voltei, voltei, voltei <3
Capitulo 35 - Será que agir mal?
~ POV CAMILA ~
Depois de toda cena feita pela minha namorada ciumenta, ela veio me dá banho, confesso que estava um pouco incomodada, eu tinha algumas marcas do que tinha acontecido comigo no passado, e fora as marcas que eu mesma me causava naquela época, para amenizar a dor de tudo que vivi e daquilo também que não vivi por escolhas dos meus pais, e hoje tê-la assim, tão cuidadosa comigo, tentando me deixar o mais confortável possível, me trazia inseguranças comigo mesma, pois eu não sabia até onde todo esse trauma iria passar ou se realmente um dia fosse passar.
Mas, como tinha prometido a mim mesma, eu vou me abrir para esse amor, vou deixá-la cuidar de mim, mesmo que lá na frente não seja nada disso que eu esteja esperando da gente, mas, para ter certeza vou precisar viver.
Após o banho, me deixou completamente cheirosa e arrumada, comecei a brincar que estava linda, ela me acompanhou, e ficamos conversando durante a manhã, ela foi me atualizando sobre a semana, sobre o projeto, como estava a empresa, apesar que, mesmo no hospital eu estava tendo acesso ao meu celular e eu criei um plano/sistema, que era alimentado diariamente pelos funcionários com as atividades do dia, as demandas, os projetos, e praticamente todos os e-mails eu ou a Patrícia estava em cópia, então, muita coisa da empresa eu estava por dentro devido a isso, e eu gostava, eu queria saber todos os detalhes e saber como estava funcionando para poder ter mais controle.
Ao decorrer do dia o médico foi fazer a minha última avaliação e nos dando a única notícia que eu queria receber naquele momento que era a minha alta, eu já estava de saco cheio naquele hospital, queria voltar a minha rotina o mais rápido possível e depender das pessoas assim estava sendo muito difícil pra mim, já que sempre eu mesma quem cuidava de mim.
E ao receber a notícia do meu médico, me assustei com a informação da substância, e mais ainda pela Alicia saber e não ter comentado nada comigo, me deu uma desculpa que sinceramente achei bem fraca, independente se a gente se conhecia a pouco tempo, era algo que fazia parte da minha saúde, confesso que fiquei extremamente incomodada com essa atitude dela, e tentando entender por que ela não tinha me informado.
O médico chegou na sala para dá o resultado junto com a minha alta e algumas recomendações de cuidado pós operatório.
- Oi meninas, ansiosas para ir pra casa? – Ele entra brincando com nos duas.
- Ah, com certeza, to entediada nisso aqui, Dr. – Disparei imediatamente pra ele.
- Imagino minha querida, então vamos lá, o resultado saiu e como já desconfiava sobre a substância, de fato ela foi detectada em seu sangue em grande quantidade, a substância era forte e os sintomas mais prováveis seria desmaios, convulsões, delírios, entre outros. E foi exatamente o motivo do seu desmaio no banheiro. – Estávamos assustadas com a notícia e ele continuou. – Você me notificou que não faz uso de drogas, certo?
- Não Dr, não uso nenhum tipo de drogas e nem faço uso de medicamentos. – Eu estava bastante exaltada.
- Tudo bem minha querida, mas, por esses tempos tinha andado em baladas, locais onde seu copo ficaria vulnerável?
- Não Dr, não ando em baladas e os barzinhos que frequento a minha bebida não fica à disposição de outras pessoas.
- Certo, também pela quantidade eu descartaria essa hipótese, pois, parecia substâncias corriqueiras, onde você está ingerindo sempre.
O médico continuou a explicar sobre a substância e passou tanta coisa pela minha cabeça no momento, tentei entender quem poderia estar fazendo isso, sendo que nunca dou acesso a ninguém, muito menos em bares, ou qualquer coisa do tipo.
- Baby, você está bem? Se quiser conversar estou aqui. – A Alicia tentou puxar assunto
- Sim, estou bem, mas tentando juntar as peças, está muito estranho esse resultado.
- Você pode imaginar o que seja?
