Depois do colorir por Cida Dias
Summary:

Luísa a médica do conto "Brincando de Colorir", volta para viver uma linda história, um pouco conturbada talvez. 


Será que amamos em pouco tempo? Será que confundimos amor, paixão, carência, tesão?


Será que temos coragem de abandonar uma vida "perfeita" para enfrentarmos grandes turbulências, por um sentimento que não sabemos ao certo como chama?


Quanto tempo demora para amarmos alguém? O tempo no amor é o que nossos relógios marcam??


Helena e Luísa tentam nos ajudar com algumas respostas...


 


Categoria: Romances, Contos Characters: Original
Challenges:
Series: Nenhum
Capítulos: 8 Completa: Sim Palavras: 16674 Leituras: 11921 Publicada: 19/07/2018 Atualizada: 19/07/2018
Notas:

Ess história é uma continuação da anterior que publiquei, chamada "Brincando de Colorir".

Agora a personagem princiepal é a médica Luísa, a ex namorada de Laís e amiga de Serena.

1. 1. Tropeçando no destino por Cida Dias

2. 2. Cumprindo promessas por Cida Dias

3. 3. O beijo que desperta um imenso desejo por Cida Dias

4. 4. Magia de fada por Cida Dias

5. 5. Prova dos 9 por Cida Dias

6. 6. A proposta por Cida Dias

7. 7. Medos por Cida Dias

8. 8. Tomando uma decisão por Cida Dias

1. Tropeçando no destino por Cida Dias
Notas do autor:

 

 

 

 

 

Luísa tenta sair o quanto antes do hospital, quer passar no supermercado antes de ir para casa e também comprar algo para jantar. No corredor esbarra em alguém e quase caem.

- Nossa me perdoe!!! – Luísa diz sem graça.

A mulher bate na parede e vai escorregando por ela até sentar no chão, começa a chorar.

- Ei te machuquei tanto assim??? – pergunta já se aproximando da mulher.

A mulher coloca as mãos no rosto e chora de forma profunda. Luísa ajoelha a seu lado e tenta levantar o seu rosto.

- Ei o que foi? Me deixa ver se quebrou algo.

A mulher tira as mãos do rosto e olha para Luísa. Ela tem lindos olhos azuis que, por causa das lágrimas, tem um tom claro e brilhante. A enfermeira do andar vem ajudar, a mulher se levanta e segue Luísa, que a leva até uma poltrona no fim do corredor.

- Marcia por favor traz uma água.

- Claro Dra. Luísa.

A mulher aos poucos se acalma e controla a respiração, Marcia traz a água e volta para o posto de enfermagem.

- Eu não sei o que houve, mas tenho certeza que não foi pelo nosso esbarrão. Posso ajudar?

- Você é médica?

A voz é rouca e um pouco grave, ainda com olhos marejados olha para Luísa com uma expressão triste.

- Sim, sou cirurgiã. – e estende um lenço para a mulher.

- Profissão linda a sua! Eu não teria coragem suficiente para ser médica. – diz enquanto enxuga seus olhos.

Luísa fica observando a linda mulher e quando percebe que está mais calma, pergunta com preocupação:

- Me chamo Luísa. O que houve para você ter uma crise de choro?

- Prazer, me chamo Helena. Bom é uma longa e triste história.

Vendo que seus planos de chegar cedo em casa não seriam concretizados, Luísa toma a decisão de tentar ajudar a mulher triste.

- Olha aqui perto tem uma cafeteria, que tal irmos lá e você me conta?

- Ah você estava saindo, não quero te atrapalhar.

- Olha se me atrapalhasse não a convidaria. Vamos, acredito que te fará bem conversar.

Helena a olha com ternura, pois sabe o quão difícil é encontrar pessoas dispostas e empáticas como a médica que está a sua frente. Luísa levanta e faz um gesto para que Helena a siga. As duas vão em direção ao elevador em silêncio. Entram e Luísa é cumprimentada por dois enfermeiros, trocam algumas palavras. Quando o elevador para no térreo, Luísa sai primeiro e segura a porta para que Helena passe.

- Vamos a pé, a cafeteria fica no próximo quarteirão.

Caminham lado a lado, a médica percebe que Helena está com algum problema sério, talvez alguém que ame e esteja internado, ou será ela que está doente?

Chegam à cafeteria e Luísa automaticamente lembra de Laís. Impossível não lembrar das conversas que tiveram naquele lugar e fica parada por uns segundos.

- Tudo bem Luísa? – Helena percebe um ar de nostalgia no rosto da médica.

- Tudo sim, apenas algumas boas lembranças daqui. Vem vamos sentar nessa mesa do fundo, é mais sossegado.

Luísa chama a garçonete.

- Helena quer um chá? Um café?

- Acho melhor um chá, tem de camomila?

- Sim. Eu vou querer um cappuccino.

Quando a garçonete se afasta, Helena se encosta na cadeira e dá um longo suspiro. Luísa espera que ela se sinta à vontade para conversar.

- Sabe, tem momentos nas nossas vidas que ficamos perdidas, sem saber o que fazer e sem ter muito com quem contar de verdade. – as palavras saem de Helena carregadas de dor.

- Sim. Todos temos nossos desertos para atravessar e nem sempre uma mão para nos apoiar, um colo para nos afagar.

Helena aparenta ter por volta de 40 anos, seus cabelos são castanhos escuros com luzes mais claras, compridos até metade das costas, seus traços são bonitos e suaves, tem a pele muito branca e sua boca é pequena, porém, seus lábios são carnudos. Luísa repara na delicadeza das mãos, pequenas e finas, dedos longos e unhas muito bem feitas.

Helena toma o chá e fica olhando para o nada, seus olhos de tom azul claro parecem perdidos. De forma automática, Luísa toca na mão direita da moça triste que ergue seu olhar para encará-la.

- Helena eu não sei pelo que está passando, mas você estava dentro do hospital na ala de internações. Sabe, sou médica há um bom tempo e percebo quando alguém está passando por um momento triste de doença.

As lágrimas caem novamente dos olhos de Helena, mas dessa vez sem o desespero de antes, escorrem por seu rosto de forma lenta. Luísa agora segura com mais firmeza sua mão.

- Pareço louca né? – Helena dá um sorriso forçado.

- Claro que não! Com certeza está num momento difícil.

- Estou sim. Acho melhor te contar para quem sabe, você me ajudar. Sou casada há dez anos e tenho a Mariana de oito. Tem dois meses que descobrimos que ela tem leucemia. – nesse momento as lágrimas caem numa avalanche.

Luísa com expressão séria, se curva sobre a mesa e com um guardanapo, limpa os olhos de Helena.

- E o que os médicos disseram?

- Que ela precisa de transplante e estamos feito malucos atrás de doadores compatíveis.

- É um momento muito delicado, tem toda razão de estar tão triste. Já testaram a compatibilidade com todos os parentes?

Helena dá um suspiro pesado.

- Aí está o problema. Mariana é adotada e a família nunca a aceitou muito bem. Apesar de saber que é difícil, eu e meu marido fizemos os testes. Infelizmente não somos compatíveis. Pedi para todos os familiares, vieram apenas minha irmã e minha mãe.

- E a família do seu marido?

- Eles não se prontificaram, e meu marido também não insistiu. – sua voz traz um tom amargo.

Luísa apenas a olha e percebe a gravidade do problema.

- Sabe não é minha área, mas amanhã vou conversar com o médico responsável.

- Ah obrigada Luísa, mas sei que eles estão fazendo de tudo. A espera é difícil sabe? Eu venho todos os dias, o dia todo e ainda durmo no hospital.

- Desde quando sua filha está internada?

- Desde que a doença foi descoberta. Imagina uma menina de 8 anos, ativa ficar presa no quarto do hospital? Me corta o coração.

- Mas você nunca vai para casa?? Precisa descansar para aguentar toda a situação.

Helena sacode a cabeça em sinal negativo.

- Ninguém para dividir comigo....

- Ué e o pai, seu marido??

Sai um sorriso cansado e pesado da boca de Helena.

- Ele vem às vezes, geralmente quando sai da empresa no fim do dia. Fica meia hora e vai embora.

Luísa olha com tristeza, pois está cansada de acompanhar dezenas de casos onde apenas a mulher, seja mãe, filha, esposa, acompanha o tratamento do ente, muito raro o homem dividir.

- Entendo que você não quer deixar sua filha sozinha em nenhum momento, mas precisa dividir nem que seja com uma cuidadora.

Pelo que pode perceber, Helena parecia ter condições de pagar alguém, só por isso sugeriu uma cuidadora.

- Não confio e também nem conheço nenhuma cuidadora.

- Olha, a jornada de vocês é longa e árdua. Você precisa estar firme, descansada e forte para estar ao lado de Mariana!

- Eu sei, mas...

- Se você me permitir, posso indicar uma cuidadora, nem que seja para ficar algumas tardes, dormir, sei lá. O que me diz?

Helena a olha com cara de dúvida.

- Estou falando como médica ok? – e dá um sorriso para a moça triste.

- Por quê?

- Pra você descansar e...

- Não! Perguntei por que está sendo tão gentil comigo se nem me conhece?

Nessa hora Luísa percebe o quão solitária Helena é, apesar de ter um marido e família, estava absolutamente só. Olhando de forma carinhosa para Helena, Luísa diz:

- E por que não ser gentil???

Helena pela primeira vez dá um sorriso verdadeiro.

- Se todos fossem como você, seria ótimo.

- Infelizmente as pessoas podem ser egoístas, mas acredito que há muito mais pessoas boas que más.

Helena olha para Luísa e diz com muito pesar:

- Infelizmente eu não penso assim. Tenho dinheiro e não posso “comprar” a medula para minha filha. Tenho pessoas que sempre disseram me amar e agora, que tanto preciso delas, cadê? – as lágrimas voltam a inundar seu rosto delicado.

Luísa entende o sofrimento pelo qual Helena está passando, infelizmente já viu a mesma história com outros personagens. O individualismo e a falta de empatia acabam afastando e machucando as pessoas.

- Olha Helena, sei que acabamos de nos conhecer, mas eu tenho um lema que levo comigo.

- E qual seria?

- O tempo é subjetivo quando se trata de relações humanas e acredito em reconhecimento de energia entre as pessoas.

- Ando tão desanimada que não sei se você está certa ou errada. – dá o último gole do seu chá.

- Tudo bem se eu encontrar alguém de confiança para ao menos trocar algumas horas do dia com você?

Helena a olha intrigada, desde a descoberta da doença de Mariana, ela não teve alguém tão solicita e gentil.

- Sim, posso conversar com ela e se sentir confiança, se a Mari gostar dela, posso fazer um teste de algumas horas na semana.

Luísa fica feliz por ter conseguido ao menos que ela concordasse em tentar.

- Preciso voltar para ver a Mari.

Luísa chama a garçonete e paga a conta. Saem da cafeteria rumo ao hospital.

- Não tem noção do bem que me fez Luísa. – Helena diz com uma sinceridade e ternura que Luísa se comove ainda mais.

- E não é para isso que estamos nesse mundo velho sem porteira? – e a presenteia com seu sorriso largo.

Chegam ao hospital e se despedem com um abraço carinhoso. Helena sobe ao quarto da filha e Luísa vai ao estacionamento pegar seu carro.

 

2. Cumprindo promessas por Cida Dias

Assim que chega ao hospital na manhã seguinte, Luísa procura pela assistente social. Explica por cima o caso de Helena e Mariana e pede para que indiquem alguém profissional e de extrema confiança. A assistente social diz que já irá procurar por uma cuidadora. Depois, Luísa vai procurar o médico de Mariana.

O médico responsável é um dos diretores do hospital e de excelente renome. Luísa por trabalhar há anos com ele, se tornou sua amiga. Por isso, assim que pede para a secretária dele uma pequena reunião, é prontamente atendida.

- Então Henrique, há uma chance dela conseguir o transplante? – pergunta depois de explicar a situação.

- Sim Luísa. Devido à idade e gravidade, ela está entre os primeiros nomes. O problema está em achar alguém compatível. Por ser adotada e ninguém saber o paradeiro da família de sangue, fica mais complicado.

- Isso complica mesmo. – suspira Luísa.

- Ela não é sua paciente, por que o interesse?

- Ontem acabei literalmente esbarrando na mãe dessa menina. Conversamos um pouco e a história delas me comoveu.

- A minha médica cirurgiã favorita!!! Além de excelente profissional uma alma bondosa!!

- Antes de ser médica, sou um ser humano dr. Henrique. – diz rindo.

