A ausência
Às 3h17 da manhã, Lia acordou com a sensação de que havia esquecido algo. Ficou alguns minutos de olhos fechados, tentando entender de onde vinha aquela certeza. Não era a ansiedade comum de esquecer um compromisso ou aquela pequena irritação que sentia quando uma palavra conhecida desaparecia por alguns segundos. Era algo mais específico, quase físico. Havia uma ausência ocupando um lugar dentro dela, como quando se entra em um cômodo e imediatamente percebe que alguma coisa foi retirada dali, embora não seja possível dizer exatamente o quê.
Lia abriu os olhos e ficou olhando para o teto escuro do quarto, enquanto a luz dos prédios vizinhos atravessava as frestas da persiana. Tentou voltar a dormir, mas a sensação permaneceu. Quanto mais procurava ignorá-la, mais presente ficava. Então uma palavra surgiu em sua cabeça.
Eva.
Lia repetiu o nome mentalmente algumas vezes, esperando que alguma lembrança viesse acompanhá-lo. Não veio. Nenhum rosto, nenhuma voz, nenhum lugar. Apenas o nome e uma certeza desconfortável de que deveria significar alguma coisa. Ela não conhecia nenhuma Eva. Pelo menos, não conseguia se lembrar de conhecer.
Como não conseguia mais dormir, decidiu procurar alguma coisa que pudesse ajudá-la a lembrar. Se Eva tivesse feito parte da sua vida, deveria existir algum vestígio — uma fotografia, um nome, qualquer coisa que pudesse preencher o espaço que a memória havia deixado vazio.
Abriu uma caixa de fotografias no fundo do armário. Entre documentos antigos, carregadores que já não serviam para nada e um par de óculos de armação preta, encontrou uma fotografia.Lia parou. Era ela. Mais jovem, com o cabelo castanho quase chegando à cintura. Usava os mesmos óculos que acabara de tirar da caixa. O casaco cinza também lhe pareceu familiar; tinha certeza de que o havia doado anos antes.
Ao lado dela havia uma mulher. Lia não a reconheceu. Ainda assim, demorou alguns segundos para conseguir desviar os olhos. A mulher tinha cabelos escuros e cacheados, presos de qualquer jeito, e olhos igualmente escuros, grandes e expressivos. Não olhava para a câmera. Olhava para Lia. Era um olhar íntimo demais para uma desconhecida.
Lia aproximou a fotografia do rosto. Foi então que percebeu a camiseta. A sua camiseta preferida. Preta, velha e macia. Ela havia procurado por aquela camiseta durante semanas antes de concluir que a tinha doado. Mas estava ali. No corpo dela. Com aquela mulher ao lado.Lia virou a fotografia. No verso havia uma data: 17 de outubro. Abaixo, uma única palavra, escrita à mão.
Eva.
O mesmo nome. Lia sentiu um frio percorrer os braços. Continuou olhando. Havia mais uma frase.
Você disse que nunca esqueceria.
Ela leu duas vezes. Depois uma terceira. A letra era familiar, embora não soubesse dizer de onde.
Lia colocou a fotografia sobre o chão e pegou o celular. Abriu as fotografias antigas. Nada. Procurou mensagens arquivadas. Nada. Redes sociais. Nada. Digitou seu próprio nome e o de Eva no mecanismo de busca. Encontrou resultados demais para o próprio nome e nenhum que fizesse sentido para aquele nome ao lado do seu.
Isso deveria tranquilizá-la. Não tranquilizou.
Lia voltou a olhar para a fotografia. Não parecia uma foto de uma conhecida que havia desaparecido da memória com o passar dos anos. Havia alguma coisa no modo como as duas estavam próximas, na expressão daquela mulher, que tornava a explicação simples difícil de sustentar.
Foi então que pensou no próprio trabalho. Lia havia passado quase toda a vida adulta na Memora. Trabalhava com remoção de memórias traumáticas e conhecia bem os protocolos que cercavam cada procedimento. Sabia que a tecnologia de desindexação mnêmica era rígida, cercada de avaliações, autorizações e registros.
Não era uma ferramenta para apagar uma lembrança inconveniente. Muito menos uma pessoa inteira.
A ideia surgiu devagar. E se aquilo tivesse acontecido com ela? O pensamento pareceu absurdo. Mas, se tivesse passado por um procedimento, deveria existir um registro. E a Memora registrava tudo. Lia sabia disso. Sabia também que qualquer acesso deixava rastros.Ficou imóvel por alguns segundos. Olhou para a fotografia. Depois para o celular. Uma parte dela queria descobrir a verdade imediatamente. Outra lembrava que, se existisse um registro que ela própria não lembrava de ter criado, talvez fosse melhor não deixar aquilo exposto em lugar nenhum.
Foi até a porta do quarto e verificou se estava trancada. Só então guardou a fotografia dentro da bolsa.
Naquela noite, deixou a bolsa ao lado da cama. Dormiu mal. Na manhã seguinte, levaria a fotografia para a Memora. E descobriria por que uma mulher chamada Eva existia em uma fotografia da sua própria vida — e em nenhum lugar da sua memória.
A chegada
Na manhã seguinte, Lia chegou à Memora no horário de sempre. Levava a fotografia dentro da bolsa, protegida entre duas folhas de papel. Tentava agir normalmente, embora tivesse dormido pouco e passado boa parte da madrugada pensando no nome escrito no verso.Cumprimentou a recepcionista, respondeu a uma mensagem de um colega e seguiu para o seu setor. Conhecia aquele caminho de cor. Trabalhava na Memora havia oito anos e já tinha atravessado aqueles corredores tantas vezes que raramente prestava atenção neles. Naquela manhã, porém, tudo parecia ligeiramente diferente. Talvez fosse apenas porque agora sabia que alguma coisa em sua própria história podia estar escondida dentro daquele prédio.
A Memora havia surgido alguns anos depois de o governo desenvolver a tecnologia de desindexação mnêmica como uma alternativa para tratar pessoas que carregavam memórias traumáticas difíceis de superar. Os primeiros protocolos haviam sido testados em casos de estresse pós-traumático, abusos e acidentes graves, sempre sob acompanhamento clínico rigoroso.
Depois de anos de testes e avaliações, a tecnologia foi aprovada pelo Conselho de Psicologia e incorporada aos protocolos de tratamento. A possibilidade de reduzir o peso de uma lembrança sem apagar completamente a experiência havia sido considerada um avanço importante na área da saúde mental. Apagar uma memória traumática. Lia trabalhava na empresa desde o início e conhecia também as regras que vieram com a tecnologia: cada procedimento precisava ser autorizado, documentado e rastreável.
Na Memora, nada deveria desaparecer sem deixar um registro.
Sentou-se diante do computador e começou o expediente como fazia todos os dias. Abriu os sistemas que precisava consultar, respondeu a algumas solicitações e esperou até ter um momento em que ninguém estivesse prestando atenção. Só então tirou a fotografia da bolsa e a colocou ao lado do teclado. Guardou-a novamente quando ouviu passos se aproximando pelo corredor. Um colega apareceu na porta e pediu ajuda com uma pendência do setor. Lia respondeu, abriu o sistema correspondente e só voltou à fotografia depois que ele foi embora. O gesto parecia banal, mas a fez lembrar de uma coisa que conhecia bem: na Memora, nenhum acesso era realmente invisível.
Antes de procurar por Eva, decidiu começar por si mesma. Digitou seu nome no sistema interno e abriu o histórico médico. Exames, avaliações psicológicas, consultas de acompanhamento. Tudo aparecia organizado por data. Lia passou os olhos pelas informações, procurando qualquer referência a um trauma grave ou a algum tratamento que pudesse explicar a fotografia. Não encontrou nada.
Voltou alguns anos no calendário e começou a conferir os registros um por um. Quanto mais avançava, maior ficava a sensação de que estava procurando alguma coisa que o próprio sistema parecia esconder.Então chegou à data escrita no verso da fotografia: 17 de outubro. Lia ficou imóvel diante da tela. Não havia nenhum procedimento registrado naquele dia. Ela verificou novamente. Depois ampliou os filtros e consultou as bases às quais tinha acesso por causa do próprio trabalho. O resultado continuava o mesmo.
Foi quando se lembrou de uma regra que conhecia desde os primeiros anos na empresa: procedimentos antigos ou excepcionalmente sensíveis não apareciam na busca clínica comum. Eram armazenados em uma base histórica separada, criada justamente para preservar registros que não deveriam ser alterados ou acessados sem autorização específica.
Lia hesitou por alguns segundos. Aquele acesso fazia parte do seu trabalho, mas procurar o próprio histórico por uma suspeita pessoal era outra coisa. Ainda assim, colocou suas credenciais e abriu a base. Antes de entrar, uma pequena luz amarela apareceu no canto da tela: acesso à base histórica registrado. Lia conhecia aquele aviso. Também sabia que o registro ficaria associado ao seu usuário.
