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O Natal dos encontros inesperados por caribu

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Palavras: 9388
Acessos: 173   |  Postado em: 19/12/2025

O Natal dos encontros inesperados

Mayara sempre acreditou que o mês de dezembro tem o poder de transformar as pessoas. Conhecia, é claro, aquela concepção de que em geral todos ficam mais bondosos e benevolentes nesta época, mas para ela o problema mesmo era a correria frenética nas lojas enfeitadas – uma maratona que destrambelhava boa parte da população. Muitos embarcavam em seu carro aparentando cansaço e a maioria fazia questão de revelar há quanto tempo estava batendo perna atrás de presentes e preparativos para a grande noite natalina. Aí ela, que se dizia apenas uma reles motorista de aplicativo, esforçava-se para fingir interesse no assunto e esboçar empatia sempre que o tema era este. E dificilmente o assunto era outro nos dias que antecediam o Natal.

Para completar, dezembro ainda tinha aquela mania irritante de vestir a cidade inteira de entusiasmo (o tipo de brilho que Mayara era incapaz de acompanhar), o que só servia para deixar os motoristas ainda mais lentos, apreciando demais o que, para ela, era só trânsito (afinal, luzinha de Natal nem deveria ser considerada atração turística). Nesta época, as praças exibiam árvores gigantescas que piscavam, pulsantes, parecendo ter vida própria; as lojas tocavam versões diferentes da mesma música natalina (todas igualmente desafinadas) e os motoqueiros ainda mais impacientes buzinavam no trânsito caótico, numa tentativa inútil de acelerar o tempo. Nas poucas pausas entre uma corrida e outra, ela observava famílias carregando sacolas enormes, crianças discutindo por enfeites e casais brigando por listas de presentes e itens da ceia (as uvas passas eram sempre as vilãs). Era um espetáculo anual, repetitivo e previsível. E, mesmo assim, de alguma maneira, dezembro sempre dava um jeito de surpreendê-la.

É válido dizer que Mayara não fazia muita questão do Natal. Para ela, a data não passava de um grande evento comercial que, ironicamente, ainda lhe rendia menos corridas por causa do período de férias, num tipo de lembrete luminoso (e barulhento) de que nem todo mundo sai ganhando em dezembro.

Mesmo assim, lá estava ela, presa no fluxo interminável de carros que avançavam devagar demais pela Avenida Paulista, apreciando cada lâmpada piscante como uma obra-prima que precisasse ser contemplada. Aquele sem dúvida era o pior ponto da cidade nesta época do ano, uma vez que a via transformava-se num corredor ornamental que ocupava mais espaço do que deveria. Os enfeites gigantes, com suas renas metálicas, túneis de luz e estruturas que pareciam ter sido montadas por alguém que nunca ouviu falar em mobilidade urbana, roubavam faixas inteiras de tráfego. Resultado: carros espremidos, ônibus disputando centímetros e motoristas reduzindo a velocidade só para gravar vídeos dos pisca-piscas, como se estivessem diante de um monumento histórico em vez de apenas mais uma decoração natalina patrocinada por um banco qualquer.

Mayara suspirou, tamborilando os dedos no volante, numa tentativa de espanar a impaciência. O dia estava quente, abafado, quase pegajoso, e o ar-condicionado parecia querer desistir, na potência máxima. As luzes vermelhas dos freios dos automóveis à sua frente formavam uma fileira contínua, a perder de vista, e um alto-falante na calçada, chato, tocava pela enésima vez a mesma música natalina da Simone, desta vez numa versão exagerada, com sinos, coro infantil e uma flauta que soava como um pedido de socorro.

“É isso”, pensou. “O Natal das pessoas é a minha penitência anual”.

Ela estava prestes a descer a Consolação quando o aplicativo apitou com uma nova corrida, piscando a tela do celular preso no painel. Mayara franziu a testa; o ponto de partida era uma rua estreitinha, quase escondida, numa viela que jurava nunca ter visto antes – logo ela, que conhecia São Paulo como a palma da própria mão. Mas não se surpreendeu porque era o tipo de lugar que, em dezembro, parecia mesmo surgir do nada; a cidade notadamente adorava inventar caminhos extras só para complicar ainda mais seu serviço.

A ruazinha ficava numa área apertada na região nobre da Bela Vista e parecia ter sido encaixada entre os prédios só para cumprir tabela no planejamento urbano, destoando-se completamente do restante do cenário metropolitano. O chão era irregular, remendado em diferentes tons de asfalto, e as paredes grafitadas coloridas refletiam a luz das lojas enfeitadas parecendo neon. Os postes carregavam fios tão baixos que mais um pouco encostariam no teto do carro e enquanto avançava, bem devagar, Mayara ficou com a sensação de que mais um centímetro para o lado e seu retrovisor iria embora, de tão estreito que era o local. Ao abaixar o volume do som para se concentrar melhor, viu que um gato preto a observava de cima de um muro, imóvel, com olhos bem brilhantes voltados em sua direção.

Mas não era só isso. O ar parecia mais fresco ali do que no quarteirão de cima, aparentando ter um microclima próprio, mais próximo do Polo Norte do que do verão tropical brasileiro. Uma brisa leve atravessava o ambiente, contrastando com o calor úmido da cidade. Ao correr pela lateral do carro, o vento fez os enfeites pendurados em varais improvisados balançarem todos ao mesmo tempo, num balé perfeito. Uma música natalina distante tocava de maneira abafada, mas a melodia parecia… lenta demais, numa cadência de disco rodando na velocidade errada. Até o tempo parecia passar mais devagar ali, livre da pressa natalina paulistana.

Enquanto admirava o cenário inusitado e diferenciado, Mayara notou a presença repentina de um aroma diferente, um perfume doce, quase amadeirado, que não reconheceu de onde vinha e que sumiu quando tentou identificá-lo. Havia notas que lembravam açúcar e canela, mas misturadas a algo fresco, como terra molhada depois da chuva (o que era impossível, visto que não chovia há dias). Do nada, um toque cítrico se misturou ao cheiro, lembrando o aroma de uma laranja recém-descascada, desaparecendo no instante seguinte.

De alguma forma que não saberia explicar, a ruazinha respirava (ou assim parecia) e cada inspiração dava a impressão de criar um detalhe novo e levemente fora do lugar, numa transformação contínua que emendava as cenas com algum tipo de barbante mágico enfeitado. Mayara viu um fio de luz piscar onde, segundos antes, parecia apagado; uma sombra mudou de posição sem que nada tivesse se movido; um leve arrastar (talvez folhas, talvez papel) farfalhou atrás do carro, embora a rua estivesse vazia. Uma situação típica de filme de Natal, que ela se recusava fortemente a assistir justamente devido ao excesso de ficção exagerada que essas obras contam.

Mayara reduziu ainda mais a velocidade, quase parando, ampliando a tela do celular para ver o número indicado no aplicativo. Foi então que avistou por cima dos óculos escuros uma figura parada bem na esquina: uma mulher pequena, franzina, usando um gorro verde exageradamente pontudo e uma jaqueta cintilante que parecia ter saído de uma vitrine temática. A princípio, pensou que fosse alguma ação promocional de loja (afinal, dezembro costumava produzir esse tipo de criatura em massa), mas a jovem tinha um ar tão concentrado, tão deslocado e ao mesmo tempo tão… urgente, que fez Mayara franzir o cenho, unindo as sobrancelhas. Era cedo demais para lidar com fantasias, pensou, mas tarde demais para recusar a corrida.