- Alicia, na crise que Gustavo teve dias atrás a médica me perguntou se as medicações dele estavam sendo feita corretamente. – Eu a olhava fixamente.
- Sério? E por que não tinha me dito nada sobre?
- Não sei, só sei que tem algo estranho em tudo isso que está acontecendo ultimamente nas nossas vidas, e eu já posso desconfiar de quem seja.
- Como assim Camila? – Ela me perguntou preocupada.
- Não quero falar disso agora, podemos ir?
- Como assim não quer falar, se trata da minha vida também, você está me deixando preocupada. – Percebi que ela ficou irritada, mas, eu apenas ignorei sua exaltação.
- Fique tranquila, deixa eu colocar os pontos nos i que te explico tudo.
Nem dei a chance dela falar mais nada, estava ansiosa para ir pra casa, colocar minha rotina e meus pensamentos em ordens.
Quando deixamos o hospital, o vento batendo no meu rosto não trouxe alívio, trouxe alerta, era como se o mundo inteiro tivesse mudado de textura: mais duro, mais perigoso, menos confiável.
Dentro do carro, o silêncio pesava, eu observava tudo, o jeito que Alicia segurava o volante, a forma como ela olhava para os lados, até a maneira como respirava parecia diferente, não porque ela tivesse mudado…, mas porque eu tinha mudado.
Eu não estava mais apenas vulnerável, estava em risco, aquela substância não surgiu do nada, ela não apareceu sozinha no meu corpo, alguém colocou, e se alguém colocou, alguém esteve perto o suficiente para fazer isso.
Quando chegamos em casa, o ambiente que sempre me trouxe conforto agora parecia estranho. A porta se fechando atrás de nós soou como um aviso, meu coração acelerou e, por um instante, pensei em todas as possibilidades: quem entrou aqui, quem mexeu nas minhas coisas, quem teve acesso à minha rotina. Era tudo estranho, como se eu estivesse entrando em um local que não me pertencia, eu estava me sentindo mal, angustiada, desconfiando de todo mundo, daquelas pessoas que conviviam comigo há anos e mais uma vez me fez voltar ao passado, em quem confiar e porque confiar?
- Você está muito quieta… - Alicia disse, pousando a bolsa no sofá.
Eu percorri o olhar pela sala, como se esperasse encontrar algo fora do lugar.
- Quietude é quando a gente confia. O que eu estou sentindo agora é desconfiança. - Ela franziu a testa.
- Camila…
- Não, Alicia. - Me virei para ela, séria. - Eu preciso entender uma coisa. Como alguém conseguiu colocar aquilo no meu organismo sem que eu percebesse? - Ela ficou em silêncio.
- Quem teve acesso a mim nesses últimos dias? - continuei. - Quem entrou na minha casa? Quem ficou perto do Gustavo? Quem esteve aqui quando eu não estava?
- Você está achando que… alguém fez isso de propósito?
- Eu não estou achando. Eu tenho certeza de que não foi acidente.
Minha voz saiu firme, apesar do turbilhão dentro de mim, eu estava com medo, mas era um medo lúcido, um medo que raciocinava.
- Você devia ter me avisado antes sobre esse parecer dos meus exames. - Eu a encarei. - Não depois, não quando o médico já chega com resultado, onde tudo está acontecendo.
- Eu não queria te preocupar, eu não sabia como lhe falar ou perguntar… - ela disse baixo.
- Você me preocupa quando esconde coisas de mim. - Respirei fundo. - Eu não posso ser protegida sendo mantida no escuro, isso não é cuidado, é vulnerabilidade. - Ela se aproximou.
- Camila, eu só tentei…
- Tentou me poupar, e acabou me colocando em risco. - Minhas mãos tremiam. Não de raiva, mas de consciência. - A partir de agora, eu preciso saber de tudo, cada detalhe, cada estranheza, cada suspeita, e se algo estiver fora do lugar, você me fala, não importa o quão pequeno pareça. - Ela assentiu lentamente.
- Prometo.
- Promessa não é suficiente quando se trata da minha vida… e da sua.