Por um instante, pensou em fechar a janela. Em vez disso, digitou novamente o próprio nome. Dessa vez, apareceu um resultado. Ela clicou. O documento abriu na tela. Lia leu a primeira linha e sentiu o estômago apertar. Havia coisas ali que não deveriam existir — e, pior, alguém tinha feito questão de escondê-las.
O registro
O documento aberto na tela não parecia diferente de qualquer outro registro técnico da Memora. Lia aproximou a cadeira e começou a ler. Lia Duarte — desindexação mnêmica seletiva. Data do procedimento: 19 de outubro. Dois dias depois da fotografia. Ela voltou ao início do documento e leu mais devagar. A descrição era curta, objetiva e suficiente para confirmar o que não queria acreditar: havia sido realizado um procedimento para remover um conjunto específico de memórias. Lia sentiu um aperto no peito. Não havia nenhuma indicação clara do que aquelas memórias envolviam, apenas a informação de que a remoção havia sido autorizada pela própria paciente.
Ela continuou lendo. Paciente: Lia Duarte. Autorização: confirmada. Responsável pela solicitação: Lia Duarte. Ficou alguns segundos olhando para aquelas linhas. A assinatura digital era dela. As credenciais eram dela. A autorização também. Não havia como atribuir aquilo a um erro de sistema. Lia havia autorizado o próprio procedimento, mas não se lembrava de ter feito isso.
Ela voltou à data mais uma vez. 19 de outubro. Dois dias depois da fotografia em que aparecia ao lado de Eva, uma mulher cujo nome agora existia apenas no verso de uma fotografia e em uma frase escrita à mão. O registro não classificava o procedimento como tratamento convencional para TEPT. Também não havia nenhuma referência a um acidente, uma morte ou qualquer outro acontecimento traumático específico.
Lia sentiu um frio percorrer o corpo. Se aquilo não era o tratamento que ela conhecia, então o que tinha pedido para fazer?
Voltou os olhos para a fotografia. Pela primeira vez, considerou uma possibilidade que até aquele momento não tinha sequer imaginado: talvez o que faltava em sua memória não fosse uma lembrança.
Talvez fosse alguém.
Um som discreto chamou sua atenção. No canto da tela, uma nova notificação havia aparecido: acesso ao registro sensível identificado.
Lia ficou imóvel. Conhecia aquele tipo de alerta. Não significava que o acesso havia sido bloqueado. Significava que alguém, em algum lugar da Memora, sabia que ela estava ali.Antes que pudesse fechar o documento, ouviu o som do leitor eletrônico do corredor. Uma porta acabava de ser aberta.
O que foi apagado
Lia continuou olhando para o registro na tela. Por alguns segundos, não conseguiu fazer nada além de reler aquelas linhas. A palavra remoção parecia diferente agora. Mais pesada. Mais definitiva. Ela conhecia a tecnologia da Memora e sabia exatamente para que ela havia sido criada, mas aquilo não parecia um tratamento comum.
Lia voltou os olhos para a fotografia sobre a mesa. A mulher continuava sorrindo, e Lia não conseguia lembrar da voz dela. Não conseguia lembrar de onde tinham tirado aquela foto, o que haviam conversado naquele dia, por que estavam juntas ou como aquela mulher tinha entrado na sua vida. Só sabia que, em algum momento, tudo aquilo tinha existido.
Um arrepio percorreu seus braços.
Ela voltou ao registro e abriu os documentos associados ao procedimento. Havia relatórios antigos, anotações técnicas e versões de protocolos que não reconhecia. Quanto mais lia, mais estranho ficava. Em algum momento, durante os anos de desenvolvimento da tecnologia, os pesquisadores tinham percebido que uma memória não existia sozinha. Ela estava ligada a rostos, lugares, cheiros, vozes e acontecimentos que davam sentido a ela.
Lia passou os olhos por uma das páginas e parou. Aquelas conexões também podiam ser alcançadas.
Ela releu a frase, tentando entender o que aquilo significava. Depois abriu outro documento. E outro. Os primeiros registros ainda falavam em tratar uma lembrança. Os mais recentes descreviam procedimentos capazes de atingir conjuntos cada vez maiores de memórias associadas.
Foi então que Lia entendeu.
A tecnologia havia mudado. Não era mais apenas possível apagar uma lembrança dolorosa. Se as conexões fossem manipuladas de maneira suficientemente ampla, também seria possível apagar aquilo que dava origem a todas elas.
Uma pessoa.
Lia sentiu o estômago se contrair.
De repente, a fotografia deixou de parecer uma lembrança perdida. Parecia uma prova. E, se a tecnologia realmente permitia aquilo, então alguém poderia desaparecer da memória de uma pessoa sem desaparecer do mundo. Poderia continuar existindo, trabalhando, vivendo, envelhecendo, enquanto alguém que a conhecia passava por ela sem sequer saber que um dia haviam se conhecido.
Lia ficou imóvel diante da tela. Pensou no registro em seu nome e sentiu uma dor que não conseguia explicar. Ela mesma havia autorizado aquilo.
Mas por quê?
Voltou a olhar para a mulher da fotografia. Dessa vez, não conseguiu desviar os olhos. A pergunta que tinha levado Lia até a Memora já não era mais se havia sofrido um trauma. Era muito pior.
Quem ela havia pedido para esquecer?
Antes que pudesse procurar uma resposta, a tela piscou. Um dos documentos associados ao procedimento desapareceu da lista. Lia atualizou a página. O documento continuava lá. Por um instante, pensou ter imaginado o desaparecimento. Então percebeu que a data de acesso havia mudado.
Alguém estava mexendo naqueles registros enquanto ela os lia.
O motivo
Lia voltou ao registro e notou que, no fim da lista, havia um arquivo de vídeo sem descrição. Ela ficou alguns segundos olhando para o nome do arquivo antes de abri-lo. A mulher da fotografia apareceu na tela. Estava sentada diante de uma câmera, com os cabelos mais curtos e o rosto cansado. Por alguns segundos não disse nada. Apenas olhou para a lente, como se estivesse tentando decidir se deveria realmente gravar aquilo.
Então respirou fundo.— Se você está vendo isso, significa que alguma coisa sobreviveu.
Lia aproximou-se da tela.
A mulher continuou:— Você provavelmente não sabe quem eu sou. Talvez não saiba nem por que está assistindo a este vídeo. Mas precisa confiar em uma coisa: você não deveria se lembrar de mim.
Lia sentiu o estômago revirar.
A mulher desviou os olhos por um instante.— Meu nome é Eva. Eva Martins. Nós trabalhamos juntas na Memora. E nós...
Ela parou, como se ainda doesse dizer aquilo.
— Nós fomos muito felizes.
Lia levou a mão à boca.
Eva contou que as duas haviam descoberto a verdadeira extensão do que estava acontecendo dentro da Memora. Depois que perceberam que a tecnologia podia atingir conjuntos inteiros de memórias, começaram a investigar alguns procedimentos que não apareciam nos registros comuns.
Lia sentiu um impulso de pausar o vídeo, mas não conseguiu. Antes que pudesse fazer isso, Eva continuou, como se soubesse que cada segundo daquela gravação poderia ser o último. Eram casos autorizados fora dos protocolos terapêuticos e ligados a pessoas que ocupavam posições importantes ou estavam envolvidas em investigações financeiras.
O padrão apareceu aos poucos. Empresas envolvidas em grandes fraudes fiscais conseguiam apagar, de seus principais envolvidos, lembranças relacionadas a operações específicas: reuniões, nomes, acordos, transferências e decisões tomadas anos antes. Não era preciso alterar documentos nem destruir arquivos. Bastava retirar das pessoas certas a lembrança necessária para conectar os fatos. Eva não explicou quais empresas, nem quem havia autorizado aqueles procedimentos. Disse apenas que havia nomes e documentos que Lia precisaria descobrir sozinha — se ainda existissem.
E aquilo não estava acontecendo escondido da estrutura de poder. Os procedimentos eram solicitados por órgãos do próprio governo e realizados pela Memora sob justificativas que nunca apareciam nos relatórios públicos.
Eva e Lia começaram a reunir provas em segredo. Quanto mais avançavam, mais percebiam que não estavam diante de alguns casos isolados. A tecnologia criada para tratar pessoas traumatizadas havia se transformado em uma ferramenta para proteger interesses que não deveriam estar acima da memória de ninguém.
Foi então que descobriram que alguém havia percebido o que elas estavam fazendo.
Lia continuou olhando para a tela, sem conseguir transformar aquelas informações em alguma coisa que fizesse sentido. Eva dizia que as duas haviam sido descobertas, que estavam em perigo e que a própria Lia tinha tomado uma decisão que agora não conseguia sequer compreender.
Eva olhou diretamente para a câmera.
— Então você teve a ideia de me apagar.
A palavra ficou suspensa entre as duas.
— Se você não se lembrar de mim, eles não podem chegar até mim através de você. E se você também esquecer que pediu para fazer isso, não vai conseguir voltar atrás por acidente.