Quando a duende entrou no carro, suave como o orvalho carregado na brisa da manhã, Mayara imediatamente reconheceu o cheiro que invadira o automóvel instantes atrás. Mas o perfume da passageira identificada como Jasmim era ainda mais penetrante e curiosamente diferente, com camadas que pareciam mudar conforme ela respirava, com seus movimentos liberando notas novas, impossíveis de classificar. Antes mesmo que a cumprimentasse, percebeu que a moça, que usava um vestido verde cheio de sinos que tilintavam a cada gesto, definitivamente não era fruto do esgotamento natalino coletivo.

Havia algo em Jasmim que escapava completamente da lógica: o brilho quase imperceptível no tecido de seu vestido, que não parecia refletir a luz, mas emiti-la; a forma como os sinos minúsculos presos à saia rodada tilintavam em um ritmo que não seguia os movimentos de seu corpo; a maquiagem que fazia seu rosto se assemelhar ao de uma boneca e, principalmente, a tensão silenciosa em seu olhar, de quem sabia que estava atrasada para um compromisso importante que não podia, de forma alguma, perder.

A garota deslizou para o banco traseiro com o semblante de quem carrega uma missão secreta e, antes mesmo que Mayara confirmasse o destino, pediu, com a voz musical:

– Por favor, moça, preciso ir até o Cândido Fontoura. Se der para acelerar… o Natal depende disso.

Mayara assentiu com a cabeça, encarando o reflexo das orelhas pontudas no retrovisor. Percebeu que não eram de plástico barato. E nem parecia uma fantasia improvisada. A duende (ou o que quer que fosse) acomodou um envelope no banco e uma caixa dourada no colo, deixando escapar um suspiro que parecia pesar mais do que o fim de ano inteiro.

“Certo”, Mayara pensou, confirmando o endereço de destino no GPS do celular. O percurso de carro até o Hospital Municipal Infantil era de menos de 5 km, perfeitamente possível de ser feito a pé, em trajes e dias normais, mas já tinha passado da fase de julgar o quanto as pessoas se recusavam a caminhar numa cidade grande como São Paulo. Além do mais, em épocas de “vacas magras”, toda e qualquer corrida era sempre bem-vinda, até mesmo as que aparentemente serviam apenas para mudá-la de rota.

Apesar da estranheza, Mayara não fez perguntas num primeiro momento. Preferiu concentrar-se no trânsito, que começou a destravar assim que deixaram a viela – como se as ruas sentissem a presença da pequena criatura no banco traseiro e abrissem caminho para ela.

Logo percebeu que aquilo não era aparentemente fruto de simples sorte, quando observou que os semáforos passaram a mudar para o verde antes mesmo que se aproximassem. As buzinas, que um minuto antes ecoavam estridentes de todos os lados, pareciam agora amortecidas, com o volume abaixado, junto dos outros sons da cidade. E para completar, a temperatura dentro do carro passou a oscilar suavemente, ora refrescando a nuca de Mayara, ora aquecendo suas mãos no volante, acompanhando o ritmo lento da respiração de Jasmim, no banco de trás.

Mayara reparou que até o relógio do painel, sempre tão sincronizado, passou a marcar minutos que não combinavam com a distância percorrida e com o horário previsto de chegada. E, se não bastasse, a cada curva que o carro fazia, um leve tilintar dos sinos do vestido da passageira fazia os postes das ruas piscarem em resposta. De maneira sutil, mas no exato compasso do som, a cidade reagia parecendo envolta num tipo de dança em que ninguém, além de Jasmim, era capaz de contemplar. E bailar.

Pelo retrovisor, Mayara a observou apertar a caixa dourada contra o peito, os dedos envoltos em luvas rendadas que pareciam delicadas demais para a vida real. Ela toda parecia de outra dimensão, para ser sincera, vinda de algum lugar em que só existe bondade ou algo parecido. Assemelhava-se de verdade a um ser encantado, meio deslocado do mundo concreto.

– É presente? – Mayara arriscou, apontando com os olhos para a caixa dourada, pelo retrovisor. Perguntou mais para quebrar o silêncio do que por curiosidade, de fato.

Antes de responder, Jasmim hesitou por um instante, longo o suficiente para que Mayara percebesse.

– Não exatamente… – ela então fala, a voz acompanhada pelo aroma de seu perfume, que se intensificou e suavizou no fim da frase – É algo que precisa chegar às mãos certas antes do pôr do sol.

A resposta fez Mayara querer virar os olhos, mas controlou para não transparecer nenhuma careta no espelho. “Antes do pôr do sol” era exatamente o tipo de frase que ela evitava em histórias de Natal, mas antes que pudesse fazer outro comentário, o celular vibrou com uma notificação de rota e ela desviou o olhar, focando novamente no caminho.

A duende, atrás dela, afrouxou o braço ao redor da caixa, parecendo aliviada por dividir parte do peso (fosse literal ou não). Por um momento, o brilho dourado emanado pareceu se intensificar, mas Mayara culpou o reflexo das luzes ao redor delas. Era dezembro, tudo brilhava demais. E magia só acontece no cinema.

Mas o fato é que Mayara não sabia mais para onde olhar: para a rua, que parecia se abrir inteira diante delas ou para o retrovisor, onde Jasmim mantinha aquele ar sério demais para alguém vestida de verde brilhante.

– Você costuma andar sempre assim… tão arrumada? – arriscou, esforçando-se para aplicar na voz um tom descontraído.

Jasmim desviou o olhar da caixa e ofereceu um sorriso rápido, quase tímido, ao encará-la brevemente.

– Só em serviço.

Mayara abriu a boca para perguntar o que exatamente era “serviço” no currículo de uma duende em dezembro, mas a resposta morreu na garganta quando percebeu um detalhe: os sinos do vestido dela não batiam uns nos outros. Eles se moviam com a naturalidade de algo que tinha vida e vontade próprias, tocando notas curtas e espaçadas, que coincidiam com os carros à frente, acelerando no momento certo, numa sinfonia perfeita. Quase mágica.

– Certo – Mayara murmurou, apertando o volante. Limpou a garganta, antes de continuar – Me diz uma coisa, só para eu entender: isso aí é algum tipo de... tecnologia? – questionou, apontando com a cabeça para o vestido dela.

– Não exatamente – a passageira rebateu, forçando Mayara a mais uma vez não revirar os olhos diante da resposta evasiva.

Jasmim respondia sempre com “não exatamente”. Nada era exatamente coisa nenhuma desde que entrara no carro, mas Mayara era forjada nas microrrelações diárias, quase nunca conseguia as informações completas das pessoas que transportava – e quase nunca se importava com isso. Por este motivo, se calou. Preferiu não ter nenhuma resposta a contar com dados incompletos que só a deixariam ainda mais intrigada e curiosa, pensando naquilo o resto do mês.

O problema é que o trânsito fluido não a deixou mais tranquila. Pelo contrário; a cada quadra, parecia que alguma coisa no ar mudava de densidade, num atravessar de camadas invisíveis de… sei lá, dezembro concentrado. E o mais estranho é que Jasmim parecia perceber cada uma delas. A duende erguia um pouco o rosto, franzia o nariz e os sinos respondiam com um “tlim” específico, num código Morse natalino. A motorista tentou ignorar, mas não conseguiu deixar de pensar que estava carregando no banco de trás algo que não devia estar circulando em vias públicas sem licença especial.

