Capitulo 2
Estava doida pra tomar um banho quente e passar o dia sem fazer nada, aproveitar aquela cama maravilhosa e fazer a coisa que mais amo nesse mundo: dormir hahaha. Fui me ajeitando aos poucos, acomodando apenas as coisas mais importantes. Ao terminar fui direto pro chuveiro. Tomei um banho rápido. Vesti uma coisa leve e arrumei a cama rapidinho com as roupas de cama que já estavam no guarda-roupas.
Acabei pegando no sono.
Mais tarde acordei assustada, tinha alguém batendo na porta. Era a Jaqueline:
- Perdão. Te acordei?
- Sim. Quero dizer, não. Na verdade não importa..
- Já que você está na faculdade tomei a liberdade de te oferecer um adiantamento para ajudar nos custos - disse com um sorriso gentil.
- Obrigada. É muito gentileza da sua parte - respondi, surpresa com a oferta.
- Confere por favor.
Abri o envelope pra conferir. Me surpreendi com o valor.
- O que houve?
- Acho que a senhora se enganou. Aqui está o valor total.
- Deixa eu ver.
Entreguei o envelope para ela.
- Hum... Está certinho. Aqui tem 1/3 da sua remuneração. A Fátima não te falou o valor que foi ofertado na vaga?
- Sim... Falou sim. Desculpe, tinha esquecido. Confesso que é bem mais do que eu tinha imaginado. Vou agora mesmo renovar minha matrícula na faculdade. Muito obrigada.
- Mais do que você tinha imaginado? Quer que eu peça para o motorista te levar?
- Obrigada mas, não precisa. Não quero incomodar. A senhora já está me ajudando muito.
- Não vou precisar dele hoje. Você vai com ele. Quando terminar basta ligar que ele vai te buscar.
- É sério, não precisa se incomodar. Eu nem tenho crédito no celular. Não se preocupe.
- Isso não é problema. - Disse enquanto mexia no celular. - Pronto. Já fiz a recarga.
Essa gentileza toda da Jaqueline já estava me deixando confusa. Não sabia o que dizer.
- Fico muito agradecida por tudo mas não sei se devo aceitar, nem sei se mereço toda essa generosidade.
- Imagino o que deve estar pensando mas, não se engane. Não costumo ser generosa assim. Sua tia Fátima é uma grande amiga. Farei o possível para ajudar.
- De qualquer forma fico muito agradecida.
- Já ia esquecendo... Não precisa mudar o horário das suas aulas por causa do trabalho. Se for estudar durante o dia basta compensar o horário a noite. Fica a seu critério.
- Sério? Ai não estou acreditando. - respondi já doida pra pular na Jaqueline e encher de beijos.
- Se tiver qualquer problema quanto a isso não deixe de me avisar. - disse já se retirando.
Era bom demais pra ser verdade. Já estava ficando preocupada. Fiquei pensando: será que aconteceu algo entre ela e a minha tia? Enfim, estava muito feliz. Tinha que contar pra alguem. Liguei pra Nicole, minha melhor amiga:
- Alô?
- Amiga, você não vai acreditar: estou voltando para a faculdade!
- Sério? Como assim? O que você fez?
- Estou indo pra lá agora renovar minha matrícula. Me encontra lá que eu te explico.
- Tá. Me dá duas horas que eu te encontro lá pode ser?
- Ok, no problem.
- Fico feliz por ti amiga. Beijo, até daqui a pouco.
- Até. Beijo.
Me arrumei rapidinho e sai. Ao passar pela cozinha vi a Jaqueline. Avisei que estava indo. Ela ligou para o motorista avisando e me deu o numero dele. Disse para descer e esperar no hall de entrada do condomínio. Desci e fiquei esperando. Uns 5 minutos depois uma moça de terno e óculos escuros se aproxima e vem falar comigo:
- Boa tarde. Raissa?
- Sim.
- Por favor me acompanhe.
- Como assim? Pra onde?
- Me chamo Carine. Sou a motorista particular da senhora Jaqueline.
- Oh okay. Sim, vamos.
Caminhamos até o estacionamento. Como não poderia deixar de ser, o carro da Jaqueline era bem chamativo e pareceia ser bem luxuoso. Carine abriu a porta de trás para mim mas preferi ir na frente com ela. Seguimos viagem.
Estava curiosa sobre Carine. De vez em quando eu a observava pelo espelho retrovisor. Ela acabou percebendo:
- Está tudo bem Raissa?
- Está sim.
- Quer me dizer alguma coisa?
- Não não. Me desculpe.
- Tudo bem. Todo mundo acha estranho mesmo...
- Do que você está falando? O que todos acham estranho?
- Eu ser a motorista da Jaqueline.
- E o que tem de estranho nisso?
- Eu ser mulher.
- Ah para. Nem pensei nisso.
- É o que todo mundo diz...
- Estou falando sério. Confesso que é a primeira vez mesmo que vejo uma motorista mulher mas não foi isso que...
- Viu? Você está mentindo - disse me cortando.
Aquela conversa já estava me irritando.
- Uai garota não estou mentindo. Eu ia mentir a troco de quê? Nem te conheço guria. O que tem de mais uma mulher dirigir um carro para outra pessoa?
- Nada. Mas você quase tomou um susto quando te chamei la no condomínio.
- Claro! Achei que o motorista da Jaqueline era um homem.
- Tá vendo?
- A Jaqueline me disse que "um motorista" e não "uma motorista" iria me levar. Não tenho bola de cristal.
- Parece que pra você não é normal que eu seja a motorista dela.
- Normal não é né. Mas pra mim isso não faz diferença.
- Então não vê nenhum problema em mim?
- Claro que não.
- Nenhum mesmo?
