Capitulo 40
Por Daniela
Acordei sentindo o braço de Bárbara pesando em cima do meu corpo enquanto sua mão agarrava possessivamente um dos meus seios. Olhei para a mulher ao lado que estava em um sono profundo, o lençol a cobrindo parcialmente deixando suas costas nua totalmente exposta. Seus cabelos bagunçados e sua pele branca era convidativa e me traziam recordação da noite maravilhosa que tive com aquela portuguesa metida.
Em qualquer outra situação provavelmente eu estaria naquele exato momento me vestindo apressadamente para deixar o quarto antes de ser percebida pela minha acompanhante. Para falar a verdade, provavelmente eu sequer teria dormindo com alguém daquela forma, mas naquela situação e com aquela portuguesa, era tudo completamente diferente. Ver o corpo nu de Bárbara me fez querer sentir ainda mais dela em mim, meu corpo esquentava só em lembrar dos momentos de prazer que tivemos juntas, e ainda que meus sentimentos estivessem confusos, pensar nas consequências trazidas por aquelas sensações era a última coisa que eu queria fazer.
Me virei em direção ao seu rosto tentando memorizar cada detalhe, cada traço... Bárbara era uma mulher de expressões fortes e marcantes. Não era possível negar que ela era linda e encantadora. Sua sobrancelha bem feita, seus lábios rosados, seu cabelo macio... Simplesmente linda!
Me inclinei em direção a suas costas distribuindo beijos por toda aquela região. Minha mão passeava pelo seu corpo quando meus beijos atingiram sua nuca me fazendo perceber seu corpo arrepiando.
– Isso que eu chamo de uma bela forma de ser acordada. – Sua voz rouca ainda tomada pelo sono me esquentou ainda mais. – Mas devo dizer que eu preciso fazer minha higiene matinal primeiro e pentear o cabelo para você não sair correndo assustada.
Sorri com os lábios em sua pele quente. Aquela era a primeira vez que a via tão extrovertida.
– Ninguém nunca te disse o quanto você é linda ao acordar? – Sussurrei em seu ouvido sentindo seu corpo estremecer um pouco.
– De fato ninguém nunca me falou isso.
– Provavelmente você não conheceu muitas pessoas espertas nessa vida.
Bárbara se virou mesmo com o peso do meu corpo sobre o seu. Meus olhos criaram vida própria e passearam por seu rosto descendo para seus seios expostos. Meu Deus, que mulher linda! Eu poderia jurar que estava completamente viciada naquele corpo. Seus seios brancos e mamilos rosados me deixavam louca, me convidando para serem sugados e ch*pados como ela gostava.
– Definitivamente, linda! – Murmurei.
O desejo tomava conta do meu corpo. Eu queria sentir todo aquele prazer que senti na noite anterior, mas com Bárbara, eu não conseguia agir assim, com ela meu coração queria que fosse diferente do que seria com qualquer outra mulher, porque eu tinha a sensação que Bárbara definitivamente não era qualquer outra e meu eu interior queria fazer com que ela se sentisse uma rainha. Com Bárbara sex* não era tudo, por essa razão não foi difícil desviar os olhos dos seus seios e fitá-la nos olhos. Por sua vez, ela parecia estudar cada atitude minha. Suas mãos tocaram meu rosto fazendo um carinho tímido, mas deliciosamente perturbador.
– Você também é linda, Daniela.
Aquelas palavras foram um incentivo para que minha boca buscasse por seus lábios em um beijo calmo. Nossos lábios brincavam em uma sincronia perfeita. Mordi levemente seu lábio inferior antes de prolongar o beijo e pedir passagem para que minha língua passasse por sua boca e explorasse cada pedacinho dela. As mãos de Bárbara seguravam firme minha cintura trazendo meu corpo cada vez mais para grudar junto ao seu, e um gemido abafado saiu da sua boca quando ch*pei sua língua. Era um beijo cheio de novos significados, muitos que eu nem conseguia explicar.
