Amor e caos por Ana Little


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Capítulo 6- Diana

 

No carro, ela fumava, séria, entre pensamentos. Olhou de soslaio para Açucena. A garota estava meio encolhida na outra ponta do banco. Parecia uma bonequinha de porcelana, congelada em sua rispidez. Aquele rosto alegre cujos olhos antes brilhavam ao ver uma bela joia ou diante da promessa de uma viagem, agora não passava de uma constante careta de rancor e frieza.

Mas ainda sim era sua. Somente sua. Sempre seria sua bonequinha de luxo, tal como a construíra.

Entraram no apartamento. Açucena rumou para a escada. Diana foi seguindo-a, depois de mandar um sinal para Carlão esperar. Ele fechou a porta e ficou parado ali.

O ruído dos saltos de Açucena ecoaram nos degraus de madeira. Ela abriu a porta do quarto com um movimento brusco e jogou a bolsa sobre o divan vermelho ao lado direito do cômodo.

Diana ficou parada, analisando-a.

__Não precisa ficar desse jeito. Eu não matei a garota.

Açucena se virou de súbito, seus olhos arregalados como duas bolas de âmbar. Seu peito arfava sob o corpete preto e sexy. Por um momento não disse nada. Depois deu as costas a ela outra vez.

__Por que faria isso se a garota não fez nada de errado? Mas é claro, você já matou por muito menos.

__Não. O caso dela é diferente. Trata-se da filha de um conhecido.

Intrigada, Açucena deu dois passos em sua direção, erguendo uma sobrancelha.

__Um conhecido?

__Sim. Mas deixe isso pra lá. Foi apenas a atitude de uma cliente curiosa e persistente__ Diana tentou parecer o mais banal possível, mas é claro, havia conseguido ler nas entrelinhas a intenção de Rafaela__ Ela só queria ver você sem a máscara. Normal.

Observou bem a faísca de interesse no olhar de Açucena.

__Acho que, no mínimo ela merecia algum tipo de agradecimento por ter salvado a minha vida. Mas pensando bem, isso não é importante pra você, não é?

__Ah, minha princesa... Não fale assim__ Diana aproximou-se dela e alisou uma mecha dos cabelos dourados-- Eu sei que foi uma situação desagradável. E se eu pudesse, teria evitado. Infelizmente foi uma falha terrível da segurança. Mas isso já está sendo solucionado. Se serve de consolo, o cara está morto. Os motivos dele sim, tinham ficado bem claros, eram perversos. Nem hesitei em estourar os miolos do infeliz. Mas a garota... é inocente, até onde me consta. E agora que está tudo esclarecido, eu garanto que vou recompensá-la.

Açucena esquivou-se de seu toque. Diana sentiu seu sangue ferver de raiva. Teve ímpetos de atirá-la na cama agora mesmo e transar com ela do modo selvagem como gostava. Lembrá-la de que ela não tinha a opção de dizer "não".

__Aproveite para dormir bem hoje. Quero que esteja linda na festa de amanhã.

__Eu disse que não queria ir. E você tinha concordado.

__Mudei de ideia.

Diana Bateu a porta do quarto ao sair. Mas desceu a escada calmamente.

 

* * *

Na sala, Carlão segurava dois copos, de pé perto do barzinho. Entregou um a ela.

__É, eu fico besta com as surpresas dessa vida__ ela comentou, suspirando.

__É verdade. Então, essa menina poderia ser irmã da Açucena, não é?

__Verdade. Elas poderiam ser irmãs. Mas não são.

__Ainda bem porque a garota pareceu bem interessada na Açucena.

__Mas vamos falar baixo. Esse tipo de conversa sempre foi proibida perto da Açucena. E continua sendo... Pra você ver. Olha a coincidência. A Açucena acabou de conhecer uma Hoffmann, alguém da família a qual pertence. E nem suspeita disso. Mas por incrível que pareça, apesar de fazerem parte da mesma família, não existe nenhum parentesco entre elas. Enquanto a Açucena é filha da Júlia com o amante, Rafaela é fruto de um caso que o Marco teve com uma garota de programa. Ou seja, são filhas de pais diferentes. Louco, não?