Quando estavam a poucos metros do destino, no último cruzamento, Mayara notou alguns olhares curiosos dos pedestres lá fora, que aparentavam ver mais do que ela conseguia enxergar. Por exemplo, um garoto apontou diretamente para o vidro traseiro e sorriu, encantado, logo depois uma senhora fez o sinal da cruz e até um cachorro começou a uivar, mas num ritmo que combinava com o tilintar dos sinos do vestido da duende.

– Estamos chegando – Jasmim anunciou, com a serenidade de quem comenta a previsão do tempo. Ela apoiou a caixa no colo com mais cuidado, preparando-se para algum tipo de transição importante. Foi então que Mayara notou: o brilho de sua roupa de duende parecia ainda mais forte agora, refletindo luz de lugar nenhum. No mesmo instante, o retrovisor começou a embaçar nas bordas.

Mayara engoliu seco. Ao encostar o carro na área de desembarque do hospital, imaginou que algo explodiria, viraria fumaça ou até mesmo que um portal encantado se abriria diante de seus incrédulos e cansados olhos. Mas a única coisa que aconteceu de verdade foi o ar-condicionado do carro que, após um chiado, decidiu simplesmente parar de funcionar.

O silêncio que imediatamente se instalou dentro do veículo foi seco, quase sólido. Não havia buzinas, não havia pressa, não havia sequer aquele típico burburinho hospitalar que Mayara esperava encontrar do lado de fora. A sensação que teve, embora irracional, foi a de que o mundo havia entrado em pausa. Ou que, sem querer, tinha deslizado para uma versão ligeiramente deslocada da realidade.

Ela desviou o olhar para Jasmim, desta vez encarando-a por cima do ombro, procurando algum comentário espirituoso, alguma explicação absurda que fosse, mas a mulher permaneceu quieta, observando a entrada do hospital com uma expressão que misturava saudade, orgulho e um tipo peculiar de serenidade que Mayara não soube interpretar. Era bonito, mas também inquietante, como olhar para uma vela prestes a apagar e perceber que a chama nunca teme o escuro.

Do lado de fora, um sopro agitou brevemente a barra do vestido verde de Jasmim, fazendo os pequenos sinos costurados no tecido tilintarem baixinho. Foi um som tão suave que Mayara se perguntou se realmente tinha acontecido ou se era só mais uma dessas sensações estranhas que a presença da duende provocava.

Sem saber onde colocar as mãos, tentou religar o ar-condicionado, ajustou o banco, mexeu novamente no ar-condicionado, que não respondeu. Tudo para disfarçar o fato de que, por algum motivo que não entendia, estava nervosa. “É só uma carona”, ela repetia mentalmente. “Pessoas fantasiadas (ou o que quer que Jasmim fosse) também usam Uber. Magia só existe na ficção”.

No banco de trás, Jasmim não se movia. Apenas respirava devagar, aguardando o instante exato para uma despedida que já estava escrita em algum lugar. Ou aguardava simplesmente o momento certo para mudar de cena.

Finalmente, após alguns segundos, a mulher virou o rosto para Mayara e sorriu. Seu sorriso foi tão gentil que atravessou a desconfiança da motorista, acalmando inteiramente a apreensão que apertava seu coração.

– Agradeço muito pela sua carona, Mayara – Jasmim fala, destravando o cinto de segurança e liberando uma nova onda de seu perfume – Desejo a você um feliz Natal e uma ótima vida.

Ela abriu a porta e uma lufada de ar quente entrou junto com o sol refletido no asfalto, absorvendo o aroma de seu perfume. A diferença de atmosfera foi quase agressiva, com o ar lá fora abafado e pegajoso, sufocado pelo calor do verão, invadindo o interior do automóvel sem ser convidado. Carros passavam distantes na avenida, zunindo sob o sol que também queimava o chão, mas a quietude ao redor conseguia ser ainda mais incômoda que o mormaço irrespirável. Era um silêncio tão intenso que contrastava com o clima natalino, mas combinava com a luz fria da recepção do Hospital Municipal, tão oposta às luzes piscantes e quentes da cidade que agora parecia pertencer a outro país, outro hemisfério, outro dezembro.

Jasmim colocou os dois pés na rua ao mesmo tempo, com firmeza, segurando a caixa dourada como uma extensão do próprio corpo. Cada passo decidido foi acompanhado pelo tilintar suave dos sinos de seu vestido e Mayara a observou com a atenção de quem assiste a um filme, sentindo o suor escorrer pela nuca enquanto abria os vidros das quatro janelas. Embora o calor invadisse o interior do carro, ainda assim não era eficiente para aquecer aquele silêncio estranho, quase duro, que emanava da entrada do hospital e que perdurou por um longo instante.

A porta principal do Hospital Municipal Cândido Fontoura se abriu, revelando a recepção pálida iluminada pela luz fria da recepção. Pessoas caminhavam com passos arrastados, como sombras cansadas, e o chiar distante de uma maca ecoava pelo corredor e chegava até a calçada. Tudo ali tinha um tom esmaecido, parecendo um filme antigo, em preto e cinza.

O cheiro metálico de desinfetante misturado a suor velho criava uma névoa quase palpável em volta do imponente imóvel, impregnando as roupas e grudando no fundo da garganta. O ambiente parecia drenar cores, sugar brilho, transformar tudo em uma neutralidade que beirava a exaustão. E, justamente por isso, qualquer faísca de luz parecia destoar como um segredo milagroso perdido naquele desbotamento.

Jasmim avançou alguns passos e, por um instante, o mundo pareceu se contrair. A caixa dourada reluziu discretamente entre as mãos dela, emitindo uma claridade suave, nada vistosa, mas intensa o suficiente para desafiar o branco opaco das paredes encardidas. Aquele brilho teimava em existir, quase insolente, trazendo consigo uma luz capaz de acender sorrisos nos dias mais cinzentos.

Mayara a observou se afastar, sentindo que aquele pequeno foco de luz caminhava contra a correnteza do lugar. E, embora não fizesse sentido algum, teve a impressão de que, onde quer que Jasmim estivesse indo, alguém ali dentro já estava prestes a respirar um pouco melhor. Ficou alguns segundos contemplando a cena, incapaz de desligar o motor, sentindo a cidade prender a respiração junto com ela. Finalmente, a pequena mulher com orelhas pontudas se virou em sua direção, olhando para trás e acenando com a mão. O gesto durou o suficiente para gravar aquela imagem na mente de Mayara, um instante que parecia simultaneamente pequeno e eterno.

– Vá com cuidado – a duende disse, num sussurro quase musical, antes de desaparecer dentro da luz pálida do hospital.

Mayara ficou alguns segundos apenas segurando o volante, tentando processar a sensação de ter transportado algo (ou alguém) tão fora do comum. Depois da presença intensa de Jasmim, o silêncio agora no carro era quase ensurdecedor. Por isso, se permitiu um momento para poder se recompor, observando o reflexo do sol no painel, na tentativa de processar a estranheza da experiência vivida. Mas, como sempre, o trabalho a lembrou de que a vida real não podia esperar por contemplações mágicas, com uma nova corrida piscando na tela do celular, apontando para um endereço que ao final a levaria para o outro lado da cidade.

– Vamos ver se já consigo pagar meu jantar – murmurou, tentando recuperar a postura.