- Foi bom vir conversar sobre esse caso comigo, estou há dias para te pedir que faça parte da cirurgia de transplante.

- Sério????

- Você é uma das melhores e sei que fez ao menos 4 transplantes. Quero alguém em quem confie e que tenha essa experiência.

- Com absoluta certeza!! Obrigada!!

- Você faz por merecer cada elogio Luísa. Bom, se não ficar chateada, preciso ir fazer minha ronda. Alguma cirurgia hoje?

- Hoje não, apenas farei ronda para ver meus pacientes.

Se despedem e Luísa vai até o andar onde Mariana está internada. Bate na porta e pede licença, já entrando no quarto.

Helena está sentada na poltrona ao lado da cama de Mariana, está jogando cara a cara com a filha. Quando vê Luísa, seu sorriso sai instantaneamente e a médica percebe.

- Nossa que surpresa te ver logo cedo! – Helena diz se levantando para dar um abraço na médica.

- Sempre cumpro o que prometo! Oi Mariana, como você está hoje? Me chamo Luísa. – diz estendendo a mão para cumprimentar a jovem paciente.

- Bom dia Luísa! Estou bem, consegui dormir quase a noite todinha, né mamãe? – diz numa voz alegre olhando para a mãe e apertando a mão da médica.

Luísa se encanta pela menina negra, de cabelos no estilo afro, de olhar alegre e sorriso encantador. Entende o motivo idiota que faz com certos familiares não a aceitem. Se pergunta que força maravilhosa vem de dentro desse ser pequeno e tão frágil, que a faz sorrir apesar de tudo.

- Sim dormiu muito bem! – a voz de Helena sai num tom mais feliz.

- Cada pequena conquista, cada pequeno milagre deve ser sempre comemorado! – diz Luísa num tom verdadeiramente alegre.

- Ebaaaaaaa!!! E o que vou ganhar?? – Mariana não se contém de tão feliz.

- Huummm como sou uma médica muiiitoooo legal e boazinha, eu te trouxe uma pêra.

A carinha de Mariana demonstra sua decepção com o presente.

- Opaaa! Mas não é qualquer pêra dona Mariana!! – ergue a mão e num gesto teatral, mostra a fruta para a menina.

- O que tem de tão especial? – diz num muxoxo.

- Ela foi elaborada por uma fada amiga minha!!! – e dá uma piscada para a menina, que começa a demonstrar interesse.

- Mãe ela tem uma amiga que é fada!!! – Helena sorri ainda mais vendo os olhinhos felizes e o sorriso no rosto da filha. – Como é o nome dela???

- Serena! Se você quiser, posso até trazê-la aqui!!

Mariana toda contente pede para sua mãe:

- Que nome lindo e é de fada mesmo!!! Pode mamãe? A fada pode vir??

Helena está sentada no braço da poltrona observando toda a cena, diz:

- Claro filha!

- Será bom né mamãe? Nunca recebo visitas!

Nesse momento, Luísa e Helena se olham e trocam um sorriso sem graça. A médica trata de espantar o silêncio que paira no ar.

- Então prove a pêra e me diz se não é coisa de fada mesmo.

Mariana come e faz uma cara boa.

- Nossa nunca comi uma pêra tão boa!! É foi feita pela fada mesmo mamãe!!

- Bom lindas, tenho que ir trabalhar, mas volto hoje no fim da tarde e assim que puder, trarei minha amiga fada ok? – diz dando uma piscada para a menina.

- Ahhh já vai??? – Mariana diz fazendo bico e cruzando os bracinho a frente do corpo.

Luísa dá um beijo em sua testa e mexe no lindo cabelo da menina.

- Eu volto ainda hoje antes de ir pra casa, combinado?

- Combinado!!!!

Se abraçam carinhosamente, enquanto Helena assiste a cena comovida.

- Agora posso conversar um tiquinho com sua mãe lá fora?

Mariana balança a cabeça concordando.

- Sabe, acho que a mamãe fica tanto aqui que tá até branca que nem neve. Falo pra ela sair um pouco, dar uma volta, mas ela nunca vai!! – diz mordendo a pêra.  

Luísa olhando para Helena diz:

- Então seu desejo será realizado menina! Vou levar sua mãe pra dar uma volta na rua agora!

- Não...não posso ir.... – Helena gagueja.

- Mamãe a médica já veio e agora vai demorar um tempão pra voltar aqui. Já sou grande e posso ficar um pouquinho sozinha.- diz num tom sério.

Helena fica sem ação, Luísa toma a dianteira e a pega pela mão.

- Vem Helena, vamos tomar um café. – e a puxa para fora do quarto.

Helena a segue de forma automática, mas gosta da sensação de alguém estar fazendo algo por ela, nem que seja apenas levá-la para um simples café.

- Ainda tenho muitos pacientes para visitar, por isso não se incomoda de tomarmos um café aqui mesmo? – diz já apertando o botão do elevador.

- Ahan...claro que não me importo. – e puxa delicadamente sua mão soltando-a da médica.

Luísa se dá conta que estavam de mãos dadas e fica um tanto sem graça.

- Ah desculpa, eu não percebi...

- Tudo bem Luísa.

Vão até o quinto andar onde fica a cantina, sentam-se e pedem café e pão de queijo. Para quebrar o clima um pouco estranho, Luísa começa a falar tudo o que aconteceu na manhã.

- Conversei com o médico da Mariana, aliás, um dos melhores que conheço. Ele me inteirou do caso e me garantiu que ela tem prioridade. Estão correndo atrás de algum doador. Também falei com a assistente social e pedi prioridade para acharem alguma profissional que possa revezar com você. Até amanhã me garantiu que você conhecerá algumas pessoas.

Helena fica olhando para Luísa sem dizer nada, segurando a xícara no ar. Só consegue olhar e agradecer internamente o esbarrão que deram no dia anterior.

- Tudo bem Helena? – diz colocando sua mão na mão da mulher que a olha com lindos olhos azuis.

Helena baixa os olhos até a mão das duas, nessa hora Luísa fica sem graça e retira sua mão rapidamente. Helena a pega no ar ainda, segurando com firmeza a mão macia da médica. Luísa a olha sem entender o que está acontecendo.

- Obrigada. – e dá um beijo na mão da médica.

Luísa sente um arrepio e por um milagre, fica sem saber o que falar ou fazer. Se dá conta que além de verdadeiramente querer ajudar Mariana e que faria a mesma coisa por outra pessoa, sente algo diferente por Helena.

Ficam se olhando por algum tempo, Helena solta a mão, baixa o olhar e termina seu café. Luísa se levanta e paga a conta.

- Então até mais tarde Helena. – lhe dá um beijo no rosto.

- Não tenho como te agradecer...tudo o que fez em menos de 24 horas pela minha Mari e por mim...nem tenho palavras...

- Fiz o que minha consciência e meu coração mandaram. – e segue para a escada de emergência.

- Não vai de elevador? – Helena pergunta meio que querendo aproveitar um pouco mais da sua presença.

- Ah tô atrasada demais!! – e joga uma piscada.

Helena pensa na sensação boa que sente perto de Luísa, no quanto se sente protegida e cuidada. Parece loucura, pois se conhecem a menos de um dia, mas ela fez tanto em tão pouco tempo. O elevador abre a porta no andar que deve descer e ela leva um susto. Vai direto ao quarto ver Mariana.

- Oi amor, me desculpe a demora!

- Ah mamãe tô bem, acho que a pêra da fada tem poderes mágicos mesmo!!!

Passam a tarde brincando, Helena percebe que depois da visita de Luísa, até Mariana se mostrou mais falante, feliz.

Até Mariana.....logo....ela também...aliás, ela se sentia mais feliz depois da visita da médica como há tempos não se sentia...

A porta quando se abre e bate de leve, tira Helena de seus pensamentos estranhos.   

- Oi amor. – entra seu marido apressado.

- Oi Fabio, chegou cedo hoje. – retribui o selinho leve que recebe do marido.

 - É que vou precisar ir pro Rio ainda hoje e vim aqui ver como vocês estão.

- Vai ficar quanto tempo lá?

- Uns quinze dias. Oi minha menina linda como você tá??

Mariana desata a falar da visita da médica e seu pai se mostra animado. Depois de quase uma hora conversando, ele se despede.

- Bom se cuida minha menina linda. – dá um beijo amoroso na testa da filha.

Se vira para Helena, a abraça e dá um beijo xoxo em sua boca.

- Tchau Lena, me liga a qualquer hora do dia ou da noite ok?

- Ligo sim, avisa quando chegar ao Rio.

Ele vai embora, deixa as duas no quarto. Mariana se aconchega na cama e começa a cochilar. Helena aproveita para dar uma volta no corredor do andar. Se sente sufocada e estranha. Enquanto caminha, olha no relógio toda hora.

“ela disse que viria no fim do dia, já são mais de seis da tarde e nada....”

Esse pensamento a assusta, então volta para o quarto. Quando entra dá de cara com Luísa examinando Mariana. Fica parada na porta olhando. Ela ausculta o pulmão, coração, conversa com a enfermeira sobre os sinais vitais da menina. Helena a contempla, sente que o leve desanimo some e é preenchida por uma sensação de bem estar. Mariana está dormindo tranquila.

- Oi Luísa. – diz entrando no quarto.

- Oi Helena! Prometi e estou cumprindo! – e lhe dá um sorriso.

A enfermeira se despede e sai do quarto. Helena repara que o sorriso dela é sincero, traz uma espontaneidade que não está acostumada.

- Percebi que sempre cumpre mesmo. – caminha até ficar ao lado da médica. – E como está minha menina?

- Tudo bem. Os sinais estão estáveis, a Selma me disse que hoje ela pareceu mais animadinha, isso é ótimo!

Luísa sente que Helena está muito próxima, sente o perfume de xampu e fica um tanto nervosa. Helena esbarra seu seio de leve no braço de Luísa, que sente um choque leve, as duas se olham. A assistente social entra no quarto, fazendo as duas acordarem do pequeno transe.

- Que bom que está aqui Dra. Luísa.

- Essa é a Patrícia assistente social, essa é a Helena mãe desse anjinho. Ambas se cumprimentam apertando as mãos.

- Bom selecionei três cuidadoras muito bem recomendadas, trouxe o currículo delas para você avaliar. – diz entregando à Helena.

- Obrigada Patrícia. – diz Helena.

- Se precisarem de algo, por favor me chamem. – se despede e sai do quarto.

- Estou sem graça, mas posso te pedir mais um favor? – a voz de Helena sai baixa.

- Você não me pediu nenhum favor, eu que sou intrometida mesmo. – dá um sorriso para disfarçar seu estranho nervosismo.

- Me ajuda com isso? – e levanta os currículos das cuidadoras.

Luísa percebe que Mariana está num sono profundo devido aos medicamentos e acha saudável que Helena saia um pouco daquele ambiente.

- São quase sete da noite e tô morrendo de fome, essa princesinha tá num sono profundo, te ajudo se me acompanhar até a cafeteria, pode ser?

Helena olha para a filha, percebe que não acordará tão cedo e que ela quer ficar mais tempo perto de Luísa. Quando pensa em dizer não, sua resposta é contrária:

- Sim, vamos. – se assusta com a própria resposta.

Vão conversando sobre Mariana e o que podem fazer para aliviar a tensão de praticamente estar morando no hospital. Sentam na mesma mesa do dia anterior. A garçonete se aproxima para anotar os pedidos.

- Na verdade queria jantar, sabe comida com garfo e faca? – diz Luísa olhando o cardápio.

Helena ri do jeito dela, encosta na guarda da cadeira e tem uma expressão mais tranquila no rosto.

- Que foi?? Eu almocei era meio dia, acha que pra manter esse corpinho é com frutinha, alface??? – a médica diz já rindo e fazendo Helena rir ainda mais.

Pedem quiche de queijo e suco de laranja. Luísa percebe que Helena está entretida com o celular e aproveita para esmiuçar seu rosto, suas lindas mãos e cabelos. Apesar de parecer sofrida por tudo que lhe acontece, é uma mulher muito bonita. Sente que ela está mais relaxada, como se um pouco do peso que carregasse, tivesse sido tirado de suas costas. Se sentindo observada, Helena sobe o olhar até encontrar os olhos verdes de Luísa.

- Desculpa, estava respondendo ao meu marido.

- Imagina, ele está bem? Achei que iria conhecê-lo pelo horário que fui ver a Mari. – diz sentindo uma pontadinha de um sentimento antigo que achou não ter mais, o tal do ciúmes.