__Parece novela mexicana.

Diana sorriu.

__Verdade.

__Nunca pensou em contar a verdade para a Açucena? Os segredos que envolvem seu nascimento?

__Claro que não. Na pior das hipóteses, o pai da Rafaela mataria a Açucena. A filha de sua esposa falecida com o amante! Com certeza mesmo depois de todos esses anos, o Marco ainda ia desejar ver a filha do Abelardo morta. Se ele ia matá-la ainda bebê, imagina agora.

__Então essa Rafaela também é uma bastarda?

__Sim. A mãe, uma garota de programa, morreu já faz alguns anos. A família abafou o caso, claro. Eu sabia que o Marco tinha essa filha, mas nunca a tinha visto. Tem 19 anos, quase a mesma idade da Açucena, o que indica que foi na mesma época em que Júlia engravidou do Abelardo.

__Então por que você resolveu convidar a menina para a festa de amanhã? Não seria mais prudente mantê-la longe da Açucena? Você sempre teve verdadeira obsessão por protegê-la de qualquer contato com os Hoffmann...

__Eu tenho tudo sob controle__ Diana afirmou convicta__Só quero me divertir um pouco. Mas vou segurar as rédeas da situação. Você me conhece, Carlão. E a Rafaela é só uma menina.

__Isso pode ficar perigoso, Diana. Parece que ela ficou muito encantada com a Açucena. E se ela resolver investigar?

__Aí eu corto as asinhas dela...__Diana sorriu como se fosse fazer isso com prazer.

A Açucena é uma Hoffmann sim, mas nunca saberá disso. Na melhor das hipóteses, a família a tirará de mim se souber da existência dela. E isso nunca! A Açucena é minha! Sempre será assim, não importa quantos homens e quantas mulheres, ou meninas atrevidas como Rafaela botem os olhos nela, pensou Diana com prazer. Se lembrava claramente a primeira vez que havia visto Açucena. E como exatamente ela havia chegado em suas mãos.

 

* * *

flasback

2010-- Fortaleza

 

Diana estava de pé, diante de sua mesa, no escritório. Os dedos de unhas curtas tamborilavam na mesa, impacientes. Há tempos estava investigando a vida de um dos chefes da Organização no país. Marco Hoffmann. Eles nunca haviam se bicado e agora que ela havia descoberto que ele era o assassino de seu amigo Abelardo, tinha mais motivos para querer destruí-lo. Apesar de que, desde que decidira isso, sabia que seria uma guerra árdua, pois o homem era demasiado forte. Um empresário famoso e conhecido no país inteiro, um nome na lista de milionários da Revista Forbes, pertencente a uma família tradicional de políticos influentes e bem-sucedidos, um homem acima de qualquer suspeita. O bom era que o desgraçado confiava nela. Confiava tanto que a havia incumbido de executar uma tarefa importante para ele. Encontrar a filha bastarda de sua falecida esposa com o amante. O que ele não imaginava era que Diana era amiga desse amante e, portanto, queria vingar a morte de Abelardo. Então, não tinha interesse em realizar missão de investigação nenhuma a favor de Marco. Principalmente depois que viu a menina, a bastarda.

Carlão surgiu na porta. Ela foi direto ao ponto.

__E então, Carlão? O que descobriu?

__Acho que o suficiente__ ele respondeu prontamente, entrando e deixando uma pasta em cima da mesa-- Eis mais um segredo do seu querido colega, Marco Hoffmann. Também é o responsável pela morte da esposa. Envenenamento.

__Imaginei. Quando descobriu a traição dela com meu amigo Abelardo, suponho.

__Exatamente.

__Júlia era uma mulher bonita. Lembro dela. Mas continue...

__Bem, numa tentativa de salvar a filha bastarda da fúria do marido, a Júlia entregou a menina a uma mulher no sertão. Forjou toda uma documentação de adoção. Com certeza tinha o intuito de recuperar a filha no futuro, eu não sei que tipo de acordo foi feito com a tal sertaneja. O que sei é que essa mulher deve ter recebido uma boa quantia para participar disso tudo. Júlia não tinha escolha. Tinha que proteger a filha. A essa altura ela já sabia que a morte do Abelardo não tinha sido um acidente. Foi planejada por seu marido e portanto, a vida da menina também estava em risco.

