza que ela também fazia parte de mim. Mais do que eu poderia imaginar.

 
***

Ela fez menção de levantar da cama, mas não deixei a puxando pelos ombro de volta para mim, sentindo meus olhos lacrimejarem, enquanto Letícia me olhava preocupada.

 

 --O que houve? Por que está chorando? --falou enxugando o canto dos meus olhos. Fiquei em silencio fitando a mulher a minha frente ainda sob o torpor do que ela havia dito --Você está me preocupando, Alice. Por que esta triste? --acariciei seu rosto aflito.

 

 --Não é de tristeza, acredite.

 --O que foi então? Ameacei falar, mas as palavras não saiam, havia em mim uma batalha interna, razão e emoção conflitavam, como se minha vida dependesse daquilo, meus lábios trêmulos confessaram. --Eu quero mais, Letícia...  

Minha voz saiu como num cochicho, relutante a uma revelação, mas que pelas feições confusas dela, pareceu não entender.

--Mais? -- indagou-me.

 --Nossos momentos são maravilhosos, e toda vez que estamos juntas é como se minha vida ganhasse um verdadeiro sentido, mas eu preciso de  mais. Eu quero tudo. --minha voz embargava enquanto encarava o mar azul revolto que eram seus olhos--  E eu quero tudo, quero seus mumurios sonolentos, quero sua ira, seus ciúmes, suas desculpas, sua tristeza, seu sorriso. Seu passado. Seu futuro.  Eu quero você. Eu quero nós. Eu quero tudo. Com você.  Eu me apaixonei por você.

 

Seus olhos marejaram enquanto ainda encaravam os meus, as orbitas azuis pareciam confusas, embaraçadas, surpresas. Ela realmente não esperava aquilo.

 

 --Alice...--sua voz cautelosa soou no ambiente, mas eu a calei com os dedos, sentindo a maciez dos lábios.

 

 --Shii, não fala nada. Eu só quero que você saiba, o que a muito eu sentia mas não tive coragem o suficiente, apenas me diga que vai pensar sobre, amor. --falei com um olhar suplicante. Ela sorriu triste, envergonhada, enquanto apertava firmemente os dedos das mãos parecendo digerir minhas palavras.

--Eu preciso de um tempo...

--Não! Não Letícia, não precisamos terminar com isso eu só quis...

 --Calma --falou sorrindo acariciando meu queixo--Não é desse tempo que estou me referindo. --Ah- suspirei aliviada. --Eu preciso de um tempo para resolver as coisas, talvez seja um pouco mais complicado, mas preciso que você me espere, Alice. --me olhou séria --Preciso que você confie em mim, você confia?

 

--Confio. --falei imediatamente.

 --Linda! --Falar nisso, tenho uma coisinha para você. Me sentei na cama e ela fez o mesmo, enquanto abria a gaveta do criado mudo retirando um pequeno embrulho.

 

 --Digamos que já havia comprado a um tempo, deveria inclusive ter lhe dado antes, mas como você parecia tão irada semana passada, acabei não entregando.

 

--Eu, irada?  Talvez tivesse meus motivos, não é? E não pense que eu esqueci da Clarinha, nós ainda conversaremos a respei...

 Calei sua boca com mais um beijo enquanto lhe estendia o presente.

 

--Abra. --disse. Ela me olhou desconfiada enquanto tirava o laço para retirar o embrulho.

 

Olhou para a caixinha com um sorriso convencido nos lábios ao ver que se tratava de um anel.

 

 --Está me pedindo em casamento? --sorriu zombeteira. --Até queria, mas tecnicamente você está com meu...

--Não diga--interrompeu meus lábios com o indicador. Era um anel de ouro branco delicado, fino com pequenos diamantes cravejados. --Que lindo, amor. --falou emocionada me puxando para um beijo. --Combinou com você. --disse beijando-lhe a mão. --Agora tenho que ir, meu amor. 

 

Levantou  e vestiu-se enquanto a olhava com admiração, antes de sair pela porta jogou beijinhos no ar me deixando com um sorriso patético no rosto.

 

Não saberia descrever meu estado de espirito naquele momento, passei do completo desânimo para um entusiasmo sem tamanho, Letícia era assim, capaz de me levar do inferno ao céu em um estalar de dedos.

 

Qualquer mágoa que eu pudesse sentir, tinha se degradado entre os lençóis da minha cama, que ainda carregavam o cheiro divino dela. E aqui estava eu, deitada sobre a cama fitando o teto, com o coração ainda sob o topor dos acontecimentos de minutos antes, era incrível que mesmo depois de tê-la visto sair ainda sentia um frio na barriga, essa sensação que me acompanhava desde que havia conhecido. Suas palavras doces feito mel ainda ecoavam no meu ouvido, deixando um sorrisinho abobalhado aparecer no meu rosto.

 

Eu queria Letícia, ao mesmo tempo que a queria mais, apesar de todo medo e receio que ainda havia dentro de mim, a cada dia mantinha mais forte a certeza de que não me contentaria com o que tínhamos. Definitivamente queria mais. Infinitamente mais. Eu iria esperar o tempo que fosse. Queria que nossos momentos se multiplicassem, que os beijos virassem rotina, que paixão tórrida de horas atrás se repetisse incontáveis vezes. 

 

 Não quero dividi-la, a queria só para mim e esperaria que o meu amor bastasse a ela, queria poder mostra-la que eu tenho condições de manter um relacionamento maduro. Eu poderia oferecer mais do que ela imaginaria, eu me esforçaria para dar sempre o melhor. Afinal me perguntava o que Antoni dava a ela que eu não pudesse oferecer?  Hoje haveria uma grande festa em minha casa, minha mãe comemoraria o sucesso da sua nova coleção, não era muito afeita a esses eventos mas deveria comparecer impecável como sempre, não podia me furtar de comparecer, isso significava muito para ela, não poderia inventar uma desculpa qualquer.

 

Ela já havia escolhido meu vestido a dedo, não importa a idade que eu tinha, minha mãe ainda insistia em escolher o que eu vestiria nessas ocasiões. A festa seria de máscaras bem no estilo Veneziano, já me preparava para algo bem extravagante como eram as festas organizadas pela minha mãe e estava prevista para começar as 22 horas, do meu quarto ouvia barulho de pessoas caminhando pelos corredores, móveis se arrastando, musica ressoando no ambiente, e isso tudo parecia me deixar ainda mais nervosa.

 

Olhei o relógio e já se passavam das 21 horas, mas não liguei, apesar de minha mãe ter alertado que deveria ser pontual, os convidados mais importantes sempre atrasavam e eu queria postergar o máximo minha aparição. Ouvi batidas na minha porta e meu coração acelerou de imediato.

 

Droga, não podia ser ela.

 

--Quem é? --Sua mãe! Já está pronta? São 9 horas, os convidados já estão chegando.

 

--Estou quase--falei sem abrir a porta, pois se me visse saberia que estava mentindo, nem sequer tinha começado a me preparar.

 

--Abra a porta.

 

--Mãe...

 

 --Abra já esta porta, Alice.

 

Abri com um sorriso amarelo no rosto, usava apenas uma blusa surrada da minha banda favorita e uma calcinha, para o susto da minha mãe que estava vestida impecavelmente e me olhava com olhos arregalados.

 

 --Quase pronta?! Você mais parece uma mendiga com essa roupa!

 

 --Mãe! –censurei

 

 --Meia hora, Alice. Você tem meia hora para vestir algo decente e descer as escadas. Ouviu bem? 

 

--Ok, mãe desculpe. Você está linda.

 

--Eu sei. --saiu andando elegantemente enquanto eu revirava os olhos.

 

Meia hora, como conseguir se arrumar para uma festa daquele porte em meia hora? Separei o vestido , que havia sido escolhido a dedo por minha mãe. Tomei o banho mais rápido da minha vida. Fiz uma maquiagem mais pesada me vesti e amarrei o cabelo em um coque frouxo que me pareceu razoável após a quarta tentativa. Me perfumei e calcei um sapato preto bastante alto que combinava com a cor do vestido. Por ultimo a mascara.

 

 

 Desci as escadas e do alto vi o salão cheio, respirei fundo e continuei andando com a mão puxando o vestido longo para não pisa-lo enquanto descia os degraus vendo o tumulto que estava na sala, garçons iam e vinham, enquanto os convidados se aglomeravam em rodas de conversa, centenas de pessoas ali, mas meus olhos buscavam apenas uma pessoa.  Não tardei a encontrar. Ela conseguia se destacar até entre milhares.  Divina como sempre, Letícia trajava um vestido verde longo alinhado ao corpo, nua nas costas dando uma mostra da bela tatuagem que carregava. Meu Deus, deveria ser crime alguém ser tão linda assim.

 

 Seu cabelo loiro preso em um coque elegante deixando apenas mechas propositalmente expostas na frente dando um visual despojado, enquanto uma mascara branca se punha no alto da cabeça.  A sequei tanto com meu olhar, que mal percebi que ao seu lado estava minha mãe, fui em direção a elas, após parar para cumprimentar algumas pessoas, no meio do caminho o olhar de Letícia cruzou-se com o meu, chamando atenção de minha mãe que também me olhava com um sorriso.

 

--Olha como está linda! --mamãe disse efusiva enquanto me aproximava dela.

 

 --Uma verdadeira princesa. --Letícia falou enquanto punha a taça nos lábios ofuscando o sorriso discreto que seus labios carregavam.

 

--Boa noite. Vocês que estão lindas. --falei sentindo minhas bochechas corarem. Os convidados passavam por minha mãe e aproveitavam para conversar sobre a festa, enquanto eu e Letícia continuávamos alheias a tudo que não fosse nossa troca de olhares.

 

 --Alice, você poderia me acompanhar até o quarto, preciso retocar o batom e o toalhete está cheio. Franzi o cenho estranhando já que seus lábios estavam perfeitamente pintados, mas logo senti pelo seu sorriso malicioso suas verdadeiras intenções.

 

 Subimos as escadas novamente, dessa vez sentia a mão quente de Letícia segurar minha cintura enquanto subia os degraus, causando arrepio por todo corpo. Adentramos no meu quarto e logo apos vi Letícia trancar a porta com pressa.

 

 Segurou meu rosto com as duas mãos enquanto me empurrava para a parede, e via em seu olhar o desejo latente. O olhar. Desejo. E finalmente, o beijo.  Sentia os lábios dela pressionando os meus, no que se iniciava o beijo calmo, logo ficou mais urgente, buscava o seu corpo com as mãos até enlaçar seu pescoço, enquanto Letícia me puxava para si como se pudesse fundir nossos corpos em um só, me abraçando com força. Gemi em satisfação, e parece ter sido o sinal que ela precisava para mergulhar a língua em minha boca, pausou o beijo afoito apenas para buscar meu pescoço com os lábios e lamber me causando arrepios enquanto ela continuava explorando meus ombros, colo, até onde o vestido permitia. 

 

--Faz ideia do quão linda você está? --perguntou com a voz abafada enquanto beijava minha orelha. Sorri e puxei seu rosto para um beijo dessa vez mais calmo.

 

 --Você que está perfeita. Como sempre. Ela sorriu mostrando as covinhas deliciosas.

 

--Faz apenas algumas horas que nos vimos e já estou morrendo de saudades. Como isso é possível? Sorri encantada e beijei seu queixo.

 

 --Quero fugir com você daqui. O que acha? 

 

 --Fugir? Para onde?

 

--Deixo você escolher. Não quero ficar nessa festa chata, quero ficar apenas com você, baby --falou acariciando minha bochecha.

 

--Eu também, amor. 

 

--Amor? Eu sou seu amor agora? --Letícia arqueou as sobrancelhas.

 

Sorri contornando seu nariz com meu dedo indicador.

 

--Desde a primeira vez que vi você. 

 

 --Awn, que lindinha. Assim não vou deixar você sair desse quarto tão cedo. --Me deu outro selinho.

 

--Me prenda aqui, eu adoraria. --falei sincera.

 

 --Vou prender você em uma redoma de vidro.

 

 --É melhor irmos, mamãe pode desconfiar da nossa demora.

  Letícia fez um biquinho lindo parecendo uma criança birrenta.

 

 --Mas eu não quero me separar de você. --me arrancou mais um beijo.

 

 --Mas nós temos que ir, prometo que no final da festa dou um jeito de vê-la.

 

--Promete?

 

 --Prometo. 

 

 --Ok. Agora eu realmente preciso retocar o batom, você também.

 

Fomos para o banheiro e logo após terminarmos resolvemos sair separadamente para evitar desconfianças. Letícia foi primeiro enquanto eu aguardava alguns segundos para sair.

 

Desci mais uma vez e logo vi minha mãe me chamando ao jardim perfeitamente decorado,  fui apresentada a alguns convidados, dessa vez Antoni também estava presente, segurando possessivamente a cintura de Letícia que parecia desconfortável ao me ver.

 

Tentei ignorar a cena, apesar da irritação que senti ao vê-los. Era só uma questão de tempo, logo a teria somente para mim. Conversamos animadamente até ouvirmos um burburinho na entrada da casa.

 

Fechei os olhos com força avistando de longe quem se aproximava.

 

Não, aquilo não poderia estar acontecendo. Definitivamente não!

 

Não, Meu Deus.

 

Dra. Victória se aproximava sendo acompanhada por Dr.Otávio, vestidos impecavelmente caminhavam em nossa direção enquanto eram cumprimentados por grande parte dos presentes.

 

Tentei fugir antes que ela me visse, porém o braço firme da minha mãe não me permitiu.

 

--Alice, onde pensa que vai? Preciso te apresentar uma pessoa.--minha mãe disse sorridente enquanto avistava meus patrões.

 

 --Eu preciso ir no banheiro, mãe. É urgente. --sussurrei no seu ouvido apressadamente uma desculpa qualquer. Mas era tarde demais.

 

Ela havia me visto, de longe seu olhar prepotente me fitava. Agora só poderia pedir aos céus que ela não reconhecesse Letícia.  Pedir que aquelas malditas câmeras não captassem seu rosto com tanta exatidão.

 

Aproximaram-se com passos lentos de nós, e a cada passo dela parecia me levar para a forca. 

 

--Que honra recebe-los aqui! Otávio, como vai? -- Minha mãe o cumprimentou beijando-o no rosto enquanto eu praticamente me escondia atrás dela, como um bichinho acuado, tentando olhar para todo o canto que não fosse para ela, até o casal de tios parecia mais suportável de ver.

 

--Ótimo, Liza. E você, cada vez mais bonita. 

 

--Gentileza sua. --mamãe deu um tapinha no ar desdenhando.

 

--E Victória, quanto tempo! Seja bem vinda!--cumprimentou-a igualmente.

 

 

 Inferno. Ainda por cima minha mãe a conhecia

 

Aquela era uma boa hora para perder os sentidos. 

 

 --É sempre bom estar de volta, Liza.--fixou seu olhar gélido sobre mim e eu logo encarei o chão após cumprimentar Dr.Otávio.

 

 --Deixe-me apresentar minha filha. Alice, essa é Dra. Victória.

 

  --Nós já nos conhecemos, trabalhamos juntas no escritório, não é Alice? --Disse com uma voz irônica estendendo a mão para me dar um aperto leve.

 

--Sim, é um prazer tê-la em nossa casa, Doutora. --devolvi o aperto me surpreendendo por não ter falhado a voz tamanho nervosismo.

 

--Ó, você não tinha me contado, filha! Eu realmente não sabia, mas é uma grande oportunidade, você sempre admirou tanto o trabalho dela. Alice é uma grande fã sua, tem todos os seus livros, não é mesmo?-- Indagou toda orgulhosa, fazendo minha vergonha se multiplicar.

 

--Sim. --Ah, deixe-me apresentar meu irmão, Antoni. E sua namorada Letícia.

 

 Victoria cumprimentou-os e talvez se não tivesse tão próxima dela não teria notado seu breve arquear de sobrancelhas denotando surpresa.

 

Para logo depois lançar sobre mim um olhar inquisitivo.

 

Ela a havia reconhecido. Que droga.

 

Mantivemos-nos na roda, dessa vez Antoni saiu, enquanto nos dirigimos a mesa eu, Letícia, Mamãe, Victoria e Otávio.

 

Uma musica instrumental soava no ambiente, vindo do pequeno palco com alguns músicos que tocavam grandes sucessos. Ainda bem que estava sentada, minhas pernas já estavam bambas de tanta emoção. O conversa era agradável rondava sobre temas diversos, como politica, negócios, viagens.

 

Vez ou outra Victória olhava para mim e logo depois para Letícia, como se não pudesse acreditar, como se sua mente não achasse possível que aquilo fosse real. Ela estava em frente a nós duas, numa posição estratégica para visualizar minha vergonha. Eu só queria que aquela noite terminasse de uma vez. Era pedir muito.

 

Meus pensamentos foram interrompidos com o barulho do ruído do microfone, atingindo meus tímpanos em cheio, para logo depois a voz de Antoni soar alto no ambiente. Não saberia dizer quais dos dois sons era mais desagradável.