- Ele foi hoje ao Rio e deve voltar daqui uns 15 dias. – seu tom é sem emoção.

Comem em silêncio.

- É doutora você está mesmo com fome. – sorri e pisca para Luísa.

- Se eu te falar que ainda estou, vai ficar assustada? – e dá o último gole do seu suco.

Helena apenas a olha, quer guardar na memória os traços, os trejeitos, as covinhas que aparecem toda vez que sorri, além dos lindos olhos verdes.

- Aceita jantar comigo? – a pergunta escapa da sua boca.

Luísa se espanta com o convite e antes de responder, Helena emenda:

- Assim que acharmos uma cuidadora e como forma de agradecimento a tudo que já fez em tão pouco tempo.

Dessa vez é Luísa que a observa, sente uma quentura gostosa no peito, uma vontade louca de pular e beijar aquela boca pequenina e carnuda, mas se contém e responde:

-Claro que sim, e olha que eu cobro viu?

Durante os próximos minutos analisam os currículos, decidem chamar as três e Helena e Mariana escolherão.

- Mais uma vez obrigada Luísa.

- Lu.

- Oi? – Helena não entende.

- Me chame de Lu, é assim que minhas amigas me chamam.

- Só se me chamar de Lena então!

- Não, amo seu nome e só a chamarei de Helena!

Fica um silêncio gostoso no ar, as duas se admirando, flertando. Helena morde o lábio inferior e diz com voz mais baixa e mirando a mesa.

- Você é uma agradável surpresa Lu.

- Confesso que nunca gostei tanto de atropelar alguém!

As duas riem.

- Você passou o dia todo trabalhando, deve estar exausta e louca pra ir pra casa. Vamos pedir a conta e dessa vez, eu pago! – Helena diz já indo em direção ao caixa.

Luísa fica observando seu andar, uma mistura de delicadeza e sensualidade, mesmo usando jeans e camiseta, ela tem um porte elegante, meio nobre.

- Vamos Lu?

Assim que saem da cafeteria, Luísa pergunta:

- Você não trabalha ou parou pra cuidar da Mari?

- Parei pra cuidar dela, sou advogada e trabalho na empresa da minha família.

- Seu tom não demonstra entusiasmo com sua profissão.

- Sou também formada em História e meu sonho era ser professora universitária.

- E por que não é?

Helena solta um suspiro cansado.

- Uma longa história que não quero falar.

Se sentido invasiva, Luísa pede desculpas.

- Não Lu, tudo bem, não é que não queira compartilhar com você. Apenas não quero estragar essa sensação boa que sinto quando estou com você, falando de algo que me é desagradável.

Ambas se olham, Helena fica sem graça e Luísa se aproxima.

- Helena eu entendo. Depois de tanto tempo no hospital só falando sobre sua filha e pelo que me disse, sem ninguém pra te fazer companhia, normal que eu me torne algo bom pra você.

- É bem isso....

Quando chegam ao hospital, Luísa a abraça e dá um beijo no rosto, quando vai se afastar, sente Helena a puxar a impedindo de sair daquele abraço. Ouve a voz rouca e um pouco grave de Helena em seu ouvido.

- Acho que é um pouco mais que isso...

Um arrepio percorre todo o corpo de Luísa, que aumenta a intensidade do abraço. Alguns minutos depois, se afastam e a troca de olhares é intensa, nenhuma sabe ao certo o que dizer. Luísa passa levemente sua mão no rosto de Helena, que fecha os olhos.

- Boa noite Helena, até amanhã.

- Boa noite Lu.... – e fica vendo a médica se virar e ir para o estacionamento. Fica um tempo lá parada, perdida na cena que acabara de acontecer. Respira fundo, solta o ar e segue para dentro do hospital.

Luísa dirige seu carro sem vontade de ir para casa, mas também não sabe para onde ir. Pensa no bar que costuma frequentar, quer tentar exorcizar as sensações confusas que sente quando está com Helena. Seu celular toca.

- Oi Lu como você tá amiga? – a voz doce e alegre de Serena.

- Oi Sê! Nossa você adivinha quando preciso de você??

- Acho que sintonia de amigas...o que houve?

- Ahhh amiga, treco estranho, sei lá, tô confusa...

- Quer vir em casa pra conversar?

- A Laís tá aí?

- Tá sim, mas se preferir, podemos caminhar só nós duas, que acha?

- Acho que é até bom ela estar, me conhece talvez também me ajude.

- Vem pra cá que vou preparar um jantar pra nós!

- Tô indo. Serena?

- Oi Lu.

- Obrigada!

Luísa para na frente do prédio de Serena, desce e toca o interfone. A porta é aberta e ela sobe cabisbaixa. Quando chega ao andar, já encontra Serena com a porta aberta e o seu lindo sorriso.

- Oi Lu!! – corre e a abraça. – Vem, entra linda.

- Oi Lu. – Laís dá um beijo e um abraço.

- Obrigada meninas, tô precisando desabafar.

- Senta aqui. – Serena indica o sofá.

Luísa senta numa ponta e Laís na outra, Serena senta no chão em frente às duas.

- Diga amiga.- Serena diz.

Luísa explica os últimos acontecimentos, diz as sensações estranhas que sente ao estar e até ao pensar em Helena. Laís é a primeira que fala.

- Lu, ela corresponde?

- Parece que de certa forma sim, mas ela tá tão fragilizada que pode ser apenas gratidão sabe?

- E por que não fala com ela? – Laís questiona enquanto Serena só observa.

- Ah ela é hétero e casada, deve estar me vendo como uma amiga e eu não quero ferrar com tudo. De certa forma, percebo que por incrível que pareça, ela me vê como um apoio.

Serena levanta e vai buscar vinho para elas. Quando volta, fala:

- Desde quando a senhorita tem medo das pessoas ou situações??

Luísa ri e toma um gole do vinho.

- É uma sensação estranha que faz muito tempo que não sentia.

- Posso ser invasiva? – Serena pergunta.

- Claro Sê.

- É o mesmo que sentiu pela Laís?

Luísa e Laís se olham e olham para Serena, ambas constrangidas.

- Er...não...tipo.. – Luísa gagueja.

- Lu já tem mais de um ano e hoje somos três ótimas amigas, correto?

- Sim Sê, é que me pegou meio desprevenida...

- Serena que doida! – Laís diz timidamente.

- Amor, somos maduras e sinceras. Até onde sei, vocês duas tiveram um lindo relacionamento e graças a Lu, estamos juntas.

- Verdade meu amor, tem razão. – Laís dá um beijo em sua mão.

- Eu não fiz nada, vocês que sempre se amaram...

- Claro que fez! Me deu vários conselhos e para a Laís também, agiu como a grande mulher que você é.

- Ok! Vamos parar com essa rasgação de seda que tá ficando meio gay. – Luísa diz em meio a uma sonora gargalhada.

- Lu vou te dar o mesmo conselho que me deu e que segui, e foi a coisa mais certa que fiz. Se você sente algo, sendo recíproco ou não, tente, não se acovarde com medo da resposta. Tente ao menos. – Laís diz enquanto segura a mão da médica.

As três amigas se abraçam. Elas conversam durante todo o jantar. Luísa sai da casa das amigas mais tranquila e com uma decisão tomada. Independentemente do que Helena sinta ou não, ela se deu um prazo de uma semana, se perceber que as sensações continuam, vai falar abertamente para ela. Ao menos tentará e tirará a dúvida.

3. O beijo que desperta um imenso desejo por Cida Dias

Na manhã seguinte conforme o combinado, Luísa entra no quarto de Mariana, que está dormindo. Olha para o sofá ao lado da cama e vê Helena num sono profundo. Se aproxima e a olha. Os cabelos em confusão caem sobre seu rosto, ela está de lado, um braço embaixo do travesseiro e o outro sobre seu corpo. Veste uma calça de moletom preta e uma camiseta branca. Simples e linda. Assustadoramente linda.

Luísa se ajoelha e toca levemente seu ombro.

- Bom dia moça. – a voz sai suave.

Helena abre devagar os olhos, passa as mãos neles tentando afastar o sono, boceja e olha para Luísa. Seu sorriso sai feliz e largo quando vê a médica. Luísa percebe e se sente feliz.

- Bom dia Lu! – a voz rouca dá um arrepio em Luísa.

- Ainda nem são 7 horas, mas tenho uma cirurgia as 10 e queria ver vocês antes.

Helena senta e se espreguiça.

- Nossa que bom acordar e você ser o primeiro rosto que vejo. – diz sem pensar.

Luísa ainda ajoelhada apenas sorri. Helena se dá conta do que disse e tenta consertar.

- É que nos últimos meses sou acordada ou pela Mari me chamando aflita ou por alguma médica ou enfermeira. – diz sem graça.

Luísa pega sua mão e dá um beijo suave.

- Sou médica....rsrs

- Ah você entendeu.... – Helena diz sem tirar o sorriso do rosto.

- Toma café comigo? – a voz de Luísa sai baixa e seu olhar não desvia dos doces olhos azuis de Helena.

As duas ficam se olhando, admirando, contemplando.

- Preciso de um banho, mudar de roupa, pentear meu cabelo, devo estar horrível!

- Nunca conseguiria...

- O quê?

- Ficar horrível...

Elas se levantam e automaticamente olham para Mariana, que dorme profundamente. A porta Luísa fez questão de fechar quando entrou. Ela se aproxima da mulher de lindos olhos azuis, tira uma mecha de cabelo que cai nos olhos dela e coloca atrás da sua orelha. Helena fecha os olhos ao sentir o toque da médica em seu rosto, sente um arrepio quente na pele. Luísa passa suas mãos pelo rosto de Helena, segura sua nuca e com os polegares fica brincando nas covinhas. Helena apenas sente e se deixa tocar. Luísa aproxima sua boca do seu ouvido e diz:

- Quero te beijar...

Helena sem abrir os olhos, diz:

- Então beija....

Os lábios se tocam suavemente. Luísa agora a abraça forte e a puxa, para que seus corpos se encostem. Helena passa os braços em volta do pescoço de Luísa que agora passa sua língua pelos lábios que se abrem. Ela invade a boca que se oferece para ela. O beijo é molhado, terno e intenso. Ouvem uma batida na porta e ambas rapidamente se afastam assustadas. É a médica que vem fazer a avaliação de Mariana.

- Bom dia meninas! – diz a médica.

Se cumprimentam e Helena acorda Mariana para a avaliação. A menina fica feliz ao ver Luísa. Todas conversam enquanto a médica analisa o prontuário e avalia os sinais de Mariana.

- Bom minha princesa hoje terá alguns exames chatinhos para fazer.

- Ahhhh que saco... – protesta emburrada Mariana.

- Filha! – repreende Helena.

- Tudo bem, sei que deve ser mesmo um saco, mas precisa minha princesa!! – Luísa tenta amenizar a situação.

- Olha Helena, o hospital conseguiu uma turma de músicos que passarão até final da semana de quarto em quarto. Pedi para virem primeiro aqui verem essa princesa linda! – diz Dra. Monica.

- Obaaaaa!!! Amo música mamãe!!!

- Mari, preciso conversar com sua mamãe lá fora sobre as coisas chatas enquanto a Judite te ajuda no banho, tudo bem? – pergunta Dra. Monica.

- Tudo sim!!

A enfermeira Judite a leva para o banho, a médica, Helena e Luísa saem do quarto e vão até o posto de enfermagem.

- Bom, melhor deixar vocês a vontade. – diz Luísa.

Helena segura em seu braço e diz:

- Não, fica comigo!

Dra. Monica explica que aos poucos Mariana está reagindo, ao menos já tem quase uma semana que não há alterações preocupantes. Luísa pergunta sua opinião sobre Helena revezar algumas horas com uma cuidadora.

- Acho perfeito! Sei da situação delicada e, não vou mentir para você Helena, a nossa batalha é longa e difícil. Será maravilhoso você descansar de vez em quando longe daqui sabendo que a Mari está bem cuidada.

- Sei lá, me sinto péssima só em pensar nisso, como se a estivesse abandonando. – diz contorcendo as mãos, angustiada.

Dra. Monica pega suas mãos e olhando em seus olhos diz em tom sério:

- Você jamais deve se sentir culpada! Faz tudo e mais do que pode por sua filha. Mas você é humana e ela precisa de você inteira e não despedaçada como está começando a ficar.

- Verdade Helena, hoje as cuidadoras virão. – Luísa diz ternamente.

- Obrigada por vocês me apoiarem. Apesar de me sentir mal, acho que tem razão.

A médica se despede e deixa Luísa e Helena sozinhas.

