A Escolha por Luz Araújo
8 Entre Feridas e Recomeços
Capítulo 8 - Entre Feridas e Recomeços
(Zayah)
Naquele dia, Nayla não falou muito.
Apenas disse que já enviaria o currículo... e sumiu no meio da rotina. Zayah não estranhou. Cada uma tinha sua vida, seu tempo. Mas, mesmo assim, sentiu falta das conversas.Tentou não pensar muito.
Arrumou suas coisas - a câmera, a roupa de treino - e saiu. Como de costume, foi primeiro para a academia. Precisava descarregar a mente, gastar a energia que insistia em se acumular dentro dela.Depois, ao sair, fez o que mais gostava.
Sentou em uma praça em frente à academia.
O lugar era tranquilo. Árvores altas, um lago ao fundo, pessoas passando... vida acontecendo. Zayah pegou sua câmera e começou a fotografar.As folhas se movendo.
A água refletindo o céu.
Os detalhes simples que quase ninguém reparava.
Fotografar, para ela, era mais do que um hobby... era um refúgio.
Assim como cozinhar.
Zayah sempre teve sonhos. Já teve um restaurante, na sua cidade natal. Um sonho que construiu ao lado de quem, na época, achava que era a pessoa certa.Mas não era.
Com sua ex, Paula, ela viveu quatro anos de algo que parecia amor... mas nunca foi. Zayah gostava dela, sim. Se importava. Mas amor... nunca sentiu de verdade.E, mesmo assim, ficou.
Ficou pelas tentativas.
Ficou pelo sonho.
Ficou pelo restaurante que ainda estava crescendo.
Enquanto isso, Paula a traía.
Com outras mulheres.
Sem esconder.
E quando Zayah confrontava... vinha a violência.
Palavras duras.
Culpa jogada sobre ela.
E, às vezes... agressões.
Depois, o pedido de perdão.
E Zayah... perdoava.
Porque acreditava que precisava daquilo pra continuar. Que o sonho valia o esforço. Que, de alguma forma, as coisas iam mudar.Mas não mudaram.
E um dia... ela cansou.
Cansou de ser traída.
Cansou de apanhar.
Cansou de carregar algo que não era amor.
E, finalmente, escolheu a si mesma.
Deixou tudo para trás.
Sete meses depois, aceitou o convite do irmão e veio para Curitiba, decidida a recomeçar. A viver diferente. A viver melhor.Sentada ali na praça, com a câmera nas mãos, Zayah pensava em tudo que tinha passado...
E percebeu.
Ela era forte.
Mais do que imaginava.
E, sem perceber, pensou em Nayla.
No encontro.
Na conversa.
No jeito dela.
Um sorriso surgiu, leve, espontâneo... como aquele que não precisa de motivo.
Zayah se levantou e seguiu para o trabalho.
O dia foi intenso.
Muitas ligações, muito movimento, clientes, demandas... quando percebeu, já estava exausta.No fim do expediente, pegou o celular para ver a hora.
E então viu.
Uma notificação de Nayla.
E, sem conseguir evitar...
sorriu.
(Nayla)
Naquela manhã, Nayla acordou como sempre fazia.
Pegou o celular, abriu um vídeo no YouTube e colocou uma palavra de Deus para ouvir. Era seu ritual. Sua forma de começar o dia em paz, de se fortalecer antes de enfrentar o mundo.Enquanto a mensagem tocava, ela fazia sua rotina.
Se arrumava.
Organizava suas coisas.
Respirava fundo.
Era ali que ela encontrava equilíbrio.
Depois, pegou o celular novamente.
Abriu o WhatsApp.
E mandou:
- Bom dia...
Para Zayah.
E saiu para trabalhar.
No caminho, como sempre, seus pensamentos vieram.
A vida nunca tinha sido fácil.
Desde criança, cresceu em meio às brigas dos pais. Dentro de casa, falava-se muito de Deus... mas as atitudes nem sempre refletiam aquilo. E isso sempre a fez pensar diferente.Nayla acreditava em Deus.
Mas do seu jeito.
Sabia que errava. Sabia que pecava. Mas, no fundo, acreditava que um dia ainda mudaria tudo isso.Ainda adolescente, conheceu o pai dos seus filhos.
E ali começou outra fase difícil.
Traições.
Discussões.
Idas e vindas.
Até que, um dia, decidiu ir embora.
Sozinha.
Grávida do terceiro filho.
Quando o bebê nasceu, deixou ele e o filho do meio com sua mãe, para tentar construir uma vida melhor. Mas o mais velho, com apenas sete anos, não quis se separar dela.Ficou.
E Nayla fez de tudo.
Trabalhava como podia. Corria atrás de qualquer oportunidade. Muitas vezes, passava fome... mas nunca deixava faltar para o filho.E ele sabia.
- Mãe, a gente divide... - ele dizia.
Mas ela nunca deixava.
Porque amor de mãe... é assim.
Ela fazia de tudo pelos três.
Sempre que podia, ia ver os outros dois.
Até que, um dia... a vida parou.
Seu filho sofreu um grave acidente.
E não resistiu.
Aquilo destruiu Nayla.
Ela voltou a morar com a mãe, porque não conseguia ficar sozinha. Teve um colapso. Sua mente tentou se proteger... e ela perdeu partes da memória daquele período.E, como se não bastasse...
Um mês depois, o pai dos seus filhos também faleceu.
Um homem que pouco esteve presente... mas que, ainda assim, fazia parte da história.
Nayla teve que se reconstruir.
Pelos filhos que ainda estavam ali.
Ela não teve escolha.
Precisava ser forte.
E foi.
Correu atrás dos seus sonhos. Estudou, se formou... mas não conseguiu oportunidade na área. Foi então que encontrou um novo caminho.A maquiagem.
Se dedicou. Estudou. Pesquisou. Aprendeu.
E cresceu.
Não só como profissional... mas como pessoa.
No salão onde trabalhava, conheceu Jéssica.
E, mais uma vez, entrou em uma relação.
Oito meses de idas e vindas, brigas e traições.
Até que sua mãe decidiu ir para Curitiba.
E Nayla viu ali uma saída.
Um recomeço.
Longe de tudo aquilo.
Mesmo sabendo que, no fundo... aquele sentimento também era algo que ela lutava para entender. Algo que, na visão dela, não era certo.Mas ainda assim... sentia.
Durante o trabalho, perdida nesses pensamentos, percebeu que não tinha respondido Zayah.
Pegou o celular rapidamente.
- Já mando o currículo...
Foi o que respondeu.
E o dia seguiu.
Corrido. Cheio. Intenso.
No fim do expediente, já mais tranquila, pegou o celular novamente.
Pensou por alguns segundos.
E então digitou:
- Amanhã não trabalho... não quer vir tomar um vinho comigo à noite?
Um leve sorriso apareceu em seu rosto.
E ela enviou.
Sem saber...
que, mais uma vez, estava prestes a mudar tudo.
Fim do capítulo
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