Outubro, Março, Abril, Fevereiro
17/10/21
Trouxe uma vela, o espelho logo abaixo feito bandeja. Estou de pernas abertas, deitada no
meio apoiada no cotovelo feito criança. Olho pra cima. Alcanço a luz. Apoio o espelho no
chão. Estamos no reflexo com olhos de fogo. “For you meditate” (pra você meditar). Engulo
seco. O contraste do roxo com a pele. As pintas marrons a mostra. A borboleta
delineando a cintura. “Still fits you!” (ainda cabe em você!). Falo num tom de empolgação
quase infantil. Ela diz “yeah…” (é...) e mais um monte de outras coisas enquanto o tecido
delineava o corpo, modelava o branco no fundo tão bege.
Thursday October, before Halloween (Quinta-feira, Outubro, antes do Halloween)
Desejo colocar a natureza embaixo das asas. Proteger cada maça da ventania e beija-flor
pra não resfriar. Ando engolindo tanto sol diariamente que talvez eles pudessem se
esquentar. Viver onde os raios saem todo dia e as frutas são infinitas. Mas talvez a manga,
banana, caqui, graviola, umbu, goiaba, jaca, laranja, limão (não lemon), pequi, cupuaçu
não deixassem espaço para macieira. Gelada que é, ficou só. Alimentando bravos
passarinhos no inverno infinito.
March 23 (23 de Março)
Tentam roubar meu corpo. A propriedade alheia que pode ser tocada, comentada,
questionada, vigiada, mas jamais vista. Cada pedaço meu estremece e o cérebro deseja
agradar, se desculpar, cozinhar. Mergulho no mundo cor de rosa onde injustiças não
existem e preocupações são genuínas, com olhares que rise you36. Penso no alimento
como quem cozinha para a família no domingo. Elaboro pratos onde a bandeira do Brasil
pode quase ser vista.
March 24 (24 de Março)
Na fruteira: Peru, Guatemala, México, Brazil, Venezuela. Não conseguem ver sem ter.
Como assim não posso comer uma manga enquanto a neve cai? E a mesa se faz de
comida dos outros. Cozidas com muito amor, evidentemente. Apesar da audácia de viajar
meses e ainda poder comprar, a fruta sabe. Se vestem de maduras e os olhos daqui, sem
nunca ter visto mangueira, acreditam fielmente na tropicalidade de uma casca verde e um
doce sem cheiro. Mesmo que tentem comprar o mundo e até tenham os dólares suficientes.
Isso não é uma manga.
April 1st (1 de Abril)
Meu último amor durou um rolo de filme e meio livro infantil. Um inverno branco com lago
congelado, hóquei e beijos em camas alheias. Condizente ter começado escondido. Na
noite de natal, ano novo…mas nunca chegamos na páscoa. Dia dos namorados e você me
olhava com sorrisos como alguém anestesiada do sentir. Quando a dor abriu uma brecha da
coxia, se afastou. Só vi o teatro de sombras de quem recusa. De frente lágrimas escorriam,
eu sabia mesmo sem ver. Se atravessasse a cortina estaria ensaiando um sorriso. Pela
primeira vez percebi a incoerência com os olhos. Era brilho de desespero. Do caos de
quem escolhe não cavar- mesmo que ame a terra. Escolheu água ao invés. Mergulhar num
mundo de vegetais, soft, divertido, alegre e ilusório.
25/02/23
Estava frio. Ela usava uma saia e o vento esvoaçava o xadrez na escuridão. Meu vestido
longo era inútil e sentia cada pêlo se arrepiar desesperado. O banco do ponto de ônibus era
de pedra e sentávamos grudadas. Meu buquê de flores secas e frescas estava ao lado. Não
lembro se conversávamos. Meu ônibus chega. Lentamente vai parando e olho as luzes
azuis furando a noite. Abraço seu corpo modelado pelo sobretudo de couro. Olho os seus
olhos me encarando, seu sorriso. Me aproxima num beijo surpresa para nós duas. "Bye"
(tchau), digo e entro no ônibus.
⧫
"And then I would ask myself did she really kiss me?" (E aí eu ficava me perguntando, ela
realmente me beijou?)
Fim do capítulo
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