Capítulo 46

Capítulo 46

de Argentum [Em Revisão], por Anonimo 403998

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Maia sentia seu rosto arder e sabia que não havia nada que pudesse fazer para disfarçar isso. Estava esperando o amigo começar as piadas, mas também notava que ele parecia estar esperando alguma grande revelação antes. O que apenas a fazia corar ainda mais por saber que Enzo estava certo e havia, realmente, uma grande revelação a ser feita. Mas antes que ela conseguisse a coragem necessária para contar sentiu seu celular vibrar em seu bolso indicando uma mensagem. Ergueu o indicador esquerdo para a câmera pedindo um minuto enquanto pegava o aparelho com a mão direita.

Destravou a tela e viu mensagens da veterinária. Não percebeu o sorriso em seus lábios enquanto abria o aplicativo para ler os curtos textos, mas Enzo não perdeu esse detalhe. Na primeira mensagem Alicia dizia ter acabado de chegar e que estava bem, mas mesmo assim havia ingerido mais uma dose dos remédios. Na segunda ela havia enviado um ‘ops’ junto a um emoji sorrindo antes de dizer que havia acabado de notar que sua jaqueta provavelmente havia ficado no Rancho.

Enquanto Maia lia as duas mensagens Alicia digitava a terceira que logo foi também recebida. Ela perguntava a mais nova se não seria incômodo ela deixar a peça aos seus cuidados até a quinta-feira, dia que elas haviam marcado da veterinária ir ao rancho para preparar o envio das amostras para o teste de DNA que havia sido exigido para o registro de Argentum. Os olhos verdes espelhavam o sorriso dos lábios de Maia enquanto ela respondia que não havia problema nenhum e que ela cuidaria da jaqueta até que Alicia viesse ao Rancho dali a quatro dias. Alicia lhe enviou outro emoji sorridente que ela retribuiu e então a veterinária se despediu dizendo que precisava se apressar para sua consulta. Mandou um beijo para a dona do Rancho que não notou seu rosto corando levemente com a mensagem e se foi.

- Devo presumir que a razão de seus suspiros acabou de lhe enviar mensagens? – falou Enzo puxando Maia de volta da bolha que havia criado enquanto falava com a veterinária e provocando, novamente, o forte rubor nas bochechas da mais nova – Vamos, Maia. Se não me contar eu vou poder apenas imaginar. E você, melhor que ninguém, conhece a minha imaginação – falou ele controlando o riso pela expressão da amiga.

- Eu não sei o que está acontecendo comigo, Enzo – admitiu Maia largando o celular sobre o cobertor e levando ambas as mãos aos cabelos enquanto fechava os olhos com força e mordia o lábio inferior – O jeito que ela me trata – murmurou ela baixando a cabeça até seu queixo encostar em seu peito – Ninguém nunca me tratou dessa maneira. Não assim. E isso é tão diferente que eu não sei como lidar.

- Pois acho que você sabe sim o que se passa contigo, mas está com medo de admitir e se engana tentando dizer a si mesma que é apenas um engano culpa do modo diferente com que é tratada por ela – falou o rapaz em tom brando que fez Maia erguer o rosto e encará-lo, mas ele apenas se calou e esperou.

- Ontem – recomeçou ela falando baixo – Quando minha dor diminuiu eu não conseguia levantar ainda, não conseguiria pisar no chão. Ela se deitou de volta e eu apenas fiquei deitada no mesmo lugar, por cima do cobertor, esperando minha perna e meu quadril se recuperarem – Maia continuou em tom baixo, mas suas pausas começaram a diminuir como se ela estivesse colocando toda a informação para fora de uma única vez – Ela já estava quase dormindo por causa do antitérmico e eu fiquei deitada com apenas o abajur ligado esperando conseguir levantar. Mas acabei adormecendo e não sei quanto tempo fiquei lá. Quando acordei – uma pausa maior quase a fez travar, mas Maia fechou os olhos e antes que Enzo a incentivasse ela voltou a falar – O rosto dela estava colado a lateral do meu. O braço direito dela jogado por cima da minha barriga me segurando perto. Eu travei Enzo. Não soube o que fazer e meu corpo travou porque era nítido pela respiração lenta dela batendo no meu pescoço que Alicia estava profundamente adormecida. Mas quando comecei a me mover para me afastar eu cometi o maior erro que poderia fazer naquele momento – ela falou colocando uma mão sobre a boca enquanto respirava fundo.