– Definitivamente beijar é uma das coisas que você faz de melhor. – Ela falou ainda pressionando seus lábios nos meus, e meu coração acelerou.
– Você está me deixando doida, e falando essas coisas não ajuda muito o meu autocontrole.
– Devo me preocupar? – Sua pergunta saiu debochada me fazendo sentir borboletas no estômago.
– Depende do seu ponto de vista. Você se preocuparia se eu te fizesse minha agora mesmo?
– Você se assustaria se eu te falasse que é tudo o que mais quero?
Sorrimos uma para outra sem desviar nossos olhares por nenhum momento sequer antes de Bárbara acabar com aquela distância entre nós, tomando meu seio em sua mão com a mesma intensidade que me beijava, deixando claro que não estava disposta a sair daquela cama antes de provar meu corpo novamente.
Por Bárbara
Estava deitada ao lado de Daniela completamente exausta depois de termos feito amor pela segunda vez naquela manhã. A sensação de tê-la em meus braços me deixava completamente desnorteada. Tudo o que eu queria era proporcionar prazer para ela na mesma medida que sentia quando tinha seus toques em meu corpo e isso era algo que me deixava feliz, mas ao mesmo tempo muito assustada. O silêncio tomava conta do quarto sendo quebrado apenas por nossas respirações ofegantes que tentavam se recompor lentamente.
Olhei para Daniela e percebi que ela estava perdida em seus pensamentos, o que acabou me deixando curiosa.
– Um beijo por seus pensamentos. – Ela me olhou e sorriu gentilmente
– Se forem muitos pensamentos, vou ganhar muitos beijos? – Sua voz sedutora me aquecia.
– Posso pensar com carinho no seu caso.
Daniela sorriu e afastou uma mecha do meu cabelo para trás da minha orelha. Foi um gesto tão simples, mas tão significativo que me fez sentir frio na barriga.
– Você me deixa confusa, e eu sei que você também se sente assim.
– Talvez sejamos mais parecidas do que imaginávamos. Digamos que somos perdidas na nossa própria bagunça.
– E que bagunça não é mesmo, Bárbara De Veiga? – Sua mão acariciava a maça do meu rosto e meu corpo respondia àquele simples toque.
– Agora não tem mais volta se considerarmos tudo o que aconteceu entre nós desde ontem. Não é como se pudéssemos apagar tudo da nossa mente.
– E quem disse que eu quero apagar? – Ela me perguntou sem desviar os olhos dos meus. – Você quer?
– Não! Por favor, não me entenda mal Daniela. Eu adorei cada momento vivido com você. Eu só pensei que você tinha se arrependido.
Daniela respirou profundamente e ajeitou-se na cama deixando seu corpo nu exposto, me fazendo controlar para não agarrar seus seios novamente e começar tudo de novo. Ela fitava o teto enquanto parecia pensativa.
