Amor e caos por Ana Little


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Capítulo 6- Tentação perigosa

 

__O quê? Você disse que essa tal Diana apontou uma arma pra sua cabeça, depois te convidou pra uma festa como se tivesse te ameaçando... E mesmo assim você quer ir?__perguntou Bárbie, de pé ao lado de Rafa, observando-a se vestir para sair.

__Quero ver a Angel. Eu disse que ia vê-la sem aquela máscara__Rafa deu de ombros e continuou a arrumar o cabelo em frente ao espelho.

__Ah, meu Deus! Você surtou de vez, Rafa. Será que não vê que isso é perigoso? Pelo que a Val falou, essa gente é perigosa.

__Dá pra parar com a histeria, Bárbie? É só uma festa. Se ela quisesse me matar, teria feito isso ontem quando teve a oportunidade perfeita.

__Eu não sei. Acho que está prestes a fazer a pior besteira que já fez na vida. E tudo porque não aceita perder. Rafa, você é cheia de mulheres. Pode ter quem quiser. Por que cismou com essa dançarina?

__Bárbie... Chega! Eu tenho que ir__ Rafa foi caminhando para a porta.

__Sua doida!__ a amiga foi seguindo-a pelo corredor e as escadas__ Escuta, e a Raíssa? Ela vai surtar quando souber desse seu interesse especial por essa garota.

__Ela não pode falar nada. Ela fica com outras pessoas também. O nosso lance é totalmente aberto.

__Não é isso que ela anda dizendo pra todo mundo.

__O que ela anda dizendo?__ Rafa parou quando já ia abrindo a porta de saída.

__Que vocês estão namorando. Estão até pensando em morar juntas.

__Quê?

Bárbie riu ruidosamente. Mas Rafa não achou graça nenhuma.

__Não é nada disso. A gente só estava ficando.

__Estava, Rafa?__ essa voz, que fez Rafa e Bárbie se virarem, era de Raíssa. Ela parou ao pé da escada, uma cara de indignação.

__Está dizendo que vai terminar comigo?

__Raíssa...__Rafa disse impaciente. Não queria ter aquela conversa agora.

__É por isso que vai deixar de ficar comigo hoje? Pra ir atrás de uma prostituta?

__Não fala assim. E isso não é da sua conta. Depois agente conversa__ Rafa abriu a porta, mesmo ouvindo a voz exaltada dela...

__Rafa!

Saiu para o hall, desceu os degraus e foi caminhando depressa para o carro.

Na sala, Raíssa ficou parada onde estava, sem acreditar no que acabara de acontecer. Seus olhos enchiam-se de lágrimas.

__A sua amiga é a maior cretina do mundo!

Bárbie olhou-a de modo impassível. Até mesmo crítico.

__Você sabia disso quando começou a ficar com ela. Não foi por falta de aviso, Raíssa. Você sabe muito bem como a Rafa é.

__Sei sim. E essa fulaninha por quem ela está interessada também vai saber-- furiosa, Raíssa deu meia volta e subiu os degraus quase correndo__ Eu vou embora daqui agora mesmo!

 

* * *

Rafa chegou na festa. Era a cobertura de um famoso hotel. Luxuosa e com vista para o mar. A decoração seguia o estilo de qualquer típica festa da alta-roda, como as da sua família.

Ela ajeitou a camisa social azul de algodão egípcio por baixo do smoking.

Eu devo estar mesmo louca…

Caminhou entre os convidados que circulavam conversando, segurando bebidas, embalados por uma música ambiente. Mulheres em belos vestidos esvoaçando ao vento. Homens em roupas frescas, mas sem perder a elegância. Em um canto, próximo à murada, três homens usavam turbantes na cabeça. Os traços de seus rostos denotavam a nacionalidade diferente. Entre eles, uma mulher de pele cor de jambo estava totalmente coberta, exceto pelo rosto. Tinha um véu de seda em volta da cabeça, como uma típica muçulmana.

