Feliz ano amor novo por SraPorter
Summary:

O que a passagem de ano representa de bom para as pessoas? Uma nova etapa, novas oportunidades, um novo começar? Na concepção de Marina Shultz não era bem assim. 


Faltando apenas algumas horas para o Réveillon, ela deparou-se com a maior decepção de sua vida quando flagrou o seu noivo a traindo com a sua própria irmã. Desolada, Marina saiu correndo pelas ruas de Paris, sem rumo, na tentativa de fugir daquele tormento. 


E nessa fuga deu-se o primeiro passo para a mudança do curso de seu destino. A trombada em uma bonita loira culminou, na verdade, na oportunidade que a vida estava lhe oferecendo para  encontrar o seu tão esperado Feliz Ano... Ops, Feliz Amor Novo.


Categoria: Romances Characters: Original
Challenges:
Series: Nenhum
CapĂ­tulos: 3 Completa: Sim Palavras: 9524 Leituras: 6924 Publicada: 14/01/2019 Atualizada: 14/01/2019

1. O primeiro olhar por SraPorter

2. Lista dos desejos por SraPorter

3. Feliz Amor Novo por SraPorter

O primeiro olhar por SraPorter
Notas do autor:

Esta é uma história curtinha, de apenas 3 capítulos. Originalmente era uma fanfic SwanQueen. Relendo, tive a inspiração para complementar seu enredo e criar um livro, que em breve será lançado na Amazon. Na verdade será uma duologia pelo qual estou apaixonada e espero ansiosamente para compartilhar com vocês.

Temos aqui uma degustação de como será a tragetória amorosa de duas mulheres, unidas pelo acaso. Que Feliz Ano Amor Novo as inspire e traga esperanças de encontrar o verdadeiro amor.


O Champ de Mars estava lotado. Pessoas dos quatro cantos do mundo se reuniam para aguardar a chegada da meia-noite e, por alguns minutos, ver a Torre Eiffel piscar em cores múltiplas e espetaculares, em um show de luzes inigualável.

À mim não interessava mais Paris, o romantismo que aquela noite deveria trazer, ou qualquer outra coisa. Eu estava completamente desiludida, desolada. As lágrimas embaçavam os meus olhos, ao passo em eu tentava me desvencilhar dos transeuntes que nem ao menos se importavam se eu os estava empurrando ou não. Apenas um "désolé" resolvia o problema.

O meu objetivo era ir para longe, bem longe e o quão rápido eu conseguisse, para que ele não pudesse me alcançar, me encontrar. Eu tinha que ficar longe daquele filho da mãe mentiroso e covarde.

Mesmo com todo o barulho das ruas, com os murmurinhos da multidão, eu ouvia o meu nome sendo berrado: "Marina!" "Marina!", mas eu nem ao menos olhei para trás. A única coisa que fiz foi apressar ainda mais os meus passos, segurando firme a minha bolsa ao avistar o meu carro do outro lado da avenida. Pronto. Aquela seria a minha libertação. Libertação de anos à fio de perda de identidade, de perda de amor próprio.

Quando finalmente consegui avançar um pouco mais à ponto de alcançar a calçada onde estava o veículo que me tiraria daquele lugar, uma trombada quase fez-me beijar o chão. Levantei ainda apressada, ignorando a leve dor no ombro pelo impacto, e no joelho pelo mau jeito com que o meu pé direito virou.

— Ei, morena! Morena bonita do decote bonito! - Em meio à toda a bagunça generalizada que se dava ao meu redor, ouvi uma voz feminina de timbre suave e imponente ao mesmo tempo.

Franzi o cenho tendo a minha atenção voltada para a palavra "decote". Imediatamente olhei para baixo, verificando que o meu era exuberante em demasia. Ajeitando o meu vestido, virei o rosto na direção da moça, surpreendendo-me com o que vi. A dona da voz era jovem, bonita - muito bonita, por sinal - e sorridente. Seus cabelos eram loiros, compridos e levemente ondulados. Seus olhos eram verdes, de um tom brilhante e chamativo, tal como se fosse um par de esmeraldas. Sua pele alva ganhava destaque no rosto perfeitamente maquiado, bem como seus lábios pintados com um batom cor de rosa. Ela usava um vestido branco, assim como eu - o que nos diferia das demais pessoas que ali transitavam. Também pudera! Nessa época do ano faz muito frio em Paris, e os franceses e turistas são obrigados a usar roupas pesadas para se esquentar, na maioria das vezes, casacões pretos, bem diferentes dos nossos.

Tal como eu fazia, ela me observava de cima à baixo, como se estivesse me desnudando apenas com o olhar. Porém, seu semblante um tanto quanto malicioso transformou-se quando percebeu que minha maquiagem estava borrada pelas lágrimas que derramei instantes atrás. Envergonhada, limpei meu rosto, prendendo a respiração por alguns segundos.

— Me desculpe pelo esbarrão. Estou com pressa.

— Percebi. - Ela sorriu, colocando o cabelo atrás da orelha - O que você tem a fazer deve ser bem importante mesmo para nem se dar conta de que deixou isso cair. - A moça ergueu a mão esquerda que segurava a minha bolsa e o mapa da cidade que eu carregava comigo.

— Oh, meu Deus! - Suspirei, estendendo o braço para alcançar os objetos. Eu estava um tanto quanto trêmula devido a todos os eventos que vinham se sucedendo. E com isso, assim que peguei a minha bolsa de mão, deixei-a cair no chão novamente - Desculpa. Desculpa.

Imediatamente a loira abaixou-se para me ajudar a pegar o que havia caído, tocando em minha mão "sem querer", erguendo o olhar no exato momento em que fiz o mesmo. Só faltou termos gesticulado em câmera lenta. Isso soa familiar? Pois a mim, sim. Já devo ter visto essa cena ao menos umas milhares de vezes nos filmes românticos - e se bobear, até nos não românticos - e ter lido mais outras tantas milhares de vezes em diversos livros. Provavelmente esse cenário está no topo dos acontecimentos clichês. Se existisse um concurso de clichês, estaríamos ganhando em disparada.

— Não precisa pedir desculpas por isso. - Ela sorriu, desviando o seu olhar do meu, dando uma discreta mordidinha no canto do lábio inferior.

— Obrigada. - Forcei um sorriso em retribuição à sua dupla gentileza para comigo.

Virei-me, retomando o meu caminho em direção ao meu carro.

— Bonita aliança. - A voz aveludada da mulher fez-se ouvida próxima à mim novamente - Parabéns! Há quanto tempo está noiva?

Olhei, de cenho franzido em estranheza em sua direção, e lá estava ela, caminhando despretensiosamente ao meu lado, como se aquilo fosse um corriqueiro passeio entre amigas. Respirei profundamente, denotando claro enervamento com a pergunta que me fizera lembrar do maldito anel.

Por instinto, acabei escondendo o meu dedo anelar direito atrás da bolsa que carregava, mas as lembranças começaram a se embolar em minha mente, com flashs de tudo o que havia vivido em meu relacionamento até ali. Isso trouxe à tona o ódio imensurável que eu sentia até há minutos atrás. Em resposta àquele sentimento ruim que me corroía por dentro, tirei a aliança, jogando-a dentro de uma lixeira.

— Não estou mais noiva. - Respondi à loira.

— Mas… Como assim? - Ela parecia deveras surpresa, assustada. Abri a porta do Coupé preto que havia alugado, e a moça logo a fechou de maneira atrevida, deixando-me boquiaberta com a sua atitude - O que você fez? Quer dizer, por que você fez isso? - Olhei para a sua mão que me impedia de abrir o automóvel, e ela a retirou, suspirando.