Andei pela casa, observando portas, janelas, objetos, tudo parecia normal demais. E isso era o que mais me assustava.
- Eu não confio mais em ninguém. - falei quase num sussurro. - Nem em quem sempre esteve perto.
Ela se aproximou de mim por trás, mas eu dei um passo à frente.
- Não é sobre você especificamente… é sobre tudo, sobre todo mundo.
Alguém cruzou uma linha, e quando isso acontece, a gente deixa de ser ingênua, apesar que essa é a palavra que nunca fez parte da minha vida.
Pela primeira vez desde o acidente, eu não me sentia frágil, me sentia desperta.
- Eles erraram comigo, Alicia. - Virei para ela, os olhos firmes. - E agora, eu vou descobrir quem foi.
Peguei a bolsa que estava no sofá e fui direto para o quarto, não para descansar, para me armar emocionalmente.
Ver meu irmão depois de tudo aquilo não seria simples, Gustavo sempre foi meu ponto fraco, e se alguém tivesse usado ele, se alguém tivesse encostado nele para me atingir… eu não sabia se estava pronta para ouvir.
- Vou falar com o Guga. - avisei, já no corredor.
- Agora? Você acabou de chegar, está com roupa de hospital, toma um banho antes e tenta relaxar para falar com ele com mais calma … - Alicia tentou ponderar.
- Justamente por isso, eu preciso olhar nos olhos dele, preciso entender quem fez isso com ele e agora está fazendo comigo.
Abri a porta do quarto devagar, ele estava deitado, com o tablet no colo, quando nossos olhares se cruzaram, ele abriu um sorriso.
- Mama…
Aquele sorriso quase desmontou toda a minha postura firme, quase.
Me aproximei e sentei na beira da cama, alisando de leve seu cabelo.
- Como você tá, meu amor? Eu estava morrendo de saudades. – Abracei ele com toda a força possível que eu conseguia depositar naquele momento.
- Melhor. Eu estava com saudades, mama, por que você demorou tanto? - Ele me observava com atenção. - Você tá estranha… - Sorri de canto.
- Estranha não, eu estava dodói, no médico, me cuidando. – Realmente esses dias internadas me fizeram perder uns belos kg.
O silêncio se instalou por alguns segundos, eu precisava ser cuidadosa, o Gustavo não podia sentir que estava sendo interrogado, mas eu precisava de respostas.
- Guga… nesses dias que eu fiquei no hospital, quem ficou mais aqui em casa com você? - Ele pensou um pouco.
- A Cida… a Alicia… a Juci… e teve o pessoal da fisioterapia. - Meu coração deu um salto.
- Alguém diferente? Alguém que você não conhecia?
- Não… acho que não. - Ele franziu a testa. - Por quê? - Respirei fundo.
- Só quero entender tudo que aconteceu enquanto eu não estava aqui. - Ele ficou sério, na verdade, não entendia por que das perguntas.
Logo após distraiu com tablet, ainda tentei fazer mais perguntas, só que sem sucesso, ele não respondia mais, apenas queria me mostrar o que estava fazendo, me chamando pra desenhar e mostrando os desenhos que tinha feito nos dias que eu estava ausente.
Saí do quarto com passos firmes, fui direto para o meu e a Alicia estava lá, organizando a minha mala que eu tinha trago do hospital, mesmo com tudo acontecendo, ela sabendo que eu estava chateada, aquela mesma a Alicia antes de tudo acontecer estava ali, tão cuidadosa, e tentando ser o mais gentil possível comigo.
- Você acha que fizeram algo com ele também… - ela disse, em tom baixo.
- Eu não acho. Eu tenho quase certeza.
Logo após sai do quarto e comecei a andar pela casa como se estivesse mapeando o território, cozinha, área de serviço, armários, medicamentos, tudo precisava ser revisado. A Alicia viu a movimentação e logo veio atras de mim, preocupada e pedindo para que eu repousasse conforme orientações médicas, mas, ignorei cada palavra dita por ela.
- Quem tem a chave dessa casa? - perguntei sem olhar para ela.
- Eu… a Cida… você… e… — ela hesitou.
