Ellen por Ana K Fernandes
Capitulo 1
CAPÍTULO 1
São Paulo
As lembranças são como os sonhos. Elas apenas vêm, como minha avó dizia. Não sei se é assim para todo mundo, mas comigo sempre foi. As lembranças chegam, sentam-se, tomam um cafezinho e depois vão embora, sem nenhum aviso, da maneira como vieram. E não sou uma pessoa de boa memória. Pelo contrário, se não anotasse os meus compromissos, eu os perderia todos. As pessoas também, os seus rostos, eu esqueço. Lá vou eu na rua, quando aparece um conhecido que me cumprimenta com aquele entusiasmo dos reencontros, e a lembrança não vem. São apenas os gestos, uma certa maneira de falar ou sorrir, que fazem a imagem inteira surgir, e, com alívio, eu posso finalmente dizer: “Oi. Sim, há quanto tempo...”
Apesar desses esquecimentos, a minha mente é como um grande depósito, cheio daqueles antigos arquivos de aço que têm várias gavetas com etiquetas para indicar o ano guardado ali dentro. Às vezes, uma música ou a risada de alguém abre uma dessas gavetas e lá vêm todos os acontecimentos, que estavam jogados ali de qualquer jeito. E as velhas lembranças estão quase sempre acompanhadas de dores esquecidas e de lágrimas, mas há também aquelas que são boas; essas chegam trazendo a saudade.
Um dia, já não recordo o motivo, talvez porque algum morto sorria na foto do seu porta-retrato, eu quis abrir um desses velhos arquivos para organizar o que estava esquecido dentro dele; e comecei a escrever sobre o ano gravado na etiqueta.
O ano era 2003, e tudo começou com uma ligação telefônica.
— Oi, Ju. Onde você está?
A voz de Luiz soou rouca e esquisita, mas imaginei que era uma consequência do ruído na ligação.
— No shopping. Combinei um passeio com minhas colegas do mestrado, lembra?
— Vem aqui, por favor. Preciso que você me leve ao hospital.
O pedido me assustou. Luiz detestava pedir ajuda e jamais o faria se não fosse grave.
— Estou indo. O que você está sentido?
— Uma dor de cabeça muito forte.
— Deite um pouco. Tente descansar. Vou chegar logo.
Era um sábado, dia 25 de janeiro, e a cidade inteira fervilhava, agitada pelas comemorações do aniversário de 449 anos de São Paulo. Com dificuldade, consegui um táxi na saída do shopping. O carro avançou lentamente na avenida Rebouças, enquanto eu refletia sobre o que estava acontecendo. Um pressentimento me dizia que essa dor de cabeça era mais que uma simples enxaqueca.
Luiz já passava dos quarenta anos, mas tinha a vivacidade de um menino. Nunca se queixava de dor alguma e vivia em permanente agitação, andando de um lado para outro. Quando não estava no trabalho, malhava na academia ou corria no parque com as senhoras do prédio, inventando sempre novas atividades que o mantivessem em movimento, porque estar em repouso o entediava.
Nós dois morávamos juntos desde a minha mudança para São Paulo no ano anterior, mas eu não o acompanhava nessa rotina cheia de atividades. Embora anos de amizade nos unissem quase como irmãos, os nossos espíritos eram opostos. No início, com medo dos conflitos que essa convivência causaria, eu havia rejeitado a ideia de morar na sua casa, mas ele insistira, como se a recusa fosse uma desfeita imperdoável. Então, no fim, nós chegamos a um bom acordo, e a nossa convivência tornou-se a melhor possível.
Entrei no prédio quase correndo, com o coração apertado, e cheguei esbaforida ao apartamento. Luiz estava deitado na cama, muito pálido.
— A dor melhorou?
— Não. Piorou.
— Para qual hospital devemos ir?
— Não sei.