— Ele me traiu. - As palavras saíram de minha boca e atingiram diretamente o meu coração, terminando de quebrar o que já era só um amontoado de cacos. Relatar o ocorrido em voz alta soava ainda mais deprimente - Ele me traiu com a minha irmã. - Repeti, acrescentando outra informação, tamborilando os meus dedos no teto do carro, mirando um ponto cego em meio à multidão.

— Então você está totalmente no seu direito. Fez foi pouco. Eu jogaria o próprio cara na lixeira.

Franzi o cenho novamente, mas dessa vez, olhando bem dentro de seus olhos vivazes e brilhantes. Eu tentava entender o que mais prendia a minha atenção naquela loira: se era o seu rosto tão perfeitamente delineado, se eram os seus dentes brancos que se revelavam através do sorriso largo, se era o seu perfume amadeirado, o ar de aconchego que estranhamente ela me transmitia, ou se era todo o conjunto da obra.

— Obrigada, mais uma vez. - Agradeci, interrompendo os segundos mudos que se deram entre nós.

— De rien mademoiselle.

E de novo o clichê recaiu sobre nós. O silêncio instaurou-se enquanto nos encarávamos. Eu quis interromper aquele contato visual, juro que quis, mas era impossível. Impossível. Aquelas orbes esverdeadas não desviavam a atenção de mim nem por um segundo, dando a sensação de que novamente a loira me despia, mas dessa vez era a alma. Ela parecia tentar me ler, me decifrar de alguma maneira, e confesso que comecei a gostar daquilo. Gostei e procurei retribuir. Busquei naqueles lindos olhos a resposta para o ar enigmático que a dona deles carregava consigo.

Quando a mulher percebeu, entreabriu a boca, como se fosse dizer algo, mas recuou pela falta de coragem. E naqueles poucos minutos em que nos "conhecemos", foi a primeira vez que a percebi constrangida. O rubor de suas bochechas e o risinho nervoso deixou-a ainda mais graciosa, encantadora. Por Deus! Alguém devia proibir essa mulher de sorrir dessa maneira! É uma afronta à sanidade de qualquer um. Céus! Essa constatação, quando percebida por mim, me fez corar também. Eu ainda estava perturbada mentalmente. Só podia ser isso. Esqueci até do cafajeste que corria atrás de mim entre a multidão.

— Então… - Balbuciei.

— Eu… Tenho que ir. - A loira apontou para a Torre Eiffel, não parecendo muito certa de suas palavras.

— É claro.

— Tchau.

— Tchau.

Abri a porta do meu carro, observando-a sumir por entre aquele mar de gente. Imitei seu gesto de morder o lábio antes de entrar e dar a partida, dirigindo pelas ruas de Paris em busca de um bistrô que estivesse funcionando na véspera do Réveillon. Seria um milagre natalino atrasado, como também seria milagre encontrar uma mísera música na playlist de merda que só me fazia lembrar do traste culpado pela maior desgraçada que já aconteceu na minha vida. E agora? O que eu faria com aquelas canções que nunca mais poderiam ser ouvidas sem que eu chorasse um rio de lágrimas? Teria que ignorar todas, bem como os seus cantores? Merda! Mais uma coisa a ser acrescentada na lista de culpabilidade daquele puto sem mãe.

Distraída com meus pensamentos desconexos, nem havia me dado conta de que estava passando em frente a um charmoso café, com mesinhas modernas e encantadoras, dispostas do lado de fora do estabelecimento decorado com algumas flores, bem ao estilo parisiense. Dei uma freada brusca, suspirando aliviada em seguida, manobrando o veículo e conseguindo estacioná-lo na devida vaga.

Antes de sair do carro, lembrei-me de que levava no banco de trás um exemplar de The Spirit of Romance, de 1910, do renomado escritor Ezra Pound. Peguei-o, juntamente com a minha bolsa de mão, caminhando à passos lentos para dentro do estabelecimento.

Aquele lugar era, de certa forma, audacioso. Um bistrô requintado, com galeria de artes e um belo jardim frontal. A loja, na verdade, era mais um desses casarões antigos com a arquitetura específica, só encontrada na Europa. Era dividido em belos ambientes: o salão interno - onde ficavam expostos quadros e fotos, e as mesinhas externas. Com certeza o responsável pelo projeto daquele bistrô era uma pessoa articulada e totalmente voltada ao mundo multicultural, que pensou em um lugar único, onde todos pudessem se divertir e se emocionar.

Introspecto como o meu espírito estava naquele instante, ele conduziu a minha escolha a uma mesa aos fundos, na área menos ocupada do estabelecimento, próxima de alguns sofás que circundavam uma lareira.

Quando o garçom aproximou-se com o cardápio, sorri brevemente, solicitando o preparo de um cappuccino com canela. Ele deve ter demorado no máximo dois minutos para retornar com o pedido, pois foi só o tempo de um suspiro e uma circulada básica com o olhar pelo ambiente.

Aconcheguei-me na cadeira, atentando para a excentricidade de, por ser a noite que antecedia o Ano Novo, haver muitas almas solitárias como a minha transitando por ali.

Dando de ombros, abri o livro e comecei a folheá-lo, relendo um trecho que eu achava deveras importante. Concentrei-me a tal ponto na leitura, que só me dei conta de que existiam outras pessoas ao meu redor, quanto o garçom aproximou-se da mesa, retirando a xícara já vazia, oferecendo-me outro café. Assenti com a cabeça antes de dizer-lhe um sonoro "merci".

Quando estava prestes a abrir o meu livro novamente, um perfume marcante invadiu o meu olfato, fazendo-me olhar para trás de súbito.

— Posso me sentar com você? - Era ela. A dona da voz mais melodiosa que meus ouvidos tiveram o prazer de ouvir. Talvez nem fosse tanto assim, mas agradava-me esse exagero poético. Pensei em responder, mas somente pensei. O nervosismo que me acometeu, tal como acomete os jovens inexperientes iniciantes nas relações sociais e sexuais, não permitiu que eu proferisse nem uma só palavra. A loira dos olhos marcantes estava novamente diante de mim, linda e sorridente - Olha só o destino conspirando mais uma vez para que nos conheçamos, morena bonita do decote bonito.

Não resisti em dar uma breve risada divertida, gesticulando de forma a indicar a cadeira que eu oferecia para que se sentasse.

— E não é de bom tom contrariá-lo, não concorda? - Eu disse, agradecendo ao rapaz que trazia a minha segunda dose de cappuccino da noite. A loira aproveitou para fazer o seu pedido: um expresso com limão siciliano - Devo confessar que acho estranha essa combinação. - Comentei.

— Nós? Nossa combinação é estranha? - Ela indagou, erguendo o sobrolho esquerdo, arrancando-me uma risada mais alta.

— Não! O seu café.

— Ah, sim. Noites especiais carecem de bebidas especiais. O toque de limão trás um contraste de sabores entre o amargo e o azedo que, à primeira instância, realmente não agrada o paladar, mas ao segundo gole, te faz flutuar para outra dimensão. É quase surreal. Não sei explicar com precisão. - Sorri, encantada com toda aquela desenvoltura e leveza que a loira carregava. Era isso! O exagero poético estava nela. Na verdade, eu arriscaria dizer que o exagero poético era ela. Ficamos mais uma vez nos encarando em silêncio. Mais um pouco e poderíamos classificar a situação como parte de nossa rotina. A rotina de duas conhecidas desconhecidas - Então, você vem sempre aqui? - A mulher de batom rosa perguntou, após bebericar seu excêntrico café quando o trouxeram à mesa.

Gargalhei ainda mais alto que da vez anterior. Deus! Ainda por cima era divertida.

— Para falar a verdade, eu não faço a mínima ideia de onde estou.

— Ricardou. Alizée Ricardou. - Ela estendeu a destra em cumprimento.

— Lindo nome. Marina. Marina Schultz.

Terceiro clichê da noite: a demora em nossas mãos se separassem.