– No passado eu tive uma paixão. Sabe essas coisas de primeiro amor durante o período colegial? Pois é! Eu conheci isso, mas ao contrário de como era com outras pessoas, o meu primeiro amor não foi legal. Foi doloroso, sofrido, cruel. Era uma menina… ela estudava na mesma sala que eu, mas naquela época eu era totalmente fora dos padrões aceitáveis pela sociedade, e quando esses padrões alcançam uma escola isso sempre machuca algumas crianças e adolescentes. Sabia que crianças e jovens conseguem ser ainda mais cruéis do que adultos? – Ela disse olhando em meus olhos. Eu desviava minha atenção dela, pois sentia que era extasiante descobrir um pouco mais da baixinha. – Pois é, eu conheci essa crueldade justamente pela garota que eu era apaixonada. Naquela época eu era baixinha, gordinha e usava uns óculos terríveis de tão grossas que eram as lentes, e isso sempre foi motivo de piadas por parte de todos. Eu era a garota esquisita da escola, a garota feia, a garota sem amigos e que jamais conseguiria namorar alguém. Eu costumava escrever todas as minhas frustrações em um diário que era meu único amigo, e por desgraça do destino esse diário foi descoberto e publicado de forma cruel para toda a escola. O pior, é que nele tinha escrito toda minha paixão pela Giselle, e óbvio que o que já era ruim ficou ainda pior. Um dia nossa turma foi fazer uma viagem de campo e como sempre eu vivia sozinha pelos cantos até que em um momento ela chegou perto de mim sendo gentil pela primeira vez. Aquilo era tudo o que eu sempre sonhei… A gentileza dela me bastava. – Daniela respirou novamente e percebi o quanto aquela lembrança a afetava, apenas segurei sua mão tentando transmitir segurança. – Bom, não foi difícil Giselle me seduzir, e quando eu achava que ela me beijaria fui atingida por jatos de água enquanto ouvia risadas por todos os lados. Zombavam de mim enquanto filmavam toda aquela cena humilhante, mas nada me doía mais do que ver Giselle rindo de mim junto com os outros e beijar outra menina na minha frente. Depois disso eu saí da escola. Somente muito tempo depois consegui confiar em alguém novamente. Foi quando conheci a Micaela, Renata e Marcela, que me abri aos poucos para novas pessoas. As três sempre foram minhas melhores amigas e as únicas que considero verdadeiras. Depois do que aconteceu com Giselle, eu nunca me entreguei para alguém da forma que me entreguei a você. Todas as vezes que fui para cama com alguém era para satisfazer apenas o meu desejo, coisa de momento, mas nunca envolveu sentimento. Me tranquei totalmente para sentimentos, porque isso machuca. Sempre fiquei com caras e com mulheres também, mas não senti por nenhum algo que passasse de atração física. Ai chegou você, quebrou todas as minhas estruturas e barreiras, mas ainda não conseguiu sumir com o medo que isso tudo me desperta.
– Eu sinto muito por tudo que passou. Sinto de verdade. – Fiz um carinho com o polegar em sua mão.
– Parte de mim está feliz com tudo isso que está acontecendo, e com o que estou sentindo. No entanto, outra parte está confusa, assustada e com medo do depois.
– O que mudou, Daniela? O que te fez se entregar dessa forma? A gente nem se conhece direito e até outro dia mal conversávamos sem brigar.
– Eu não sei! Eu queria ter essa resposta porque acredito que isso resolveria muita coisa dentro de mim, mas eu não sei Babi. Você chegou com esse jeito durona de ser, e acredite que quando você me esnobava doía muito porque de alguma forma eu me sentia sendo levada de volta ao passado e por isso a única forma que encontrei para me defender do que eu sentia era implicando com você. Só que eu percebi que aquelas implicâncias não eram mais uma defesa, eram simplesmente porque eu te achava linda quando estava irritada. Quando eu percebi, passei a querer cuidar de você, e no dia que te vi machucada eu tive a certeza que estava muito ferrada porque tudo o que eu queria era cuidar de ti.
Ouvir todo aquele relato de Daniela aquecia meu coração no mesmo instante que me deixava desesperada. Eu não queria fazê-la sofrer… ela não merecia isso, mas eu também tinha que conviver com meus próprios fantasmas do passado e achava justo que ela soubesse disso, quem sabe assim ela pudesse me entender melhor.
