Cena 3
Providencialmente todas as luzes se apagaram. Ficou muito escuro e eu não conseguia enxergar nem a um palmo do nariz. Não enxergava nada, nada.
Providencialmente? Talvez nem tanto assim. O breu ali era muito assustador, porque diferentemente de quando a Companhia de Energia Elétrica S.A. da sua cidade te sacaneia e você está deitada em sua cama no seu quarto, aquele lugar era um lugar que nem mesmo existia de verdade. Veja, era um corte de energia num lugar que desafiava o sentido lógico das coisas. Percebe o nível da coisa? O script estava com um rombo do tamanho de um caminhão! É verdade que a autora de ficção deveria ter recursos para lidar com fatos imprevisíveis que brotavam do roteiro, mas... e quando a própria autora em carne e osso estava enfiada em um misterioso argumento? E pior ainda, no escuro total?
Tudo escapava de um mínimo referencial. Em que eu poderia confiar? Sam estava ali do lado, ela parecia ser muito confiável, mas só tinha um pequeno problema, ela não era real.
O medo começava a se instalar e com ele vinha todos os instintos de autopreservação. Tinha que correr, sair dali! Pra que lado ficava a saída mesmo?
Bem na minha frente se fez um pequeno clarão com tamanho suficiente para iluminar uma mão. Uma mão feminina! Bom... o que foi definido como mão feminina a partir de 2023, sem nenhuma possibilidade de contestação! Isso ocorreu depois que a Ministra Suprema da Moral e dos Costumes teve relações... ops... quer dizer, revelações sob uma goiabeira. Então, ela escreveu na Pedra das Verdades Absolutas: meninos vestem azul e meninas vestem rosa. A partir daí, coisas como a ideologia de gênero, por exemplo, passaram a ser proibidas, mesmo sendo algo completamente inexistente e ser uma aberração inventada por mentes doentias do século XXI, com o intuito de justificar a dominação da sociedade machista sobre as mulheres. Também foram erradicados termos como todes ou todxs e qualquer neologismo que riscasse a beleza de nossa língua pátria amada. Assim, quem desobedecesse a essas leis pétreas, isto é, a qualquer interpretação alucinante dos magistrados do reino universal das leis esculpidas à fogo nas tais pedras trazidas de Israel, seriam condenados ao açoitamento em praça pública e encarceramento. Por isso é que hoje todas as mentes progressistas do país procuraram exílio em países mais desenvolvidos e tentam de alguma forma denunciar o golpe e suas terríveis consequências. Eu não poderia estar escrevendo isso aqui, mas como é só uma divagação de mim para mim mesma depois que a escuridão se fez e alguém acendeu uma pequena chama. Não haveria problema.
A MÃO feminina ERA de SAM! Como eu saberia disso, se fazia tão pouco tempo que eu a conhecia e além de tudo chovia muito e ela entrou no cenário que não existia e... entramos num aprazível salão de chá dos anos 50 do século XX e... estávamos sob a meia luz? Bem, não sei. Só sei que sei que era a mão de Sam e aquilo era tudo o que eu precisava naquele momento. Ai, ai, ai.
Ela fez uma conchinha com a mão, protegendo a chama da vela recém-acesa e a colocou sobre um suporte em cima da mesa.
-- Vocês, agentes, estão preparados para tudo, não é? Eu consegui enfim dizer para ela.
-- Sim, carregamos nosso cinto de utilidades sempre. Apesar da ironia aquilo foi engraçado e... cativante. Ela continuou: A energia elétrica é muito instável por aqui, ainda mais no pós-guerra, há velas sobre as mesas. Haschid trará alguns lampiões.
A luz da vela bruxuleava amarela e mágica e veio a pergunta:
-- Então, afinal quem é você? Na cena anterior, paramos aí, não foi?
O blecaute não tenha sido suficiente para apagar a pergunta que tinha ficado no ar. Além de linda... me inquiria com aquele olhar castanho e mágico. E agora? Tomei mais um gole daquele chá que estava delicioso.
-- Er... Eu não tinha certeza se você era você mesma, então eu disse que não era do time de apoio local. Apenas para testá-la e pude ter certeza agora, pois, só uma agente de verdade carregaria um cinto de utilidade.
Pareceu que ela esboçou algo que semelhante a um leve sorriso. Era um devaneio, pois agentes não poderiam rir quando estavam em missão, a não ser que o disfarce exigisse.
-- Então, quais são as instruções para a localização da Capitã Aramis?
A porta foi aberta, dava para ver que ainda chovia lá fora, uma mulher com todo o jeito de turista entrou. Ela tinha uma máquina fotográfica pendurada no pescoço, usava capa e chapéu para chuva, óculos de aros escuros e disse:
-- Alguém pode me ajudar? Estou em perdida e preciso de informações. Estou a passeio na cidade.
Sam virou o olhar castanho e indagador para mim. Algo estranho começou a acontecer: O rosto de Sam, os sons, a vela acesa, a toalha branca da mesa, tudo começou a ficar longe, longe... até que tudo ficou escuro de novo.
Acordei desorientada, estava deitada em uma espécie de cama de panos, ao som do mar e à luz do seu céu profundo. Havia uma janela enorme bem acima da minha cabeça, tão grande que é como se eu estivesse lá fora. Tentei me levantar, mas senti uma leve tontura. Todos os objetos daquele lugar giravam, inclusive a janela swapping. A sensação é que havia sido atropelada por um... espera! Sam e a turista perdida! Aquelas duas! Alguém me aplicou um boa noite Cinderela! O chá... o chá! Estava batizado! Cobri o rosto com as mãos numa grande constatação.
Não sei quanto tempo se passou naquele estado de desorientação, quando a porta de madeira se abre e Sam entra por ela. Minha primeira reação é tentar esganar aquele pescoço, mas as pernas não obedecem. Não era a primeira vez que meu corpo agia ao contrário do que eu gostaria, me colocando em fria, como algumas relações sem futuro algum.
--Calma, calma! Ela disse com aqueles olhos altamente expressivos, sem parecer estar sendo irônica.
Ela veio e tentou me amparar. Eu tentei me desvencilhar daqueles braços com todas as forças que eu tinha, lutei.
Fim do capítulo
Pelo menos alguma luz foi reestabelecida.
Espero que gostem! Até a Cena 4!
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