 

--Boa noite a todos!  Todos os convidados pararam o que estavam fazendo para olhar em direção ao palco. E eu me perguntava o que ele aprontaria. --Todos devem estar se perguntando, o porque d'eu estar aqui em cima, interrompendo o concerto. 

 

 Claro, seu imbecil.

 

Revirei os olhos depois de ver Letícia com uma expressão de estranhamento no rosto.

--Não se preocupem, logo a banda estará de volta. Hoje é um dia muito especial para mim --senti Letícia suspirar pesadamente ao meu lado enquanto seu rosto se empalideceu, enquanto a voz estridente continuou. --Hoje faz exatamente sete anos que conheci uma pessoa capaz de mudar minha vida, para melhor é claro.  

 

Sete anos? Mas Letícia só o conheceu a quatro anos, segundo ela mesma havia me dito.

 

--E desde então eu descobri o significado do amor. E como diz o grande escritor: Amar não é olhar juntos na mesma direção. Amar  é olhar um para o outro.

 

É o contrário, idiota.

 

 --Então eu queria chamar para subir no palco, a mulher responsável por fazer de mim diariamente o homem mais feliz do mundo. Letícia, sobe aqui! 

 

Olhei-a incrédula para o meu lado esperando uma explicação, mas  ela levantou-se tão rápido que mal havia tempo de vê-la e ela ja estava no palco.

 

--Bom, então dizem que todos os casais tem a crise dos sete anos, e talvez esse ano não tenha sido fácil para nós dois, mas contrariando todas as regras...  Ele ajoelhou-se enquanto uma Letícia completamente abalada se mantinha inerte ainda pude vê-la sibilar um ''levante-se'' em sua direção, mas ele continuou no chão. ...hoje eu te peço: Quer casar comigo? 

 

 Ela olhou em minha direção suplicante, como se houvesse um pedido de desculpas em seu olhar. Mas ignorei fechando meus olhos com força, parecia ter sido arremessada em outra dimensão. Tudo que ouvia eram palmas e burburinhos distantes, eu não queria olha-la, mas havia esperança dentro de mim, de que ela negasse. Nunca um não foi tão desejado como aquele.

 

--Eu aceito.  Ouvi sua voz e só então abri os olhos para olha-la do palco, mas ela covardemente não se atreveu a olhar-me.

 

Aquilo era demais para mim. Aquilo era mais do que eu pude suportar.  

 

E como você sabe que demais é demais?

 

 Era tarde demais. Eram Informação demais.

 

 Eram mentiras demais.

 

Mágoas demais.

 

 

 É quando tudo passou a ser demais para aguentar. 

 

***
Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande. Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo. É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos. Nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de ações e reações, de expectativas e frustrações. 

 

Martha Medeiros 

Capítulo 24 por JuliaR

Sinto passos lentos se aproximarem de mim por trás, enquanto estava ali sentada sozinha no meu esconderijo secreto, o lugar que tantas vezes me acolheu nas minhas angustias infantis e que agora servia de refúgio da dor que senti. Nas minhas mãos uma garrafa de vodca me fazia companhia, enquanto grossas lágrimas desciam sob meu rosto avermelhado.

Era Victória, saberia reconhecer aquele cheiro a milhas, não me atrevi olha-la, estava me sentindo tão envergonhada em sua presença, como se não bastasse tudo que ela havia visto em seu escritório, agora ela estava ciente de com quem realmente estava envolvida. 

Esperei que ela dissesse algo, alguma critica, um sermão sobre moral, ética, um comentário vil, esperava até mesmo uma demissão.

Mas ela nada disse.

Apenas sentou-se ao meu lado, na outra extremidade do banco, mantinha-se silenciosa, discreta e distante, me atrevi a olhar de soslaio e vislumbrei seu perfil altivo olhando para frente, na mesma direção que eu antes olhava. Não precisei o tempo em que ficamos ali, sem nada dizer. Eu me calava por embaraço, ela eu não saberia dizer. 

--A senhora deve estar me achando tão suja depois do que presenciou--falei em voz baixa, mas seu semblante permanecia imóvel --eu mesma tenho me sentido assim por um tempo, acredite. Já não bastava o embaraço de ter agido de forma tão indecorosa no escritório, ainda por cima descobre que eu vivo em um caso tão condenável.

Permaneceu calada, apenas ouvia o barulho da brisa e de longe a melodia que era tocada. Ela se moveu apenas para retirar da bolsa um maço de cigarros e colocar na boca bem desenhada, para logo em seguida acende-lo. Aproveitei para tomar um grande gole do liquido, sentindo minha garganta arder, mas me encorajando a seguir.

--Sei que não estou em condições de pedir nada, você já me salvou uma vez, mas se fosse possível gostaria que se mantivesse discreta sobre isso,  não suportaria que  minha mãe soubesse de algo tão vergonhoso assim, acontecendo sobre o seu teto.

Ela apenas balançou a cabeça afirmativamente enquanto soltava entre os lábios uma fumaça que cheirava a menta.

--Eu estou me sentindo tão tola, inconsequente, tão desprezível. Uma verdadeira depravada por minhas atitudes nos últimos meses que eu não posso sequer convence-la de que não sou uma pessoa má como você deve está pensando agora.

--Não penso isso. --só então ouvi sua voz, e a olhei com desconfiança sem acreditar realmente o no que ela diz.

Seus olhos frios então se focaram em mim pela primeira vez enquanto ela continuou.

--Bom, tola e inconsequente sim, talvez um pouco imatura e tola,  no entanto discordo do resto. 

--Como pode discordar? Eu sou tão repugnante. 

--Eu sei ler as pessoas, Alice. Alguns chamam de aptidões, habilidades, até mesmo dom. O fato é que dificilmente me engano --fez uma pausa para tragar--Isso me ajudou sempre, e aperfeiçoo a cada dia usando isso em meus trabalho. O fato é que não preciso olha-la mais de uma vez para saber que você não tem tanta culpa como pensa. Acredite.

--Como assim? --cerrei os olhos a encarando cheia de incerteza.

--Que não é do seu feitio agir assim,  que tentou resistir bravamente as investidas, que sabe quão condenáveis suas atitudes eram, e o quão errado moralmente é se envolver com alguém comprometida, mas que isso tudo passou a não fazer tanto sentindo quando se envolveu emocionalmente mais do que deveria, deixando suas convicções de lado e resolvendo optar pelo que seu coração ditou, achando que viveria um conto de fadas, mas agora está aí se despedançando por constatar uma coisa que já sabia ao muito tempo mas se recusava a admitir: Ela nunca foi sua.

Meu queixo quase caiu no chão, ela descreveu em algumas frases o que vivi em meses inteiros, e falou com tanta propriedade sobre minha realidade que nem eu mesmo poderia. Senti lagrimas caírem enquanto amparava as mãos em meu rosto em desespero. Devo ter permanecido longos minutos assim.

--Está doendo tanto. Tanto. --falei com a voz embargada pelo choro, retirando as mãos dos olhos para recuperar um pouco de ar.

--Tome --ela estendeu um lenço branco que acabará de tirar da bolsa.

Era mais um incentivo que eu precisava para me desmanchar de lágrimas mais uma vez. Dessa vez so parei quando senti falta de ar.

--Estraguei seu lenço--falei entre soluços olhando o pedaço de pano encharcado de lágrimas.

--Tenho outro aqui. Chore a vontade. --Disse me estendendo outro.

--Tecnicamente você deveria dizer para que eu não chorasse.

--Por quê? --questionou impassível.

--É o que as pessoas costumam dizer quando alguém chora perto delas. Meio que um sentimento de pena, entende? 

--Eu não tenho pena de você e acredito que dores devem ser sentidas. Além do mais dizer ''não chore'' só aumenta a vontade de chorar.

--Psicologia reversa?

--Talvez.

--Você já sofreu por amor? --perguntei enquanto enxugava os cantos dos olhos, dessa vez com lágrimas mais contida.

--Oh sim, tenho até uma história parecida com a sua. 

--Sério? --nem disfarcei o tom de surpresa em minha voz, virando meu corpo todo em sua direção, me sentando sobre minha perna para olha-la melhor.

--Sério. Quando tinha a sua idade tambem me apaixonei por uma mulher mais velha, casada, com dois filhos. Ela também era uma parente distante, tivemos um caso tórrido de amor, e até planejamos fugir para um lugar distante onde pudéssemos viver nossa paixão proibida, no entanto no dia da viajem ela não apareceu,   me deixou para ficar com o marido e formar a família em que tanto sonhou, me deixando sozinha no aeroporto frio a sua espera.

--Meu Deus! Eu sinto muito, de verdade. Tenho certeza que a senhora não merecia isso.--falei com um pesar imensurável na voz enquanto toquei levemente sua mão como uma forma de lhe trespassar um pouco de alento.

--É mentira. Acabei de criar essa historinha, uma forma para que você não se sentisse tão mal. --falou com os lábios pouco arqueados no que deveria ser um sorriso, enquanto seu olhar travesso me olhava.

--Não acredito nisso! --falei dessa vez sem me conter e dando um risinho triste--Já estava ficando com dó da senhora.

--Para ser sincera, há algumas verdades nisso, mas a parte do aeroporto só foi para dar uma atmosfera poética na história. Mas olhe pelo lado bom, você parou de chorar por alguns minutos.

Eu sorri ainda mais. 

--Caso pense em mudar de carreira, ser uma romancista não seria má ideia. 

Ouvi um som que deveria ser de uma risada nasal. Ela nunca sorria, não abertamente, nunca tinha visto seus dentes, mas apesar disso era interessante constatar que ela tinha um bom senso de humor, embora não sorrisse.

--Já está tarde, devo ir. Você ficará em segurança? --falou olhando o relógio delicado sobre o pulso e depois me fitando.

--Não.

--Não? --questionou.

--Eu nem sei com que cara vou entrar em casa hoje, estou me sentindo horrível.

Ela me olhou de soslaio.

--Quem mais sabe disso?

--Além de você? Ninguém.

Ela jogou o cigarro fora e pisou com a ponta do salto.

--A senhora já fez muito, eu sei que estou pedindo demais. Mas você poderia me levar com você, apenas hoje? --olhei quase implorando-a.

--Você sabe que eu não posso fazer isso.

--Ok. Mesmo assim, obrigada por ter me feito companhia. Boa noite. --falei tristemente apoiando o queixo sobre a mão.

Ela levantou-se parecendo relutante e pensativa. E só então reparei no quão linda ela estava, o vestido preto longo com uma fenda sobre a perna ornava perfeitamente com seus olhos escuros e brilhantes. 

--Boa noite. 

Saiu pelo jardin com passos silenciosos, enquanto eu amargava a idéia de ter que voltar para casa. Eu deveria ser muito idiota, achar que Victória me levaria para sua casa, eu sequer deveria ter cogitado essa possibilidade absurda. Só me restava acabar com aquele resto de bebida e inutilmente achar que isso solucionava meus problemas.

Ouvi passos de volta próximos a mim e uma voz impaciente soou.

--Que droga, garota. Vamos logo antes que eu mude de ideia.

Dei um risinho sem graça e me levantei o mais rápido que pude, ela havia voltado e iria me levar para a casa dela, qualquer lugar era melhor que minha casa nesse momento, agradeci aos céus por isso.

Caminhava ao seu lado ainda carregando minha garrafinha, a guiei pelo caminho mais vazio pelos fundos, naquele percurso haviam pouquíssimos convidados, ela fez um sinal com a mão e logo quatro brutamontes que pareciam ser seguranças dela nos alcançaram. Estávamos quase no portão de saída quando ouvi alguém chama-la.

--Victória. -- 

uma voz baixa e trêmula me vez virar o rosto, era uma mulher linda, parecia ser jovem, um pouco mais velha que eu, tinha cabelos loiros e ondulados e um olhar tão triste quanto o que eu carregava. Senti Victória retesar o corpo e ir em direção a ela.

Elas conversaram um pouco afastadas, deixando minha educação de lado tentei ouvir a conversa sem sucesso, mas a cena era intrigante, o semblante da menina era de suplicio como se houvesse um pedido velado em seu olhar, e a forma com que ela a olhava parecia uma espécie de veneração, vez ou outra ela também olhava para mim analiticamente, parecia incomodada com minha presença. Ela carregava no pescoço uma gargantilha de ouro com pedras cravejadas, parecia apertado mas ainda assim lindo.

Já Victoria se mantinha impassível apenas sibilando uma ou outra palavra, sem gesticular. Logo encerrou a conversa de maneira brusca se retirando e vindo em minha direção.

--Vamos.

 Apenas disse e eu acompanhei junto com os seguranças, o trajeto foi feito em silencio, até que chegamos ao seu carro preto, um dos mais modernos que já vi, enquanto outros dois carros maiores eram estacionado atras. 

--Entre. 

Abri a porta do carona e entrei no carro, se por fora era impactante por dentro aquilo parecia mais uma nave espacial, era imponente como tudo daquela mulher. 

--Você ainda está bebendo isso, criatura?  --olhou de forma reprovadora para minha garrafa enquanto dava partida no carro.

--Desculpe. --falei guardando a bebida.

Pela primeira vez estava me sentindo desconfortável com ela, que parecia de repente ter ficado mais ranzinza, sabe-se lá o porque, mas tenho a impressão que foi por causa daquela garota. Via das dúvidas fiquei em silencio, para não irrita-la, afinal ela já estava fazendo muito por mim.

O som do carro começou a soar automaticamente, numa musica que eu conhecia bem, mas me recusava a acreditar que realmente estava tocando naquele carro. Franzi o cenho tentando reconhecer e logo então não consegui segurar o riso.

Victória me olhou como se eu fosse retardada.

--O que foi agora? A bebida fez feito?

--Quem imaginaria que a senhora ouvia Demi Lovato. Eu nunca.

Ela olhou muito séria.

--Eu sou fã. Algum problema?

--Sério? -perguntei surpresa.

--Obvio que não. --revirou os olhos. --Mas isso me faz lembrar de não deixar minha filha escolher a playlist. 

Ela esboçou algo que parecia ser um sorriso. E eu acompanhei.

Bom, não sabia que ela tinha filha, e deduzi que ela a amava muito, por ter sorrido quando mencionou ela, algo que raríssimas vezes acontecia. Mas era bom descobrir alguma coisa sobre Victória. 

--Ela deve ter muito orgulho de você. --falei mais para mim, porém alto suficiente para que ela ouvisse.

--Por quê?

--Por quê o que? --falei já embolando a língua pelo efeito da bebida.

--Por quê acha que ela tem orgulho de mim?

--Bom, ela tem como mãe uma das melhores, senão a melhor advogada desse país.

Ela pareceu pensar no que havia dito, mas mantinha-se concentrada na estrada. Pelo retrovisor observava o carro nos seguindo, enquanto a frente o outro nos guiava. 

--É sempre assim? --disse apontando para os carros em que estavam os seguranças.

--A maioria das  vezes.

--Então é verdade o que dizem no escritório?

--Depende. O que dizem?

Relutei em falar, sentindo um nó na garganta. 

--Que você sofre ameaças. 

--Sim.

Fiquei triste por um momento, mas do que eu já estava, deveria ser horrivel ter que viver cercada de seguranças por temer que algo aconteça. No escritório não se falava de outra coisa a não ser as ameaças sofridas com regularidade.

--E você não sente medo?

--A gente se acostumada com o tempo. 

Quem no mundo se acostuma com a ideia de morrer a qualquer momento? Pensei em perguntar, mas desisti.

--Mas você faz ideia de quem seja, para denunciar, comunicar a policia quem sabe...

--Se ela não estivesse envolvida nisso ajudaria sim. Mas caso algo aconteça, há dossiês preparados. Nem morta darei descanso. 

Ela deu uma risadinha irônica.

E como se fosse possível me senti pior ainda, como se uma melancolia me invadisse.

--O que foi?

Ela perguntou me olhando enquanto parávamos no sinal, enquanto eu olhava pela janela.

--O que foi o que?

--Está com essa cara de enterro.

--Eu só não quero que você morra. --falei apreensiva olhando em seus olhos.

Ela me olhou séria.

--Eu não vou morrer, não por esse motivo. Confie em mim.

--Confiar, não sei quando vou poder fazer isso novamente.

A musica mudou de faixa e dessa vez tocava musicas antigas, quando soou a voz rouca de Bonnie Tyler.

--Essa denota bem meus estado de espírito. --falei dando uma risada.

It's a heartache/É uma mágoa

Nothing but a heartache/Nada mais que uma mágoa

Hits you when it's too late/Te pega quanto é tarde demais

Hits you when you're down/Te pega quando você está triste

Cantei desafinadamente, extravasando toda minha emoção e deixando algumas lágrimas solitárias caírem e Victória parecia se divertir muito com aquilo.

--Você tem a voz razoável...

--Ah ta --falei em descrença, falei enxugando meus olhos.

--Estou falando sério. Uma pouco desafinada, mas sua voz é boa.

--Ok.

--Ligue para sua mãe. Ela deve estar preocupada.

Falou assim que entramos no condomínio luxuoso. E eu peguei o celular para mandar uma mensagem rápida dizendo que dormiria na casa de Patrícia. Uma mentira básica que sempre funcionava.