O embarque aconteceu a poucos metros de onde estava e logo Mayara se encontrou novamente no meio do tráfego, desviando de ônibus, motociclistas e pedestres apressados para o Natal. A nova passageira era uma senhora de idade que gostava de conversar, o que rapidamente fez com que suas lembranças mais recentes logo se dissipassem, dando lugar às cenas mentais que a mulher foi criando com suas narrativas.

Em verdade, Mayara só voltou a pensar na duende quase uma hora depois de deixá-la no hospital, após se despedir da segunda passageira e perceber que Jasmim havia esquecido seu envelope no banco de trás. O pequeno embrulho repousava sobre o couro, quase implorando para ser notado, e Mayara sentiu uma pontada de urgência ao se lembrar das palavras de Jasmim: “o Natal depende disso”.

Rapidamente, puxou o celular do painel e, sem pensar duas vezes, tentou contato pelo número cadastrado no perfil de Jasmim. Mas a ligação nem chegou a completar, caiu direto na caixa postal, naquele tipo de silêncio seco que nos irrita diante das emergências. Zangada, pressionou os lábios e tentou de novo. Nada.

Suspirando, abriu o WhatsApp e digitou rápido: “Seu envelope ficou no meu carro”. Aí ficou olhando para a tela por alguns segundos, na expectativa de ver os dois risquinhos ficarem azuis. Eles não ficaram. A impaciência imediatamente subiu pelo pescoço, quente, insistente. Mayara bloqueou e desbloqueou a tela, na esperança boba de atualizar alguma coisa.

O retorno veio de repente – não como uma mensagem comum, mas como aquelas automáticas que aparecem quando alguém está com resposta rápida ativada. O fundo era branco, simples, sem foto de perfil exibida. A mensagem dizia: “O Natal está em movimento. Siga as luzes!”.

A frase era genérica demais, impessoal demais. Parecia mais uma mensagem de status do que uma resposta, propriamente dita. O que caralh*s aquilo significava?

Sem conseguir imaginar que tipo de charada era aquela, Mayara percebeu que teria que dirigir de volta até o hospital e encontrar a duende, enquanto era tempo. Qual era mesmo o prazo que a mulher havia relatado? Ah, sim, “antes do pôr do sol”... Ao pensar a respeito, Mayara finalmente se permitiu revirar os olhos, em puro desdém. Para quem não gostava de películas de Natal, ela parecia envolvida demais numa trama natalina, correndo com seu carro atrás de uma duende pelas ruas de SP.

O relógio do carro mostrava que ainda tinha pouco mais de duas horas até a noite chegar e, de cabeça, foi recalculando as rotas até o endereço final, desviando dos pontos mais congestionados. O problema é que cada rua parecia mais lenta que a anterior e os engarrafamentos se arrastavam por praticamente toda a cidade. Como se não bastasse, os semáforos agora haviam decidido mudar de cor de forma quase provocativa; de repente, o trânsito deu mostras de querer se divertir com seu dilema, ciente da urgência do envelope no banco de trás e, por capricho, foi enfiando vermelho até onde não cabia mais.

Mayara levou um total de 43 minutos no percurso de volta até o hospital, com a possibilidade de ter recebido pelo menos duas multas no caminho, ambas por excesso de velocidade. Ao chegar ao Hospital Municipal Infantil, estacionou o carro de maneira torta e correu até a recepção, na expectativa de rever Jasmim. Seu coração ainda acelerado pelo trajeto parecia bater no mesmo ritmo das setas do veículo que, na pressa, ela se esqueceu de desligar. Entrou na recepção ofegante, varrendo o ambiente com os olhos, como quem busca uma flor viva em meio ao deserto árido.

Mas o que encontrou foi o local praticamente vazio, preenchido apenas pelo som da televisão da recepção, que reproduzia uma reportagem sobre compras de Natal, com músicas animadas que destoavam do cheiro de desinfetante e do ar pesado do ambiente. Mayara não encontrou por ali nenhuma pequena figura verde, nenhum tilintar de sinos, nenhum rastro daquele perfume exótico; o que viu foi apenas um corredor pálido mergulhado num silêncio característico, quebrado ocasionalmente pelo bipe distante de algum monitor.

Os poucos enfermeiros presentes caminhavam com passos mecânicos, quase coreografados pela rotina exaustiva, sem desviar o olhar de seus prontuários. Uma cadeira de rodas vazia permanecia encostada na parede, com uma manta puída esquecida pendendo de um dos braços, e o enfeite natalino pendurado na coluna (um Papai Noel feito de papelão) parecia observá-la do alto com um sorriso desbotado. Até a árvore de Natal improvisada no canto, feita de garrafas PET, galhos de arame e luzes falhando, parecia pedir para ser desligada.

A sensação que tomou conta de Mayara foi a de ter chegado tarde demais para algo que nem sabia nomear. Sentiu que a magia tinha acabado de deixar o local, e que ela era a única capaz de notar a ausência, já que o mundo continuava girando exatamente igual ao que sempre foi: seco. Frio, em diversos aspectos.

Foi então que ela percebeu que ir até o hospital não seria suficiente para encontrar a duende. O envelope ainda precisava chegar às mãos certas, mas Jasmim claramente não estava mais ali. Como faria para encontrá-la em meio a uma multidão de uma cidade gigante? Cada rua equivalia a um verdadeiro labirinto interminável e o trânsito caótico de dezembro transformava as esquinas em pontos de desencontro. Ou seja, aquela era uma tarefa praticamente impossível, com potencial de se transformar numa missão ainda mais difícil, considerando que Jasmim era do tipo que não atendia ligações.

Enquanto tentava organizar as ideias com a frustração latejando nas têmporas, o celular vibrou dentro do bolso da calça. Ao puxar o aparelho, uma mensagem apareceu na tela, vinda do número de Jasmim. Dizia: “Que bom que o encontrou! Precisei me deslocar, estou na Praça do Pôr do Sol”.

Mayara respirou fundo, num misto de alívio e preocupação. A duende não havia sumido de vez, afinal, mas para encontrá-la de fato teria que dirigir alguns quilômetros até onde ela estava, no bairro Alto de Pinheiros. Puxando o envelope do banco de trás, retomou a direção, determinada a não deixar que o dia terminasse sem que aquilo chegasse ao destino correto. Mesmo sem saber do que se tratava.

O trânsito àquela hora era intenso, típico de dezembro, mas estranhamente nada na cena parecia comum, embora tudo fosse extremamente característico e ao mesmo tempo familiar. Talvez porque as luzes natalinas refletiam no vidro do carro como pequenos sinais piscando sem pressa, acompanhando seu avanço truncado pelas avenidas enfeitadas. Não sabia dizer por que, mas havia algo no ar que tornava aquele trajeto lento menos irritante, o que a impediu de pensar nos possíveis malefícios provocados pelo atraso.

Mayara observou as lanternas dos carros à sua frente cintilando como fileiras de vaga-lumes, guiando um caminho que ela não havia escolhido. Há quanto tempo não via um vaga-lume?

A lembrança veio tão nítida que quase desviou sua atenção do trânsito. Ela então se viu pelos próprios olhos de quando era pequena, correndo no quintal da casa da avó no interior, com os pés descalços afundando na grama fria enquanto o cheiro de café recém-coado e de bolo de fubá quente escapava pela janela baixa da cozinha. As férias e consequentemente os natais tinham esse aroma gostoso, e som de cigarra que ia de manhã até a noite, quando os vaga-lumes surgiam como pequenas estrelas teimosas que voavam só para brincar com ela. Mayara estendia as mãos e eles pousavam por um segundo, às vezes dois, iluminando seus dedos antes de desaparecerem na noite morna. A avó dizia que, na véspera de Natal, cada luzinha dessas carregava um pedido silencioso feito por alguém, mundo afora. Contava ela que alguns eram atendidos, enquanto outros ficavam guardados para mais tarde. Por motivos que não sabia explicar, os desejos da menina Mayara nunca viravam realidade – nem no Natal, nem depois.

