Capitulo 1. A primeira vez
A primeira vez que a vi, ela não era exatamente uma mulher, mas uma menina, uma bela e espevitada menina em marias-chiquinhas. Eu também era, éramos duas meninas, como se dizia antigamente, mal saídas das fraldas.
Mas a visão dela materializando-se assim, repentinamente em minha frente, furtou um pouco do meu equilíbrio.
Foi no pátio da escola, à hora do recreio. A bola com que brincávamos rolou para longe e eu fui atrás. Abaixei-me e, quando ia pegá-la, duas mãos já o tinham feito. Levantei-me e divisei a figura mais brilhante que eu já tinha visto em toda a minha curta vida de seis anos.
Brilhavam seus cabelos loiros ao sol; brilhava em seus olhos, o mais azul de todos os azuis que eu jamais pensara existir em um olhar; brilhavam seus dentes extremamente brancos, em um grande e alegre sorriso com duas janelinhas na frente, brilhava sua pele clara, bem menos alva e, de longe, mais bela que a minha.
Estaquei pasma, sem movimento, sem pensamento, apenas um pequeno ser de olhos arregalados, admirada com tamanha beleza.
- Pega! - ela me dizia, estendendo-me a esfera colorida de plástico.
Obviamente eu a ouvia naquele momento, porém, a compreensão das palavras perdeu-se, em favor do som melodioso da voz que me atraiu como hipnose de canto sereístico.
As crianças lá atrás aguardavam que eu pegasse a bola para voltarmos à brincadeira e eu ali, atemporal, naquele instante de puro enlevo.
- ... a sua bola...
Foi necessário que ela colocasse a bola nas minhas mãos, que roboticamente obedeceram ao comando visual do gesto dela.
E que as crianças gritassem por mim.
- Anda, Tony, traz a bola!
Peguei a bola e voltei calada para junto dos amigos. Mas me recordei que minha mãe havia sempre me ensinado que se deve agradecer uma gentileza.
Eu não percebi com clareza que usei aquilo como artifício para voltar para junto da loira. Não por malícia, que essa consequência do pecado original nós ainda não tínhamos desenvolvido, trazíamos ainda conosco a pureza da infância, foi apenas por fascínio; eu a queria minha amiga.
Disse aos meus amiguinhos que continuassem sem mim e voltei para perto dela. Ia dizer-lhe um "obrigada".
Mas ela já não estava. Voltei cabisbaixa, porém, retornei à brincadeira.
No dia seguinte, logo depois que entramos na sala de aula e nos encontrávamos todos bem acomodados em nossos lugares e, antes mesmo que a professora propusesse a primeira atividade do dia, ouvimos uma leve batida à porta, que se abriu em seguida. Sim, querida amiga, você que logo imaginou só poder tratar-se da minha recém-conhecida do dia anterior, adivinhou bem. A batida à porta de nossa sala de aula foi de autoria da vice-diretora, que trazia pela mão justamente aquela pequena criatura brilhante.
Tudo o mais perdeu o foco para mim. Sara foi-nos apresentada como a mais nova colega de classe. Demos-lhe as boas-vindas e, assim que a vice saiu, a professora passou a escolher o lugar onde ela se sentaria.
Ah, eu entrei em total estado eufórico/desesperado, visto haver apenas um lugar vago e não era ao meu lado. Mas definitivamente eu devia estar com sorte (ou isso ou era mesmo coisa do destino), pois a professora resolveu remanejar o menino que se sentava comigo para que Sara (ah, doce e brilhante Sara...) sentasse ao meu lado.
Foi como um sonho realizado. Eu não me podia conter, eu não cabia em minha própria pele.
A professora chamava-me formalmente de Antônia, mas Sara pareceu lembrar-se e preferir a maneira como os colegas de classe me chamavam.
- Tony... gostei, parece nome de menino e é bonito. - ela me disse, depois de se acomodar ao meu lado.
Ela tinha razão, meu apelido era estranhamente a versão masculina de Tônia, por conta de um priminho menor que apenas conseguia dizer Tony e a família, achando aquilo engraçado, repetiu até que "pegou" e ficou. Eu, porém, temporariamente esquecida de possuir língua ou a propriedade da fala, sorri bobamente e balancei a cabeça, apenas concordando, sem pronunciar explicação ou palavra. Naquele momento, se ela me dissesse preferir que meu nome fosse Cabeça Vazia por achar mais bonito que o meu nome, eu teria a mesma reação, balançaria a cabeça, concordando com isso ou com qualquer outra coisa que ela me dissesse.
Depois, quando voltei a mim, agradeci-lhe por isso e também pela gentileza de pegar a bola para mim, no dia anterior. Também consegui mais tarde elogiar o nome dela que, para mim, passou a ser o mais belo de todos, por toda minha vida... Sara...
Ah, amiga querida, não enxergue maldade aqui, nem nas outras lembranças que tenho para contar daquela época... éramos tão inocentes, tão puras...
Desde aquele dia, Sara passou a ser o meu principal assunto em casa. Eu contava para minha mãe como tínhamos feito as coisas juntas, e como ela tinha feito parte do meu dia. Lanchávamos juntas, dividindo ambos os lanches que minha mãe e a babá dela preparavam para nós.
É, eu estava mesmo encantada. Eu a defendia de qualquer um que minimamente a provocasse. Um dia, fui parar na diretoria por dar um empurrão e derrubar um menino de uma série à nossa frente, apenas porque ele ousara puxar suas marias-chiquinhas.
Uma vez roubei-lhe um beijo. Encostei minha boca naqueles lábios que pareciam possuir um ímã a me puxar naquele instante inusitado. Estávamos a sós num canto dos fundos do pátio e o fiz rápido, antes que surgisse alguém. Após obedecer àquele impulso, eu me encolhi, assustada com minha ousadia e amedrontada com a possível reação negativa dela, mas também feliz com a sensação do beijo.
Ela? Olhava-me espantada, mãos cruzadas à frente do corpo, olhos esbugalhados, em total espanto.
Não faço a menor ideia dos minutos ou segundos que passaram ali por nós, eu estava suspensa da ação precisa do tempo.
Esperava atônita, com a expectativa da reação da minha dona e juíza.
Ela deixou o ar sair pela boca como se o tivesse segurado por muito tempo. Em seguida seus lábios abriram-se no mais lindo sorriso que a natureza já pensara em compor, a despeito das janelinhas que eram, na verdade, uma graça a mais. Tímido, no início, o sorriso alargou-se aos poucos. Ela se aproximou de mim, balançando as marias-chiquinhas frouxas, deu-me um beijo na bochecha e me pegou pela mão, puxando-me para perto das outras crianças, no pátio da frente, onde entramos na brincadeira coletiva. Ela e eu, guardando "para sempre", nosso doce e puro segredo infantil.
Porém, após meses agradáveis, vieram as férias e, depois dessas, a decepção. Minha brilhante amiguinha não voltou para iniciar o ano letivo conosco. E aprendi, bem cedo, a lição da saudade...
Fim do capítulo
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