Caminhávamos até o hall de entrada depois de passar pela recepção, eu me concentrava ao máximo nos meus passos, pois sentia minhas pernas cambalearem. Deveria ter pego mais leve com a bebida. 

Entramos no elevador e dessa vez os seguranças não nos acompanharam, Victoria desejou boa noite a eles, que logo se retiraram deixando-me a sós com ela.

Ouvi um som de celular no ambiente, era o dela. Atendeu enquanto a porta do elevador abriu e a segui até a porta do seu apartamento, ela ainda parecia entretida a ouvir o que a outra pessoa dizia enquanto se mantinha monossilábica.

Entramos no seu apartamento, era magnifico por assim dizer, uma decoração clássica, na sala várias janelas de vidro dando a vista perfeita da cidade, enquanto alguns instrumentos ficavam no centro. Ela parecia gostar muito de música. Fiquei meio deslocada quando ela interrompeu a conversa colocando a mão sobre o fone do celular.

--No corredor a direita. Tome banho, há toalha e escova no banheiro. Levo um pijama daqui a pouco para você.

--Ok.

Meio sem jeito andei pelo corredor, havia três portas do lado direito, tentei entrar pela primeira mas estava trancada, fui na segunda porta e consegui abrir.  Era um quarto amplo, com uma cama de casal enorme no centro com cobertores cor de vinho, também havia grandes portas de vidro que davam direto a uma varanda. Havia também uma mesa e uma cadeira de escritório muito modernas no canto. Caminhei em direção a cama para tirar meus saltos e minha roupa. Fui em direção ao banheiro mas acabei espetando meu pé em algo sob o tapete felpudo.

Olhei o objeto, era uma gargantilha, muito parecida com a que a menina da festa usava, só que este era preto, cravejado com pedras vermelhas. O deixei em cima do criado mudo e fui em direção ao banheiro. Tomei um banho rápido e me enxuguei. Abri a porta lentamente colocando a cabeça para fora de modo a verificar se estava só, não queria correr o risco de que Victória me visse só de toalha. 

Ela não estava, mas havia um pijama rosa em cima da cama, havia desenho de ursinhos nele. Um tanto infantil, fui ao banheiro vesti-lo.

Deitei na cama, era tão aconchegante, os lençois de linho pareciam fazer cócegas na minha pele, coloquei a cabeça no travesseiro e analisei o fracasso que havia sido a minha noite, do papel de palhaça que havia feito, me sentia tão ridícula. Era inevitável pensar em Letícia. 

O que ela estaria fazendo agora? 

Deveria estar nos braços do meu tio, comemorando o noivado. Senti meus olhos arderem, havia chorado nessa noite o que não chorei o ano inteiro.

Ouvi o barulho da porta abrindo e olhei Victória entrar com uma xícara fumegante nas mãos. Aproximou-se de mim ainda de pé.

--Noite difícil, não?

--Você não faz ideia...

--Quer comer algo? Tem suco, biscoito, bolo...

--Não obrigada. Se comesse algo provavelmente colocaria para fora logo em seguida.

--Está enjoada?

--Estou destruída.

--Não diga isso. --ela falou ternamente se sentando na cama ao meu lado.

--É assim que eu me sinto. É uma dor tão sufocante que eu fico sem ar sabe? Chega a ser dor física, é pior que quebrar o braço ou prender o dedo na porta. Não sei como explicar, só dói. E muito. Nunca tinha sentido algo parecido antes.

--Sim eu sei. --aconchegando minha cabeça no travesseiro em seu colo.

--Eu queria sumir. Desaparecer. Nunca mais voltar para casa.

--Não seja tola, você não é a única pessoa do mundo que sofre por amor. E seja lá o problema que você tiver, a vida não vai parar para que você conserte.

--Como eu faço para passar logo. Tem cura? 

Perguntei esperançosa a olhando.

--Ah sim, uma remédio lento e doloroso chamado tempo.

Tentei absorver suas palavras enquanto seus dedos macios acariciavam meu cabelo em um carinho discreto, minhas palpebras começaram a pesar anunciando um sono.

--O tempo?

--O amor faz passar o tempo; o tempo faz passar o amor. Agora durma, pedhi mou.

Eu estava com tanto sono que minha curiosidade de saber o significado daquelas ultimas palavras se abrandou. Meus olhos iam fechando gradualmente,  dentro de mim havia uma sensação latente que a muito não sentia.

 Era nos braços de Victória que eu me sentia segura.

 

***

 

Mal de Amor 

 

Toda pena de amor, por mais que doa,

no próprio amor encontra recompensa.

As lágrimas que causa a indiferença,

seca-as depressa uma palavra boa.

 

A mão que fere, o ferro que agrilhoa,

obstáculos não são que amor não vença.

Amor transforma em luz a treva densa.

Por um sorriso amor tudo perdoa.

 

Ai de quem muito amar não sendo amado,

e depois de sofrer tanta amargura,

pela mão que o feriu não for curado.

 

Noutra parte há de em vão buscar ventura.

Fica-lhe o coração despedaçado,

que o mal de amor só nesse amor tem cura.

 

 

 

Anna Amélia Queiroz Carneiro de Mendonça - Mal de Amor

Capítulo 25 por JuliaR

Minha visão era nebulosa e escura, ouvia barulho de sinos enquanto vozes infantis cantavam musicas celestiais, aos poucos tentava me situar em meio a pessoas bem arrumadas caminhando pelo jardim. Onde infernos eu estava? Olhei para mim, eu vestia branco como a maioria das pessoas ali, todos tão sorridentes e falavam tão alto que incomodavam meus ouvidos.
Olhei para cima protegendo os olhos contra os raios solares intensos daquela manha de verão. Senti uma mão puxar a minha enquanto as pessoas pareciam todas irem ao mesmo lugar.
-Vamos filha, não podemos nos atrasar!
Adentramos por uma porta enorme coberta de vidros coloridos que refletiam a luz solar formando um verdadeiro caleidoscópio. Ainda embevecida vi imagens de santos ao meu redor, enormes e imponentes, enquanto o som do coral infantil se tornava mais audível.
-Aqui na frente esta ótimo. --Ouvi minha mãe falar enquanto sentávamos no banco de madeira estofado próximo ao altar
--Estamos em uma igreja? --Indaguei para divertimento de minha mãe.
--Sim, hoje será um grande dia!
Logo a musica foi substituída por uma marcha nupcial, me tirando do devaneio.
--Levante-se querida, a noiva esta vindo! 
Senti meu corpo ser suspenso para cima enquanto olhava ao meu redor pessoas olhando fixamente para a entrada. Atrevi-me a olhar também.
Uma mulher a qual não pude identificar caminhava em minha direção, o véu lhe cobria o rosto, me aguçando a curiosidade. Uma criança as suas costas cuidava da tarefa de segurar a enorme calda do vestido. Sentia meu coração disparar e minhas mãos tremulas com sua aproximação.
Só então vi meu tio em cima do altar, sorrindo, mas ele não sorria para a noiva, ele sorria para mim, em minha direção ao tempo em que ela se aproximava lentamente ele desfez o contato visual comigo apenas para retirar o véu que cobria o rosto da noiva.
Era Leticia.
Ela então olhou para mim com olhos vermelhos e lagrimas escorriam pelo seu rosto bem maquiado, seu rosto esboçava um sorriso triste mas que logo se transformou em uma gargalhada.
Eles riam felizes.
Eles riam de mim.

Acordei em um sobressalto daquele pesadelo bizarro, toquei  a testa úmida respirando aliviado por finalmente ter acordado. Ainda atordoada tentei me localizar, estava no apartamento de Victoria, o relógio marcava 4 da manhã, e minha boca estava seca como e tivesse passado horas no deserto.
Levantei da cama sentindo algumas pontadas na cabeça me fazendo arrepender de ter bebido tanto.
Descalça senti o assoalho frio em contato com meus pés quentes enquanto caminhava em direção a porta. Assim que abri ouvi um som melodioso invadir o ambiente, apesar de soar baixo era possível distinguir com exatidão o instrumento tocado.
Caminhei lentamente pelo corredor inteiramente decorado com pinturas renascentistas enquanto me aproximava do som a cada passo. Antes de entrar na sala avistei-a ainda de longe no meio da ampla sala, de costas a tocar o instrumento.
Deus ela parecia tão concentrada naquilo!

Se pudesse registraria aquele momento com uma fotografia, no entanto tive que me contentar em gravar seu encanto em minha mente.
Não ousei interromper, mesmo minha sede descomunal, preferi ficar ali de longe a observando.
A melodia agora era outra, parecia tão melancólica o que tornava ainda mais bela.
Era invejável sua desenvoltura com o instrumento, seus dedos longos e ágeis tocavam com leveza e segurança as teclas produzindo uma melodia tão sincronizada quanto emocionante. Victoria usava um robe longo e alinhado na cor chumbo que iam ate os pés.
Ela finalizou a musica e senti vontade de aplaudir tamanha perfeição com que ela havia se apresentado.
--Você deveria estar dormindo e não me espionando. --sua voz imponente soou fazendo com que tomasse um susto.
Aproximei meio sem jeito por ter sido descoberta. Sorri sem jeito ficando ao seu lado no piano em pé, enquanto ela se mantinha sentada, não estávamos próximas, mas o suficiente para que visse os detalhes do seu rosto que era iluminado pela luz que vinha da cidade, contratando com o ambiente escuro da sala. Ela estava sem maquiagem, ressaltando a pele pálida do rosto, e os lábios naturalmente vermelhos, era inédito vê-la dessa forma, despojada, natural e pelo menos aparentemente, mais acessível.  
Ela tirou uma taça de cima do instrumento, uma bebida verde que cheirava a hortelã e levou aos lábios ainda sem me olhar.
--Adorei você tocando a musica do Quebra nozes.
Ela franziu o cenho.
-- Tchaikovsky você quis dizer. E sim, é a musica de Quebra Nozes...
--Ah ok. --finalizei amaldiçoando minha ignorância.
--Deveria estar dormindo. –falou sem me olhar.
Seus olhos apesar de frios estavam numa expressão cansada, abatida, as palpebras avermelhadas e olheiras um pouco aparente.
--Eu vim beber agua e acabei ouvindo você tocar. --me justifiquei.
--Esta se sentindo bem?
--Sim, só um pouco de tontura, e dor de cabeça leve, acho que exagerei um pouco na bebida.
--Certamente. Você deveria estar dormindo.
Revirei os olhos
--Não revire os olhos para mim. --falou firme me olhando.
--É que já é a terceira vez que você me manda dormir em menos de 3 minutos. 
--E por que não vai?
--Não quero-- falei enquanto contornava com os dedos as bolinhas estampadas no tecido do meu pijama infantil.—E também não quero ter pesadelos outra vez...
--Bicho papão? Lobisomem? 
Victoria falou com cinismo estampado na voz me fazendo bufar.
--Não revire os olhos.
--Ok, tinha esquecido.
--Mas então. O que sonhou?
Ela perguntou e meu coração se apertou apenas por lembrar.
--Que meus tios se casavam...
Ela arqueou as sobrancelhas e me olhou analiticamente.
--E..? --questionou como se esperasse mais detalhes.
--E eu acordei...
--Não interrompeu o casamento ou fugiu com a noiva como nos filmes? 
--Não, né?
--Que pesadelo bobo.
--Você não faz o tipo que assiste romances. 
--E por que não?! – indagou-me surpresa.
--Não sei...--perguntei já me arrependendo por ter falado aquilo.
--Diga.
--Não sei, mas definitivamente não tem cara de que gosta de romances.
--Eu tenho cara de que gosta de que gênero? --Me questionou atenta.
--Humm, terror daqueles bem torturantes. Suspense talvez. Drama e romance definitivamente não. –falei enquanto fui na cozinha pegar tomar agua e voltei com um copo de leite nas mãos.

--Adoro dramas, em filmes. Mas romances definitivamente são meus preferidos.

--Se essa história se espelhar pelo escritório sua fama de carrasca vai ser comprometida –falei me sentando ao seu lado no banco do piano, mas mantendo uma distancia considerável entre nós.

--Minha fama de carrasca? –falou com surpresa na voz.

--Sim, você tem. Se você pudesse ver o rosto das pessoas quando você passa por elas, e os apelidos que elas te dão.

--Então eu tenho apelidos também?

--Alguns. –falei sorrindo.

--Me dê nomes.

--Víbora, sem coração, Miranda Priestly, dama de ferro e por aí vai...

Olhei para Victoria e ela parecia verdadeiramente abismar-se. Seus olhos arregalavam a cada novo apelido.

--Você também me chama assim?

--Não.

 

Era incrível como Victoria possuía facetas, ela poderia ser fria como o ártico ou ate mesmo rude, mas ela também sabia ser agradável e compreensiva.
Apesar de ainda reconhecer que ela impunha barreiras era inquestionável alguns avanços. Nunca poderia imaginar que a mulher que conheci há semanas atrás poderia estar agora sentada ao meu lado, tendo uma conversa cordial e agradável?! 
--Também lhe chamam de cold eyes, e foi uma amiga minha que pôs esse. -- falei rindo lembrando de Patrícia.
--Cold eyes?! Até meus olhos eles implicam? O que há demais nos meus inofensivos olhos?
--Eles são temidos, mas são lindos ao mesmo tempo. --disse já me arrependendo quando senti seu olhar sobre mim.
--Que bobagem, todo mundo tem olhos escuros. São comuns.

Era impressão minha ou havia um leve rubor em sua face?
--Bom, não pela cor em si –falei tomando um gole de leite--Mas pelo que seu olhar transcende, evidencia. –olhei-a tentando explicar enquanto ela me observava atentamente-- Mesmo que na maioria das vezes eles estejam ocultando algo, em alguns segundos de descuido é possível ver o que eles demonstram.—falei ainda presa no magnetismo do seu olhar.
--E o que eles evidenciam agora, Alice? --Ela falou tão próxima a mim que da pequena distancia entre nossos rostos era possível sentir seu hálito de hortelã, seus olhos que fitavam os meus milimetricamente, e eu estava tão submergida pelo efeito que eles causavam em mim que quase perdi o fôlego quando senti eles descerem em direção aos meus lábios.
Seu olhar era detalhista, ao mesmo tempo em que transcendia um brilho que parecia de desejo, cobiça, vontade. 
Paralisei quando senti seu polegar quente circular lentamente meus labios, fazendo o contorno da minha boca. Inflamando minha pele, deixando meu coracao frenético, enquanto meu olhar via no seu a luxuria. Logo fixei na sua boca quando ela lentamente passou a língua entre os lábios umedecendo-os e me deixando sem ar.

De repente seu olhar ficou frio e inexpressivo outra vez.
--Se sujou de leite. --falou com um sorriso jocoso enquanto mostrava o dedo um pouco melado com o liquido branco que provavelmente havia sujado minha boca sem que eu percebesse.
Respirei fundo, tentando recuperar o ar perdido segundo antes.

Onde diabos eu estava com a cabeça? Será que eu realmente pensei que ela fosse me beijar?

Fiquei ainda paralisada pela hipnose do seu gesto.
--Bom, agora acredito que devemos dormir.
Ela levantou-se com a taca entre os dedos esguios e fechando o piano com a outra mão enquanto ainda observava cada gesto atentamente. Chegava a ser intimidador estar diante de tanta elegância e imponência.
--Você vem? --falou ao me ver na mesma posição.
--Ah sim. --fui rapidamente deixar meu copo na bancada da copa e depois me encaminhei na sua direção.
Era desconcertante comparar nossas vestimentas, sua camisola robe de seda impecável enquanto eu vestia um pijama tosco com bolinhas e ursinhos estampados.
Fomos em direção ao corredor, e ela parou diante do quarto me olhando atentamente.
--Não vai entrar? 
--Vou. --falei adentrando no cômodo e logo a percebendo atrás de mim fechando a porta. Minhas pernas fraquejaram.
--Você também vai ficar aqui?
--Esse é meu quarto, não parece logico?
--Sim... --falei duvidosa.
Fiquei ao lado da cama aguardando sua próxima ação.
--Deite. --sua voz firme e suavizada ordenou.
Arregalei os olhos ao sentir aquele clima de minutos atrás se reinstalar entre nós.
Sentei na enorme cama ainda desconfiada sentindo seu olhar misterioso sobre mim, as luzes estavam apagadas e a única luminosidade vinha da grande janela de vidro que refletia a luz da cidade e da lua.

Ela levava a taca aos lábios vermelhos enquanto me olhava. Deitei meu corpo tenso sentindo meus músculos enrijecerem ao senti-la se aproximar da cama e por o joelho sobre a mesma, dando apoio ao seu corpo.

Prendi a respiração quando senti seu cheiro amadeirado invadir minhas narinas. Victoria me analisou detidamente e logo desviou para as cobertas ao lado do meu corpo. Segurou-as na mão e cobriu lentamente meu corpo ate meu busto e se retirou vagarosamente.
A vi caminhar em direção a poltrona em frente à varanda, ao lado da cama  deixando uma visão privilegiada do seu perfil altivo.