— Sabe, Marina, desde que nos despedimos no Champ de Mars eu fiquei pensando acerca do que houve entre você e seu noivo. Não estranhe, por favor. É que eu sou uma amante inveterada de histórias de todos os tipos, uma expressão mais chique para curiosa. - Ela riu - Pode me contar o que houve? - Respirei fundo, prendendo a respiração. Eu não tinha certeza se queria comentar sobre o assunto, se estava preparada para remoer aquela tristeza. Eu não tinha certeza nem se conseguiria não me debulhar em lágrimas somente com a pergunta da loira - Se não estiver confortável, tudo bem. Eu assumo o adjetivo grosseiro de curiosa intrometida.

— Não. Eu… Acho que talvez possa… Possa ser bom falar sobre isso. Quem sabe não é um meio de libertação, não é? - Ela tomou a minha destra entre as suas mãos, acariciando a minha pele com os polegares. Olhei para o local, um pouco assustada com o gesto, mas não fiz menção nenhuma de impedi-la de prosseguir. Estava até bem agradável aquele contato mais íntimo e encorajador - Namoramos por dez anos. Ficamos noivos por três. Raramente brigávamos e nos dávamos bem na cama. Eu imaginava que nosso relacionamento era perfeito, quase um conto de fadas, ou que éramos protagonistas de um desses filmes românticos, sabe? A minha vida era repleta de declarações de amor, flores, presentes, viagens a dois, jantares à luz de velas... Eu realmente tinha a certeza de que éramos o amor verdadeiro um do outro. Viemos à Paris com as nossas famílias, por insistência dele, para passarmos mais um dos diversos momentos encantados que, até então, eram praxe entre nós. Bom, ao menos eu pensei que a viagem tinha essa finalidade. Eu jamais poderia desconfiar que tudo não passava de encenação, de uma bela farsa. Um pouco antes de nós duas trombarmos, descobri que ele tinha um caso com a minha irmã e que iria pedi-la em casamento. Nós estávamos a caminho de uma festa de réveillon organizada por um amigo nosso, francês, que conhecemos em uma de nossas viagens à Londres…

— A festa do Henry Moreau? - Ela interrompeu-me.

— Sim, isso mesmo. Como sabe?

— Mais uma obra do destino querendo que nos conhecêssemos a todo custo. - Ela sorriu, executando o gracioso gesto de colocar uma mecha de seu cabelo atrás da orelha - Eu também estava a caminho de lá, mas agora não vem ao caso. Prossiga.

Uau! Parece que esse destino estava mesmo empenhado nessa missão de nos fazer ocupar o mesmo ambiente. Isso justificava a sua vestimenta atípica para o tempo frio que se dava na Europa nessa época.

— Hum… - Pigarreei - Então… estávamos indo para a festa, nos desencontramos e, em meio à minha procura, o vi de joelhos colocando uma aliança no dedo da minha irmã, e em seguida eles se beijaram apaixonadamente, igual beijo de cinema. Aí eu gritei "Seu filho da mãe! Está tudo terminado entre nós" e saí correndo. - Suspirei profundamente, erguendo o olhar que insistia em mirar seus polegares ainda me acariciando - Mas, e você? Porque está aqui e não na festa? - Indaguei, desfocando o assunto de mim antes que eu me afogasse nas lágrimas que já começavam a escorrer pelo meu rosto.

— A mulher com quem eu ia sair preferiu ficar com outra. - Ricardou deu de ombros, recostando-se na cadeira, só então soltando a minha mão - Resolvi tomar um café para afogar as minhas decepções... E cá estou.

— Mulher? - Perguntei, curiosa, apesar de não ser uma total surpresa para mim.

— Sim. Eu sou lésbica.

— Uau! - Exclamei sem querer.

— Isso é um problema para você? - A loira inclinou seu corpo para frente, tombando o tronco por sobre a mesa, mantendo um sorriso dúbio nos lábios.

— Nunca será. - Imitei sua atitude, também inclinando o meu corpo.

Silêncio e uma encarada. Nossos olhares se desviaram quando, em sincronia, pegamos as nossas xícaras, terminando de consumir as bebidas que ali continham.

— Você que ir a um outro lugar, Marina? - A pergunta veio com a mordidinha no canto do lábio, deixando-me completamente sem escolhas. 

Lista dos desejos por SraPorter
Notas do autor:

Amorinhas, suuuuper indico ouvirem as músicas citadas nos capítulos nos momentos em que elas aparecem para dar aquele clima e ficar tudo mais lindo, como cena de filme! 
Vou deixar a tradução da primeira música, bem como o que as lindas disseram em francês nas notas finais. 
No mais, boa leitura à todas!

Após muita insistência por parte de Alizée, permiti que ela pagasse a minha conta junto com a sua. Fomos caminhando em direção à saída, com a loira oferecendo-me um dos casacos que carregava.

- Hoje é a última noite do ano. A última chance que temos. - Ela disse, sorrindo aquele sorriso largo para mim - Já que estamos ambas desiludidas, decepcionadas, o que você acha de fazermos dessas últimas horas de 2018, as mais inesquecíveis de nossas vidas?

A proposta, vindo de uma mulher que conheci não fazia nem uma hora direito, soava um tanto quanto inconsequente. Em contrapartida, levando em conta todas as merdas que tinham me acontecido naquele dia, aproveitar o inesperado poderia até ser instigante, uma boa opção atrativa. A minha única opção, na verdade.

- Está querendo que eu passe a virada de ano contigo? - Indaguei.

- Exatamente. Por que não? Passe essa noite comigo. - Ricardou suspirou, encarando-me - Aquele Peugeot é seu, não é? É que estou a passeio aqui em Paris e...de táxi. O meu fusca amarelo não quis colaborar comigo nessa viagem. - Rimos.

- À passeio? Não é daqui? – Indaguei, curiosa.

- Sou, mas me mudei há alguns anos. Agora só venho de passagem, sem data para voltar e sem pretensão de ficar.

- Entendo... – Mentira! Eu não tinha entendido absolutamente nada de sua explicação, mas seu tom de voz talhou as minhas intenções de entender o que quer que fosse sobre o assunto. Aquele parecia ser um território proibido e não seria eu a explorá-lo, ao menos não por enquanto – Bom, eu estou de carro, como você já sabe. - Fiz uma pausa dramática, prendendo um riso - E pelo visto você quer uma carona, não é mesmo?

- Uau! Acertou! Adivinhona! - Seu sarcasmo em brincadeira liberou mais um pouco de minha risada.

Caminhamos em silêncio os poucos passos até o automóvel. O som de nossos saltos batendo na calçada se sobressaíam aos inúmeros murmurinhos e conversas alheias, no vaivém das pessoas correndo para chegarem aos seus destinos antes da meia noite, ou apenas em um último passeio informal do ano em Paris.

Abri a porta e, antes que a permitisse entrar, ajeitei a pouca bagunça que se dava ali, escondendo tudo no vão do banco de trás. Um menear com a cabeça foi seu agradecimento. E logo estávamos ambas aquecidas dentro do Coupé, mais uma vez envoltas no silêncio, agora incômodo, constrangedor, desses que antecedem uma cena crucial entre os protagonistas, o que geralmente é um beijo - mas não seria isso no nosso caso.

- Você tem papel e caneta disponíveis? - A loira perguntou, aos suspiros.

- Hã... - Olhei-a, erguendo a sobrancelha direita, sem entender bem o seu pedido - Acho que... - Bufei baixo, vendo-me obrigada a mexer na bagunça que tentei esconder - Tenho algo aqui em algum lugar... - Virei meu corpo para trás, e a proximidade com o banco em que Alis estava sentada, permitiu que eu sentisse com mais intensidade o seu perfume inebriante. Ofeguei ao perceber a sua respiração igualmente pesada, mas engoli em seco e fingi que nada daquilo estava acontecendo. Era loucura da minha cabeça, definitivamente. Com um pouco de dificuldade, consegui encontrar um bloco de notas, retomando a minha postura diante do volante, após entregá-la junto com uma caneta resgatada do porta-luvas - Prontinho. Para que quer essas coisas?

