Capítulo 6 - Tomando forma
Capítulo 6 — Tomando forma
A notícia de que teria que participar do julgamento de Flávia a pegou de surpresa, voltou a procurar alguma notícia sobre isso, achou um site de notícias locais.
“Prenderam? Mas ela disse que ia se entregar hoje.” — Juliana não entendia nada.
Achou uma pequena notícia, mas não acrescentava quase nada, só dizia que Flávia Andrade era foragida de um roubo a uma fábrica em São José, havia sido capturada em Pelotas no sábado e iria a julgamento no próximo mês, juntamente do restante do grupo, que já estava preso.
“Onde será que ela está detida?” — Ela até pensou em ir de delegacia em delegacia para procurar por Flávia, mas preferiu esperar por algum contato dela, conforme elas haviam combinado.
Teria que esperar para poder vê-la novamente, um mês talvez, e sabia que durante o julgamento o máximo que seria permitido seria a olhar ao longe. Juliana esperava mesmo era pelo dia que a visitaria, ensaiava mentalmente como seria esse reencontro, se desconectava do mundo quando tinha esses pensamentos.
“Será que poderei me aproximar? Será que poderei dar um abraço? Poxa um abraço... Acho que ela vai me achar patética... Ela é uma mulher bonita, tem uma voz tão suave. Como será seu sorriso? Ela deve ter um belo sorriso.” — Suspirava.
Juliana nunca teve tantos conflitos e sensações diferentes dentro de si como naqueles últimos dias, qualquer pensamento em Flávia a deixava com borboletas no estômago. A paixão entrou em sua vida de forma personificada e, pela primeira vez, de forma consciente, era a primeira vez que estava apaixonada por uma mulher, sabia que o nome daquilo era paixão, com pitadas generosas de atração física, medo e ansiedade. Queria poder encontrar a bula ou o manual de instruções deste sentimento novo, mas nem no dicionário ela encontraria ajuda para lidar com isso. E sabia que estava ferrada.
Ainda mantinha os conflitantes pensamentos de “isso está errado, “não posso ser assim.”, vivia em total negação.
— E desde quando eu gosto de garotas? — Juliana se questionou após lavar o rosto na pia do banheiro, olhando para seu rosto molhado no espelho. Era tarde demais para lutar contra.
Os dias iam se passando lentamente para ambas, após uma semana detida, Flávia recebeu sua primeira visita: seu primo Maurício, um baixinho de cabelos encaracolados e óculos. Ele trouxe frutas, biscoitos e um pouco de carinho.
— Você não faz ideia o quanto sua visita me fez bem. — Disse Flávia.
— Desculpe não ter vindo antes.
— Você pode avisar meu pai que estou aqui?
— Ele já sabe, minha mãe contou.
— Preciso dar um jeito de ligar para ele, a última vez que liguei foi lá de Pelotas.
— Acho que você não pode fazer ligações aqui.
— Eu sei... Quando sair da cadeia vou visitá-los, vou para Minas.
— Continua com sua ideia de voltar a morar lá?
— Não sei, não me parece uma boa ideia agora.
— Por que?
Flávia contou toda a questão com Juliana e o que sentia, tentava não soar empolgada ou ridícula, mas às vezes era difícil.
— Tanta mulher nesse mundo, Flávia! Tinha que se apaixonar justamente por uma que você tentou matar?
— Eu não tentei matar, foi um acidente. — Respondeu encabulada.
— Mas o assalto não foi acidente. Meu Deus, você nunca vai criar juízo?
— Essas coisas simplesmente acontecem, ok? — Balançou a cabeça incomodada. — Eu sei que é a coisa mais estúpida que poderia me acontecer, e também sei que provavelmente ela já nem lembra de mim à essa altura, mas paciência.
— É mais fácil você arranjar uma namorada na cadeia. — Maurício riu.
— Por favor, me diga que tudo isso é um pesadelo... — Flávia exasperou, deitando a cabeça na mesa em frente.
***
Naquele mesmo sábado, Juliana também recebeu uma visita, Everton, seu amigo da época do colégio, que havia se afastado de seu grupo de amigos atual. Eles saíram para fazer um lanche no Kobrasol e colocar o papo em dia.
Ela já sabia que ele era gay e se sentiu à vontade para contar o que estava acontecendo, estava mais aliviada após compartilhar sua situação.
— Vai ser legal, a danceteria é enorme, e hoje tem uma festa para meninas, você vai se esbaldar. — Everton a convidava para ir na Concorde.
— Não sei se devo, acho que não pertenço a esse mundo. — Caminhavam pela avenida central, sem pressa.
— Sério, você vai poder testar se fica à vontade nesse meio, se é isso mesmo que você quer, não tem nada a perder.
— Anderson me chamou para conversar hoje.
— Ah não, você está pensando em reatar o namoro com aquele plantador de batatas com mentalidade de doze anos?
— Não, não quero mais namorar com ele. Mas ele pediu para conversar, eu disse que ele podia passar na minha casa mais tarde.
— Ele vai te buscar de tobata?
— Cala a boca, Everton — Juliana riu e empurrou seu ombro. — Posso convidar Aline?
— Não sei... Ela é hetero demais para essa boate.
— E eu não sou?
— Você tem a mente aberta, é diferente dela.
— Isso é um elogio, né?
***
À noite eles foram à danceteria, Juliana observava tudo e todos um tanto chocada com aqueles meninos e meninas se beijando, aos poucos foi se acostumando, ficando cada vez mais à vontade.
Ela observava discretamente alguns casais de meninas, tendo a sensação que era aquilo que ela queria para sua vida, se identificando com aquela cumplicidade feminina, aqueles olhares que se entregavam, a forma como trocavam carinhos.
— Vou te apresentar algumas amigas. — Everton a tomou pela mão e desceram para a pista.
— Ãhn, tudo bem.
Ele apresentou três amigas a Juliana, sendo um casal. Eles dançaram juntos e subiram novamente, para um lugar menos cheio. Everton cochichou algo para Fabiana, a amiga desacompanhada, uma garota animada e nada tímida, que estava interessa em Juliana. No final da noite foram ao lounge e Fabiana aproximou-se de Juliana.
Elas conversaram animadamente, Juliana não percebia as intenções dela. A certa altura do papo, Fabiana segurou a mão da tímida loirinha, que finalmente se deu conta do que estava acontecendo. Com toda sua polidez, ela retirou sua mão delicadamente e apenas deu um sorriso de lado para Fabiana, que entendeu a mensagem.
Terminou a noite decidida a procurar Flávia assim que possível, as coisas haviam ficado mais claras agora.
Fim do capítulo
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Kim_vilhena
Em: 15/04/2018
Juliana enfim se cansou de nárnia heuheuhe
Resposta do autor:
Finalmente né? hahahhaaha Bora sair desse armário mesmo
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