--Bons sonhos, pethi mou. –sua voz rouca soou mais uma vez num sotaque diferente uma expressão que não conhecia.
E observei enquanto ela folheava um livro "Orgulho e Preconceito" de Jane Austin.

Bem, Victoria não mentiu quando disse que era uma romântica.

 

**

Não quero o primeiro beijo:

basta-me

O instante antes do beijo.

 

Quero-me

corpo ante o abismo,

terra no rasgão do sismo.

 

O lábio ardendo

entre tremor e temor,

o escurecer da luz

no desaguar dos corpos:

o amor

não tem depois.

 

Quero o vulcão

que na terra não toca:

o beijo antes de ser boca.

 

 

O Instante Antes do Beijo – Mia Couto

Notas finais:

Bom, como vocês sabem o antigo site foi tirado do ar, e quase perdi a história. Me desesperei mas felizmente dois anjos me ajudaram e conseguiram recuperar, minha eterna gratidão a Déborah Mayane e Tata Bressanini. Dedico esse capitulo a vocês! 

E apesar de transtorno causado por ter quase perdido minha história, e de não concordar com a retirada do ar do site sem aviso prévio as leitoras (isso poderia ter custado minha historia), agradeço a todos que fizeram parte do abcles, por tantos anos de alegria que me proporcionaram. Sou muito grata a você, Dani.

Enfim, espero que minhas antigas leitoras me achem e continuem mantendo contato por aqui.

Muito obrigada pelas idealizadoras do Lettera, vocês são demais!

[email protected]

Capítulo 26 por JuliaR










Acordei sentindo os raios de sol atravessarem pelas cortinas escuras, olhei ao lado e vi o relógio marcar 10 horas. Ja era dia e eu ainda estava na casa da Victoria. Ótimo. Me revirei na cama ainda indecisa se deveria ou não levantar. Na verdade não saberia como reagir a presença dela. Deus, o que o álcool era capaz de fazer. Em sã consciência jamais teria pedido para vir aqui, nem teria me aproximado dela tão intimamente. Afinal ela ainda era minha chefe. Quão ridículo era minha situação nesse momento. Sentei na cama tentando avaliar o que faria, não saberia qual reação dela diante de tudo, sequer saberia como agir. Olhei ao redor, havia uma muda de roupa ainda lacrada depositada em cima da cama.
"Humm interessante" Peguei levando-as comigo ate o banheiro, la haviam toalhas limpas e uma escova de dentes. "Bendito seja Deus!"
Tomei um banho rápido, escovei meus dentes três vezes e fui voltando ao quarto ja vestida. Bom agora não havia como fugir, teria que sair. Abri a porta lentamente ouvindo o barulho o barulho do vento nas cortinas do corredor. O dia havia amanhecido lindo. Menos mal. Fui em discretamente em direção a sala que estava vazia quando ouvi uma voz atrás de mim.

--Bom dia. Dra. Victória lhe aguarda para o café. Me acompanhe. –Disse o homem alto com um sorriso amigável e cabelo impecavelmente penteado para o lado. Despertei do susto e segui-o em direção a outro corredor imenso, depois a uma escada pequena de vidro e madeira em forma de caracol, a cada passo era possível ouvir com mais exatidão a voz de Victoria, que parecia irritada e calma. Quem no mundo falava irritada calmamente? Só ela. Ele abriu a grande porta de correr e quase desfaleci com a vista daquele jardim. Era um jardim japonês singelo, porém deslumbrante, um pedaço da natureza dentre tantos prédios, simplesmente magnifico. A voz exasperada de Victoria fazia coro com o barulho da pequena fonte rodeada de bambus. Ela estava de costas para mim, em sua mão um jornal e na outra o celular, que ela apertava com tanta força que o sangue parecia sumir de seus dedos. Pigarreei chamando sua atenção. Ela não me olhou, e apenas se despediu ao celular de uma forma gélida. Não que eu fosse curiosa, mas aparentemente a discussão era profissional. Ouvi o barulho da porta pela qual havia entrado se fechar e me aproximei da mesa de madeira rustica ao lado oposto onde ela sentava. Ela levantou-se ficando uns dez centímetros mais alta que eu, usava saltos altos e uma calça de corte reto preta e uma blusa de seda cor chumbo, no busto um colar de pedras grandes safira e nos olhos um óculos redondo e escuro.
Foi ao meu lado e puxou uma cadeira para mim, esperando que eu me sentasse. Fiquei alguns segundos paralisada com o gesto e com seu aroma suave e marcante. Me sentei desconfortável como se ouvesse espinhos na cadeira.

--Bom dia. –ela sibilou quase sem mexer os lábios.
--Bom dia. –falei e só então observei a mesa farta em nossa volta.
--Com fome?
--Um pouco.
Senti minha barriga roncar alto, me deixando envergonhada.
--Um pouco?

Baixei minha cabeça e comecei a devorar tudo que via pela frente, não que eu comesse muito, mas passei horas sem uma refeição decente, e aquilo tudo era tão delicioso que não quis resistir. Pão, suco, geleia, queijo, devorei tudo em questão de minutos.
Só então levantei minha cabeça e vi Victoria sorrindo eu diria que foi fofo. Mas quando notou que eu vi, imediatamente parou.

--Satisfeita? –perguntou educadamente
--Sim, obrigada. –falei limpando minha boca com guardanapo.
Ouvi o celular de Victória vibrar e ela curvou-se sobre a cadeira cruzando as pernas confortavelmente enquanto digitava. Devo ter suspirado mentalmente diversas vezes com a cena. Ela demorou alguns minutos dispersa olhando para a tela.

--Então, acho que vou indo. –falei baixinho.
--Para onde?
--Minha casa.
--Eu levo você.
--Não é necessário, eu chamo um taxi rapidinho.
--Eu levo você.
--Vic, realmente não precisa.
--Vic? –Me olhou divertida.
--Sim –falei corando.
--Eu trouxe você, Alice. Eu levo você. Assunto encerrado. Agora vamos.

Levantou-se da cadeira e mais uma vez veio até mim. Saimos do seu apartamento e dois segurancas esperam-a do lado de fora. Não tinha convivido nem 24 horas com eles, mas ja me era incomoda a sensacao de que a qualquer momento algo ruim pudesse acontecer a qualquer instante.Victoria pareceu perceber meu temor e disse com uma voz calma.

--Apenas para a nossa segurança. Relaxe.
Eu assenti enquanto caminhava pelo longo corredor ao seu lado, chegava a ser engracada a diferença de altura entre nos duas causadas pelo salto. 

--Pareco um pigmeu andando ao seu lado. - disse sorrindo.
--Eu sei disso. Mas gosto de me sentir superior.

Meu sorriso cessou e a olhei incrédula.

Chegamos ao seu carro, os segurancas tomaram os assentos da frente, enquanto nos duas sentamos atras. Dentro do carro os bancos eram separados e entre eles havia apenas uma pequena janelinha aberta, onde Victoria disse meu endereco para logo fechar. O carro era espacoso e luxuoso. Se existe uma coisa que Victoria parecia gostar, alem de seguran era o luxo. 


--Se sente melhor sobre ontem? --Victoria perguntou enquanto folheava uma revista de conteudo juridico.
--Não, na verdade eu nem sei como estou. Me sinto estranha, confusa e principalmente idiota. É como se a verdade estivesse diante de mim e eu não visse.
--Amor que não é cego não é amor. 
Sorri triste ao identificar Balzac em suas palavras.
--Nem sei qual vai ser minha reacao quando vê-la. Não sei como será daqui para frente. Não sei sequer nomear o que eu sinto ou seja la o que nos tivemos todo esse tempo.
--Um jogo, eu nomearia assim.
--Um jogo? - a perguntei desviando meu olhar da paisagem no caminho de casa e a olhei. Victoria por sua vez levantou os oculos escuros e os pôs elegantemente no topo da cabeca, me presenteando com seu olhar forte e incisivo.
--Sim. Tudo isso é um jogo. A paixão é um estupido e viciante jogo. Onde agora voce perde miseravelmente. Você tem todos os trunfos, Alice. Possui todas as cartas, mas como uma má jogadora voce as entrega de bandeija. Voce cede, voce tapa os olhos enquanto é trapaceada . Voce nao precisa de boas cartas, voce precisa jogar bem com as que tem. Consegue me entender? É necessario ser ousada para ser uma boa jogadora, é preciso surpreender o oponente quando ele menos espera e tomar o controle. É preciso exercer sobre ele o mesmo fascinio que ela exerce sobre você.
--Mas como devo comecar? --perguntei sem desviar um segundo do seu olhar.
--Primeiro tire esse semblante de Madalena arrependida. Vitimizacao é o comeco do fracasso. Segundo pare de agir como se todo mundo soubesse o que voce faz. E por ultimo erga a cabeça e siga em frente, você é especial Alice, nunca deixe que te façam sentir menos que isso. Agora vá e mostre a ela quen vai ganhar.
Pisquei meus olhos e so então percebi que estavamos em frente a minha casa. Fiquei paralisada sem qualquer reação apenas olhando-a,quando senti a porta ao meu lado ser aberta pelo segurança.
--Tchau Alice. --Victoria disse enquanto voltava a colocar os oculos sobre o rosto e olhava a revista.
Há momentos na vida que algumas palavras por mais simples, rudes e ao mesmo tempo doces como as de Victória poderiam despertar para a realidade, nos fazer enxergar com exatidão onde de fato eu me encontrava em meio aquele calabouço de sentimentos. Como dizia a poeta se somos capazes de despertar com os golpes duros da vida, também despertamos com toques suaves na alma. Palavras. Era disso que eu precisava, da visão de alguem de fora que olhasse toda aquela situação de forma racional e não com os olhos apaixonados como os meus. Agora tudo parecia tão diferente, eu me sentia tola, envergonhada por ter sido tao complacente, por agir tao passivamente ao mesmo tempo que enraizava em mim um sentimento de raiva, frustracao e desejo de vingança.
Entrei pela porta dos fundos, não queria ver ninguém, precisava de um momento só, as palavras de Victória ecoavam na minha mente me deixando ainda mais irritada.
Mas como se o destino estivesse sendo sadico comigo, Leticia apareceu saindo da porta de seu quarto com Antoni, no momento em que atravessava o corredor.  Breves segundos, mas bastante para fazer um campo magnetico se instalar a nossa volta. Foi tão diferente das outras vezes, chegava a ser assustador olhar naquela imensidão azul que em vez de calorosos como de costume pareciam envergonhados. Foi assustador olha-la sem sentimento de admiracao, devocao...amor. Olhei a de cima a baixo, ela ainda usava roupa de dormir, denunciando que acabara de acordar. Tudo que senti foi um sentimento arrebatador de raiva e mágoa. Ela fez menção de falar mas meu olhar a censurou.
Minha raiva era crescente e se tornou quase insuportável quando vi brilhar o anel em seu dedo. Levantei a mão rapidamente intencionando acerta-la com um tapa. Mas e contive ao ver sua pupila dilatando-se ao redor da íris e apenas toquei delicadamente seu cabelo, colocando uma mecha clara para tras da sua orelha a tempo de ver em seu pescoço uma marca caracteristica vermelha sobre a pele palida, que tristemente deduzi ser do meu tio. 
Balancei a cabeca negativamente quase em descredito.

--Bom dia. --sussurrei abrindo a porta do meu quarto e deixando para tras uma Leticia apavorada.
Entrei no quarto sentindo tanta dor e frustracao, mas diferente das outras vezes não chorei, meus olhos estavam secos, e eu me negava a externar qualquer emoção. Os ultimos meses foram os mais intensos e dolorosamente emocionante de toda a minha vida. 

Eu era um barco perdido em um mar revolto tentando retornar inutilmente ao cais. 
Minhas lagrimas deveriam ter secado de tanto que chorei ultimamente. Li uma vez que se você quiser saber se está apaixonado pela pessoa certa, coloque lado a lado na balança, quantos sorrisos e quantas lágrimas ela lhe causou. Eu estava cansada, emocionalmente devastada, mas pela primeira vez em meses eu estava lucida. Olhava Leticia não com o olhar maravilhado. Eu a olhava como ela de fato era. Uma mulher com qualidades inegáveis, mas também incontáveis defeitos. Defeitos que ela cuidadosamente encobriu, e que eu dolorosamente descobri. O encanto havia sido quebrado. Fiquei resoluta no meu quarto, ate que Maria bateu no quarto e avisou que haviam chegado alguns parentes para um singelo jantar em comemoracao ao noivado de Antoni. Quis rir, juro. Eu poderia dizer que estava indisposta e não me sentia bem ou mesmo que estava cansada para cafonices. Mas incrivelmente eu quis ir. Quis ver todo aquele espetaculo, o circo montado. Desci as escadas e cumprimentei todos educadamente, alguns primos e parentes mais proximos. Não haviam mais que 7 pessoas ali, realmente algo singelo. No canto da mesa Leticia estava sentada ao lado de Antoni. Fiz questão de sentar ao lado deles, sorrindo falsa e docemente para os dois. O jantar ocorreu sem maiores acontecimentos, quando tomavamos vinho já ao final ouvi Antoni falar:


--Alice, não te vi ontem depois da festa. Você perdeu a melhor parte! -Antoni falou animado.
--Lamento muito, tio Antoni. Me senti indisposta ontem e nem tive tempo de cumprimenta-lo. Mas se me der licenca tenho algo a dizer sobre o seu noivado.
--Licenca concedida.
Leticia me olhava com olhos arregalados como se implorasse em silencio para que eu nao falasse nada. Ignorei-a lançando-lhe um sorriso zombeteiro e levantei-me da cadeira atraindo a atencao de todos.
--Como disse, não tive tempo de cumprimenta-los antes. Um pequeno imprevisto, mas o importante é que agora estou aqui em meio a essa reunião de familia. Então gostaria de aproveitar a oportunidade para desejar meus mais sinceros e cordiais votos de felicidade aos noivos. Tenho absoluta certeza que serão felizes juntos. Tio Antoni, tive a oportunidade de conhecer há meses atras uma pessoa encantadora, leal, sincera e apaixonante. Leticia sem duvidas é perfeita para você. Vocês com toda certeza do mundo, se merecem. Um brinde aos noivos! -levantei a taca e todos me acompanharam. Um discurso mais falso impossivel, vez ou outra embargava minha voz propositalmente para entonar uma emocao que não senti, mas pareceu ter sido verossimil a avaliar pela cara dos presentes. Eu mesma fiquei surpresa como meu, ate entao encoberto, cinismo. Antoni me puxou para um abraxo frouxo que de tao falso teve direito ate a tapinhas nas costas. Enquanto via pelo canto do olho una Leticia pálida e visivelmente desconcertada, se eu não estivesse tao irritada com ela teria sentido pena. Me desvincilhei de Antoni e fui em sua direcão, ela me olhava amedrontada enquanto sibilava um inaudivel "por favor não".
Ignorei seus apelos e disse em alto e bom som:

--E você, Leticia? Não vai me da um abraço? 
Ela veio em minha direcao como quem vai em direcao a guilhotina. Mal sabe ela que tantas vezes me fez sentir assim com seu jeito atrevido e suas segundas intencoes.
Ali diante de mim não estava a mulher presunçosa e decidida. Leticia parecia um bicho acuado fugindo do seu predador. A abracei propositalmente apertado sentindo seu corpo trêmulo e seu coracao disparado. Sussurrei baixinho com os labios quase grudados em sua orelha.
--Você não presta. Eu te odeio e saiba que isso é só o começo. -sussurrei e logo falei alto para que todos ouvissem--Desejo toda a felicidade do mundo a você. Antoni tem sorte em ter uma mulher como você. Acho que agora posso te chamar oficialmente de tia, nao?
Ela piscou os olhos incredulas e da distancia em que estavamos vi seus olhos umidecerem em questão de segundos.
--Claro que sim--falou com a voz trêmula.
Voltei ao meu assento enquanto o resto dos presentes me cumprimentavam pelo lindo discurso.
Leticia nao me olhava, tudo naquela mesa parecia ser mais interessante que olhar para mim.
--Filha, você saiu com Bernardo ontem? --mamae perguntou distraidamente.
--Não, mãe. Nós terminamos. 

Mamãe me olhou confusa querendo alguma explicação.

--Como assim terminaram? Por que?

--Terminamos desde que descobri.

--Descobriu o que? --olhou-me confusa.

--Desde que descobri ser lésbica. 

O silencio foi total, um daqueles momentos que todos se calam e so sua voz ecoa. 
O único barulho ouvido foi da taça ao chão.
Leticia havia derrubado.

"Não disse que não é amor, definitivamente é, mas eu sei que é efêmero e que o tempo há de mudá-lo como o inverno muda as árvores, e mesmo que eu te amasse com todas as forças do meu corpo nem em cem anos poderia te amar tanto quanto te amei em um único dia. Talvez daqui 100 anos eu ame ainda mais, tanto, que tu já tenha se espalhado de tal forma, sendo impossível de tirar daqui do meu eu mais secreto e íntimo não como um prazer, porque eu não sou um para mim mesma, mas como o meu próprio ser existindo na sombra da tua existência, sendo apenas a metade e não meu todo. Onde não há você, não existe eu, só vazio". Emily Brontë












Capítulo 27 por JuliaR
Todos a minha volta me lanaram um olhar incrdulo enquanto o silncio pairava por toda sala enquanto minha voz parecia ecoar por todo canto. Minha me me olhava com surpresa e descrena, Antoni arqueou as sobrancelhas enquanto os outros convidados alternavam em abrir a boca. Todos me olhavam, menos ela.