- Bom... - Ricardou inclinou o corpo para o lado à fim de olhar melhor para mim - Vamos anotar uma lista de coisas que faremos para tornar essa noite inesquecível, dessas a entrar para os anais da história. - Ri da sua empolgação, meneando a cabeça em negativa - Vai, me ajude, Shultz. O que podemos fazer?

- Hum... Não sei. Digamos que eu nunca tive ideias muito mirabolantes e divertidas para nada em minha vida. Não sou de me animar por ter que sair da minha zona de conforto.

- Ah, qual é? Fala sério! Você fazia o quê da vida? - Ela parecia indignada.

- Acho que eu só sobrevivia. - Respondi, um pouco desanimada, lembrando-me dos meus anos passados.

- Me desculpe. - A loira suspirou profundamente. Ela ficou batendo a ponta da caneta sobre o bloco, como se aquilo fosse ajudá-la a pensar - Ok, vamos por partes. Me diga... O que você sempre desejou fazer, mas nunca teve a oportunidade? Pode ser qualquer coisa. Qualquer...

Pressionei meus lábios pensando, analisando meus desejos não realizados. Eu nunca tinha ido à uma festa de gala. Não por falta de convite, de oportunidades, mas sim por recusas por parte de Bill, meu ex-noivo. Provavelmente ele ia com Mariah, minha irmã traiçoeira, inventando todo tipo de desculpas esfarrapadas para não me acompanhar.

- Eu adoraria ir à uma festa de gala. - Falei, finalmente.

Alizée anotou no papel o "item 1", encarando-me com os olhos estreitados como se estivesse matutando algo. De repente seu rosto abrandou-se, iluminado pelo sorriso que sempre me mostrava o quão brancos e bonitos eram os seus dentes.

- Pois bem, Marina Shultz... - Ela ajeitou-se no banco - Eu vou te levar à uma festa de gala, bem ao estilo dos filmes hollywoodianos.

Aquela mulher tinha um "quê" de inocência infantil que me encantava. Dei a partida no carro, seguindo sem rumo.

- E você? - O que você gostaria de fazer e não teve a oportunidade? Não vai anotar também? Ou os desejos a se realizarem serão só os meus? - Perguntei, desviando a atenção da via por alguns segundos para olhá-la.

- Eu sou espertinha, querida, e já escrevi aqui no item 2, mas não irei te contar até depois da nossa festa. - Ela disse, fechando o bloco de notas e verificando as horas em seu celular - Temos quase três horas inteiras até a meia-noite. Precisamos nos apressar. - Ela digitou algo em seu celular, sorrindo satisfeita alguns minutos depois - Vou te indicar o caminho que seguiremos. Não sei se vai ser como você imagina, mas espero que lhe agrade.

- Ok, senhorita.

Comecei a dirigir sob as indicações dela - meu GPS humano - indo parar em frente ao La Clef Tour Eiffel Paris. Eu já havia ouvido falar desse hotel há anos, desde quando me entendia por gente e sentava para prestar atenção nas histórias que minha mãe contava sobre suas viagens.

Uma infinidade de flores vermelhas iluminava a fachada do lugar. Desde a sua abertura, em 1900 e sei lá quanto, o La Clef era referência na hotelaria de luxo parisiense, por sua localização privilegiada no coração do Champ de Mars.

Dizem que a sua suíte "Royale" possui 420 m² de puro conforto. E no quesito luxo, os clientes poderiam desfrutar de um extraordinário SPA criado pela grife Dior. Para seu restaurante, contratavam os melhores de Paris. Exemplo era o grande chef Alain Ducasse, que assinava variados cardápios com requinte sem igual, de acordo com o ambiente criado por um decorador de renome.

No bar, onde era servido um dos melhores chás da capital, havia de se exaltar o prazer único de um café da manhã com vista para a Torre Eiffel. Uma experiência de puro luxo, graças ao qual este estabelecimento pode legitimamente se orgulhar de ser "o palácio de amanhã".

Estranhei o fato de Alizée adentrar no local cumprimentando e sendo cumprimentada com certa intimidade por funcionários e algumas pessoas que passavam pelo saguão. Talvez ela fosse hóspede recorrente e antiga, mas senti que algo ali era demasiado estranho na forma como a tratavam. Preferi não perguntar à respeito naquele dado momento, aguardando para ver até onde a aventura com a desconhecida iria me levar.

Ricardou sorriu ao abrir a porta de um duplex luxuoso, fazendo menção para que eu entrasse. A decoração desenvolvia o tema dos clubes dos anos 30 e oferecia uma vista emblemática dos telhados de Paris. Seu ambiente era masculino e chique, com detalhes asiáticos, revestido de uma variedade de cores, passando do azul ao alaranjado, do marron ao bege que revestia as paredes do quarto.

O apartamento era composto por uma sala, um quarto em mezanino com uma cama gigantesca, travesseiros e edredom de penas drapeados de cetim e algodão. Dispunha também de um banheiro com banheira e toilettes separados, além de uma máquina de café Nespresso à disposição na "micro cozinha".

- Uau! Deve pagar uma fortuna para se hospedar aqui. E eu achando que minha mãe era a viciada no luxo parisiense. – Ri, caminhando lentamente por todo o local, admirando detalhe por detalhe dos cômodos da suíte.

- Eu não tenho muita escolha, digamos assim. - Ela pareceu não querer tocar no assunto, o que aguçou ainda mais a minha curiosidade. Alizée foi até um outro cômodo dentro do quarto e me chamou. Era um closet, onde ficava uma penteadeira e armários na cor preto e prata, tal como se vê nas revistas de fofocas sobre celebridades. No centro do local havia malas que não sei se estavam recém feitas ou se ainda não tinham sido desfeitas. A loira abriu um dos compartimentos, analisando todos os vestidos que estavam pendurados ali, escolhendo dois dos mais vistosos e elegantes, um preto e um azul escuro. Ricadou olhou para mim, em seguida para os vestidos, repetindo o ato ao inverso. Por fim, após alguns minutos naquele "vaivém de olhares", ela estendeu-me o azul - Acho que esse ficará maravilhoso em você. Nunca usei. Talvez ele estivesse te esperando.

Assim que tomei a peça em minhas mãos, a loira retornou para o quarto, colocando o outro vestido sobre a cama. De novo no closet, ela vasculhou a sapateira, oferecendo-me um par de scarpins e depois uma meia-calça.

Eu duvidava muito que aquelas coisas me serviriam, uma vez que a loira era bem mais "corpuda" do que eu. Inclusive, seus braços. Uau! Era fortes, mais musculosos do que o comum entre mulheres, mas não era grosseiros, muito pelo contrário, a deixavam ainda mais sexy.

Para a minha surpresa, o vestido azul tomara que caia, caiu como uma luva em mim, como se tivesse sido modelado especialmente para a minha pessoa. O meu busto ficou valorizado na medida certa, assim como a minha cintura e os quadris. Havia um "quê" de sensualidade sem nada de vulgar. As meias pretas ressaltavam a cor do vestido, conforme eu caminhava, dando um toque charmoso à mais na vestimenta. Os saltos altos, aveludados, casaram perfeitamente com o restante da composição.

Ricardou apareceu repentinamente no quarto, saída do banheiro, vestindo a peça preta, com pontos luminosos sobre o tecido e pregas em lugares estratégicos que permitiam um ar sexy e chique ao mesmo tempo. Ela havia prendido os cabelos em um penteado de coque, o que a deixou ainda mais elegante. Seus seios saltavam do decote, mas não era nada escandaloso. Era lindo. Lindo como eu nunca tinha visto antes.