Liguei para o plano de saúde, e a atendente indicou o hospital adequado. Pedi um táxi, mas levá-lo sozinha até o térreo era impossível. Luiz mal conseguia ficar em pé. Então, com o gentil apoio do zelador, segurei esse homem de quase um metro e noventa no elevador.
— Estou lamentando o meu medo idiota de dirigir. Poderíamos te carregar no carrinho de compras até a garagem.
Brinquei para quebrar o clima de angústia. Luiz sorriu. Um sorriso estranho. A fé de minha mãe na ajuda dos santos parecia bem útil nessas ocasiões.
A equipe do hospital compreendeu a gravidade da situação, e Luiz foi atendido rapidamente por um médico. Quando o levaram para mais exames, voltei à recepção e assinei os papéis com os dados do plano.
— A senhora é a esposa dele?
O atendente parou de digitar, aguardando a minha resposta.
— Não.
— Então vocês não são parentes?
A pergunta me fez pensar nos parentes de Luiz. Depois da morte de sua mãe, restava apenas um irmão com quem ele não tinha nenhum contato. Por outro lado, Luiz e eu sempre confiamos um no outro.
— Somos bons amigos.
Uma enfermeira me chamou:
— O Doutor Sampaio deseja falar com a senhora.
O tom delicado me fez temer o pior. Senti o meu coração disparar e as minhas pernas tremerem enquanto eu caminhava até o consultório médico.
Na sala de paredes verdes, estavam o médico grisalho que nos atendeu quando chegamos e uma mulher loira, bem mais jovem que ele, sentada atrás de uma mesa. O médico indicou uma cadeira e analisou o prontuário.
— Juliana Arcoverde. Você é a acompanhante do Luiz?
— Sim.
Sentei-me lentamente para recobrar o meu autocontrole e não chorar.
— A situação do Luiz é um pouco delicada. Os exames mostraram uma obstrução no fluxo sanguíneo de um vaso importante do cérebro. Normalmente nós usamos uma medicação como tratamento para o acidente vascular isquêmico, mas não resolveria o problema neste caso. Precisamos atuar dentro da artéria para ajudá-lo.
O Doutor Sampaio usou um modelo de plástico do cérebro para explicar melhor a doença. Olhei atentamente para o objeto e tentei assimilar as informações. A ideia de que Luiz seria submetido a uma cirurgia pareceu-me estranha. Quase não consegui formular uma pergunta.
— Ele vai ser operado agora?
— É importante agir o mais rápido possível para impedir danos irreversíveis ao cérebro.
A sua voz estava tranquila, mas tudo me soava assustador. Diante do meu silêncio, o médico continuou:
— Como é um quadro que exige esse tipo de intervenção, chamei a Doutora Herrmann para assumir o caso. — Ele apontou para a mulher sentada à mesa. — Ela é uma excelente neurocirurgiã. Eu a escolheria para me tratar se estivesse no lugar do seu marido.
Pensei em falar que Luiz não era meu marido, mas, diante dos fatos, deixei essa bobagem de lado, voltando-me para a Doutora Herrmann quando ela começou a falar.
— Será um procedimento minimamente invasivo. Nós vamos fazer uma punção na região da virilha para inserir um cateter e avançar pela artéria até atingir o ponto exato de obstrução. Então o remédio vai ser aplicado diretamente no local. Conversei com o Luiz. Ele está lúcido e entendeu a situação.
Enquanto a médica descrevia os riscos do procedimento e outros detalhes técnicos, comecei a entender as possíveis consequências da doença. Ela se calou e esperou a minha reação.
— Luiz é o meu melhor amigo, mas acho que agora eu sou a família dele. Posso vê-lo antes do procedimento?
O Doutor Sampaio releu a ficha médica, sem graça, e a Doutora Herrmann levantou-se rapidamente, andando em direção à porta.
— Claro. Venha comigo. Vou te levar até ele.
Caminhamos lado a lado por um longo corredor. Ela me observou por um instante e perguntou em tom pensativo:
— Você e o Luiz se conhecem há muito tempo?