Eva respirou fundo antes de continuar.
— Eu não queria deixar você. Mas você disse que preferia que eu desaparecesse da sua memória a me ver morrer.
Lia permaneceu imóvel. Não havia lembrança alguma por trás daquelas palavras. Nenhuma imagem, nenhum sentimento reconhecível, nenhum momento que pudesse confirmar o que Eva estava dizendo. Apenas a fotografia sobre a mesa e aquela voz contando uma história que, de acordo com o vídeo, também era dela.
— Eu sei que isso parece impossível — continuou Eva. — Mas, se você chegou até aqui, alguma coisa ficou.
Lia olhou para a fotografia novamente. Ainda não conseguia lembrar de Eva. Nem de como tinham se conhecido. Nem de como tinham chegado até aquele ponto.
— Não tente me procurar — disse Eva no vídeo.
Lia parou de respirar por um instante.
— Se você lembrar de mim, pode colocar nós duas em perigo.
Eva ficou em silêncio por alguns segundos. Então olhou para algum ponto fora da câmera.
— E, Lia... se alguém perceber que você encontrou este vídeo, não confie em ninguém dentro da
Memora.
A gravação terminou abruptamente.
Lia ficou olhando para a tela preta. Durante alguns segundos, não se mexeu. Então ouviu um aviso discreto vindo do computador. Uma nova notificação apareceu no canto da tela: atividade de acesso ao arquivo registrada.
Lia sentiu o corpo inteiro ficar alerta. Olhou para a porta da sala e depois para o relógio. Alguém poderia estar vindo até ali.
Fechou o arquivo imediatamente e permaneceu sentada diante do computador, tentando decidir o que fazer com tudo aquilo.
Não conseguia lembrar de Eva. Não conseguia lembrar do relacionamento que ela descrevera, nem da investigação, nem da noite em que teria tomado aquela decisão. Tinha apenas uma fotografia, um registro que dizia que havia autorizado o próprio apagamento e um vídeo de uma mulher que afirmava que ambas tinham sido muito felizes juntas.
Pegou a fotografia, colocou-a de volta na bolsa e desligou o computador.
Precisava ir para casa.
Talvez, longe da Memora, conseguisse pensar com clareza. Talvez conseguisse entender por que alguém que não lembrava de nada havia deixado tantos rastros de uma vida que aparentemente tinha sido tão importante.
Pegou as chaves e saiu da Memora sem olhar para trás. Só quando as portas do elevador se fecharam percebeu que ainda segurava a fotografia com força dentro da bolsa.
A descoberta
Quando chegou em casa, Lia não acendeu as luzes. Deixou a bolsa sobre a mesa, tirou o casaco e ficou alguns segundos parada no meio da sala, tentando organizar tudo o que havia descoberto naquele dia.
A fotografia ainda estava dentro da bolsa. O nome de Eva continuava na sua cabeça. E, mesmo depois de tudo o que ouvira no vídeo, não havia nenhuma lembrança para acompanhar aquele nome.
Lia abriu o notebook e começou a procurar.
Primeiro, pelo nome de Eva Martins. Depois, por variações do nome, pelo período em que haviam trabalhado juntas e pelos arquivos antigos que ainda estavam salvos no computador. Procurou em pastas, documentos, e-mails arquivados e listas de funcionários.
Nada.
Não havia registro de Eva como funcionária da Memora. Nenhum cadastro ativo ou antigo. Nenhuma fotografia corporativa. Nenhum documento que explicasse quando ela havia entrado na empresa ou quando teria saído.
Lia continuou procurando. Quanto mais vasculhava o notebook, mais estranho aquilo ficava. Ela tinha acabado de assistir a um vídeo em que uma mulher dizia ter trabalhado com ela durante anos. Havia uma fotografia das duas. Havia um registro de desindexação. Mas, no computador de Lia, Eva parecia não ter existido.
Lia pegou a fotografia que havia deixado sobre a mesa. Virou-a entre os dedos, procurando alguma coisa que pudesse ter passado despercebida. A frase no verso continuava ali. Você disse que nunca esqueceria.
Por algum motivo, tentou passar a unha pela borda da fotografia. Sentiu uma pequena irregularidade no papel. Com cuidado, puxou o revestimento do verso. Havia um pedaço de papel dobrado escondido no forro.
Lia abriu.
Era um endereço escrito à mão.
Abaixo dele, duas palavras:
Café Memorial Celeste.
Ela ficou imóvel. Não sabia quando havia colocado aquilo ali. Mas a letra era sua.
Então voltou às pastas mais antigas. Algumas estavam organizadas por ano; outras tinham nomes que já não significavam nada para ela. Abriu arquivos que não lembrava de ter criado, planilhas esquecidas e documentos que provavelmente não acessava havia anos.
Até que encontrou uma planilha antiga com informações financeiras da Memora referentes ao ano de 2022. Era uma daquelas planilhas de trabalho que acumulavam informações ao longo dos anos e que, depois de algum tempo, deixavam de fazer sentido. Lia quase fechou o arquivo.
Então viu os nomes.
Lia Duarte. Eva Martins.
Lia parou.
As duas apareciam no mesmo setor.
Havia informações financeiras e, entre elas, registros que confirmavam que Eva realmente havia trabalhado na Memora ao lado dela naquele período.
Lia ficou alguns segundos olhando para os nomes. A fotografia não era apenas uma lembrança deixada por alguém. Era a prova de que Eva tinha feito parte da sua vida profissional — e que, em algum momento, esse registro havia sido apagado de outras bases.
Foi então que percebeu uma informação no fim da planilha. Ao lado do nome de Eva havia um número de celular.
Lia copiou o número para o celular e fez uma busca.
O resultado apareceu em poucos segundos.
O número estava associado a um estabelecimento comercial.
Café Memorial Celeste.
Lia ficou imóvel.
Abriu o endereço vinculado ao estabelecimento. Era o mesmo lugar indicado no papel escondido na fotografia: um café pequeno, em uma rua tranquila de uma cidade próxima. Havia fotos da fachada, algumas mesas na calçada e uma placa com o mesmo nome que aparecera na pesquisa.
O endereço não tinha vindo apenas de um arquivo esquecido. A própria Lia havia deixado uma pista para si mesma.
Eva tinha um café?
Pela primeira vez desde que encontrara a fotografia, Lia sabia onde poderia encontrá-la.
Ficou olhando para o endereço na tela. Sabia que podia ir até lá. Sabia também que, antes de encontrar Eva, precisava entender por que havia deixado aquela pista para si mesma.Se a própria Lia havia escondido aquele endereço antes da desindexação, talvez tivesse feito isso por um motivo.
Talvez houvesse alguma coisa que ainda precisasse lembrar.
Não iria ao café ainda.
Antes, precisava entender por que a antiga Lia havia deixado aquela pista para ela.
As lembranças
Lia voltou ao vídeo.
Não sabia exatamente por quê. Talvez precisasse ouvir Eva novamente. Talvez estivesse tentando encontrar, na voz daquela mulher, alguma coisa que justificasse a decisão de ir até o café. Ou talvez simplesmente não conseguisse aceitar que uma pessoa que dizia ter sido tão importante para ela continuasse parecendo uma completa desconhecida.
Apertou o play.
Assistiu uma vez.
Depois outra.
Na terceira, começou a prestar atenção na voz. Na quarta, no rosto. Na quinta, nas pausas entre as frases. Na sexta, percebeu que Eva sempre desviava os olhos antes de falar sobre as duas.
Lia assistiu novamente.
Quando percebeu, já havia passado de dez vezes.
Na décima primeira, alguma coisa mudou.
Eva olhou diretamente para a câmera e disse que as duas haviam sido muito felizes.
Lia ouviu aquela frase e sentiu alguma coisa se romper dentro dela. Não era uma lembrança ainda. Era apenas uma sensação, estranha e familiar ao mesmo tempo, como se aquelas palavras tivessem sido ditas para ela muitas vezes antes.
Ela fechou os olhos.
A primeira lembrança veio de repente.
Eva encostada na bancada, reclamando que o café da empresa era intragável. Lia rindo. A xícara passando de uma mão para outra. Uma discussão boba sobre a maneira certa de preparar café.
Lia abriu os olhos e voltou alguns segundos do vídeo.
Assistiu novamente.
Outra lembrança.
Eva sentada na mesa da sala de reuniões, o cabelo preso de qualquer jeito, sorrindo para ela daquele jeito que Lia agora reconhecia sem saber como.
Depois outra.
Um almoço dividido às pressas. Uma mensagem enviada no meio da madrugada. Uma chave deixada sobre a bancada. A camiseta preta. O vinho barato.
As lembranças começaram a voltar umas sobre as outras, sem ordem, sem aviso. A cozinha. O sofá. O quarto. O perfume de Eva. A risada. As discussões. Uma tarde qualquer em que tinham passado horas conversando sem perceber o tempo.
E havia mais.