- Vamos ver a Mari e depois tomar o café da manhã? – sorri Luísa.

Entram no quarto e Mariana está deitada vendo televisão, conversam e brincam um pouco.

- Princesa vamos sair um pouco. Lembra que me pediu para levar sua mãe pra ver o sol?

- Sim, vai sim, tô bem mamãe. Vou ver meu desenho favorito e jogar no celular.

Elas saem do quarto e em silêncio, caminham até a saída do hospital.

- São 7:20 e sua operação é às 10, certo?

- Sim.

- Que horas tem que estar na sala?

- Às 9.

- Temos mais de uma hora, podemos dar uma volta e tomar café em outro lugar?

- Claro Helena, vou pegar o carro.

Estaciona o carro perto da calçada e Helena entra.

- Aonde quer ir?

- Apenas andar por aí. – diz Helena olhando pela janela lateral.

Luísa dirige por uns quarteirões, ambas em silêncio. Ela decide ir até seu apartamento. Helena só se dá conta quando entram na garagem do prédio.

- Onde estamos???

- Na minha casa. Acho que você precisa se lembrar como é uma casa. – sai do carro e é seguida por Helena.

Ao entrarem no apartamento, Luísa vai direto para a cozinha preparar o café. Pega o suco e frios na geladeira, coloca tudo na mesa.

- Deixa te ajudar.

Luísa indica onde ficam as coisas, ambas arrumam a mesa. Luísa está na pia coando o café, quando Helena passa por trás dela para pegar as xícaras no armário em cima da pia, sem querer escorrega e se segura nas costas de Luísa. Por instinto abraça a cintura da médica e coloca seu rosto encostado ao pescoço. Luísa sente o corpo colado ao seu e a respiração em seu ouvido. Helena encosta a testa no ombro de Luísa que abraça suas mãos que estão enlaçadas na frente do seu corpo. Ficam por um tempo assim. Luísa se solta do abraço e vira, ficando de frente para Helena. Estão abraçadas e encostam suas testas.

- Luísa eu...

- Xiuuuuuu.... – com as mãos levanta o rosto de Helena.

O beijo vem naturalmente, agora intenso e urgente. Luísa beija o pescoço, o ombro enquanto suas mãos exploram as costas de Helena por baixo da camiseta. Ouve um gemido suave e continua sua exploração. Seus corpos se arrepiam e a temperatura de ambas sobe.

- Eu nunca fiz isso.... – sussurra Helena.

- Beijar uma mulher? – a médica diz com a boca em seu pescoço.

- Sim.

- Quer que eu pare?

- Não!

Agora as mãos de Luísa exploram a barriga, Helena solta outro gemido. Sobe até achar seus seios. Nessa hora se olham e Helena beija sua boca com uma vontade insana. Luísa desabotoa o sutiã e segura os seios médios e firmes. Helena agarra ainda mais as costas de Luísa.

A médica vai levando Helena até o sofá da sala, sem soltar seu corpo. A deita de costas e fica por cima dela.

- Lu eu não...não..sei...

- Quer que eu pare?

- Não! Eu não sei como agir...

- Deixa seus instintos te guiarem.

Luísa levanta a blusa de Helena, primeiro passa suas mãos delicadamente pela barriga, sobe até o colo, brinca com os seios, aperta cada um de leve. Helena geme. Luísa se abaixa até sua boca tocar o seio esquerdo, sente o corpo embaixo do seu se contorcer. Ouve um suspiro forte. Abocanha, suga, lambe, morde, beija. Com o braço esquerdo se apoia no sofá, com a mão direita percorre o caminho até a barriga.

- Aiii...... – geme Helena.

Luísa encaixa sua mão na cintura por dentro da calça e pergunta:

- Continuo ou paro?

- Não para, por favor....

Abre o botão e desce o zíper, se levanta e puxa a calça até tirá-la. Helena a olha com desejo. Luísa volta a deitar sobre ela e suga seu outro seio, a mão passa por cima da calcinha, sente Helena arrepiar e mexer ainda mais o corpo. Com os dedos, toca suavemente por entre o elástico. Sente seu sexo todo molhado, fica ainda mais excitada. Ela mesma está encharcada e ofegante. Tira a calcinha e Helena rebolando, a ajuda.

- Você é linda! – Luísa diz enquanto contempla o corpo de Helena.

Helena puxa seu pescoço e a beija com tesão. Luísa desliza devagar sua boca por todo seu corpo. Chega até as coxas e as lambe, desenha com a língua cada cantinho delas.

- Huuum...... – Helena solta num suspiro.

Luísa olha para o lindo sexo a sua frente e passa a língua por ele todo. Primeiro de leve, depois aumenta a intensidade, encaixa sua língua dentro dele e Helena solta um gemido mais alto. Tira e coloca sua língua algumas vezes e Helena rebola a cada investida. Volta para o clitóris e o beija, passa várias vezes a língua nele.

- Não tô aguentando Lu...

Ela o suga, prende dentro da sua boca e o chupa forte. Helena sente o corpo tremer e esquentar como nunca sentiu antes. Puxa os cabelos de Luísa, levando sua cabeça para mais perto ainda. Rebola freneticamente. A cada sugada ela rebola e puxa ainda mais Luísa.

- Vou...gozar...

Luísa a penetra com seus dedos e a chupa ainda mais.

- Que isso...meu Deus...não...aaahhhhh...

Em poucos minutos sente o gozo se avolumar e que explodirá a qualquer momento, como nunca sentiu antes. Ela goza, Luísa sente imensa satisfação, e a abraça. Ficam deitadas, coladas uma na outra. A respiração acalma, os corpos ainda tremem.

- Eu não sei como fazer, mas quero te fazer gozar Lu. – sussurra.

Luísa guia a mão de Helena até seu clitóris e diz rouca no ouvido dela:

- Mexe devagar nele....isso.....huuum....vai.....mais rápido agora....

Helena segue os comandos de Luísa e para sua surpresa, sente um tesão maluco ao tocá-la.

- Mais um pouco e eu também gozo.... – diz Luísa gemendo.

Luísa rebola na mão de Helena, aumentam a velocidade e o gozo vem com força.

- Meu Deus....que delícia....

Helena se sente realizada e a abraça com uma mistura de carinho e desejo. O celular de Helena começa a tocar. Luísa levanta para pegá-lo e entrega para ela.

- Alô. – a voz sai meio assustada.

“- Helena sou eu, seu marido.”

- Ah oi Fabio, não vi o visor, desculpa. – diz se sentando no sofá.

Luísa se veste e vai ao banheiro para dar privacidade, mas sente o tal ciúmes invadi-la. Quando volta, vê Helena já vestida e sentada à mesa.

-Me deu muita fome, vem senta aqui pra comer comigo Lu.

Comem ou melhor, devoram tudo que tem na mesa.

- Vou lavar a louça.

- Não Helena, deixa que depois arrumo. Vamos pro hospital, já são quase 9.

- Nossa como passou rápido!

Descem até o carro e seguem falando sobre amenidades até chegarem ao hospital. Ainda no carro, mas já dentro da garagem do hospital, Luísa fala:

- Bom Helena, preciso subir para a cirurgia.

- Nossa e acabamos de ...

- Transar? – e solta uma risada.

- É e você tem que operar alguém, não vai te atrapalhar? – Helena pergunta preocupada.

- Pelo contrário, entro relaxada e sem tensão. Já fiz isso antes.

Se despedem como duas amigas que não acabaram de transar. Luísa vai direto para o centro cirúrgico e Helena para o quarto de Mariana. Durante o resto do dia, Helena entrevista as cuidadoras, brinca com Mariana, mas não consegue parar de pensar no que aconteceu de manhã e muito menos, consegue deixar de pensar em Luísa.

Queria que ela estivesse lá para ajudá-la na escolha da cuidadora. Mari e ela gostaram de todas e estavam muito indecisas. Lembrou da conversa dentro do carro.

“Transar...quer dizer que transamos apenas?? Simples assim?? E já cansou de transar antes de operar....” esses pensamentos vem carregados de ciúmes.

- Mamãe a Luísa vem hoje?

- Não filha, hoje não. – diz meio ríspida.

- Tá brava mamãe?

- Não filha, só cansada mesmo.

- Tomara que a Luísa venha, porque aí ela te leva pra dar uma volta e a senhora fica sempre mais feliz.

A conclusão da sua filha mexe com Helena. Até Mari percebeu? Tem que tomar muito cuidado com suas reações quando Luísa estiver perto.

Luísa faz a operação que é bem realizada. Exausta pela manhã cansativa, sai do centro cirúrgico e vai par sua sala verificar alguns exames. Almoça por lá mesmo. Tudo o que quer é ir para casa, tomar um banho e dormir muito. Como só precisará voltar ao hospital daqui a três dias, deixa tudo organizado, caso alguém precise de algum documento. São quase sete da noite quando ela sai do consultório. Tirando o período que ficou em cirurgia, em todos os outros minutos do seu dia, pensou em Helena. Mesmo cansada, resolve visitar a princesinha de ébano e ver a mulher que invadiu seus sentidos.

Encosta no batente da porta.

- Cadê minha princesa??

- Oiiiiii!!! Luísa você veio!!

O sorriso encantador impressiona a médica que entra e fecha a porta do quarto.

- Como não viria ver minha menina??

- A mamãe falou que você não vinha, mas eu sabia que viria!!!

- E sua mãe onde está?

- Ah ela foi conversar com o médico, parece que pra falarem da minha operação.

Conversam por uns vinte minutos. Luísa precisa descansar, mas queria ao menos ver Helena.

- Olha minha menina, preciso ir e não quero deixar você aqui sozinha.

- Tudo bem Lu, mamãe logo chega e eu vou terminar meu caça-palavras.

-Você também gosta de caça-palavras?

- Sim olha!!

E passam mais uns trinta minutos, quando Helena entra no quarto.

- Ué quem fechou a porta?? Vou reclamar! Sabem que não podem te deixar sozinha com a porta fechada!!

Quando olha para dentro do quarto e vê Luísa sentada ao lado da sua filha, estanca.

- Eu fechei quando entrei Helena, não precisa reclamar.

- Ah...sim...não imaginava que tivesse alguém aqui...

- E as cuidadoras, gostaram de alguma?

Helena e Mariana descrevem todas e Luísa percebe a indecisão delas, então sugere:

- Por que não combinam com cada uma que fiquem por três dias? Aí ficará mais fácil de escolher.

- Acho chato. – diz Helena sem graça.

- É a profissão delas, garanto que vão entender.

- Vou fazer isso então.

- Bom minha linda, estou muito cansada e vou pra casa. – Luísa diz para Mariana.

- Não vai levar a mamãe pra dar uma volta hoje??

As duas se olham e Luísa explica:

- Eu adoraria levá-la, mas hoje eu trabalhei muito e preciso muito dormir. Outro dia a levo, combinado princesa?

- Legal! Toda vez que mamãe sai com você, volta mais animada.

Helena é tomada pelo constrangimento enquanto Luísa, feliz apenas sorri.

- Amanhã estou de folga, não virei cedinho te ver tá bom?

- Não?? – a pergunta pula da boca de Helena num tom surpreso.

Luísa a olha e explica que terá alguns dias de folga, percebe uma tristeza passar pelo rosto de Helena.

- Ah! Lu vou sentir sua falta!! – diz a voz doce de Mariana.

Luísa abraça a garota e se despede. Vai até Helena e dá um abraço suave e beija seu rosto, sente que a outra fica imóvel e distante.

- Tchau Helena.

- Boa noite Luísa.

A médica sai pensativa. Helena se sente triste.

“será que ela já conseguiu o que queria, e agora vai simplesmente agir como se nada houvesse?”

Esse pensamento a faz murchar.

4. Magia de fada por Cida Dias

Luísa vai para casa, toma banho e dorme profundamente. Apesar de toda gama de sentimentos, o cansaço vence. Acorda depois das dez e imediatamente pensa em Helena. Faz o café e continua pensando num jeito de vê-la. Uma ideia surge.

- Oi Sê!

- Oi Lu!

- Tá muito ocupada agora cedo?

- Nada que não possa fazer depois, por quê?

Luísa conta sobre a história que fez com que Serena se transformasse numa fada. Ela ri muito e combinam de irem juntas ao hospital. Luísa para o carro  e vai até a loja.

- Bom dia Dona Marta!

- Oi minha flor!!

Se abraçam e se beijam carinhosamente.

- A Serena já tá vindo. Mas olha, aonde vocês vão?? – diz colocando as mãos no rosto num gesto assustado e engraçado.