— Sim. Faz uns quinze anos.
— Ele vai precisar do seu apoio. Este é um momento de grande ansiedade para o paciente.
Chegamos a uma sala enorme, repleta de equipamentos. Deitado em uma maca, Luiz abriu os olhos ao me ver e chorou. Toquei-lhe delicadamente nos cabelos e segurei a sua mão.
— Ah, não chore, meu querido.
Apesar de também estar nervosa, tentei acalmá-lo.
— Conversei com a médica. Você vai ficar bem.
A intenção era transmitir confiança, mas a minha voz soou assustada. Ele apertou a minha mão, com os olhos aflitos. Uma enfermeira tocou-me no ombro de leve.
— Precisamos que a senhora aguarde na sala de espera.
Abracei Luiz e prometi ao seu ouvido que iria rezar pela intercessão de Nossa Senhora de Lourdes. Antes de sair, vi a Doutora Herrmann rodeada por outros profissionais e acenei-lhe com a cabeça.
A sala de espera era ampla, iluminada, repleta de poltronas e mesas. Liguei rapidamente para minha mãe e relatei o ocorrido. Ela lamentou e prometeu invocar a força divina. Em seguida, avisei as pessoas próximas ao Luiz. Elas ofereceram apoio, mas eu estava sozinha naquela sala. Em São Paulo, eu conhecia apenas a turma do mestrado e não era realmente íntima de nenhum deles. Luiz era o meu único amigo na cidade e ele não estava ali para me abraçar, como já fizera inúmeras vezes.
Tomei um café da máquina do corredor e afundei em uma das poltronas. Na parede ao meu lado, um grande relógio movia os seus ponteiros lentamente. Na outra ponta da sala, uma parede espelhada abria uma vista para os prédios da região.
Depois de morar em muitas cidades, Luiz estava feliz em São Paulo. Ele costumava me chamar para apreciar o entardecer na varanda do apartamento, mas esse convite não me empolgava. Ver o sol se pôr sobre a paisagem paulistana parecia sem graça e triste. Naquele momento, contudo, quando o fim da tarde de sábado cobriu de rosa o aspecto cinzento dos prédios, senti o tom melancólico e doce da cidade, com as luzes acendendo e os carros trafegando na avenida, e finalmente compreendi a beleza que o encantava.
— Juliana?
A voz da Doutora Herrmann despertou-me desses devaneios, e eu quase pulei da poltrona ao levantar-me.
— Ele está na sala de recuperação. Conseguimos desfazer a obstrução.
— Graças a Deus!
Enxuguei as lágrimas com a ponta dos dedos. Ela olhou-me com preocupação e sugeriu de maneira gentil:
— Acho que você também precisa descansar. Amanhã vai ser possível visitá-lo na UTI.
Eu a abracei. Simplesmente pus os meus braços ao redor dos seus ombros e a puxei para mim. Não sei por que fiz isso, mas, àquela altura, eu me sentia em frangalhos e não estava muito racional. Ela ficou um pouco desconcertada e sorriu. Afastei-me, sem graça, e disse:
— Desculpe. Eu não quis...
— Não, não peça desculpas. Eu entendo.
— Obrigada.
O apartamento estava triste e silencioso. Nina veio me receber na entrada e subiu no móvel da sala. Gatos são tão espertos. Não conseguimos enganá-los.
— Luiz fez um tratamento e vai ficar um tempo no hospital. Vamos manter as coisas em ordem do jeito que ele gosta, ok?
Ela me encarou longamente com os seus olhos enormes. Alisei os pelos da sua cabeça.
— Você está com fome? Venha, vou colocar a sua comida.
Minha mãe também gostava do sábado, porque ela e meu pai saíam para passear. Ela amava estar com muita gente, reunindo parentes e amigos em torno de si, e meu pai a acompanhava com alegria. Antes da minha mudança para São Paulo, como eu ainda morava com meus pais, eles tentavam me envolver nesses programas, mesmo quando eu queria apenas ficar em casa lendo um livro ou vendo um filme. Sem se importar com as minhas objeções, meus pais diziam que uma pessoa tão jovem, com menos de trinta anos, não podia recusar um passeio para ficar sozinha em casa.
