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Sob o mesmo céu por Ayelet

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Palavras: 1153
Acessos: 136   |  Postado em: 07/07/2026

Capitulo 4 algumas pessoas reconhecem nossas,ruinas,

Capítulo — Algumas pessoas ainda reconhecem nossas ruínas

 

Uma semana se passou.

 

Faltavam cinco dias para Laura voltar definitivamente ao Rio de Janeiro.

 

As caixas começavam a surgir pelo apartamento de São Paulo, silenciosas lembranças de que sua vida estava prestes a mudar mais uma vez.

 

E Laura odiava mudanças.

 

Depois do café da manhã com Eleanor, Micaela e Letícia, ela retornou ao quarto dizendo precisar descansar um pouco.

 

Mas Eleanor conhecia a irmã bem demais para acreditar na desculpa.

 

Laura sempre se escondia quando estava com medo.

 

Foi assim: quando perderam os pais, quando Laura se assumiu, quando Natália morreu.

 

Laura sofria em silêncio até não suportar mais.

 

E Eleanor… sempre ia atrás.

 

Ela encontrou a irmã sentada no chão ao lado de uma caixa aberta, cercada por fotografias antigas e algumas peças de roupa cuidadosamente dobradas.

 

Laura sequer ergueu os olhos quando percebeu a presença dela.

 

Eleanor aproximou-se devagar e sentou ao seu lado sem dizer nada.

 

Como fazia desde a adolescência.

 

Por alguns minutos, o silêncio tomou conta do quarto.

 

Então Laura finalmente falou.

 

— Eu tenho medo de esquecer a voz dela.

 

A frase saiu tão baixa que quase se perdeu no ambiente.

 

Eleanor sentiu o coração apertar.

 

Laura continuou olhando para uma fotografia antiga dela e Natália na praia.

 

— Às vezes eu tento lembrar exatamente como ela ria… e não consigo.

 

A voz falhou no final.

 

Eleanor puxou a irmã para perto imediatamente.

 

Laura resistiu apenas por um segundo antes de desabar.

 

Como sempre fazia.

 

Chorou silenciosamente contra o ombro da irmã enquanto Eleanor acariciava seus cabelos devagar, exatamente como fazia anos atrás quando ainda dividiam o mesmo quarto.

 

— Você não vai esquecer dela — Eleanor murmurou baixinho. — Algumas pessoas continuam vivendo dentro da gente mesmo depois que vão embora.

 

Laura fechou os olhos com força.

 

Talvez aquela fosse a única pessoa no mundo diante de quem ela ainda conseguia ser frágil sem vergonha.

 

 

---

 

De volta ao Rio, Eleanor tentava retomar a própria rotina.

Havia dado 1 semana de prazo para Laura se nao chegasse ao rio em até esse prazo ,voltaria a são paulo e a traria pelas orelhas 

riu imaginando se seria necessario .

 

Dois dias apos esta de volta ao rio de janeiro 

 

Entre reuniões e a administração das empresas que herdara ela ainda encontrava tempo para os trabalhos voluntários que fazia havia anos.

O fazia com sua amiga Helena alvares , uma advogada de renome , sentia falta da amiga de anos, havia um tempo considerável que não a via .

 

Hospitais sempre tiveram um efeito estranho nela.

 

Lembravam a dor. Mas também a permanência.

 

Naquela tarde, caminhava pelos corredores do hospital oncológico carregando algumas doações quando uma silhueta conhecida chamou sua atenção do outro lado do saguão.

 

Eleanor diminuiu os passos lentamente.

 

Não podia ser.

 

Mas era.

 

Os cabelos agora mais curtos. O semblante cansado. Os movimentos lentos.

 

Ainda assim, Eleanor reconheceria Helena Álvares em qualquer lugar.

 

Aproximou-se da recepção discretamente para confirmar o nome.

 

E sentiu o peito apertar ao ouvir a confirmação.

 

Helena estava em tratamento ali.

 

Eleanor praticamente saiu às pressas pelo corredor até alcançá-la já perto do estacionamento.