- Por quê?

- Por isso!! – Serena aparece na porta vestida de fada.

- Que isso??? – Luísa pergunta já dando risada.

- Ué você me transformou numa fada, como quer que apareça na frente da menina???

Luísa explica para Marta a história.

- Ah Luísa, você é um ser iluminado mesmo! – Marta diz com os olhos marejados.

- Que isso Dona Marta! – responde muito sem graça.

- Vamos Lu!!! – Serena diz já puxando a mão da amiga.

Chegam ao hospital.

- Sê como você vai subir assim????

- Oxi, subindo ué! – diz e sai do carro.

Todos a olham admirados. Serena age como se vestisse uma roupa normal, do dia a dia. Luísa não contém o riso ao ver a cena.

- É esse o quarto. A porta tá fechada então a Helena deve estar aí.

Luísa bate na porta e entra.

- Lu!!!! – a animação na voz de Mariana deixa a médica comovida novamente.

- Oi minha princesa! – e a beija.

- Bom dia Luísa.

O tom de Helena é frio, nem faz menção de se levantar para cumprimentar Luísa.

- Bom dia Helena. Mari tenho uma surpresa pra você!!

- Jura, outra fruta encantada???

- Hummm melhor que isso! Mas você precisa fechar os olhos e jurar que só abrirá quando eu falar!!

- Juro!!!!!

Luísa vai até a porta e chama Serena. Helena se surpreende ao vê-la vestida a caráter. Serena sorri e a cumprimenta com um lindo sorriso.

- Pode abrir Mari! – diz Luísa.

A emoção de Mariana ao ver a fada comove a todos, todas ficam com os olhos cheios d´água.

- Você existe!!! – a voz da menina sai feliz e seus olhos brilham demais.

- Sim minha pequena!!

Serena brinca e responde a todas as perguntas da menina. Luísa e Helena ficam paradas admirando a beleza da cena.

- Bom, por que as duas moças aí não vão dar uma volta enquanto eu conto histórias para essa princesinha? – Serena dá uma piscada para Luísa.

- Isso, aí fica só nós duas né fada Serena!!!

- Podem vir só daqui duas horas, pois faço questão de curtir muito essa menina flor!!

Helena fica dividida e não responde, quando Luísa percebe que ela pode dar uma desculpa qualquer, pega em sua mão e responde:

-Sim senhoritas! Então voltaremos daqui duas horas.

Elas deixam Mariana e Serena e saem do quarto.

- Posso te levar para um lugar calmo e lindo? – Luísa pergunta com receio.

Helena aceita com um meneio de cabeça. Seguem quietas até o carro que está parado na rua lateral. Luísa abre a porta para Helena entrar. Seguem até o parque do centro da cidade. Estaciona e olha para Helena.

- Vem moça, vamos dar uma volta ao ar livre.

Caminham por uns minutos ainda em silêncio. Como é dia de semana, não há muito movimento. Luísa a leva até o lago.

- Nunca entrei aqui. – Helena quebra o silêncio.

- Amo esse lugar. – lembra que Laís também entrou lá pela primeira vez com ela e hoje é assídua frequentadora.

Sentam na beira do lago.

- O que foi Helena?

- Nada. – a voz ainda é fria.

Luísa puxa de leve o rosto de Helena para que a olhe.

- Você está estranha desde que chegamos ontem ao hospital. Foi pelo que aconteceu na minha casa?

Helena quer falar tudo o que pensa e sente, mas está tão confusa que fica inquieta e ao mesmo tempo, sem saber como agir, como falar.

- Helena, ontem o que aconteceu foi lindo, amei. Sei que pra você foi uma surpresa, talvez cedo demais, inesperado e confuso. Mas eu agi conforme meu coração e meu corpo pediram e só continuei, porque vi que você também queria.

- Lu eu não sei como permiti, sei que também gostei, mas nunca nem tinha imaginado beijar uma mulher quanto mais fazer amor. Sou casada e nunca fui pra cama com alguém que conheci em tão pouco tempo.

- Só me responde uma coisa, você gostou?

- Sim.

- Então não há nada de errado.

- Claro que há! Sou casada!

- Sim é. Por isso a culpa? Acha que fez algo monstruoso?

- Fui infiel e em tanto tempo de casada, jamais fiz algo do tipo, me sinto péssima.

- Você é feliz?

- Com tudo que está acontecendo com a Mari, não.

- Esquece um pouco dessa situação. Se tudo estivesse bem com ela, você seria feliz, melhor, você era feliz e realizada no seu casamento antes da doença dela?

Helena olha para o lago e fica pensando por um momento. Sem olhar para Luísa, desabafa:

- Não... Me casei por estar apaixonada, fomos felizes nos primeiros anos, mas acho que o desgaste normal de qualquer casamento nos atingiu.... Fomos nos tornando amigos.

- Amizade é sempre boa, mas numa relação amorosa só ela não basta.

- Você já casou?

- Sim e foi bom até que aconteceram algumas coisas ruins.

- Faz tempo? Ficou casada quanto tempo?

- Tem uns anos, depois disso tive apenas uma relação séria que durou alguns meses. Gosto de estar solteira.

Helena a olha tentando decifrar sua expressão.

- Nunca mais amou ninguém?

- Me apaixonei por essa última namorada, somos amigas até hoje. Depois dela ninguém me encantou.

Helena gostaria de ser quem a encantasse, mas nem tinha certeza do que sentia por Luísa. Seria amor? Paixão? Ou apenas estava carente e a linda médica veio suprir o que faltava?

- Lu eu gostei muito de ontem, mas e agora?

- Seremos amigas, continuarei visitando vocês e vida que segue!

- É isso que quer? - diz meio decepcionada.

- Helena por acaso você está disposta a mais do que isso? Com você não foi sexo como tem acontecido comigo há um bom tempo. Sinto algo mais que desejo. Só que não vou embarcar em algo se você estiver indecisa. E tão pouco quero atrapalhar sua vida.

- Lu eu estou muito confusa de verdade. Não tenho o que te responder.

- Então não responda nada. Seremos amigas e, se um dia você se decidir por algo diferente, a gente volta a conversar. Combinado linda? – e dá seu lindo sorriso.

Helena sorri e elas se abraçam. Um abraço demorado, bom, acalentador.

Luísa olha em volta e vê que estão sozinhas, segura o rosto de Helena com uma das mãos, aproxima sua boca do ouvido dela e diz baixinho:

- Você é linda sabia?

- Lu....acabamos de combinar que seriamos duas amigas e...

- Então por que você tá arrepiada?

- Por que tá frio....rs

- Não, porque está excitada. – a voz de Luíza é carregada de sensualidade.

- Estamos no parque!

Colando ainda mais seus corpos, Luísa coloca sua outra mão por baixo da camiseta de Helena, fazendo carinho em sua barriga.

- Lu assim é covardia... – Helena suspira.

- É? Tá eu paro!

Quando faz menção de se afastar e tirar sua mão, Helena agarra sua nuca e beija sua boca.

- Assim você me deixa em dúvida de como agir Helena. – as palavras saem sufocadas, pois as bocas estão muito próximas.

- Não consigo pensar direito perto de você Lu.

Luísa se afasta e senta de frente à Helena.

- Bom vamos nos conhecer. Meu nome é Luísa Campos, tenho quase 40, sou médica, fui casada por 9 anos com uma mulher, sou lésbica desde sempre, nunca me envolvi com homens. Gosto de mulheres da minha idade ou mais velhas, pratico meditação, sou espírita, gosto de esportes, mas não ando praticando. Venho de uma família que amo e que me ama, nasci no interior do Paraná, tenho poucos e ótimos amigos, sou alegre na maior parte do tempo. Hum... faltou alguma coisa?

Helena ri do jeito leve e direto dela.

- Posso perguntar conforme as dúvidas forem surgindo?

- Claro Helena! Agora sua vez!

- Me chamo Helena Souza de Matos, tenho 39 anos, sou advogada e trabalho na empresa da minha família, mas meu sonho é dar aula de história em alguma universidade. Sou casada com o Fabio há dez anos, tenho uma filha maravilhosa chamada Mariana que tem oito anos, minha família se resume à minha mãe e à minha irmã mais nova, agora também a do meu marido, mas nunca me dei muito bem com eles. Nunca fui fã de exercícios apesar de saber que são necessários, odeio dentista, amo orquídeas, mesmo antes da doença da Mari era mais séria que alegre ou espontânea.

- Posso também fazer perguntas?

- Claro Lu! Quem começa?

- Eu porque sou loira e linda!! – as duas caem na risada.

- Ok! Vai lá loira linda! – Helena dá uma piscada e um beijo leve na boca de Luísa.

- Vou seguir a ordem que foi dizendo ok? A empresa é da família do seu marido ou da sua?

- Da minha família. Meu pai construiu um pequeno império na área de confecções.

- Por que não foi dar aulas?

- Entrei muito nova na faculdade e acabei cedendo ao desejo dele de fazer Direito. Comecei a outra faculdade quando terminei a primeira, foi um perrengue familiar, mas terminei. Meu pai morreu justo quando eu estava acertando para dar aulas. Acabei tomando seu lugar na fábrica. Não tive coragem de largar até hoje.

- Como conheceu seu marido?

- A família dele sempre foi nossa principal cliente. Nos conhecemos quando devíamos ter uns 24 anos. Num jantar desses que sempre tinha em casa, acabamos ficando. Foi indo e quando vi, tinha dito sim pra ele.

- Por que optaram pela adoção?

- Porque sempre foi um desejo meu, ele mesmo nunca quis filhos. Embarcou comigo nesse sonho.

- Ele é bom pai?

Helena joga uma pedrinha no lago e demora um pouco para responder.

- Sim, é atencioso e trata com carinho a Mariana. Sabe, logo que comecei a trabalhar na fábrica, lutei até conseguir montar um orfanato que existe até hoje. Sempre frequentei e quando a Mari chegou lá, tinha apenas cinco meses. Foi retirada dos pais porque usavam drogas e uma vizinha chamou a polícia. Tinha ouvido berros de criança, enfim, arrombaram a porta e acharam ela ali, largada no chão toda suja e esfomeada.- nessa hora caem lágrimas dos seus olhos.

- Nossa que situação!

- Sim. Estava casada há dois anos e nem ele e nem eu, pensávamos em filhos. Mas vi a Mari e a amei no primeiro segundo! Discutimos muito e por dias, até que depois de quase um mês assim, eu disse que me separaria se fosse o caso, mas que eu adotaria a Mari de qualquer maneira.

- Logo ele aceitou para não te perder. Deve te amar muito!

- Sei lá, acho que sou uma boa mulher para ele. Rica, inteligente, de certa forma bonita, um belo objeto para ele desfilar pela sociedade. – seu tom é frustrado.

- Mas vocês não se amam?

- Hoje me questiono. Gosto dele, no começo era muito bom. Depois que casamos que realmente percebi que o que sentia por ele era uma profunda amizade, que sinto até hoje.

- Quer que eu pare?

- Não Lu, de certa forma está sendo bom desabafar. Nunca fiz isso com ninguém. Estou te contando e ao mesmo tempo refletindo.

- Não tem sua irmã ou amigas??

- Minha irmã é mais nova e se mudou para a Itália para fazer faculdade, tinha 19 anos. Vinha de férias aqui. Nunca convivemos muito. Agora é casada e vem uma vez por ano. Não sou muito de me abrir, tenho duas amigas de anos, mas sei lá, nunca me senti à vontade para falar dessas coisas.

Helena vê como isso é semelhante entre Helena e Laís, será um karma? Pensando nisso, deixa escapar um sorriso.

- Rindo de mim? – Helena provoca.

- Para você minha linda! Por que ainda está casada?

- Olha nossa relação é tranquila, é fácil conviver com ele.

- E como é o sexo? – Luísa pergunta já sentindo o danado do ciúmes.

- Normal. Depois de ontem descobri que é muito sem graça.

As duas riem e trocam um beijo longo.

- Mas agora é minha vez, já respondi muitas pergunta Dra. Luísa!

- Sinta-se à vontade linda.

- Já amou?

- Sim, minha ex esposa.

- Ainda a ama?

- Não.

- Por que seu último namoro acabou?

- Porque tínhamos muito tesão, mas não nos amávamos. Foi uma paixão gostosa, mas passageira.

- Não se sente vazia por apenas transar com as mulheres?

- Não. Não saio transando com qualquer mulher, mas confesso que já aconteceu. Olha Helena, na minha cabeça é muito bem resolvida a separação entre sexo e amor. Adoro sexo, com alguém que amo ou estou apaixonada fica melhor. Mas se não estou, o sexo é bom também.

