O Seu Inferno
Mais uma semana havia se passado e Camila se culpava por ainda não ter encontrado uma solução para resolver aquela situação. Sua vontade era de correr para os braços de Evellyn e fazer dali o seu refúgio, onde nada e nem ninguém fosse capaz de alcançar. Mas ela sabia que não era tão simples assim. A cada dia que passava o seu desespero aumentava. Tinha medo de perdê-la de vez. Tinha medo de não conseguir ajudar. Tinha medo do que poderia acontecer. Aquela situação já estava ficando insustentável, principalmente porque ela não podia se abrir com ninguém.
O sábado chegou após uma longa semana que havia passado se arrastando. Passou o dia agoniada, aflita. E ela sabia o porquê.
- Eu queria que você fosse comigo, mãe. – estava enrolada em sua toalha enquanto procurava uma roupa em seu guarda-roupa.
- Eu não posso, filha. – Daisy observava a loira sentada em sua cama – O Rob me convidou para jantar na casa dele hoje. Disse que tinha uma surpresa pra mim. Não posso desmarcar.
- Eu não queria ir sozinha. – suspirou.
- Chame o Denis. Tenho certeza que ele adoraria ir.
- Já chamei, mas ele também tem um compromisso inadiável. – bufou.
- Ah, agora que ele conheceu esse novo namorado misterioso vai ser difícil encontrar ele disponível. Deixa ele curtir, início de namoro é sempre assim.
- Ele disse que não é namoro. – levou um vestido ao seu corpo e analisou no grande espelho na porta do guarda-roupa – Disse que esse tal cara misterioso vai ter que conquistar ele primeiro e fazer por merecer.
- E ele ta certo mesmo. Já sofreu tanto, tadinho. Precisa ter certeza de que está com alguém que o dá valor.
- É verdade. – fez uma careta e jogou o vestido na cama.
- Esse está bonito, filha. Por que não usa ele?
- Não, não está.
- Você fica linda de qualquer jeito, não precisa escolher tanto.
- Quem dera fosse assim mesmo.
- Deixe de drama. É só uma festinha de criança, qual a dificuldade de escolher uma roupa?
- Eu não posso simplesmente querer estar bonita pra mim mesma? – disse passando cabide por cabide.
- Pode. Mas tem certeza que é só pra você mesma?
- Eu não sei do que está falando.
Daisy levantou-se e abraçou a filha pelo ombro.
- Você sabe, eu sei, todo mundo sabe. – sorriu – Diga a ela que eu mandei lembranças. – deu um beijo na testa da loira e saiu em seguida.
***
- Camila! – a figura grande e máscula de William a recebeu assim que ela adentrou sua casa – Obrigada por ter vindo.
- Eu que agradeço pelo convite, William. – disse o abraçando.
- Como você está?
- Estou bem, e você, como vai? – o encarou com um sorriso terno.
- Bem também, obrigado. – devolveu o sorriso – Vem, vamos entrando. – a levou até o quintal nos fundos.
- Onde está a aniversariante?
- Está ali. – apontou para a pequena sentada em um banquinho onde recebia uma pintura no rosto – Abby! – se aproximou com Camila.
- Que pintura bonita! – a loira se agachou a fitando – Você está linda.
- Obrigada. – agradeceu com um largo sorriso.
- Filha, essa é a Camila.
- Meus parabéns, Abby! Posso te dar um abraço?
- Sim. – disse sem jeito recebendo o abraço carinhoso de Camila.
- Eu trouxe um presente pra você. – pegou um pacote embrulhado no chão ao lado e a entregou – Espero que goste.
- Como se diz, filha? – William incentivou.
- Obrigada tia, Camila. – sorriu largo já rasgando o embrulho – Uma boneca! É a Barbie, pai. Olha! – levantou a caixa saltitante.
- Você gostou?
- Sim! Ela é linda! – disse com os olhinhos brilhantes na boneca – Se parece com você. – ergueu-a ao lado do rosto de Camila e comparou.
- Oh, você acha mesmo?
- Sim.
No mesmo instante a pequena encarou um ponto atrás de Camila e sorriu alegre.
- Tia Evellyn! – correu em direção à mulher logo atrás.
