Amor e caos por Luzia S de Assis


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Capítulo 3-- Dione, Alice E Rafa

 

Flashback

Numa quinta-feira à noite, Alice e Dione haviam se esbarrado por acaso num luau na Praia Branca. Rolou um clima e as duas acabaram aos beijos no final.

Sentada junto com o resto do pessoal da banda, Karina observava a cena amargando um ciúme inquietante. Depois, quando Alice foi embora, Dione sentou-se ao seu lado. Mas parecia confusa e desanimada.

__Então reatou com ela?__ Karina perguntou a Dione, tentando fazer parecer apenas preocupação de amiga. Mas por dentro estava arrasada, já que havia visto naquele distanciamento de Alice, uma possibilidade de Dione esquecê-la, e então poder entrar em cena, declarar seu amor secreto a ela. Mas agora...

__Eu não sei__ Dione sorriu amargamente.

Karina podia sentir a dor dela, e isso a maltratava mais.

Aquele sentimento havia brotado no primeiro dia em que havia chegado no conservatório de Lagoa Grande. Entrou na sala de aula e viu aquela garota morena jambo, de cabelos curtos repicados e camiseta do Angra, e não conseguiu sair de perto dela nunca mais. A amizade rolou fácil, impulsionada pela paixão por música, além de outros gostos em comum. E as coisas foram acontecendo. Todo aquele drama de descoberta sobre sua própria homossexualidade, autoaceitação, Karina havia vivido quando surgiram os sinais de seus sentimentos por Dione. A primeira garota por quem havia se apaixonado, e com quem se descobrira. Dione era o amor de sua vida. E não ia desistir dela nunca, mesmo que desde sempre ela estivesse apaixonada por aquela patricinha.

 

* * *

No dia seguinte...

__Por que você não a deixa em paz?__ disse Karina para Alice, tomando as dores de Dione.

Elas estavam no jardim da casa dos Almeida Lins.

__Sabe o que eu acho? Isso não é da sua conta__Alice encarou-a com desprezo, sem tirar os óculos, sentada numa espreguiçadeira sob a sombra de um guarda-sol, usando um maiô Gucci dourado que combinava com seu cabelo.

__É sim, e eu não vou deixar que continue fazendo isso com ela!

__Acho que quem decide é ela.

__Ela está cega, porque você a manipula. Você não gosta dela. Você não gosta de ninguém além de você mesma, Alice. O que gosta é de vê-la se arrastando aos seus pés, enchendo a sua bola e te paparicando como se você fosse uma deusa.

__O que sabe sobre os meus sentimentos?

__Sentimentos? Você é uma vadia egoísta e fútil que não consegue enxergar um palmo diante do nariz. Não está nem aí pra ela. Fui eu quem a viu chorar todo esse tempo em que você ficou “confusa” entre ela e a Rafa, e resolveu se consolar beijando metade das garotas da cidade...

Alice olhou com indiferença para a garota ruiva, vestida de preto em sua frente. Quem poderia dizer que Karina não era bonita? Os cabelos de um vermelho vivo, longos, brilhando no sol, o corpete realçando sua cintura fina, a saia curta que revelava belas pernas.

Antes de falar, Alice riu debochada.

-- Como é que eu não tinha pensado nisso? Você está apaixonada por ela.

Pega de surpresa em seu ponto fraco, Karina ficou sem jeito.

__Que meigo...__ Alice continuou, divertindo-se__Apaixonada pela melhor amiga. Há quanto tempo, hein Karina?

__Não vou mais perder meu tempo com você. Mas só vou te dar um aviso, se você a magoar de novo, eu acabo contigo.

Alice revirou os olhos, dando de ombros enquanto a observava ir embora. Mas depois ficou séria. Havia parado na parte “ enquanto você estava confusa entre ela e a Rafa...”

Não estava confusa. Gostava das duas. Rafa e Dione. Será que não tinha esse direito? Pelo amor de Deus!

Seu celular tocou. Ela olhou no visor e sorriu, mordendo o lábio inferior.

__Oi Di.

__Queria ver você. Pensei de irmos no Acqua...

Alice não gostava de ir naquela boate, um dos lugares preferidos de Rafa e aqueles seus novos amigos. Não aguentava vê-la daquele jeito, sempre chapada e pegando um monte de mulheres. E ainda tinha aquela Dalila. Uma garota sem nada de especial. O que Rafa estava fazendo pra cima e pra baixo com ela? Rafa era sua! Sempre seria. Ela nunca ia lhe esquecer.

__Alice? Você está me ouvindo?

__Desculpe, estou. É que... Ai sei lá, me distraí, deve ser o calor. Eu vou tomar um banho e dormir um pouco. Mas acho que ir no Acqua é uma boa ideia, amor.

Era uma péssima ideia. Mas irresistível. Não adiantava, havia sido tolice tentar esquecer essas duas. Estava condenada a esse triângulo. Queria as duas.

