Amor e caos por Ana Little


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Capítulo 7- Garota proibida

 

 

Eram duas da tarde quando Bárbara e as outras meninas chegaram da praia. Não vendo Rafaela em lugar nenhum, ela foi até a cozinha.

__A Rafa saiu, Míriam?__ perguntou à empregada.

__Não senhora. Faz um tempo ela pediu alguma coisa pra comer, mas continua no quarto.

Bárbie subiu a escada com passos rápidos. Bateu de leve na porta. E ouviu a voz baixa da amiga lá de dentro, pedindo para ela entrar.

Rafaela estava sentada num divã, com um bloco de desenho na mão, os olhos fixos no papel enquanto seus dedos trabalhavam.

__Eu não vi você chegar ontem à noite__Bárbie disse caminhando devagar e se sentando na cama.

Rafa parou o que fazia, dobrando e esticando os dedos, uma careta de dor, como se estivesse desenhando há muito tempo.

__Nem me lembro. Achei que vocês também iam sair ontem.

__As meninas foram pra aquela balada de forró que estávamos combinando, lembra?

__Sim.

__Mas eu estava cansada da pool party de sexta. Mas e então? Como foi a festa da tal Diana?

Pela primeira vez Rafa a encarou.

__Estranha. Ela é uma pessoa muito estranha, se quer saber. Mas__ o olhar de Rafa se iluminou__ O bom é que consegui ver a Angel. Vi o rosto dela direito, Bárbie!

Rafa esticou para a amiga o bloco de desenho.

__Uau!__ Bárbie disse ao pousar os olhos no papel. Ali estava um rosto angelical, com traços arredondados e suaves, lábios cheios, bochechas salientes e olhos que pareciam conter uma expressão curiosa, e ao mesmo tempo arredia. Enigmática__ Ela é mesmo bonita. Que rosto incrível!__ Bárbie não pôde deixar de refletir sobre o absurdo talento da amiga.

A paixão de Rafaela por desenhos havia sido descoberta por Glória, sua babá, quando ela tinha cinco anos. Devido a doença da mãe, a empregada era quem fazia tal papel, enquanto Júlia ficava o tempo todo trancada no quarto, consumida pela depressão. Glória na época havia sugerido que a garota tivesse o máximo de atividades para se distrair e evitar a presença da mãe, já que esta a rejeitava, em seus acessos de loucura.

Então vieram as aulas de arte.

Até que quando ela tinha sete anos, a professora procurou seu avô para falar de um desenho que a menina havia feito, dizendo ser do jardim da casa de praia da família. Mas era um emaranhado de plantas silvestres que formavam um ambiente inóspito e agressivo aos olhos. Em vez de cores vivas e alegres, havia a predominância perturbadora do negro naqueles rabiscos indefinidos, formando figuras raivosas e tristes.

Na manhã seguinte seu pai a levou pela primeira vez a um psicólogo.

Nas poucas lembranças concretas que Rafa tinha de sua infância com a mãe, só se lembrava de amá-la muito, e de fazer tudo para agradá-la. A loucura de Júlia, suas crises nervosas, depois melancolia, a rejeição por uma criança que parecia ter vindo para substituir a sua filha perdida... tudo isso ficaria refugado na mente da garotinha que não queria sair de perto da mãe nem mesmo sob as atitudes de rejeição. Rafa foi crescendo e isso foi sendo cada vez mais esquecido, até não sobrar mais nada. Aquelas memórias ruins ficaram guardadas em algum lugar dentro dela. E se evaporaram de sua consciência sob a força do tempo. Só que tirando aquelas recordações indesejáveis, tudo o que sobrava era o vazio. E nele havia a necessidade de pôr alguma coisa...

E assim viera sua adolescência onde os mimos do avô e a negligência de um pai ausente haviam causado um efeito negativo em sua personalidade.

A paixão por arte havia se sofisticado e chegado ao ponto de ela pensar em fazer faculdade de Artes Plásticas. Mas a família agia como se isso fosse uma espécie de desvio de conduta. E seu talento em matemática havia prevalecido, fazendo-a ingressar em Economia.

__O que foi?__ Bárbie perguntou__ Você não parece bem.

__Não consegui dormir direito.

__O que aconteceu na festa?

__Foi maravilhosa. Ela é linda. Irresistível e eu estou totalmente ferrada.

Bárbie riu.

__Eu avisei. Será que agora você pode voltar a agir normalmente e voltar pra sua vida comum?

__Não.

__Amiga... Para de ser teimosa. Tem tantas garotas nessa cidade pra você conhecer. Olha quer saber, maldito dia que a Val inventou de nos levar naquela boate.

__Relaxa, está tudo bem.

__Bem? Minha melhor amiga tentando se matar e está tudo bem?

Rafa riu, impaciente.

__Não fica preocupada porque a situação só tende a piorar.

__Mais?

__É. Eu cheguei a conclusão de que vai ser mais difícil do que eu imaginava. Mas quando eu a vi, Bárbie, tive a certeza. Eu quero aquela garota de qualquer jeito. Não importa como vou conseguir isso. Sabe... ela não é feliz com a namorada. Nem um pouco.

__Como você sabe?

__Eu pude sentir. A tal Diana a maltrata. A Angel é como uma propriedade dela. Isso me chocou. É uma garota linda e doce. Não entendo porque ela se mantêm numa situação dessas.