Camila sentiu seu coração errar uma batida ao ouvir aquela voz que tanto conhecia.
- Abby, meu amor! Que saudade. – a ergueu no colo em um abraço apertado – Como você está?
- Bem.
- Que boneca linda. Você ganhou de presente hoje?
- Sim, foi a tia Camila que me deu. Aquela ali, olha. – apontou para onde Camila estava observando a cena ao lado de William.
Evellyn encarou Camila sentindo um aperto em seu peito. Era estranho vê-la e ter a sensação de que eram estranhas ou meras conhecidas. Era estranho sentir mágoa, mas não conseguir ter raiva ou rancor. Era difícil saber lidar com o orgulho quando tudo que ela mais queria era tê-la de volta.
- Ela se parece uma boneca, né? – a pequena tirou Evellyn de seus devaneios.
A morena se limitou a sorrir e ir em direção aos dois.
- Olá. – sorriu fraco.
- Olá, senhorita Campbell. – o homem sorriu – Obrigado por ter vindo.
- Não precisa agradecer, William. Você sabe que eu adoro seus filhos. – deu um beijo na bochecha de Abby – E por favor, nada de senhora ou senhorita. Aqui é só Evellyn.
O homem assentiu.
- Abby! – uma voz fina foi ouvida – Venha tirar uma foto com a vovó! – era Diana, mãe da criança.
- Venha, querida. – William a pegou dos braços da morena – Vamos lá tirar umas fotos. Você é a estrela do dia!
- Depois volte para pegar os presentes que eu trouxe. – a morena disse recebendo um sorriso empolgado da menina.
Um breve silêncio pairou entre as duas que agora estavam a sós.
- Como vai, Camila?
- Bem. – a fitou – E você?
- Ótima.
- Por que não trouxe o seu namorado?
- Pelo mesmo motivo que você não trouxe a sua namorada.
- Eu não estou namorando ninguém. – sorriu irônica.
- Justamente. – a loira semicerrou os olhos e saiu dali.
Antes que Evellyn pudesse protestar sentiu um pequenino bater contra suas pernas.
- Tia Evellyn! – o filho mais novo de William rodeou seus bracinhos nas pernas da morena.
- Oi, Junior! – abaixou o abraçando de volta – Tudo bem com você?
- Sim. – sorriu largo.
- Olha só como você está grandão! – o admirou – Está crescendo rápido.
- Eu sou um guerreiro policial e ninja! – levantou os bracinhos – Sou forte que nem o papai!
- Estou vendo. – sorriu com ternura – Vamos lá pegar os presentes que eu trouxe pra vocês?
- Vamos! – pulou animado.
- Sua família é linda, William. – Camila dizia sentada em uma das mesas enquanto observava as crianças brincando com o palhaço que animava a festa.
- Obrigado. São o meu maior tesouro. – disse orgulhoso.
- É... – o encarou sem jeito – Como estão as coisas lá na empresa?
- Até onde eu sei está tudo bem.
- Que bom. E na casa da Evellyn? Está tudo certo? Nenhum acontecimento estranho?
- Não. Tudo normal. Por quê?
- Nada. Só pra saber.
- Camila, eu não sei se você se lembra, mas além de motorista eu sou chefe da segurança da Evellyn. Meu dever é cuidar do seu bem estar. Eu devo isso à família Campbell, mas principalmente a ela. Se você sabe de algo que possa colocar em risco a sua segurança, por favor, me diga.
- Não, eu não... Eu não sei de nada, William. – disse nervosa – Por que acha que eu saberia de algo?
- Porque eu sou treinado para saber quando alguém está mentindo ou escondendo algo.
A loira suspirou pesado e fixou os olhos em suas mãos que suavam sobre a mesa.
- Olha, desde o dia em que você saiu da empresa percebi que estava agindo estranhamente. – o homem continuou – No início imaginei que fosse por causa da... bem você sabe. Mas então eu percebi uma movimentação estranha de uns tempos pra cá. E agora você me faz esses questionamentos. Camila, se você sabe de algo, por favor, me fale. Eu sei que você não quer o mal da Evellyn.