- Se acalma amiga – falou Enzo notando a bagunça que Maia parecia estar com o que havia acontecido naquela madrugada.

- Eu olhei pra ela. Eu não podia ter olhado pra ela – falou Maia descendo a mão direita para seu pescoço e a esquerda segurou seu pulso com certa força, mas sua voz quando recomeçou a falar foi deixando o tom apressado e desesperado de antes – O rosto dela estava tão perto. Tão perto. O nariz dela encostava no meu e eu cheguei a pensar que se me movesse um milímetro minha boca encostaria na dela. Mas mal esse pensamento cruzou a minha mente senti ela se mover enquanto dormia. Ajeitando a cabeça no travesseiro. E a próxima coisa que senti foram os lábios grossos dela tocando os meus – falou ela fechando os olhos verdes, seu corpo e sua mente relembrando o momento em detalhes – Não sei porque raios eu fiz o que fiz. Não pensei. Quando vi estava de olhos fechados pressionando minha boca na dela e isso é tão errado. Tão errado, Enzo. Eu me sinto uma aproveitadora por ter me aproveitado do sono dela pra isso – admitiu Maia abrindo os olhos e encarando a expressão surpresa e comovida do amigo – Quando me dei conta do absurdo que estava cometendo me afastei e saí sem acordá-la.

Houve uma pausa para ambos. Maia controlando sua ansiedade por ter admitido tudo ao amigo e Enzo absorvendo as informações e montando o quebra-cabeças que eram os sentimentos da amiga. Quando ela achou que ele não teria nada a dizer sobre o assunto decidiu-se a encerrar a chamada dizendo que precisava ficar sozinha, mas antes que realizasse seus planos a voz do rapaz se fez presente.

- Amiga – chamou ele com um olhar amoroso dirigido a imagem de Maia que ele via em seu computador – Me diga uma coisa, mas seja 110% sincera comigo e com você – quando Maia afirmou com a cabeça que seria ele tomou fôlego para a pergunta – Nesse exato momento, quando pensa nesse selinho que deu na veterinária, o que te assusta mais? Ter beijado ela? Ou ela descobrir que fez isso?

- Eu não... – ela começou, mas parou antes de dizer uma frase completa pensando nas palavras da pergunta do amigo que, realmente, era a grande questão do momento e Enzo foi paciente deixando Maia pensar sobre por longos minutos até que ela baixou a cabeça antes de responder – Me assusta que ela descubra e fique brava por isso ou se afaste de mim por causa do que fiz – admitiu Maia antes de voltar a erguer o rosto para encarar o amigo que tinha um sorriso discreto.

- Amiga – falou Enzo de forma suave chamando a atenção dos olhos verdes que pareciam um pouco distantes ainda – Você está apaixonada por essa veterinária não está? – ele questionou de forma direta, mas carinhosa.

- Eu não sei Enzo – respondeu Maia, mas ela sabia que a resposta real era sim e o rapaz percebeu que a amiga apenas estava no final do processo de negação ainda – Só sei que não quero perder a amizade dela.

- Certo – continuou ele controlando sua vontade de rir – Você nunca me mostrou quem é essa tal Alicia. Ótima hora para me apresenta-la, não sou Frederico que parece ter um gaydar digital, mas talvez possa ajudar. Me mande o facebook dessa veterinária ai para eu saber se tem chances dela fazer parte do lado colorido da força – falou ele em tom de brincadeira, mas realmente querendo que Maia fizesse isso.

O jeito descontraído acabou por fazê-la rir e aliviou o clima tenso que tinha se instalado pela confusão de sentimentos na mais nova. Maia até negou por um tempo, mas Enzo insistiu e, como sempre, a convenceu. Ela enviou a ele facebook que tinha encontrado da clínica Ferraz e esperou os palpites do amigo que se animou batendo palmas enquanto começava a olhar as fotos disponíveis.