Pequenas cenas, sem começo nem fim. A sensação de conhecer aquela mulher há muito tempo. A intimidade de dividir espaços, objetos e silêncios. Lia afastou-se do computador.
— Não.
Levou as mãos à cabeça, tentando impedir que aquilo continuasse. Mas as lembranças não paravam. Vinham em sequência, misturadas às imagens do vídeo e às coisas que ela havia visto naquele dia.
Eva chorando na cozinha.
Lia chorando também.
As duas sabendo que alguém havia descoberto.
A ameaça.
O medo.
E então a decisão.
E se eu esquecer tudo?
Então alguma coisa vai ficar.
Lia sentiu o corpo inteiro estremecer.
Ela fechou os olhos.
Não lembrava de tudo. Algumas imagens não vinham tão nítidas e desapareciam antes que pudesse segurá-las. Outras eram apenas sensações: o cheiro do vinho barato e uma mão procurando a sua no escuro.
Mas agora sabia quem era aquela mulher.
Lembrava de Eva entrando em sua vida. Lembrava de como haviam se aproximado. Lembrava do medo. Lembrava que havia escolhido esquecer alguma coisa importante para mantê-la viva.
O choro veio antes que pudesse impedir.
Lia caiu no chão ao lado da cadeira e ficou ali, tentando respirar enquanto fragmentos de anos inteiros voltavam sem nenhuma ordem. Era como descobrir uma vida que tinha sido arrancada dela e devolvida em pedaços.
Ela apertou os olhos. Ainda havia um vazio entre algumas lembranças. A investigação continuava incompleta. O que exatamente haviam descoberto? Quem as havia ameaçado? Por que a desindexação precisara ser tão completa?
Mas uma coisa estava clara.
Eva tinha sido muito importante para ela.
Quando finalmente conseguiu se levantar, enxugou o rosto com as mãos trêmulas. Olhou para a fotografia sobre a mesa.
Dessa vez, não viu uma desconhecida.
Viu alguém que conhecia. Alguém que tinha feito parte da sua vida de uma maneira que ainda não conseguia compreender por inteiro.
Lia pegou a fotografia e a colocou dentro da bolsa.
Ficou alguns segundos olhando para as chaves do carro.
Precisava encontrar Eva. Iria até o café naquela tarde.
O encontro
Lia chegou ao café alguns minutos depois das três da tarde. Parou diante da porta por um instante, olhando pelo vidro antes de entrar. O lugar era menor do que havia imaginado. Havia poucas mesas ocupadas, uma máquina de café funcionando atrás do balcão e o cheiro quente de grãos recém-moídos espalhado pelo ambiente.
Uma atendente estava organizando algumas xícaras quando Lia se aproximou.
— Com licença. A Eva está?
A mulher levantou os olhos.
— A Eva? Está sim. Ela está no escritório. Quer que eu chame?
Lia assentiu.
— Por favor.
A atendente desapareceu por uma porta ao fundo. Lia ficou esperando, tentando controlar a respiração. Tinha imaginado aquele momento tantas vezes que nenhuma das versões parecia servir para o que estava prestes a acontecer.
Pouco depois, Eva apareceu.
Lia reconheceu o rosto imediatamente. Mas não foi apenas o rosto. Havia alguma coisa no modo como Eva inclinava a cabeça ao ouvi-la que pareceu familiar demais. Por um instante, Lia teve a sensação de já ter visto aquele gesto centenas de vezes. A lembrança desapareceu antes que pudesse alcançá-la.
— Eva?
Eva olhou para ela por um instante, sem demonstrar nenhuma reação de reconhecimento. Ainda assim, alguma coisa naquele primeiro olhar a atingiu sem que soubesse explicar. O coração acelerou por um instante, uma reação irracional à presença daquela mulher diante dela.
— Oi... Tudo bem? Posso te ajudar com alguma coisa?
Foi naquele momento que Lia percebeu.
Eva não a reconhecera.
Lia sentiu o coração acelerar. Tinha imaginado aquele encontro tantas vezes, mas em nenhuma delas havia considerado a possibilidade de Eva olhar para ela como olharia para qualquer outra pessoa.
— Eu... queria conversar com você.
Eva hesitou, mas fez um gesto em direção a uma das mesas.
— Claro.
As duas se sentaram.
Por alguns segundos, nenhuma delas disse nada. Lia olhou ao redor, tentando encontrar alguma coisa familiar naquele lugar. Então percebeu o cardápio sobre a mesa.
— Vou pedir um café.
Eva sorriu de leve.
— Alguma coisa para acompanhar?
Lia olhou para o balcão.
— Um cookie.
Quando a xícara chegou, Lia segurou o café entre as mãos. O cheiro era forte. Amargo. E, ao lado da xícara, o cookie ainda estava quente.
Alguma coisa dentro dela se moveu.
Café amargo com alguma coisa doce.
A combinação lhe pareceu tão familiar que por um instante teve a sensação de já ter feito aquilo muitas vezes. Sentada diante de alguém. Uma xícara nas mãos. O doce ao lado.Por um segundo, viu outra mesa. Outra xícara. A mão de Eva empurrando um prato na direção dela.
— Você sempre pede isso.
A imagem desapareceu antes que pudesse segurá-la.
Lia ficou desconfortável. Não sabia se aquilo era uma lembrança ou apenas a memória tentando preencher um vazio.
Ela desviou os olhos, tentando afastar a sensação e demorou alguns segundos antes de perguntar.
— Você sempre trabalhou aqui?
Eva olhou ao redor do café antes de responder.
— Não. Trabalhei muitos anos com tecnologia. Sistemas, desenvolvimento, essas coisas. Depois fiz uma transição de carreira. Queria alguma coisa mais calma.
Eva deu um pequeno sorriso, como se aquilo pertencesse a uma história distante.— E antes disso?
Eva hesitou.
— Eu não lembro de tudo. Algumas coisas daquela época são... confusas. Parece até que foi em outra vida.
Lia sentiu um aperto no coração ao escutar isso. A frase despertou outra sensação estranha. Eva já havia dito aquilo antes. Ou talvez algo muito parecido. Lia tentou puxar a lembrança, mas encontrou apenas a impressão de uma conversa antiga, em algum lugar que não conseguia localizar. Decidiu ir direto ao ponto, sem rodeios.
— Você já trabalhou na Memora?
A expressão de Eva mudou quase imperceptivelmente.
— Memora...
Ela repetiu o nome devagar. Franziu a testa e desviou os olhos.
— Conheço o nome. Não me recordo do lugar.
Lia sentiu o coração acelerar.
Eva passou os dedos pelo colar que usava no pescoço. O pingente tinha a forma de uma pequena chave. Por um instante, pareceu incomodada com a própria mão ali, como se o gesto tivesse surgido antes do pensamento. Lia percebeu que Eva segurava o pingente com cuidado, num movimento quase instintivo, como se precisasse protegê-lo.
— É uma chave? — perguntou Lia.
Eva assentiu.
— Para mim, significa proteção contra o mal.
Nesse momento, Eva desviou os olhos para a janela. Do lado de fora, havia um carro parado na rua. Ela ficou olhando para ele por alguns segundos, desconfortável. Então balançou a cabeça, como se tentasse afastar uma sensação que não conseguia nomear, e voltou a prestar atenção em Lia.
— Você não se lembra da Memora? - Lia insistiu.
Eva passou a mão pelos cabelos, incomodada.
— Tem momentos em que eu sinto que esqueci alguma coisa importante. Só não sei o quê.
Lia ficou em silêncio. Pela primeira vez, percebeu que talvez estivesse diante de um mistério maior do que aquele que a trouxera até ali.
Não era apenas Eva que havia desaparecido da memória de Lia.
Eva havia desaparecido da própria história.
Sentiu um calafrio percorrer o corpo inteiro.
Por que apagar a carreira inteira de alguém? O que Eva poderia ter feito que faria com que a Memora quisesse apagar o vínculo por completo? Ou melhor, quem ou o que a empresa estava acobertando?
Ela não podia simplesmente chegar ali e contar tudo. Era perigoso demais. Não poderia e não colocaria Eva em perigo assim.
— Desculpa. Acho que eu vim até aqui sem saber exatamente o que dizer.
Eva sorriu, constrangida.
— Não precisa pedir desculpa. Eu também sinto muito por não ter te reconhecido.
Lia baixou os olhos. Por um instante, pensou em contar sobre a fotografia, sobre o vídeo, sobre as lembranças que haviam voltado. Mas não abriu a bolsa.
— Eu só precisava ter certeza de que você estava bem.
Eva a observou por alguns segundos.
— Eu estou.
Lia assentiu.
— Então está bem.
Ela se levantou.
— Foi bom conhecer você.
Eva sorriu.
— Para mim também.
Lia deu alguns passos em direção à porta.
— Lia?
Ela parou.
Virou-se.
Eva continuava olhando para ela, com uma expressão estranha, como se estivesse tentando entender por que aquela mulher lhe parecia tão familiar.
— Você ainda usa o mesmo perfume.
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Histórias que deixam marcas.