- Pra mim isso é algo muito novo.

- Pra muitas pessoas ainda é, me julgam como promíscua, nem ligo. Ninguém paga minhas contas.

Elas riem e se beijam, aproveitam o tempo para namorarem como duas adolescentes.

- Ainda tem um bom tempo, por que não vamos pra sua casa Lu? – Helena diz enquanto beija seu pescoço.

- Ahhh Helena, acho que devemos nos conhecer melhor. Não foi você que comentou que esse lance de só sexo a assustava?

- Hummm você tem razão, mas...

- Mas o que srta?

- É que não consigo ficar perto de você e não sentir uma vontade de...

- De?

- Ah você sabe. – Helena diz sem graça.

- Verbaliza mulher! – diz rindo.

- De fazer amor com você Dra. Luísa!

- Mas acho melhor fazermos o que falei. Se um dia, quem sabe, você entender o que sente por mim, a gente volta a conversar. Envolver sexo só vai te confundir mais.

Helena a entende e sabe que tem razão, mas sente certa frustração.

- Enquanto isso, você sai com outras mulheres.......

Luíza a abraça e diz carinhosamente:

- Helena não serei hipócrita de falar que isso não pode acontecer. Mas confesso que há anos não sentia isso que sinto com você.

- Com sua ex namorada e faz pouco tempo. – o bico de manha sai sem querer e se fixa no rosto de Helena.

- Com ela foi tesão e paixão, mas não foi esse treco que ando sentindo.

- Que nome tem esse treco Lu?

Luísa não quer pressionar ou manipular Helena, por isso prefere não ser totalmente sincera.

- Helena sinto algo bom por você, de verdade! – e a beija terna e intensamente.

Elas voltam para o hospital e encontram Serena e Mariana brincando de cartas. Conversam e depois de um tempo, Serena avisa:

- Bom meu amor preciso ir, tenho outras princesinhas para visitar!

- Ahhh.... – Mari cruza os braços e faz cara de choro.

- Filha não seja egoísta! – repreende Helena.

- Bom vou levar a fada e amanhã eu volto pra te ver minha menina! – Luísa beija e abraça Mariana.

- Não Lu, fica que eu pego um uber!

Dessa vez é Helena quem fala:

- Serena não tenho como te agradecer!! Luísa obrigada!!

Elas se abraçam e se despedem de forma carinhosa. Luísa cochicha para Helena:

- Mais tarde te mando uma mensagem. – quando se afasta percebe o sorriso doce que desponta do rosto de Helena.

Já no carro Serena pergunta:

- Por que não ficou Lu??

- Ah Sê! Hoje conversamos muito e foi ótimo, mas ela de fato está muito confusa e, confesso, também estou.

Estaciona o carro em frente à loja de Serena, as duas amigas se despedem e Luísa vai direto para sua casa. Coloca um cd de MPB, abre um vinho e se senta no chão da sala. Repassa a conversa com Helena. Tenta entender o que ela própria sente. Depois de um bom tempo refletindo, diz em voz alta:

- É Luísa pra você ter certeza se é isso mesmo, terá que se testar!

Deita para dormir decidida no que fará no dia seguinte.

5. Prova dos 9 por Cida Dias

O dia passa de forma tranquila tanto para Helena quanto para Luísa. Se falam rapidamente por mensagem. Helena percebe Luísa um tanto distante, mas lembra que ela está de folga e deve ter muitas coisas para fazer e também descansar.

Hoje uma das cuidadoras passará à tarde com Mariana, então Helena aproveita para ir para casa e reorganizar um pouco o que deixou parado.

Apesar de tantas tarefas, coisas da casa e da empresa, não para de pensar na médica. As horas fora do hospital passam voando e, antes de voltar para dormir com Mariana, ela manda uma mensagem para Luísa.

“oi Lu como vc está?”

Quando Luísa olha a mensagem, pensa se é melhor responder ou se continua se arrumando para sair e dá uma desculpa no dia seguinte. Antes de se decidir, vem outra mensagem:

“incrível, mas estou com saudades de ver esses lindos olhos verdes!!!”

Aquilo dá um baque na médica que fica tentada a desistir de tudo e ir até o hospital matar a saudade que também a invade. Mas consegue segurar seu ímpeto e responde:

“oi linda moça! Tbm com sds. Hj tirei o dia pra dormir!”

Para não parecer fria e nem para incitar ainda mais seu desejo de desistir do seu plano, manda outra mensagem:

“se a Mari tiver gostado da cuidadora, será que não pode me pagar o jantar amanhã???”

Helena sorri e responde que dará a resposta mais tarde.

Luísa se olha no espelho, está linda num vestido azul bem solto e de alças.

- É Luísa bora lá tirar a prova dos 9!!

Ela chega ao bar que já está cheio, circula um pouco e escolhe uma mesa no fundo, lá tem uma visão abrangente do ambiente. Pede uma caipirinha de saque e maracujá e fica olhando ao redor. Ninguém a atrai e dispensa umas duas que se aproximam. Quando está quase desistindo, aparece uma moça oriental que a cumprimenta:

- Oi Luísa, quanto tempo!

Ela a olha e depois de um tempo lembra que é a Marcela, ex namorada de Serena.

- Oi Marcela! – diz já se levantando.

Se beijam no rosto e Luísa a convida para sentar.

- Nossa isso aqui tá estranho hoje, ninguém interessante! – reclama Marcela.

- Nem fale, já foi bem melhor.

Elas riem e conversam sobre a vida, o que tem feito e coisas do tipo. Luísa a olha e vê que é uma mulher muito charmosa, bonita e com bom papo. Nota que Marcela também a observa e o papo vai tomando um tom de flerte. A conversa dura por quase uma hora, quando Marcela se aproxima e coloca delicadamente a mão na perna de Luísa, que aceita. Luísa com o braço apoiado no encosto do sofá, brinca com o cabelo de Marcela.

- Posso ser direta? – Marcela pergunta e toma um gole da sua caipirinha de abacaxi.

- Claro.

- Te acho lindíssima e charmosa. Agora conversando mais, também te acho com ótimo papo. Tenho vontade de beijar você, mas não quero nada além de bom sexo. Tudo bem pra você?

Luísa solta uma risada, coloca o copo na mesa e diz de forma sensual para Marcela:

- Minha linda, é tudo o que mais quero!!!

Marcela se aproxima mais, coloca a mexa do cabelo de Luísa atrás da orelha. Diz com voz rouca em seu ouvido:

- Que tal sairmos daqui? – e beija a boca da médica.

Vão juntas para a casa de Luísa no seu carro, já que Marcela estava a pé. No caminho, Marcela começa a beijar o pescoço da médica e a explorar sua coxa. Luísa permite. Chegam ao apartamento e se agarram mais intensamente ainda na sala. Marcela puxa Luísa para o sofá, se deita e faz com que a médica deite por cima. A médica sente atração por Marcela, mas não chega perto do que sentiu com Helena. O seu corpo reage aos toques da menina, que agora tira seu vestido e com destreza, beija seu pescoço e aperta suas costas e bunda.

- Humm... – Luísa solta um gemido leve.

- Me leva pra sua cama... – a voz rouca causa frenesi em Luísa.

Seguem para o quarto.

- Tira sua roupa. – a médica pede.

- Mandona você Dra. Luísa! – ri e obedece.

Ela empurra Luísa que cai de costas.

- Quero saborear você!

Luísa sente seu corpo quente e molhado de desejo. Marcela tira o que resta da roupa da médica.

- Quietinha doutora. – diz e vira Luísa de bruços.

Com a boca vai lambendo do tornozelo até a nuca, com as mãos aperta as coxas firmes da médica.

- Que gostoso.... – a voz de Luísa sai num suspiro.

Marcela deita sobre ela e esfrega seu corpo quente e também úmido. Morde o pescoço e sussurra:

- Quero comer você.

Luísa apenas geme. Marcela desce seu corpo, tocando provocativamente seus seios nas costas dela, que se contorce. Afasta as pernas de Luísa e encaixa sua mão em seu sexo.

- Ahhhh.....

Marcela brinca com os dedos dentro de Luísa, a penetra ao mesmo tempo que morde sua bunda. Luísa sente um prazer maluco e quase implora:

- Me chupa agora!

Marcela a vira e tira sua mão de dentro dela. Abre ainda mais suas pernas e passa língua de leve por todo seu vão. Sente Luísa se remexer mais ainda. Vai até seu ouvido e diz:

- Só chupo se pedir de novo....

Luísa a olha e percebe que Marcela é mandona como ela, então levanta o rosto até sua boca se aproximar do ouvido de Marcela:

- Me chupa agora ou serei obrigada a te comer.

Marcela se excita ainda mais e a obedece. Luísa goza e Marcela praticamente despenca a seu lado.  Não há abraço, beijo e nem a vontade de nenhuma delas em fazer essas coisas. Depois de uns dez minutos em silêncio, Marcela se levanta e começa a se vestir.

- Ei já?? Me faz gozar e simplesmente vai embora? – o tom de Luísa é meio que de alívio.

Marcela dá uma risada e diz:

- Lu eu sou ativa e adorei transar com você, mas tô de pileque e amanhã tenho que acordar muito cedo. – Se ajoelha na cama e dá um beijo na boca de Luísa.

- Mas tá a pé, eu vou te levar.

- Não linda! Vou de uber!

Quando termina de se vestir, vira para Luísa e pergunta:

- Podemos repetir?

Luísa a olha e diz:

- Sim!

Se despedem e Luísa tranca a porta do apartamento. Deita na sua cama e tenta analisar tudo o que aconteceu e, principalmente, o que não aconteceu. O sono vence antes que ela chegue a alguma conclusão.

6. A proposta por Cida Dias

Deitada no sofá do quarto de Mariana, Helena estranha, pois já mandou três mensagens e Luísa nem visualizou. Pensa em ligar, mas fica com receio de quebrar o que tinham combinado. Adormece e quando acorda quase duas da manhã, olha o celular, nada, nenhum sinal de Luísa. Tenta dormir de novo, enfim o sono vence.

Logo que acorda, Luísa olha seu celular e vê algumas mensagens de Helena, isso aquece seu coração. Ela sentiu sua falta tanto quanto a médica sentiu da mulher de lindos olhos azuis. Conforme tinham combinado, dará espaço e tempo para que Helena avalie o que sente por ela.

Depois do café, Luísa vai correr no parque, passa algum tempo aproveitando sua merecida folga. Recebe uma mensagem:

“oi linda, só para agradecer a linda noite de ontem, bj Marcela.”

Como ainda está tudo confuso, Luísa investe nessa amizade colorida.

“eu que agradeço, espero repetirmos em breve.”

Helena está inquieta, hoje será a primeira noite que dormirá fora do hospital já que Mari gostou muito de Célia, a cuidadora. Quer falar com Luísa, quem sabe fazer o prometido jantar, mas já é quase hora do almoço e nenhum retorno dela. Seu celular toca, dando um susto nela.

- Oi Helena!

- Oi Lu. – ouvir a voz da médica a acalanta.

- Desculpa a falta de retorno, mas de fato precisava descansar, correr um pouco e me desligar de tudo.

- Imagino, muita correria sua vida.

- E como está a Mari, você?

- Estamos bem.

- Helena?

- Oi.

- Estou com saudades e sei o que combinamos, mas será que não poderíamos apenas nos ver hoje?

Helena se enche de alegria, pois também está com muitas saudades de Luísa.

- Sabe Lu hoje será a primeira noite que a cuidadora dormirá com a Mari, pensei se não posso pagar o jantar que te prometi, o que acha? – sua voz está carregada de apreensão.

- Sim!! Aceito!! Quero!!!

As duas riem e combinam que Luísa passará no hospital para pegar Helena. O dia custa para passar, cada uma inventando um modo de acelerar o tempo.

No horário combinado, Luísa já está com carro estacionando esperando Helena, que chega pontualmente e entra no carro. Se cumprimentam com um beijo no rosto e um longo abraço.

- Nossa que saudades, Helena!

- Eu também Lu!

- Onde me levará?

- Sabe, pensei em irmos ao mercado e depois eu prepararia um jantar na sua casa, pode ser?

- Uau! Será que me arrisco a comer sua comida?

- Poxa Lu, sou ótima na cozinha!!

Elas vão ao mercado e Luísa percebe que esse simples ato lhe causa um bem estar enorme. Estar ao lado dela fazendo algo tão prosaico, lhe enche de alegria. Seguem para o apartamento de Luísa e Helena começa a preparar o jantar.