__Sei. Antes ter a filha longe do que morta.

__Pois é.

__Então temos as peças se encaixando agora. Marco descobriu a traição da esposa, matou o amante dela e teria matado o bebê que era fruto dessa traição se...

__Se Júlia não tivesse feito o que fez. Ela armou um esquema tão perfeito para forjar a morte do bebê que nem ele descobriu. Nem o resto da família Hoffmann. Mas depois disso, ela entrou numa depressão profunda e acabou enlouquecendo. Marco se aproveitou disso para ir envenenando a própria esposa com medicamentos dia após dia, como parte da doce vingança. Ela nunca mais viu a filha. E a família Hoffmann até hoje não sabe que possui mais uma herdeira.

__E o que aconteceu com a menina?

__A mulher, a tal sertaneja que a criou... Rita, se não me engano... morreu recentemente de um câncer. A garota ficou sozinha. Tem quatorze anos. A Carmem a encontrou, junto com outras meninas que já tinham destino certo: as obras daquela hidrelétrica. Você sabe, uma criança do sexo feminino sozinha e vulnerável, num cenário de pobreza como nessas regiões esquecidas do país... Que fim óbvio poderia ter senão a prostituição? Além disso, é uma menina linda, Diana. Você precisa ver.

__Chegou a se prostituir?

__Não. Ela acha que a Carmem é uma assistente social. A Carmem disse: "a virgindade dessa aí vai valer uma fortuna no leilão"... Foi uma sorte encontrarmos a menina antes.

__Traga ela até aqui__Diana ordenou.

Carlão saiu pela porta e voltou, segurando no braço de uma figura franzina, de feições angelicais, olhos cor de mel, cabelos loiros e pele queimada de sol.

O olhar de Diana parou na menina, deslumbrado, hipnotizado. Seus lábios se entreabriram, e seus olhos quase se arregalaram de choque. Um fascínio súbito a arrebatou. A criatura mais fascinante que ela já vira.

Com passos cautelosos, aproximou-se da pequena, cujo corpo já mostrava os primeiros sinais das formas de mulher. De cabeça baixa, a menina tinha os lábios crispados e os olhos vidrados para o chão, como um animalzinho acuado.

__Como você se chama?

A garota não respondeu. E quando levantou o olhar, havia nele uma ira incontida, uma ferocidade instintiva. Uns incríveis olhos de mel puro e profundo fitaram Diana repletos de raiva e desprezo.

Ainda mais envolvida em seu enlevo de encantamento, Diana sorriu, rendida ao poder daquela beleza genuína e ao olhar desafiador que a encarava.

__Se chama Açucena. Esse é o nome dela__ Carlão explicou__Nome estranho, por sinal.

Mas Diana não prestou atenção. Continuava a observar a menina com curiosidade e enlevo.

__Açucena... Um nome doce... Significa tristeza pela perda de um amor.

A menina a olhava como se ela falasse em uma língua desconhecida.

Mais tarde, Diana avisaria a Carlão:

__Diga para aquele desgraçado que a menina está morta. Não existe mais bastarda nenhuma. Acabou-se o assunto.

__O quê? Mas e se ele descobrir?

__Não vai. Porque teremos um esquema bem armado.

__Ás vezes acho que você vai acabar se dando mal, sabia?

__Isso é problema meu. Agora faça o que eu disse. Ele ia matá-la, Carlão. Foi para isso que mandou que a encontrássemos. Estamos há quase um ano buscando pistas dessa menina, uma investigação financiada por ele. Acha que ele vai fazer o quê com a garota? Levá-la para a mansão dos Hoffmann e dividir a herança dos filhos legítimos com ela? Claro que não. Ela é a filha de sua falecida esposa com o amante. Ele vai descarregar nessa pequena criatura todo o ódio que tinha por seus pais__ ela replicou, tensa. Depois riu quase descontrolada__É um desperdício muito grande dar fim a essa garota.

