Capitulo 1 - O Despertar do Horizonte de Eventos
O silêncio do lado oculto da Lua não era apenas a ausência da comunicação com a Terra; para uma historiadora como eu, acostumada a decifrar como povos antigos registravam e marcavam a passagem do tempo nos monumentos ou gravuras rupestres, através de constelações antigas e eventos celestes e a forma como moldavam suas civilizações a partir disso, o silêncio era a ausência absoluta de notícias, enquanto o relógio demorava a mover os ponteiros.
Enquanto Selena orbitava em torno daquele abismo lunar, em terra eu me tornava uma peça de arqueoastronomia viva: uma relíquia em eterna espera calcada em alguma parede de uma caverna ou em algum monólito, ancorada à Terra por um fio invisível de esperança e medo, muito medo.
- Foram cinco longas semanas, realmente longas... - eu disse, sentindo as lágrimas queimarem enquanto a beijava com uma delicadeza que temia quebrá-la. Selena despertara. O peso de cinco semanas de inconsciência profunda finalmente cedia ao calor do nosso reencontro.
Quando abri a porta do quarto da agência espacial, o ar que me atingiu tinha cheiro de antisséptico e o gosto denso do desespero. Mas eu segurava nossa filha, que era o mapa estelar mais precioso que já havíamos desenhado juntas, e sentia o pulso firme da realidade vibrar entre nós. Selena sussurrou, confusa, se haviam passado apenas cinco horas.
Mal sabia ela que aquelas cinco semanas tinham sido mais eternas do que até mesmo os cinco meses que ficara na lua, pois para quem fica em solo, cada segundo de um blackout de rádio se expande infinitamente como um universo em inflação cósmica, uma tortura excruciante pela ausência de notícias da pessoa amada. Entretanto, tê-la tão perto e não poder tocá-la, foi um milhão de vezes pior que a ausência de sinais.
Meus óculos, que ela fitava com estranheza e de forma insistente, estavam inteiros sob meu nariz, refletindo a luz clínica das lâmpadas fluorescentes no teto. Para ela, talvez fossem apenas lentes; para mim, eram as janelas através das quais eu contei cada minuto de sua ausência, estudando o céu e olhando para a terra como nossos antepassados faziam, buscando sinais de deuses antigos que nunca respondiam.
Antes desse despertar, o corredor da área de quarentena foi o meu purgatório. Eu via médicos correndo, ouvia alarmes e sentia que Selena lutava contra algo que nenhum telescópio espacial, nem mesmo o Hubble, poderia detectar: uma anomalia na consciência. Houve um momento, pouco antes de ela abrir os olhos, em que uma luz branca cegante pareceu emanar por baixo da porta do quarto, como o reflexo do sol no oceano durante o splashdown.
Creio ser este o momento do ponto de saída de sua jornada mental. Eu não vira o "Cavaleiro Cambaleante da Gravidade" ou a poeira de regolito que ela descreveria depois, mas sentia o frio. Um frio que não vinha do ar-condicionado, mas da dilatação temporal que ameaçava isolá-la em um " para sempre" onde eu simplesmente deixaria de existir.
Enquanto eu esperava, a culpa me consumia como antimatéria consome a matéria, assim como consumia a ela - de uma forma muito ruim, sem a energia resultante do processo - deitada inerte naquela cama, cheia de sondas e sensores.
Como historiadora, sei que há (e eu experimentei a ambos nesta jornada), dois tempos distintos, o cronológico - que corria implacável e indiferente à minha dor, ora lento pela longa espera, ora em vertiginosa aceleração derivada do medo - e o histórico, com suas camadas de memórias e múltiplas variações; mas como esposa, eu parecia sentir que o espaço sideral a havia roubado de nós, a singularidade rompendo com a noção de tempo, quando a história deixa de existir, como no início do Universo.
Em minhas noites insones, eu me via como aquela projeção que Selena enfrentou: uma mulher presa a uma cama de hospital de ferro, algemada pela incerteza da volta segura. Mas eu era, sempre fora, o porto seguro, o suporte que Sarah tanto mencionava em seus diários de bordo; embora no momento sentia-me mais como uma ruína antiga, desbotada e quebrada pelo tempo.
As algemas que Selena viu em seus delírios - feitas de sombras de um eclipse - eram, na verdade, o peso da minha solidão. Eu me perguntava se ela admitiria que a missão fora um erro, como muitas vezes sugeri em nossas intermináveis discussões. Me perguntava também se o amor por nossa filha seria o combustível necessário e se seria suficiente para que ela conseguisse romper a inércia orbital de seu coma.
Lembro-me de preparar café em casa, no nosso apartamento de número 555, tentando manter a normalidade para nossa filha. O aroma de torradas e geleia de morango preenchia a cozinha, mas para mim, tudo tinha um sabor metálico de medo, o medo de que ela nunca mais voltasse do espaço.
E foi justamente essa "assombração de felicidades passadas" a que mais teve o poder de prende-la no vácuo da sua consciência. Eu temia que Selena ficasse presa em um loop de memórias, preferindo o calor estático de um domingo bom ao risco de enfrentar a dor do retorno e da culpa que insistia em se apossar, sorrateira e abrasiva como a poeira lunar, da sua consciência.