Mantinha o cenho franzido e o olhar atento no prato a sua frente. Suas mos estavam rgidas segurando os talheres e seu rosto estava to vermelho que senti medo de que ela pudesse ter um ataque.

Mame pigarreou voltando a ateno de todos a ela.
--Parece-me que no sou a nica surpresa aqui. Mas como havia dito interiormente estamos pensando em inovar nessa prxima coleo...

A conversa recomeou e a ateno antes voltada a minha acabou sendo dissipada. Vez ou outra um olhar mais atento me fitava.

O jantar terminou sem maiores emoes fui em direo ao meu quarto quando uma mo firme tocou meu ombro.
--Me?
--Ns teremos uma conversa muito sria, mocinha. Agora no, minha cabea est to cheia que mal consigo ter uma conversa civilizada. Mas em breve voc me dar explicaes. Boa noite.
Mame carregava um olhar desconfiado e decepcionado em minha direo, apesar de manter um tom de voz neutro. Assento com a cabea, e ela se retirou para seu quarto enquanto entrava no meu.

***

O dia amanheceu e com ele minha ida ao escritrio, confesso que estava um tanto ansiosa aquele dia, pois conforme ouvi das secretarias Victoria voltaria de viagem, ela tinha ido a outro estado resolver questes relacionadas ao escritrio.

Nos no mantivemos contato desde a ltima vez que conversamos e confesso que queria v-la contar sobre o que ocorreu ontem. Ouvir sua opinio, faze-la se orgulhar de mim por estar seguindo seus conselhos.

J era tarde quando estava na sala de Patrcia, ns duas arquivvamos processos enquanto colocvamos os assuntos em dia.
--Soube que a sobrinha neta do Dr.Otvio vem trabalhar aqui. Para tristeza geral.
--Por que diz isso?
--Por que ela a pessoa mais insuportvel barra arrogante barra sonsa que conheo. E olha que nesse meio a competio grande.
--No a conheo.
--Sorte a sua. Sofri anos de bullyng nas mos dela no colegial.
RI sem me conter.
--Falando em arrogncia...
--O que?
--Olha quem vem chegando—disse Patrcia apontando a janela e mostrando o carro de Victoria adentrando o prdio enquanto ela descia elegantemente.
--Achei que ela no viesse hoje. –falei com um sorriso no rosto.
--Voc a nica que fica feliz em v-la nesse prdio, acredite.
--Tenho que peticionar alguns processos, j volto.
--Mas voc no tinha feito isso de manh? –Patricia me olhou desconfiada.
--Sim, mas ainda faltam alguns. J volto.

Nem tive tempo de ouvir a resposta da Patrcia, logo sai apressadamente pelo corredor. Queria encontra-la o mais rpido possvel, contar a ela todas as novidades, saber como tinha sido a viagem, enfim, eu precisava v-la!

Apertei insistentemente o boto do elevador que parecia demorar mais que o normal para abrir. Parece que quanto mais pressa eu tinha, mais demorava.

Droga

De repente vi as portas metlicas a minha frente abrirem lentamente, e pela pequena brecha que se formava j consegui identificar a silhueta conhecida. Suspirei contente e surpresa. No esperava v-la ali.


--Vic! Seja bem vinda de volta!
Ela me olhou indecifrvel e s ento a porta abriu completamente e percebi que havia vrias pessoas com ela.
--Dra. Victoria, senhorita Alice. Dra. Victoria. –falou friamente censurando minha conduta.
O sorriso bobo desmanchou em meus lbios quando ouvi um risinho debochado de uma garota loira ao seu lado. Mal conhecia, mas j odiei.
Dei espao para que todos sassem e Victoria, ou melhor, doutora Victoria passou por mim deixando uma ponta de frustrao e aquele maldito perfume amadeirado que invadia todos os meus sentidos.
Voltei a sala de Patrcia com o rabo entre as pernas. Nada pior que criar espectativas.
--O que houve?
--Nada. –falei me sentando e voltando a fazer o trabalho anterior.
--Alice...
--Srio, Patrcia, no nada.
Me olhou outra vez desconfiada antes de dizer.
--Voc sabe que eu sua amiga no sabe?
--Claro que sei...
--E que voc pode contar comigo seja para o que for, no sabe?
--Eu sei, Patrcia. Eu s ando confusa demais ultimamente, mas nada que voc deve se preocupar. Tudo bem?
--Voc sabe tambm que eu te conheo o suficiente para saber que est mentindo descaradamente. Mas no vou te pressionar, uma hora sei que voc vai desembuchar tudo isso. –piscou de olho pra mim e eu sorri sem graa.
--Obrigada, amiga.


**


Voltei para casa depois de sair do escritrio, confesso que ainda frustrada, mas pelo menos aparentemente me obriguei a parecer bem, no poderia transparecer o que acontecia em meu ntimo. Estava dando bandeira demais, Patrcia mesmo parecia um tanto desconfiada com minhas atitudes, eu teria que ser mais discreta se quisesse manter minhas atitudes em segredo.
Entrei em casa pela porta dos fundos. Quase anoitecendo e eu precisava comer algo antes de ir para a aula, j que havia passado o dia inteiro sem ingerir nada.
Me deparei com Maria e Letcia conversando animadamente, o assunto versava sobre algo relacionado a receitas quando entrei.
--Boa tarde.
--Boa tarde—responderam em unssono, Maria mais animada e Letcia visivelmente desconcertada.
--Vai comer algo ou vai esperar pelo jantar?
--Agora, se for possvel.
Sentei a outra extremidade da mesa, que era pequena mas evitava um contato maior com Letcia.
--Acabei de fazer po caseiro e suco, venha comer com Letcia.
Mfia puxou a cadeira e no pensei em uma desculpa boa suficiente para no obedece-la.
Sentei de frente com uma Letcia completamente constrangida que sequer olhava para mim, fitando a mesa a sua frente.
No meu mago sentia um gostinho de vingana, era uma sensao de poder, de que ela me temia. Querendo ou no Letcia estava em minhas mos.
Era quase inevitvel provoca-la, sua posio de submisso aflorava uma vontade incrvel de confronta-la das mais diversas formas.
--Me passe o adoante?
Ela pareceu temerosa ao legar o objeto e entregar-me com as mos ainda trmulas e sem MS olhar.
--Obrigada, tia.
Percebi sua testa franzir levemente enquanto terminava de beber meu suco. Sai da cozinha mas ainda pude ouvir um suspiro aliviado e audvel dela.
Sorri.


**


Estava procurando uma vaga pelo estacionamento lotado da faculdade, cheio de carros enfileirados que no deixavam qualquer brecha mnima, me questionado como eles conseguiriam sair dali sem bater.
Vislumbrei uma vaga e acelerei, mas para minha derrota um carro chegou primeiro.

Que droga.

Parei o carro pronta para deferir um xingamento no motorista imprudente que quase me fechou s para ter a maldita vaga.
Mas desisti quando vi o rosto sorridente sair do banco do passageiro.
--Ol, ladra de vagas.
Clara gargalhou enquanto levantava as mos em rendio.
--A culpa no foi minha, meu primo que no sabe dirigir direito. –falou se curvando sobre minha janela.
Ela estava linda com uma saia apertada e uma blusa de seda que se moldava perfeitamente ao seu corpo.
--Sei.
--E ento, no vai sair?
--Sair s se for da faculdade.
--Voc no faz o tipo que mata aula...
--Tudo tem sua primeira vez, no? Vem comigo.
--Ta falando srio? –Me olhou confusa e eu revirei os olhos abrindo a porta do passageiro.
--Uau que rebelde voc.
--Nunca duvide disso, mas no conte a minha me.
Disse sorrindo.
--Ok. Onde a senhorita quer ir ento?
--Qualquer lugar, escolhe voc. S quero sair daqui, relaxar um pouco.
--Um lugar para relaxar, acho que sei. Vire a direita. –disse enquanto samos do estacionamento.


**


Clara me levou a um bar distante do centro, um lugar reservado e muito aconchegante, de onde estvamos na sacada dava uma vista privilegiada da cidade.
--No disse que era incrvel?
Conversvamos sobre assuntos aleatrios e conforme bebia o vinho mais risadas nos dvamos, na verdade apenas eu bebia, Clara se mantinha no suco.
--… indito te ver assim...
--Assim? Assim como? –perguntei curiosa.
--Relaxada, solta.
--Quer dizer que normalmente eu sou chata!? -disse num falso tom acusador.
--No disse isso, apenas um pouco travada talvez.
--No gosta de mim quando estou ‘travada’ ento?
--”bvio que no. Acredite em mim, gosto de voc de qualquer jeito.
Ela falou displicente e corou quando percebeu o que disse.
--No me entenda mal eu...
--Eu realmente no entendi mal, relaxe.
--Bom, voc e Bernardo terminaram? Voc sabe, nos corredores da faculdade se fala sobre tudo, impossvel distinguir boatos do que real...
--Nesse caso no boato, estou solteira.
--Lamento...
Clara mentiu. Ela no lamentava coisa nenhuma. Como eu sei disso? O brilho no seu olhar e o simples curvar de seus labios me diziam isso.
--No lamente. Meio que quero aproveitar essa nova fase para experimentar outras coisas.—falei rodeando meu indicador na borda da taa de vinho e fixando meu olhar ao dela.
--Coisas do tipo?—falou olhando a minha boca descaradamente.
--Voc sabe.
--Realmente no sei.
Acariciei os fios claros colocando atrs da sua orelha e aproximei meu rosto.

--Talvez isso te ajude a descobrir.

Bastou isso para sentir seus lbios macios e gulosos sobre os meus.


**
Amar voc
coisa de minutos…
Amar voc coisa de minutos
A morte menos que teu beijo
To bom ser teu que sou
Eu a teus ps derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um co
Uma sombra que te aquece
Um deus que no esquece
Um servo que no diz no
Morto teu pai serei teu irmo
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu servio
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu po tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui
(Paulo Leminski)
Notas finais:

Girls! Como estão? Com saudade de mim espero que sim!

E essa Alice pegadora, vocês gostaram, sim ou não? Prevejo revolta! 

Lembram que eu disse que os papéis iam se inverter? Então!

E essa Victória mais fria que pinguim do Ártico, é de desanimar a torcida teamchefe ;x

Próximo capítulo quem sabe não tenha um hot entre Alice e Letícia...Depende de vocês. Querem ou nao? (Comentem)

Algumas das minhas leitoras são boas o photoshop, queria muito alguém que fizesse uma capa pra uma adaptação dessa história que farei fanfic camren (Camila e Lauren, para quem não conhece cantoras da girl band Fifth Harmony). Enfim, qualquer coisa:

Email: [email protected]

Twitter: juliaribas458

Eu pensei em criar um grupo do whats pras leitoras, o que acham da ideia? :D

Beijos!

Capítulo 28 por JuliaR

Eu e Clara estávamos em frente a minha casa, já tinham se passado das 2h da manhã, após sairmos do bar apenas passamos no estacionamento da faculdade para buscar seu carro, e ela veio seguindo o meu ate minha casa, com a desculpa de que seria mais seguro ir acompanhada mas eu sabia muito bem o que Clara queria.


Eu estava agora encostada em meu carro enquanto Clara me pensava no mesmo me beijando incansavelmente enquanto suas mãos possessivas acariciavam minha cintura. Nossas bocas só desgrudaram quando nossas bocas exalavam sorrisos fáceis. Estávamos um tanto bêbadas.
--Você sabe que eu sempre quis...

--O quê? -falei acariciando sua nuca

.--Ficar com você. Eu mal posso acreditar que isso finalmente está acontecendo.

--Awn. E por que não tentou antes? 

Quem sabe não conseguiria algo? -arqueei as sobrancelhas deixando meus braços entrelaçarem seu pescoço. 

--Você estava com Bernardo e bom, duvido que você seria capaz de trai-lo. Ou estou enganada?Meu riso frouxo se tornou amarelado. Mas concordei.

--Está certa. Mas agora que ficamos nada impede de termos algo casual.Virei o corpo de Clara, e a prensei-a contra a lataria fazendo-a soltar um suspiro exasperado.
De onde estava poderia ver com um pouco de dificuldade a sacada da varanda, que apesar de escura era possível ver a silhueta conhecida escondida entre os arbustos das pequenas palmeiras. Letícia.Isso do me deu mas vontade de continuar o que estava fazendo. Beijei longamente o pescoço delgado, mordendo de leve a pele exposta, arrancando um grunhido de Clara enquanto arranhava sua barriga por baixo da sua roupa.

--Então é isso que eu sou para você? Algo casual. -Clara soltou minhas mãos e me olhou com um olhar acusador. Abri minha boca em surpresa.

--Você entender errado eu so...Fui interrompida por sua risada gostosa.--Sua idiota! Achei que era sério! -Dei um tapa fraco em seu braço.

--Você precisava ver sua cara. Impagável!

---Eu já estava ficando nervosa...

--Eu sei reconhecer meu lugar, Alice. -ela sussurrou baixinho como se me contasse um segredo.-Seu quando alguém quer algo a mais comigo, ou se estou sendo usada para algo...-sua respiração batia em minha orelha causando arrepios.

--Não entendi o que você quis dizer...-fechei os olhos quando Clara puxou meus cabelos e mordeu meu queixo.

--É ela não é? -falou beijando meu maxilar 

--Ela quem? Do que está falando?

--Sua tia. Meu corpo tremeu e minhas pernas ficaram fracas, poderia ter caído se não fossem os braços de Clara me segurando firmemente em seu corpo.

--Mas você tem sorte, Alice. Quando se trata de você, eu não tenho receio nenhum de ser usada. Será um prazer.


**

 

Estava no escritório já, tinha passado a manha e a tarde inteira tentando reunir coragem para adentrar no escritório de Victoria. Ou melhor, Doutora Victoria.


Tinha uma avaliação de estágio que precisava da análise de Victoria. Eu deveria entregar semana passada, mas devido sua viagem não pude, o prazo final e improrrogável era hoje. Antes de Victoria aparecer quem avaliava era Dr. Otávio, sempre dando uma boa nota no meu desempenho, mas agora não tinha a quem recorrer, Victoria era a responsável pelo local, além do mais o peso de uma avaliação positiva de uma das maiores advogadas do países faria maravilhas no meu currículo.


Mas com que cara iria lhe procurar depois do acontecido?


Ainda estava magoada com sua forma rude de me tratar, mas saberia que enquanto estivesse trabalhando diretamente com ela já deveria estar me acostumando.


Posterguei o máximo a ida a sua sala, esperei até o fim do expediente quando o escritório estaria mais vago, não queria interromper com assuntos que não eram de seu interesse. Victoria era uma mulher ocupada não iria perder tempo com uma avaliação acadêmica.


Mas lá estava eu, caminhando em direção a sua sala congelante em passos lentos e desanimados já prevendo um possível coice. Entrei na sala e suspirei aliviada quando a vi completamente vazia, naquele horário geralmente não havia mais clientes.
A mesa de madeira maciça estava vazia, mas o computador estava ligado mostrando o logotipo do escritório, presumi que a secretária logo voltaria.

5 minutos.


10 minutos.


Estranhei a demora e relutante levantei para entrar na sala sem permissão. Abri a porta pequeno corredor que levava a sala, de lá era possível ouvir vozes.

 Encostei meu ouvido na porta para ouvir com mais exatidão.

--e desde quando você tem medo de se arriscar, hein? Não conheci a senhora assim. -uma voz fina e irritante soou.

--Meu local de trabalho.
Era Victoria quem falava agora.

 --E daí? Você não manda nisso tudo? Pode fazer o que quiser.

--Justamente o contrário, tenho que dar exemplo.

--Sabe o que eu acho? Que você precisa relaxar um pouco, e eu sei bem como fazer isso.

--Hoje não. 

As vozes ficaram mais audíveis anunciando a proximidade delas e eu imediatamente sai rapidamente pisando na ponta dos pés e adentrei na sala da secretária que por sorte divina continuava vazio.Minha curiosidade foi maior que o medo e optei por me esconder atrás da estante cheia de livros. Eu estava com a pulga atrás da orelha, precisava ver ate onde aquela conversa iria.


Pouco depois elas adentraram na sala sorridentes.E eu conhecia bem aquele ser, era a mesma menina chata que estava com ela no elevador no dia anterior. Só podia ser castigo.

E Victoria sorrindo?! Sim, isso era realmente estranho.

--Você sabe que eu não aceito não como resposta, não sabe?

A criatura vulgar falou, ela vestia uma saia de malha apertada e um tanto curta para um ambiente como aquele. Aliás, a saia não era curta em si, mas estava levemente...levantada?Existem pessoas que tem a personalidade escrita na testa, na dela poderia ver brilhando : p i r a n h a.Mas Victoria parecia gostar, estava toda animadinha com a companhia dela.


