Capítulo 39 - Apesar de você, amanhã há de ser outro dia
Sentei no avião e lembrei do nosso encontro. Como a vida era engraçada. Estávamos sempre, de alguma forma, numa relação muito próxima com aeroportos, aviões. Ri sozinha por estar pensando como Luísa.
Olhei para o relógio e vi que àquela altura ela já devia ter recebido a cesta de café da manhã e o buquê de gérberas laranja, as preferidas dela, que eu havia mandado.
Com o cartão que dizia:
Meu amor, a noite não foi fácil para nenhuma de nós, mas lembre-se que nada como um dia após o outro. Estarei sempre com você, onde quer que eu esteja.
Te amo,
Carol.
Cheguei ao aeroporto e liguei imediatamente para Luísa.
– Amor, acabei de chegar. Vou pegar o metrô para ir até o apartamento e de lá eu ligo. Como você passou a noite?
– Sentindo a sua falta – respondeu ela já ficando fanhosa pelo choro.
– Eu também estou sentindo muito a sua falta – eu disse com a voz embargada.
– Ah! Tô comendo a melhor maçã da minha vida – falou ela.
– Fornecedor novo? – Perguntei rindo.
– Obrigada meu amor! – falou.
– É para você saber que vou estar sempre com você – reafirmei.
Depois de uma hora, um metrô e uma caminhada de aproximadamente 1 Km num frio de 5 graus, chequei ao que seria minha casa nos próximos 365 dias. Estava longe de parecer um lar, mas era simpático. Liguei para Luisa para falar das minhas primeiras impressões:
– Amor, cheguei ao AP. Não é muito grande, mas dá para nós duas, além de ser aconchegante. Sabe o que eu estou fazendo?
– Que bom amor, não vejo a hora de te encontrar. O quê?
– Comendo o melhor bolo de goma da minha vida! – eu disse.
Ao abrir a mala, encontrei um saco de bolo de goma, que eu amava, com um cartão que dizia:
Meu amor, a vida vez por outra nos oferece caminhos mais amargos, mas, sem dúvida, necessários para a construção de um futuro doce. Estarei sempre com você, seja qual for o caminho.
Te amo,
Lu.
– Como você está? – perguntou.
– Cansada. Não dormi nada no voo, pensando em você, em nós – disse.
– Aproveite para descansar. E lembre que em breve estarei aí com você – falou ela.
– Te amo – disse.
– Eu também – confirmou.
Quando desliguei o telefone, chorei como se fosse uma criança que perdeu o brinquedo. Sentia mais a falta dela que medo do que a distância pudesse fazer conosco. Ao mesmo tempo, me sentia como saída de um primeiro encontro, num processo de conquista.
Foram dois meses de muitas sensações. Falávamos-nos pelo telefone todos os dias. Aprendemos a diminuir a distância através das ligações, até sex* aprendemos a fazer pelo telefone. Longe de ser o ideal, mas serviu para alimentarmos a paixão e o desejo.
Neste início, tentei me manter o mais ocupada possível. Assisti a aulas, dei palestras e, sobretudo, frequentei muitos grupos de pesquisa e me encarreguei de desbravar a cidade. Conheci muita gente e até já tinha um círculo de amizades bem definido. Tinham os amigos e os amigos dos amigos.
Eram muitos estrangeiros e a colônia brasileira era bem grande, o que facilitava as coisas e ainda ajudava a matar um pouco a saudade do Brasil. Além disso, os brasileiros faziam festas quase toda semana, o que acabava por estreitar os laços. Foi assim que conheci Augusto, Laura, Marcos, Chico e Mariana, todos doutorandos em Antropologia, com exceção de Mariana, que era amiga de Chico e mestranda em Letras. Fiquei bastante próxima dela, que, embora jovem, parecia-me extremamente interessante. Tudo isso fez o tempo passar um pouco mais rápido, até que chegou. Ela chegou.
Quando a vi, meu coração quase saltou pela boca. O sorriso dela parecia ter iluminado aquela cidade cinza. Abracei-a tão forte, de modo a sentir todo o seu corpo. Que saudade!
Não via a hora de chegar em casa e poder tocá-la. Joguei as malas no chão e tirei a roupa dela no meio da sala. Deitamos-nos no chão e nos amamos ali mesmo. Fazia frio e sentia o corpo dela arrepiado, numa mistura de baixa temperatura e prazer. Goz*mos repetidas vezes até escurecer e, famintas, sermos obrigadas a deixar o nosso ninho improvisado.
Foram quase 20 dias na cama de um apartamento de 40 metros quadrados que só cheirava a sex*. Na verdade, devem ter sido uns 10 dias na cama e outros de experiências diversas.
Das poucas vezes que saímos de casa, levei Lu à universidade para que ela conhecesse o campus e os meus colegas de estudo, que ficavam repetindo que eu “só falava nela”. Ela fazia cara de boba, mas eu sabia que isso a trazia para perto de mim e a fazia se sentir mais segura também.
Na véspera da volta de Luísa, eu já estava com muita saudade dela. Fomos a um pub tipicamente inglês e acabei exagerando na cerveja, uma atitude também tipicamente inglesa, diga-se de passagem. Voltei para casa completamente embriagada. Vomitei e acabei passando nossa última noite quase como a primeira, bêbada e dormindo. Mas como dizem, a vida é cíclica.
Fim do capítulo
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