Luiz concordava com eles. Ele culpava as perseguições de Jonas, meu ex-namorado, pelo meu comportamento mais introspectivo. Jonas não havia aceitado o fim do nosso relacionamento, e as nossas discussões tornaram-se cada vez mais constantes. Com um tom exaltado, Luiz dizia: “As brigas com esse cara estão te destruindo e vão apagar o teu brilho”.
Era um exagero, mas Luiz nunca perdera o talento dramático que tinha na adolescência, quando sonhava em ser ator. Com esse talento, ele me convencera de que uma mudança para a capital paulista era a única maneira de fugir dos conflitos com esse ex-namorado. Apesar dos seus exageros, Luiz sabia ser persuasivo, pois muitas vezes tinha um sexto sentido para prever o desfecho das situações.
O toque do meu celular acordou Nina do seu cochilo sobre a cadeira. Olhei para o visor, que indicava um número desconhecido, e hesitei antes de atender.
— Alô? Juliana?
— Doutora Herrmann? Aconteceu alguma coisa?!
— Não, não se preocupe.
— É porque imaginei que a senhora estava...
— Não precisa me chamar de senhora.
Essa última frase foi dita como um pedido gentil e bem humorado.
— Pode me chamar de Ellen. Eu estou te chamando de Juliana.
— Sim, é verdade. E essas atitudes muito formais nem combinam comigo.
Pensei que Ellen não tinha ouvido, porque demorou a falar.
— Liguei para saber como você está se sentindo agora.
— Mais calma. Nina e eu estamos tentando nos entender aqui sozinhas.
— Nina?
— A gata de Luiz. Ela está me observando com as orelhas em pé para descobrir quem é a pessoa ao telefone.
— O que ela quer saber?
— Imagina. Não dê espaço para essa gata. Ela é terrível.
Ela riu e perguntou de maneira espontânea:
— Quer jantar comigo? Acabei de sair do hospital.
— Tenho certeza de que eu estragaria a sua noite. Ainda não tomei banho e estou com a mesma roupa suja que usei o dia todo.
— Isso é bom, porque eu estou do mesmo jeito.
— Desculpa. Seria realmente bom sair para jantar depois de tudo o que aconteceu, mas estou sem ânimo. Podemos marcar algo quando Luiz estiver melhor?
Ellen se calou, e eu me arrependi de ter recusado o convite.
— É que eu não queria sair e ver pessoas estranhas hoje.
— Eu entendo. Claro. Marcamos em outra ocasião.
— Você quer vir aqui em casa? Prometo que a minha comida é boa.
— Sim, eu acredito. E adoraria conhecer a Nina.
Parei para avaliar os ingredientes disponíveis na geladeira. Nina acompanhou a minha movimentação e ergueu os olhos interrogativamente. “Convidei a Doutora Herrmann para jantar, e não temos nada aqui para servir”, respondi. Vasculhei os armários. A campainha tocou no instante em que decidi fazer o prato mais simples.
Ellen parecia bem diferente sem a roupa do hospital. Usava uma blusa rosa e uma calça azul. Assim, vestida casualmente, ela tornava-se mais jovial, quase adolescente, com os cabelos caindo sobre a testa.
— Oi.
— Eu trouxe vinho. — Ela exibiu uma sacola. — Na dúvida, comprei de dois tipos.
Nina passeou entre as suas pernas e cheirou os seus pés.
— É a maneira dela de dizer “seja bem-vinda”.
Ela colocou a sacola sobre a mesa e se abaixou para pegar Nina no colo. Surpreendentemente a gata permitiu o chamego sem arranhá-la. Até gostou do carinho. Aproveitei esse momento de descontração e expliquei:
— Acho que vou te frustrar. Não tenho muitos ingredientes aqui. Você está com muita fome? Posso pedir alguma coisa pelo delivery.