– Eu trabalhava para a policia portuguesa, profissão que era meu sonho desde pequena. Foi uma alegria para minha avó quando consegui entrar na corporação, e eu me sentia orgulhosa de mim mesma. Depois de algum tempo conheci a Catarina, ela tinha entrado em uma das novas turmas que seriam comandadas por mim. Ela se destacava em tudo que fazia, além de ser uma mulher muito bela. Não foi difícil eu me apaixonar por ela em pouco tempo. Namoramos durante dois anos e eu tinha certeza do quanto a queria para dividir uma vida, então a pedi em casamento. Estávamos organizando todos os preparativos do casamento. Ia fazer quase um ano de noivado quando eu senti a pior das dores… a dor da traição! E naquele caso era uma traição dupla. Santiago era meu parceiro no trabalho e fora dele era meu melhor amigo, quase um irmão, mas tudo desmoronou quando peguei Santiago e Catarina trans*ndo no apartamento dela. Acabou noivado, amizade, minha carreira, porque eu pedi para sair da corporação, já que eu não conseguia cruzar com eles dois todos os dias. Desde então eu me envolvi com muitas mulheres, mas a nenhuma me entreguei da forma que me entreguei a uma baixinha brasileira que é muito abusada e metida à palhaça. Isso também é assustador.
Nossos olhos cruzaram-se e meu coração batia forte diante dela.
– Desde que te conheci fiquei na defensiva com você porque de alguma forma você alcançava uma parte de mim que era restrita e que ninguém jamais poderia ultrapassar. Eu juro que tentei resistir a você Daniela, mas falhei miseravelmente e assim como você eu não sei explicar o que mudou.
Daniela aproximou seu rosto do meu e eu conseguia sentir sua respiração quente no meu rosto.
– Parece que estamos muito ferradas com a mesma intensidade. O que vamos fazer? – Ela perguntou.
– Concordo. Eu não sei o que podemos fazer em relação a isso. Bom, podemos fugir do que estamos sentindo e fingir que nada aconteceu ou podemos ir com calma e ver no que dá.
– Considerando a vontade insana que estou de te beijar, acho que fugir não é uma opção.
– Considerando que estou com a mesma vontade de ser beijada por você, concordo que fugir definitivamente não é nossa opção.
Sorrimos uma para a outra e nossos lábios se encontraram pela primeira vez totalmente entregues sem máscaras ou segredos. Eu poderia não saber no que aquilo daria, mas Daniela era com certeza minha tempestade e calmaria.
Por Micaela
Fiquei fazendo companhia para minha irmã enquanto Marcela tinha ido prestar depoimento e finalizar de uma vez por todas com aquele pesadelo em nossas vidas. Durante a ausência da minha cunhada, Gabriela tinha sido levada para casa dos meus pais, e minhas amigas ainda não tinham aparecido para visitar Hanna, então aproveitei aquele momento a sós para conversar com minha irmã sobre os últimos acontecimentos.
– Como está se sentindo? Quer um pouco de água?
– Não Mica, obrigada. Você deveria ir para casa descansar e voltar mais tarde.
– E te deixar aqui sozinha? Jamais! Marcela deixaria meu marido viúvo.
Sorrimos em cumplicidade como se aquele sorriso falasse mais que mil palavras. Só éramos nós duas desde criança, e eu como irmã mais velha, sempre fazia de tudo que estivesse ao meu alcance para proteger minha irmã de tudo e todos, mas agora vendo ela naquela cama de hospital por ter sido baleada pelo mesmo desgraçado que há anos atrás já tinha lhe feito mal, eu simplesmente sentia como se tivesse falhado pela segunda vez no meu papel de protegê-la.
– Você sabe que eu sei o que você está pensando. Você não tem culpa absolutamente de nada. Você sabe disso, não sabe?
Me aproximei da cama e me sentei ao seu lado segurando sua mão que não estava com soro aplicado.
– Eu não me sinto culpada pelas loucuras dele, porém sinto que falhei por duas vezes por não estar perto de você e conseguir fazer algo para te proteger.
– Mica, não tinha como a gente adivinhar que toda essa merd* aconteceria. Não existe culpado nessa história que não seja o próprio Jefferson. Só lamento que ele tenha morrido com tanto ódio no coração, tanto sentimento que só levava à crueldade. Não sou santa… não consigo dizer que consigo perdoá-lo assim facilmente, mas não quero viver remoendo toda essa história pelo resto da minha vida, porque dói muito.
– Eu sei, minha irmã. Me desculpa por falar sobre isso.