Assim como o trajeto que agora não havia escolhido, no passado, Mayara também tomou um rumo que não foi exatamente planejado, quando percebeu, talvez cedo demais, que a magia era incapaz de chegar até ela. Foi essa constatação silenciosa que a obrigou a fazer o que poucas crianças têm coragem: ir atrás de seus sonhos por conta própria, mesmo que isso significasse endurecer e ter que sacrificar o encanto da infância.

Mas longe de sentir-se atirada no fundo de seus dramas pessoais, havia algo naquele entrelaçar do presente com o passado que fazia ecoar uma parte antiga dela, um pedaço importante que julgava ter abandonado, junto com sua meninice. Incapaz de conter um sorriso, Mayara teve a impressão de que as lanternas vermelhas à sua frente começaram a piscar no mesmo compasso daquela lembrança distante. Por um instante, pareceu-lhe ela própria lhe estendia a mão através da cidade, tentando alcançá-la pela via da memória.

Avançando alguns metros na avenida lotada, a cidade pareceu repentinamente mudar de textura ao seu redor. As luzes refletidas no para-brisa tornaram-se mais suaves, quase líquidas, escorrendo pelo vidro, inclusive no lado de dentro. O brilho do dia, antes duro e direto, espalhou-se como se tivesse sido passado por um filtro de Instagram, o que fez com que os reflexos aparentassem estar mais macios, ondulados, de um jeito que fez parecer que o ar estava derretendo. As fachadas dos prédios vibravam numa cintilação leitosa e sombras inexistentes passaram a se mover como pequenos cardumes luminosos acompanhando o carro. Havia algo em tudo aquilo que não podia ser simplesmente coincidência, mas também não era nada totalmente compreensível. A sensação que Mayara tinha era a de resgate. Dela com ela mesma.

Naquele ponto, já podia ver os prédios ao redor da Praça do Pôr do Sol se aproximando, quando tudo foi interrompido de forma brutal. O carro caiu num buraco com um solavanco seco e o impacto duro imediatamente puxou o volante para o lado, no mesmo segundo em que o cheiro de borracha queimada invadiu o painel. Um estalo metálico ecoou até que ela parasse – tra, tra, tra, tra, tra. Pelo retrovisor, viu o pneu estourado e o coração disparou.

Apesar de buzinar e sinalizar com o braço para avisar os carros que vinham atrás, o trânsito seguia pesado e impaciente na Avenida dos Semaneiros. O calor do fim de tarde tornava o ambiente ainda mais hostil, o tempo parecia escorrer entre os dedos e o envelope no banco praticamente pulsava, lembrando-lhe da urgência de Jasmim.

Mayara respirou fundo, puxou o freio de mão e abriu a porta com cuidado, encarando o carro parado no meio da via. Cada minuto perdido pesava, mas ela sabia que não poderia arriscar de danificar o veículo por causa de um envelope de duende. Um suspiro profundo e decidido lhe escapou ao refletir que seria necessário trocar o pneu rapidamente e seguir adiante, custe o que custasse.

Enquanto contornava o veículo para abrir o porta-malas e pegar o triângulo de sinalização, refletiu que o ideal mesmo seria empurrar o carro até o acostamento, o que a fez pensar que aquele era o momento perfeito para um “milagre de Natal” acontecer. Mas Mayara sabia muito bem que as pessoas estavam cada vez mais egoístas e fechadas em seu próprio mundinho, e dificilmente alguém pararia o trajeto só para socorrê-la, ainda que uma quantidade significativa de motoristas tenha buzinado ao passar por ela, reclamando do transtorno provocado.

Foi então que uma motoqueira se aproximou, buzinando como se dissesse algo que Mayara de imediato não conseguiu entender. A mulher tinha um gorrinho de Mamãe Noel preso no capacete, além de adesivos de renas e estrelas, toda temática, e vestia aquelas roupas impermeáveis, apesar de fazer sol. Com um aceno rápido, levantou a viseira e ofereceu socorro, tendo apenas os olhos visíveis e a voz abafada pelo equipamento de segurança:

– Precisa de uma mão aí? Peraí, eu vou te dar uma força – disse, sem esperar por uma resposta.

Mayara hesitou, mas imediatamente percebeu que não tinha muitas opções a não ser aceitar a ajuda. Acenando com a cabeça, viu a mulher conduzir a moto até a faixa ao lado, bloqueando o trânsito com o próprio corpo e acelerando para os carros que insistiam em querer passar. Em poucos instantes, chegaram juntas no acostamento, sem muitos transtornos.

Antes de iniciar a troca do pneu, provavelmente acreditando ser uma tarefa que Mayara não sabia desempenhar, a motoqueira puxou o zíper do macacão, para não sujar a roupa. Ao tirar o capacete, revelou ter metade da cabeça raspada.

Com as sobrancelhas arqueadas de surpresa ao ver o visual ousado da mulher, Mayara não disse nada porque ela logo sumiu de vista, ao se agachar ao lado do carro, tirando o pneu rasgado.

Numa destreza e eficiência que impressionaram, a motoqueira subiu o macaco e desmontou tudo em poucos movimentos. Próximo a elas, o trânsito continuava a rodar lentamente e de maneira ruidosa, mas o gesto inesperado de ajuda (que além de tudo era super ágil) deu a Mayara uma nova dose de esperança. Talvez ainda conseguisse chegar a tempo até o local em que Jasmim estava, não muito longe dali.

– Nossa, não sei nem como te agradecer, eu ia bem trocar esse pneu no meio da via e levaria o triplo do tempo. Que sorte que você passou por aqui bem na hora!

– E olha que essa região nem faz parte da minha rota, hein. Estou achando que foi sorte mesmo – a mulher responde, de maneira descontraída, encarando-a por dois segundos, com o sorriso escondido no olhar.

– Sério?

– Não, não, estou só brincando com você – a motoqueira ri, com duas covinhas se destacando nas bochechas, iluminando o rosto bronzeado pelo sol e os filetes de sardas ao redor do nariz – Passo aqui todos os dias, pelo menos umas três vezes, faz parte da minha rota. Sempre vejo muita gente perder o pneu naquele buraco – ela aponta com a cabeça para o algoz espontâneo de Mayara, que agora teria que desembolsar alguns reais na borracharia.

– Isso porque eu estava de olho, bem atenta... – Mayara resmunga, lamentando o atraso que o contratempo provocaria.

– Tudo bem, essas coisas acontecem. Podia ser pior, veja por esse lado. Já pensou se em vez de não ver o buraco você não vê, sei lá, uma motoqueira bonitona bem na sua frente?

– É... – Mayara volta a resmungar, sem perceber que estava sendo xavecada – Ai, é que parece que sempre que a pressa aperta, o tempo corre contra a gente, né? – ela diz, agachando-se ao lado da mulher, que já apertava os parafusos do estepe – É engarrafamento que surge, é pneu que fura, é...