 

* * *

Rafa estava debruçada sobre a murada da varanda do quarto de Dalila, uma garota que estava pegando naquele naquela semana. Fumava, pensando na última vez em que havia visto Alice. Numa balada. Ela estava usando um vestido dourado brilhante, os cabelos lisos que brilhavam quase na mesma proporção. Ela inteira parecia um facho luminoso que se destacava no meio da multidão dançante. Ela parecia se mover em câmera lenta... Droga! Sabia exatamente cada roupa que Alice usava em todas as vezes que a havia visto. E não importava quantas bocas beijasse, ou com quantas garotas transasse. Aquela saudade maldita nunca passava.

Braços morenos a enlaçaram por trás. Ela se virou e viu que Dalila estava pronta, num modelo preto sexy e sandálias de salto fino.

__E então? Vamos ou não?

__E pra onde você quer ir?

__Com você? Até pro inferno.

__Ah é? Mas eu prometo que só vou levar você pro céu, gata__Rafa disse, antes de envolver os lábios dela com os seus, borrando o gloss nude que ela havia posto.

 

* * *

Eram nove da noite.

Alice estava no quarto, vestida numa lingerie branca, com um robe de tecido leve e transparente, por cima. Mexendo em suas coisas no closet, procurava um acessório perfeito que combinasse com o vestido que escolhera para aquela noite. Mas sem querer, deixou cair uma caixinha de madeira, mimo que havia comprado numa viagem em Tóquio, certa vez. De dentro da caixa rolaram algumas joias e fotos. Ela nem se importou, Lili podia arrumar depois.

Mas seu olhar se fixou numa foto. Nela, Rafaela estava sozinha, no cenário ensolarado da praia da Ilha.

Nem se lembrava que ainda tinha aquela foto. A imagem sacudiu-lhe como uma ventania forte. O olhar risonho de Rafa, seu sorriso charmoso e sedutor, aquela carinha de moleca que parecia sempre cheia de travessuras com segundas intenções. A saudade veio como um golpe agudo e letal. Ela se lembrou de como aquele jeito imprevisível e arteiro de Rafa a acendia.

Alice desabou no divan, os olhos vidrados na foto, o coração apertado.

__Alice, querida!__ era a voz de Lili, seguida de batidas na porta do quarto__ A Dione está aqui.

Num sobressalto, Alice se levantou e guardou a foto de Rafa.

Quando saiu do closet, viu sua namorada parada perto da porta.

Dione estava tão ela mesma numa roupa típica daquele seu estilo old school. E nem havia entrado direto, ficara ali esperando Alice aparecer, cautelosa, quase tímida. Apesar disso a comparação veio automática.

Rafa e Dione eram lindas, cada uma a seu modo.

Dione era calada, na dela, misteriosa. Seu jeito de seduzir era sutil, mas não menos fatal.

Rafa era como um furacão. Ousada, impetuosa, arrebatadora. Uma menina cujas travessuras maliciosas, eram irresistíveis.

Alice suspirou antes de abrir um sorriso para a namorada. Amava, e precisava das duas.

Dione lançou a ela um olhar devorador. Alice se deu conta de que ainda estava apenas de lingerie.

__Nossa, está tentando me fazer desistir de sair?

Sorrindo, Alice aproximou-se dela.

__Não. E se você parar de me olhar assim, vai facilitar as coisas...

__Tarde demais__ Dione envolveu sua cintura e puxou-a, alcançando seus lábios.

Alice correspondeu, fechando os olhos extasiada com o perfume inconfundível dela.

Dione a empurrou de volta para o closet e elas fizeram amor sobre o divan, onde Alice havia ficado olhando a foto de Rafa e pensando nela.

 

               * * *

Nesse clima de casal perfeito, Alice e Dione chegaram no Acqua.

Érica estava sentada numa das banquetas do balcão do bar e observou-as com indiferença. Alice num dos looks de patricinha que as garotas ali invejavam. Dione com aquele jeitão reservado, usando uma calça preta skinny, uma camiseta de banda e tênis estilo vintage, os cabelos até a altura dos ombros, que pareciam sempre caídos sobre seus olhos. Pensou se Rafa estaria por ali e, como muita gente, confirmaria os boatos de que Alice e Dione haviam voltado a namorar.

Quando Érica se virou para pegar seu drink sobre o balcão, quase levou um susto. Rafa havia acabado de se escorar ao lado com Dalila para pedir uma bebida. Seu olhar parecia meio turvo. Ultimamente ela nunca estava sóbrio. Nem viu Érica. Com uma expressão de poucos amigos, falou com o bartender, enquanto tinha o braço em volta da cintura da ficante.

Sem conseguir evitar o ciúme, Érica teve um ímpeto de se desviar, tomar o último gole e sair dali. Mas preferiu esperar para ver que cara ela faria quando visse Alice e Dione juntas.

Não demorou muito para ter sua recompensa. Quando Rafa se virou, sua ex já estava na pista, beijando a roqueira num clima quente e sensual.