Quando Rafa desviou o olhar do grupo, avistou Diana vindo em sua direção.

__Olá, seja bem-vinda.

Rafa não conseguiu se decidir se aquele tom era saudoso ou irônico.

Diana segurava uma taça de champanhe. Estava toda de preto, os cabelos impecavelmente lisos. Parecia um ser superior. Seus gestos, seu tom de voz, as roupas. Mas Rafa não gostava de olhar nos olhos daquela mulher. Eram como um abismo prestes a tragar qualquer coisa.

__Apesar de que eu não esperava que você aceitasse meu convite.

__Por quê?

__Quer motivo melhor do que eu ter apontado uma arma pra sua cabeça?__ Diana pareceu querer que soasse como brincadeira. Mas não soou. Rafa pôde sentir algo de sombrio naquele sorriso.

__Mas você não atirou__ Rafa rebateu.

__Bem, eu ter convidado você pra uma festa podia se tratar de uma armadilha.

__Você teve uma ótima oportunidade de me matar e não o fez.

Diana sorriu de novo, analisando-a com surpresa.

__Menina atrevida__ fez uma pausa e tomou um gole do espumante, seus olhos felinos sem deixar de encarar Rafa__ Estou impressionada. Atitude digna de uma Hoffmann.

Estar na presença daquela mulher e conversar com ela era como jogar. E naquele instante Rafa sentiu que estava recebendo suas cartas.

__Que tipo de relação você tem com a minha família? Eu nunca vi você em nenhuma das festas do meu pai.

__Não é bem uma relação. Sou uma admiradora do seu pai. O mundo dos negócios tem muitas faces, minha querida. Você, como filha de um empresário e neta de políticos, deve saber do que estou falando.

Rafa assentiu. Não que tivesse certeza sobre o que ela se referia. Não costumava perder tempo investigando de onde vinha o dinheiro que pagava seus cartões de crédito. Era mais fácil não questionar isso.

A verdade era que depois daquela briga que eles haviam tido, na época em que Rafa descobrira sobre sua mãe biológica, sobre ela ser filha dele com um caso que ele tivera fora do casamento, a distância entre eles havia se tornado rígida como uma pedra. Como se um muro intransponível tivesse se erguido entre eles. Seu pai era quase um estranho agora. O ausente homem de negócios. De modo que ela não participava profundamente da vida dele. Na verdade o via mais pelas colunas sociais ou revistas de fofoca, em festas ou viajando em férias pela Europa com alguma mulher exuberante, do que em casa. Quando ele lhe dirigia a palavra, eram sempre críticas. Ou cobranças. Rafa podia dizer que não sabia quase nada sobre seu próprio pai.

__Também gostei de você__ Diana continuou. Então ela olhou para Rafa daquele modo amedrontador e seus olhos de repente pareceram mais escuros do que antes__ É uma pena que esteja interessada na minha mulher__ despejou sem rodeios.

__Não, eu...__ Rafa quase perdeu o fôlego.

__Não se dê ao trabalho de negar__ Diana insistiu, mas num tom melífluo, como uma cobra a jogar o veneno__ Eu não sou cega. E compreendo. A Angel é mesmo muito bonita. Você não é a primeira, ou o primeiro que se encanta com ela. Mas lhe asseguro que uma coisa eles tinham em comum. Todos se arrependeram.

Rafa se sentiu como no momento em que estava amarrada naquela cadeira e a mulher tinha o cano da pistola apontado para sua cabeça.

__Devo entender isso como uma ameaça?

__De maneira nenhuma. Eu não me valeria de um recurso tão medíocre. Eu nunca ameaço, Rafa__ Diana fez uma pausa, e Rafa remoeu por um segundo aquela indireta, e a ousadia dela de chamá-la pelo apelido__ Mas é claro, você tem razão. Não há necessidade de continuar o rumo dessa conversa. Afinal, aposto que você veio aqui só pela curiosidade de ver minha mulher sem aquela máscara. Não é mesmo? Então tem minha permissão. Por falar nisso...