Vi logo Victória sentar-se a mesa, ela sim era uma mulher elegante, seu terno feminino bem cortado moldava-se perfeitamente em suas curvas. Vestia uma camisa branca, um colete negro e uma calça de tecido leve. Nos pés um salto altíssimo. 

--Realmente não suporto contraria-la, mas realmente não há possibilidade. -Victoria falava com um pesar na voz.Como assim não suportava contraria-la. A mim ela faz o tempo todo e sem remorso algum.A criatura foi até a porta e fechou-a trancando. E se aproximou dela lentamente com cada de cachorro sem dono. E se pôs entre as pernas de Victoria, enquanto suas mãos acariciavam o colarinho da blusa de Victória.

--Nem se eu insistir muito, daddy? --
Falou com uma voz...infantil?


Arregalei os olhos. Daddy? O que significava aquilo exatamente eu não sabia, mas ao vislumbrar o brilho no olhar castanho de Victoria soube que era algo que mexia com ela.--Não faça isso...-ela suspirou.A cínica abriu alguns botões da própria camisa e mostrou-lhe uma gargantilha prata cravejada de pedras amarelas brilhantes que apertavam seu fino pescoço.

Eu conhecia aquela gargantilha. Ou ao menos vi algo muito parecido no apartamento de Victória.
Victoria mordeu os lábios e cerrou os olhos, ao tempo em que levava as mãos ao pescoço da garota, seus dedos longos e esguios pressionavam a carne com força, enquanto a outra lhe lançava um olhar derretido. Eu mal pude ter tempo para raciocinar a cena, quando Victoria aproximou o rosto da orelha e lhe sussurrou algo que não pude ouvir, mas a garota parecia se deliciar de olhos fechados. Senti um arrepio sobre minha pele. Ela logo se afastou da garota.


--Eu não aceito não como resposta. -a menina disse beijando lentamente o pescoço exposto, os livros da estante me impediam de ter uma visão mais apurada, mas ainda pude ver relance o prazer estampado nos olhos de Victoria.

--Melhor você ir.

 --Ás onze, no mesmo lugar.  

Estarei esperando.A garota saiu da sala lentamente jogando um beijo no ar e destrancando a porta. Deixando uma Victoria completamente paralisada.

Eu estava estranhamente incomodada aquela cena.

Estava estranhamente enciumada.

E mais estranhamente ainda, excitada.
**
Pov Letícia (n/a: aleluia irmãs!)


Passei a noite em claro, aliás desde que discutir com Alice, todas as noites eram assim, o  não vinha, a consciência estava pesada demais para me permitir um sono tranquilo. Tudo piorou naquelas últimas semanas, eu mal a via e nos poucos momentos em que nos esbarrávamos era obrigada a ouvir seus insultos. Ela estava tão mordaz, tão rude, nem de longe parecia a garota doce que conheci. 
Mas eu sabia que a maior culpada de sua mudança era eu. Sabia que era demais pedir compreensão quando no meu dedo estava uma aliança de compromisso. Mas havia algo muito maior, que me atormentava bem mais do que a relação com Alice.


Eu me sentia suja, impotente naquela casa, era difícil ser tão bem tratada por Liza, saber que tinha sua total confiança no ateliê quando eu mesma foi responsável por sua queda no passado.Há erros que não podem ser concertados. Por maior que fossem minhas tentativas de remediar a situação eu sabia que minha atitude era imperdoável.


E o pior, tinha medo que pudesse cometer o mesmo erro novamente.Levantei da cama sentindo meu corpo cansado e minhas pálpebras pesadas, no entanto na havia desistido de dormir, no criado mudo o relógio marcava cinco horas da manhã. Fiz minha higiene matinal, desci as escadas vestida com a mesma camisola que dormi.

A casa estava vazia e o silêncio reinava. Fui a cozinha e puxei as persianas da janela de vidro para olhar a garagem. O carro de Alice não estava. Ela ainda não havia chegado, conclui bufando de raiva.
Deveria estar com aquela sem graça da Clara, já que noite passada estavam aos beijos e amassos. Só de imaginar a cena senti calafrios.Tirei algumas frutas da geladeira e resolvi corta-las para fazer uma salada. Liza adorava comer isso no café da manhã. 


Fiquei tudo distraidamente por longos minutos até sentir um cheiro conhecido invadir meus sentidos, fechei os olhos com força tentando controlar o máximo a vontade de virar e olhar o rosto conhecido.Eu cortei tudo mecanicamente até sentir um corpo quente se encostar ao meu, e a voz doce e irônica falar  arrepiando todos os pelinhos da minha nuca.--Bom dia, tia. -ela disse encostando os labios quentes na minha orelha.Prendi a respiração me mantendo em silêncio, apenas sentindo o calor que emanava.--Não vai me responder? -falou com uma voz risonha e pude sentir o cheiro do álcool.--Não. -falei emburrada, quase cortando meus dedos com as maos trêmulas de nervosismo.Ela sorriu e eu senti suas mãos firmes se apossarem da minha cintura, puxando meu corpo em direção ao seu. Suspirei.Ela segurou meu cabelo e prendeu agilmente em um coque para no instante seguinte passar a língua quente e escorregadia na minha nuca. Mal pude controlar e gemi baixo.


--Alice, melhor não. Alguém pode chegar e ver. -tentei relutar mas já estava um tanto derretida.

--Você fica tão gostosa vestida assim. 

Falou passando a mão pela minha perna, arranhando de leve. Quando pensei em protestar senti sua mão subir por baixo da camisola e apertar meu seio direito enquanto mordiscava minha orelha.Era golpe baixo. 

Gemi dessa vez algo quando ela apertou o mamilo entre os dedos com força.

--Vamos pro seu quarto. -tentei virar meu corpo mais ela me deteve me alertando ainda mais r a bancada de mármore. Fazendo meu corpo inclinar para frente, enquanto ela puxava meu cabelo com força.
Pelo espelho da parede ao lado podia vê-la, estava com uma calça apertada branca rasgada, saltos e uma jaqueta preta de couro, contrastando perfeitamente com seus cabelos ruivos.Ela estava tão mulher, tão atraente.

--Não vamos pra lugar nenhum. Quero comer você aqui.-falou rude comigo, sua voz doce já não existia, e ela parecia irritada.Mas já estava excitada demais pra negar-lhe algo.

--Onde você quiser... --falei tirando sua mão do meu seio e levando seus dedos um a um aos meus labios, chupando demoradamente.

--Você não presta. -Ela disse em meio a um gemido sôfrego.Quando pensei em rebater senti dois dedos ultrapassarem minha calcinha e me penetrarem forte.

Fechei os labios com força para não gritar, tinha sido pega desprevenida.Alice logo posicionou minhas mãos na bancada e eu fixei a mesma me apoiando para que pudesse rebolar em seu sexo, me recostando ao máximo que pude e oferecendo meu pescoço a sua língua que descia flamejante pela pele exposta.Alice entrava e saia de mim com uma lentidão torturante, sentia seus dedos ageis circulando meu clitóris e me penetrando simultaneamente, dominando meu corpo com maestria, me levando a níveis de prazer inexplicáveis.

Abri mais as pernas e empinei ainda mais para que ela entrasse com mais facilidade, e quando isso ocorreu não demorou muito para o gozo vir  arrebatador.


Minhas pernas trêmulas, fraquejei quase caindo ao chão se não fosse os braços delicados me amparando e me erguendo, fazendo-me sentar.Só então, frente a frente, vi seu rosto avermelhado, seus cabelos vermelhos bagunçados, e seu olhar frio e distante fitavam qualquer lugar menos os meus.

--Hey princesa-chamei sua atenção segurando seu rosto delicadamente entre minhas mãos com um sorriso em meus labios, ela olhou pra mim, porém não me sorriu de volta. Seu olhar era sério.

Tentei beijar seus labios, mas e afastou o rosto de mim rapidamente, fazendo com que acertasse sua bochecha.


--O que houve?Ela se afastou de mim lentamente, olhando ao redor, como se só então se desse conta do que fizemos.Olhou o relógio dourado do seu pulso conferindo as horas antes de me dizer, friamente.

--Melhor se vestir. Já devem estar acordando.Desci da bancada confusa sem entender seu comportamento.-

--Mas a gente nem...Ela levantou a mão me impedindo de prosseguir.-

-Não existe a gente, Letícia.

 --E o que acabou de aconteceu aqui. Foi o que? Uma alucinação? -falei irritada.

--O que aconteceu aqui, vai acontecer quando eu quiser, você não decide isso.

Disse se virando e saindo da cozinha. Me deixando completamente atordoada.

** 

"Aquela coisa de que é preferível ter como amigo do que não ter de modo algum é a maior de todas as mentiras, por que ao gostar de alguém intensamente no sentido amoroso são destruídas completamente as chances de uma amizade mutuamente verdadeira, sentimentos não mudam de um dia para o outro, e não é por que é decidido que os sentimentos irão adaptar-se a isso. O modo de olhar é diferente, o sorriso é bobo e outro e os pensamentos voam como borboletas na primavera, quando se gosta de alguém, as coisas são vistas com olhos cheios de amor,  olhos que tudo suportam e aguentam e não apenas apoiam e incentivam, como os amigos. Quando se gosta de alguém as chances de amizades são notavelmente remotas ou simplesmente não existem, por que ou você ama fervorosamente ou ama fraternalmente, não existe meio termo nisso, mas só quem sente sabe."Spring Awakening - Madu

Notas finais:

Oi chickens

Mais um cap, hot como prometido, enfim. Eu prometi o hot não disse que elas iam ficar bem depois. Não briguem comigo kkkk

Quero saber a opinião de vocês, por isso cometem.

Trecho final é de uma história do wattpad, que estou a três dias chorando lendo. É muito fofa, Spring awakening, recomendadissimo se você quiser ler uma linda e depressiva história de amor!

Enfim, feliz carnaval! 

Capítulo 29 por JuliaR

Alice POVMais um dia na escritório, mais um dia intenso de trabalho, e a ressaca me consumia. Tanto a física como a moral. O que diabos me deu para ficar com Leticia hoje de manha eu não sabia, mas seu cheiro ainda estava impregnado em mim, seu gosto não saia da minha boca, tudo seria tão mais fácil se Leticia não fosse tão irresistível. 


Dessa vez não esperei o final do expediente para falar com Victória, prossegui até sua sala com papéis da avaliação na mão, nos corredores espelhados refletia uma imagem vazia e fantasmagórica, eu não estava nada bem. Aguardei na recepção  na companhia de clientes sentados no sofá de couro, pacientemente esperei um a um serem chamados até chegar minha vez. 

E incrivelmente eu não me sentia nervosa, temerosa como quando estava próxima a encontra-la, dessa vez pouco me importava com qualquer que fosse seu humor matinal, depois do que vi ontem a imagem imaculada se esvaiu da minha mente. 

Victória também possuía segredos.

A única sensação que possuía era a curiosidade. Queria saber mais, minha mente aguçava diversas possibilidades das quais nenhuma parecia fazer tanto sentido. 

A secretária anunciou minha vez e me ergui indo em direção a sala congelante, com passos firmes porém nada animados me aproximei de sua mesa com os papéis. Enquanto ela parecia ler algo em importante em um tablet, visto seu cenho franzido em uma clara expressão de concentração. --Bom dia, doutora.
--Alice, como vai? Bom dia. -disse  desviando brevemente o olhar e direcionando a mim com um sorriso sem mostrar os dentes.Dessa vez a expressão estranha veio de mim.

--Bem...--E o que trás a senhorita aqui? -me olhou docemente.
Que bicho mordeu ela eu não sabia, mas algo me dizia que tinha algo com a noite de ontem.--Avaliação semestral de estágio. Se a senhora puder avaliar, ficaria agradecida.
--Deixe-me ver -falou esticando as mãos e pegando os papéis -Achei que viria antes, Barbara me entregou há alguns dias, ela também é uma excelente estagiária, como você.
Bárbara. Quis revirar os olhos com a simples menção daquele nome.--Disso eu não tenho duvidas. -Sussurrei baixinho.
--O que disse?
--Nada, senhora.
--Senhora? O que houve com o ‘Vic'? 
--Boa pergunta. Achei que não gostasse. -não escondi meu desagrado.
--Não me diga que está chateada? Que bobagem, Alice. Apenas deve evitar me chamar intimamente em público, entre nos duas não há cerimônias.
--Apenas eu que devo evitar lhe chamar intimamente?
--Como disse?
--Se apenas eu devo evitar te chamar intimamente.Ela fechou os olhos e sacudiu a cabeça brevemente em desacordo.--Não estou entendendo aonde você quer chegar.
--Eu? Não quero chegar a lugar nenhum. Apenas perguntei, não entendo por que se afetou tanto. -fingi falsa inocência e ela não refutou.Desviou o olhar para os papeis enquanto ainda escrevia o relatório.--Está com uma cara péssima. Parece que foi atropelada por um caminhão rolo. O que houve?
A antiga Victoria estava de volta. Eu podia ver o sorriso irônico nos seus lábios.
--Comigo nada. Mas se me permite, a sua está ótima. O que houve?--Nada também.--Ah sim.--Você está diferente hoje.--Estou?--Cheia de meias palavras.--Imaginação sua, Victória.--Terminei. -falou e entregou os papéis nas minhas mãos.--Obrigada. Desculpe o incômodo.--Imagine. Vai estar muito ocupada amanhã a tarde?--Acredito que sim. Por que?--Desmarque qualquer compromisso. Preciso de você amanhã.


**


Letícia POV

Mais uma noite se passava, mais uma noite em que me perdia nos próprios pensamentos, nos tormentos que habitavam meu coração. No som portátil a voz melancólica de Amy sintetizava meu estado de espírito.
Aqueles dias não estavam sendo fáceis, minha estadia naquela casa estava cada vez mais incomoda é o motivo da minha frustração tinha nome, sobrenome e cabelos flamejantes.
Alice me tirava do serio, se antes isso era motivo de contentamento, hoje à sensação de frustração imperava. Vê-la diariamente chegar na calada da noite acompanhada com desconhecidas, despertava o sentimento de posse.Mesmo irracional, mesmo que não tenha direito de cobra-la, no meu íntimo ela me pertencia.Injusto e infantil mas meu coração mas meu coração descompassava com a remota possibilidade de perde-la para sempre. E eu já havia perdido demais.

O que inicialmente se parecia uma conquista, revelava-se algo bem maior dentro de mim, algo que me recusava a dizer em voz alta, mas que exalava por todos os poros quando a via.

O sorriso tímido, contido, o rosto corado, a feição angelical, e os olhos que pareciam carregar toda pureza do mundo. Mas seus olhos não eram os mesmo, a íris cheia de curiosidade agora me fitavam frias e magoadas, me dilacerando por dentro e me deixando um lembrete constante do quando a feri.Eu me recriminaria a vida inteira por ter lhe tirado o brilho da inocência e ter-lhe despertado o desamor.
Eu não a merecia.
Mais isso não me faria querer menos. Contrariando o bom senso, isso me faria querer mais intensamente que antes, como se a remissão pelos meus erros fosse faze-la feliz.

Um barulho de carro adentrando a garagem me tirou dos pensamentos e por instinto me pus sobre a sacada para vê-la entrar. Dessa vez sem me esconder, fiz questão que me visse e implorei aos céus que ela me procurasse.Não demorou muito e a vi entrar seria pela porta da sacada.Linda. Mil vezes linda.--Olá -disse tentando controlar o tremor nas mãos sobre a taça.Ainda encostada na porta de correr me respondeu.

--Oi.Aproximou-se da sacada, enquanto eu mantinha minhas costas sobre a mesma, ela encostou-se de frente observando a vista, enquanto eu a observava.Um croped e uma saia brancos colada ao corpo, entre eles o espaço nu que revelava o ventre esguio pela pele exposta. Os cabelos presos em um coque davam um ar casual e igualmente belo.Ela continuava olhando o céu onde a Lua cheia iluminava.Estava tão séria, estranhamente seria. Talvez nunca me acostumasse.--A Lua está linda.
Tentei quebrar o silêncio, mas ela apenas acenou a cabeça em concordância.--Estava esperando que eu chegasse? 
Ela me fitou enigmática. Sem desviar o olhar, senti o arrepio na espinha enquanto pensava e repensava em um resposta. Optei por ser sincera. Talvez lhe devesse um pouco de honestidade.--Sim, eu estava.Ela deu o que parecia um sorriso enquanto balançava a cabeça negativamente, parecendo relutar. Então virou-se em minha direção aproximando lentamente seu corpo do meu até pressiona-lo contra a sacada.
Seus dedos quentes colocaram uma mecha do meu cabelo atrás da orelha, eu me mantinha de perfil, olhando para outro canto. Tinha medo que meu olhar desnudasse minha alma e revelasse o que não deveria ser dito.Juntou-se mais a mim, delicada e firme ao mesmo tempo. 
Seu corpo quente emanava descargas elétricas sob minha pele. E seu cheiro maltratava meus sentindo me levando a outra dimensão.Seus lábios encostaram em minha orelha. E talvez bastasse isso para que eu fosse dela. Sua voz doce e firme soou.

