Capítulo 52
Luana estava gostando de morar na república. Dividia o quarto com uma menina que mal via acordada e não tinha problemas quanto a preconceito porque todas eram lésbicas. Eram legais com ela e a vida era tranqüila em casa. Luana entregou o apartamento com tristeza, mas sabia que era necessário. Guardou suas coisas na casa de Bruna e comunicou ao pai do Lucas que as coisas dele estavam à disposição. O pai dele mandou um amigo buscar tudo.
Luana acordou naquele dia bem disposta. Levantou, tomou café e ouviu os comentários das colegas de casa:
_ Parece que passou um trem em cima de você!
_ Nada, moça, é o cansaço.
_ Você deu até uma emagrecida.
_ É a correria do dia-a-dia.
_ Isso é por culpa de alguma mulher, isso sim. Você acorda cedo e dorme tarde. Você é louca. Trabalha feito uma louca. E age como uma louca. Parece correr da vida. Já não sai, não vejo mais seus olhos brilharem.
_ Exagero seu. Apenas estou mais concentrada em coisas importantes.
_ Está exagerando. Você vai pirar de tanto trabalhar e estudar.
Luana apenas sorria, voltando-se aos livros lá no seu quarto.
Desde aquele dia a pouco narrado, se passara um mês e uma semana e Luana mudara da água para o vinho. Ligava com mais freqüência para os pais, estudava quando não estava mergulhada no trabalho e não havia saído nem uma vez sequer.
Bruna havia ligado para ela, há umas duas semanas atrás, mas ela não atendera. Também lhe ligara Lisa que também não foi atendida apesar da insistência.
Essa menina com quem ela conversava era a mais legal das meninas, em quem Luana mais confiava. Era casada com uma menina que Luana havia ficado naquele dia na boate.
Chamava-se Kamila e era a mais velha das meninas, com 28 anos.
E naquele mesmo dia, conversando na hora do almoço, que Luana comentava sobre sua vontade de sair para uma boate começar a nascer no seu peito.
_ Eu me enrolei demais, agora quero apenas dançar, me divertir, nada além. Eu não quero me envolver com pessoas que não me aceitam como sou.
_ Entendo.
Luana sentiu um olhar profundo de Camila para ela. Será que ela sabia que Luana havia ficado com a mulher dela? A resposta veio em seguida:
_ Eu sei que você ficou com a minha mulher numa boate.
Luana não sabia o que dizer. Havia algo a se dizer?
_ Eu... não sei o que dizer.
_ Eu sei, e apesar da raiva que senti de você na hora que entrou aqui na cozinha, percebo que você não é a culpada. Não que eu ache legal você ficar com mulher casada, principalmente com a minha mulher, mas se posso cobrar de alguém algo, esse alguém é da minha mulher, ela é que deveria ter me respeitado antes de qualquer outra pessoa.
_ Eu sinto muito mesmo, Camila.
_ Tudo bem. Não fique mal com esse papo. Não guardo rancor de você, pode acreditar. Eu descobri pela boca da minha mulher que ela me traiu, e não foi só com você, não. Foi com todas as meninas daqui da república e todas sabiam, menos eu. Fora as que ela pegou na rua, nas baladas. Eu não te culpo por não ter me contado.
_ Você não acreditaria. Seria minha palavra contra a dela. E eu não te conhecia. O que não alivia a minha barra.
_ Exato. O que mais me envergonha é que eu já sabia, sabia que ela estava me traindo, mas fingia não saber.
_ Por amor.
_ Não.
_ Não?
_ Não, apenas por medo da solidão. Já estou velha, é cada vez mais difícil arrumar alguém que queira algo sério com uma pessoa da minha idade, e ela é boa, eu gosto dela, mas não a amo e foi o que eu disse para ela ontem, quando terminamos.
_ Vocês terminaram?
_ Sim, cansei de me desprezar por medo de estar só, se eu não posso ter alguém do meu lado que me respeite, não quero ninguém, entende?
_ Você precisa se amar e eu também preciso aprender a me amar. _ disse uma Luana conclusiva.
_ Ao menos você tem alguém que já faz isso por você. Tem sempre alguém correndo atrás de você.
Luana abraçou Kamila que não chorou. Elas arrumaram a casa e depois combinaram de sair naquela noite, que era um sábado com cara de festa. Quando estava tomando banho para sair, o telefone tocou e ela atendeu:
_ Por que seu telefone estava dando desligado?
