Capítulo 1

Capitulo 1

de O MAR DE PEDRA, por Alkssa45

Tamanho do texto
539 palavras373 leituras2 comentários

PRÓLOGO

O erro de Kyriakos Stavro foi acreditar que o poder termina onde a vida termina.

Ele morreu como viveu: cercado de médicos, advogados e silêncio. Nenhuma oração verdadeira. Nenhuma despedida honesta. Apenas a eficiência fria de quem sempre confundiu controle com eternidade.

Deixou ilhas. Plataformas. Contratos. Cifras grandes demais para serem sentidas.

Mas nada disso era o legado.

Kyriakos legou método.

E método sobrevive à carne.

Homens como ele não precisam permanecer vivos para continuar mandando. Basta que alguém herde o gesto, a lógica, a ausência de culpa. Basta que alguém continue chamando crueldade de estratégia.

Na pequena ilha do Mediterrâneo, nada mudou de nome quando ele morreu.

Mudou apenas de mãos.

As mesmas casas. Os mesmos muros. O mesmo mar — azul demais para ser inocente. Um mar que não levava nada embora. Apenas observava. Guardava. Endurecia.

Damon Stavro sempre soube disso.

Leu o testamento e reconheceu o pai não pelas palavras, mas pela intenção. Aquela cláusula não organizava bens. Organiza pessoas. Cinquenta e cinco por cento não era um número — era uma ordem disfarçada de herança.

Damon sentiu o velho ódio subir, familiar, corrosivo. Não o ódio simples, explosivo. Mas aquele mais perigoso: o que nasce da lucidez. Ele não chorou o pai. Nunca chorara. Chorou a certeza de que Kyriakos ainda tentava decidir o destino de todos, mesmo enterrado.

Cleon, o primogênito, leu o mesmo documento com outro olhar.

Para ele, o testamento era coerência. Justiça natural. O mundo funcionando como sempre funcionou. Quem tem poder manda. Quem não tem, aprende a obedecer. Cleon não herdara apenas ações — herdara o desprezo absoluto pela vida alheia. E isso, Kyriakos ensinara bem.

O silêncio de Cleon não era luto.

Era cálculo.

Eiriene leu por último.

Não porque fosse a menos importante — mas porque sempre fora tratada como se fosse. Ao terminar, não sentiu raiva imediata. Sentiu algo mais profundo e mais perigoso: compreensão.

Ela entendeu antes de todos que o império não precisava ser governado para continuar ferindo. Bastava existir. Bastava o veto. Bastava impedir o movimento, travar escolhas, congelar o futuro. O poder mais eficiente não grita. Paralisa.

Eiriene fechou o documento com as mãos firmes.

Não herdara nada.

Mas também não devia nada.

Entre os três irmãos, ali se estabelecia um embate antigo e irreversível:

Cleon acreditava que o mundo deveria continuar como sempre foi.

Damon acreditava que o mundo merecia ser destruído antes de se repetir.

Eiriene acreditava que o mundo só mudaria se alguém tivesse coragem suficiente para rearranjar as peças — mesmo que o custo fosse alto demais.

Anos depois, em salas envidraçadas no Brasil e na Grécia, o sobrenome Stavro ainda era pronunciado com cuidado excessivo. Como se dissesse respeito. Como se dissesse medo. Como se o morto ainda escutasse.

Enquanto isso, longe da ilha, duas mulheres cresciam à margem dessa herança.

Uma acreditando que ensinar era uma forma de cuidar do mundo.

Outra acreditando que controlar o mundo era a única forma de sobreviver nele.

Elas se conheciam desde sempre.

Mas nunca haviam se visto de verdade.

Ainda.

Porque histórias como essa não começam com amor.

Começam com medo, rancor, cálculo e escolhas impossíveis.

E só depois — se houver coragem suficiente —

o amor ousa entrar.

Fim do capítulo

Publicidade
Conversa

Comentários

2
Z

Zanja45

05/02/2026 às 08:23

Quem são essas duas mulheres? 

A

Alkssa45 06/02/2026 às 03:43

Oi!!!
No decorrer da leitura voce visualiza quem são. Melinda e Sofia .
Bjs!!!!
A

Alkssa45 06/02/2026 às 03:43

Oi!!!
No decorrer da leitura voce visualiza quem são. Melinda e Sofia .
Bjs!!!!
A

Alkssa45 06/02/2026 às 03:43

Oi!!!
No decorrer da leitura voce visualiza quem são. Melinda e Sofia .
Bjs!!!!
A

Alkssa45 06/02/2026 às 03:43

Oi!!!
No decorrer da leitura voce visualiza quem são. Melinda e Sofia .
Bjs!!!!
Informar violação das regras