--Onde eles estão?Fechei os olhos com força enquanto sentia o pequeno nariz percorrer o pescoço até a clavícula saliente.--Sua mãe dormindo. E ele só volta amanhã Ela deu um beijo estalado no meu queixo, e segurou firme minha mão. E me olhou curiosa com o cenho franzido.--Estou com frio.A primeira desculpa que veio em mente para as mãos trêmulas e frias, mesmo que no fundo eu desconfiasse que soubesse a verdade, ela nada disse. Na outra ela levava o som portátil que ainda ficava.Fui guiada pelos corredores sem fim daquela casa, como um filho carregado pela mãe sem sequer saber onde iria, mas seguia submetido a sua total confiança.Paramos na porta da biblioteca e aguarde ela trancar a porta do ambiente rustico iluminado por uma lareira que aquecia a noite fria.A partir daí apenas senti meu corpo prensado com força contra a porta e sua boca me devorar.No meu íntimo apenas uma constatação. 

Eu seria dela. Mais uma vez.

**

Nosso amor é impurocomo impura é a luz e a águae tudo quanto nascee vive além do tempo.Minhas pernas são água,as tuas são luze dão a volta ao universoquando se enlaçamaté se tornarem deserto e escuro.E eu sofro de te abraçardepois de te abraçar para não sofrer.E toco-tepara deixares de ter corpoe o meu corpo nascequando se extingue no teu.E respiro em tipara me sufocare espreito em tua claridadepara me cegar,meu Sol vertido em Lua,minha noite alvorecida.Tu me bebese eu me converto na tua sede.Meus lábios mordem,meus dentes beijam,minha pele te vestee ficas ainda mais despida.Pudesse eu ser tuE em tua saudade ser a minha própria espera.Mas eu deito-me em teu leitoQuando apenas queria dormir em ti.E sonho-teQuando ansiava ser um sonho teu.E levito, voo de semente,para em mim mesmo te plantarmenos que flor: simples perfume,lembrança de pétala sem chão onde tombar.Teus olhos inundando os meuse a minha vida, já sem leito,vai galgando margensaté tudo ser mar.Esse mar que só há depois do mar.

Mia Couto

Notas finais:

Espero que gostem, estou lendo todos os elogios e as críticas também :)

LenaDelRey_ me passe seu contato nos comentários.

Beijo

Capítulo 30 por JuliaR
Mal entramos e senti minhas costas colidirem com a parede e sua silhueta encostar-se ao meu corpo no deixando o mnimo espao que seja entre ns, o cheiro da sua pele, do seu cabelo me acertaram em cheio, inebriando completamente meus sentidos.
Sua boca quente se apossava do meu ombro serpenteando at meu pescoo, fazendo-me soltar lufadas de ar, enquanto suas mos delicadas desatavam o n do meu robe e revelaram uma lingerie branca.
Da distncia em que estvamos pude ver seu olhar passar de um misto de admirao a excitao em segundos, enquanto sua boca vermelha mordia os lbios sensualmente.
--Vem c. –disse puxando-me pelas mos e eu segui enquanto ela sentava-se no sof de couro vinho.
Caminhei sensualmente at ela enquanto suas mos inquietas pareciam coar para me tocar.
--Perfeita—disse hipnotizada olhando meu corpo.
Prendi o lbio inferior entre dentes, quando sentia suas mos alisarem minhas pernas at chegarem as minha bunda onde apertou com fora e puxando-me para si.
Beijando minha barriga que parecia esquentar a cada toque de lbios deixados em beijos suaves. Eu queria mais daqueles beijos.
--Tudo para voc, amor. –Falei entre gemidos enquanto sentia as unhas curtas arranjarem minha cintura
--Senta.- disse seu tom de voz pela primeira vez em todo aquele tempo foi doce.
Sentei-me em seu colo sentindo um frio na barriga, ao v-la frente a frente, seu olhar quente me fazia perder o sentido, suas mos seguravam meu cabelo enquanto puxava meu cabelo para trs e sua boca mordia e lambia meu colo, e maxilar.
Minhas mos trmulas apertavam seu ombros, arranhando sua pele, enquanto as dela apertavam minhas pernas, e me puxavam pela cintura encostando seu corpo ao meu.
Mas faltava algo para ser completo, algo que a muito me fora negado por ela, eu eu j no sabia viver sem.
--Me beija, por favor—disse num suspiro implorado sentindo seus labios macios no meu pescoo, ela parou de repente ento vi no seu olhar a dvida, contornei delicadamente com o indicador seus lbios bem feitos . –Quero sentir o gosto dos seus lbios, da sua lngua...
No foi preciso segundos e senti sua boca contra a minha, num beijo cheio de saudade, vontade, tenso. Acariciei sua lngua com a minha enquanto a sentia sugar meus labios.
--Alice...—suspirei ao sentir meus labios sendo mordidos –Ah.
--Voce to gostosa—disse dando um tapa estalado na minha bunda –Rebola para mim, Letcia.
No a nada que ela me pedisse que eu poderia negar, me movi lentamente sobre seu colo enquanto ouvia seus gemidos deliciados, retirei sua roupa para que pudesse arranhar suas costas, eu queria marca-la como minha.
Sua mo atrevida ultrapassou o pano mido da calcinha enquanto ela pressionava o nervo rgido arrancando um gemido sofrido meu.
--Completamente molhada, s para mim.
Disse apertando entre seus dedos enquanto sugava meu meu peito me deixando completamente enlouquecida.
--Senta neles, linda.
Desci meu corpo sentindo seus dedos me invadiram meu intimo, enquanto sua mo me auxiliava --Desce assim com vontade. –Fiz o que ela ordenou sentindo um prazer indescritvel que so ela poderia me dar.—Isso.
No demorei muito a chegar ao pice a senti parar os movimentos, completamente suada colei minha testa a sua tentando recuperar a respirao.
Suas maos suspenderam meu corpo e a olhei sem entender ate que a vi me deitar delicadamente no tapete de frente a lareira.
--Sempre quis ter voc aqui.
Sorri encantada enquanto a via de joelhos tirando completamente a roupa exibindo a pele clara, que implorava para ser beijada. O vermelho do seus cabelos, o rubor da sua face, combinavam perfeitamente com o fogo da lareira atrs dela formando uma das imagens mais lindas que j vira. Queria guardar para sempre em minha memria, naquele momento eu sabia que era completamente dela.
--Voc pode me ter onde voc quiser.
Ela sorriu com os lbios encostados aos meus.
**

Mais uma dia de trabalho, passei a manh inteira no escritrio, depois de um noite intensa da qual preferia no comentar estava de volta a rotina sentindo o peso do cansao no meu corpo. Eu estava esgotada.
O dia passou sem mais delongas, quando recebi a ligao da recepo de que fosse ao escritrio de Victoria em dez minutos. Sabe-se l o que ela queria, mas no deveria ser coisa simples, do contrrio no faria tanto mistrio.
Fui a sua sala e dessa vez no havia ningum, o que era estranho devido ao horrio, sua secretria me mandou entrar imediatamente. Caminhei at sua sala e a encontrei absorda entre papis, e livros volumosos.
--Boa tarde.
--Boa tarde, Alice.
S ento desviou os olhos dos papis e me olhou de cima a baixo. E com o cenho franzido me lanou um olhar avaliador. Eu fiz o mesmo e o que vi foi uma mulher completamente exausta.
--Sente-se.
Sentei na cadeira ficando bem menor que ela, afinal ela parecia sentar em um trono de to grande e imponente que era.
--Cansada?
--De forma alguma.
--No parece. Abotoe os ltimos botes, h marcas vermelhas.
Prendi a respirao por alguns segundos lembrando da noite anterior. Por algum motivo desconhecido no gostaria que Victoria soubesse.
--Desculpe, sabe como so os insetos no vero.
--Sim, inseto com nome e sobrenome.
Engoli seco abotoando rapidamente. Enquanto vislumbrei um olhar irritado vindo dela.
--Tambm no precisa se enforcar.
Desabotoei o ltimo boto.
--J ouviu falar do caso Perez?
Me indagou calmamente enquanto ainda fitava os papeis.
--Claro, no se fala de outra nesse pas.
Respondi estranhando a pergunta.
--O Jri hoje. E estarei na defesa.
Arqueei a sobrancelha surpresa
--Mas era outro at semana passada...
--Ele saiu do caso. E eu o assumi.
--Causa perdida
--O que disse? –ela me olhou analtica.
--Nada, perdo?
--Gostaria de me acompanhar?
Arregalei os olhos em surpresa. Qualquer um gostaria de participar do jri mais comentado do ano.
--Esta falando srio?!
Ela apenas continuou me olhando inexpressiva.
--Claro que eu quero! Onde devo estar?
--Esteja aqui em uma hora.
--As suas ordens.
Sai do escritrio saltitante e to feliz que recebi olhares estranhos pelos corredores. Entrei na sala esbaforida enquanto uma Patrcia me olhava sem entender.
--Comeu carne de palhao?
--Quase isso! Voc sabia que Dra. Victoria est no caso Perez?
--Ouvi algum comentrio sobre. Por qu?
--Adivinha quem ela convidou para ir com ela?!
Disse enquanto sentava na mesa a olhando com expectativa.
--Brbara?
Meu sorriso morreu nos labios.
--No.
--Voc?
--Euzinha.
Patricia me olhou com a cabea pendendo para o lado, como se pudesse ver atravs da minha alma.
--O que foi?
--Nada.
--Desembucha de uma vez.
--Suposies.
--Quais?
--Que a toda poderosa esteja de olho em voc, por exemplo.
Comprimi os labios pensativa.
--Voc s pode estar brincando.
--Pareo estar brincando?
Me disse sria.
--Porqu ela estaria interessada em mim?
--Primeiro que desde que chegou aqui no vi ela levar nenhum estagirio para acompanhar audincia, quanto mais um juri, segundo a forma como ela olha para voc...… diferente, no com um desdm de quando ela olha para mim ou os outros. Terceiro, ns sabemos bem as preferncias dela. Pelo menos, o que ouo em corredores.
--O que voc ouve nos corredores?
--Que ela gay.
--E qual o problema?
Desviei o olhar fitando a parede, no meu ntimo temia uma resposta preconceituosa, no que Patricia j tenha demonstrado algum tipo de discriminao, mas nunca se sabe.
--Problema nenhum, Alice. S acho que seu corao j deve estar ocupado.
Arregalei os olhos.
--O que?!
--Voc no iria terminar com Bernardo por nada, ou ia? Sejamos francos h algum responsvel por isso. E nem estou te cobrando, so quero abrir seus olhos para as verdadeiras intenes dela.
--Mas ela trata Brbara da mesma forma, alias bem melhor que eu.
--Talvez a inteno com ela sejam outras.
--Nos poupe, Patricia, nem sei porque estamos nesse assunto com essas suas teorias conspiratrias. O fato , que vou estar no caso mais falado dos ltimos tempos, da para acreditar?
--Realmente, fico surpresa que ela tenha aceitado, sinceramente no acredito que ela seja absolvida.
--Nem eu. Eu mesma se fosse jurada duvido que no a condenasse.
--Mas trata-se de Victoria, no duvido de nada.Quanto a voc, boa sorte quero saber os detalhes depois.

Entrei na sala de Victoria enquanto ela conversava com alguns advogados na prpria recepo, tentei ao mximo no fazer nenhum barulho para sequer ser percebida, mas a tentativa foi falha quando sem querer topei na mesa do centro e quase derrubei o vaso de vidro.
Todos me olharam, inclusive Victoria.
--Perdo.
--O telo precisa expor as imagens na ordem exata, pasta clicar na seta a direita para passar a prxima imagem, e para retornar a esquerda. –Vi o tcnico de informtica explicar a Victria enquanto lhe entregava um controle remoto.
Ouvi doutor Marcus, a arrogncia em pessoa, perguntar a Victoria.
--Tem certeza que nao precisa de assistncia? Eles estaro ferrenhos na acusao...
--Absoluta. –Disse enquanto colocava documentos e controle na pasta.
--Talvez seja bom levar algum para caso...
--Srta.Alice vai me acompanhar. –disse e todos me olharam como se eu fosse um nada, inclusive Barbara que me lanou um olhar arrogante.
--Digo, algum com experincia, no uma estagiria.
Obrigada pela parte que me toca. Me senti um inseto.
--Eu tenho mais experincia que todos reunidos aqui, tenho certeza que no precisarei de mais. Alice por favor me acompanhe.
Juro que tentei controlar o sorriso zombeteiro nos lbios, mas temo no ter conseguido pelo jeito raivoso que Brbara e Marcus me olhavam.
--Sim senhora, com licena.

Seguimos pelos corredores sendo acompanhada pelos olhares de todos que trabalhavam, curiosos. Eu tentava seguir os passos firmes e rpidos dela enquanto o barulho do seu salto ecoava por todo canto. Ela estava diferente hoje, trajava roupas clarar, o que era raro, sua camisa branca e uma saia marfim combinando com os saltos.. E seu cheiro amadeirado me fazia fechar os olhos, como se assim pudesse guarda-lo na minha memria.
--J pode tirar o sorrisinho do rosto. –Disse enquanto dobrava a esquerda enquanto quase seguia direto, voltei rapidamente a seguida pelo caminho correto.—E preste ateno por onde anda.
--Desculpa. –Ri mais ainda.—… que seu perfume me distrai. –sussurrei baixinho.
--Como disse? –ela travou o passo e quase esbarrei nela.
--Que estou andando muito atrs.
--Hum.
Entramos no elevador, lotado por sinal, ainda pude ouvir Victoria bufando ao entrar no fundo enquanto eu me punha a sua frente.
Podia sentir sua respirao calma nos meus cabelos, e seu perfume invadindo ainda mais. Estvamos prximas demais, e o simples fato de senti-la segurar minha cintura firme enquanto descia de andar me fazia tremer por inteira. Prendi a respirao at chegarmos ao trreo.
Fomos ao estacionamento, e mal chegamos e os seguranas nos acompanharam at o carro.
Eu nunca iria me acostumar com aquela vida. Pobre, Victoria.
Entramos no carro em silncio enquanto o motorista manobrava.
--Obrigada.
Ela me olhou sem entender.
--Pelo convite e tambm por ter me feito me sentir um pouco menos insignificante na sua sala.
--Por nada. … por isso esse sorriso todo.
S ento notei que sorria tanto que minhas bochechas doeram.
--… meu primeiro jri, e com a melhor criminalista do pas, no tenho motivos para estar contente? Parece um sonho.
--Alice, esse certamente ser meu pior jri. Estar mais para pesadelo que sonho.
Meu sorriso murchou.
--Como voc est? –Perguntei ao notar no seu semblante um misto de inquietao.
--Normal e voc?
--Bem, eu acho.
--Voc acha que iro transmitir o jri?
--No.
Vi com estranhamento Victoria inclinar-se e retirar do compartimentos uma pequena garrafa de bebida alcolica enquanto dava goles.
Arregalei os olhos para a cena.
--Tem certeza que est bem?
Ela me olhou significativamente sem responder, seus olhos avermelhados e olheiras me fitavam como se na ris escuras escondesse mais coisas do que ela poderia revelar.
--O que houve? Esta nervosa? –Segurei suas mos frias e trmulas.
--No nada, s cansao.
--Independente do veredito, sei que dar o melhor. A defesa no estaria em melhores mos, tenho certeza.
Ela fechou suas mos nas minhas com um aperto delicado.
--Obrigada.
Sorri em resposta enquanto ainda massageava sua mo tentando transmitir a ela o mnimo de conforto. Ela logo puxou um frasco e borrifou essncia de menta em sua boca.
Logo poderia ser ouvido os burburinhos em frente ao tribunal, vrias pessoas com cartazes contra a acusada, pedidos de justia, acusaes, gritos de protesto por todos os lados. Assim que identificaram o carro de Victoria pude ouvir com detalhes o barulho de mos colidindo com a janela do automvel, pessoas possessas gritando palavras inteligveis.
--Meu Deus! –
Falei assustada nem em pesadelos imaginei que veria tanto gente assim protestando contra. A tarefa seria mais difcil do que pensei.
O carro parou e ouvi a respirao funda da mulher ao meu lado.
--Preparada?
Minha mente gritava no, mas no poderia mostrar fragilidade logo agora.
--Vamos.

***

H palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperana,
De imenso amor, de esperana louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mrmore distrado
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite mais forte,
Ao silncio dos amantes
Abraados contra a morte.

Alexandre O'Neill
Notas finais:

Olá, lindas.