— Não precisa. Eu não como muito nesse horário.
— Nesse caso, vou te servir a minha melhor omelete à francesa.
Nina cansou do chamego, e Ellen a pôs no chão antes de me seguir até a cozinha. Ouvi a sua voz às minhas costas quando ela entrou.
— Adoro omelete. Minha mãe sempre fazia para mim.
— Não faz mais?
— Não. Na verdade, ela já faleceu.
Fechei a porta da geladeira bem devagar antes de me virar.
— Desculpe. Falei sem pensar. Não tive a intenção.
— Imagina. Não se desculpe por isso.
Apontei para uma cadeira na bancada da cozinha.
— Pode sentar ali enquanto eu faço.
— Podemos colocar o vinho para gelar um pouco?
— Claro. Eu esqueci. Sou meio avoada.
— Você trabalha com gastronomia?
— Não, sou professora.
— E qual é a sua área de ensino?
— Sou pedagoga. Trabalho com alfabetização de crianças.
— E como é?
— Mas você disse isso com uma pontinha de tristeza agora.
Refleti um instante antes de responder.
— Foi? Não estou em sala de aula no momento. Vim fazer um mestrado aqui em São Paulo. Os meus alunos estão no Recife.
— Então você é de Pernambuco?
— Sim. Não dá para perceber pelo meu sotaque?
— Não é tão óbvio. Além disso, fiquei em dúvida sobre o estado.
— Oxe! Sou de lá mesmo. Só a gente fala assim.
— Oxe...
Voltei-me para encará-la. Ellen reagiu com delicadeza.
— Acho um sotaque muito bonito. É doce e forte.
Desviei os olhos, envergonhada, e mudei de assunto:
— Ficou pronto. Você pode pegar as taças nesse armário ao seu lado e trazer o vinho?
Enquanto ela colocava as taças, arrumei os pratos na mesa.
— Espero que você goste.
— Parece delicioso.
Contive a minha satisfação, pois temia que o sabor não correspondesse à expectativa. Ellen abriu o vinho e compartilhou uma lembrança, como se falasse para si mesma.
— Minha mãe era fã de uma escritora inglesa que dizia algo sobre a boa ideia de combinar omeletes e vinho.
Aceitei a taça que ela me serviu e esperei, ansiosa, enquanto Ellen provava um pedaço da omelete.
— Muito bom! Acho que você pode investir nessa área também.
Disfarcei o meu sorriso tomando um gole de vinho.
— Esse vinho é bom. Eu não conhecia. Luiz adora vinhos e sempre compra algum. Eu raramente o acompanho. Quando o levei ao hospital hoje, pensei que ele seria medicado e agora estaria fazendo piada sobre o ocorrido.
— Sim, eu imagino. Hoje foi um dia de sorte para o Luiz, porque ele recebeu o tratamento adequado de forma rápida. E as condições clínicas dele são favoráveis à recuperação.
Ellen falou em tom sereno para diminuir a minha preocupação. Ponderei sobre as suas palavras. Obviamente ela compreendia a situação bem melhor do que eu. Distraída por esses pensamentos, eu a ouvi perguntar sobre o curso:
— Qual é o tema do seu mestrado? Começou agora?
— Comecei no ano passado. É sobre o uso da arte na alfabetização infantil.
— E como funciona?
Tentei expor de maneira sucinta as minhas experiências envolvendo teatro, desenho e música nas atividades com os alunos, mas, interessada, ela me fez várias perguntas sobre as crianças, a escola, as minhas aulas no curso e o meu projeto de dissertação.
— Fiz apenas um rascunho. Preciso rever alguns pontos com o meu orientador nos próximos meses, porque volto ao Recife em julho e vou escrever a dissertação lá mesmo.
Ela apontou para um quadro na parede.
— É de um filme do Almodóvar, não?