__Isso é verdade. A menina é de uma beleza extraordinária. Você vai ganhar muito dinheiro. Entendi o que você está pensando.

__Não entendeu nada, seu palerma. Eu quero a menina para mim. Ela não é como as outras. Não vou torná-la uma prostituta. Jamais. Eu a quero!

__Ah...

__Antes não me importava com isso, só ia fazer a minha parte. Mas agora vendo-a... De repente... Eu ainda posso manter o controle da situação. Não sou uma pau-mandado daquele crápula. Eu quero essa menina. Entendeu?

__Mas e se ele descobrir?

__Não vai. Nunca vai descobrir. Vou protegê-la. Ele nunca pode saber que essa menina está viva. Ela é minha agora. Vou tirá-la de Fortaleza, e muito em breve, do país.

Diana levou Açucena para o Rio de Janeiro naquele mesmo dia. Durante a viagem, a garota continuou esquiva e, por vezes agressiva, como um bichinho selvagem engaiolado.

Com as mãos cravadas no encosto da poltrona da aeronave, ela tinha a cabeça abaixada, os olhos quase escondidos sob a massa de cabelos loiros ondulados e desgrenhados. O vestido florido de tecido ruim parecia ser a única coisa que ela vestia há dias, visto que tinha até algumas manchas.

Sentada ao lado, Diana a observava, pensando ainda na dificuldade que teria de se aproximar da menina. Mas cuidaria dela. Tinha planos para aquela mocinha, que lhe despertara um inexplicável estima à primeira vista. Carlão havia tentado especular maliciosamente sobre isso. Mas Diana respondera:

__Eu agradeceria se não se metesse em meus assuntos.

Isso. Aquela menina agora era um de seus assuntos. Era sua. Não tinha mais nada a ver com a Organização. Claro que não ia lhe fazer nada de ruim, nada que ela não quisesse. Não, claro. Ia conquistá-la aos poucos. E ela era muito nova. Havia muito tempo para ter noção do que ela seria em sua vida.

__Ei, fique calma. Está tudo bem__ disse num tom suave, tocando com cuidado na mão dela.

Açucena não ergueu o olhar, mas pareceu ir relaxando mais, após uns minutos.

__Não vou lhe fazer mal, acredite.

Um dia aquela menina cresceria, e se tornaria uma mulher linda. Ia transformá-la numa princesa.

Quando chegaram ao apartamento no Leblon, a empregada ficou surpresa.

__Quem é a menina, Dona Diana?

__Sua mais nova patroa, Joana__ ela comunicou, já no andar de cima, entrando no corredor que levava aos quartos__ Preparou tudo o que pedi?

__Fiz o que pude. A senhora devia ter avisado com antecedência.

__Não houve tempo. Mas vou cuidar disso depois. Por enquanto, mostre o banheiro, o quarto onde vai ficar, lhe dê roupas limpas e algo para comer. Eu tenho que resolver umas coisas, mas volto logo.

De volta à sala, Diana viu Açucena ainda parada no meio do cômodo, onde a havia deixado. A menina observava o ambiente distraída. Parou o olhar curioso numa peça decorativa que jazia numa mesinha de bronze perto do sofá. Era uma bailarina de dança flamenca, um bibelô de gesso comprado em Madrid, numa loja centenária no centro da cidade.

Diana aproximou-se de Açucena e deu um sorriso.

__Você gostou?

A menina não disse nada, como sempre, mas seu olhar ávido ainda se voltou mais interessado para o objeto. Diana pegou-o e estendeu para ela.

__Fique com ela pra você.

Açucena pegou o bibelô entre as mãos como se segurasse algo muito precioso, os olhos cor de mel brilhando. E dessa vez levantou um olhar menos hostil para Diana.

__Escute, essa é a Joana. Qualquer coisa que precisar, você pode pedir a ela. Eu tenho que sair, mas volto logo, está bem?

 

Nova York- Três anos depois

 

Diana avançava pela Eighth Avenue, segurando na mão de Açucena. Usava um sobretudo preto e um grosso cachecol de cashmere xadrez que não era suficiente para confortar uma turista da Terra do Sol, em pleno inverno nova-iorquino.