Às 3h17 da manhã, Lia acordou com a sensação de que havia esquecido algo. Ficou alguns minutos de olhos fechados, tentando entender de onde vinha aquela certeza. Não era a ansiedade comum de esquecer um compromisso ou aquela pequena irritação que sentia quando uma palavra conhecida desaparecia por alguns segundos. Era algo mais específico, quase físico. Havia uma ausência ocupando um lugar dentro dela, como quando se entra em um cômodo e imediatamente percebe que alguma coisa foi retirada dali, embora não seja possível dizer exatamente o quê.
Lia abriu os olhos e ficou olhando para o teto escuro do quarto, enquanto a luz dos prédios vizinhos atravessava as frestas da persiana. Tentou voltar a dormir, mas a sensação permaneceu. Quanto mais procurava ignorá-la, mais presente ficava. Então uma palavra surgiu em sua cabeça.
Eva.
Lia repetiu o nome mentalmente algumas vezes, esperando que alguma lembrança viesse acompanhá-lo. Não veio. Nenhum rosto, nenhuma voz, nenhum lugar. Apenas o nome e uma certeza desconfortável de que deveria significar alguma coisa. Ela não conhecia nenhuma Eva. Pelo menos, não conseguia se lembrar de conhecer.
Como não conseguia mais dormir, decidiu procurar alguma coisa que pudesse ajudá-la a lembrar. Se Eva tivesse feito parte da sua vida, deveria existir algum vestígio — uma fotografia, um nome, qualquer coisa que pudesse preencher o espaço que a memória havia deixado vazio.
Abriu uma caixa de fotografias no fundo do armário. Entre documentos antigos, carregadores que já não serviam para nada e um par de óculos de armação preta, encontrou uma fotografia.Lia parou. Era ela. Mais jovem, com o cabelo castanho quase chegando à cintura. Usava os mesmos óculos que acabara de tirar da caixa. O casaco cinza também lhe pareceu familiar; tinha certeza de que o havia doado anos antes.
Ao lado dela havia uma mulher. Lia não a reconheceu. Ainda assim, demorou alguns segundos para conseguir desviar os olhos. A mulher tinha cabelos escuros e cacheados, presos de qualquer jeito, e olhos igualmente escuros, grandes e expressivos. Não olhava para a câmera. Olhava para Lia. Era um olhar íntimo demais para uma desconhecida.
Lia aproximou a fotografia do rosto. Foi então que percebeu a camiseta. A sua camiseta preferida. Preta, velha e macia. Ela havia procurado por aquela camiseta durante semanas antes de concluir que a tinha doado. Mas estava ali. No corpo dela. Com aquela mulher ao lado.Lia virou a fotografia. No verso havia uma data: 17 de outubro. Abaixo, uma única palavra, escrita à mão.
Eva.
O mesmo nome. Lia sentiu um frio percorrer os braços. Continuou olhando. Havia mais uma frase.
Você disse que nunca esqueceria.
Ela leu duas vezes. Depois uma terceira. A letra era familiar, embora não soubesse dizer de onde.
Lia colocou a fotografia sobre o chão e pegou o celular. Abriu as fotografias antigas. Nada. Procurou mensagens arquivadas. Nada. Redes sociais. Nada. Digitou seu próprio nome e o de Eva no mecanismo de busca. Encontrou resultados demais para o próprio nome e nenhum que fizesse sentido para aquele nome ao lado do seu.
Isso deveria tranquilizá-la. Não tranquilizou.
Lia voltou a olhar para a fotografia. Não parecia uma foto de uma conhecida que havia desaparecido da memória com o passar dos anos. Havia alguma coisa no modo como as duas estavam próximas, na expressão daquela mulher, que tornava a explicação simples difícil de sustentar.
Foi então que pensou no próprio trabalho. Lia havia passado quase toda a vida adulta na Memora. Trabalhava com remoção de memórias traumáticas e conhecia bem os protocolos que cercavam cada procedimento. Sabia que a tecnologia de desindexação mnêmica era rígida, cercada de avaliações, autorizações e registros.
Não era uma ferramenta para apagar uma lembrança inconveniente. Muito menos uma pessoa inteira.
A ideia surgiu devagar. E se aquilo tivesse acontecido com ela? O pensamento pareceu absurdo. Mas, se tivesse passado por um procedimento, deveria existir um registro. E a Memora registrava tudo. Lia sabia disso. Sabia também que qualquer acesso deixava rastros.Ficou imóvel por alguns segundos. Olhou para a fotografia. Depois para o celular. Uma parte dela queria descobrir a verdade imediatamente. Outra lembrava que, se existisse um registro que ela própria não lembrava de ter criado, talvez fosse melhor não deixar aquilo exposto em lugar nenhum.
Foi até a porta do quarto e verificou se estava trancada. Só então guardou a fotografia dentro da bolsa.
Naquela noite, deixou a bolsa ao lado da cama. Dormiu mal. Na manhã seguinte, levaria a fotografia para a Memora. E descobriria por que uma mulher chamada Eva existia em uma fotografia da sua própria vida — e em nenhum lugar da sua memória.
A chegada
Na manhã seguinte, Lia chegou à Memora no horário de sempre. Levava a fotografia dentro da bolsa, protegida entre duas folhas de papel. Tentava agir normalmente, embora tivesse dormido pouco e passado boa parte da madrugada pensando no nome escrito no verso.Cumprimentou a recepcionista, respondeu a uma mensagem de um colega e seguiu para o seu setor. Conhecia aquele caminho de cor. Trabalhava na Memora havia oito anos e já tinha atravessado aqueles corredores tantas vezes que raramente prestava atenção neles. Naquela manhã, porém, tudo parecia ligeiramente diferente. Talvez fosse apenas porque agora sabia que alguma coisa em sua própria história podia estar escondida dentro daquele prédio.
A Memora havia surgido alguns anos depois de o governo desenvolver a tecnologia de desindexação mnêmica como uma alternativa para tratar pessoas que carregavam memórias traumáticas difíceis de superar. Os primeiros protocolos haviam sido testados em casos de estresse pós-traumático, abusos e acidentes graves, sempre sob acompanhamento clínico rigoroso.
Depois de anos de testes e avaliações, a tecnologia foi aprovada pelo Conselho de Psicologia e incorporada aos protocolos de tratamento. A possibilidade de reduzir o peso de uma lembrança sem apagar completamente a experiência havia sido considerada um avanço importante na área da saúde mental. Apagar uma memória traumática. Lia trabalhava na empresa desde o início e conhecia também as regras que vieram com a tecnologia: cada procedimento precisava ser autorizado, documentado e rastreável.
Na Memora, nada deveria desaparecer sem deixar um registro.
Sentou-se diante do computador e começou o expediente como fazia todos os dias. Abriu os sistemas que precisava consultar, respondeu a algumas solicitações e esperou até ter um momento em que ninguém estivesse prestando atenção. Só então tirou a fotografia da bolsa e a colocou ao lado do teclado. Guardou-a novamente quando ouviu passos se aproximando pelo corredor. Um colega apareceu na porta e pediu ajuda com uma pendência do setor. Lia respondeu, abriu o sistema correspondente e só voltou à fotografia depois que ele foi embora. O gesto parecia banal, mas a fez lembrar de uma coisa que conhecia bem: na Memora, nenhum acesso era realmente invisível.
Antes de procurar por Eva, decidiu começar por si mesma. Digitou seu nome no sistema interno e abriu o histórico médico. Exames, avaliações psicológicas, consultas de acompanhamento. Tudo aparecia organizado por data. Lia passou os olhos pelas informações, procurando qualquer referência a um trauma grave ou a algum tratamento que pudesse explicar a fotografia. Não encontrou nada.
Voltou alguns anos no calendário e começou a conferir os registros um por um. Quanto mais avançava, maior ficava a sensação de que estava procurando alguma coisa que o próprio sistema parecia esconder.Então chegou à data escrita no verso da fotografia: 17 de outubro. Lia ficou imóvel diante da tela. Não havia nenhum procedimento registrado naquele dia. Ela verificou novamente. Depois ampliou os filtros e consultou as bases às quais tinha acesso por causa do próprio trabalho. O resultado continuava o mesmo.
Foi quando se lembrou de uma regra que conhecia desde os primeiros anos na empresa: procedimentos antigos ou excepcionalmente sensíveis não apareciam na busca clínica comum. Eram armazenados em uma base histórica separada, criada justamente para preservar registros que não deveriam ser alterados ou acessados sem autorização específica.
Lia hesitou por alguns segundos. Aquele acesso fazia parte do seu trabalho, mas procurar o próprio histórico por uma suspeita pessoal era outra coisa. Ainda assim, colocou suas credenciais e abriu a base. Antes de entrar, uma pequena luz amarela apareceu no canto da tela: acesso à base histórica registrado. Lia conhecia aquele aviso. Também sabia que o registro ficaria associado ao seu usuário.