- Não, eu não quero. – olhou mais a frente observando a morena brincar com algumas crianças. “Adorável”. Foi a primeira palavra que veio em sua mente – O que aconteceu para você desconfiar que algo esteja errado?
- Eu tenho percebido que alguém tem observado a Evellyn. Ela é seguida constantemente. No início achei que fosse um repórter, paparazzi ou algo assim, mas resolvi seguir pra me certificar. E foi aí que aconteceu o mais estranho. Esse homem que estava a seguindo foi de encontro ao irmão dela, o Marco.
Camila sentiu seu coração gelar.
- Fiquei na espreita observando de longe. Eles se encontraram em um lugar afastado, uma espécie de galpão há alguns quilômetros depois da saída da cidade. Não deu pra ouvir o que diziam, mas vi quando o Marco entregou para ele um pacote com o que presumi ser dinheiro.
- Ele não estava mesmo brincando. – Camila sentiu seu corpo estremecer. Seu coração acelerado e seus olhos marejados denunciavam o quanto ela estava nervosa – Ele vai... Meu Deus! – levou as mãos ao rosto.
- O que houve, Camila? O que é que está acontecendo?
- Eu preciso da sua ajuda, William. Você é o único que pode me ajudar.
- Ajudar com o que? Me conte o que sabe para que eu possa entender.
- O Marco, ele... – suspirava nervosa – Ele está desviando dinheiro da empresa. A Evellyn descobriu há um tempo e me pediu pra ajudá-la a investigar, mas antes que conseguíssemos provas suficientes aconteceu tudo aquilo e eu tive que sair da empresa.
- Tudo aquilo o que? – a olhava atento.
Camila sentia sua garganta doer por tanto prender o choro. Seu coração se apertava em seu peito e suas mãos tremiam como todo o seu corpo.
- Calma. – William segurou em suas mãos – Calma, Camila. Eu vou ajudar, mas preciso que me conte tudo o que sabe.
- Com licença. – Diana se aproximou fitando os dois com os olhos semicerrados – Querido, vamos lá para cantar os parabéns pra Abby.
- Sim, vamos sim. – se levantou rapidamente seguido por Camila – Di, essa é a Camila, que trabalhava na empresa da senhorita Campbell. – disse apresentando-a.
- Ah, sim. – a encarou – Você já me falou dela. – sorriu estendendo a mão para um cumprimento – Você é a namorada da Evellyn, né? Muito prazer, Camila.
A loira arregalou os olhos e corou sem graça.
- Não, Diana, não. Elas não estão mais juntas. – William cochichou sem jeito.
- Oh, me desculpe. Eu não sabia.
- Tudo bem, não tem problema. – sorriu sem jeito – O prazer é todo meu, senhora Robinson. – cumprimentou de volta – Eu estava dizendo para o William que vocês têm uma família linda.
- Obrigada! Mas vamos lá?
- Abby, faça um pedido antes de assoprar as velinhas! – alguém gritou ao redor da mesa onde estavam todos reunidos.
A pequena sorriu e pensou por uns instantes.
- Eu desejo ficar boa do meu coraçãozinho logo pra mamãe e o papai não chorarem mais por mim. – com um sorriso inocente ela se abaixou e soprou as velas que se apagaram todas de uma só vez.
Não houve quem não se emocionasse ali. Todos bateram palmas, muitos com os olhos marejados e os sorrisos carinhosos direcionados à pequena.
Camila observou Evellyn que levou uma mão aos olhos tentando esconder uma lágrima. Suspirou fundo como se lhe faltasse o ar para então se afastar dali.
Seguiu para dentro da casa sumindo das vistas da loira. Camila pensou por alguns segundos para então a seguir.
Procurou pela cozinha, sala e por fim na varanda na frente da casa, onde a encontrou em um pequeno sofá com a cabeça abaixada.
- Oi. – se aproximou devagar.
Ao percebê-la ali, Evellyn se ajeitou e enxugou seu rosto rapidamente. Sem obter resposta, Camila se sentou ao seu lado.
- Ela é uma criança adorável. – puxou assunto novamente.
- Ela não merecia passar por isso. É só uma criança. – respondeu sem olhar para ela.