Rafa pareceu alguém que acabou de chupar um limão sem querer. Foi só um segundo, mas Érica pôde saborear o ciúme que viu faiscar nos olhos cinzentos.

Olhou na direção de Alice e viu que ela havia interrompido o beijo, e por cima do ombro de Dione, encarou Rafa de modo penetrante. Elas trocaram um olhar intenso, onde pareceu explodir mil declarações, acusações, emoções fortes...

Até Rafa se desviar.

Parecendo engolir o mal-estar, ela segurou na mão de Dalila e elas saíram, caminhando para se infiltrar no meio da multidão, indo para o lado oposto.

 

* * *

Mais tarde...

Numa mesa, enquanto Dione conversava com seus amigos sobre assuntos da banda, Alice olhava em volta, inquieta, tentando avistar Rafa no meio daquela multidão. Até que olhou na direção do corredor que levava ao banheiro e a viu atravessar a porta.

__Amor, eu acabei de ver uma amiga minha, vou falar com ela.

__Mas volta logo, tá?__ Dione pediu, distraída, e deu um beijo nos lábios dela.

Sentindo seu coração acelerar e as mãos ficarem frias, Alice se levantou e caminhou obstinada para o banheiro. Talvez encontraria Rafa cheirando dentro de uma das cabines, mas não importava. Essa era a sua oportunidade, já que aquela tal de Dalila não estava por perto.

Entrou.

Rafa acabava de sair da cabine, de cabeça baixa, séria, de mau humor. Nem a notou.

Antes que ela levantasse o olhar e a visse, Alice teve a ideia.

Fingiu que também não a havia notado e, forjando um mal-estar, escorou-se na pia, ao lado dela.

Rafa a viu finalmente, e olhou-a de soslaio, surpresa e indiferente a princípio, enquanto pegava toalha de papel. Nem mesmo disse “oi”.

Alice tentou ser mais convincente, deslizou na borda da pia e deixou-se cair no chão, fingindo desmaiar.

__Alice?

Com prazer, ela sentiu Rafa se inclinar sobre ela e agarrar seu rosto. E foi em frente no teatrinho, torcendo para tudo dar certo.

__Alice...

Assustada, Rafa levantou a cabeça dela, sacudindo-a.

__O que você tem? Droga, Alice! Fala comigo!

Alice mexeu-se, entreabrindo os olhos, forçou até uma tosse.

__O que aconteceu?--murmurou.

__Você desmaiou. O que andou tomando?

__Não sei bem...Tá tudo rodando. Acho que estou passando mal. Me tira daqui.

__Eu... __Rafa afastou-se dela relutante__ Vou chamar os seus amigos.

Alice juraria que viu um toque de amargura na expressão dela ao tentar disfarçar a preocupação evidente.

__Não, Rafa. Me tira daqui agora, não me deixa sozinha. Por favor__insistiu, tentando parecer angustiada.

E isso bastou.

Rafa encarou-a com uma preocupação indisfarçável. Naquele minuto que elas se olharam, Alice pôde ver que nada havia mudado, apesar de todo aquele tempo. Os sentimentos de Rafa estavam ali, intactos, brilhando nos olhos dela, com a mesma intensidade de antes, como se ela não tivesse ficado com um monte de garotas e virado a maior pegadora da cidade. Talvez ela estivesse fazendo isso apenas para lhe esquecer. Só que não havia conseguido. E se dependesse de Alice, não ia conseguir nunca!

Com cuidado e carinho, Rafa ajudou-a a se levantar. Estava se odiando por isso, mas o que fazer? Apesar de Alice merecer seu desprezo eterno, estava passando mal e... Mas que droga! A quem estava querendo enganar? Um pedido de Alice sempre fora “o canto da sereia”. Nunca havia conseguido negar nada a ela. Podia ir chamar os amigos dela sim. Porque desde aquela maldita tarde em que a flagrara na cama com Dione, havia prometido a si mesma nunca mais deixar ela se aproximar... Mas não conseguiu ir chamar os amigos dela.

__Eu vou te levar pra um hospital.

__Você está de carro?__Alice perguntou assim que elas saíram do banheiro__ Na verdade eu quero ir pra casa. Quando chegar lá, se eu não tiver melhorado, eu ligo pro médico da família.

__Avisou a sua namorada?__ Rafa perguntou em tom de censura, enquanto a levava em direção a porta.

Alice ficou emocionada ao sentir o ciúme expresso no olhar que ela abaixou para o chão.

__Depois eu ligo pra ela e aviso.

Quando chegaram no estacionamento, Alice viu que o carro que Rafa estava usando era o de Caio.

__O seu irmão está aqui?

__Não, estou com o carro dele. O Caio está viajando__Rafa respondeu, mas arrependeu-se em seguida. Não tinha que dar satisfações a ela. Já ia fazer muito, levando-a pra casa.