- Você está... Maravilhosa! Wow! - Ofeguei, sorrindo boquiaberta e engolindo em seco enquanto admirava as suas curvas exuberantes e expostas.

Meu Deus, o que estava acontecendo comigo? Por que eu estava sentindo aquelas pontadas na barriga? Porque aquela desconhecida me fazia sorrir daquela maneira?

- Você também está incrivelmente bonita, Marina. - Ela elogiou-me, igualmente desconcertada e ruborizada - O azul é a sua cor. Você ficou ótima nesse vestido, morena do decote bonito. -

Sorri, aproximando-me dela, e ajeitando uma mecha de seu cabelo que havia ficado solta.

- Obrigada. O preto também fica muito bem em você, loira dos lábios rosados. - Sussurrei, rindo.

Alizée ofereceu-me um casaco, me ajudando a vesti-lo, e fiz o mesmo com ela. Assim, seguimos de braços dados até meu carro.

Novamente a loira foi me indicando o caminho pelo qual eu deveria dirigir. Se fosse para eu me guiar sozinha, estaria completamente perdida. Estava óbvio que ela conhecia aquelas ruas parisienses muito melhor do que a motorista mediana que eu era. Aliás, para falar bem a verdade, acho que nunca tinha passado por ali, do contrário, me lembraria.

Quando ela ordenou que eu estacionasse em frente à uma espécie de galpão, franzi o cenho em estranheza. Aquele não era bem um lugar que eu pudesse imaginar como sendo o endereço de uma festa de gala. De fato era um salão de festas bem espaçoso e requintado, mas passava longe de onde pensei que iríamos.

- Eu disse que talvez não fosse como poderia imaginar, mas te garanto que teremos uma noite mágica, como no seu desejo. - Ricardou falou empolgada, tomando a minha mão e nos conduzindo local à dentro.

O ambiente era bem iluminado, com a decoração em branco e dourado. Parecia ter havido ali uma festa de aniversário, uma vez que se andava por entre balões espalhados no chão e enfeites. Ao fundo, podia se ver um palco enorme preparado para um show. No teto, globos refletiam e espalhavam o brilho das outras luzes advindas de lâmpadas estrategicamente posicionadas.

O local estava vazio, mas notava-se que até há pouco pessoas tinham desfrutado de um evento de grande porte, pois algumas mesas estavam arrumadas e outras ainda tinham que ser desfeitas das sobras de comida e taças de cristal.

- O que quer que tenha acontecido aqui, ao que parece foi lindo... – Comentei ainda circundando o galpão com o olhar.

- Teve uma festa de 18 anos há algumas horas. Pela incompetência dos funcionários contratados, supus que ainda não tivessem ajeitado tudo isto. Eu estava certa na minha suposição. - Ela riu.

- E como sabia que estaria disponível, quero dizer, aberto? - Indaguei, curiosa.

- Digamos que... Eu não sabia desse detalhe. - Alizée olhou para mim, prendendo o riso.

- Ai, meu Deus! - Exclamei pausadamente, levando a destra ao peito - Você está querendo dizer que invadiríamos o lugar? - Eu a encarava, estarrecida, chocada.

- Tecnicamente, nós já invadimos. Quem não tem autorização para estar em um lugar é um invasor, não?

- É... Você está certa, mas... Nós íamos arrombar a porta? Por que fizemos isso? - Continuei boquiaberta com a ousadia daquela mulher.

- Detalhes, morena. Detalhes... - Ricardou gargalhou, tirando o seu casaco, e em seguida o meu, colocando-os em duas cadeiras que estavam ali perto - Quer ter a sua festa de gala ou não? - A loira indagou ao estender a mão para mim.

- Claro, mademoiselle. - Respondi, caminhando de mãos dadas com a mulher até o centro do salão.

Tudo aquilo era uma loucura, de fato, no entanto, o que eu tinha a perder? Minha vida já estava toda fodida; ser presa em Paris por invasão à propriedade privada era o de menos.

- Nós temos pouco tempo aqui. Dentro de alguns minutos chegarão os encarregados pela desmontagem da decoração e os responsáveis pela limpeza. Infelizmente não poderemos demorar. Teremos que sair.

- Eu não sei o porquê, mas estou sentindo que estes serão os melhores minutos de todo o ano. - Respondi.

Alizée tocou meu rosto, sorrindo ternamente, e eu retribuí da mesma maneira.

- Fique aqui. - A loira literalmente correu até a parede lateral ao palco, mexendo em uma caixa de comandos. Logo as luzes se apagaram, permanecendo acesas apenas algumas que davam a impressão de estarem caindo em cascatas de pontos luminosos dourados. Outro foco de luz se dava em cima do palco, mais especificamente sobre uma cadeira no qual Ricardou se sentou, podendo assim ajeitar um acordeom em seu colo. Fumaças douradas tomando conta de todo o piso contribuíam para o clima mágico que se instaurou ali.

- Alizée... - Sussurrei, aos suspiros, observando aquela bela mulher cantar e tocar com maestria o clássico "La vie en rose".

"Des yeux qui font baisser les miens

Un rire qui se perd sur sa bouche

Voilà le portrait sans retouche

De l'homme auquel j'appartiens

Quand il me prend dans ses bras

Il me parle tout bas

Je vois la vie en rose

Il me dit des mots d'amour

Des mots de tous les jours

Et ça me fait quelque chose

Il est entré dans mon cœur

Une part de bonheur

Dont je connais la cause

C'est lui pour moi, moi pour lui dans la vie

Il me l'a dit, l'a juré pour la vie

Et dès que je l'aperçois

Alors je sens en moi

Mon cœur qui bat

Des nuits d'amour à ne plus en finir

Un grand bonheur qui prend sa place

Des ennuis, des chagrins, s'effacent

Heureux, heureux à en mourir

Quand il me prend dans ses bras

Il me parle tout bas

Je vois la vie en rose

Il me dit des mots d'amour

Des mots de tous les jours

Et ça me fait quelque chose

Il est entré dans mon cœur

Une part de bonheur

Dont je connais la cause

C'est toi pour moi, moi pour toi dans la vie

Il me l'a dit, l'a juré pour la vie

Et dès que je t'aperçois

Alors je sens dans moi

Mon cœur qui bat..."

Assim que a canção terminou, ofereci-lhe uma salva de palmas, encantada com sua desenvoltura e destreza para tocar e cantar tão lindamente. Sua voz não era melodiosa e macia apenas quando falava; a loira cantava como um anjo. Talvez ela mesma fosse a personificação de um.

- Você é simplesmente demais! Eu estou... Emocionada. - E de fato estava, tanto que tive que limpar uma lágrima que escapou e escorreu pelo o meu rosto.

- Obrigada. - Rindo, um tanto quanto constrangida, Alizée foi até onde havia deixado o seu celular, trazendo-o para mais perto de nós. Mexeu nele, colocando para tocar "Hit the Road Jack" - Deixemos um pouco o romantismo de lado e vamos curtir a sua festa de gala no melhor estilo Ray Charles de ser. M'accorderez-vous cette danse?

- Oh, Ricardou, s'il te plaît, bien sûr que si.

De mãos dadas, passamos a dançar juntas, rodopiando, usando todo o espaço da pista de dança. Risadas, passinhos improvisados, e cantoria se deram durante todo o tempo em que a música tocou. Em seguida, pudemos ouvir "The Look of Love" da Diana Krall.

A loira pegou na minha mão, puxando-me para mais perto dela, encostando o seu corpo no meu e nos embalando em um ritmo lento e suave, tal como a melodia que tocava naquele momento. Coloquei meus braços em torno de seu pescoço e ela pôs as mãos na minha cintura, fazendo-me arrepiar da cabeça aos pés com o contato, e com o vapor do seu hálito quente em meu ouvido quando sussurrou:

- Você é linda!