- Ai, Senhor. É difícil dizer – Enzo falou depois de vários minutos provocando risos com suas expressões engraçadas ao analisa as fotos – Se fosse um boy eu teria mais certeza, mas essa Alicia não sei não. Teria que ver pessoalmente para ter certeza. Espera que vou chamar meu especialista, mesmo que o incide de acerto dele online não seja melhor que o meu presencial – falou o rapaz rolando os olhos e virando o rosto na direção da porta que estava logo atrás de si – FREDERICO VEM AQUI! – ele gritou e Maia conseguiu ouvir o som de algo caindo ao longe antes de um rapaz alto, magro e sem camisa aparecer na porta quase caindo ao sair do corredor para dentro do quarto.

- O que? Aconteceu algo? O que foi? – perguntava o rapaz de pele escura com os cabelos encaracolados bagunçados presos por um elástico, ele tinha um pano pendurado no ombro e usava um short branco que chegava aos seus joelhos e parecia assustado com o grito de Enzo.

- Bolinho vem aqui olhar essas fotos pra mim – pediu o melhor amigo de Maia chamando o outro com uma mão e apontando para a tela do computador com a outra.

- Me deu esse susto para me pedir para olhar fotos? – perguntou o outro indignado puxando o pano dos ombros e começando a bater nas costas de Enzo.

- Para! É sério Fred – ria Enzo enquanto tentava se defender e esconder o pescoço e orelhas – É importante, vai. Para ajudar a Maia – disse apontando para a tela que tinha a pequena janela da chamada ativa do Skype.

- Bom dia Frederico – falou Maia começando a rir já que havia segurado o riso durante a cena toda.

- Senhor, podia ter me avisado que estava falando com a Maia. Assim eu teria vestido uma camisa antes. Desculpe por isso Maia, Enzo as vezes fica mais afetado que o normal e me coloca nessas situações – acusou o rapaz se aproximando da cadeira e Enzo a afastou da mesa para que o namorado se sentasse em uma de suas pernas para olhar as fotos – Quem é? – perguntou ele após ver uma das fotos.

- Bolinho, precisamos do seu gaydar digital aqui – falou Enzo abraçando o rapaz – Essa é Alicia, uma veterinária da cidade onde Maia está morando agora. Depois te explico a história toda, mas o que pode nos dizer sobre ela?

Frederico olhou as fotos que estavam ali por alguns minutos com uma expressão avaliativa deixando Enzo em expectativa e Maia cada vez mais ansiosa.

- Que mulher confusa – falou o rapaz depois de avaliar as fotos – Eu dou 70% de chances dela ser lésbica ou estar no meio do caminho. Mas os outros 30% estão me confundindo muito.

- Ai, viado. Nem pra você ajudar – reclamou Enzo dando um tapa leve no ombro de Fred – Que ela é confusa eu já tinha reparado, queríamos uma confirmação das chances – ele soltou um suspiro longo enquanto o namorado rolava os olhos e encarava a câmera fazendo sinal com a mão que o outro era louco – Não me sobram alternativas. Irei visitar você Maia. Daí poderei vê-la pessoalmente e ter certeza.

- Enzo, você não tem aulas para dar? – questionou a de olhos verdes rindo da interação dos dois e não acreditando realmente que o amigo falava sério.

- Ainda tenho uma semana de folga – contou ele sorrindo – Você não se importa se eu for ver Maia por uns dias, não é? – ele perguntou a Frederico com olhar pidão e o outro rolou os olhos antes de dar um selinho no namorado e se levantar.

- Claro que não, vocês precisam mesmo se ver. Faz anos que não se encontram pessoalmente – falou ele indo para a porta – Agora vou voltar a minha faxina. Beijos Maia.

Os dois amigos se encararam e Enzo foi o primeiro a rir sendo logo acompanhado por Maia. Ele pesquisou as passagens e combinaram que ele sairia de São paulo na manhã de terça. Maia prometeu que mandaria alguém busca-lo no aeroporto e deu as instruções de quem seria. Acertaram tudo e encerraram a chamada. Quando se viu sozinha Maia encarou novamente a jaqueta preta. Tinha encarado parte de seus sentimentos pela veterinária naquela conversa, mas sabia que, assim que chegasse, Enzo a faria encarar o que se negava a aceitar.

 

Deixou o notebook do outro lado da cama e puxou a jaqueta se deitando contra seus travesseiros e abraçando a peça próxima a seu rosto. A única coisa que sabia com certeza e que não conseguiria nunca negar a si mesma era que não saberia mais ficar sem a presença da veterinária de olhos cor de mel. 

Fim do capítulo

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