Por um instante, pensou em fechar a janela. Em vez disso, digitou novamente o próprio nome. Dessa vez, apareceu um resultado. Ela clicou. O documento abriu na tela. Lia leu a primeira linha e sentiu o estômago apertar. Havia coisas ali que não deveriam existir — e, pior, alguém tinha feito questão de escondê-las.
O registro
O documento aberto na tela não parecia diferente de qualquer outro registro técnico da Memora. Lia aproximou a cadeira e começou a ler. Lia Duarte — desindexação mnêmica seletiva. Data do procedimento: 19 de outubro. Dois dias depois da fotografia. Ela voltou ao início do documento e leu mais devagar. A descrição era curta, objetiva e suficiente para confirmar o que não queria acreditar: havia sido realizado um procedimento para remover um conjunto específico de memórias. Lia sentiu um aperto no peito. Não havia nenhuma indicação clara do que aquelas memórias envolviam, apenas a informação de que a remoção havia sido autorizada pela própria paciente.
Ela continuou lendo. Paciente: Lia Duarte. Autorização: confirmada. Responsável pela solicitação: Lia Duarte. Ficou alguns segundos olhando para aquelas linhas. A assinatura digital era dela. As credenciais eram dela. A autorização também. Não havia como atribuir aquilo a um erro de sistema. Lia havia autorizado o próprio procedimento, mas não se lembrava de ter feito isso.
Ela voltou à data mais uma vez. 19 de outubro. Dois dias depois da fotografia em que aparecia ao lado de Eva, uma mulher cujo nome agora existia apenas no verso de uma fotografia e em uma frase escrita à mão. O registro não classificava o procedimento como tratamento convencional para TEPT. Também não havia nenhuma referência a um acidente, uma morte ou qualquer outro acontecimento traumático específico.
Lia sentiu um frio percorrer o corpo. Se aquilo não era o tratamento que ela conhecia, então o que tinha pedido para fazer?
Voltou os olhos para a fotografia. Pela primeira vez, considerou uma possibilidade que até aquele momento não tinha sequer imaginado: talvez o que faltava em sua memória não fosse uma lembrança.
Talvez fosse alguém.
Um som discreto chamou sua atenção. No canto da tela, uma nova notificação havia aparecido: acesso ao registro sensível identificado.
Lia ficou imóvel. Conhecia aquele tipo de alerta. Não significava que o acesso havia sido bloqueado. Significava que alguém, em algum lugar da Memora, sabia que ela estava ali.Antes que pudesse fechar o documento, ouviu o som do leitor eletrônico do corredor. Uma porta acabava de ser aberta.
O que foi apagado
Lia continuou olhando para o registro na tela. Por alguns segundos, não conseguiu fazer nada além de reler aquelas linhas. A palavra remoção parecia diferente agora. Mais pesada. Mais definitiva. Ela conhecia a tecnologia da Memora e sabia exatamente para que ela havia sido criada, mas aquilo não parecia um tratamento comum.
Lia voltou os olhos para a fotografia sobre a mesa. A mulher continuava sorrindo, e Lia não conseguia lembrar da voz dela. Não conseguia lembrar de onde tinham tirado aquela foto, o que haviam conversado naquele dia, por que estavam juntas ou como aquela mulher tinha entrado na sua vida. Só sabia que, em algum momento, tudo aquilo tinha existido.
Um arrepio percorreu seus braços.
Ela voltou ao registro e abriu os documentos associados ao procedimento. Havia relatórios antigos, anotações técnicas e versões de protocolos que não reconhecia. Quanto mais lia, mais estranho ficava. Em algum momento, durante os anos de desenvolvimento da tecnologia, os pesquisadores tinham percebido que uma memória não existia sozinha. Ela estava ligada a rostos, lugares, cheiros, vozes e acontecimentos que davam sentido a ela.
Lia passou os olhos por uma das páginas e parou. Aquelas conexões também podiam ser alcançadas.
Ela releu a frase, tentando entender o que aquilo significava. Depois abriu outro documento. E outro. Os primeiros registros ainda falavam em tratar uma lembrança. Os mais recentes descreviam procedimentos capazes de atingir conjuntos cada vez maiores de memórias associadas.
Foi então que Lia entendeu.
A tecnologia havia mudado. Não era mais apenas possível apagar uma lembrança dolorosa. Se as conexões fossem manipuladas de maneira suficientemente ampla, também seria possível apagar aquilo que dava origem a todas elas.
Uma pessoa.
Lia sentiu o estômago se contrair.
De repente, a fotografia deixou de parecer uma lembrança perdida. Parecia uma prova. E, se a tecnologia realmente permitia aquilo, então alguém poderia desaparecer da memória de uma pessoa sem desaparecer do mundo. Poderia continuar existindo, trabalhando, vivendo, envelhecendo, enquanto alguém que a conhecia passava por ela sem sequer saber que um dia haviam se conhecido.
Lia ficou imóvel diante da tela. Pensou no registro em seu nome e sentiu uma dor que não conseguia explicar. Ela mesma havia autorizado aquilo.
Mas por quê?
Voltou a olhar para a mulher da fotografia. Dessa vez, não conseguiu desviar os olhos. A pergunta que tinha levado Lia até a Memora já não era mais se havia sofrido um trauma. Era muito pior.
Quem ela havia pedido para esquecer?
Antes que pudesse procurar uma resposta, a tela piscou. Um dos documentos associados ao procedimento desapareceu da lista. Lia atualizou a página. O documento continuava lá. Por um instante, pensou ter imaginado o desaparecimento. Então percebeu que a data de acesso havia mudado.
Alguém estava mexendo naqueles registros enquanto ela os lia.
O motivo
Lia voltou ao registro e notou que, no fim da lista, havia um arquivo de vídeo sem descrição. Ela ficou alguns segundos olhando para o nome do arquivo antes de abri-lo. A mulher da fotografia apareceu na tela. Estava sentada diante de uma câmera, com os cabelos mais curtos e o rosto cansado. Por alguns segundos não disse nada. Apenas olhou para a lente, como se estivesse tentando decidir se deveria realmente gravar aquilo.
Então respirou fundo.— Se você está vendo isso, significa que alguma coisa sobreviveu.
Lia aproximou-se da tela.
A mulher continuou:— Você provavelmente não sabe quem eu sou. Talvez não saiba nem por que está assistindo a este vídeo. Mas precisa confiar em uma coisa: você não deveria se lembrar de mim.
Lia sentiu o estômago revirar.
A mulher desviou os olhos por um instante.— Meu nome é Eva. Eva Martins. Nós trabalhamos juntas na Memora. E nós...
Ela parou, como se ainda doesse dizer aquilo.
— Nós fomos muito felizes.
Lia levou a mão à boca.
Eva contou que as duas haviam descoberto a verdadeira extensão do que estava acontecendo dentro da Memora. Depois que perceberam que a tecnologia podia atingir conjuntos inteiros de memórias, começaram a investigar alguns procedimentos que não apareciam nos registros comuns.
Lia sentiu um impulso de pausar o vídeo, mas não conseguiu. Antes que pudesse fazer isso, Eva continuou, como se soubesse que cada segundo daquela gravação poderia ser o último. Eram casos autorizados fora dos protocolos terapêuticos e ligados a pessoas que ocupavam posições importantes ou estavam envolvidas em investigações financeiras.
O padrão apareceu aos poucos. Empresas envolvidas em grandes fraudes fiscais conseguiam apagar, de seus principais envolvidos, lembranças relacionadas a operações específicas: reuniões, nomes, acordos, transferências e decisões tomadas anos antes. Não era preciso alterar documentos nem destruir arquivos. Bastava retirar das pessoas certas a lembrança necessária para conectar os fatos. Eva não explicou quais empresas, nem quem havia autorizado aqueles procedimentos. Disse apenas que havia nomes e documentos que Lia precisaria descobrir sozinha — se ainda existissem.
E aquilo não estava acontecendo escondido da estrutura de poder. Os procedimentos eram solicitados por órgãos do próprio governo e realizados pela Memora sob justificativas que nunca apareciam nos relatórios públicos.
Eva e Lia começaram a reunir provas em segredo. Quanto mais avançavam, mais percebiam que não estavam diante de alguns casos isolados. A tecnologia criada para tratar pessoas traumatizadas havia se transformado em uma ferramenta para proteger interesses que não deveriam estar acima da memória de ninguém.
Foi então que descobriram que alguém havia percebido o que elas estavam fazendo.
Lia continuou olhando para a tela, sem conseguir transformar aquelas informações em alguma coisa que fizesse sentido. Eva dizia que as duas haviam sido descobertas, que estavam em perigo e que a própria Lia tinha tomado uma decisão que agora não conseguia sequer compreender.
Eva olhou diretamente para a câmera.
— Então você teve a ideia de me apagar.
A palavra ficou suspensa entre as duas.
— Se você não se lembrar de mim, eles não podem chegar até mim através de você. E se você também esquecer que pediu para fazer isso, não vai conseguir voltar atrás por acidente.
Eva respirou fundo antes de continuar.
