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Sob o mesmo céu por Ayelet

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Palavras: 1023
Acessos: 48   |  Postado em: 25/07/2026

Notas iniciais:

DESCULPE ME PELA DEMORA 

— Pequenas permanências e Hortênsias

 

Helena recusou de imediato.

 

— Eu não consigo comer nada depois da quimio.

 

A voz saiu cansada.

 

Laura arqueou levemente a sobrancelha enquanto voltava da pequena lanchonete do hospital segurando uma vitamina de frutas.

 

— Ainda assim você precisa colocar alguma coisa no estômago.

 

Helena soltou uma pequena risada sem jeito.

 

— Você sempre é mandona assim?

 

Laura finalmente sorriu de verdade.

 

Discreto. Bonito. Quase raro.

 

— Segundo minha irmã? Sim.

 

Ela estendeu a vitamina novamente.

 

— Só um pouco.

 

Helena observou a insistência silenciosa daquela mulher por alguns segundos antes de aceitar.

 

Tomou um gole pequeno.

 

Depois outro.

 

E percebeu que fazia muito tempo que alguém não cuidava dela daquela forma: sem exageros, sem dramatização, sem tratá-la como incapaz.

 

Laura apenas parecia… presente.

 

 

---

 

Pouco depois, o médico apareceu na porta do consultório chamando pelo nome de Helena.

 

Ela imediatamente segurou os braços da cadeira tentando levantar sozinha.

 

Laura se inclinou na direção dela quase automaticamente.

 

— Calma.

 

A voz saiu baixa. Gentil.

 

— Você ainda está frágil. Vamos entrar.

 

Sem perceber muito bem por quê, Helena permitiu que Laura a ajudasse novamente.

 

O consultório era iluminado demais para o gosto dela.

 

O oncologista, doutor Cortez, os recebeu com um sorriso tranquilo enquanto analisava alguns exames no computador.

 

E então algo mudou na expressão dele.

 

Um sorriso genuinamente satisfeito.

 

— Isso aqui é uma ótima notícia.

 

Helena imediatamente ficou tensa.

 

Laura percebeu.

 

Instintivamente, aproximou discretamente a cadeira um pouco mais da dela.

 

— As marcações sanguíneas diminuíram bastante — o médico explicou enquanto mostrava os exames. — E o tumor está estabilizado.

 

Helena piscou devagar.

 

Como se tivesse dificuldade de acreditar.

 

— Isso… é bom?

 

O médico sorriu.

 

— Isso é excelente.

 

Pela primeira vez em muito tempo, Helena sentiu o ar entrar nos pulmões sem tanto peso.

 

— O tratamento está respondendo. Então vamos manter as doses atuais da quimioterapia e iniciar também a terapia hormonal.

 

Ele começou a explicar calmamente os próximos passos enquanto Helena escutava em silêncio.

 

Laura observava tudo discretamente.

 

O modo como Helena parecia tentar permanecer forte mesmo exausta. Como suas mãos tremiam levemente às vezes. Como ela parecia desacostumada a receber boas notícias.

 

Então o médico apoiou os exames sobre a mesa e falou num tom mais cuidadoso:

 

— Mas existe outra parte do tratamento que também é importante, Helena.

 

Ela ergueu os olhos.

 

— Você vai precisar de acompanhamento psicológico.

 

Helena desviou o olhar imediatamente.

 

Laura percebeu o desconforto dela no mesmo instante.

 

— O impacto emocional do câncer é muito grande — o médico continuou. — Ainda mais considerando tudo que você enfrentou recentemente.

 

Helena apenas assentiu de leve.

 

Como alguém cansada demais para discutir consigo mesma naquele momento.

 

Então doutor Cortez finalmente olhou para Laura.

 

— E quem é nossa acompanhante hoje?

 

Antes que Laura respondesse, Helena falou:

 

— Laura é irmã da Eleanor… minha amiga.

 

O médico assentiu sorrindo.

 

— Bom. Então você claramente está cercada de pessoas que se importam com você.

 

A frase ficou suspensa no consultório por alguns segundos.

 

E algo nela atingiu as duas mulheres de maneiras diferentes.

 

Porque Helena percebeu que já não estava completamente sozinha.

 

E Laura percebeu, talvez pela primeira vez… que queria continuar sendo uma dessas pessoas.

 

 

Cinco dias se passaram.

 

Laura continuava indo à casa da irmã quase diariamente.

 

Às vezes para discutir assuntos das cafeterias. Às vezes para jantar com as sobrinhas. Às vezes apenas porque o silêncio da própria casa ainda parecia grande demais.

 

Mas nesses últimos dias havia visto Helena muito pouco.

 

A rotina da quimioterapia a deixava mais recolhida. Mais cansada. Mais silenciosa.

 

E Laura percebeu algo estranho dentro de si: sentia falta dela.

 

Naquela manhã, depois de passar quase vinte minutos observando flores em uma pequena floricultura da Urca, acabou escolhendo um vaso de hortênsias.

 

Azuis e brancas.

 

Delicadas. Bonitas sem esforço.

 

De algum modo, lembraram Helena.

 

Agora atravessava a cozinha da casa da irmã segurando o vaso cuidadosamente entre os braços.

 

Eulália organizava algumas frutas sobre a bancada quando Laura entrou.

 

Sem pensar muito, aproximou-se por trás da governanta e a abraçou pela cintura antes de beijar seus cabelos grisalhos.

 

— Oi, Lalá… bom dia, meu docinho.

 

Eulália soltou uma risada surpresa.

 

— Meu Deus, menina. Que felicidade é essa?

 

Laura sorriu de canto.

 

E talvez realmente estivesse estranhamente feliz naquela manhã.

 

Uma felicidade leve. Quase esquecida.

 

— A Leo já saiu?

 

— Já sim.

 

Eulália virou-se para encará-la melhor.

 

— As meninas também foram passar o fim de semana na casa do pai.

 

Laura assentiu distraidamente enquanto ajeitava o vaso sobre a bancada.

 

Foi então que Eulália estreitou os olhos de maneira divertida.

 

— Vejo que alguém acordou diferente hoje.

 

Laura soltou uma pequena risada.

 

— Impressão sua.

 

— Hum.

 

Eulália claramente não acreditou.

 

Então pegou a bolsa sobre a cadeira.

 

— Eu também estou saindo. Vou ver minha netinha.

 

Laura arqueou levemente a sobrancelha.

 

— E a Helena?

 

— No quarto, descansando um pouco.

 

A governanta lançou um olhar quase cúmplice antes de continuar:

 

— Então você fará companhia pra dona Helena até a menina Eleanor voltar.

 

Laura abriu a boca para responder alguma coisa.

 

Mas Eulália já caminhava em direção à porta com um sorriso discreto de quem observava mais do que comentava.

 

E Laura ficou parada na cozinha por alguns segundos.

 

Com o vaso de hortênsias diante dela. O coração inexplicavelmente acelerado. E a estranha sensação de que estava prestes a entrar em um território emocional perigoso demais para alguém que jurava ainda pertencer ao passado.

 

Fim do capítulo


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