Ela ergueu o queixo e Rafa se virou, seguindo seu olhar.

Angel acabava de chegar na festa, emergindo nos degraus, como uma aparição divina e irreal. Uma entrada triunfal, cercada por olhares. Seu glamour foi imediatamente intensificado pelas luzes. Estava deslumbrante num vestido Dolce&Gabana preto tomara-que-caia com renda. Renda e transparência numa combinação matadora, aliada a sapatos brilhantes de salto fino. As ondas loiras exibiam um baby liss meio bagunçado, bem ao estilo femme fatale. Mas não vulgar. Ela se movia e caminhava com o porte de uma princesa. Pareceu surpresa ao ver Rafa.

Quando Rafa encarou os olhos cor de mel, perfeitamente maquiados, ela sentiu o ar sumir de seus pulmões. Foi só um breve olhar, mas a profundidade foi a mesma da outra vez. Aqueles olhos possuíam um ímã irresistível. Eram perturbadores. E, naquele momento, tiveram o inacreditável poder de lhe deixar sem jeito.

__Meu amor...__ Diana tomou a mão de Angel, assim que ela se aproximou, e envolveu sua cintura, trazendo-a para si. Deu um beijo em seus lábios__ Você está linda.

Aquilo parecia uma forma de enfatizar o quanto a garota linda que acabava de chegar era sua. No sentido mais amplo da palavra.

Rafa mordeu de leve o lábio inferior e baixou a cabeça um segundo. Quando levantou o olhar de novo, seus olhos deram com os de Angel outra vez. Mas a voz grave de Diana a fez se desviar.

__Amor, esta é Rafaela Hoffmann. A famosa garota que salvou você.

Rafa esticou a mão para a loira sentindo um calor inquietante lhe subir pelo corpo.

__Muito prazer__ e piorou quando sentiu a mão macia e quente de Angel envolver a sua.

__O prazer é meu__ disse Angel formalmente__ Obrigada pelo que fez por mim. Você foi corajosa e eu te devo a minha vida.

Rafa reparou em como, apesar da pouca idade, ela parecia conservar um ar taciturno.

__Imagina. Foi uma honra__ e não pôde deixar de reparar no jeito atento como os olhos dela a encaravam, sempre daquele modo penetrante. Olhar para eles era desconcertante. O que a máscara do show escondia, tratava-se do rosto mais incrível que já havia visto. Traços inesquecíveis realçados por uma maquiagem perfeita. Era o tipo de beleza marcante, capaz de enfeitiçar qualquer um.

__Bom... Querida, se importa de fazer companhia a ela?__ pediu Diana e olhou para Rafa com aquele ar de desafio__Devo dar a tenção aos meus amigos árabes. Tudo bem pra você, Rafa?

__S-sim. Sim, é claro.

Rafa esperou Diana se afastar para voltar a olhar para Angel. Agora finalmente olhar direito. Mergulhar sem medo no mar daqueles olhos castanho dourados. Aquela cor incrível de olhos, um castanho claro amarelado ou esverdeado talvez. Algumas pessoas chamavam de olhos cor mel, ou âmbar.

__Bela festa...__Que coisa idiota de se dizer! Cadê sua criatividade imbatível? Rafa censurou-se em pensamento, não entendendo porque estava tão sem jeito.

Pela primeira vez sem jeito na frente de uma garota. O que há de errado comigo?

__Você não parece o tipo que gosta de festas assim. Não sei se percebeu, mas só tem nós duas da mesma idade aqui.

__É verdade.

Na verdade, eu gostaria que só estivéssemos nós duas aqui. Se não fosse por você, essa festa seria mesmo uma droga, Rafa pensou, mas em vez de dizer isso, respondeu:

__Na verdade, se parece com as festas do meu pai__ ela sorriu de novo__A começar pela música. Me dá vontade de dar um soco no DJ, roubar o lugar dele e mandar uma batida eletrônica bem foda, sei lá.

Angel sorriu, surpreendendo Rafa e ofuscando ainda mais seu deslumbramento.