- A vida tem dessas coisas que a gente não entende.
- A vida é injusta às vezes. – fungou tentando conter o choro.
- Ela vai ficar bem, tenho certeza disso. Você ajuda tanto ela e essa família.
- Eu queria poder ajudar mais. Não é o suficiente, ela ainda não conseguiu o transplante. A qualquer momento ela pode... – respirou fundo sentindo uma lágrima escorrer pelo seu rosto.
- Algumas coisas estão fora do nosso alcance, você faz o que pode. Se não fosse por você provavelmente ela não teria chegado até aqui. Não seja injusta com você mesma.
Dessa vez ela não conseguiu mais segurar o choro que estava preso em sua garganta. Desabou sendo amparada pelos braços de Camila.
- Vai ficar tudo bem. – a loira sussurrou.
- Na minha vida nada tem ficado bem. – disse tentando se acalmar aos poucos.
- Mas vai ficar.
Evellyn se afastou.
- Engraçado você falar isso. A pessoa que é um dos motivos pelo caos na minha vida dizendo que vai ficar tudo bem. – sorriu sem vontade.
- Eu sinto muito por isso. Por ser um caos na sua vida.
- Não era para ser assim. Você poderia ter sido a melhor coisa que já me aconteceu, mas preferiu se tornar a pior.
- Você vê assim? Me tornei a pior coisa que já aconteceu na sua vida?
- Digamos que no ranking você está num nível bem elevado.
Camila sorriu entristecida.
- Sabe qual é o problema todo? – Evellyn disse sem encará-la – Eu não consigo esquecer. Não consigo simplesmente tirar você da minha cabeça, da minha vida, como você fez tão facilmente.
- E quem disse que eu consegui fazer isso?
- É o que parece. Eu me odeio por não conseguir odiar você. Eu queria poder te jogar em um baú bem fundo na minha mente e perder as chaves pra nunca mais pensar, nem me lembrar.
- Eu não queria que fosse assim.
- Ah, não? Pois você parece ótima assim. Ou então disfarça muito bem.
- Talvez a necessidade tenha me tornado uma boa atriz.
Evellyn a fitou nos olhos.
- O que eu fui pra você em sua vida, Camila?
Após uma pausa sem desviar o olhar ela respondeu.
- Você foi como aquela música boa que a gente escuta pela primeira vez e não se cansa de repetir. Que faz a gente sentir o coração vibrar ao ouvir. Que acalma a alma e ao mesmo tempo te faz querer pular feito uma louca gritando em alto e bom som como é boa a sensação e como você se sente bem quando ouve.
Evellyn avançou sobre ela para um beijo, mas Camila desviou o rosto.
- Não, Evellyn.
- Por que não, Camila? – segurou em sua nuca com o rosto colado no seu.
- Eu não posso, por favor, vai ser melhor assim.
- Não vai não. – roçou os lábios em seu maxilar aspirando o seu cheiro – Eu sinto a sua falta e sei que você também sente a minha.
- Por favor, não torna isso mais difícil. – apertou seus olhos ao sentir aquele toque.
Evellyn depositou um beijo em seu rosto seguido por vários outros até chegar em sua boca, onde parou. Segurava seu rosto com as duas mãos
- Eu sei que você ainda escuta essa música aí, Camila. – a olhava no fundo dos olhos – Vamos ouvir juntas.
Camila se afastou respirando fundo. Sentiu seu peito doer de tão forte que batia o seu coração. Suspirou mais uma vez, tomando coragem. Precisava fazer aquilo.
- Como toda música, por melhor que ela seja, um dia a gente se cansa de ouvir.
Evellyn sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. As lágrimas voltaram aos seus olhos fazendo com que ela as secasse rapidamente. Não se permitiria sofrer. Não na frente dela.
- Tudo não passou de um momento de diversão pra você, não foi? Você aproveitou o momento, enjoou e foi embora. – dizia com mágoa na voz.
Camila sentia como se despedaçasse por dentro a cada palavra, mas preferia que fosse assim. Não poderia fraquejar. Não ainda.
- Eu só vou descansar quando tudo isso que eu sinto por você se tornar desprezo. E isso já não está muito longe de acontecer.
