Capítulo único
Era uma vez, num lugar muito muito distante, uma linda mocinha chamada Daniela.
Daniela morava no apartamento mais alto, do prédio mais alto da maior cidade daquela região e nunca saia de seu quarto, protegido por paredes grossas e pesada cortina, que ela nunca abria.
O acesso à Daniela exigia muita coragem. Vários desistiram no caminho. Fosse ao encontrar os dragões - que atendiam por “papai e mamãe” e protegiam a entrada, mas sempre deixavam um e outro escapar-, fosse pelas armadilhas que ela mesma colocara.
Na verdade, Daniela gostava de seu mundo escuro e solitário. Lá dentro, e isto só ela sabia, podia criar personagens e pintar o mundo da cor que bem quisesse. E seu mundo, aquele no qual ela vivia na tela de um computador, era bem colorido e movimentado.
A sempre séria e acanhada Daniela protegida na torre, era uma Dani muito alegre e amistosa no mundo paralelo. Tinha amigos e para eles estava sempre disponível. Emocionava-se com suas histórias, vivia uma parte de cada uma delas. Viajava através dos olhos das centenas de pessoas com as quais convivia.
- Daniela, minha filha, saia deste quarto. Está esperando o Príncipe Encantado?
Era o que seu pai sempre falava. E ao que ela respondia mentalmente: “não, espero por uma princesa encantadora”.
E Daniela, sob as cortinas da indiferença, realmente esperava por sua princesa. “Essa que eu hei de amar será assim tão bela e tão...”.
Não, Daniela não era como o poeta. Não queria uma pessoa linda, loira ou jovem. Queria alguém de carne e osso e que se importasse com ela mais do que com qualquer coisa do mundo.
Queria alguém que ficasse sem fôlego ao vê-la, não porque ela fosse bonita, loira ou jovem, mas por ser... Ela.
E assim, com seus sonhos encantados e o medo da vida de verdade montando arapucas ao seu redor, Daniela passava os dias a suspirar em frente à tela do seu computador. Esperando pela princesa que um dia viria resgatá-la.
Apesar do medo, no fundo no fundo, a moça do quarto escuro queria sentir o sabor da vida, já estava se enjoando do arremedo anêmico que era seu universo particular.
Um dia, quando os drag... opa, seus pais foram viajar e ela, como sempre, negou-se a fazer-lhes companhia, ouviu a campainha tocar. Com imensa má vontade, abriu a porta de seu mundo para espiar o audacioso intruso.
- Olá, moro aqui no seu prédio – foi dizendo a estranha, e todos os seus vizinhos eram estranhos, assim que ela abriu a porta. – Você estaria interessada em ver uns catálogos?
A moça, Daniela percebeu, mudou o tom de voz à medida que a olhava. Viu seu reflexo em outro olhar e - ficou encantada em perceber - era única ali dentro.
Abriu a porta da casa e de seu mundo para a estranha. Sentiu, pela primeira vez, que poderia terminar a poesia: “Essa que eu hei de amar, a princesa que irá me encontrar no apartamento mais alto do prédio mais alto, vencendo todos os improváveis será... Uma vendedora da Natura”.
Fim do capítulo
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