- Obrigada. - Sussurrei de volta, afastando o rosto um pouco, somente o suficiente para poder olhá-la nos olhos - Só não mais do que você.

- Obrigada também. - Ricardou sorriu, magnificamente. Permanecemos caladas, nos encarando e inspirando o clima realmente mágico que se dava entre nós. Repentinamente, a desconhecida começou a declamar parte da letra da música, como se estivesse proferindo aquelas palavras para mim - Você tem o olhar do amor. Está na sua cara. Um olhar que o tempo não pode apagar. Seja minha essa noite. Deixe isso ser apenas o começo de muitas noites como essa. Vamos fazer um juramento de amantes e então selar com um beijo. Eu mal posso esperar para segurar você, sentir meus braços ao seu redor. Quanto tempo esperei... Esperei só para te amar. Agora que te encontrei, nunca vá embora. Nunca vá embora.

Lentamente nossos rostos foram se aproximando. Ambas miravam os lábios uma da outra e prendiam a respiração. Sim, em câmera lenta. Quinto clichê do nosso encontro, se é que o tempo decorrido desde que a conheci poderia ser chamado assim. Mas, como as coisas boas geralmente não se estendiam para mim, antes que aquela boca rosada alcançasse a minha, o celular de Alizée tocou, quebrando todo o encantamento do momento.

- Droga! - Murmurei sem querer.

- Temos de ir. - Ela disse, pegando os nossos pertences e arrastando-me apressada dali.

Alizée, mais uma vez, deu-me as direções e eu apenas segui. Estacionamos em frente a uma espécie de empório. Após me dar um beijo estalado na bochecha, a loira saiu do carro e caminhou apressada até a loja que estava milagrosamente aberta. Ela comprou alguns em que trouxe em sacos de papel, acomodando-os no banco de trás.

- O que tem aí? - Perguntei, tentando ver o que era, recebendo em troca o semblante sisudo da conhecida desconhecida.

- Logo saberá, curiosa. - Ela riu - Vamos rumo à nossa última parada...

Notas finais:

* M'accorderez-vous cette danse?
(Me concede essa dança?)


* S'il te plaît, bien sûr que si.
(Por favor, é claro que sim)


A vida cor de rosa


Olhos que fazem baixar os meus
Um riso que se perde em sua boca
Aí está o retrato sem retoque
Do homem a quem eu pertenço


Quando ele me toma em seus braços
Ele me fala baixinho:
Vejo a vida cor-de-rosa


Ele me diz palavras de amor
Palavras de todos os dias
E isso me toca


Ele entrou no meu coração
Um pouco de felicidade
Da qual eu conheço a causa


É ele para mim, eu para ele na vida, 
Ele me disse, me jurou pela vida.
E desde que eu o percebo


Então sinto em mim
Meu coração que bate
Noites de amor a não mais acabar


Uma grande felicidade que toma seu lugar
Os aborrecimentos e as tristezas se apagam
Feliz, feliz até morrer


Quando ele me toma em seus braços
Ele me fala baixinho
Eu vejo a vida em rosa.


Ele me diz palavras de amor
Palavras de todos os dias
E isso me toca.


Entrou no meu coração,
Um pouco de felicidade,
Da qual eu conheço a causa.


É ele para mim, eu para ele na vida, 
Ele me disse, me jurou pela vida.


E desde que eu o percebo
Então sinto em mim
Meu coração que bate.

Feliz Amor Novo por SraPorter

Eu não fazia ideia de onde estava, mas encantei-me no primeiro segundo em que pus os pés ali. Era uma espécie de jardim, área de piscina, não sei dizer ao certo. A água cristalina reluzia com a luz da lua que pairava sobre nós. Ricardou havia comprado uma garrafa de Chardonnay, um champanhe, duas garrafas de vodca, uma de uísque e variadas guloseimas para degustarmos enquanto bebíamos. Para entrarmos naquele local, a loira arrombou o portão. Por incrível que pareça não me assustei com a sua atitude. De certo modo, era o ar contraventor, aventureiro e misterioso que Alizée carregava consigo - em contraste com a sua delicadeza e feminilidade - que mais me atraía.

Sentamo-nos na borda piscina com os pés na água, e ficamos por um tempo imensurável comendo, bebendo, conversando, rindo à beça - conduzidas, obviamente, em boa parte pelo álcool - e nos conhecendo melhor.

- Shultz, eu quero muito te dar um beijo.

- Então dê, oras. - Respondi, sem olhar para ela, e gargalhando sem parar.

- Estou falando sério.

- E eu estou rindo?

- Está sim!

- Ah, é? Desculpa! - Eu disse, engolindo o riso e encarando-a, séria.

Aí quem começou a rir foi ela, que teve que puxar uma grande quantidade de ar para os pulmões à fim de se conter e, finalmente, me dar o beijo que acredito estarmos ansiando desde um dado instante no salão de festas.

Ricardou abaixou a cabeça e começou a roçar os nossos lábios. Eu não me afastei. Recebi o beijo e até retribuí, permanecendo à sua mercê por mais algum tempo. O beijo estava calmo, sem pressa, assim, possibilitando conhecermos cada espaço da boca uma da outra. A loira afastou-se e ficou me olhando como se estivesse hipnotizada. Pronto, era a hora do segundo beijo.

Dessa vez - com ambas sentadas de frente uma para a outra - pudemos nos beijar em uma posição mais confortável, e mais fácil de aproveitar o beijo também. Eu tentei me controlar ao máximo, mas não sou lá muito racional nessas horas, ainda mais com as sensações novas e tão prazerosas que aquela mulher estava me proporcionando. Quando dei por mim, já estava com a mão em sua nuca, entrelaçando seus cabelos de forma que os puxava para que o beijo continuasse após pequenas pausas. Nossas línguas estavam dançando embaladas na boca uma da outra.

Minha outra mão descia pelas suas costas a puxando para mais perto, quando, por acidente, minhas unhas encostaram-se a um pedaço desnudo de sua pele, fazendo Ricardou soltar um suspiro entre o beijo. Confesso que sorri internamente. Não foi proposital, mas as unhas nos excitaram mutuamente.

Depois daquele suspiro, quem não se controlou foi a loira que, propositalmente, foi descendo o zíper do meu vestido para poder tocar também em minha pele próxima à minha cintura. Sem ressalvas, permiti que ela assim o fizesse. Concedi-lhe o caminho livre para fazer o que bem entendesse comigo, rezando para que nada a fizesse parar. Seria extremamente frustrante, isso era fato.

Enquanto beijava a minha boca, e passeava as unhas pelas minhas costas, Alizée foi escorregando levemente a outra mão pela minha nuca, e indo até o meu pescoço, o inclinando para trás, beijando-o de maneira suave e molhada. Entreguei-me por completo sem impedi-la do que quer que fosse. Na verdade, até ajudei-a, arqueando a minha cabeça para trás para que ela pudesse beijar o local com mais facilidade.

A sua boca foi passeando pelo meu pescoço, indo em direção ao meu colo. O meu "tomara-que-caia" estava na metade dos seios, à milímetros dos meus mamilos, o que dava acesso pleno à loira de todo o meu decote. Com isso, ela pôde beijar-me suavemente, sondando para saber se poderia continuar... E pôde.

Devagar, Ricardou deslizou o vestido pelo meu corpo, e sem reclamar, permiti que isso acontecesse. Enquanto me deixava totalmente nua, aquela mulher de lábios rosados beijava cada pedacinho de mim que ia ficando descoberto. Quando finalmente terminou, a loira olhou-me com desejo, mas com admiração também.

- Marina, se você não me impedir agora, eu não poderei responder por mim.