__Rafa! Você pegou o carro do seu irmão sem pedir, pra sair dirigindo sem carteira?

__Vai querer que eu te leve ou não?

__Nossa, não precisa ser grossa.

Rafa não respondeu. Séria, abriu a porta do carro e ajudou-a a se acomodar no banco do carona. Depois deu a volta e sentou-se ao volante.

__Você está tão diferente.

__Imagino que você ache que é pra pior. Ótimo. Mas guarde suas opiniões pra você mesma.

Alice baixou a cabeça, dando-se conta de que não era essa a linha de conversa que iria levá-las aonde ela queria.

__Ah, droga, está começando de novo.

__O quê?

__O meu coração, está acelerando demais__ num movimento rápido, Alice pegou a mão de Rafa e a pôs sobre o decote do seu vestido, bem em cima de seu seio esquerdo. De fato, seu coração estava acelerado, mas era por outro motivo.

Nesse instante, os olhares se encontraram numa sincronia inesperada.

Rafa tentou se convencer de que Alice estava dizendo a verdade, que ela não havia armado aquela situação. Mas se viu desejando que aquela porra de mal-estar fosse mesmo fingimento, porque queria agarrá-la e beijá-la agora mesmo.

Pra piorar, Alice aproximou o rosto do dela, os lábios entreabertos...

Rafa sentiu sua boca aguar, embriagada pelo desejo, pela saudade torturante. Mesmo se xingando mentalmente, ela se inclinou para Alice e grudou a boca na dela.

Beijou-a. Com a urgência de quem não podia pensar muito. Um beijo repleto de paixão, vontade reprimida e emoções conflitantes.

Alice correspondeu, puxando-a mais para cima de si, deleitando-se no beijo com entrega, como se o mundo fora do carro não existisse, e Dione não estivesse lá na boate, talvez procurando-a.

Rafa vagava em desespero com as mãos pelo corpo dela, inconsciente de tesão, embalada por aquele sentimento adormecido que agora ressurgia incontrolável.

 

* * *

Do lado de fora, num canto do estacionamento, Érica estava escondida. Havia visto quando as duas tinham deixado o banheiro e resolvera segui-las, esperando até que entrassem no carro para confirmar suas suspeitas. Havia tirado algumas fotos, mas talvez nem precisasse delas.

Voltou correndo para dentro da boate. Ia procurar a pessoa certa.

Dione estava ainda na mesma mesa, com o pessoal da banda. Olhava em volta, obviamente procurando a namorada. Imbecil pensou Érica.

Mas o olhar de Érica se fixou em Karina. A ruiva estava sentada à esquerda de Dione, segurando um drink. Não parecia muito animada. E, claro, Érica sabia porquê. Sabia da paixão de Karina por sua melhor amiga. Quem não sabia?

Aproximou-se da mesa e acenou para ela.

Karina pareceu não entender, a princípio, mas se levantou e veio até ela.

__Oi, Karina.

__E aí? Desculpa, eu estranhei você falando comigo, nós nunca tivemos muita intimidade...

__É, eu sei. Talvez tenha faltado oportunidade__Érica disse meio irônica, porque na verdade achava a guitarrista meio antipática. Talvez fosse impressão__ Mas eu estou aqui pelo que temos em comum.

__O quê? Não tô entendendo.

__Ambas detestamos a Alice Almeida Lins. Será que eu estou errada?

Karina empertigou-se, parecendo ter sido sacudida.

__Não. Mas e daí?

__E daí que eu quero que você veja uma coisa...

Érica levou-a até um canto e mostrou as fotos que tinha tirado de Alice e Rafa no estacionamento.

__Não acredito! Como aquela filha da puta teve coragem?

__Pois é. Bom, agora você decide o que fazer com isso. Pelo que eu sei, você tem um vasto interesse em que a Dione se decepcione com a Alice. Então...__ Érica sorriu vitoriosa, por saber que seu plano daria certo, só por ver a cara furiosa de Karina--Oportunidade perfeita!

__E você, Érica? O que você ganha com isso? Por causa da Rafa? Pensei que o lance de vocês tivesse terminado numa boa.

__Eu só estou tentando ser justa__ Érica finalizou, ainda com um sorriso no rosto.

 

* * *

No estacionamento, dentro do carro, Alice e Rafa viajavam nos delírios de prazer que compartilhavam, alheias ao que estava acontecendo na boate.

A consciência de Rafa, de que estava fazendo papel de idiota só durou até ela ter Alice quase nua em seus braços. Aí nada mais importava, apenas matar a saudade daquele corpo irresistível, e saciar a vontade reprimida que a havia quase enlouquecido todos aqueles meses. Enfim, depois de tantas bocas diferentes, tantos cheiros, corpos, garotas de todos os tipos... estava diante daquilo pelo que verdadeiramente ansiava. Não devia ter começado, agora era tarde. Queria Alice de qualquer jeito, mesmo passando por cima de seu orgulho e da raiva... Sugava com ardor os seios com cheiro do hidratante de amêndoas e mel da L'Occitane que ela usava.

Até que uma sonora batida no vidro fumê do carro fez as duas pararem de imediato. Entreolharam-se.