- E quem mais?
- Eu não sei Camila, como vou saber quem mais tem a chave de sua casa, estou há pouco tempo aqui, sei o mínimo e aquilo que você me permitiu saber – Senti as palavras dela saírem no fio de raiva, como se tivesse guardado isso dentro de sí..
O silêncio que caiu entre nós era pesado, quase sufocante.
- Alicia, eu preciso que você pare de confiar nas pessoas pelo afeto que sente por elas. - falei firme. - Quem tenta nos destruir não chega com cara de inimigo. Chega com sorriso. -ela respirou fundo.
- Você tá diferente…
- Eu estou acordada. - Me aproximei dela. - E você precisa acordar comigo. Porque se mexeram comigo… se mexeram com o meu irmão… isso não é mais só um mistério. É uma guerra silenciosa. - Alicia segurou minha mão.
- E você vai fazer o quê? - Olhei para a casa. Para o corredor. Para o quarto de Gustavo.
- Vou observar. Vou fingir normalidade. Vou deixar quem fez isso achar que venceu.
E quando baixar a guarda… eu vou descobrir.
A noite caiu pesada, densa, como se o ar dentro daquela casa estivesse mais grosso, cada barulho parecia um aviso, cada estalo da madeira, cada ruído vindo da rua me deixava em estado de alerta, eu nunca tinha sentido a minha própria casa como um território desconhecido antes, era como se alguém tivesse invadido não só o espaço físico, mas a minha segurança, a minha história.
Fui até a cozinha e comecei a abrir armários, gavetas, olhando remédios, vitaminas, qualquer coisa que pudesse ter sido usada como meio. Alicia me observava em silêncio, sem ousar interromper.
- Você acha que alguém aqui dentro…
- Eu acho que alguém muito próximo. - cortei. - Porque só quem é próximo não levanta suspeita.
Andei até a bancada e peguei um copo, coloquei água, mas não bebi. Fiquei olhando para ele por alguns segundos, até pousá-lo de volta, intacto.
- Nem água eu consigo mais beber sem pensar duas vezes. Olha o que fizeram comigo. - Alicia se aproximou.
- Eu tô do seu lado, Camila.
- Eu sei. - suspirei. - Mas, a partir de agora, estar do meu lado também significa aguentar a parte feia disso tudo. - Ela assentiu.
- O que você quer que eu faça? - Finalmente levantei o olhar.
- Quero que você observe, em silêncio, quero que continue agindo normalmente com todo mundo, não confronte ninguém, não demonstre desconfiança. Quem fez isso precisa achar que está seguro.
- Isso é perigoso…
- Não é mais perigoso do que já foi. Eu já estava em risco sem saber. Agora, pelo menos, eu sei.
Fui até o quarto e peguei uma pequena caixa onde guardava documentos e algumas anotações pessoais. Abri sobre a cama, como se estivesse começando uma investigação. A Alicia me seguia pela casa, sem me dar um espaço, um momento a sós comigo mesma, e isso estava me incomodando, mas, eu não podia simplesmente pedir para que se afastasse.
- Horários. Rotina. Quem esteve aqui. Quem ficou sozinha com o Guga. Quem mexeu na cozinha. Quem teve acesso aos meus remédios, às bebidas, às comidas. - Alicia me observava, impressionada.
- Você está pensando como uma policial…
- Não. Estou pensando como alguém que sobreviveu a uma tentativa de algo muito pior. - Sentei na cama, respirando fundo.
— Eles erraram porque acharam que eu era fraca, que eu não perceberia, que eu apenas adoeceria e pronto. - Fechei os olhos por um instante. — Só que agora eu não sou mais só uma vítima, eu sou uma ameaça para quem fez isso. - Alicia se aproximou lentamente e sentou ao meu lado.
— Eu tenho medo de te perder nessa escuridão… - Abri os olhos e encarei-a.
— Eu tenho medo de perder o Gustavo. Medo de perder a minha própria vida sem nunca saber quem me tirou o chão. Se eu tiver que atravessar essa escuridão pra proteger quem eu amo, eu atravesso. - Ela segurou minha mão com força.