 

— Helena?

 

A mulher virou-se devagar.

 

Por um instante, os olhos cansados pareciam procurar na memória quem estava diante dela.

 

E então vieram o reconhecimento… e um sorriso pequeno, incrédulo.

 

— Leo…

 

Eleanor não pensou duas vezes antes de abraçá-la.

 

E foi nesse abraço que percebeu.

 

Helena estava magra demais.

 

Frágil demais.

 

Quando se afastaram, Eleanor tentou esconder a preocupação no olhar.

 

— Quanto tempo…

 

Helena soltou uma pequena risada cansada.

 

— quase dois anos e ainda acho que uma vida inteira.

 

 

---

 

A cafeteria era simples. Pequena. Cheirava a café recém-passado e pão quente.

 

Eleanor percebeu que Helena caminhava devagar, como alguém economizando energia a cada passo.

 

Sentaram-se perto da janela.

 

Durante alguns minutos, conversaram sobre memórias da faculdade, antigos professores e amigos em comum.

 

Até Eleanor finalmente perguntar, com cuidado:

 

— O que aconteceu, Helena?

 

O silêncio que veio depois pareceu pesado demais para aquele ambiente pequeno.

 

Helena desviou os olhos para a xícara de café.

 

— Câncer de mama.

 

A resposta saiu simples. Sem dramatização.

 

Talvez porque já tivesse repetido aquilo tantas vezes que as palavras haviam perdido parte do impacto.

 

Mas não para Eleanor.

 

— Eu estou fazendo quimioterapia há alguns meses.

 

Eleanor permaneceu em silêncio, esperando.

 

Helena respirou fundo antes de continuar.

 

— O Gustavo foi embora pouco depois do diagnóstico.

 

A dor agora aparecia na voz.

 

— Levou praticamente tudo que podia levar. Contas, investimentos… até dinheiro das minhas reservas.

 

Eleanor sentiu a indignação subir imediatamente.

 

— Helena…

 

Ela apenas deu de ombros.

 

Um gesto cansado de quem já não tinha forças nem para odiar.

 

— Sobrou uma casa simples no subúrbio e alguns processos pequenos que eu consigo atender online.

 

— Você ainda está trabalhando?

 

— Tentando.

 

As horas passaram quase sem perceberem.

 

Eleanor ouviu mais do que falou.

 

Sobre a solidão. Sobre as dificuldades do tratamento. Sobre a humilhação do abandono.

 

E quanto mais ouvia, mais tinha certeza de uma coisa: Helena não deveria passar por aquilo sozinha.

 

Então tomou uma decisão.

 

— Vem morar comigo por um tempo.

 

Helena ergueu os olhos imediatamente.

 

— Leo…

 

— Eu estou falando sério.

 

Eleanor apoiou os braços sobre a mesa.

 

— As meninas vão adorar ter você por perto. E sinceramente? A casa anda silenciosa demais ultimamente.

 

Helena sorriu de leve pela primeira vez desde que haviam sentado.

 

— Eu não quero atrapalhar sua vida.

 

— Você nunca atrapalhou.

 

Houve silêncio outra vez.

 

Então Helena perguntou, quase distraída:

 

— E sua irmã mais nova? Como ela está mesmo? Faz tantos anos que eu nem lembro mais dela direito…

 

Um sorriso discreto surgiu nos lábios de Eleanor.

 

— Laura vai voltar pro Rio essa semana.

 

Helena apenas assentiu, sem imaginar que aquele nome mudaria sua vida completamente.

 

O céu já começava a escurecer quando as duas deixaram a cafeteria.

 

Trocaram telefones. Promessas de reencontro. E um abraço mais longo do que o primeiro.

 

Antes de entrar no carro, Eleanor ainda ouviu Helena dizer:

 

— Eu vou pensar sobre o convite.

 

Eleanor sorriu suavemente.

 

Porque, no fundo, já tinha decidido que não deixaria a amiga enfrentar aquilo sozinha outra vez.

 

Fim do capítulo


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