– Bem-vinda ao meu clube. Eu sei bem como é correr contra o tempo – a estranha responde, com um sorriso bonito, marcado por uma pequena cicatriz no lábio superior, que lhe conferia um charme único. A linha de seu maxilar era bem demarcada, firme e elegante, conferindo-lhe um ar de confiança que se refletia nos movimentos precisos das mãos. Aliás, lindas mãos – Já fiz alguns serviços que pareciam literalmente impossíveis – a motoqueira continuou, sem transparecer uma gota do esforço que fazia – Mas aprendi que seguir o instinto quase sempre funciona, a própria vida dá um jeito de se encarregar a resolver o que a gente não consegue sozinha – ela ergue os ombros, como se não tivesse dito nada demais.

Mayara não respondeu, mas considerou que tipo de intuição deveria seguir quando o serviço em questão era simplesmente encontrar uma duende às vésperas do Natal e, para piorar, numa cidade enorme como São Paulo. No entanto, preferiu não compartilhar os pensamentos, com receio de ser taxada de maluca por alguém que havia acabado de conhecer. E que se dependesse dela, conheceria melhor.

– Tem contratempo que é atalho, sei lá – a mulher prosseguiu, completamente alheia ao que se passava com Mayara. No entanto, as palavras ficaram gravitando na mente de sua interlocutora, procurando um lugar para pousar.

Mayara observou a motoqueira recolher as ferramentas, digerindo aquelas palavras sobre contratempo e instinto, que insinuavam que nem todo atraso era simplesmente um azar.

Antes de partir, ela e a aprendiz de Mamãe Noel trocaram números de telefone e se adicionaram nas redes sociais. Ao se despedirem, as duas firmaram o compromisso de tomarem um café juntas em algum momento oportuno, quando fosse conveniente para ambas, ou “caso se esbarrassem novamente por acaso”. O que era impossível, por isso elas riram.

Com um aceno de agradecimento, Mayara retomou a direção do carro, sentindo a adrenalina agitar novamente seu interior. Inevitavelmente, percebeu que, de alguma forma, a breve interrupção havia alterado seu ritmo. A presença inesperada da motoqueira (que se chamava Tania, sem acento) deixara uma sensação incomum, uma mistura de leveza e estranhamento, após a pressa do mundo ao redor ter dado uma pequena pausa para permitir que aquele encontro improvável acontecesse.

Ainda pensativa, ajeitou o envelope no banco ao lado, lembrando-se da urgência da missão, mas com a cabeça agora um pouco mais desperta para pequenas possibilidades inesperadas que poderiam surgir no caminho. Certamente Tania voltaria à sua mente caso algo ocorresse.

Quando finalmente dobrou a última esquina, Mayara se deparou com a Praça do Pôr do Sol banhada pela prévia dourada do fim de tarde, com algumas luzes das barracas da feirinha temporária de artesanato começando a acender. Crianças corriam entre as árvores enfeitadas com luzinhas de cores variadas, enquanto risadas e o cheiro de pipoca flutuava no ar. Mas, para sua imensa surpresa, ao estacionar e percorrer cada caminho e cada canto da praça, percebeu que não havia nenhum sinal de Jasmim por ali. Nenhum vestido verde cintilante, nenhum tilintar de sinos, nenhum perfume amadeirado que marcasse sua presença. Nada.

O envelope ainda repousava no banco do passageiro, pesado de urgência, e Mayara sentiu um frio percorrer a espinha: a duende já havia partido, deixando apenas um rastro invisível pelo ar, e o dia estava prestes a anoitecer. Foi então que se lembrou de olhar o celular. Entre a troca do pneu e a breve conversa com uma motoqueira cativante, nem havia pensado que poderia perder Jasmim de vista e, ao perceber que isso havia acontecido, imaginou que talvez a duende tivesse deixado alguma pista sobre seu novo paradeiro.

Ao desbloquear o celular, tomada por uma pontada de impaciência, Mayara encontrou uma nova notificação, de alguns minutos atrás. A mensagem de Jasmim era curta e dizia: “Precisei sair, me desculpe, não consegui te esperar. Estou indo para a feirinha beneficente que está rolando no Largo da Batata, me encontre lá”.

Mayara piscou, surpresa e um tanto apreensiva. O novo local não era exatamente longe de onde estava, mas o sol já começava a descer no horizonte, de maneira apressada. Haveria tempo até que finalmente pudesse encontrá-la? Respirando fundo, ajustou o espelho retrovisor enquanto organizava os pensamentos e colocou novamente o carro em movimento, pisando forte no acelerador, sem precisar do apoio do GPS. Aparentemente, sua missão natalina estava longe de terminar.

Conforme avançava, as ruas começaram a se encher de pedestres apressados, tendas decoradas e vendedores ambulantes, cada um disputando os centímetros de espaço público como podiam. Mayara desviava de carros parados, motoqueiros acelerando entre os veículos e até de crianças que corriam despreocupadas, totalmente alheias aos perigos urbanos.

Enquanto acelerava, sentiu novamente o perfume adocicado e amadeirado de Jasmim, quase imperceptível, misturado à brisa que entrava pelas janelas abertas. Foi o suficiente para que seu coração acelerasse já que, aparentemente, a duende não estava tão distante quanto parecia.

Mas logo Mayara viu que nem tudo seria simples porque poucos metros à frente, ao virar a esquina, um caminhão de entrega travou a via por onde trafegava, forçando-a a frear bruscamente e engatar a ré, enquanto motoristas impacientes buzinavam atrás dela. O atraso parecia pequeno, mas o relógio não esperava nem um segundo e o envelope ao seu lado lembrava-lhe constantemente da urgência de entregá-lo à Jasmim antes que o sol se escondesse.

Frustrada, olhou pelo espelho retrovisor para os motoristas que ainda a xingavam como se ela tivesse alguma responsabilidade pelo caminhão parado, mas não teve tempo de rebater porque um estrondo metálico a fez virar a cabeça instintivamente para a esquerda. Ao seu lado, ao tentar ultrapassar o caminhão, um carro bateu de frente com outro que vinha no sentido contrário, espalhando estilhaços de vidro e gritos de passageiros e transeuntes. Por sorte (ou destino), ela não arriscou a mesma manobra; caso contrário, Mayara é quem teria se envolvido na colisão.

Ao voltar o olhar para o espelho, o que viu desta vez foram os seus próprios olhos, arregalados de surpresa com o que parecia ser uma espécie de livramento. De quantos outros prejuízos já teria escapado, desde o início daquela busca pela duende?

Ao embarcar no pensamento, Mayara se lembrou das palavras de Tania: “tem contratempo que é atalho”. Naquele instante, a frase pareceu fazer mais sentido do que antes e aí cada desvio e cada atraso inesperado agora parecia parte de um mesmo fio invisível que a conduzia até Jasmim, ou algum tipo de escudo. Isso explicaria, de certa forma, todos os pequenos contratempos que tivera até ali, como o pneu furado, o caminhão parado e o acidente evitado. Pareceu-lhe que a própria duende providenciava intervenções diante dos obstáculos, protegendo-a.

Apesar do trânsito caótico, das buzinas incessantes e do ar-condicionado quebrado... embora o dia parecesse dedicado a uma passageira com o mesmo nome da flor que sua avó cultivava em seu jardim perfumado, de alguma forma Mayara era guiada por alguma força, algo sobrenatural. A duende parecia ter traçado um caminho seguro atravessando o pandemônio por onde dirigia, utilizando algum tipo de magia que servia à missão que transportava ao seu lado. Sim, porque a esta altura, Mayara já se convencia de que o conteúdo do envelope de fato carregava o próprio Natal dentro dele.