Rafa sentindo sua consciência lhe gritar: “O que estava fazendo?”

Alice olhando para fora e se desesperando ao ver o rosto de Dione.

__Ah, meu Deus, o que eu faço?

__Não sei, a namorada é sua__ Rafa começou a se vestir, sentindo até certo prazer naquilo-- Você armou isso, agora resolve.

__Como soube que armei?__ Alice perguntou, aflita, tentando abotoar metade do vestido.

__Como se eu não conhecesse você.

__Então por que...?

__Porque eu sou uma idiota.

__Eu só fiz isso porque senti sua falta.

__Aposto que sim__ Rafa ironizou, duvidando, e arrasada por ver o olhar preocupado com que Alice olhava para fora__Aposto que sentia minha falta também quando estava na cama com ela__destravou a porta e abriu-a num rompante.

Dione pareceu ficar em estado de choque. Não era pra menos. Flagrar a namorada naquela situação com a ex...

Rafa olhou de modo firme para ela, saboreando o sofrimento que via em seu olhar. Friamente, abriu a porta do motorista e saiu.

Alice saiu pela outra porta, bem em frente a Dione, mesmo que soubesse que nada do que dissesse ia amenizar aquele caos. Aquilo não podia ter acontecido. Como Dione ficara sabendo?

__Di...

__Nã-o fa-la comigo!__foi só o que Dione disse. Não, ela quase gritou. Depois se virou e saiu andando depressa.

Rafa ficou parada do outro lado observando tudo, se perguntando se Alice ia atrás de Dione ou ficaria. E desejando dolorosamente que ela ficasse.

Mas Alice apenas lançou-lhe um olhar confuso. E saiu correndo na direção de onde a namorada havia ido.

E Rafa teve sua resposta.

Ela se manteve um instante ali, estática, quase sem conseguir respirar direito. Por fim entrou no carro e desabou no banco, entregando-se ás lágrimas.

Queria voltar atrás. Não ceder. Não deixar Alice chegar perto de si e arrebatá-la de novo daquele jeito. Isso só havia servido para descobrir que ainda estava nas mãos dela. Aquela desgraçada! Depois de todos esses meses, ainda estava loucamente apaixonada por ela. E agora, depois do momento intenso que elas tinham acabado de viver, ela havia... simplesmente ido atrás de Dione!

 

* * *

Sexta-feira à noite...

Érica subiu os degraus do Clube Resende, passando por meia dúzia de fotógrafos e jornalistas que estavam ali para cobrir o evento, um desfile da nova coleção da estilista Valentina Lins.

Como uma futura estudante de moda apaixonada, ela olhou eufórica para a entrada, pegando na bolsa o convite que conseguira com muito sacrifício.

Quando entrou, a primeira cara que avistou foi de Alice Almeida Lins, sentada na fileira da frente. Não esperava vê-la. Sabia apenas que a Banda Íris ia tocar no desfile porque o produtor era amigo de Valentina e, com certeza havia descolado a apresentação. Mas Alice não estava ali por causa de Dione, já que as duas tinham terminado tudo depois daquela noite desastrosa no Acqua.

Até que Érica percebeu que Alice parecia conversar muito intimamente com uma moça ao lado, que reconheceu como sendo a fotógrafa de um conhecido blog de fofocas. A garota era loira platinada e tinha um estilo andrógino. Nossa, Alice não perdia tempo! Já havia arrumado um novo affair para se consolar.

Em um canto, Érica avistou o pessoal da banda, junto com o produtor, o empresário e outras figuras que ela não conhecia, posando para fotógrafos. Dione, que forçava sorrisos para as câmeras, ficava séria quando se via longe dos holofotes, e parecia evitar severamente, olhar na direção onde Alice estava. Karina se encontrava muito perto dela, abraçando-a, falando coisas em seu ouvido. Será que estavam ficando, finalmente? Será que Karina estava conseguindo consolar Dione como desejava?

Mas nesse instante uma figura inesperada veio toldar a paz daquele cenário.

Caminhando depressa e cambaleante, Rafa passou por onde Érica estava como um furacão, indo fixamente na direção de Alice. Seus olhos estavam turvos, revelando evidente embriaguez.

Érica chegou mais perto a fim de ver através de toda aquela gente que circulava.

Alice pareceu levar um susto quando Rafa parou em sua frente.

__Preciso falar com você. E tem que ser agora.

Sem graça, Alice olhou para sua acompanhante, sem saber o que dizer.

__Alice, o que está acontecendo?

__Isso não é da sua conta, sua fotografazinha de merda!__Rafa se dirigiu agressiva, para a moça.

__Rafa, o que você...

Chocada e receosa, Alice encarou a ex namorada. O brilho febril nos olhos de Rafa tinha tons de vingança.

__Vem comigo__ Rafa agarrou seu braço com força, fazendo-a se erguer da cadeira.

Para evitar um escândalo no meio daquele monte de câmeras, Alice foi se deixando levar, depois de lançar a fotógrafa um olhar de “sinto muito”.