— Eu não queria deixar você. Mas você disse que preferia que eu desaparecesse da sua memória a me ver morrer.
Lia permaneceu imóvel. Não havia lembrança alguma por trás daquelas palavras. Nenhuma imagem, nenhum sentimento reconhecível, nenhum momento que pudesse confirmar o que Eva estava dizendo. Apenas a fotografia sobre a mesa e aquela voz contando uma história que, de acordo com o vídeo, também era dela.
— Eu sei que isso parece impossível — continuou Eva. — Mas, se você chegou até aqui, alguma coisa ficou.
Lia olhou para a fotografia novamente. Ainda não conseguia lembrar de Eva. Nem de como tinham se conhecido. Nem de como tinham chegado até aquele ponto.
— Não tente me procurar — disse Eva no vídeo.
Lia parou de respirar por um instante.
— Se você lembrar de mim, pode colocar nós duas em perigo.
Eva ficou em silêncio por alguns segundos. Então olhou para algum ponto fora da câmera.
— E, Lia... se alguém perceber que você encontrou este vídeo, não confie em ninguém dentro da
Memora.
A gravação terminou abruptamente.
Lia ficou olhando para a tela preta. Durante alguns segundos, não se mexeu. Então ouviu um aviso discreto vindo do computador. Uma nova notificação apareceu no canto da tela: atividade de acesso ao arquivo registrada.
Lia sentiu o corpo inteiro ficar alerta. Olhou para a porta da sala e depois para o relógio. Alguém poderia estar vindo até ali.
Fechou o arquivo imediatamente e permaneceu sentada diante do computador, tentando decidir o que fazer com tudo aquilo.
Não conseguia lembrar de Eva. Não conseguia lembrar do relacionamento que ela descrevera, nem da investigação, nem da noite em que teria tomado aquela decisão. Tinha apenas uma fotografia, um registro que dizia que havia autorizado o próprio apagamento e um vídeo de uma mulher que afirmava que ambas tinham sido muito felizes juntas.
Pegou a fotografia, colocou-a de volta na bolsa e desligou o computador.
Precisava ir para casa.
Talvez, longe da Memora, conseguisse pensar com clareza. Talvez conseguisse entender por que alguém que não lembrava de nada havia deixado tantos rastros de uma vida que aparentemente tinha sido tão importante.
Pegou as chaves e saiu da Memora sem olhar para trás. Só quando as portas do elevador se fecharam percebeu que ainda segurava a fotografia com força dentro da bolsa.
A descoberta
Quando chegou em casa, Lia não acendeu as luzes. Deixou a bolsa sobre a mesa, tirou o casaco e ficou alguns segundos parada no meio da sala, tentando organizar tudo o que havia descoberto naquele dia.
A fotografia ainda estava dentro da bolsa. O nome de Eva continuava na sua cabeça. E, mesmo depois de tudo o que ouvira no vídeo, não havia nenhuma lembrança para acompanhar aquele nome.
Lia abriu o notebook e começou a procurar.
Primeiro, pelo nome de Eva Martins. Depois, por variações do nome, pelo período em que haviam trabalhado juntas e pelos arquivos antigos que ainda estavam salvos no computador. Procurou em pastas, documentos, e-mails arquivados e listas de funcionários.
Nada.
Não havia registro de Eva como funcionária da Memora. Nenhum cadastro ativo ou antigo. Nenhuma fotografia corporativa. Nenhum documento que explicasse quando ela havia entrado na empresa ou quando teria saído.
Lia continuou procurando. Quanto mais vasculhava o notebook, mais estranho aquilo ficava. Ela tinha acabado de assistir a um vídeo em que uma mulher dizia ter trabalhado com ela durante anos. Havia uma fotografia das duas. Havia um registro de desindexação. Mas, no computador de Lia, Eva parecia não ter existido.
Lia pegou a fotografia que havia deixado sobre a mesa. Virou-a entre os dedos, procurando alguma coisa que pudesse ter passado despercebida. A frase no verso continuava ali. Você disse que nunca esqueceria.
Por algum motivo, tentou passar a unha pela borda da fotografia. Sentiu uma pequena irregularidade no papel. Com cuidado, puxou o revestimento do verso. Havia um pedaço de papel dobrado escondido no forro.
Lia abriu.
Era um endereço escrito à mão.
Abaixo dele, duas palavras:
Café Memorial Celeste.
Ela ficou imóvel. Não sabia quando havia colocado aquilo ali. Mas a letra era sua.
Então voltou às pastas mais antigas. Algumas estavam organizadas por ano; outras tinham nomes que já não significavam nada para ela. Abriu arquivos que não lembrava de ter criado, planilhas esquecidas e documentos que provavelmente não acessava havia anos.
Até que encontrou uma planilha antiga com informações financeiras da Memora referentes ao ano de 2022. Era uma daquelas planilhas de trabalho que acumulavam informações ao longo dos anos e que, depois de algum tempo, deixavam de fazer sentido. Lia quase fechou o arquivo.
Então viu os nomes.
Lia Duarte. Eva Martins.
Lia parou.
As duas apareciam no mesmo setor.
Havia informações financeiras e, entre elas, registros que confirmavam que Eva realmente havia trabalhado na Memora ao lado dela naquele período.
Lia ficou alguns segundos olhando para os nomes. A fotografia não era apenas uma lembrança deixada por alguém. Era a prova de que Eva tinha feito parte da sua vida profissional — e que, em algum momento, esse registro havia sido apagado de outras bases.
Foi então que percebeu uma informação no fim da planilha. Ao lado do nome de Eva havia um número de celular.
Lia copiou o número para o celular e fez uma busca.
O resultado apareceu em poucos segundos.
O número estava associado a um estabelecimento comercial.
Café Memorial Celeste.
Lia ficou imóvel.
Abriu o endereço vinculado ao estabelecimento. Era o mesmo lugar indicado no papel escondido na fotografia: um café pequeno, em uma rua tranquila de uma cidade próxima. Havia fotos da fachada, algumas mesas na calçada e uma placa com o mesmo nome que aparecera na pesquisa.
O endereço não tinha vindo apenas de um arquivo esquecido. A própria Lia havia deixado uma pista para si mesma.
Eva tinha um café?
Pela primeira vez desde que encontrara a fotografia, Lia sabia onde poderia encontrá-la.
Ficou olhando para o endereço na tela. Sabia que podia ir até lá. Sabia também que, antes de encontrar Eva, precisava entender por que havia deixado aquela pista para si mesma.Se a própria Lia havia escondido aquele endereço antes da desindexação, talvez tivesse feito isso por um motivo.
Talvez houvesse alguma coisa que ainda precisasse lembrar.
Não iria ao café ainda.
Antes, precisava entender por que a antiga Lia havia deixado aquela pista para ela.
As lembranças
Lia voltou ao vídeo.
Não sabia exatamente por quê. Talvez precisasse ouvir Eva novamente. Talvez estivesse tentando encontrar, na voz daquela mulher, alguma coisa que justificasse a decisão de ir até o café. Ou talvez simplesmente não conseguisse aceitar que uma pessoa que dizia ter sido tão importante para ela continuasse parecendo uma completa desconhecida.
Apertou o play.
Assistiu uma vez.
Depois outra.
Na terceira, começou a prestar atenção na voz. Na quarta, no rosto. Na quinta, nas pausas entre as frases. Na sexta, percebeu que Eva sempre desviava os olhos antes de falar sobre as duas.
Lia assistiu novamente.
Quando percebeu, já havia passado de dez vezes.
Na décima primeira, alguma coisa mudou.
Eva olhou diretamente para a câmera e disse que as duas haviam sido muito felizes.
Lia ouviu aquela frase e sentiu alguma coisa se romper dentro dela. Não era uma lembrança ainda. Era apenas uma sensação, estranha e familiar ao mesmo tempo, como se aquelas palavras tivessem sido ditas para ela muitas vezes antes.
Ela fechou os olhos.
A primeira lembrança veio de repente.
Eva encostada na bancada, reclamando que o café da empresa era intragável. Lia rindo. A xícara passando de uma mão para outra. Uma discussão boba sobre a maneira certa de preparar café.
Lia abriu os olhos e voltou alguns segundos do vídeo.
Assistiu novamente.
Outra lembrança.
Eva sentada na mesa da sala de reuniões, o cabelo preso de qualquer jeito, sorrindo para ela daquele jeito que Lia agora reconhecia sem saber como.
Depois outra.
Um almoço dividido às pressas. Uma mensagem enviada no meio da madrugada. Uma chave deixada sobre a bancada. A camiseta preta. O vinho barato.
As lembranças começaram a voltar umas sobre as outras, sem ordem, sem aviso. A cozinha. O sofá. O quarto. O perfume de Eva. A risada. As discussões. Uma tarde qualquer em que tinham passado horas conversando sem perceber o tempo.
E havia mais.
Pequenas cenas, sem começo nem fim. A sensação de conhecer aquela mulher há muito tempo. A intimidade de dividir espaços, objetos e silêncios. Lia afastou-se do computador.