- Eu estou reclamando? - Sussurrei, ofegante.

- Não, mas quero deixar claro que você pode recusar a qualquer momento.

- Ok. Entendi. Agora você podia, por favor, fazer amor comigo? Faça amor comigo, Ricardou. Faça amor comigo. Eu preciso que você me faça sua, agora. - Implorei, tocando em seu lindo rosto de pele alva.

Ricardou movimentou seu corpo de forma a se livrar de seu vestido e peças íntimas. Céus! Eu nunca tinha visto uma mulher tão bela assim em toda a minha vida. Suas curvas eram bem trabalhadas em músculos na medida certa; seus seios, sua barriga, suas pernas, sua intimidade…Vi-me diante de uma obra prima, pintada pelo mais talentoso artista.

Joguei o meu corpo para trás, como se estivesse oferecendo os meus predicados sexuais em prol de seu prazer - e estava mesmo. Alizée não se fez de rogada, e logo começou a saborear meus seios como se fossem o néctar dos deuses. Enquanto sua língua deslizava por um, suas unhas passeavam em volta do outro. Meus mamilos endureceram de imediato, deixando claro que estava adorando os seus toques sutis que me arrepiavam descontroladamente. Ora mordendo e chupando um, ora arranhando e passando a língua no outro.

Permaneci assim, extasiada e de olhos fechados, deitada no chão na beira da piscina por alguns belos minutos, até a loira decidir descer a língua pelo meu abdômen e ir deslizando a ponta dos dedos por todo rastro que ela deixava. A nem tão desconhecida mais, puxou as minhas pernas para que passassem em volta de seus ombros. Posicionada à minha frente, ela inclinou-se mais uma vez para beijar a minha barriga e passar a língua por toda a sua extensão, deslizando até o cós de minha calcinha, e passando levemente as unhas na entrada da mesma.

Pronto! Mais um pouco e eu gozaria, tamanho o prazer que Ricardou estava me proporcionando somente com as preliminares. Não tínhamos feito o sexo literalmente ainda, mas eu poderia afirmar, categoricamente, que aquele tesão eu nunca havia sentido antes, nem com tamanha intensidade. A loira desceu a mão por dentro de minha lingerie, sem tentar nada de imediato, só para provocar. Fechei os olhos vagarosamente, perdendo toda a minha razão, perdendo todo o meu juízo, perdendo a minha sanidade com aquela mulher estonteante me fazendo sua, com a dosagem certa de volúpia e romantismo.

Alizée sorriu, encarando a calcinha que ainda lhe atrapalhava. Mas pelos seus gestos, ela não estava com nenhum pouco de pressa para tirá-la. A loira ficou ali ainda, beijando a parte interna de minha coxa, mordendo de vez em quando, apertando, arranhando, até passar a língua em minha virilha, fazendo-me soltar um gemido manhoso.

A mulher mordeu os lábios e continuou, indo para o outro lado, com mais um gemido gutural escapando alto da minha boca. Por cima mesmo da calcinha, ela beijou meu sexo, que naquela altura já estava totalmente excitado, erguendo mais uma vez seu tronco para aproveitar mais de meu corpo.

Conforme foi subindo, suas mãos passearam pela minha perna até pousar na calcinha. Ela deu uma pequena afastada na mesma para a lateral, e passou os dedos só para sentir o quão excitada eu estava. Eu estava muito, muito molhada. Ricardou beijou meus seios, beijou meu colo, meu pescoço, minha orelha, e logo após morder meu lóbulo, sussurrou manhosa:

- Eu vou te dar prazer como você nunca sentiu na vida… - Sem conseguir proferir uma palavra sequer, ofereci-lhe um sorriso falho, perdido entre minha respiração e meu desejo em ser possuída por aquela mulher. A loira, então, afastou um pouco mais a minha calcinha, e sem pensar duas vezes, me penetrou de leve, com calma, como se não quisesse que aquele momento acabasse nunca mais - Eu quero te ver tremendo nos meus dedos, quero te sentir arrepiada, excitada, com fome, tesão, desejo.

Alizée aumentou o ritmo das estocadas, ora fazendo movimentos em círculos, ora entrando e saindo. Eu estava cada vez mais ofegante, prestes a ter o melhor orgasmo da minha vida. Em um dado momento, ela tirou o dedo de dentro de mim, e eu balbuciei, reclamando com a voz falha:

- Não para, por favor.

- Mas quem disse que vou parar?

Dessa vez ela enfiou dois dedos, e os ritmos não paravam de aumentar, tanto do seu vaivém na minha vagina pulsante, quanto dos meus quadris impulsionados no intuito de buscar por mais contato.

Quando a loira pensava que estava no controle da situação, que controlava nossos movimentos, tirei a sua mão de mim e me levantei, fazendo com que ela se deitasse no chão dessa vez, sentando em seu colo logo em seguida.

- Enfia de novo. - Gemi ao pé do seu ouvido.

- Uau! Hã... Tenho que te confessar uma coisa... Não costumo me adaptar bem com pessoas controlando a situação, mas pedindo assim, você pode controlar o quanto quiser.

Novamente Ricardou enfiou os dedos dentro de mim, inclinando o troco para frente para beijar meus seios, que agora estavam na direção direta de sua boca. Arqueei a cabeça para trás, rebolando, cavalgando em um ritmo intenso. Meu corpo suava com os movimentos, assim como o da "desconhecida", que ardia de tesão cada vez mais por mim.

A loira puxava meu cabelo para trás e beijava meu pescoço, mordia a minha orelha, lambia meus seios. Cada mínimo ato era luxurioso e delicioso. Continuamos proporcionando prazer mútuo até que, repentinamente, fui obrigada a tombar para frente e morder seu ombro para conter um grito quando o meu gozo veio forte. Minhas mãos apertaram sua cintura, e fui, aos poucos, desacelerando o ritmo do sobe e desce de minha vagina em seus dedos.

Quando finalmente meu corpo parou de tremer em espasmos, e minha respiração foi voltando ao normal, Alizée inverteu nossas posições, colocando-me deitada, permanecendo ajoelhada na minha frente. Seu sorriso não negava o que queria, e eu prontamente entendi, abrindo as minhas pernas conforme ela se aproximava mais do destino desejado.

- Lembra de tudo o que eu disse sobre um oral feminino? - A loira me perguntou, com malícia.

- Uhum… - Respondi, também sorrindo.

- Vou te mostrar agora que é verdade.

Antes que eu pudesse falar algo, ela abriu mais as minhas pernas, passando a língua por toda a extensão do meu sexo melado, quente, indo de baixo para cima por alguns minutos, até me penetrar com aquela delícia. Alizée entrou e saiu de dentro de mim, vez ou outra dando uma olhada rápida para o meu rosto à fim de verificar se eu a estava observando.

Para me provocar ainda mais, ela foi subindo a boca para o meu clitóris rijo, avermelhado, pulsante. A loira passou a língua em volta, lambeu algumas vezes com força, pressionando-o só para me ver ofegar mais e mais. Neste instante, firmei minhas mãos em seus cabelos, gemendo com dificuldade:

- Me chupa assim, Alizée. Me chupa…

Ela não pôde responder, afinal, estava com os lábios ocupados, mas meu pedido foi atendido como uma ordem. A “desconhecida” me chupava avidamente, intercalando as chupadas com leves mordidas, tudo isso para sentir-me tremendo em sua boca.

Os músculos de minha coxa pulsavam na lateral do seu rosto. Minhas pernas enlaçavam suas costas e meu abdômen subia e descia a cada mordida que ela dava. Nossas respirações ofegantes foram dando lugar a gemidos, conforme Ricardou aumentava o ritmo das chupadas. Meu sexo inteiro estava sendo saboreado por ela. Eu inteira estava sendo dela.

