Capítulo único
Demorei tanto pra ouvir o som do meu coração. Toda a vida ele soou calmo, sem sobressaltos, acostumado que era em bater sozinho. Era quase um silêncio resignado.
Agora convivo com seus constantes disparos, basta que ela sorria pra mim, ou fique de me ligar. Às vezes, quase sempre na verdade, só precisa do seu olhar para que ele se empolgue e torne-se quase um percursionista do Olodum.
Há algumas horas a batida estava quase inaudível. Não fosse o vazio que tomava conta de mim, não poderia mesmo ouvir o eco daquelas palavras que me assombraram. Eu me sentia fraca, doente, uma grande ferida aberta ambulante.
Com passos lentos, daqueles de quem caminha sobre espinhos e sabe que não pode voltar atrás, iniciei o percurso que há meses queria evitar.
Eram os meus passos para o fim. De um sonho, de uma ilusão, da esperança. O fim de um namoro que eu nem me lembro quando começou, mas que sem dúvida era a melhor coisa de toda a minha vida.
Na noite anterior recebi a ligação. Como de costume atendi apressada, odiava perder segundos preciosos da conversa com ela. O tom da voz não era o mesmo. Minha namorada sempre tão vibrante e empolgada parecia assustada, receando falar comigo. Pedi que ela me contasse o que tinha acontecido. Eu estaria ali para ela para qualquer situação. Mas então, ela quebrou o meu mundo ao declarar a fatídica sentença para qualquer namoro: “Olha, precisamos conversar, não dá pra te falar isto por telefone”.
Agora eu ia para o encontro marcado. A boca dos melhores beijos, que me fez ver estrelas nas noites mais nubladas, iria me dizer que a culpa não é minha, não foi nada que eu fiz, mas que ela estava confusa, precisando de um tempo pra ela mesma. Que gostaria de continuar sendo minha amiga, mas que precisava ficar sozinha. Quem sabe ela até dissesse que queria me ver feliz, pra eu arrumar outra pessoa. Como se isto fosse possível. Foram 27 anos pra achá-la, a mulher perfeita, como eu poderia encontrar outra pessoa na vida?
Fiquei com raiva deste discurso evasivo dela. Que ela ainda nem tinha feito, mas faria, com certeza. Terminar com um lugar comum de todo relacionamento banalizaria o que eu sentia. E o que eu sentia era o que havia de mais precioso.
Resolvi então mudar as regras do jogo. Eu não iria sair como a boazinha dispensada. Alguma coisa eu fiz que desagradasse, senão ela ficaria comigo.
Nossas noites eram tão animadas. Eu estava sempre presente e, quando notava que iria sufocar, dava espaço. Foram tantos os presentes, presentes sem data marcada, só porque eram coisas que me lembravam dela, flores, músicas, doces, carinho, ciúme, é ela gostava do meu ciúme. Ou será que só fingia que gostava? Vai que no fundo odiasse chocolate, fosse alérgica à perfume, detestasse aquela música ou...
Ah, que pena, parecia tudo tão bom! Ela era perfeita pra mim, conclui, naquela nota final, que poderia passar a vida toda ao lado daquela garota. Saborearia todos os dias o gosto daquela pele, me aqueceria para sempre no abraço mais aconchegante que já experimentei.
Inevitavelmente, cheguei ao Café que combinamos. Ironia do destino: o mesmo lugar em que por semanas a fio só trocamos olhares, onde em dia de lotação ocupamos a mesma mesa e ficamos conversando a tarde toda, esquecendo de trabalho e outros compromissos. Sempre voltávamos lá. A nossa mesa iria ter apenas uma dona a partir de agora. Nunca mais aquele café voltaria a ser bom, porque agora ele teria gosto de solidão.
- Oi, você demorou tanto...
- É, eu não estava com muita pressa - respondi já me esquecendo da resolução de terminar antes que ela o fizesse.
- Sabe, nosso relacionamento foi a melhor coisa que me aconteceu, você é a pessoa mais maravilhosa que eu conheço e...
Ela fez uma pausa, meu coração também, ela estava nervosa, e eu arrasada por perdê-la. E então ela proferiu a sentença que me fez congelar por segundos:
- Eu quero casar com você.
- Tá louca, mulher! - foi tudo o que tive tempo de gritar enquanto fugia correndo de perto daquela maluca que queria me amarrar.
Fim do capítulo
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Monica Franca
Em: 30/05/2017
Jesus amado...todo esse drama pra correr ????
Resposta do autor:
mas a outra apareceu com o laço armado! #TodasCorre
Cabrita de Paulo
Em: 27/07/2016
K k k k
Rindo mto aki, antes era tudo o q queria, mas foi só pensar em casamento q...
Pernas pra q te quero...
Bem Tipico de Eight Hands...
Mto bom,
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Resposta do autor:
Típico né! Eu só não corro mais pq não tenho fôlego, senão virava maratonista :P
Bjins, Cabritinha
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