— Não.
Levou as mãos à cabeça, tentando impedir que aquilo continuasse. Mas as lembranças não paravam. Vinham em sequência, misturadas às imagens do vídeo e às coisas que ela havia visto naquele dia.
Eva chorando na cozinha.
Lia chorando também.
As duas sabendo que alguém havia descoberto.
A ameaça.
O medo.
E então a decisão.
E se eu esquecer tudo?
Então alguma coisa vai ficar.
Lia sentiu o corpo inteiro estremecer.
Ela fechou os olhos.
Não lembrava de tudo. Algumas imagens não vinham tão nítidas e desapareciam antes que pudesse segurá-las. Outras eram apenas sensações: o cheiro do vinho barato e uma mão procurando a sua no escuro.
Mas agora sabia quem era aquela mulher.
Lembrava de Eva entrando em sua vida. Lembrava de como haviam se aproximado. Lembrava do medo. Lembrava que havia escolhido esquecer alguma coisa importante para mantê-la viva.
O choro veio antes que pudesse impedir.
Lia caiu no chão ao lado da cadeira e ficou ali, tentando respirar enquanto fragmentos de anos inteiros voltavam sem nenhuma ordem. Era como descobrir uma vida que tinha sido arrancada dela e devolvida em pedaços.
Ela apertou os olhos. Ainda havia um vazio entre algumas lembranças. A investigação continuava incompleta. O que exatamente haviam descoberto? Quem as havia ameaçado? Por que a desindexação precisara ser tão completa?
Mas uma coisa estava clara.
Eva tinha sido muito importante para ela.
Quando finalmente conseguiu se levantar, enxugou o rosto com as mãos trêmulas. Olhou para a fotografia sobre a mesa.
Dessa vez, não viu uma desconhecida.
Viu alguém que conhecia. Alguém que tinha feito parte da sua vida de uma maneira que ainda não conseguia compreender por inteiro.
Lia pegou a fotografia e a colocou dentro da bolsa.
Ficou alguns segundos olhando para as chaves do carro.
Precisava encontrar Eva. Iria até o café naquela tarde.
O encontro
Lia chegou ao café alguns minutos depois das três da tarde. Parou diante da porta por um instante, olhando pelo vidro antes de entrar. O lugar era menor do que havia imaginado. Havia poucas mesas ocupadas, uma máquina de café funcionando atrás do balcão e o cheiro quente de grãos recém-moídos espalhado pelo ambiente.
Uma atendente estava organizando algumas xícaras quando Lia se aproximou.
— Com licença. A Eva está?
A mulher levantou os olhos.
— A Eva? Está sim. Ela está no escritório. Quer que eu chame?
Lia assentiu.
— Por favor.
A atendente desapareceu por uma porta ao fundo. Lia ficou esperando, tentando controlar a respiração. Tinha imaginado aquele momento tantas vezes que nenhuma das versões parecia servir para o que estava prestes a acontecer.
Pouco depois, Eva apareceu.
Lia reconheceu o rosto imediatamente. Mas não foi apenas o rosto. Havia alguma coisa no modo como Eva inclinava a cabeça ao ouvi-la que pareceu familiar demais. Por um instante, Lia teve a sensação de já ter visto aquele gesto centenas de vezes. A lembrança desapareceu antes que pudesse alcançá-la.
— Eva?
Eva olhou para ela por um instante, sem demonstrar nenhuma reação de reconhecimento. Ainda assim, alguma coisa naquele primeiro olhar a atingiu sem que soubesse explicar. O coração acelerou por um instante, uma reação irracional à presença daquela mulher diante dela.
— Oi... Tudo bem? Posso te ajudar com alguma coisa?
Foi naquele momento que Lia percebeu.
Eva não a reconhecera.
Lia sentiu o coração acelerar. Tinha imaginado aquele encontro tantas vezes, mas em nenhuma delas havia considerado a possibilidade de Eva olhar para ela como olharia para qualquer outra pessoa.
— Eu... queria conversar com você.
Eva hesitou, mas fez um gesto em direção a uma das mesas.
— Claro.
As duas se sentaram.
Por alguns segundos, nenhuma delas disse nada. Lia olhou ao redor, tentando encontrar alguma coisa familiar naquele lugar. Então percebeu o cardápio sobre a mesa.
— Vou pedir um café.
Eva sorriu de leve.
— Alguma coisa para acompanhar?
Lia olhou para o balcão.
— Um cookie.
Quando a xícara chegou, Lia segurou o café entre as mãos. O cheiro era forte. Amargo. E, ao lado da xícara, o cookie ainda estava quente.
Alguma coisa dentro dela se moveu.
Café amargo com alguma coisa doce.
A combinação lhe pareceu tão familiar que por um instante teve a sensação de já ter feito aquilo muitas vezes. Sentada diante de alguém. Uma xícara nas mãos. O doce ao lado.Por um segundo, viu outra mesa. Outra xícara. A mão de Eva empurrando um prato na direção dela.
— Você sempre pede isso.
A imagem desapareceu antes que pudesse segurá-la.
Lia ficou desconfortável. Não sabia se aquilo era uma lembrança ou apenas a memória tentando preencher um vazio.
Ela desviou os olhos, tentando afastar a sensação e demorou alguns segundos antes de perguntar.
— Você sempre trabalhou aqui?
Eva olhou ao redor do café antes de responder.
— Não. Trabalhei muitos anos com tecnologia. Sistemas, desenvolvimento, essas coisas. Depois fiz uma transição de carreira. Queria alguma coisa mais calma.
Eva deu um pequeno sorriso, como se aquilo pertencesse a uma história distante.— E antes disso?
Eva hesitou.
— Eu não lembro de tudo. Algumas coisas daquela época são... confusas. Parece até que foi em outra vida.
Lia sentiu um aperto no coração ao escutar isso. A frase despertou outra sensação estranha. Eva já havia dito aquilo antes. Ou talvez algo muito parecido. Lia tentou puxar a lembrança, mas encontrou apenas a impressão de uma conversa antiga, em algum lugar que não conseguia localizar. Decidiu ir direto ao ponto, sem rodeios.
— Você já trabalhou na Memora?
A expressão de Eva mudou quase imperceptivelmente.
— Memora...
Ela repetiu o nome devagar. Franziu a testa e desviou os olhos.
— Conheço o nome. Não me recordo do lugar.
Lia sentiu o coração acelerar.
Eva passou os dedos pelo colar que usava no pescoço. O pingente tinha a forma de uma pequena chave. Por um instante, pareceu incomodada com a própria mão ali, como se o gesto tivesse surgido antes do pensamento. Lia percebeu que Eva segurava o pingente com cuidado, num movimento quase instintivo, como se precisasse protegê-lo.
— É uma chave? — perguntou Lia.
Eva assentiu.
— Para mim, significa proteção contra o mal.
Nesse momento, Eva desviou os olhos para a janela. Do lado de fora, havia um carro parado na rua. Ela ficou olhando para ele por alguns segundos, desconfortável. Então balançou a cabeça, como se tentasse afastar uma sensação que não conseguia nomear, e voltou a prestar atenção em Lia.
— Você não se lembra da Memora? - Lia insistiu.
Eva passou a mão pelos cabelos, incomodada.
— Tem momentos em que eu sinto que esqueci alguma coisa importante. Só não sei o quê.
Lia ficou em silêncio. Pela primeira vez, percebeu que talvez estivesse diante de um mistério maior do que aquele que a trouxera até ali.
Não era apenas Eva que havia desaparecido da memória de Lia.
Eva havia desaparecido da própria história.
Sentiu um calafrio percorrer o corpo inteiro.
Por que apagar a carreira inteira de alguém? O que Eva poderia ter feito que faria com que a Memora quisesse apagar o vínculo por completo? Ou melhor, quem ou o que a empresa estava acobertando?
Ela não podia simplesmente chegar ali e contar tudo. Era perigoso demais. Não poderia e não colocaria Eva em perigo assim.
— Desculpa. Acho que eu vim até aqui sem saber exatamente o que dizer.
Eva sorriu, constrangida.
— Não precisa pedir desculpa. Eu também sinto muito por não ter te reconhecido.
Lia baixou os olhos. Por um instante, pensou em contar sobre a fotografia, sobre o vídeo, sobre as lembranças que haviam voltado. Mas não abriu a bolsa.
— Eu só precisava ter certeza de que você estava bem.
Eva a observou por alguns segundos.
— Eu estou.
Lia assentiu.
— Então está bem.
Ela se levantou.
— Foi bom conhecer você.
Eva sorriu.
— Para mim também.
Lia deu alguns passos em direção à porta.
— Lia?
Ela parou.
Virou-se.
Eva continuava olhando para ela, com uma expressão estranha, como se estivesse tentando entender por que aquela mulher lhe parecia tão familiar.
— Você ainda usa o mesmo perfume.
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Histórias que deixam marcas.
Fim do capítulo

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