Açucena tinha os cabelos soltos, as ondas loiras caindo sobre a roupa pesada e elegante. Ela andava de modo altivo, a postura ereta, o queixo erguido. Até o ruído de seus passos, dos saltos das botas Prada no chão, soava sensual.

A iluminação natalina resplandecia naquele mar de gente circulando. Em algum lugar, vozes suaves cantavam Jingle Bells.

Diana caminhava meio arrependida daquele passeio ousado ao ar livre, pela cidade gélida. Não gostava daqueles natais úmidos de Nova York, preferia mesmo os do Brasil.

Mas Açucena insistira. Ela amava Manhattan. Dizia que os natais ali eram mágicos. Diana não compartilhava dessa opinião. Mas não conseguia negar nada a ela.

Sua Açucena. Sentia tanto orgulho de sua princesinha. Agora com 16 anos, ela não era nem a sombra daquele "bichinho do mato" que Diana vira entrar em seu escritório em Fortaleza, trazida por Carlão. Tornara-se uma moça fina, culta, que sabia apreciar as maravilhas que o dinheiro podia comprar, que se habituara com facilidade ao famoso estilo king size de viver. O mundo do luxo e da sofisticação. E Diana sentia-se radiante por poder oferecer tudo isso a ela. As viagens por diversas cidades do planeta. Os lugares mais incríveis onde pudesse levá-la.

Já acomodadas em suntuosas cadeiras, envolvidas pela quietude aquecida de um restaurante, elas conversavam sobre trivialidades e riam, contagiadas pelo clima natalino que pairava pela cidade, a uma semana do natal.

Diana degustava uma taça de vinho e Açucena saboreava um petit gateau. As pessoas nas mesas pensariam que se tratava de mãe e filha, tamanha era a diferença de idade entre as duas. Ninguém imaginava que aquela mulher aparentando quase 35 anos e a adolescente em sua frente eram amantes.

 

Até que Diana sentiu seu celular vibrar. Olhou a tela. Era do Brasil. Açucena levantou o olhar para ela ficando subitamente séria, os luminosos olhos cor de mel se nublando de frustração. Diana ouviu a pessoa na linha. Houve um momento de tensão até que ela deu sua última palavra e desligou.

Açucena não disse nada. Baixou o olhar para a mesa. Sua expressão se fechara.

__Sinto muito, meu anjo. Acho que nem preciso explicar muito, não é? Infelizmente teremos que voltar para o Brasil antes do planejado.

__Eu devia ter imaginado. Era bom demais pra ser verdade que fôssemos ficar mais tempo__ Açucena questionou, a voz suave e fresca de menina, mas já adquirindo sensualidade de mulher.

__Meu amor, entenda__Diana já estava contagiada pelos problemas relatados no telefonema. Tentaria não ser grossa com ela__ Não posso me ausentar dos negócios por tanto tempo.

__Eu odeio voltar para o Brasil. Sabe disso. Lá não tenho liberdade. Me sinto uma prisioneira, sempre andando com seguranças, e com medo que a Polícia Federal saiba quem sou. Por que não me deixa então ficar aqui em Nova York?

__De jeito nenhum. Não vou deixá-la aqui sozinha.

__Mas que droga, Diana!

__Não levante o tom de voz! Estamos num restaurante!__ Diana exigiu, com toda a autoridade que sempre usava com todos da Organização. Sabia que às vezes agia como se Açucena fosse uma "coisa", uma propriedade sua. Mas era melhor assim. Gostava de manter o controle de tudo__ Vamos voltar para o hotel.

__Ainda não terminei__ Açucena afrontou-a de cabeça baixa, atrevida.

__Eu disse vamos!__Diana levantou-se, apertando discretamente o pulso da garota e forçando-a a se levantar.

No quarto do hotel, a discussão continuou.

__Você sempre põe esses malditos negócios acima de tudo. Até de nós. Odeio ficar no Brasil. Lá não tenho vida. Não posso sair...