Foi então que um pensamento inesperado surgiu: seria ela digna de algo assim? Uma simples motorista de aplicativo, cética quanto a qualquer tipo de Natal, mereceria ser protegida e conduzida por uma força bondosa, de maneira consciente? Teria o encanto que acompanhava Jasmim sentido seu esforço em vencer dezembro e escolhido ajudá-la? Ela, uma “Grinch metropolitana”?

Mayara piscou, confusa, tentando medir o peso do que sentia. Caso fosse de fato uma interferência natalina, aquilo era justo? Ou realmente se tratava de uma mera coincidência que a mantinha inteira até ali?

A sensação era desconcertante porque caso fosse a primeira opção, ela claramente estaria recebendo uma recompensa por algum comportamento exemplar do passado, já que no presente, embora se esforçasse para sempre agir como uma “boa menina”, era honesta em admitir que não ligava para festas, enfeites ou cânticos – e julgava um pouco quem gostava. E, caso fosse a segunda opção, o acaso ainda parecia travestido de milagre de Natal, de qualquer forma.

Todavia, não terminou o raciocínio porque logo o caminhão se pôs a andar e ela pôde retomar o caminho, tentando racionalizar a ideia de que, por mais improvável que fosse, algo (ou alguém) cuidava para que ela pudesse chegar a tempo. E mais do que isso: para que chegasse viva no fim do ano; ilesa, do que quer que pudesse colocá-la em risco.

Respirando fundo, Mayara apertou o volante, na tentativa de reorganizar os pensamentos, que se atropelavam, uns sobre os outros. Os semáforos, as ruas, os carros e os pedestres apressados agora pareciam pequenos figurantes, e os obstáculos eram só algo que o dia, ou talvez a própria magia de Jasmim, impunha para medir sua determinação. Quem sabe, o universo, em sua confusão natalina, conspirasse para que ela não desistisse e para que o envelope chegasse às mãos certas, dentro do horário estipulado.

E foi justamente quando se permitiu um sorriso tímido ao distensionar os ombros que Mayara observou o céu escurecer de repente com nuvens bem pesadas, junto de um vento molhado que antecipou o temporal que se aproximava.

As gotas começaram a pingar, primeiro leves, depois mais firmes, martelando a carroceria ao som de pequenos tambores. Sem ar-condicionado e com as janelas abertas, o interior do carro se encheu rapidamente de umidade e do cheiro típico de asfalto quente molhado. Mayara apertou o volante com mais força, sentindo a água escorrer pelo braço enquanto fechava os vidros tentando enxergar pelo para-brisa parcialmente embaçado. O calor e seu nervosismo dentro do carro aceleraram o processo, forçando-a a tirar a camiseta para passar sobre a superfície úmida à sua frente, recuperando parcialmente a visão da via e dos carros que se aproximavam.

Rapidamente, o trânsito transformou-se em um emaranhado de veículos que carregavam motoristas nervosos em meio a pedestres correndo para se proteger da chuva. Os semáforos passaram a durar uma eternidade, porque mesmo depois que o verde aparecia, ninguém avançava por causa do tráfego carregado. Uma cena de dias chuvosos que Mayara conhecia bem, com pneus molhados se arrastando no asfalto e buzinas formando uma cacofonia ao ritmo da cidade.

Mas, no meio daquela confusão climática, algo estranho aconteceu. Entre a chuva e o barulho da cidade, Mayara percebeu um ritmo quase imperceptível, um compasso que parecia o tilintar dos sinos do vestido de Jasmim, levando-a à sensação de que a duende ainda estava ali, no banco de trás, guiando-a de forma invisível, indicando o caminho que deveria percorrer – inclusive mental, visto que apesar da tensão que a fez redobrar a atenção, seus pensamentos no momento estavam calmos, quietos e tranquilos. Mayara então se perguntou se, afinal, estava mesmo diante da magia do Natal ou se apenas sua cabeça buscava conforto no impossível.

Neste instante, a cidade transformou-se em um borrão de luzes refletidas no asfalto molhado, enquanto ela seguia em frente, a passos de formiga, movida por uma mistura de instinto, urgência e algo que a impedia de desistir desde que Jasmim entrara no carro, deixando para trás seu misterioso envelope. O tempo escorria rápido, junto com a chuva que insistia entrar pela pequena fresta da janela, que precisou permanecer aberta enquanto a tempestade durou.

Ao cessar de repente, deixando apenas pequenas poças que refletiam as luzes da cidade como pequenos espelhos cintilantes, Mayara sentiu o carro deslizar. Abrindo novamente os vidros, um ar refrescante, quase palpável, a envolveu e o congestionamento se dissolveu em segundo plano, após a cidade criar um corredor só para ela.

Entre os reflexos dos faróis, uma trilha de luz surgiu no chão, quase imperceptível, brilhando ao apontar para onde deveria seguir – um caminho que GPS nenhum jamais ousaria indicar, por ser improvável, embora incontestavelmente eficiente. Sem questionar, lembrou-se da resposta automática do WhatsApp de Jasmim (“o Natal está em movimento. Siga as luzes”). Mayara seguiu e em pouco menos de dez minutos, entre prédios enfeitados e árvores decoradas, avistou o Largo da Batata surgir à sua frente. Enquanto estacionava e vestia a camiseta toda amassada, tentou afastar o aperto no peito provocado pela ideia de não conseguir encontrar a duende, mais uma vez.

O local estava completamente lotado, com artesãos e clientes, inclusive muitas crianças, envolvidas numa verdadeira algazarra. Juntos todos compunham uma sonoridade típica de feira. E de fim de ano. Mayara varreu a praça com os olhos apreensivos, ajustando também o olfato, para o caso de o perfume de Jasmim se mostrar primeiro. A mulher não podia estar longe, mas ainda assim parecia brincar de esconde-esconde. Com um movimento rápido com o braço, o relógio revelou a hora: faltavam cinco minutos para o pôr do sol.

Sentindo a angústia apertar a garganta, neste momento uma nova trilha se abriu no chão em luzes piscantes que aparentemente mais ninguém parecia enxergar. Sem titubear, Mayara a seguiu, na esperança de finalizar a missão a tempo, caminhando por entre barracas e desviando das pessoas e suas sacolas de compras, seguindo o rastro que tornou-se mais e mais brilhante, conforme avançava. Em poucos instantes, alguns metros adiante, se deparou com um espaço todo enfeitado com temas de Natal e, no centro, viu alguém vestido de Papai Noel, numa fantasia bastante realista, diga-se de passagem, com tons de vermelho que imediatamente chamaram sua atenção, parecendo brilhar com algum tipo de luz própria.

O cenário assemelhava-se a um pequeno palco cuidadosamente decorado para a ocasião: árvores artificiais cobertas de neve falsa, guirlandas coloridas penduradas nas laterais e pequenas luzes piscando em cadência, refletindo o chão molhado. Em meio a uma gigantesca árvore, bonecos e pequenos arbustos enfeitados, o local exalava um cheiro gostoso de chocolate e biscoito, enquanto crianças corriam de um lado para outro, encantadas com a magia que parecia concentrar-se naquele ponto específico da praça. A fila para falar com o “bom velhinho” estava gigante, mas ninguém ali parecia se importar por ter que esperar. Aparentemente, valia tudo para ter um momento a sós com o representante oficial do Natal.