— Então nós vamos atravessar juntas.
Um silêncio firme se instalou entre nós. Não era mais um silêncio de medo. Era de decisão. Olhei para a porta do quarto do meu irmão, depois para o corredor, depois para a janela.
— Eles estão mais perto do que imaginam… — murmurei. — E eu vou provar isso.
Naquela noite, eu não dormi, eu vigiei.
Fiquei andando pela casa por horas, abrindo e fechando portas, observando detalhes que antes passariam despercebidos. O problema é que meu corpo não acompanhava a velocidade da minha mente, a cada passo mais rápido, a cada movimento brusco, uma pontada surgia na lateral da cabeça. Primeiro fraca, quase ignorável, depois insistente, eu tentei disfarçar.
Alicia estava na sala, sentada, fingindo mexer no celular enquanto me observava pelo reflexo do vidro da estante. Eu sentia o olhar dela em mim, mas me recusava a parar.
Entrei na área de serviço e comecei a mexer nos produtos de limpeza, como se ali pudesse encontrar alguma pista absurda. Foi quando a tontura veio de uma vez, segurei no tanque com força, sentindo o chão oscilar.
— Não agora… — murmurei.
Meu coração disparou, o suor frio escorreu pela minha testa, a visão ficou embaçada por alguns segundos, como se alguém tivesse baixado a luz do mundo.
Respirei fundo, tentando manter o controle.
“É só cansaço. É só o esforço”, eu repetia mentalmente.
Mas não era só isso, meu corpo estava gritando que eu tinha ultrapassado um limite.
Dei alguns passos para trás, mas minhas pernas fraquejaram. Apoiei a mão na parede, sentindo o pulso acelerar de forma irregular, uma dor aguda subiu da nuca até a têmpora, me fazendo fechar os olhos com força.
— Camila? - A voz de Alicia veio de longe, como se estivesse ecoando.
— Eu tô bem… — respondi, mesmo sem ter certeza, e ela apareceu na porta da área de serviço em segundos.
— Você não está. Olha pra você.
Quando tentei endireitar o corpo, a tontura voltou ainda mais forte. Meu estômago revirou e tive que me apoiar nela para não cair.
— Eu mandei você ir com calma… você acabou de sair do hospital…
— Eu não posso parar agora. — falei entre dentes. — Não quando tudo está começando a fazer sentido. - Ela me segurou pelos ombros.
— Seu corpo precisa de tempo, Camila. Você não é indestrutível.
— Eu não tenho esse luxo. — respondi, a voz falhando. — Quem fez isso comigo também não me deu tempo.
Uma fisgada atravessou meu abdômen, me fazendo curvar levemente o corpo. Levei a mão ao local da cirurgia por instinto.
— Está doendo aí? - Assenti em silêncio.
— Você está forçando demais. — ela falou com firmeza, mas a preocupação transbordava. — Se continuar assim, vai acabar voltando pro hospital.
Fechei os olhos por alguns segundos, respirando com dificuldade.
— Talvez seja isso que quem fez isso quer, que eu fique fraca, que eu dependa, que eu não investigue. - Ela me puxou com cuidado até a sala e me fez sentar no sofá.
— Não, quem fez isso quer controle. E você não vai dar isso pra ninguém se se destruir no processo.
A dor pulsava, insistente. Minha cabeça parecia pesada demais para o meu próprio corpo.
— Você precisa descansar agora. Não é uma opção. - Olhei para ela, dividida entre a raiva e o cansaço.
— Só por alguns minutos… — sussurrei e ela segurou minha mão.
— Só por alguns minutos. Mas dessa vez, você vai me ouvir.
Enquanto Alicia buscava um copo d’água e os remédios que o médico tinha passado, eu fiquei ali, afundada no sofá, encarando o teto. Meu peito subia e descia de forma irregular, não só pela dor física, mas por algo muito mais perigoso: um pensamento que eu não queria ter… mas que já tinha nascido.
Tudo começou depois dela.
Antes de Alicia, minha vida era fechada, controlada, organizada.