Depois do que acontecera no estacionamento do Acqua, e de Dione ter terminado definitivamente com ela, Alice ainda havia procurado Rafa. Fora na casa dela, encontrando-a em seu quarto, meio chapada e dominada pela raiva e pelo orgulho. Rafa a havia expulsado, dizendo que nunca mais queria vê-la.

E agora, por que estava ali, e agindo daquele jeito, como se ela lhe devesse algo?

Quando chegaram do lado de fora e Rafa, depois de arrastá-la rudemente pelos degraus, jogou-a com toda força contra a lataria do carro, foi que percebeu a gravidade da situação. Rafa estava fora de si.

__O que você quer?

__Entra aí!

Alice, assustada e ofegante, olhou para o pequeno grupo de curiosos que começava a se formar nos degraus. Mal percebeu que começava a chover.

__Para de gritar, as pessoas estão olhando!__e, sem escolha, abriu a porta do carona e entrou.

Rafa entrou logo em seguida, travando as portas e pegando uma garrafa de uísque para beber no gargalo.

__Você está bêbada? Deixa eu dirigir__Alice fez menção de ir para o lugar dela, mas Rafa bateu na mão dela e jogou-a de volta em seu banco.

__Fica aonde você está!

 

* * *

Na porta do Clube, Érica apareceu a tempo de ver que o carro arrancou de repente, cantando pneus no asfalto já molhado com a chuva que aumentava.

Alguém apareceu ofegante do lado dela. E quando se virou, viu que era Caio.

__O que está acontecendo? Cadê a Alice?

__Ela entrou naquele carro com a Rafa. A sua irmã não estava nada bem, Caio. Ela parecia muito chapada, ela e a Alice pareciam discutir...

__Ah, meu Deus. O pior é que aquele carro é de um dos amigos dela. A Rafa está dirigindo sem carteira outra vez. E levando a Alice...__ descendo depressa os degraus, Caio dirigiu-se ao seu próprio carro e logo saiu em disparada também, seguindo as duas.

Érica ainda ficou ali, tentando imaginar o que aconteceria. Olhou em volta procurando Dione, mas ela não estava em lugar nenhum.

 

* * *

Na manhã seguinte Érica acordou com o ruído da voz de sua mãe e batidas na porta do quarto.

__Ai, mas que droga, mãe. Hoje é sábado, sabia? Eu já estou me matando demais por causa do vestibular, eu preciso dormir.

__Filha, não é o que está pensando. Abre a porta e liga a TV.

__Ligar a TV?__ Érica indagou, se levantando ainda sonolenta e puxando a maçaneta da porta sem vontade.

A mãe entrou no quarto nervosa e sentou-se na cama. Érica pegou o controle e ligou a TV. A voz no noticiário dizia:

“... E voltamos com mais detalhes sobre a morte de Caio Hoffmann, filho do conhecido empresário Marco Hoffmann, que aconteceu essa noite por volta das 11 horas, num acidente na avenida General Afonso...”

Érica desabou na cama, atingida pelo choque, cobrindo a boca com as mãos, vendo mentalmente imagens de uma batida feia de carros.

__Ah meu Deus!

__Eu também não estou conseguindo acreditar.

Em um segundo fashs do rosto de Caio passaram pela mente de Érica, o momento em que ele havia aparecido na porta do Clube Resende e falara com ela, e em todos os momentos em que já havia estado na presença do irmão de Rafa. Era um garoto legal. Ah, Deus! Como teria sido esse acidente?

Tentando ordenar os pensamentos, ela se perguntou como Rafa estaria, se estaria ferida, ou se nem vira o momento da batida...

Sem perceber, ela se viu chorando. Por pensar em Rafa, e em como era lamentável aquela confusão da noite anterior resultar naquela tragédia.

 

* * *

O velório estava sendo realizado longe da imprensa. Foi essa a impressão que Érica teve ao entrar na casa funerária reservada somente para a família e os amigos. Os Hoffmann já deviam estar exaustos das reportagens nos telejornais, especulações sobre a causa do acidente e tudo mais.

Érica esgueirava-se pelos cantos, em meio ao ambiente de gente vestida de preto e óculos escuros, depois de se afastar um instante de seus pais, tentando uma oportunidade para se aproximar do caixão. Sentia o coração apertado, os pensamentos sendo arrastados para questionamentos sobre a existência e as verdades cruéis e imutáveis da vida, como a morte.

Postou-se num canto perto de uma exuberante coroa de flores onde jazia um belo retrato de Caio e não pôde evitar que seu mal-estar piorasse. Ela queria mesmo era sair imediatamente dali, até que viu Rafa. E teve vontade de ir até ela e abraçá-la. Mas conteve-se.

Os amigos de Rafa a rodeavam. Uma das garotas, Bárbie, não se desgrudava dela um só minuto.