Camila viu ela partir sem nada dizer. O desespero tomou conta de si. A raiva, o medo. Tudo de uma só vez, fazendo com que ela desabasse ali mesmo.
- Camila? – ouviu a voz de William – O que houve?
- Ela vai me odiar, William. – dizia em meio ao choro – Ela vai me odiar e eu não posso fazer nada pra mudar isso agora.
- Não, calma. – a abraçou pelos ombros.
- Eu preciso ir. – se afastou enxugando seu rosto.
- Você precisa me contar o que sabe, o que está acontecendo. Temos que resolver essa situação. Você não pode continuar sofrendo sozinha assim.
- É melhor eu ir, sua esposa não gostou muito de me ver com você.
- Não se preocupe. Eu já expliquei tudo à ela.
- Você não contou nada a ela, contou?
- Não, só falei sobre você e a Evellyn e sobre a situação complicada de vocês, fique tranquila.
- Tudo bem. Vá até o meu escritório na semana que vem que eu vou lhe contar tudo o que está acontecendo.
- Está bem. Nós vamos resolver isso, Camila. Nós vamos dar um fim a esse problema.
***
- Boa noite, senhorita Evellyn. – a governanta a recebeu com a cerimônia habitual.
A morena passou rapidamente por ela sem responder. Começou a subir as escadas, mas antes da metade parou e desceu sendo observada por Ivone.
Foi até a bancada do bar em sua sala e encheu um copo com a bebida mais forte que havia ali. Virou-se para sair e deu meia volta, voltando para pegar a garrafa inteira.
Estava na sacada de seu quarto largada no chão. O copo já não usava mais. Dava longos goles direto da garrafa.
- Eu vou te odiar, Camila Clarke! – dizia a si mesma – Eu vou te odiar, nem que eu precise arrancar meu coração daqui.
***
Do outro lado da cidade Camila chorava no sofá de sua casa.
“Eu devia me odiar por ser tão covarde assim. – pensava – Eu deveria enfrentar tudo isso por nós, mas deixei o medo me vencer. Eu sou um lixo, eu não mereço você, Evellyn. – fungava entre um soluço e outro –Mas foi por você. É tudo por você! Eu vou te merecer, você vai ver.”
- Eu vou merecer o seu amor! – disse por fim.
Sentiu seu celular vibrar e ao olhar a tela seu coração disparou. O número não identificava o remetente, mas ela já imaginava quem seria.
Fechou seus olhos assim que leu a mensagem e se deixou cair no choro novamente.
***
Chovia fortemente naquela noite fria de segunda-feira em New York. Camila estava tão concentrada em seu trabalho que não havia percebido o tempo passar. Há horas tinha mandado Barbara encerrar suas atividades e ir para casa, mas nem notou se a jovem já havia saído e muito menos que horas eram. Mantinha os olhos fixos em uma pilha de papéis em sua mesa. Lia atentamente, parecendo não se importar com o cansaço que já lhe abatia. Sua concentração foi interrompida pelo barulho da porta de sua sala sendo aberta.
Antes mesmo de levantar o olhar ela abriu a boca para protestar com a secretária por ainda estar ali.
- Barbara, por que ainda não...
Assim que pôs os olhos na figura à frente sua boca se calou. As conhecidas sensações que só uma pessoa em toda sua vida foi capaz de lhe causar tomaram conta de si. Seu corpo estremeceu, um arrepio correu por sua espinha e seu coração batia tão forte e acelerado que ela temia que ele saísse de seu peito a qualquer momento.
- Você devia ser mais cuidadosa. Não é nada seguro deixar a porta aberta enquanto está sozinha aqui. – aquela voz suave e firme ecoou em seus ouvidos, fazendo com que ela despertasse.
- O que está fazendo aqui? – disse com dificuldade.
A morena aproximou-se calmamente e se sentou na poltrona à frente.
- Eu estava passando aqui por perto e me lembrei que ainda não tinha te parabenizado por sua nova conquista. – sorriu levemente sem tirar os olhos da loira.