__Você é minha namorada! Esse é o preço a pagar. Açucena... Tudo que faço, se tento mantê-la sob as minhas vistas o tempo todo é pro seu próprio bem. Existe gente que teria muito interesse em sequestrar a namorada de uma das chefes Organização. Existe gente que gostaria de ver você morta! Quantas vezes tenho que explicar isso, meu amor?

Açucena desabara na cama desolada.

__Onde eu vou ficar então? Fortaleza?

__Não. Vamos desembarcar em São Paulo. Tenho um encontro de negócios lá no dia 27. Depois levo você pro Rio. Que tal?

Açucena não respondeu.

__Eu vou para Fortaleza depois, mas prometo ficar na ponte aérea pra ver você, está bem?__ Diana agachou-se diante dela, acariciando os longos cabelos da menina__ Não fique assim. Prometo que vamos curtir juntas o próximo verão da Europa. Podemos ir para Saint Tropez. Que tal? Sei que você adora.

Açucena continuou séria, fazendo bico.

__Hum? Diga que sim__ Diana ergueu-se um pouco, o suficiente para aproximar os lábios dos dela.

Açucena não se desviou, mas também não correspondeu.

Diana suspirou. Afastou-se e se levantou, caminhando até o cubículo ao lado onde ficava o cofre. Pegou uma caixa de veludo.

__Eu estava esperando uma ocasião mais especial. Apesar de que...__ abaixou-se outra vez na frente da garota__ com você, qualquer momento é especial, minha princesa.

Abriu a caixa.

O brilho dos diamantes do colar refletiram nos olhos cor de mel de Açucena, que olhou espantada para a caixa.

__Ele pertenceu a uma princesa do Golfo Pérsico, membro da família AL Thani, que governa o Catar há muito tempo.

Diana viu na expressão de Açucena aquele mesmo deslumbramento que vira naquela manhã em que, em seu apartamento no Rio de Janeiro, havia lhe surpreendido a olhar aquela boneca espanhola num móvel na sala.

__Que lindo!__ a menina conseguiu dizer, a voz embargada pelo espanto.

Diana pegou o colar da caixa e levantou-se.

__Venha.

Conduziu-a até o espelho. Com uma mão, desabotoou o zíper de seu vestido, deixando-o cair. Açucena ficou apenas com a lingerie preta que usava, sua pele clara naturalmente bronzeada, se sobressaindo embaixo da renda escura.

Diana ficou atrás dela, afastou seus cabelos. Posicionou a joia em seu pescoço e prendeu o fecho. Afastou-se para admirar.

__Duas obras perfeitas da natureza...__ afirmou com paixão__ A princesa árabe que me desculpe. Mas esse colar foi feito pra você. Cada detalhe do desenho, o encaixe das peças... O disigh com certeza estava pensando num pescoço igualzinho ao seu.

Açucena riu, radiante a admirar a imagem de si mesma, as cascatas loiras lhe caindo pelos ombros e refletindo o fulgor das pedras.

__Eu amo você, Açucena. Tudo o que faço é pra te proporcionar momentos como esse.

O sorriso de Açucena foi se desfazendo não só pela emoção profunda de ouvir essa confissão. Mas porque tinha a leve impressão de que aquela joia era roubada.

Mas sua preocupação só durou um segundo. Ela aproximou-se de Diana, tocando-lhe o rosto com carinho.

__Eu também amo você.

Diana enlaçou-a pela cintura, capturando-lhe os lábios.

Açucena foi deixando-se conduzir ao centro da luxuosa cama do hotel, olhando-a nos olhos.

Diana sentia a excitação surgir fácil quando tinha aquele corpo pequeno e quente embaixo do seu, e aqueles lábios rosados e frescos a esperarem a sua boca.

Açucena levou uma das mãos à nuca dela, puxando-a para intensificar o beijo.

* * *

Tempos atuais.

Diana se aproximou da janela e contemplou a vista da orla lá embaixo, banhada pela iluminação noturna. Aquele tempo... Açucena com 16 anos, uma adolescente deslumbrada e fácil de seduzir, aquele foi um tempo perfeito. Mas agora a Açucena não é mais a mesma. E nem eu. 

 

 

 

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