Olhando para Rafa, quieta e calada, achou-a parecida com uma boneca de cera. Uma boneca bem excêntrica, por sinal. Quando olhou para o pai dela, notou que ele parecia compartilhar do mesmo comportamento estático da filha.

Manfred Hoffmann amparava a sogra de seu filho, Úrsula Castro Werneck. Do outro lado dela, a avó de Dione, Arlete Queiroz, aproximava-se, oferecendo suas condolências. Marco cumprimentou-a e manteve-se empertigado, a emoção aparentemente contida por detrás dos óculos.

Ao lado, Léo encolhia-se entre seus amigos da banda. Dione e Karina estavam muito perto dele, todos envolvidos no clima pesado que só os velórios possuem.

Foi sem surpresa que Érica avistou em outro canto, a família Almeida Prado, Alice parada entre os pais. A patricinha estava elegante, como era de se esperar, num modelito preto de velório impecável.

Érica se perguntou se ela ia se aproximar de Rafa... E como as coisas ficariam de agora em diante.

Dione estava na varanda, olhando para o jardim, mesmo que não estivesse vendo nada. Sua mente estava paralisada num único pensamento. Alice ia embora da cidade. Para sempre. Ia morar em Amsterdã na Holanda, com a família. Havia ficado a par da notícia através de Léo.

Já fazia três semanas desde aquela noite que queria esquecer. A noite do acidente. A morte do irmão de Lé. Depois do velório, daquele depoimento exaustivo, e o assédio da imprensa, tudo estava se acalmando. Mas dentro dela a tempestade ainda soprava, destruidora e implacável.

Mesmo que estivesse tentando se convencer de que era melhor assim, que Alice sumisse para sempre, a vontade que tinha era de morrer. Mesmo que sua razão lhe impusesse a verdade que Alice nunca fora e nunca seria sua, não conseguia evitar a sensação de que, agora sim, ia perdê-la de verdade.

Batidas soaram na porta. Deduzindo ser sua avó, preocupada como estava com ela nos últimos dias, Dione se virou.

Mas deu de cara com os olhos castanhos de Alice. Seu coração quase congelou. Encarou-a, sem conseguir abrir a boca, a princípio.

O que ela estava fazendo ali? O que mais ela queria?

__Oi...__ Alice disse, caminhando até a porta da varanda, mas parando antes de se aproximar muito. Estava linda num hot paint preto, com um scarpin dourado e uma blusa de seda rosa bebê, os cabelos lisos caindo sobre os ombros. Teve a ousadia de largar a bolsa sobre uma poltrona, como se não precisasse de convite. Antes não precisava. Mas agora sim!

__Não acredito que você teve a cara de pau de vir aqui, Alice__ Dione não queria olhar para ela, a imagem que ficaria gravada em sua mente quando ela estivesse longe, por muito tempo, talvez para sempre__Eu achei que nunca mais ia ver você e, sinceramente, esse seria um grande favor que você me faria.

Que grande mentira. Dione sentiu-se desmoronar ao ver as lágrimas rolarem pelo rosto dela. Sentia raiva, vontade de expulsá-la dali. Mas ao mesmo tempo estava morbidamente feliz em vê-la.

__Eu vou fazer isso. Eu estou indo embora, Di.

__Não me chama assim!__ Dione exigiu, entre dentes__ Eu já estou sabendo. Aliás, pensei que já tivesse ido.

__A viagem está marcada para amanhã. Eu só... não queria ir sem me despedir de você.

Dione virou-se para o jardim. Não queria deixar ela ver sua expressão de desespero.

__Adeus, então.

__Eu nunca vou esquecer você. Espero que um dia me perdoe e possa lembrar com carinho de tudo o que nós vivemos.

Dione tentou respirar fundo, mas o ar lhe fugia. Apertou as mãos no parapeito, tentando se manter aparentemente indiferente, esperando que ela simplesmente se tocasse e fosse embora. Pôde ouvir a respiração aflita dela, o ruído dos metais da bolsa quando ela pegou sobre a poltrona, e seus passos indo em direção à porta.

Mas num impulso do qual ia se arrepender depois, Dione virou-se, sua mente bloqueada pelas emoções intensas, caminhou até ela e puxou-a pelo braço, fazendo com que ela parasse. Empurrou-a até a porta e colou os lábios nos dela.

A bolsa caiu, e Alice a enlaçou pela nuca, entregando-se aos apelos daquela boca ávida que se fundia à sua. As lágrimas não cessavam, o prazer do beijo se misturava à dor de saber que aquele seria o último.

Até que Dione se afastou, recuperando sua consciência, e a certeza de que precisava deixá-la ir, se libertar daquele sentimento destrutivo de uma vez.

Encarou-a firmemente, apesar das lágrimas.

__Espero que seja feliz.

Alice tremia, o gosto da boca de Dione na sua, agora trazendo de volta um punhado de esperanças.