– Não tem que se desculpar. Eu sei que você está muito agitada com tudo isso, assim como eu. Sabe, eu só quero sair desse hospital e cuidar da minha vida. Minha filha precisa de mim, e eu preciso estar junto de Marcela para juntas nos curamos. – Notei seu olhar triste.
– Como foi com ela quando saímos do quarto?
– Foi estranho! Inicialmente ela parecia muito na defensiva. Parecia que estava calculando todas suas as atitudes, e até para me beijar foi difícil, mas pude sentir o quanto ela estava feliz e aliviada por me ver recuperando bem. A parte mais difícil foi quando percebi como ela queria justificar o fato da Gabriela estar na casa dela. Era como se ela não sentisse que tinha direitos sobre a minha filha, e eu sei que isso é uma regressão aos laços que estávamos criando entre nós três.
– Eu soube de tudo que você falou. A Bárbara nos contou, e as meninas me aconselharam a conversar com Marcela. Nós conversamos muito, e não vou te esconder que ela estava realmente destruída, mas dê tempo ao tempo e tudo vai se encaixar em seu devido lugar. Acho que isso vai passar quando vocês conversarem cada vez mais e ela perceber toda liberdade que você dar a ela em relação à Gabi. Marcela ama vocês duas, irmã. Ela não pensa em se afastar dessa vez. Talvez ela só precise recuperar a autoconfiança que ela tinha acabado de reconquistar.
– Será que isso vai atrapalhar nosso namoro? – A tristeza transbordou nos olhos de Hanna.
– Depois de tudo que vocês viveram não consigo imaginar algo que possa afastar vocês duas novamente. Hoje vocês são duas mulheres maduras e que sabem o que querem, mas óbvio que precisa conversar com ela sobre cada palavra que você disse.
– O difícil é saber como. Marcela entrou em desespero nesse quarto quando eu tentei abordar o assunto.
– Tenho certeza que você vai descobrir um jeito de conversar com ela. Marcela sempre teve problemas em lidar com coisas que pudessem magoá-la. Ela sempre prefere fugir ou fingir que nada aconteceu, mas você sabe lidar com ela. Por hora, foque na sua recuperação.
Algum tempo depois
Hanna acabou dormindo pouco tempo depois da nossa conversa. O médico disse que era normal essa sensação de cansaço e sonolência que ela estava sentindo, mas que com o passar dos dias ela se sentiria bem melhor.
Já era hora da visita quando a porta do quarto foi aberta revelando o rosto de Marcela, Bárbara, Daniela e Renata.
– Ei, como ela está? – Marcela perguntou quando se aproximou de mim, deixando um beijo carinhoso na minha cabeça.
– Bem dentro do possível. Nós conversamos bastante, mas ela se sentia cansada e logo adormeceu.
Minha cunhada foi em direção à cama de Hanna, e fez um carinho delicado em seu rosto enquanto as outras me cumprimentavam.
– Você acha que ela se incomodaria se eu a beijasse? Eu não quero incomodá-la enquanto descansa.
Troquei olhares com minhas amigas que pareciam tão surpresas quanto eu, ao ouvir aquela pergunta. Marcela parecia tímida, retraída, receosa e muito insegura. Isso definitivamente não era bom… não quando se tratava da própria namorada.
– E desde quando você precisa fazer uma pergunta dessas para beijar tua namorada, ô cara pálida? – Daniela tentou descontrair o clima.
– É só que ela está dormindo, e eu realmente não queria incomodá-la.
Marcela voltou a olhar para Hanna, e novamente fez um carinho no rosto da namorada respirando profundamente.
– Esquece! É melhor deixá-la dormir.
Minha cunhada ficou olhando Hanna dormir, e percebi o quanto ela se sentia cansada, eu diria que exausta era a palavra certa.
– Mica, isso vai ser mais difícil do que eu imaginei. – Renata sussurrou de forma que somente eu e as outras duas pudéssemos ouvir. – Eu consigo lidar bem com a Marcela explosiva. Mas sempre fui péssima em lidar com ela, quando ela se sente insegura consigo mesma. Dessa vez é você que vai ter que ajudar.