Um clarão entrou pela janela atrás, já embaçada pela chuva que escorria pelo vidro. Em seguida um estrondoso trovão ressoou, fazendo com que Camila contraísse seu corpo em sua cadeira. Apertou suas pálpebras com força. Engoliu a saliva com dificuldade. Ela estava nervosa e Evellyn notou isso.
- Obrigada. – abriu os olhos e encarou a mulher à sua frente.
Aqueles olhos de lince estavam fixos nos dela. Mais um clarão e mais um estrondo. Dessa vez ela se manteve firme, mas não o suficiente para conseguir esconder seu nervosismo.
- Tem medo de tempestades?
- Os trovões me incomodam um pouco, mas acho que tenho outras coisas com que me preocupar no momento. – a encarou.
- Tem medo de mim?
- Eu deveria ter?
- Talvez. – sorriu – Se importa se eu tirar meu casaco? – disse se levantando e retirando seu sobretudo de cor escura, sem esperar uma resposta.
Camila observou atentamente seus movimentos calmos e elegantes, analisando a silhueta bem desenhada do seu corpo surgir sob o seu habitual traje formal de trabalho.
- Eu não acho que... – desceu o olhar pelas costas de Evellyn que virou-se para depositar o casaco sobre um móvel ao lado. Pigarreou – Não se incomode. Eu já estou de saída.
Se levantou e começou a juntar seus pertences sobre a mesa. Rapidamente juntou alguns papéis e os levou até o armário ao lado, guardando-os em seus arquivos. Mal virou-se e sentiu o choque contra seu corpo. Aquele conhecido perfume invadiu suas narinas. As mãos fortes a seguravam pela cintura, pressionando seu corpo contra o dela.
Um apagão. A energia caiu e tudo se escureceu ali.
- Eu acho que não. – um sussurro contra seu rosto e mais um relâmpago.
O contorno da feição de Evellyn foi desenhado pelo clarão vindo da janela. O verde daqueles olhos intensos penetravam os dela, que permanecia imóvel. Não pensava. Não respirava. Só sentia.
- Vai embora, Evellyn! – um fio de voz saiu de si.
- Não, eu não vou.
- Por que isso?
- Porque eu estou com raiva de você! Porque se eu não posso ter o seu coração eu vou ter o seu corpo. – Evellyn avançou em seu pescoço, desenhando com a língua e distribuindo beijos pela região – Porque você é minha, Camila. Só minha!
Camila desejava com todas as suas forças conseguir mandá-la parar e sair dali, mas tudo que saiu de sua boca foi um longo suspiro.
- Evellyn, não... – disse quase sem voz – O que pensa que vai fazer? – tentava se manter firme.
A morena parou imediatamente e a encarou novamente.
- Eu vou foder você. – sussurrou – Com força! Até você não ter forças nem pra me pedir pra parar.
Camila a encarou sem fala. A única reação que seu corpo teve foi sentida entre suas pernas. Não teve tempo de assimilar o que ouvira e logo sentiu seus lábios serem pressionados contra os da morena e sua boca ser invadida por sua língua. Era um beijo impaciente, rude.
Num momento de razão a loira se afastou, empurrando Evellyn e fugindo dali. Mas seus passos não foram longe. No mesmo instante a morena agarrou seu braço e a puxou para si novamente.
- Me larga, Evellyn!
- Eu não vou largar!
- Quem você pensa que é pra chegar aqui e simplesmente achar que pode fazer comigo o que bem entender?!
- Eu preciso mesmo responder a essa pergunta? – um sorriso irônico brincava em seus lábios.
- Vai pro inferno! – disse tentando se soltar.
Evellyn a empurrou contra a mesa ao lado com tanta força que a fez sentar sobre a madeira fria. A puxou pelas pernas e se encaixou entre elas, colando seus corpos novamente.
- Já estamos no inferno, Camila. – segurou com força o rosto da loira em sua mão – Eu sou o seu inferno!
Mais um clarão as iluminou e naquele momento Camila percebeu que seria impossível fugir. Ela não podia fugir. Não queria fugir.
Os olhos febris iluminados em sua frente a fizeram crer. Ela realmente estava no inferno e aquela era a diaba mais linda que ela já havia visto na vida.
Fim do capítulo
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