Helena está focada no peixe e no molho, enquanto Luísa abre um vinho e senta na cozinha, se deleitando com a presença de Helena.

- Vou tomar um banho enquanto você termina. – diz Luísa tomando o último gole do vinho.

- Ah...por que não me espera? Termino rapidinho.... – a voz é carregada de segundas intenções.

- Helena...Helena...

Ela se vira e encara a médica.

- Lu eu pensei muito e em tudo.

- E?

- E que estou morrendo de medo do que possa acontecer, mas tenho uma certeza. – diz se aproximando da médica.

- Qual é essa certeza? – Luísa a abraça pela cintura, elas ficam com as bocas muito próximas.

- Que eu quero você. Eu não paro de pensar em você, de imaginar coisas com você. Meu marido está fora há alguns dias, mal falo com ele ou sinto sua falta.

Elas ficam se olhando, Luísa sente felicidade misturada com medo.

- Helena pode ser carência?

- Pensei muito nisso. Não é.

- Desejo?

- Não penso em você apenas nesses momentos, seria bom se fosse, mas eu penso em você nas coisas mais simples, conversar apenas, caminhar, coisas bobas sabe?

- Sim.

- Eu sei que é uma situação complicada e que você pode não querer nada disso, mas queria te propor uma coisa.

- Qual sua proposta Helena?

- Que tal eu terminar aqui, aí tomamos uma banho e no jantar conversamos? – diz já dando um beijo em Luísa.

Finalizam o jantar, arrumam a mesa e vão para o banheiro. Tiram suas roupas e entram no chuveiro. Luísa começa a ensaboar todo o corpo de Helena, com delicadeza. Quando termina, Luísa faz a mesma coisa no corpo da médica. Brincam com as mãos em seus corpos, sentem a água quente lavando toda a saudade que ambas sentiram. Luísa desliga o chuveiro e elas vão para o quarto, nuas e molhadas. Fazem amor de forma intensa, o suor se mistura com a água do banho. Helena pela primeira vez toma a postura ativa e aproveita a entrega de Luísa. Sente cada pedaço da sua pele, cada canto do seu corpo, lambe, suga e tateia Luísa inteira, sem deixar nada sem tocar ou beijar. O gozo da médica deixa seu corpo todo trêmulo e saciado. Helena por sua vez, se sente completa e inteira.

- Vem vamos jantar.... – diz beijando a boca da médica.

- Nuas?

- Sim, nuas! – a voz de Helena é firme.

- Nossa que delícia!

Sentam à mesa e Helena serve a ambas. Saboreiam o delicioso jantar em silêncio, apenas flertando e sorrindo. Quando terminam, Luísa pega a mão de Helena e a leva até o sofá. Coloca Helena sentada de costas, encostada em seu corpo.

- Hummm tão bom isso, ficar assim com você Helena...

- Adoro, você me faz tão bem. Me sinto segura com você Lu.

Ficam curtindo o momento até que Luísa pergunta:

- E qual sua proposta linda?

Helena pigarreia e respira fundo, sabe que sua proposta é ousada e pode se recusada, mas depois de muito refletir, decide que já abriu mão de tantas coisas, agora quer ao menos ter Luísa perto. Ela se vira e senta no colo de Luísa, ficando de frente para ela.

- Lu enquanto a Mari não operar não posso e nem tenho cabeça para tomar alguma atitude quanto ao meu casamento. Mas não quero me afastar de você e também não quero apenas sua amizade. Eu te proponho sermos amantes. – sua voz sai trêmula pelo medo da resposta.

Luísa se ajeita no sofá e pensa que, apesar de não ser ideal, é o que também quer. Ela poderá ser livre e ainda ter Helena, não da forma que queria, mas é melhor do que se afastar.

- Helena eu aceito, mas tem uma condição.

- Qual?

- Até você tomar ou não uma atitude quanto ao seu casamento para que possamos de fato, vivermos uma relação monogâmica, eu não serei fiel a você. Não que eu vá continuar com várias mulheres, mas apenas quero deixar claro que, se você não pode agora ser fiel a mim, também não vou prometer isso. Seria hipocrisia entende?

Helena esperava por isso, apesar de não querer nem imaginar outra mulher tocando Luísa, não tem como pedir fidelidade se ela própria não pode oferecê-la.

- Sim Lu, entendo e aceito sua condição.

Elas passam o resto da noite namorando, transando, conversando e curtindo o tempo juntas. Helena dorme no apartamento de Luísa e no dia seguinte, vão juntas ao hospital.

7. Medos por Cida Dias

Os dias passam e as duas sempre dão um jeito de estarem juntas. Mariana segue reagindo bem ao tratamento e Helena consegue dividir seu tempo para estar com sua filha, ir para a empresa e ficar com Luísa.

Até que Fabio volta da viagem ao Rio. O convívio do casal é calmo, porém cada vez mais distante. Luísa sente ciúmes de Fabio, mas sabe se controlar e não deixa transparecer para Helena.

Enfim a operação de Mariana é marcada, a aflição, o medo e a esperança atingem a todos. Luísa se sente feliz em fazer parte da cirurgia que salvará a vida da menina que aprendeu a amar.

No grande dia, Luísa acompanha Henrique até o quarto de Mariana. Lá estão Helena e Fabio, aflitos.

- Bom dia pequena guerreira. – diz Henrique.

- Oiee! Oi Lu!!! – Mariana está tão feliz que contagia a todos.

Henrique explica o procedimento e Luísa observa Fabio e Helena abraçados, sente o amor que há entre eles, mas percebe que é mais fraternal que romântico, isso de certa forma lhe dá paz. Sente o olhar carente que Helena lhe lança, luta para não ir até ela e a abraçar, dizer que tudo dará certo e que cuidará das duas.

Todos seguem para o centro cirúrgico, os pais aguardam na sala de espera. A operação dura 3 horas, Henrique sai para conversar com os pais de Mariana.

- E ai Dr. Henrique??? – Helena está muito nervosa.

- A operação foi um sucesso! Mariana está se recuperando e logo voltará ao quarto.

Fabio e Helena se abraçam e choram de alívio. Abraçam Henrique.

- Bom apesar de ainda termos que monitorá-la, tenho convicção que a nossa princesinha responderá muito bem.

Helena e Fabio descem para o quarto, ela tem uma vontade enorme de abraçar Luísa e agradecer por ter participado da operação, mas precisa se conter.

Luísa sai feliz da operação e, apesar do imenso desejo de falar com Helena, prefere respeitar o momento da família. Manda uma mensagem de apoio para ela e decide ir para casa.

“nem tenho palavras para te agradecer Lu!!!!”

Luísa fica feliz ao ver a resposta de Helena.

“imagina Helena, fiz meu melhor e sabe que gosto muito dessa princesinha!”

“só da princesinha???”

“não, da mãe dela também, e muito!”

“estou com saudades e louca de vontade de estar dentro do seu abraço Lu.”

“eu também linda, assim que der vamos nos ver?”

“siiimmmm!!”

Helena está totalmente voltada para a recuperação de Mariana, nos primeiros dez dias pós-transplante, ela e Luísa se veem apenas no hospital. Numa sexta Luísa vai até o quarto.

- Oi minha princesa!!! – diz beijando Mariana.

- Oi Lu!!!!

Luísa olha para Helena que lhe sorri. Conversam e brincam com Mariana.

- Linda, posso roubar sua mãe um pouquinho?

- Sim!!! Lu, você vai me visitar em casa né???

- Vou sim princesa! Não prometo te ver tanto quanto gostaria, mas irei sim!

- Você leva a fada Serena???

- Sabia!! Só por isso né?? – e faz cócegas na menina.

- Mari eu vou conversar com a Lu e volto logo tá?

Elas saem e vão até a cafeteria do primeiro encontro. Sentam na mesma mesa e pedem chá de hortelã. Helena pega na mão de Luísa, já não se importa mais se alguém vê.

- Saudades tão grande de ficar com você.

- Eu também Helena, mas deixa as coisas se aprumarem que vamos ficar mais vezes juntas. – e beija sua mão.

Conversam sobre coisas banais enquanto tomam o chá.

- Hoje é sexta, vai passear? – Helena tenta não transparecer o seu ciúmes.

- Hoje vou à uma festa na casa de alguns amigos.

- Serena?

- Ela e Laís estarão lá, mas é na casa da Julia que vai comemorar seu aniversário.

- Hum.

- Por que linda?

- Só curiosidade sobre o que minha médica preferida faz nas noites de sexta.

- Tem outros planos pra sua médica? – pergunta com voz sensual e piscando para Helena.

- Bem que gostaria, mas o Fabio marcou um jantar com a família dele. – não disfarça o seu desânimo.

- Ele não vai nunca mais vai viajar???

As duas riem com certo nervosismo. Helena aperta mão de Luísa e a olha sério.

- Lu, sei que é complicado, mas tenha um pouco de paciência.

- Relaxa linda, eu entendo e entrei nessa totalmente consciente. Sei que você quer abusar de mim e adoro!!

- Nem sabe o quanto quero. Domingo à tarde Célia ficará com a Mari, o Fabio vai pescar com o pai e uns primos, pensei em aproveitarmos, o que acha?

Um sorriso toma conta de Luísa.

- Amei a ideia!!

Conversam enquanto vão para o hospital, combinam que Luísa a buscará domingo após o almoço. No caminho para casa, Luísa canta uma música qualquer e sorri já imaginando como será o domingo, quando seu celular avisa que tem uma mensagem.

“oi gata, vai hj na casa da Julia.”

Ela estranha, pois apesar de poucas mensagens trocadas, nunca mais se encontrou com Marcela.

“vou sim, vc a conhece??”

“mundo gay é um tanto pequeno nessa cidade..rsrs”

“isso é vdd”

“estava conversando com a Serena e ela comentou que vc iria”

Luísa pensa em Helena, lembra do combinado entre elas e uma certa culpa a invade. Depois lembra da tarde de ontem quando entrou no quarto de Mariana  e deu de cara com Fabio e Helena se beijando, o ciúmes responde por ela:

“quem sabe hj teremos nosso prometido replay??”

“pode apostar delícia!”

Enquanto se arruma, Luísa toma vinho. A cena do beijo do casal não sai de sua cabeça e sabe que nem pode comentar com Helena. Remói algumas vezes enquanto enche outra taça. Na hora de sair, percebe que está um pouco alterada e resolve ir de uber.

Chega à festa e dá de cara com Laís e Serena, conversam e ela bebe uma caipirinha. Laís nota sua alteração e comenta com Serena.

- Vamos ficar de olho amor. – diz Serena preocupada.

Luísa vai para a pista sozinha e começa a dançar um reggae, de repente sente dois braços enlaçando sua cintura e uma boca morder sua nuca. Por um segundo imagina que é Helena, quando vira, dá de cara com Marcela.

- Oi médica delícia!

- Oi minha samurai.

Elas riem e dançam algumas músicas juntas. Quando os beijos começam a esquentar, Serena vai até a pista e puxa Luísa.

- Lu vem, você bebeu demais, vamos tomar uma água. – e vai puxando sua mão.

- Qual é Serena?? Ciúmes tardio??? – Marcela já alterada, pergunta com raiva.

Laís vai até ela e com cara fechada fala:

- Olha aqui Marcela, vou relevar porque tô vendo que você já tá alta. Serena só tirou a Lu daqui porque vocês estão quase transando na frente de todo mundo.

- Temos culpa da química deliciosa que nos atraí?

- A Luísa chegou alterada e está bem estranha, tenho certeza que ela jamais faria isso em estado normal. Então, de boa, fica longe dela hoje.

Marcela vira as costas e sai. Laís vai atrás de Serena e Luísa, que estão na varanda da frente. Quando chega, vê Luísa chorando no colo de Serena.

- Oi amor, o que ela tem? Nunca a via assim. – Laís fica ainda mais preocupada.

Luísa não para de chorar e Serena afaga seus cabelos, tentando consolar.

- Ah amor, ela não tá legal, vamos pra casa?

- Vou buscar o carro.

Levam Luísa para a casa de Laís.

- Amor tudo bem se você der um banho nela? – Serena pergunta sem graça.

- Ué porque você não dá?

- Nunca a vi nua, você já.

Laís ri e a beija.

- Nós duas daremos banho nela e a colocaremos no quarto de hóspedes ok?

É o que fazem. Luísa dorme profundamente. Serena e Laís abraçadas, a olham.

- Ela falou alguma coisa Sê?

