Capítulo 1
Pelo vidro da Cafeteria vejo a tarde cinza se esvaindo em gotas grossas da chuva inclemente.
Ela se afasta cada vez mais, quase não consigo mais enxergá-la...apenas o ponto vermelho do guarda-chuva barato, adquirido em um ambulante, num dia qualquer.
Não tem como fugir da analogia de toda a cena com o que sinto nesse momento: uma enorme tempestade de dor e sentimentos antagônicos, a tormenta na alma.
E o guarda-chuva vermelho...lembra meu coração que bate cada dia mais fraco, indo embora no fim da rua...desvanecendo como tudo o mais em mim.
A conversa a sós na Cafeteria havia sido um pedido de Luciana. Não entendi direito a princípio, achei que fosse para tentarmos melhorar nosso diálogo, nossa relação que já há algum tempo havia caído na fatídica rotina dos relacionamentos de longa data. Mas que nada! Era para desmoronar com meu mundo!
Dezoito anos! Parece que foi outro dia que meus olhos foram roubados para nunca mais pertencerem a nenhuma outra. Numa noite fria, entre vinhos, risadas e amigas em comum.
Depois desse dia veio a Paixão, a entrega, a parceria, o Amor consolidado no tempo e nas histórias partilhadas. Momentos de alegria com as conquistas do primeiro carro, da primeira casa que juntas montaram, do primeiro emprego, dos encontros com família e amigos e do primeiro e único filho.
Momentos de tristeza com as perdas da vida...do trabalho perdido, de um ente querido que parte, do braço quebrado do filho, do amor que deixou de ser feito, dos elogios não ditos.
Ás vezes perdemos tanto pelo caminho, pela pressa e pela pressão das coisas. Perdemos até a nós mesmos por não perceber que o essencial acaba ficando pra depois. “Mais tarde” – era sempre essa frase que acompanhava a minha incapacidade de lidar com tanta correria e com as demandas de todos, inclusive as minhas próprias.
Isso, sem dúvida, foi uma das causas do desgaste de nossa união.
Olhando pela janela da Cafeteria, vejo Luciana partir, cada vez para mais longe de mim e de tudo que construímos. A negação vem, não consigo acreditar que todo aquele Amor se foi, que o olhar que me sequestrou estava agora me dizendo Adeus! Abandonando-me...será?!
- Eu quero me separar de você, Ligia! Nosso casamento acabou! Somos jovens ainda e não merecemos estar juntas somente por acomodação. Vivemos quase como irmãs! Já se deu conta de que não fazemos amor há meses?! Acho que nem falta de mim você sente!
- Você enlouqueceu, Lu?! Para de dizer bobagem! Tá certo que não temos mais todo aquele entusiasmo do começo, mas isso é normal após 18 anos de casamento, não acha?!
- Não, não acho! Até o ano passado estávamos ainda apaixonadas, tendo uma vida sexual normal, com tesão! De repente esse marasmo, essa falta de vontade de tudo...isso sim não é normal! Nós fomos deixando de lado o romance, a vontade de estar juntas, o prazer na companhia uma da outra....e a culpa é de quem? Minha? Sua? Sei lá! Só sei que não tenho mais vontade de estar na nossa casa, dormindo e acordando com você!
De repente uma ideia me invadiu.
- Você conheceu alguém!
Luciana fica rubra, abaixa a cabeça e não precisa dizer mais nada. Seus olhos sempre foram tão transparentes! Nunca a definição de “janela da alma” coube tanto a um par de olhos. A confissão muda me atravessa o peito feito punhal.
- Eu a conheço? - pergunto atordoada.
- Não. Mas isso não importa e sim a nossa situação que precisa ser resolvida.
- Estão juntas há quanto tempo? – meu coração sangrava
- Não estamos juntas. Eu respeito demais a nossa história pra terminar tudo tendo um caso qualquer. Eu estou me apaixonando por ela, mas não quero ser leviana e começar nada antes de ser completamente honesta com você e comigo. Devemos isso uma a outra.
Minha mente ferve. Não sei o que dizer. A única vontade que sinto é de gritar. Como eu não senti você indo embora de mim? Como não percebi seu olhar buscando outras direções? Quando isso aconteceu? Mas a voz estava entalada na base do pescoço...acho que nem respirar direito eu conseguia.
Luciana continua com coragem.
- Pedi esse encontro aqui, fora de casa, porque não queria que Edu ouvisse nossa conversa. Sempre nos respeitamos e quero poder resolver com você na paz, sem brigas.
“Briga?! Que briga?!” - Eu não conseguia assimilar direito o que era dito. Só entendia que minha vida, que eu amava de qualquer jeito, estava ruindo.
Minha mulher estava me deixando. Estava apaixonada por outra! Era tão doloroso saber disso que a sensação era de estar caindo num abismo escuro e sem fim. Uma queda livre sem rede de proteção, sem mão salvadora.
Eu olhava o rosto de Luciana, mas via somente uma massa difusa. Um lapso de luz surgiu em minha mente. Um número. 30 dias!
A voz veio num fio, quase inaudível:
- Me dê 30 dias. Não vá agora porque isso pode atrapalhar o Edu nas provas finais. Daqui um mês ele termina e você pode seguir sua vida.
A vontade de chorar era tanta que mesmo tentando, não consegui evitar a goteira de pranto que caia da ponta do meu nariz para a mesa de granito negro. Uma pequena poça de dor ali se formava.
Luciana deu um longo suspiro e disse cansada:
- Tá bem, 30 dias e vou embora. Edu já tem dezesseis anos e precisa entender nossa vontade. Não vou me separar dele, vamos continuar sendo uma família pra sempre. Somente em casas separadas.
Luciana levantou e perguntou:
- Você paga a conta?
Balancei a cabeça ainda baixa em afirmativa. Quase sem forças ergui meus olhos e acompanhei sua saída pela porta de vidro. Abriu o guarda-chuva vermelho e saiu encarando a tempestade de frente.
Luciana sempre fora mais determinada e corajosa que eu. Era dessa forma que eu deveria agir. Encarar de frente minha tempestade interna. Meu coração, como aquele guarda-chuva vermelho que sumia no cinza da chuva, batia lentamente, quase parando, e eu precisava fazê-lo pulsar com força outra vez.
Aos poucos uma Esperança tímida e frágil surge em mim. O Amor! Tudo o que vivemos e construímos foi sempre calcado nesse sentimento. Então, se havia uma chance, pequena que fosse, de fazer renascer nossa vida juntas, seria somente através dele...o Amor!
(continua)
Fim do capítulo
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Nocturne
Em: 01/06/2018
Que momento difícil para a Lígia. A Luciana deve ter pensado muito antes de tomar essa decisão, mas não foi muito sensível nas palavras. Dezoito anos... Uma vida juntas.
A notícia caiu como uma bomba para a Lígia, que vai demorar a digerir.
Torcendo para ela se reerguer.
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brunafinzicontini
Em: 01/06/2018
-Você paga a conta? Luciana pergunta à Lígia...
Sim, pobre Lígia, pagará sozinha e injustamente essa conta que a vida lhe apresenta.
Que melancolia, Marcya! Sofro junto com Lígia - e fico na torcida para que ela consiga reverter o jogo conduzida pelo amor!
Sensível, Lígia pensou antes de tudo no filho, no momento delicado que ele atravessa. Luciana está sendo cruel, mas honesta, se for mesmo verdade que ainda não se envolveu com outra. Porém, de qualquer forma, essa é uma triste hora - o fim melancólico de uma história. Esperemos que Lígia consiga dar a volta por cima.
Abraços,
Bruna
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