__Seria legal.

Ela olhou para o pulso de Rafa, onde havia uma tatuagem cujas cores fortes pareciam ter vida na pele clara dela. Mas só dava para ver as pontas do desenho, o resto estava escondido dentro da manga da roupa.

__Bela tattoo.

__Ah, obrigada__Rafa não perdeu a oportunidade de exibir seu sorriso mais carismático.

Percebendo a curiosidade da outra, afastou o tecido e mostrou o resto da tatuagem. Era o símbolo do infinito. Mas em volta das curvas do desenho, uma roseira vermelha se enroscava, se sobressaindo na pele clara. Os espinhos verdes e afiados das rosas causavam furos dentro dos dois círculos, de onde pigavam gotas de sangue.

__É linda. Pelo jeito você curte muito, não é?

Angel observou o outro desenho pequeno, no pescoço dela. Era uma boca feminina, um beijo de batom vermelho.

__Sim. Eu sou apaixonada por tatoos. Tenho várias...__Espero que eu possa lhe mostrar as mais escondidas também, Rafa pensou, ainda encarando-a.

Então a conversa foi fluindo entre encontros de olhares e sorrisos.

__Mas foi mesmo uma loucura você ter entrado lá naquele corredor, sabia? Podia ter acontecido algo de ruim com você. Não parou para pensar nisso?

__Não. Eu acho que fui mesmo vencida pela curiosidade. Queria ver o rosto da garota que havia arrasado no palco, que tinha tornado a minha noite inesquecível, com seu show incrível.

__Obrigada. Mas meu show é normal, como o das outras meninas.

__Você sabe que não. Aliás, aqueles caras ficam tão embasbacados que se você se virasse para eles, mostrasse o dedo do meio e os mandasse se foder, eles iam achar o máximo.

Angel deu uma risada. E Rafa teve vontade de soltar fogos. Era o riso mais charmoso que já vira.

__Bem que já tive vontade de fazer isso-- Angel completou, ainda risonha.

__Você pode fazer o que quiser. Tem muito talento.

E é linda demais...

__Imagina, eu sou apenas uma dançarina.

Nesse instante, uma mulher morena de cabelos encaracolados e sotaque espanhol apareceu perto das duas, interrompendo o pequeno diálogo. Ela olhou diretamente para Rafa, de um jeito encantado.

__Olá, você é Rafaela Hoffamnn, não?

Rafa sorriu sem vontade, irritada por seu momento a sós com Angel ter terminado.

__Sou Glenda Contreras. Já ouvi falar da sua família. Mas eu não imaginava que eles tinham uma filha tão bonita...__ o "bonita" foi acompanhado de um sedutor sorriso de canto de lábios.

__Obrigada-- Rafa respondeu séria e ainda mais irritada.

Angel olhava para o lado, ignorando a situação. Rafa teve a impressão de que ela também não tinha gostado da aproximação repentina da mulher.

__Angel, querida. O que houve? Você parece meio tristinha.

__Só um pouco entediada__ Angel lançou a Glenda um sutil olhar de desprezo.

__Como sempre, não é? Por falar nisso, será que você pode vir comigo um minutinho?

__Claro__ isso pareceu mais um "vai pro inferno". Mas Angel a acompanhou, depois de um educado e formal "com licença", para Rafa.

 

*  *  *

Quando já estavam distante de Rafaela e se aproximaram da murada com vista para o mar, Glenda parou.

__Não acredito que vai fazer isso de novo, Angel.

Açucena não respondeu a princípio. Pegou da pequena bolsa dourada um maço de Malboro e acendeu um.

__Fazer o quê?__ perguntou dando de ombros.

Glenda balançava a cabeça indignada.

__Então essa é a sua próxima vítima? Escolheu melhor ainda dessa vez. Ela é lindíssima. Ainda bem que, pelo menos tem a sua idade. E os ingredientes perfeitos: Rica, charmosa, cheia de atitude. Sim, porque é preciso ter muita atitude e cara de pau pra vir na festa de alguém como a Diana e ficar flertando com a mulher dela.