- Ah amor, disse algumas coisas soltas. Acho que essa história com a Helena mexe muito mais com ela do que ela mesmo imagina.

- Acha que ela tá apaixonada?

- Na verdade pelo que a gente conversa e pelo que observo, ela ama a Helena.

- Queria tanto que fosse recíproco! A Lu merece demais!!

- Se não fosse ela, nós não estaríamos juntas!

- Verdade Sê. – e dá um beijo cheio de amor e desejo em Serena.

- Vem Laís, depois desse beijo, fiquei com uma vontade imensa de te colorir. - as duas riem e vão para o quarto.

Luísa acorda com uma terrível dor de cabeça, leva um tempo até entender onde está. Levanta e vai até a sala, onde encontra Serena na varanda cuidando da horta e Laís na cozinha fazendo café.

- Pelo amor de Deus alguém diz que anotou a placa da jamanta que me atropelou!!!

Todas caem na risada.

- Aiiiiii nem rir posso, senhor!!! O que houve ontem????

Ela senta na banqueta da cozinha e pega o café que Laís oferece.

- Bom dia Lu! Graças a minha pequena sereia, você apenas bebeu tudo que tinha álcool e te trouxemos pra cá.

- Não lembro de nada....há anos isso não acontece comigo.

- Do que você se lembra? – Serena pergunta se aproximando da amiga.

- Olha, eu sai de casa um tanto alta e peguei um uber....depois lembro de ver vocês quando cheguei na festa e só....

- Não se lembra da dança do acasalamento que fez com a Marcela?? – Laís solta uma gargalhada.

- O quê???????????????????????????????????? – Luísa diz já levando as duas mãos ao rosto em desespero.

Elas relatam o lance da dança e de como Serena a levou para a varanda, de como Laís teve que interceder e defender Serena e Luísa quando Marcela reclamou de terem tirado Luísa de perto dela.

- Lu ontem você falou algumas coisas pra mim na varanda....

Luísa a olha assustada.

- O que eu falei?

- Tudo meio desconexo, mas deu pra perceber que você tá sofrendo com essa história com a Helena. – Sereia a abraça.

Luísa respira fundo, fecha os olhos e deixa as lágrimas banharem seu rosto. Serena a abraça mais forte. Laís se aproxima e pega suas mãos.

- Lu você a ama? – Laís pergunta.

- Olha, eu fui pra cama com a Marcela, iria ontem se não estivesse tão bêbada. Mas tá tudo diferente sabe? Antes da Helena, eu transava de boa, aproveitava o momento e não tinha sofrimento e nem vontade de ver a pessoa no dia seguinte. Não me sentia vazia como me sinto depois dela. Sei que tem pouco tempo, na verdade eu não sei de mais nada. – seu choro se intensifica.

- Lu o amor faz dessas presepadas com a gente. Olha meu caso com a Laís, só três encontros e eu cai de quatro por ela!

- E eu então? A Elsa do Frozen!! – Laís diz rindo.

- Laís eu me apaixonei por você, ficamos uns meses e nos separamos. Confesso que sofri um pouco, mas depois de uma semana eu fiquei bem. E olha nós três aqui?

- Lu você disse bem, se apaixonou por mim. Pela Helena eu desconfio que não é só paixão.

Luísa a olha e fica pensando. Com Laís ela sofreu, mas no fundo ficou feliz, pois sabia que ela e Serena se amavam apesar do pouco tempo. Hoje as ama como duas irmãs.

- Por quê??? – Luísa pergunta ainda chorando.

- Por que o quê Lu??? – Serena pergunta aflita.

- Por que não acontece igual com a Helena? Ela é casada, eu não tenho o direito de atrapalhar toda a vida dela e muito menos, da Mari. Por que ela????? Tanta mulher que saí, por que justamente ela?? – Luísa nervosa começa a andar pela cozinha.

Laís a puxa para um abraço e diz calmamente:

- Lu desde quando mandamos no que sentimos?

Luísa chora convulsivamente nos braços da amiga. Quando se acalma, toma um remédio para dor de cabeça e come um pouco. As três assistem a filmes e passam a tarde conversando. Suas amigas tentam animá-la, ela até se descontrai um pouco, mas não tira Helena da cabeça.

- Lu seu celular tá apitando que nem trem, não vai ver? – Serena faz menção de buscar para a amiga.

- Não precisa Sê, deve ser a Marcela ou pior, a Helena. Hoje não tenho condições de falar com nenhuma delas.

No começo da noite, Luísa resolve ir para casa apesar dos protestos das amigas. Elas a levam e quando entra no seu apartamento, a sensação de vazio a consome. Se permite deitar no sofá e chorar todas as lágrimas que nunca mais tinham sido derramadas desde seu divórcio.

Helena fica preocupada com o sumiço de Luísa, manda várias mensagens durante todo o sábado que não são nem visualizadas. Quando sai do hospital, resolve ligar. Tenta três vezes, chama até cair a linha. O ciúmes agora se mistura com sua preocupação. O resto da noite passa olhando o celular, Fabio nota e questiona:

- Algum problema com a Mari?

- Não por quê? – responde distraída.

- Porque você não para de olhar o celular, esperando algum telefonema do hospital? – Fabio diz irritado.

- Nada importante.

Helena tenta disfarçar durante o jantar com a família do marido. Janta em silêncio e só responde a algumas perguntas que lhe fazem. Quando se deita, sente seu marido a puxando para um abraço.

- Ai Fabio tô cansada, não tô afim. – tenta se soltar dos braços do marido.

- Lena já tem um tempão que não transamos, tô com vontade de você. – diz enquanto beija a nuca de Helena.

Ela deixa ser tocada, apesar de não sentir nenhum desejo. Os toque não a arrepiam, Fabio ao contrário, parece extremamente excitado. Ele faz alguns carinhos por seu corpo, beija o pescoço e seus seios. Quando ela tenta relaxar, ele a penetra. Ela sente mais desconforto que qualquer outra coisa. Sente que, de alguma forma, é errado. Ele goza. Ela chora silenciosa. Ele dá um beijo de boa noite, se vira e dorme. Ela olha para o teto. Quando percebe que ele pegou no sono, desce até a sala. Senta no sofá e abraça suas pernas, chora.

8. Tomando uma decisão por Cida Dias

Luísa logo que acorda pega o celular, vê as mensagens de Marcela, quer marcar um encontro, Luísa não responde. Vê as ligações de Helena e lê as várias mensagens, as primeiras dizendo que está com saudades e as outras demonstram preocupação pela sua falta de retorno. A culpa lhe cai como uma bomba. Resolve mandar uma mensagem.

“bom dia linda”

Depois de quase meia hora, vem a resposta.

“nossa! tá viva???”

“desculpa por não responder ontem.”

“a festa devia estar ótima”

Luísa percebe a fúria na mensagem.

“que horas posso te pegar?”

A resposta demora, Luísa fica apreensiva.

“eu vou até sua casa.”

“Helena eu te busco, sei que não gosta de dirigir”

“EU VOU ATÉ SUA CASA OK???”

“nossa moça brava, td bem, que horas?”

“pq a preocupação com horário? Se for te atrapalhar nem vou”

“ei linda, calma aí! Só pra eu me arrumar!”

“vou sair do hospital às 14h, vou pra casa me trocar, o Fabio vai sair lá pelas três, devo chegar aí umas 15:30.”

“huum não vejo a hora!!!”

Helena simplesmente não responde. Luísa pensa:

“Caramba que mulher brava e ciumenta!”

Faz algumas coisas e quando é meio dia, sua campainha toca. Ela abre sem ver o olho mágico, deve ser o porteiro. É Marcela parada na porta. Está com uma mini saia jeans e um blusa de alça branca.

- Já que não responde as mensagens, resolvi vir aqui!

- Como subiu sem que me interfornassem?

- Ah usei meu charme. – e dá uma piscada.

- Entra. – diz encostando a porta.

- Na verdade vim me desculpar por sexta. Já pedi desculpas pra Serena e pra Laís, fui babaca. Mas se serve como justificativa, estava muito bêbada!

- Tudo bem, eu também. Acontece.

Marcela tenta se aproximar e Luísa desvia.

- O que foi Lu?

- Marcela foi ótimo o que aconteceu conosco, mas não quero mais repetir ok?

Marcela ainda insiste, joga seu charme e usa todos os argumentos possíveis, mas Luísa está irredutível. Quando Luísa se vira para desligar o som, Marcela a agarra e a beija. Nesse exato momento, Helena entre no apartamento e vê a cena.

Luísa ouve o barulho e empurra Marcela, que não entende nada.

- Nossa Lu pra que isso? Sempre gostou que te agarrasse assim. – quando se vira dá de cara com Helena que está pálida.

- Helena você chegou cedo. – Luísa vai até ela.

- Pelo visto fiz muito mal. – permanece pálida e parada na soleira da porta.

- Olha acho que eu estou a mais aqui. Tchau. – Marcela passa por Helena que se afasta dando passagem.

Luísa tranca a porta e segura o rosto de Helena com as duas mãos. Ela chora, Luísa a abraça. Ficam assim em silêncio.

- Helena senta aqui. – a leva até o sofá. Vai até a cozinha e pega um copo com água.

Ela bebe de um só gole.

- Eu sempre soube que isso ia acontecer. – a voz triste de Helena machuca Luísa.

- Helena, de fato foi uma cena horrível, mas juro que eu não esperava que ela viesse aqui.

- Quem é ela? – o olhar de Helena é duro.

Luísa conta como conheceu Marcela e o que aconteceu entre elas, inclusive na festa de sexta. Helena ouve tudo calada, coloca os braços apoiados nas pernas e segura o rosto com as duas mãos.

- Lu eu não tenho o menor direito de te cobrar nada, me desculpa pela cena. Acho melhor ir embora. – faz menção de se levantar, mas Luísa a detém.

- Não! Olha, eu preciso muito falar com você.

Helena a olha com medo de que ela termine tudo. Luísa senta de lado e a puxa para que fiquem de frente uma para a outra.

- Eu tentei, ah tentei viu!!! Fui até um bar, louca para expurgar você de mim, ninguém me chamou a atenção. Aí surgiu a Marcela e transamos, foi bom não vou mentir.

- É algum tipo de tortura comigo Lu? – Helena já não se preocupa em segurar seu choro.

- Não!! Só quero que me ouça ok?

- Fala.

- Quando acabou, fiquei aliviada por ela ir embora e me veio uma sensação horrível de vazio. Toda vez eu pensava em tentar de novo, só vinha você na minha cabeça, tomando conta de todos meus pensamentos e sentimentos. Acredita que senti que estava te traindo??? Isso NUNCA aconteceu comigo depois do meu casamento. E tem algo muito sério Helena, que por dias refleti, indaguei, duvidei, sabe me sufocando até agora?

- O quê? – a voz de Helena sai trêmula, agora é o término fatal.

- Eu amo você. Eu quero quebrar nosso acordo, pois não quero e muito menos, não sinto a menor vontade de estar com outra mulher. Sei que tem o período da recuperação da Mari, que não é fácil terminar um casamento como o seu, que envolve filha, dinheiro e família. Mas se você me ama, e também acredita que podemos ter uma relação linda, apesar de tudo, eu quero entrar de cabeça!

Elas se abraçam e se beijam longa e apaixonadamente. Sem palavras, se despem e se amam no sofá. Mãos, bocas, pernas, corpos que falam a mesma língua, sem precisarem de palavras. Sensações e emoções que ambas sabem que só sentem se estão juntas. Não há mais nada que precisem a não ser estrem ali, juntas, se transbordando.

Se amam por horas, por toda a tarde, e sabem que será por toda a eternidade. Deitadas com os corpos abraçados, uma olhando para a outra, se contemplando.

- Lu sabe que será difícil e demorado?

- Tenho consciência disso.

- Ainda assim vai trocar sua vida de solteira por uma mini guerra? – e Helena dá seu sorriso mais doce, que encanta Luísa.

- Vou.

- Vai ter paciência de me esperar para ser inteiramente só sua?

- Sim.

- Preciso te dizer uma coisinha...

- Diga Helena, diga tudo agora ou cale-se para sempre! – ambas sorriem.

- Tirando a Mari, amo você como nunca amei alguém!

- Eu sei e eu sinto seu amor!

O beijo cala as vozes, a certeza que elas têm de que só pode ser o amor que as ligam é tão grande, que o medo e a dúvida viram as costas e se despedem delas.

Adormecem sabendo que precisam desse refúgio para tudo ainda virá, e irão enfrentar! Juntas!

 

FIM

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