De repente meu corpo todo foi tomado de espasmos quando alcancei o ápice com o seu oral delicioso. No meio da sua fome e do seu desejo, além de estar saboreando o gosto da minha secreção, percebi que a moça dos lábios rosados queria mais, queria um orgasmo intenso, forte, puro, assim como eu tinha tido.

Eu não possuía nenhuma experiência com mulheres, e com isso, a loira não poderia esperar um ótimo desempenho de minha parte. No entanto, um pouco levada por instinto, por conhecer meus pontos de maior sensibilidade, coloquei em mente que tentaria, ao menos, reproduzir o prazer que Alizée havia acabado de me proporcionar.

Puxei-a para cima do meu corpo e, em um impulso, fiz com que ela se deitasse, me colocando por cima. Foi então que a penetrei, enfiando os meus dedos o quão fundo pude, sorrindo extasiada com a sensação de estar preenchendo uma mulher, mas não uma mulher qualquer, a mais linda que já conheci.

Seu gemido veio com som de grito, seu corpo tremia sem parar. De sua boca, saíam palavras desconexas e sem sentido. Mas pouco me importava. Nessas horas, nada faz sentido mesmo, uma vez que estamos ali por um único e exclusivo motivo: o gozo.

- Vai…Marinaaa…Hum…Não…Isso.…

Desci a minha boca, distribuindo beijos por aquelas curvas suntuosas, sugando de leve seus mamilos antes de fazer uma trilha de lambidas por seu abdômen até sua virilha, mordendo seu clitóris em seguida. Penetrei-a ainda mais fundo, e com isso, seu corpo tremeu fortemente e suas mãos largaram meus cabelos para serem levadas ao seu rosto onde, por algum motivo, ela resolveu esconder sua expressão. Devia ser ainda mais linda gozando. Infelizmente eu não podia ver e me deliciar, já que estava ocupada demais tentando fazer o oral do jeito que ela havia me explicado.

Finalmente, depois de chupá-la vigorosamente ao passo em que a fodia, seu gozo veio quente, escorrendo em minhas mãos. Tirei meus dedos e ainda tive o desejo de lamber seu sexo inteiro enquanto ela tremia.

Após alguns minutos paradas, imóveis, apenas tentando inutilmente controlar as nossas respirações, Ricardou sentou-se, suspirando extasiada, assim como eu. Foi quando dei por mim, foi quando a ficha do que tínhamos acabado de fazer, caiu. Estávamos nuas, gozadas e sorrindo feito adolescentes apaixonadas. Uma loira bonita e especial havia despertado em mim desejos antes ocultos, desejos que eu sequer sonhava em possuir. Alizée não só fez sexo comigo, como transformou-me em uma mulher plena, completa.

De repente ela gargalhou, estendendo a mão até alcançar o vinho, tomando um gole e me passando a garrafa - que aceitei de bom grado. Bebi do líquido e ele escorreu um pouco até meu queixo. Ricardou passou o dedo levemente pela trilha de vinho e depois levou a boca. Engoli em seco quando seus lábios rosados formaram um sorriso malicioso. Nesse instante, uma sensação estranha de felicidade me invadiu, como se eu tivesse vivido a minha vida inteira para estar ali, naquele exato momento, com aquela exata personificação de um anjo.

- Qual era o seu desejo? - Indaguei, curiosa, acariciando a sua mão.

- Eu te conto depois. Agora, faltam apenas cinco minutos para a meia-noite. - Ela disse, após verificar as horas em seu celular, levantando-se em seguida - Você vem comigo?

- Onde? - Os seus olhos se voltaram para a água e eu demorei alguns segundos para entender – Ah, você quer nadar? - Ri, incrédula - Ficou louca, Ricardou? A água está congelante?

- Se serve de consolo, a água é aquecida. Esqueceu? Além do mais aqui é fechado... – Ela apontou para cima, fazendo-me atentar para o fato de que estávamos sob um teto de vidro.

Seu sorriso lindo, que me enchia de paz, fez-me levantar, suspirando por vencida. Ela apertou a minha mão bem firme, levando-me um pouco mais para o raso. Assim que entrei na água, arrependi por não ter ido mais cedo. A piscina era mantida em uma temperatura morna, e isso me deixou ainda mais feliz e relaxada do que fiquei com os orgasmos que tive. Meu cabelo começou a ficar molhado conforme andávamos para o fundo. Eventualmente tive que me apoiar em Ricardou, e quando o fiz pela última vez antes de alcançarmos o centro da piscina, ela parou, aproximando os nossos corpos. Deus! Aquela mulher conseguia ser ainda mais quente do que a água.

- Ops! - Exclamei, percebendo que não dava mais "pé".

- Vai precisar de apoio para ficar aqui? - Ela perguntou em brincadeira, fazendo referência à minha estatura mediana. 

- Desculpa se ao contrário da modelo de passarela à minha frente, eu não tenho uma estatura consideravelmente alta. - Retruquei, rindo.

- Modelo de passarela?

- Sim. À mim você parece uma. - Sorrimos, enquanto aproximávamos nossos rostos para roçarmos um nariz no outro.

- Eu vou pegar uma coisa. Se precisar, segure na borda. - Ela disse.

Comecei a flutuar pela água para não me afogar à espera do que quer que fosse que ela tinha ido fazer. Quando Alizée voltou, trouxe consigo as duas garrafas de vodca pela metade.

- Pelo amor de Deus, Ricardou, não me diga que você bebeu toda a vodca sozinha. - Olhei-a, preocupada.

- Não. Eu coloquei champanhe dentro da garrafa e misturei.

- Ah, sim, menos mal. - Voltei a me apoiar nela - Quando saberemos a hora de beber?

- Nós vamos saber. - A loira respondeu à minha pergunta, ao passo em que contornava os meus lábios com o seu indicador direito.

- Então… Eu confio em você…

Ficamos alguns segundos olhando uma para a outra, quando, de repente, ouvimos um estrondo agudo explodir e enfeitar a piscina com diferentes cores.

- Feliz Ano Novo! – Alizée sussurrou, erguendo a garrafa para cima.

- Feliz Ano Novo! - Fiz o mesmo que ela, bebendo quase toda a mistura que continha ali.

- À nós! - A loira gargalhou.

Mirei seus lábios rosados, convidativos, e em poucos segundos de uma coragem insana, me apossei deles. Fechei os olhos sentindo a sua língua pedir passagem, que eu livremente liberei. O beijo era intenso, voluptuoso, carregado de paixão e luxúria. Deixei a garrafa na borda da piscina e enfiei minhas mãos molhadas pelos seus cabelos, puxando-os levemente para excitá-la. Quando nossas bocas se separaram, estávamos ambas ofegantes. Seus dedos apertavam a minha cintura com tanta firmeza, que desejei nunca mais ser solta.

- Para dar sorte. - Sussurrei, encostando a minha testa na dela.

Ricardou riu, ao instante em que tirou uma mecha de cabelo molhado que estava preso na minha bochecha.

- Ainda bem que foi com você. Imagina se tivesse sido um rapaz. - Sua careta fez-me rir.

- Obrigada. - Murmurei baixinho - Pela noite, por tudo.

- Obrigada também. Você fez com que o meu fim de ano não fosse um total desperdício. – Ela riu e eu beijei a sua bochecha.

- Não vai mesmo me contar qual era o desejo que quis realizar? - Insisti na indagação, tomada completamente pela minha curiosidade nada latente.

Alizée abaixou o olhar, sorrindo constrangida. Assim permaneceu um tempo, até que a coragem retomou o seu lugar de origem, passando ela a me encarar novamente.

- Eu queria estar com a minha alma gêmea, fazer amor sob a luz da lua, e dizer, olhando no fundo dos seus olhos castanhos, que eu passei a minha vida inteira procurando por ela.

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