__Ela não estava...

__Sem falar nesse estilo bofinho que tanto te excita, não é? Perfeita para uma temporada de diversão proibida até tudo acabar como da outra vez....

__Do que está falando? Você está louca?

__Da Adele.

Açucena sentiu os músculos de seu corpo se enrijecerem por ouvir o nome. Porque pensar em Adele, além de resgatar a memória horrível do dia da morte dela, era também se lembrar do perigo que era tentar escapar de Diana.

__Eu não preciso que você fique me lembrando disso. Já pensou em cuidar da própria vida?-- ela já ia saindo, quando Glenda segurou em seu braço.

__Só vou te dar um conselho. Não faz isso. Dessa vez a coisa pode se complicar. Essa garota é filha de um homem muito poderoso e influente. Não é uma socialite solitária e entediada como a Adele.

__Eu não preciso dos seus conselhos, Glenda. Mas só pra constar, eu não tenho nenhuma intenção com essa garota. Ela apenas salvou a minha vida e estou sendo um pouco educada com ela. Não sei porque a Diana a convidou para vir nessa festa. Talvez depois de hoje eu nunca mais a veja.

__Eu não tenho tanta certeza__Glenda virou o olhar na direção de Rafaela, bem na hora em que a garota lançava um olhar interessado para Açucena__ Acho que essa menina não está aqui por acaso, Angel__ Glenda falou seriamente. Girou a mão dela e segurou firme. Observou a palma atentamente, estreitando os olhos.

Glenda a irritava. Mais ainda aquela mania de cigana que ela tinha, só porque era bisneta de ciganos e achava que tinha um dom especial.

Quando Glenda levantou os olhos para encará-la de novo, seu semblante trazia algo de enigmático e fatalista.

__Existe uma coisa entre vocês. Não sei bem o que é. Mas isso não acaba aqui, Angel. Você ainda vai ver essa garota em sua vida. Ela está em tudo, em todos os seus caminhos, é como se vocês estivessem ligadas por alguma coisa que não sei o que é...

__Ah, não. Vai mesmo perder seu tempo me dizendo essas baboseiras?

Glenda nem lhe deu atenção e continuou.

__O que não consigo ver é... se essa coisa é para o bem, ou para o mal. Então o melhor que tem a fazer é não dar corda pras investidas dessa garota imprudente.

__Que investidas?__ Açucena indagou, tentando não ficar perturbada__ Quer saber? Me deixa em paz__ largou Glenda lá com aquele olhar patético de quem detinha os segredos do universo. Saiu andando.

Mas quando avistou Rafaela lá parada de costas, tomando um drink, viu-se olhando para ela sem a mínima vontade de se desviar.

A garota se virou e encontrou o olhar de Açucena. A expressão nos olhos de Rafaela fez as batidas do coração de Açucena acelerarem e seu corpo foi envolvido por um êxtase inédito. Era um olhar invasivo, urgente. A beleza da garota a fazia se destacar de forma instigante entre os outros convidados. Os olhos cinzentos expressivos, aquele "estilo bofinho", como Glenda dissera. Ela parecia um belo rapaz de smoking. Que tentação. Uma garota que parecia não se importar com a opinião dos outros sobre si. Ela tinha um ar atrevido e insolente com o qual Açucena se identificou de imediato. Mas não só isso. Rafaela era excitante, no sentido mais amplo da palavra. E Açucena se desviou ao perceber que corava.

Como eu não ia reparar nela?

Na noite anterior na boate, após o show, entrara no camarim pensando na cena que vira quando estava no palco. Aquela figura de incríveis olhos claros, um rosto inesquecível, de braços tatuados, sentada numa mesa a observá-la de um jeito diferente do resto dos clientes. Um olhar profundo e marcante.

Não conseguira mais tirar aquela imagem da cabeça. E agora, quando entrara na festa... o momento em que Rafaela havia se virado para olhá-la estava cravado em sua mente de um jeito estranhamente fixo. Açucena tinha a impressão de que quando encarava aqueles olhos, alguma coisa dentro de si ficava paralisada.

Respirando fundo a brisa que vinha do mar, Açucena pegou uma taça da bandeja de um garçom que ia passando e se escorou na murada.

__Será que você gosta dela tanto quanto está gostando dessa festa?__ a voz charmosa soou ao lado. Açucena estremeceu. Preparou-se para encarar o belo rosto, enquanto remoía aquela indireta insolente.

Rafa encostou-se na murada também. Açucena suspirou inquieta, antes de dizer:

__Eu não entendo porque você veio até aqui. Ela apontou uma arma pra sua cabeça durante aquele interrogatório constrangedor. Você deveria, no mínimo estar pensando em processá-la.

__Acima disso tudo estava a minha vontade de ver você de novo. E sem aquela máscara.

Isso foi dito com um daqueles olhares paralisantes. Açucena sentiu as palavras formarem um bolo em sua garganta.

__Bom, você já viu__encarou-a com desdém, entendendo o que Glenda havia dito sobre as "investidas daquela garota imprudente".

__E quero ver de novo. O que me resta saber agora é quando...

__O... o quê?

Que atrevida! Como ela ousa....?

Droga, isso é excitante demais!

__Você é casada com ela? Ou amante? O que você é? Eu vi a maneira como ela te tratou. Ela bateu em você sem motivo...

Açucena sentiu a transformação drástica que seu semblante passou, de sereno a trágico. Mas não queria que ela percebesse. Quem aquela garota pensava que era?

__Isso não é da sua conta. Eu nem conheço você.

__Prometo que não vão faltar oportunidade.

__Não se eu não estiver interessada.

__Você está. No mínimo curiosa.

__Olha, eu agradeço muito o que fez por mim, mas o melhor que tem a fazer agora é ir embora__ Açucena virou-se e saiu depressa antes que ela dissesse mais alguma coisa.

 

*  *  *

Rafa ficou ali parada, ruminando o amargor do fora. Mas também pensando no próximo passo. Tomou um longo gole da sua bebida.

__Oi. E aí, está gostando da festa?

Era Glenda, se aproximando devagar, com um ar analisador.

__Sim__ Rafa mentiu para não ser desagradável.

Mas a mulher ficou séria de repente.

__E não acha que está na hora de sair enquanto é tempo?

__O quê? Não entendi.

Glenda se encostou na murada. Seu olhar lembrava o da cigana esquisita da noite em que Rafa caminhava por aquela rua antes de entrar no Fantasy.

__Essa não é uma das festinhas dos seus amigos, menina. E a Angel não é a nova garota da faculdade. Você não tem ideia de onde está se metendo.

__Talvez eu tenha.

__Não, você não tem. A não ser que seja uma suicida.

Glenda fez uma pausa e olhou fixamente para a frente. Rafa acompanhou seus olhos e foi dar em Diana, que parada numa roda de homens e mulheres, conversava, segurando uma taça.

__Sei que está encantada com a Angel. Mas eu já vi gente morrer por causa disso.

Rafa deu um riso cético, como se a mulher estivesse exagerando.

__Elas são casadas? Amantes?

__É mais do que isso. A Angel é uma espécie de prostituta exclusiva da Diana.

Rafa não pôde evitar de sentir o impacto intragável daquela afirmação. Olhou para Diana, que distraída lá com os amigos, nem a via. Sentiu-se mais indignada. E desafiada. Esperou Glenda continuar:

__A Angel é da Diana. No sentido de posse mesmo. Como um carro, ou um relógio Rolex, digamos assim. É uma "propriedade" particular. Entendeu?

__E eu sou Rafaela Hoffmann!__ Rafa disse, sua voz triturada.

__Você é só uma menina aventureira e inconsequente que acha que acabou de encontrar um alvo interessante. Mas eu sinto dizer, você está errada. E se insistir nisso, vai acabar se metendo na pior encrenca da sua vida.