_ Eu acordei cedo e fui arrumar a casa mais a kamila. Só quase agora vi que o telefone estava descarregado.
_ Eu não deveria ter te ligado.
_ Também acho.
_ Olha Luana, eu sei que deveria ter tentado conversar com você. Eu deveria ter impedido você de sair da minha casa naquele dia. Você anda por onde? Não te vejo mais em boates. Ainda continua sem atitude, sem decidir.
_ É bom eu saber o que você pensa de mim apesar de achar muito injusto da sua parte me cobrar um namoro sendo que eu ainda gosto da Lisa e você sabe disso. Às vezes acho que você preferiria que eu estivesse brincado com seus sentimentos.
_ Me desculpe, eu não deveria ter falado do jeito que falei. Eu te amo. Eu sinto a sua falta.
Bruna nunca havia dito aquilo. Luana levou um choque. Não esperava tamanha revelação.
_ Olha, Bruna, eu estou toda ensaboada.
_ Não me diga isso.
_ Pare de gracinha. Preciso terminar de tomar banho.
_ Você quer me ver hoje.
_ Não sei, você me magoou. Eu te ligo se eu animar.
_ Beleza, mais uma vez, desculpa.
Nesse momento Luana escutou uma ambulância por detrás da voz de Bruna.
_ Aconteceu algo? Aonde você está, Bruna?
_ Eu estou no hospital. Vim ajudar um amigo com uma mulher que está em estado de choque depois do acidente que matou seu marido e deixou em coma seu filho.
_ Nossa. Que barra.
_ É a vida.
_ Então está certo. Você trabalha até que horas.
_ Acho que consigo sair daqui até umas seis da tarde.
_ Eu te ligo mais tarde para saber como você está.
Bruna sorriu.
_ Até mais, meu amor.
_ Até mais, Bruna.
E Luana desligou o telefone. Terminou de tomar banho e foi para seu quarto se vestir para sair.
Subiu as escadas e bateu na porta do quarto da colega. Kamila já deveria está pronta.
Escutou gritos abafados por choro e depois a porta se abriu. Kamila estava pálida e sua mulher estava arrumando as coisas para ir embora.
_ Ela disse que vai embora, Luana, eu disse que não precisava, que podíamos continuar a dividir o quarto, mas ela esta indo embora. _ e chorava_ Diga para ela ficar, por favor diga.
Luana segurou Kamila que parecia que ia desmaiar.
_ Você é uma otária, Kamila, cansei de você. Olhe só para Luana, olhe, eu troquei meninas como ela para ter uma relação séria com você pra você vim me julgar por duas traições!
_ Cale a boca!_ disse Luana. _ Se é para ir embora, vá agora e saia calada se não quiser responder um processo por calúnia e difamação.
A sem-vergonha arregalou os olhos para Luana e calou-se. Kamila foi levada para o quarto de Luana. Logo “juntou” mulher no quarto. Todas estavam abismadas com as asneiras que a tal mulher disse. Todas escutaram, mas só Luana teve coragem de dar ordens por ali.
_ Kamila, esqueça essa piranha ou eu mesma caso com você. De solidão você não vai morrer, não seja fraca, se ame. _ Luana estava nervosa e nem quando a dona da casa chegou, se acalmou.
_ Aquela filha da puta, isso não é jeito de falar com mulher nem com ninguém. Humilhar você daquele jeito... Ela é uma vadia.
Dona Francisca respeitou a raiva de Luana apesar de não saber o motivo. Logo Luana explicou tudo e ela também cuspiu maribondos.
_ Ora essa! Que sujeitinha mal-caráter! Kamila não merece uma mulher dessas, ninguém merece. Foi melhor assim, não quero gente baixa morando sob meu teto. Obrigada por não ter deixado esse fogo se alastrar, Luana. Sabia que poderia contar com você para momentos como esse.
Luana estava cabisbaixa. Dona Francisca continuou:
_ Eu saio um momento e a casa cai. Agora vamos circulando. E você, Luana, saia tranqüila, eu fico com a Kamila.
Luana saiu apesar de não gostar de deixar sua amiga naquele estado de tristeza. Mas a própria Kamila a pediu para ela sair um pouco e ela precisava mesmo sair um pouco de casa.
Pegou um ônibus e logo estava na boate que tanto gostava.
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
Sem comentários
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook: