Amor e caos por Luzia S de Assis


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Capítulo 4- O encontro

Fortaleza

            Três Semanas Depois

 

A rua era claramente restrita a um público seleto. Aquela rua era só mais um dos lugares loucos por onde ela e as amigas gostavam de se aventurar. Caminhando ao lado das amigas, Rafa sentia a adrenalina típica lhe esquentar o sangue. Um prazer mórbido a envolvia. A sensação de não fazer parte daquilo, de estar intacta, pairando intocável, no submundo proibido. Ao longo da rua, prostitutas fazendo ponto, fachadas luminosas de boates e motéis, carros de clientes circulando. Elas em frente a uma boate. O letreiro vermelho reluzente dizia: Clube Fantasy.

Entraram.

Uma infinidade de rostos se viraram na direção delas. Naqueles momentos Rafa bem que gostaria de camuflar os traços de burguesinha. Sua cara de boneca nunca passaria despercebida num lugar como aquele, cheio de tipos sórdidos procurando por garotas novas e bonitas.

Elas andaram entre as mesas e escolheram uma perto do palco. Garçonetes seminuas andavam de um lado para o outro sobre saltos imensos, servindo os clientes que esvaziavam garrafas de bebidas enquanto se deleitavam em ver as stripers fazendo coreografias nos queijos.

Distraída, Rafa nem percebeu quando no palco principal, as dançarinas pararam. A música parou. E uma concentração de olhares se formou naquela direção. Luzes vermelhas e vibrantes se acenderam. No entanto, a expectativa pairando no ambiente, finalmente atraiu sua atenção. Ela pousou seu drink na mesa. Acendeu um cigarro e se fixou no palco casualmente.

A tão esperada estrela surgiu. Era uma garota loira e exuberante. Numa chuva de luzes, ela vinha resplandecente, cercada por outras garotas menos notáveis.

De repente foi como se todo o lugar entrasse numa espécie de transe. Mas com Rafa foi mais do que isso. Ela sentiu o impacto. Algo que estava além da beleza vista pelos outros. O choque de fascinação fatal. A breve aspiração mística que faz com que uma pessoa pareça especial e estranhamente única. De repente aquela imagem correspondia a tudo o que ela nem sabia que desejava. E Alice, sua primeira paixão, e todas as outras garotas que já havia tido, eram apenas o esboço disso. Seu inconsciente escolhera, entre tantos perfis, aquele tipo perfeito, o ideal. O que seus olhos e seus sentidos buscariam a vida inteira. Agora aquela criatura estava desenhada na sua frente. Na forma daquela moça.

Rafa estava acostumada a não prestar atenção nas garotas que pegava. Eram tantas. Todas lindas e disponíveis, atraídas por sua beleza e seu dinheiro como um enxame de abelhas pelo mel. Não fazia diferença. Mas ela enxergou algo mais naquela figura no palco. Mesmo que não soubesse disso. Por mais que o desejo que estava brilhando em seus olhos a levasse na mesma direção que ela sempre ia diante de uma mulher bonita. A do sexo casual e da curtição. A garota era linda, mas e daí? Era só uma go-go girl qualquer.

Rafa não podia saber que aquele encontro era a continuação de algo que começara há muito tempo. Uma travessura do destino.

Lá em cima, a garota vinha desfilando pelo tablado entre os clientes ávidos, numa atmosfera irresistível de glamour e mistério. Seus longos cabelos loiros, sob a luz eram como fios de ouro, formando uma nuvem reluzente sobre os ombros, as ondas esvoaçando majestosamente enquanto ela dançava. A pele possuía um bronzeado natural que a tornava dourada, como as meninas do sertão. Metida num micro skirt com uma cinta liga e saltos finos, ela executava com maestria a coreografia erótica. Movia-se entre as outras com a graça de uma ninfa. Ora angelical, ora selvagem.

Mas seu rosto estava parcialmente coberto por uma máscara, como as de bailes estilo veneziano ou carnaval, preta e com detalhes em glitter. Isso não era frustrante, ao contrário, dava-lhe um ar de mistério fascinante.

Rafa estava paralisada. Mal conseguia piscar. Seus lábios se curvaram num sorriso de rendição ao deslumbramento.

__Eu sabia que você ia gostar da Angel__ observou Val, a butch que possuía um estilo afro impecável. Parecia estar se divertindo em ver a amiga babar pela dançarina.

As amigas de Rafa sabiam bem como as mulheres eram descartáveis na mão dela. Mas ninguém ali tinha ideia do que estava acontecendo de verdade.

__Angel?__ Rafa indagou num suspiro de êxtase, submersa em seu arrebatamento.

__É... Mas não perca seu tempo. A Angel é proibida__ Toni, a garota do cabelo side cut, advertiu, dando uma tragada em seu cigarro.

__Proibida por quê?__ Rafa se virou para Val. A garota sorriu. Sabia que para a amiga, o "proibido" não existia.

__Eu soube, através de um conhecido, digamos, bem informado... que essa garota é "propriedade exclusiva" do chefe.

__O chefe? Do quê? O dono desse lugar?

__Não. Acho que não. Deve ser chefe de alguma outra coisa que tem a ver com esse lugar, uma rede de prostituição, sei lá. Coisa grande, entende? A Angel não atende os clientes. Só faz esse show e sai fora__ Val deu uma tragada e soprou a fumaça no ar.

O que pairava no pensamento de Rafa não era decepção, mas uma curiosidade extasiante. Seu cérebro se fixara apenas num ponto. O desejo pela loira no palco. Os obstáculos não existiam.

__Então ela não faz programas?

__Não. Eu tentei na primeira vez que entrei aqui. Ofereci uma fortuna. Não rola. Se você reparar bem, os clientes nem podem tocá-la. E ela nunca tira essa máscara.

__O quê? Então ela não mostra o rosto?

__Não.

Rafa voltou a olhar para o palco intrigada. Agora ainda mais excitada.

No meio da coreografia erótica, a dançarina pareceu notá-la, olhando-a diretamente, como se dançasse para ela, fazendo assim Rafa ficar mais seduzida. Uns olhos castanho amarelados, ou da cor de um mel puro e límpido, se moviam entre as aberturas da máscara. Eles se fixaram nos seus. O coração de Rafa disparou em êxtase.

__Pois eu vou conhecê-la__ ela afirmou como um juramento irrevogável, um olhar obstinado, enquanto a dançarina encerrava o show__ Vou tirar essa máscara, e o resto também. Não só isso. Essa mulher vai ser minha!

Todas na mesa riram, mas já conheciam o jeito ousado dela.

__Ih, isso não vai prestar__ previu Bruna.

Rafa esperou uns minutos, olhou para cada canto daquele lugar, pensou um pouco e se levantou.

__Eu já volto.

Saiu caminhando devagar pelo ambiente sombrio, observando discretamente cada rosto em volta, tentando descobrir quem podia ser o "gerente" do inferninho.

Seu olhar parou numa mulher de terno preto e cabelo ruivo, perto da porta, que estava falando com dois homens cujas roupas refinadas, indicavam que eram clientes importantes. Esperou os dois se afastarem. Se aproximou da mulher.

__Olá!__ virou-se a ruiva, abrindo um sorriso e inspecionando Rafa-- Posso ajudá-la em alguma coisa?

__Talvez sim__Rafa respondeu sem retribuir o sorriso, se perguntando até que ponto uma criatura como aquela conseguia farejar o ouro na sola de seu sapato__ Eu preciso falar com uma garota... Angel.

Parecendo surpresa, a mulher fez uma cara de "sinto muito", antes de dizer:

__Me desculpe, mas isso não vai ser possível. Essa menina, em especial, não fala com os clientes. Mas... eu nunca vi você por aqui. Aposto que é a primeira vez que entra no Fantasy. Tenho certeza que quando conhecer outras meninas, mudará de ideia quanto a uma boa companhia...

__Eu não vou mudar de ideia__ Rafa insistiu, irritando-se__ Quero falar com ela. Apenas me diga qual o preço...

__Você não entendeu. É impossível atender o seu pedido. A Angel não está disponível, sinto muito.

Um homem apareceu nesse instante, falando qualquer coisa com a ruiva. Ela se virou para Rafa e apenas disse educadamente:

__Com licença.

Indignada, Rafa ficou parada um minuto remoendo as palavras definitivas da mulher. Mas pensou em outra coisa. Não estava acostumada a aceitar não como resposta.

Esgueirou-se pelos cantos, para longe das vistas da gerente e aproximou-se de uma das garotas que circulavam em lingeries sexys. Era morena, de cabelos encaracolados e usava um batom cor de vinho.

__Oi...

A menina se virou, passeando um olhar curioso e sorridente por Rafa.

__Oi! Parece que você está meio perdida...

__É, mas quem sabe você não pode me ajudar...

__Com todo prazer. Meu nome é Darlene. No que eu posso... ajudar você?-- Rafa teve vontade de rir com o olhar devorador que a garota estava lhe lançando.

__Muito simples. Preciso saber como chegar no camarim de vocês.

A menina estreitou os olhos, abismada. Depois caiu na gargalhada.

__Como é? Você está brincando comigo, garota? Bom, se você quer fazer parte da equipe, precisa falar primeiro com a Elisa. Ela vai adorar você, com esses olhos claros e essa pele incrível...

Depois de ficar ouvindo a garota impaciente, sem saber se ria ou se a mandava se foder, Rafa levou uma mão e coçou a nuca, tentando ser educada:

__Olha, não é nada disso. Eu preciso encontrar uma garota. A do show. Angel. Preciso saber onde ela está.

__Ah! Claro, então é isso. Bom... todos querem, meu bem. Sempre tem um cliente cheio de grana que vem e oferece uma fortuna por ela. E a gente que precisa de verdade...

__Ah é?__ Rafa pegou a carteira e sacou dali uma nota, mostrando a ela__Quantas dessa você precisa pra me dizer como chegar até ela?

A menina sorriu cética.

__Muitas, querida.

__Quantas? Me diz a porra do caminho e pode pedir quantas quiser.

__Você está louca? Não é permitido que os clientes atravessem aquele corredor.

Rafa olhou na direção do lugar, para onde a garota havia olhado.

__Escuta, eu não tenho tempo a perder. Vai aceitar minha proposta ou não?

__Quem é você?

Rafa guardou a nota e já ia saindo, quando a menina se pôs na frente dela, olhando para todos os lados antes de falar.

__Tudo bem. Hoje não está uma boa noite mesmo... Mas se der merda, eu vou te procurar, hein? Não vou me ferrar sozinha__suspirando nervosa, a menina a puxou consigo pelos cantos para não serem vistas.

Elas entraram por uma porta abaixo da escada. Para além dela havia um corredor sombrio, cheiro de portas.

__Você segue por aquele corredor. No final dele tem uma escada. Você sobe, tem outro corredor. A terceira porta é onde ela está__ a garota pôs na mão de Rafa uma chave.

Rafa deu três passos em frente. Quando olhou hesitante, para trás, a garota não estava mais ali. O lugar adiante parecia um cenário de O Massacre da Serra Elétrica. Ela pensou pela primeira vez: Estou ficando louca. Mas mesmo assim se dispôs a caminhar, o ruído de seus passos bloqueado pelo barulho lá fora. Quando percebeu que havia sido engolida pela escuridão e estava distante da porta por onde tinha entrado com a garota, começou a andar mais rápido. Subiu as tais escadas indicadas e avistou mais ou menos onde ficava a porta que lhe permitiria encontrar Angel. Finalmente...

Mas ouviu ruídos na escuridão...

Dobrou a esquina do corredor com vontade de voltar. E viu algo inesperado. Alguém estava se aproximando da tal porta. Um homem. Ele usava terno preto e tinha cabelos lisos.

Rafa diminuiu o passo e sentiu que não devia deixar que ele a visse. Esperou um minuto, observando escondida. Ele parecia tentar abrir a porta, ou algo assim. Lançou olhares rápidos para os lados, o que ela considerou estranho. Por fim ele abriu a porta num rompante, entrando no cômodo e deixando-a entreaberta.

Rafa precipitou-se até a porta. Mas a visão que teve a fez recuar, antes de pensar no que fazer. A dançarina loira mascarada estava lá dentro, em frente a um espelho sozinha. O homem se aproximou rápido, sem dar tempo de a garota reagir. Agarrou-a com força, amarrando em sua boca uma espécie de pano preto.

Sem saber o que fazer, Rafa olhou para a escuridão do corredor. Tinha que fazer alguma coisa e rápido!

Ela viu que ele vinha arrastando Angel para a porta. Afastou-se e se escondeu de novo. O homem, forçando a go-go girl a andar, veio puxando-a para o corredor.

Rafa tentou pensar, apavorada. Procurou por algo, qualquer coisa que pudesse... sabe-se lá, talvez bater nele e impedir o que estava fazendo.

O que ele ia fazer com a garota?

Rafa nem se permitiu pensar. Até que, olhando de volta para a porta, avistou um extintor de incêndio. Correu para pegá-lo, certa de que como o cara estava de costas na escuridão, não a veria de imediato.

Com o extintor em mãos, foi seguindo-o com cautela. Até perceber que ele pretendia virar a esquerda, no corredor.

Rafa respirou fundo, reuniu todas as suas forças, deu uns passos até alcançá-lo se esgueirando atrás para não ser vista. Golpeou-o na cabeça.

O ruído surdo foi abafado pelo barulho de música vindo lá de fora. E tudo aconteceu tão rápido e confuso que Rafa nem conseguiria explicar com precisão. O cara, surpreendido pelo golpe, se virou, soltando Angel automaticamente, e vindo na direção de Rafa. A essa altura, a go-go girl havia sumido. Não estava em lugar nenhum, fugira talvez.

Rafa se desesperou pelo que viria a seguir. Ela foi recuando, sendo seguida pelo estranho homem. Até que ouviu mais passos no corredor e sentiu um forte golpe na cabeça. Ela ficou tonta, enquanto ouvia vozes. Suas forças foram se esvaindo, num redemoinho de dor e medo. Ela sentiu-se desabar no chão. E tudo foi ficando mais escuro...

 

* * *

Açucena saiu correndo desabalada pelo corredor, confusa e em pânico. Quando se viu num local onde havia alguma iluminação, diminuiu o passo, mas sem deixar de olhar para trás.

Ainda não conseguia entender o que havia acontecido. Agora que estava a salvo, tinha a sensação de que acabara de acordar de um sonho ruim. Mas infelizmente, aquilo era bem real.

Quem era aquele homem estranho? Um cliente louco?

Não queria nem pensar nas possíveis pretensões do sujeito. Ela estava no camarim, como todas as vezes depois dos shows, esperando Carlão aparecer para levá-la para o flat de Diana. Sempre tivera medo daqueles corredores e escadas meio escuros, mas ela e as garotas circulavam por ali o tempo todo. Então soou um barulho na porta e ela mal havia tido tempo de verificar do que se tratava, aquele estranho já estava lá dentro e ela sentiu mãos pesadas agarrarem seu pescoço, tapando sua boca e a arrastando para fora.

Porém, mais do que o medo, havia aquele fato curioso na cena. O aparecimento daquela garota do nada, atacando o homem. Não havia visto o rosto dela direito. Mas pelo vulto, dava para concluir que não era nenhuma das meninas da boate.

Isso é loucura, mas é como se ela estivesse lá exatamente para me salvar.

Açucena parou de repente. Preciso voltar! Ou avisar alguém. Ela olhou para o corredor escuro atrás de si. Preciso voltar, preciso...

Passos de alguém se aproximando a fizeram gelar. Ela já ia se preparando para correr de novo, quando a voz soou baixa, no corredor.

__Açucena...__ era apenas Carlão__Você está bem?

 

* * *

Quando Rafa voltou a si, o cenário era outro. Não era mais o corredor, talvez nem mesmo a boate. Muitas horas deviam ter se passado, mas ela não tinha certeza. Estava sentada com as mãos presas para trás. Uma luz fosca atingia seu rosto. O resto do cômodo estava submerso na escuridão. Três figuras a rodeavam. Dois sujeitos mal encarados e uma mulher.

A mulher tinha cabelos escuros e brilhantes na altura dos ombros e olhos negros. Era de uma elegância inquestionável, num terno preto com gravata cinza. Parecia uma daquelas celebridades de Hollywood que gostam de causar nos eventos mais badalados do show business usando roupas masculinas. Apesar de que se aquela mulher fosse a personagem de um filme, seria uma gângster de algum film noir dos anos 1940. O jeito feroz como seus olhos se estreitavam para olhar Rafa pareciam mesmo ter a intenção de amedrontar. Isso parecia mais a cena de um filme.

O que é mesmo que estou fazendo aqui?

__Pra quem você trabalha?

__O quê?__Rafa indagou, confusa. Uma pergunta inesperada, sem dúvida.

__Você entendeu, garota. Agora fala, porque o meu tempo é precioso.

__Olha, desculpa, mas eu não sei do que você está falando...

__Por que entrou naquele corredor? Por que ia invadir o camarim das meninas? Quem é você? Quem te mandou?

__Calma aí, agora eu nem me lembro mais da primeira pergunta.

__Não banque a engraçadinha. Responda!

Quem ela pensa que é para me interrogar assim?

__Ninguém me mandou aqui__ Rafa respondeu com rispidez.

Entendendo isso como um insulto, a mulher sacou uma mini pistola que parecia de brinquedo. Mas Rafa sabia que não era. Já tinha visto uma daquelas quando resolvera entrar naquele curso de tiro sem sentido porque havia cismado que aprender a atirar devia ser legal. Olha a utilidade do curso aí. Aquela pequena pistola era uma 9mm que poderia estourar seus miolos.

__Talvez eu possa te ajudar a formular a resposta__ disse a mulher, destravando a arma, com um olhar malévolo.

Agora as coisas se complicavam de verdade.

Nessa hora soaram passos vindo de algum canto atrás de Rafa. Pareciam de um salto fino.

__Se ela tivesse más intenções quando entrou na boate, não teria salvado a minha vida__ a voz aveludada, num timbre notavelmente feminino e sensual encheu os ouvidos de Rafa, fazendo-a se virar como que atraída por um chamado.

É ela! A loira...Angel!

Rafa tentou disfarçar o abalo que sentiu ao ver a figura dourada surgir na luz. Angel ainda usava a máscara. Mas agora vestia um robe preto, aqueles cabelos incríveis reluzindo sobre o tecido escuro. Seus olhos fitaram os de Rafa por um segundo. Um segundo quase eterno. Tão profundo que Rafa se viu tentada a mergulhar neles...

Até que a garota se virou para a mulher com uma expressão hostil.

__O que pretende fazer com ela?

A mulher de terno e gravata se aproximou dela e segurou seu rosto entre as mãos como se ela fosse uma criança.

__Minha princesa...__disse num tom melífluo__ O que está fazendo aqui? Isso não é assunto seu. Volte para a sala e me espere lá.

__É assunto meu, sim-a dançarina afastou-se rudemente__Se não fosse por ela, nem sei o que aquele homem poderia me fazer.

A mulher a encarou de modo severo e disse entredentes:

__Volte para a sala. Agora!

__Não!__ Angel recusou-se terminantemente. Atrevida. Fascinante.

Mas de onde estava, em sua pose de toda poderosa, a mulher de terno apenas esticou a mão e desferiu um tapa frio e seco no mesmo rosto que há segundos acariciava.

__Saia!

A garota, cuja marca vermelha no rosto parecia não significar nada, voltou-se e enfrentou o olhar da mulher de novo. Mais agressiva e insolente.

Rafa odiou ter presenciado aquela cena. E ainda mais a dúvida que ficaria em seu pensamento. Por quê uma garota como aquela, de beleza extraordinária, talentosa e aparentemente destemida, se submeteria a uma situação assim?

De modo feroz, Angel encarou a mulher, deixando claro que não ia obedecê-la. Naquele olhar de cães raivosos que elas trocaram, Rafa pôde compreender que a relação delas estava longe de ser só profissional.

Ela é propriedade do chefe, ecoou em sua mente a voz de Val. Então o chefe é na verdade, uma mulher?

Como uma demonstração definitiva de poder, a mulher fez sinal para um canto escuro. De lá vieram mais dois sujeitos e agarraram nos braços de Angel, arrastando-a para a porta.

A mulher esperou os três saírem e virou-se para Rafa.

__Onde é que nós estávamos?__dessa vez ela precipitou-se mais para perto e encostou o cano da arma na testa de Rafa. Parecia impaciente e com mais raiva. Óbvio que o olhar fascinado de Rafa para Angel não havia fugido àquela percepção implacável-- Se bem que isso já perdeu a graça.

Ela afastou-se, perdendo o interesse. Mas antes que Rafa pudesse experimentar algum alívio, ela se dirigiu aos dois caras estranhos ao lado.

__Façam ela falar alguma coisa.

E se foi, caminhando para a porta.

__Você vai se arrepender__Rafa ameaçou, entrando em pânico por pensar nos recursos que aqueles brutamontes usariam para obedecer à ordem da mulher-- A minha família é muito poderosa. Você vai se dar mal...-- os caras começavam a desamarrá-la como se ela fosse um saco de batatas.

__Ah, não me diga. Eu adoraria saber quem é a sua família...

__Eu me chamo Rafaela Hoffmann!__ Rafa disse com firmeza.

A mulher parou de repente. Quando se virou e veio para a luz novamente, estava lívida, os olhos bem abertos e analisadores, percorrendo-a.

__Soltem ela!__ordenou subitamente, com toda a sua autoridade incontestável.

__O quê?__um deles perguntou sem entender.

__Eu disse pra soltá-la. Está havendo um engano...

Quando se viu livre dos dois, Rafa ajeitou as roupas e passou a mão pelos cabelos.

A mulher ficou de frente para ela. Parecia tensa. Rafa pegou a identidade e mostrou a ela.

__Para o caso de não acreditar.

__Não, de maneira nenhuma. Eu acredito__ a mulher disse, mas deu uma boa olhada no documento__Sou Diana Dantas. Peço desculpas pelo que aconteceu. Agradeça por ter esse sobrenome, menina. Conheço a sua família... Eu nunca poderia imaginar.... Infelizmente nós temos muitos inimigos e qualquer coisa suspeita deve ser imediatamente averiguada. Sinto muito. Eu faço qualquer coisa para me redimir.

__Tudo bem. Não tem necessidade__ Rafa foi se deixando conduzir por ela para fora dali. Era uma espécie de escritório, mas parecia um submundo perfeito para mafiosos. O que, na verdade, fazia sentido. Aquela mulher não era uma empresária comum.__ Acho que eu não deveria mesmo ter entrado assim.

__Assunto encerrado, ok?

Mesmo que ainda estivesse sentindo asco daquela mulher, Rafa forçou um sorriso para ela.

__Rafaela Hoffmann. Claro. Uma das famílias mais ricas e tradicionais do país. Sempre frequento o Paradise Clube quando tiro férias por aqui. Um lugar incrível. Empreendimento extraordinário.

Rafa apenas a ouviu, querendo saber se naquela noite ainda veria Angel.

__Talvez queira ir à festa que darei amanhã à noite. Será uma recepção para um amigo saudita que está de passagem pelo Brasil. Assim a Angel poderá lhe agradecer pelo que fez por ela. E nós podemos desfazer a impressão desse mal-entendido.

Um mau pressentimento assolou a mente confusa de Rafa. Mas junto com isso, a ideia de ver aquela loira misteriosa e espetacular de novo, e dessa vez sem a máscara, barrou qualquer fagulha de bom senso.

De repente Diana parou e olhou para ela. Seu semblante parecia velado por uma aura sombria.

__E quanto ao motivo de ter entrado naquele corredor restrito...

__Ah, foi... só curiosidade__ Rafa mentiu__ Eu só queria ver como ela era sem a máscara.

__Ela é minha mulher__ Diana enfatizou, a ferocidade em seu olhar quase palpável__ Sinta-se privilegiada. Não é qualquer cliente do Fantasy que tem permissão para chegar perto dela.

 

 

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