— É, sim. Luiz é um grande fã. Um artista fez essa pintura a pedido dele. É Antonio Banderas em uma cena de A Lei do Desejo. Você já viu esse filme?
— Sim, vi alguns filmes dele. Gosto do cinema espanhol.
— Luiz e eu nos conhecemos em um cinema do Recife que exibia filmes europeus.
— Isso foi em que época? Quando vocês se conheceram?
— No fim dos anos oitenta. Eu tinha uns quinze anos.
— Então você era uma menina precoce que gostava de filmes europeus?
— Precoce? Não. Apenas meio cômica. Nessa época, eu estudava francês e queria ser diferente, meio intelectual. Minha mãe falava “você nunca vai casar se continuar desse jeito, Juliana”, “ninguém vai te querer”, “nem o Raul Seixas aceitaria casar com você”.
Ellen gargalhou e disse:
— E, mesmo assim, você não cedeu?
— Claro que não. Minha mãe é uma dessas católicas bem melodramáticas, sabe? Aprendi com meu pai a não ceder nem confrontar diretamente.
— Ela aprova a sua relação com o Luiz, um fã assumido do Almodóvar?
— Minha mãe o vê de outra forma. Ela o considera uma pessoa profundamente espiritual.
Ellen assentiu e olhou novamente para o quadro na parede. Para esclarecer melhor, eu prossegui:
— Luiz é muito religioso, devoto de Nossa Senhora de Lourdes, então eles se entendem.
— E você? Também é uma moça católica?
— Sou, mas não do tipo carola.
— Continua uma menina divertida e diferente?
— Quem me dera. Agora sou apenas uma simples professora. Antes eu queria conhecer a América Latina inteira.
— É um projeto bem interessante.
— Até queria ser dessas pessoas que largam tudo e fazem isso, mas perdi o meu ímpeto aventureiro.
— Mas pode me chamar se algum dia você for, que eu vou junto.
Essa afirmação soou bastante sincera, e eu refleti se deveria fazer isso mesmo. Ela começou a retirar os nossos pratos da mesa.
— Não, Ellen. De jeito nenhum. Você é minha convidada.
— Você fez o jantar. Eu lavo a louça. Nada mais justo.
— Não tem cabimento.
— Claro que tem. Acho que é quase bíblico: “se não cozinhar, lave”.
Não a detive, pois não soube como reagir. Ela rapidamente ensaboou todos os utensílios. Curiosa, eu perguntei:
— Você costuma fazer isso? Parece muito experiente na função.
— Sempre. É proibido deixar a pia suja lá em casa, e todos cumprem à risca.
— Engraçado. Não sei por que imaginei que você morava sozinha.
— Moro com os meus irmãos.
— E seus irmãos também lavam louça?
— Sem dúvida.
— Seria ótimo apresentá-los à minha família. Eles acham que os homens possuem uma deficiência cognitiva para certas tarefas básicas.
Ellen terminou e pegou o pano de prato no suporte sobre a pia.
— Meu Deus, nem pense em fazer mais nada!
Segurei as suas mãos para impedi-la. Ela parou, constrangida, e eu a soltei. Tomei um susto quando Nina passou por cima dos meus pés. Ellen deu alguns passos para sair da cozinha e falou em tom de despedida:
— Acho que é melhor eu ir embora. Obrigada pelo ótimo jantar.
— Eu que te agradeço. Você me salvou de um fim de noite melancólico e deprimente.
Paramos na porta. Ela girou a maçaneta, mas se deteve.
— Amanhã a sua visita ao Luiz vai ser à tarde?
— Sim. Você vai estar lá?
— Não, domingo é o meu dia de folga. Boa noite, Juliana.
Após a sua saída, corri até a varanda para vê-la entrar no carro e partir.
— Ela é uma pessoa muito legal. Podemos até nos tornar boas amigas. Quem sabe?
Nina levantou a cabeça e me julgou.
— Sim. Você também, claro. Nós três.
Fim do capítulo
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