Mais um cap, dessa vez acho que muita gente vai gostar, especialmente as teamleticia

Esse júri reserva muitas surpresas do passado. No próximo terá continuação, tenho a impressão

Que o próximo agradará bastante as teamchefinha hahaha

Uma observação: cap passado recebi uma dúzia de comentário desaforados e ofensivos

Feitos pela mesma pessoa, que se tão madura, fez diversas contas fakes com objetivo de ofender e me pressionar. Inclusive com ameaças de deixar a história. Pra essa pessoa um recadinho: Querida, você não tinha nem que estar aqui. Se não gosta de história clica no x do lado superior direito e seja feliz. Kkkkkkk

Beijo lindas

PS: fui pressionada a fazer esse cap em troca de uma ótima recompensa.😈

Capítulo 31 por JuliaR
Centenas de pessoas protestavam do lado de fora do tribunal, cartazes, gritos, palavras de ordem, pedidos de justiça, e a esmagadora maioria pedia a condenação da ré, a mídia estava em todo, lado, repórteres de diversas emissoras. Mal nos colocamos fora do automóvel e vários microfones já se punham frente ao rosto de Victoria, apesar da tentativa de se esquiva, isso parecia deixar os jornalistas mais sedentos.
--Esta confiante no veredito? --Pergunto uma repórter de uma emissora sensacionalista.
-- Acredito na justiça, espero que seja absolvida. Com licença.
--Acha possível reverter a opinião pública?
--É uma tarefa de difícil com uma mídia tão imparcial no caso, mas confio na prudência dos jurados.
Disse firme e logo segurou a mão me puxando ante ao emaranhado de pessoas que que se juntavam sobre nós até chegarmos ao tribunal. Os flashes me cegavam, e o frio na barriga parecia não ter fim. Ainda foi possível ouvir em alto e bom som o promotor da acusação usando termos como "assassina fria, inescrupulosa e cruel", diante de várias câmeras que o seguiam.
Pelas janelas de vidro ainda podia ver toda a movimentação, estava no mínimo extasiada com o que via.
--Eles são impiedosos. ..
--Quem?
--A mídia. Você acha mesmo que que ela será absolvida?
--Não. As chances são mínimas, mas nunca entrei numa causa que não pudesse ser ganha.

Desviei o olhar da janela e sorri orgulhosa da mulher ao meu lado.
--Eles tem a faca e o queijo na mão. A mídia, uma ré confessa, o promotor impiedoso, que adora flashs-sorriu irônica ao observar que Dr.Michell ainda dando entrevista a TV aberta--. Mas há algo que ainda é capaz de reverter qualquer veridito.
--A oratória?
Victoria apenas balançou a cabeça afirmativamente.
--E modéstia parte, nessa eu sou implacável.

No início do júri houve a dispensa de jurados, dos vinte e cinco, sete participaram. Victoria recusava os homens, e Michell as mulheres. Em uma clara estratégia, era mais fácil convencer mulheres e comove-las, teoricamente.
Ainda assim restaram, quatro homens e três mulheres.
O que nos era desfavorável.
Aquele seria o júri do ano, o promotor era conhecidíssimo e já havia participado de vários outros julgamentos, por outro lado Victoria era indiscutivelmente a melhor criminalista de todas, sua competência era notável.
Sentamos na mesa reservada a defesa diante de um tribunal lotado, mesmo com a sala fechada era possível ouvir o barulho das manifestações do lado de fora, nos assentos a nossa direita a acusação se acomodada, inúmeros advogados acompanhavam liderados por Dr.Michell, enquanto Victoria se mantinha sozinha na minha companhia. Logo pude ver uma mulher abatida entrar acompanhada da Polícia até o nosso lado, sua expressão era de cansaço e melancolia, todos viramos o olhar em sua direção e foi possível ouvir cochichos de todos os lados.
Era estranho ver pessoalmente alguém que só conhecia por revistas de fofoca, e mais recentemente em noticiários policiais, e agora estava sentada ao meu lado. O abatimento de Marina Perez era tão palpável que me dava pena, tentei da um meio sorriso reconfortante mas recebi em troca seu olhar baixo e envergonhado. Victoria por sua vez parecia ter parado de respirar, pude ouvir o som abafado de sua garganta ao engolir seco. Elas não se olharam em momento algum, e de alguma forma entre essas mulheres parecia haver um campo magnético.

Logo a primeira testemunha entrou acompanhada do juiz, o que desviou o foco de atenção dos presentes.
O juiz deu inicio a convocação do júri, tirando a atenção da ré e chamando a acusação para iniciar a sessão.

Logo a primeira testemunha entrou acompanhada do juiz, o que desviou o foco de atenção dos presentes.

Michel levantou-se pomposamente ao meio do tribunal se dirigindo a senhora que estava no espaço reservado às testemunhas?.
-A senhora é Mercedes Pérez, mãe do falecido, Marco Perez Monte?
-Sim senhor.
--Onde estava quando seu filho foi assassinado?
--Estava no jardim da nossa casa, estava cuidando do meu neto quando ouvi os disparos
--Qual a idade dom seu filho quando faleceu?
--35.
--Quantos filhos ele deixou?
--Dois

Victoria logo se pôs de pé de forma oponente, e ignorando a tentativa de Michael de sensibilizar o júri, indagou de forma incisiva.

--Senhora Mercedes, nesses 35 anos, quantas vezes seu filho agrediu fisicamente a sua esposa?
--Protesto, Excelência! --Michael esbravejou levantando-se em direção ao juiz.
--Protesto mantido. Esta sendo inconveniente, Sra.Ferraz. --o juiz advertiu.
--Retiro a questão, Excelência.
--O júri deve desconsiderar a pergunta.

Victoria foi em direção a testemunha mais uma vez.
--Reformulando a pergunta. Nesses 35 anos, senhora Pérez, quantas vezes seu filho abusou sexualmente da ré?

--Doutora Ferraz, em meu gabinete agora. --esbravejou o juiz severamente --O tribunal terá 15 minutos de recesso.--disse batendo o martelo.

Eu ri. Victoria era realmente uma estrategista nata, mesmo sabendo que seria advertida mas ainda assim arriscou, revertendo assim toda comoção que Michel tentava exercer sobre o júri em seus questionamentos iniciais.

Na volta do recesso, Victoria mantinha um semblante de desdém como se a possível advertência do juiz na o causasse efeito algum. Logo entrou outra testemunha, dessa vez era o delegado local, que tinha sido responsável por apurar o homicídio.
Michel começou o questionamento, segurando uma faca e exibindo exageradamente aos jurados, ouvi um pequeno soluço ao meu lado e automaticamente segurei as mãos frias de Marina entre as minha, e bocejo um "calma" tentando inutilmente tranquiliza-la.
--Delegado Moraes, consegue identificar essa faca?
--Foi a faca encontrada no local.
--E pode identificar as digitais encontrada nelas?
--Sim, elas combinam com a da senhora Marina Pérez.
--Tem certeza?
--Sim
--Excelência, solicito que a faca seja considerada como prova. Sem mais perguntas.

Victoria balançou a cabeça negativamente enquanto levantava.

--Delegado Moraes, o senhor é o policial responsável pela Polícia local, correto?
--Sim, senhor.
--Ha quanto tempo?
--6 anos, senhor.
--Então o senhor deve ter sido responsável pela prisão de Juan Pérez ha um ano e meio atrás, correto?
--Sim, o prendi por agressão física e cárcere privado contra a ré Marina Pérez.
--E é verdade que Juan Pérez assinou a confissão pela agressão e cárcere de Marina Pérez?
--Protesto, Excelência. São inadmissíveis essas perguntas!”Michell esbravejou.
--Dra.Ferraz, nos já conversamos, não estamos aqui para julgar processos passados, mas sim o homicídio em questao, e se continuar esse desempenho, cometerá desacato nesse tribunal. Entendido?
-Entendido. Sem mais perguntas.
Victoria caminhava em direção a mesa e quando todo o tribunal estava em silencio foi possível ouvir voz firme do delegado Moraes.
--Sim.

O juiz virou-se para ele, surpreso.
--O que disse, delegado?
--Sim, ele assinou a confissão.
--Protesto, Excelência. A testemunha não deveria ter respondido.
Victoria esboçou um sorriso contido ao ouvir.
--Jurados, desconsiderem a última resposta da testemunha.
Novamente outra testemunha foi anunciada
--Excelência, o Estado chama Alda Gomes a testemunhar

Logo entrou a mulher, que seria babá dos filhos do casal, com o braço enfaixado, de acordo com o que Victoria disse, ela havia sido atingida quando tentava separar a briga do casal e acabou sendo atingida na mão, que comprometeu 70% dos seus movimentos. Ela andava com dificuldade até o local, e era visível que parte da mão havia sido amputada.
--Senhorita Gomes, estava presente na hora do assassinato de Juan Pérez?
--Sim senhora, estava.
--Se puder lembrar, descreva como foi ferida para os membros do júri.
--A faca me atingiu quando tentei segura-la, atingido a mão.
--O que aconteceu com sua mão ?
A mulher com o olhar melancólico resultou em responder.
--Precisou ser amputado três dedos.
--E apos ter amputado, senhorita Gomes, ainda se vê em condições de exercer o ofício de babá?
Com a voz embargada respondeu.
--Ainda consigo realizar algumas tarefas.
--A senhora consegue lembrar quem deferiu a facada que lhe acertou?
A mulher olhou com pesar em nossa direção, mas ao contrário do que imaginei, não havia raiva no olhar, apenas dor e lamento.
--Senhora Marina. Mas ela se desculpou.
--Então a ré, confessou ter esfaqueado sua mão ?
--Sim, senhor.
Com um sorriso compenetrado no rosto, Michel finalizou. E Victória murmurou xingamentos em voz baixa.
--Sem mais perguntas.

--Dra. Ferraz a defesa tem algum questionamento a testemunha?
--Não.
--Sim. --respondi de imediato antes dela completar a frase. Fazendo com que todos me olhassem.
--Só um momento para falar com minha assistente.
--Concedido-- disse o juiz
--Que diabos acha que está fazendo? --Victoria cochichou em voz baixa para mim.
--Pergunte se ela acha que Marina deve ir a cadeia.
--Ficou louca? Ela teve quase a mão inteira amputada, e você quer que eu pergunte se quer que a mulher que causou isso vá a cadeia? Ela é testemunha da acusação!

--Pergunte-lhe. -- A voz baixa de Marina soou pela primeira vez e Victória arregalou os olhos.

Ainda relutante, Victoria levantou-se suspirando pesadamente.
--Excelência, uma pergunta a testemunha.
Victoria se pôs a frente de Alda, e ainda contrariada lhe fez a pergunta.
--Srta. Alda, acha que a ré a atingiu intencionalmente?
--Não senhora. Foi um acidente.

Victoria desviou o olhar para trás, ainda contrariada, e Marina sibilou mais uma vez "Pergunte".
Victoria contraiu os lábios e se voltou para a testemunha.
--Acha que a ré deve ser punida por tê-la atingido?
-Não, senhora.

O júri inteiro murmurou, foi possível ver nos olhos de Victoria a surpresa, enquanto Marina ao meu lado já parecia esperar a resposta.

--...não guardo rancor dela, ela fez o que eu teria feito.
--O que quer dizer com isso, Srta.Gomes?
--Que eu não a culpo pelo que fez, senhor Juan era muito violento.
--Protesto, Excelência. A opinião pessoal da testemunha é irrelevante.
--Excelência, a testemunha tem o direito a palavra.
--Protesto negado. Continue. --O juiz asseverou para desespero de Michael
--Prossiga, Srta. Gomes.--Victoria disse calmamente.
--Eu sou casada, Dra.Victoria. Mas se meu marido me agredisse como senhor Juan fazia, eu não responderia pelos meus atos. Ele seria um homem morto.

--Protesto, excelência--Michel gritou.
--A senhora acha que Marina Perez deve ser condenada?
--Não responda a pergunta, srta Alda. --O juiz ordenou em alto e bom som.
--Ela é uma heroína por ter passado tudo o que passou, ela não deve ser acusada.
--O júri não considerará a resposta. “disse o juiz.
--Excelência, silencie a testemunha.
--Ela não merece ser presa! --Alda gritou mais uma vez a todos os presentes
O juiz exaltado batia o martelo pedindo silêncio quando o júri gritava, só houve silêncio ante a ameaça de retirada de todos do reincito. Foi dado uma hora de recesso.

***
Já era noite quando o juiz chamou:
--Dra. Ferraz, pode chamar sua primeira testemunha.
--Chamo senhor Guerra, como testemunha de defesa.
O homem gordo se levantou e foi em direção ao púlpito.
--Doutor Guerra, poderia explicar ao júri, o efeito que a violência física, psicológica teve sobre a condição mental da ré no momento do disparo?
--A violência sofrida causa um efeito de interrupção temporária de realidade...
--No entanto a acusação insiste em qualificar a ré como fria e cruel, com completa sanidade dos atos. Mesmo que o exame de corpo de delito demonstre que ela tenha sido covardemente agredida antes do ocorrido horas antes.
--Isso é completamente questionável.
--Dr.Guerra, qual a sua avaliação sobre o estado da ré na hora do cometimento do crime.?
--Senhorita Perez sofreu a ocorrência de um transtorno dissociativo , como resultado do trauma sofrido pelas constantes agressões. Como senhorita Perez não tinha consciência das suas razões, ela não poderia fazer juízo de valor do certo e errado. Tampouco conhecer as consequências dos seus atos. Estava portanto, legalmente insana.
--Sem saber as consequências dos seus atos e diferenciar o certo do errado...Portanto legalmente insano--Victória repetiu as palavras inclusivamente em direção ao júri. --Obrigada Dr.Guerra, sem mais perguntas.

--Dr. Michael, alguma pergunta?
--Não, Excelência.
--Declaro recesso de uma hora para almoço.

Na volta, Marina estava a frente da bancada, pronta para ser interrogada por Victoria. Eu talvez não conhecesse m suficiente, mas seu olhar deprimido por trás daquela aparente frieza a entregava.
Havia ali mais do que uma cliente, mais do que uma advogada, um envolvimento mais profundo, o qual ainda iria descobrir.
--Como se sentiu diante do que aconteceu? -- Victoria caminhou até ela, no silêncio ecoava apenas o barulho do seu salto e sua voz.
--Era como se estivesse fora do meu corpo, como se minha mente voltasse a tudo aquilo que vivi estivesse passando por minha mente”Marina falava com os lábios trêmulos e o olhar manejado. “Era como se cada agressão voltasse, cada ameaça, cada humilhação reavivasse a memória, , e eu não pudesse fazer nada.
Sua voz chorosa falhou, e Victoria aproximou-se tocando o ombro suavemente.
--Sem mais perguntas.
O juiz chamou o advogado de acusação para interroga-la.
--Senhora Perez, antes da senhora sair de seu corpo, e ter reativado tudo em sua memória. Você pensou em simplesmente levar a justiça seu impasse? Você pensou em seus filhos ou esfaquear tornou-se a melhor opção?
--Não sei onde quer chegar...”Marina falou sem reação.
--Você acha justo um homem que ameaça ficar impune? “O advogado perguntou de fórum rápida, em uma oratória dinâmica.
--Não.
--Você acha justo um homem que agride ficar impune? “sua voz era estridente pelo tribunal
--Não! “Ela gritava tão alto quanto ele
--Você acha que um homem que abusa sexualmente merece ficar impune?
--Não.
--Então você seria capaz de fazer tudo de novo!?
--Sim, mil vezes se necessário. “Ela gritou em desespero.
Ao meu lado Victoria pós as mãos na cabeça em total descrença.
“Desgraçado conseguiu o que queria!”
--Sem mais perguntas.
--O tribunal está suspenso até o veredito. “O juiz bateu o martelo.

———
(NARRADOR)
Victoria caminhava impassível enquanto nos aproximava até a cela de Marina, que desolada lamentou-se.
“Está tudo perdido, não está?”
--Ainda não.
Seu olhar vago rondava pela cela enquanto se se não tiver sentada no banco de mármore com uma foto em suas mãos , Victoria sentou-se na outra extremidade.
--Dependendo do veredito, ainda posso tentar reduzir sua pena, você sabe, nesse país nada se segue ao pé da letra.
Marina deu um riso triste.
--Quinze, treze anos, talvez?
-Nove, oito, cinco não me subestime.
--O suficiente para me afastar de vez dos meus filhos, não acompanhar seu crescimento. Deixar que o veneno da sua avó o corrompa, e eles me odeiem.
--Posso ver? “Victoria apontou pra foto.
Dois garotos lindos e sorridentes abraçavam, na parte de trás da fotografia uma letra cursiva e infantil “você é a melhor mãe do mundo, te amamos”
--Ou talvez você saía livre amanhã, fique com eles é por mais magoados que estejam, um dia eles ainda dirão que você é a melhor. “Marina balançou a cabeça, incrédula. “Eles são lindos, o menor tem seus olhos. “Falou apontando para ele.
--Puxou meu jeito estabanado também.
--Não tenho dúvidas.
Um silêncio incômodo se impôs. Enquanto as duas ainda se olhavam. Muito a ser dito, pouco a ser feito.
--Teria sido diferente se eu tivesse dito sim?
Victoria engoliu seco enquanto a mão fria segurou a sua.
--Não podemos voltar no tempo. Mas o que eu puder fazer para tornar o futuro mais fácil para você, eu farei.
--Prometa que não vai me deixar. Eu estou com tanto medo.
Victoria segurou seu queixo erguendo seu rosto enquanto falava olhando em seus olhos:
--Eu nunca fui boa bem quebrar promessas.
Havia ali amor, mas também um resquício de mágoa.