Capitulo 1
A primeira vez foi na raiz de uma árvore, encarava o chão incapaz de olhar seu rosto. Você retribuiu o gesto e juntas deixávamos as raízes mais desconfortáveis que nós. Digo primeira vez, mas talvez fosse a negação. No restaurante, então. Paralelamente, próximas, sem árvores, era inaceitável não encarar. Devorava minha alma pelos olhos e eu rebatia para a comida. Engordei alguns quilos, provavelmente. Quando passeamos no parque, a grama estava mais lá que você. Escolhi o verde com orvalho. Macio e confiável. De noite, o escuro criava a obrigação cruel de ver, encontrar qualquer migalha que fosse. Me aproximava, escolhia a boca e seus movimentos expressivos. Perdia algumas palavras, mas ao menos fingia sua falta de retribuição dos meus olhos. O que encarava nesse momento? Depois do “bom apetite” o risoto era vítima dos seus sentidos. Amei cada cogumelo daquele risoto infeliz. Houve momentos em que a comida até fugiu do garfo de tão sentida que estava. O único conforto era o momento do fim —quando os pratos estavam vazios e o corpo pedia silêncio. Nesse instante era quase prazeroso olhar. Desfrutávamos de um prazer tão carnal capaz de nos aproximar no repouso, quando o encosto das cadeiras eram um imã mais forte que nosso tempo ali. Era o olhar sereno de duas barrigas bem alimentadas, com preguiça de qualquer julgamento. E assim, perdíamos mais tempo e partilhávamos a vontade de um próximo restaurante.
Fim do capítulo
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