Ao pensar brevemente a respeito, Mayara reparou que o homem fantasiado de Noel olhou diretamente para ela, como se a percebesse ali, em meio à multidão, tão deslocada, apertando o envelope entre as mãos parecendo proteger algum segredo natalino. Seu gorro vermelho, impecavelmente alinhado, terminava numa ponta perfeita com o pompom branco reluzente, combinando com a barba grisalha cuidadosamente penteada. Sem dizer uma palavra, ele sorriu para ela, até que a visão de Mayara fosse completamente tampada pela silhueta de Jasmim, que surgiu do nada.

O coração de Mayara imediatamente se acelerou. A duende, finalmente à sua frente, parecia brilhar com uma luz própria que não vinha das decorações. Seu vestido verde cintilava sob a iluminação das pequenas lâmpadas, lembrando pequenos vaga-lumes, e os sinos presos à saia tilintaram suavemente após ser notada. Jasmim a olhou diretamente nos olhos e, por um instante, o tempo desacelerou; a praça inteira calou-se diante daquele tão esperado encontro.

– Cheguei a tempo – Mayara diz, em tom de cumprimento, tentando equilibrar a excitação com a respiração ainda acelerada pelo alívio de conseguir encontrá-la.

A duende inclinou a cabeça, com uma expressão divertida estampando o rosto, avaliando a motorista com os olhos brilhando.

– Sim, e trouxe o nosso envelope – Jasmim responde, após uma breve olhada em direção ao céu, pintado de rosa-escuro. Ela então estendeu a mão, enquanto o pacote praticamente pulsava com uma urgência discreta e silenciosa.

Neste momento, a fila, as crianças correndo, o cheiro doce de biscoito e chocolate, o perfume e os sinos da roupa de Jasmim, tudo desapareceu da percepção de Mayara. Ali, no centro daquela magia concentrada, só existiam ela, a duende e o pequeno segredo que precisava ser entregue. E que finalmente seria revelado.

– Algumas coisas sabem a hora certa de voltar – a duende fala, num tom enigmático, abrindo o envelope com cuidado.

Em silêncio e notadamente sem nenhuma pressa, a mulher tirou dali de dentro uma cartinha cuidadosamente dobrada, em várias partes. No instante em que o papel tocou o ar, Mayara sentiu o aroma delicioso de café passado na hora misturado ao cheiro quente de bolo de fubá recém-assado, tão vívido que fechou os olhos, sem perceber. Junto dele, vindo de muito longe, um som conhecido se insinuou em sua percepção: o canto contínuo e hipnótico das cigarras ecoou baixinho, como nas tardes quentes do interior.

Foram necessários alguns segundos até que Mayara começasse a reconhecer a letra registrada na mensagem escrita à mão. Não foi imediato; primeiro veio uma vaga sensação de familiaridade, como quando se encontra um objeto antigo numa gaveta esquecida e o corpo reage antes da memória. As curvas arredondadas das letras, a inclinação irregular das palavras, o cuidado excessivo em algumas sílabas e o abandono quase infantil em outras pareciam obedecer a um ritmo conhecido, guardado em algum lugar profundo e silencioso dela.

Mayara reconheceu, antes mesmo de ler, uma tentativa clara de capricho, que demonstrava o esforço de quem escreveu em ser compreendida, desenhando cada palavra com uma atenção exagerada, mas sem conseguir esconder completamente a pressa ou a emoção do gesto. Certas letras se inclinavam mais do que deveriam; outras quase se tocavam, formando pequenas alianças improvisadas no papel. Era uma escrita que denunciava concentração, expectativa... e também certa inocência.

O peito de Mayara se apertou, tomado por uma estranha mistura de reconhecimento e incredulidade. Aquela cartinha estivera guardada a sete chaves por muitos e muitos anos, esquecida não por descuido, mas por necessidade. E agora reaparecia ali, diante dela, literalmente num passe de mágica, exigindo ser vista novamente.

As palavras, simples e infantilmente perfeitas, falavam de férias felizes, de dias longos sem compromisso e do desejo sincero de que sua família tivesse bons momentos naquele Natal de 1987. Não havia pedidos grandiosos nem listas intermináveis de presentes, apenas a esperança sincera de uma criança que ainda acreditava que o mundo sabia ser gentil – pelo menos em dezembro.

Mayara reconheceu cada traço. Aquela carta havia sido escrita por ela mesma, muitos anos antes, quando ainda cabia sentar no chão da sala da avó com as pernas cruzadas, a língua entre os lábios e o cuidado exagerado de quem queria caprichar para agradar Papai Noel.

No final da cartinha, a pequena Mayara se despedia com a mesma frase que, décadas depois, Jasmim lhe oferecera ao sair do carro, quando o passado encontrou uma brecha para retornar ao presente: “Desejo a você um feliz Natal e uma ótima vida!”.

Ao ler aquelas linhas, uma onda de nostalgia a tomou. Mayara notou que, de maneira absurdamente distraída, havia se esquecido da simplicidade e da inocência de seus desejos mais sinceros. E agora, ali, frente a frente com Jasmim, constatava que a magia natalina não se limitava apenas às luzes e decorações: estava também no reconhecimento de tudo o que ela já fora e na lembrança de que, mesmo desacreditada, ainda podia se conectar com a verdadeira essência do Natal. E com a sua verdadeira essência, principalmente.

Jasmim sorri, inclinando a cabeça em sua direção.

– Parece que o seu passado quis te encontrar hoje – a duende fala, com a voz suave – Isso é um lembrete do que realmente importa, Mayara. Não é sobre presentes nem compras… é sobre aquilo que você nunca deixou de ser, mesmo sem perceber. É sobre se resgatar.

Mayara segurou a carta com firmeza, sentindo um calor surgir no peito e abraçá-la por inteiro, de maneira reconfortante. Pela primeira vez naquele dia, compreendeu que a jornada, os desvios e até mesmo os imprevistos tinham um propósito: guiá-la de volta a si mesma, enquanto ainda havia tempo.

Sem dizer mais nada, a duende se afastou, ocupada com seus afazeres de Natal. O som dos sinos de sua roupa só deixou de ser ouvido quando uma buzina resgatou Mayara de volta à realidade. Perto dali, Tania estacionava a moto, após vê-la, sorrindo e acenando em sua direção, numa clara demonstração de que até as pessoas adultas podem ser agraciadas em dezembro. Basta acreditar, mesmo que por um instante, que a magia existe. E que, às vezes, ela surge nos lugares mais inesperados, nos trazendo de volta para nós mesmas.

Feliz Natal!

Fim do capítulo

Notas finais:

 

Querida leitora, grata por mais um ano. Saiba que vc é mto importante para mim e que as histórias não existiriam se não fosse por vc.

A sua leitura é meu melhor presente! S2

Boas festas, bom recesso (caso o tenha) e até 2026!


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Comentários para 1 - O Natal dos encontros inesperados:
Sem cadastro
Sem cadastro

Em: 20/12/2025

" O destino baralha as cartas, e nós jogamos". Arthur Schopenhauer

Autora minha admiração por sua escrita.

Boas Festas! FELIZ 2026!

Abr


Joanna

Joanna Em: 22/12/2025
Oi!


Responder

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NovaAqui
NovaAqui

Em: 19/12/2025

Feliz Natal, Cari!

Obrigada pelos presentes durante todo ano!

Feliz 2026!

Abraços e beijos procê!

Responder

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