Vi Marcela se afastar da cama de Hanna, e sentou-se em uma poltrona perto da cama sem tirar os olhos da minha irmã nem por um segundo. No entanto, era como se ela estivesse perdida em um mundo de pensamentos conturbados que consumia toda sua energia.
– Mica, seus pais mandaram avisar que não voltam aqui hoje, pois vão dormir com Gabriela. – Marcela disse quase em um fio de voz cansado.
– Você não achou melhor ela dormir com você?
– Não é isso. Seu pai pediu para deixá-la com eles, e eu achei que não deveria negar isso a ele.
– Tudo bem! – Fui em direção à Marcela e me ajoelhei à sua frente. – Você parece muito cansada. Deveria aproveitar essa noite para repor as energias. Eu não quero te ver doente. E tenho certeza que Hanna também não quer.
– Não se preocupe, Mica. Eu vou melhorar. Hoje foi novamente um dia desgastante, e aquele depoimento... Céus! – Ela fez uma pausa levantando-se como se tentasse fugir do meu olhar. – Digamos que foi difícil relembrar de tudo e falar em voz alta tudo o que aconteceu… Tudo o que eu vi e ouvi. Foi como voltar a cena, sabe?
Novamente troquei olhares com as outras que sabiam exatamente sobre o que Marcela falava.
– Bom, mas agora acabou e é vida que segue.
– Sabe o que eu acho? – Daniela se aproximou de Marcela passando seus braços pelos ombros dela que ergueu uma sobrancelha. – Você está precisando beber, ir em uma boate bem massa, extravasar esses pensamentos negativos e...
Daniela nem terminou de falar a frase e foi atingida por uma tapa na nuca enquanto recebeu olhares fulminantes de Bárbara.
– Isso lá é conselho que se dê? A namorada dela está em uma cama de hospital se recuperando de uma cirurgia ocasionada por uma bala. Como você consegue ser tão sem noção, sua criatura estranha?
Eu, Renata e Marcela gargalhamos do jeito sem graça que nossa amiga adotou.
– Ai credo! Você fala como se ela fosse sair pegando geral. Sinto lhe informar, mas a Marcelinha aqui não tem o meu charme para atrair mulheres, ok? Hanna pode ficar despreocupada. Mas um pouco de álcool no sangue não faz mal a ninguém.
Novamente Daniela levava tapas agora por todos os lados do corpo enquanto tentava inutilmente se defender.
– Você é uma idiota mesmo, Daniela Gaspar.
– Alguém tira essa maluca de cima de mim. – Daniela praticamente gritava.
– Eu não! Você que se apaixonou, agora aguente. – Falei debochada.
Se eu bem conhecia Daniela, nada daquilo que ela falava tem de fato fundamentos. A única coisa que ela queria, era descontrair o momento, pois conhecia Marcela perfeitamente para saber que um dos melhores remédios para ela naquele momento, era rir.
– Você também percebeu? Pensei que só eu tinha notado que nossa garota prodígio estava arriadinha os quatro pneus pela Bárbara. – Renata debochou sem cerimônia.
– O QUÊ! Vocês só podem estar loucas. Eu não costumo atrair galinhas. – Bárbara falou séria cruzando os braços à altura do peito enquanto lançava olhar mortal para Daniela que sorria descaradamente.
– Sério? Não sabe o que está perdendo, porque essa galinha aqui dá um caldo revigorante em mulheres rabugentas que envelheceram antes do tempo. Enquanto você rejeita, tem uma fila brigando para ver quem come a coxa, meu bem.
Daniela respondeu com deboche, a voz claramente na tentativa de irritar a outra, e devo dizer que ela estava conseguindo com louvor.