Eu olhava para o nosso tapete azul índigo e via os óculos dela, que ela não levara ao espaço e imaginava se a realidade dela estava tão estilhaçada quanto poderia estar o vidro de uma lente sob pressão. Eu não sabia que, na mente dela, eu me tornara um vácuo escuro, um borrão cinzento apagado pela dilatação do tempo causado pela anomalia.
O dia do splashdown no Oceano Pacífico foi o clímax do terror que assolava minha alma desde o dia da sua partida. A notícia de que um dos paraquedas falhara chegou como uma entrada balística em meu peito. A desaceleração de 8g que comprimiu os pulmões dela esmagou a minha alma aqui na Terra. Eu imaginara a cápsula Odyssey atingindo a ionosfera, envolta em chamas plasmáticas, mas não sabia que também estaria envolta em antimatéria de outra dimensão.
Selena não estava apenas caindo; ela estava se quebrando em mil pedaços onde passado, presente e futuro colidiam. E eu, a historiadora, nada podia fazer para catalogar e registrar aquele momento no tempo, a não ser esperar, rogando a deuses e deusas conhecidos e desconhecidos para que o tecido do espaço-tempo não a engolisse para sempre.
Porque tudo começara com aquela missão de cinco meses no lado oculto da Lua, que nos deixaria virtual e fisicamente tão distantes, a comunicação impossível pela curvatura e massa da Lua, que obstruía completamente os sinais de rádio. Quando ela voltasse, a reentrada nunca seria pacífica, nós em terra também sabíamos disso. Mas enquanto ela partia para estudar as camadas da Lua e do universo, eu ficava para trás para estudar o que o tempo pode fazer com as ranhuras no coração humano.
Agora, depois que ela voltou, a maior distância a ser vencida - e eu descobri este fato nessas cinco longas semanas -, não era a distância física entre a Terra e a Lua. Era o abismo entre o colapso da consciência e o primeiro "eu te amo" sussurrado nos braços de quem se ama.
Com Selena segura em meus braços e o cheiro de poeira estelar finalmente se dissipando, entendo que o reflexo do que restou do horizonte de eventos poderá se transformar no próprio devir histórico em sua forma mais nobre: o brilho mágico da vida que decidimos reconstruir juntas.
Fim do capítulo
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Zanja45
Em: 01/06/2026
Muito bom. Gostei muito da parte em que Selena fica a fitar os óculos de Sarah.isso a faz lembrar do que eles significaram para ela durante aqueles cinco meses de afastamento. E a passagem diz assim [...]Para ela, talvez fossem apenas lentes; para mim, eram as janelas através das quais eu contei cada minuto de sua ausência, estudando o céu e olhando para a terra como nossos antepassados faziam[..] poético demais.
Zanja45
Em: 02/06/2026
Gostei demais!
Abraços!
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Minh@linda!
Em: 16/05/2026
Enquanto uma olha pro céu, a outra registra os passos na terra. Selena fez bem em voltar, Sarah estava esperando ansiosa por ela! Que fugiu da morte seguindo o Mapa Estelar mais precioso pra elas.
Já imagino o desespero de Sarah, só em imaginar Selena preferindo ficar em um loop perfeito, onde não existiria o Eu te Amo carregado de emoções do reencontro, após os meses de distância no espaço ou dentro de si mesma.
Mesmo orbitando em mundos diferentes, Sarah criava um ambiente familiar aconchegante e com cheiro de memórias afetivas. Como um farol, iluminando o caminho de Selena, que voltava pra casa queimando pelo fogo do desconhecido. Mas com a certeza de que juntas elas são mais fortes.
Lady Texiana
Em: 16/05/2026
Autora da história
Muito obrigada por este comentário. Você descreveu perfeitamente a essência deste conto pelo ponto de vista da Sarah: o amor de ambas como uma âncora de realidade. Fico feliz por você ter percebido que apesar das duas orbitarem mundos diferentes, o que as mantém unidas é este universo de memórias, que Sarah como historiadora, preserva. E realmente, conseguiram provar que o reencontro real, o "pulsar firme da realidade" com toda sua carga emocional ali embutida, pode valer muito mais que um sentimento perfeito em loop.
Abraços!
Lady Texiana
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Lady Texiana Em: 02/06/2026 Autora da história
Que bom que gostou deste conto. É uma alegria para mim receber este seu comentário!
Como Sarah é historiadora, eu quis muito brincar com a ideia de arqueoastronomia, que é justamente o estudo de como os povos antigos entendiam e registravam o céu, a passagem do tempo, os rituais que regiam suas vidas. Para nossos antepassados, olhar para o céu era uma forma de buscar respostas.
Para nós hoje, quando olhamos as estrelas, olhamos para o passado.
Para Sarah, os óculos se transformaram em um instrumento, como um telescópio, que ela vasculha e faz a própria leitura dos céus, e da própria dor, enquanto espera por Selena, do lado oculto da Lua.
Saber que este lado mais poético chamou sua atenção, me deixa muito feliz! Obrigada por acompanhar estes dois contos sobre Selena e Sarah.
Um abraço