Eu nunca tinha namorado, nunca tinha deixado ninguém dormir na minha casa, nunca tinha permitido que alguém entrasse na minha rotina, na minha intimidade, na minha vulnerabilidade, o meu mundo era eu e o Gustavo, só.
E, de repente, Alicia chegou… E tudo mudou... Meu coração apertou com esses pensamentos, não porque eu achasse que ela fosse capaz de algo assim, mas porque, racionalmente, era impossível ignorar os fatos. E agora… eu estava envenenada por algo que não fazia ideia de onde vinha.
“Você está ficando paranoica”, pensei. Mas e se não estivesse?
Alicia voltou com o copo na mão.
— Bebe devagar.
Peguei, mas minhas mãos tremiam, não de dor, de conflito.
Observei cada movimento dela: o jeito cuidadoso, o olhar preocupado, a voz baixa, a forma como se aproximava como se eu fosse algo frágil demais para tocar, era carinho.
Mas, naquele momento, também era acesso.
Bebi um pouco da água, mantendo os olhos nela.
— Alicia… — minha voz saiu baixa.
— Oi, amor.
Amor. Aquela palavra ainda mexia comigo, ainda me desmontava.
— Você já parou pra pensar… que tudo isso começou depois que você entrou na minha vida? - Ela congelou por um segundo quase imperceptível.
— Como assim? - Meu coração apertou, eu não queria ferir, mas eu precisava ser honesta com o que estava sentindo.
— Eu nunca deixei ninguém entrar na minha casa, nunca deixei ninguém cuidar de mim, nunca dividi minha rotina com ninguém. — Engoli em seco. — Aí você chegou… e eu me apaixonei. - O silêncio entre nós ficou pesado.
— E agora, de repente, eu estou doente, vulnerável, sem controle, sem saber quem mexeu na minha vida… literalmente. - Ela me olhava, confusa e ferida.
— Você está achando que fui eu? - Fechei os olhos por um segundo.
— Eu estou dizendo que, pela primeira vez na vida, eu tenho que desconfiar de todo mundo. Inclusive de quem eu amo.
Aquela frase me doeu mais do que qualquer ponto da cirurgia.
— Camila… isso é injusto…
— Eu sei. — minha voz falhou. — E é isso que mais dói, porque eu não quero desconfiar de você. Eu não quero que seja você, mas se eu excluir você da lista, eu deixo de ser racional. E eu não posso me dar esse luxo agora.
Ela se afastou um pouco, como se tivesse levado um golpe invisível.
— Eu te amo… — disse, com a voz quebrada.
— E é exatamente por isso que você é perigosa pra mim nesse momento. — respondi em um sussurro. — Porque você é a única pessoa que tem poder de me destruir sem precisar fazer absolutamente nada.
O silêncio caiu como uma sentença. Eu levei a mão ao peito, sentindo a dor apertar ali mais forte que na cirurgia.
— Antes de você, eu só tinha medo do mundo. Depois de você… eu tenho medo de perder você, e isso muda tudo.
A Alicia já deixava lagrimas cair do seu rosto e por um momento comecei a pensar na besteira que eu tinha acabado de falar, tentei me aproximar dela em forma de desculpas, mas, rapidamente ela se afastou e falou.
— Camila, não. — Levantou do sofá indo em direção ao quarto, mas, antes de virar ao corredor. — Eu entendo todo seu sentimento, mas, isso é demais pra mim.
Fiquei observando a mulher na qual pedi em namoro dias atras, a qual eu estava completamente apaixonada, mas, a minha razão ainda era maior que qualquer emoção, e por um momento me questionei: será que realmente eu estou pronta para isso?
Fim do capítulo
Hello pessoal!!
Eu disse que ia voltar, e voltei.
E agora vamos acompanhar o desfecho, porque as coisas vão desandar um pouquinho, mas, prometo que tudo ficará BEM <3
Obrigada a todas que ainda estão aqui pra acompanhar a nossa história.
Peço que nos sigam nas redes sociais, estou sempre postando e comunicando os próximos episodios.
@tokiomaahescritora_
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