– Por que será que elas subestimam nossa inteligência? Será que elas não perceberam que vimos quando chegaram juntinhas, e o beijo trocado antes de sair do carro? – Renata sussurrou para Marcela me deixando surpresa com a novidade.
– O quê? Não acredito que perdi essa. – Eu estava indignada.
– Quando será que elas vão confessar que estão se pegando? – Renata perguntou.
– Não sei, mas até lá a gente pode se divertir com a cara de trouxa das duas. – Marcela respondeu com divertimento.
Toda aquela bagunça acabou acordando Hanna, que já reclamava do barulho.
– Será possível que nem em um quarto de hospital com uma enferma dormindo você consegue se comportar, Daniela?
– Credo! Mal acorda e já esbanja todo esse bom humor? A propósito, também estou feliz em te ver. – A baixinha foi em direção à minha irmã e a beijou e abraçou cuidadosamente.
– Eu adoro te ver, mas não posso mentir. Você é muito bagunceira, sua baixinha metida.
– Tudo bem, estou sendo ofendida gratuitamente, mas eu entendo que é muito difícil vocês superarem todo meu charme. Isso é pura inveja!
– Ah claro! A Bárbara que o diga, não é mesmo? Hanna, sabia que Danizinha aqui ó... APAIXONOU pela portuga?
– Não creio! – Hanna falou bestificada enquanto Bárbara ruborizava ao lado de Marcela. – Bem que eu desconfiei que aquela implicância era tesão encubado. Exatamente o que ela sempre gostou de dizer em relação a mim e Marcela.
– Vocês são muito idiotas mesmo. Eu não estou... – Daniela olhou para Bárbara e parou de falar na mesma hora. – Bom, por que vocês não vão cuidar da vida de vocês hein? – Ela sentou-se na poltrona que antes eu ocupava.
– MEU DEUS, O MUNDO VAI ACABAR! Vocês viram que ela silenciou com uma única troca de olhares? Bárbara, minha querida, sou tua fã. – Renata bateu palmas para a portuguesa que sorriu discretamente enquanto ficava ainda mais vermelha, se é que isso era possível.
Todas caímos na risada com exceção de Bárbara e Daniela.
– Gente, acho que vou precisar fingir que estou passando mal para minha namorada chegar perto de mim. – Hanna falou quando finalmente conseguimos parar de sorrir.
– É isso ai, fica ai perdendo tempo com piadinhas bestas e esquece da mulher. Cuidado Marcelinha que aqui tem muita enfermeira gostosa. – Daniela provocou a outra que lhe lançou um olhar mortal.
– Cala a boca, que pelo menos eu tenho uma namorada e você, se continuar sendo frouxa, vai perder a Bárbara antes mesmo de conquistar. – O sorriso diabólico de Marcela deixou a outra encolhida no sofá.
– Toma distraída! – Renata provocou e Bárbara sorria debochada para a baixinha.
Marcela foi em direção à Hanna e sentou-se na cama ficando próximo a ela.
– Desculpa, eu não quis te acordar quando cheguei. Como se sente?
– Extremamente incomodada.
– O quê? Por quê? Está doendo alguma coisa? Quer eu que chame uma enfermeira? – Marcela se desesperou e Hanna segurou sua mão quando ela pareceu que iria se levantar.
– Ei, calma. Eu me sinto bem na medida do possível. Eu não preciso de uma enfermeira.
– Então o que te incomoda? – Ela pareceu confusa.
– Você não me beijar nesse exato momento me incomoda. É de você que eu preciso, Marcela.
Devo admitir que a cena da minha caçula sendo beijada não era algo que me deixava muito confortável, mas ver Marcela junto de Hanna era algo que sempre me deixava feliz mesmo que eu não falasse nada para elas. Era como se eu soubesse que com Marcela, minha irmã sempre estaria segura e feliz.
Minha cunhada encurtou a distância entre as duas, se entregando a um beijo apaixonado e demorado demais para meu gosto, mas ainda assim era muito lindo ver as duas juntas entregues ao amor.
Fim do capítulo
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