__Que estranho.

__Essa Diana é uma espécie de gângster, sei lá. A mulher pertence a alta-roda, deve ter aparecido em alguma revista, mas nunca prestei atenção. É empresária, tem amigos influentes.

__Imagino. Você disse que ela conhece seu pai.

__Sim. Embora eu nunca a tenha visto nas festas do meu pai, ou entre seus conhecidos.

__Verdade.

__Mas o mais esquisito é que me fez um convite.

__Outro? O que ela quer com você? Afinal, pelo que parece, ela percebeu que você ficou a fim da namorada dela.

__Eu não sei. Ela me convidou para acompanhar a Angel num evento beneficente de um amigo, no próximo sábado.

__O que acha que isso significa? Ih, amiga, acho melhor você não ir. Isso não parece bom.

__E perder a oportunidade de ver a Angel de novo? Eu não consegui resistir. Mas fica tranquila, eu já disse. Se essa mulher quisesse me matar, já teria feito. E pra todos os efeitos, eu quero apenas a amizade da Angel.

__Ah, meu Deus, só me faz o favor de ter cuidado, Rafa.

__Eu terei__ Rafa finalizou sorrindo, então escorou a cabeça no encosto do divã, suspirando__ Não consegui parar de pensar nela um minuto desde que nos despedimos na festa, sob a inspeção daquela Diana.

__Afinal, o que essa garota tem pra que você tenha ficado tão encantada? Afinal, você já pegou tantas mulheres lindas...

__Eu não sei. Decididamente não sei, amiga. Apenas não consigo parar de desejar vê-la de novo, e de novo. Quero conversar mais com ela, saber coisas sobre ela...

__Pois eu acho que você não está no seu juízo perfeito__Bárbie deu uma gargalhada.

__Talvez. Mas tenho a impressão de que esperei a minha vida inteira para conhecê-la. Agora vem, preciso ir ao shopping comprar alguma coisa pra vestir no sábado.

* * *

Açucena estava na jacuzzi, tentando relaxar dentro da água morna ao som de uma música em espanhol, que adorava, os olhos fechados, a cabeça apoiada na borda da hidro. Mas a verdade era que não conseguia mesmo relaxar, nem com uma música que adorava, estava inquieta. Só que era uma inquietação deliciosa. Precisava admitir que havia perdido sua paz (ou aquilo que chamava de o estado comum de sua vida) no momento em que encarara os olhos cinzentos daquela garota. Rafaela...

Não havia mais tranquilidade em seu estado de espírito desde o episódio do Fantasy, quando Rafaela havia cruzado seu caminho, primeiro como uma cliente aparentemente comum da boate, lá na plateia. Depois salvando sua vida naquele corredor quando estava prestes a ser sequestrada. Agora haviam também os acontecimentos da noite anterior na festa. Açucena conseguia se lembrar de cada detalhe da presença dela, cada conversa, cada sorriso, cada troca de olhares, desde o momento impactante quando havia entrado na festa e dado de cara com ela conversando com Diana. Vestida naquele smoking com a gravata charmosamente desarrumada por cima da camisa branca, dois botões abertos, mostrando parte do colo delicado. E aqueles olhos deslumbrados quando lhe viram. Era impossível esquecer.

__Eu adoraria saber o tema desses pensamentos...

Açucena abriu os olhos num susto para ver Diana, se sentando na borda da jacuzzi, segurando um copo com uma dose de uísque pela metade.

__ Apesar de que... talvez eu saiba, não é?__ Diana emendou.

Ela estava se referindo a Rafaela, é claro.

Com o coração acelerado, como se Diana tivesse ouvido cada pedaço de seus pensamentos, ela se ergueu com uma expressão de desdem. Levantou-se da água, sem querer, presenteando a outra com a visão magnífica de seu corpo nu.

Diana a contemplou, molhando os lábios. Depois levou o copo a boca e sorveu um gole, pensando que os olhares de desejo de Rafaela na noite anterior para Açucena a haviam feito parecer ainda mais sexy.

Depois de se secar com a toalha, Açucena vestiu o robe, pegou o controle remoto e desligou a música. Sem dizer nada ou olhar para ela, foi indo para o quarto. A magia do momento havia passado, quebrada pela presença de Diana.

__Não sei o que você pretende com isso.

__Com isso o quê? Que mal há em ter pedido para a garota acompanhar você no sábado? Bom, já que ela é filha de um amigo, um homem que admiro, não tem problema que seja sua amiga.

Açucena lançou a ela um olhar interrogativo. Amiga? Sua hipócrita. É lógico que você sabe. Acha que não sei que você sabe.

__E se eu me recusar a ir?

__Ora, meu amor, pare com isso. É só um evento inocente. E eu sei que você também quer ser amiga da garota. Sei que gostaria de ter uma amiga da sua idade, que não fosse aquelas meninas da boate. Aproveite. A Rafaela é uma boa menina.

__Pois me parece que você está tentando me jogar pra cima dela.

__É claro que não. Por que eu faria isso?__ Diana tinha um sorriso sarcástico.

__Porque você é sádica.

Açucena abriu a porta do closet, entrou e se trancou ali, deixando Diana no quarto sozinha.

__Escolha uma bela roupa. E não seja desagradável com a menina...__ a voz da mulher soou irônica, entre um riso, e seus passos foram se afastando.

Encostada na porta do closet, Açucena estreitou os olhos com raiva.

 

 

 

 

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