Capitulo 6 A casa volta a respirar
Helena passou dois dias internada.
Dois dias entre medicações intravenosas, exames, náuseas e o cansaço profundo que parecia morar dentro dos ossos.
Eleanor não saiu de perto dela em nenhum momento.
Dormiu desconfortavelmente na poltrona do quarto. Reclamou da comida do hospital. Discutiu com enfermeiros quando demoravam mais do que deveriam. E fez Helena rir pela primeira vez em semanas ao ameaçar processar a máquina de café do corredor.
Aquilo mexeu profundamente com Helena.
Porque Eleanor nunca parecia estar ali por obrigação.
Estava porque queria.
E talvez fosse justamente isso que mais assustava.
Durante aquelas madrugadas silenciosas no hospital, Eleanor percebeu algo que já suspeitava desde o reencontro:
Helena sempre fora uma das pessoas mais importantes da sua vida.
A vida apenas tinha acontecido rápido demais para que percebesse o tamanho daquele vínculo.
Agora, vendo a amiga fragilizada naquela cama hospitalar, Eleanor tomou uma decisão silenciosa: faria tudo que estivesse ao seu alcance para ajudá-la a se reerguer.
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Uma semana depois, Helena já estava instalada na casa da Urca.
Ainda havia dias difíceis. Dias em que a quimioterapia parecia arrancar toda sua energia. Dias em que mal conseguia sair da cama.
Mas naquela tarde especificamente, sentia-se razoavelmente bem dentro dos limites da própria rotina.
O suficiente para conseguir sentar-se na sala e assistir distraidamente a um documentário qualquer na televisão.
A casa de Eleanor tinha vida.
Sempre havia:
vozes,
risadas distantes,
passos pelos corredores,
cheiro de café,
música baixa vindo da cozinha.
Helena havia esquecido como aquilo fazia diferença.
Ouviu passos suaves atrás de si pouco antes de Eleanor sentar ao seu lado no sofá com um suspiro cansado.
Helena desviou os olhos da televisão imediatamente.
— O que foi?
Eleanor apoiou a cabeça no encosto do sofá, fechando os olhos por um instante.
Parecia exausta.
Mas também… inquieta.
Helena franziu levemente a testa.
— Leo?
Eleanor abriu os olhos devagar e soltou uma pequena risada sem humor.
— Laura chegou no domingo .
O nome fez Helena tentar buscar alguma lembrança mais recentes
Mas tudo que conseguia recordar era uma menina mais nova correndo pelos corredores da faculdade enquanto esperava Eleanor terminar aulas ou reuniões.
— Sua irmã mais nova… da ultima vez que nos vimos , ela tinha perdido a esposa
Eleanor assentiu.
Um sorriso triste porem suave apareceu em seu rosto pela primeira vez naquele dia.
— O pior passou , a trouxe de volta para ficar perto de mim e as meninas estão enlouquecidas desde cedo por causa dela.
Helena observou aquilo em silêncio.
O jeito como Eleanor falava da irmã carregava algo bonito. Profundo. Quase protetor demais.
— Você ama muito ela, não é?
Eleanor virou o rosto lentamente.
— Laura praticamente cresceu comigo.
A voz saiu baixa. Cheia de memória.
— Depois que nossos pais morreram… acho que em algum momento eu deixei de ser só irmã e virei um pouco mãe também.
Helena sentiu o peito apertar discretamente ao ouvir aquilo.
Porque entendia exatamente o tipo de amor que existia ali.
Eleanor então se ajeitou no sofá antes de olhar para a amiga com um pequeno sorriso.
— E você vai gostar dela.
Helena arqueou levemente a sobrancelha.
— É?
— Apesar de ser teimosa, dramática e insuportavelmente controladora às vezes… ela tem um coração bonito.
Helena sorriu pela primeira vez naquela tarde.
Sem imaginar que, muito em breve, aquela mulher mudaria completamente o rumo da sua vida.
Fim do capítulo
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