Nesse instante, Diana acabava de se afastar dos árabes e vinha caminhando na direção delas com aquela postura altiva e aristocrática.

__Você não perde tempo, hein, Glenda?__ pôs a mão em volta do pescoço da amiga__ Rafa, cuidado para não cair nos encantos dessa morena aqui. As espanholas são quentes.

Glenda não sorriu. Continuou olhando seriamente para Rafa.

__Nossa, Diana, do jeito que você fala, até parece que eu sou uma devoradora de garotinhas.

Diana riu.

__Ora, não seja modesta, Glenda. Você é o sonho de muitas delas. É claro que esse não é o caso de minha convidada aqui. Aposto que ela prefere as loiras. Não é, Rafa?

Era uma indireta das boas, repleta de veneno e ameaça. Rafa teve que engolir esta. Porque nessa hora, a música mudou para uma canção árabe típica, e as luzes se modificaram, anunciando um momento especial da festa.

__Com licença, meninas__ Diana disse, antes de sair outra vez.

Ela se posicionou perto do DJ e fez um pequeno discurso em inglês.

__Será que agora entende o que estou tentando te alertar? Diana está jogando a isca. Não pegue.__ Glenda continuou, mas Rafa a ignorou dessa vez.

__Obrigada pelos conselhos__ e foi se afastando.

Uma salva de palmas, mais empolgada por parte dos árabes, coroou as palavras de Diana. Os convidados se viraram para assistir a dançarina de dança do ventre que vinha entrando.

Mas Rafa só assistiu o show por uns minutos. Seu olhar começou a vagar pelo espaço inteiro da cobertura, a procura de Angel. Era impossível olhar para a coreografia da dançarina. Seus olhos só buscavam Angel.

Avistou-a meio distante da roda de gente que se formara para ver a dança. Ela estava de pé perto de um objeto excêntrico que fazia parte da decoração árabe. Fumava, de braços cruzados, os longos cabelos estendidos sobre o colo nu que o vestido tomara-que-caia revelava, o corpo perfeito ereto, numa postura séria, apesar da roupa sexy de enlouquecer.

Deus, que mulher é essa?

Seus olhares se encontraram. E Rafa não dispensou a oportunidade de olhar bem dentro dos olhos cor de mel que ora a encaravam, ora se esquivavam

Mais tarde quando Rafa já estava indo embora, Diana veio se despedir. E trazia Angel, abraçando-a pela cintura. Fez um pedido que Rafa achou estranho. Mas também tentador.

__... É um evento beneficente no haras de um amigo meu no próximo fim de semana. Não posso ir. A Angel irá, mas gostaria que alguém a acompanhasse. Será que você poderia fazer esse favor para mim? Ela não tem muitas amigas aqui na cidade...

O bom senso, aliado aos conselhos de Glenda: "Diana está jogando a isca..." quase fizeram Rafa dizer não. Mas ao encarar o rosto de Angel outra vez, aqueles olhos fascinantes e enigmáticos ela conseguiu se decidir.

__Sim, claro.

O olhar de Angel pareceu se tornar tenso, quase angustiado.

__Então até depois de amanhã...__ Rafa disse para ela com um sorriso de "nova amiga".

__Até__ era evidente como ela não havia gostado da ideia. Normal, depois de cortar suas investidas a noite inteira.

Mas nada como um dia depois do outro.

__Bom, obrigada, Rafaela. E foi um prazer conhecê-la__aquele tom falso de Diana parecia estar ali para lhe lembrar da encrenca onde estava se metendo__ Meu empregado vai levar você até a portaria-- ela finalizou.

Rafa olhou para o homem de uniforme que havia se postado ao seu lado e acompanhou-o.

No táxi, já a caminho do Meireles, ela se perguntava:

Que merda eu estou fazendo?

Sabia que estava se atirando num caminho perigoso. Mas queria Angel. E ia jogar aquele jogo.

 

 

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