- Garota você tá bem? Está de TPM hoje? Já disse que isso não me importa. Que discussão ridícula!
- Está mentindo.
- Você deve ter problema, só pode. Não estou mentindo.
- O meu único problema é querer que as pessoas sejam sinceras comigo...
- Mas eu estou sendo sincera. Talvez a única coisa que eu consiga pensar é que esse cargo possa ser perigoso pra você. É um carro que chama muita atenção e a Jaqueline não é uma pessoa qualquer então...
Antes de concluir o que estava dizendo escutei um clique. Quando olhei pra ela me deparei com o cano de uma arma apontada pro meio da minha testa. Fiquei completamente paralisada. Ela percebeu a merd* que fez e tentou se desculpar. Eu estava em choque. Aos poucos minha visão foi escurecendo até apagar de vez.
Acordei no banco de trás, nos braços de Carine. Não sei quanto tempo fiquei desmaiada. Fui recobrando a consciência aos poucos.
- Que alívio! Que susto! Como você está?
- Estou bem, eu acho...
- Me perdoe pelo que fiz. Juro que não tinha intenção. Perdi a cabeça, não estou bem.
- É eu percebi... Não se preocupe.
- Você vai falar pra Jaqueline? Por favor diga que não. Preciso muito desse emprego.
- Não vou falar. Mas bem que você merecia. Você é a garota mais idiota que já conheci!
- Eu sei...
- Ainda bem que sabe. Estou indo nessa.
- Me ligue para te buscar.
- Não precisa. Vou de ônibus.
- Mas eu tenho ordens para te buscar.
- Isso já não é problema meu.
Deixei ela falando sozinha e desci do carro. Ela foi atrás de mim e me puxou pelo braço:
- É sério. Por favor, me perdoe.
- Okay garota relaxa. Não vou falar pra ninguém. Nem tinha pensado nisso. Só não quero te ver na minha frente agora.
De repente a Nicole aparece (a Carine tinha estacionado o carro já perto da faculdade):
- Raissa? Tudo bem?
- Oi. Tudo.
- Está tudo bem mesmo? Não estou atrapalhando? - disse já percebendo todo o climão.
- Está tudo bem sim.
- Vou indo. Me ligue pra te buscar. Com licença - disse Carine, já se retirando.
Nicole me olhou com uma cara...
- Quem é essa aí? O que houve?
- É a motorista da minha patroa. A gente discutiu.
- Motorista? Da sua patroa?
- Sim. Vamos. No caminho eu te conto. É muita coisa pra explicar.
A gente foi pra faculdade resolver o que tinha pra resolver. Na volta demos uma paradinha na Lanchonete do Guga, que ficava em frente a faculdade. Lá a gente conversou bastante. Nos atualizamos uma sobre a outra. Contei pra ela sobre o meu novo emprego e claro, sobre o meu péssimo começo com a Carine. Ela me aconselhou a não me meter em encrenca:
- Vai com calma. Você não pode jogar tudo pro alto agora. Ou você tá querendo voltar pro pensionato?
- Ta repreendido! Nem me fale.
- Então é melhor você esquecer isso e tentar ficar longe dela.
Nicole estava certa. Pensando bem, eu não ganhava nada criando inimizade logo no meu primeiro dia com uma colega de trabalho. Era melhor esquecer o que aconteceu.
A gente terminou de lanchar e nos despedimos. Liguei pra Carine pra me buscar. Não demorou 5 minutos ela apareceu. Deve ter ficado ali por perto. Apenas nos cumprimentamos e seguimos viagem, sem tocar no assunto. Na verdade, ficamos sem falar uma com a outra durante todo o caminho. O silêncio só foi rompido quando chegamos:
- Pronto. Chegamos.
- Obrigada. Olha, vamos esquecer o que aconteceu, okay? Não precisamos disso. Já esta tudo bem.
- Sim. Você está certa. Me perdoe, mais uma vez.
- Sem problemas.
Terminamos de nos despedir. Fui caminhando para a entrada do condomínio quando ela me alcançou e me puxou pelo braço:
- Nossa! Que mania essa sua. O que houve agora?
- Não gostaria de passar lá em casa mais tarde?
- Pra quê?
- Estou te convidando para jantar. Queria me desculpar melhor. Desfazer essa primeira impressão ruim que você teve de mim.
- Não precisa. É sério. Não guardo nenhum ressentimento. Foi bobagem o que aconteceu. Fique tranquila. Esquece isso.
- Faço questão. Aceita? Por favor. Não vai se arrepender. Sou uma ótima cozinheira. A sobremesa já está até pronta. É um pavê de chocolate maravilhoso que fiz no fim de semana. O que acha?
- Uau! Estou surpresa. Achei que suas especialidades fossem só dirigir e apontar armas para a testa das pessoas - respondi, já me arrependendo de ter dito o que disse. Não tinha jeito. Ainda estava muito chateada. Deixei escapar.
- Nossa, tô vendo como esqueceu. Deixa pra lá.
Agora era eu quem precisava me desculpar. Resolvi aceitar o convite dela:
- Me desculpe. Agora fui que perdi a cabeça. Aceito o convite, se ainda estiver de pé.
- Deixa para outro dia.
- Me desculpe é sério. Eu também sou idiota as vezes. Acho que estamos quites agora.
Consegui arrancar um sorriso daquela moça sisuda. Ela tinha um sorriso encantador. Depois de insistir mais um pouco ela acabou aceitando me convidar novamente (risos). Era uma oportunidade de consertar as cosias. A última coisa que quero é correr o risco de estragar tudo já no primeiro dia.
Fim do capítulo
Segue mais um capítulo. Peço desculpas pela demora. Beijos.
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