__Na verdade eu vim aqui porque amo você. Porque apesar de todas as besteiras que eu fiz, por mais que eu tenha ficado com outras pessoas e... até cogitado a possibilidade de ficar com você e ela ao mesmo tempo, eu admito isso, foi uma estupidez, eu sei... Mas você é a única pessoa sem a qual eu não posso viver. E... se você me desse só mais uma chance, Di... Nós podíamos tentar. Eu podia pedir aos meus pais para ficar, ou...

Mas Alice foi obrigada a se interromper, porque o olhar de Dione irradiava uma mágoa irreversível. Não precisava nem ouvi-la falar. As acusações expressas naquele olhar, desarmaram-lhe definitivamente.

__Adeus, Alice.

Foi só o que Dione disse, tacitamente pondo ali um ponto final em tudo.

Baixando a cabeça, tentando se conformar, Alice inclinou-se para pegar a bolsa. Sem olhar novamente para ela, virou-se, abriu a porta e saiu.

Dione escorou-se na superfície da porta, suas pernas vacilando, fazendo-a descer lentamente até o chão, num transe de tristeza e lágrimas.

* * *

-Tempos atuais-

-Na estrada depois de um show da banda numa cidade vizinha-

Encostada no tronco de um angico, Dione bebeu água no gargalo da garrafa, impaciente. A estrada estava deserta, e a van parada no acostamento, enquanto Diego e Léo tentavam trocar o pneu.

Ficar no prego debaixo daquele sol já era ruim, imagine depois de encarar uma noite de festival no Crato, um after até o amanhecer e estar agora a poucos quilômetros do litoral. Haviam atravessado o estado. Agora era quase meio-dia e ela estava há mais de 24 horas sem dormir.

Pelo menos de uma coisa não podia reclamar. A banda estava ganhando a visibilidade que eles tanto sonhavam desde aquela época em que tocavam na escola, sendo obrigados a ouvir vaias daquelas patricinhas metidas do Farias Lobo. Agora eram outros tempos. A banda Íris finalmente havia se firmado como uma banda de verdade, depois de ganharem aquele concurso em Fortaleza. 

Mas tirando a parte gratificante, ela estava exausta. E naquele momento, só precisava estar em casa, no conforto de seus lençóis. Mas pelo visto isso ia demorar...

Pra piorar o estresse, ela e Karina haviam brigado feio na noite passada. O namoro com ela estava passando por uma crise crescente. Nem sabia dizer como começara. Apesar de todo aquele tempo juntas, a essa altura só conseguia se perguntar se algum dia amou Karina de verdade. Ou se só estava com ela por comodidade. Desde que Alice fora embora, há quatro anos, ficou com uma sensação de vazio infinito. As coisas foram acontecendo entre ela e Karina, e foi se deixando levar pela maré. E agora, já não sabia o que fazer. Ir em frente, mesmo cheia de dúvidas. Ou terminar tudo de vez.

* * * 

Karina estava sentada numa pedra, conversando com Alessandra, a vocal, e com Vanessa, que resolvera acompanhar Léo naquela viagem.

__Eu não sei, alguma coisa está errada__ Karina disse pensativa, falando baixo com as meninas, para Dione não escutar__ Ela tem se tornado distante demais nesses últimos meses. Está sempre cansada, sabe? Como se estivesse me evitando.

__Ai, Karina, para de nóia. Estamos na estrada direto ultimamente__ Alessandra a lembrou.

__É, amiga. Vocês estão juntas há tanto tempo...__ concordou Vanessa.

__E apesar disso, esse tempo todo, parece que a Dione esteve mais distante de mim do que antes, quando ainda éramos apenas amigas.

__Você acha que ela ainda pensa na Alice?

__Não sei. Aquela patricinha nojenta está longe, em Amsterdã. Por mim ela podia ter ido pra Marte. Ai, eu nem quero falar muito nela, senão atrai.

__Você tem razão. Aquela garota aprontou muito. Se a Dione ainda pensar nela, mesmo estando com você, é porque não te merece, amiga.

Karina suspirou nervosa e olhou na direção da namorada, que continuava lá escorada na árvore, olhando os garotos trocarem o pneu da van.

 

* * *

Um dia depois

 

 

Karina saiu do táxi em frente a casa dos Queiroz. Mas em seguida se arrependeu. Não devia estar ali, não com aquele motivo. Ter aquela conversa com Dione. Na melhor das hipóteses, elas iam brigar, e ela voltaria para casa com a típica sensação de frustração que a atormentava todas as vezes que aquilo acontecia.

Assim que começou a subir a escada, Karina prestou atenção no som de piano vindo do segundo andar. Clair de Lune.

Quando chegou no corredor, estava mais ansiosa e melancólica. Podia imaginar a namorada sentada tocando, concentrada, como se estivesse em outro mundo. Nesses momentos Dione parecia mais distante dela. Será que pensava em Alice? Ou em outra pessoa?

A luz da lua entrava pela janela e era a única claridade que pairava no quarto. Dione estava exatamente como Karina havia imaginado.

__Você não atendeu as minhas ligações hoje.

Dione parou de tocar, mas continuou de costas para ela.

__O que está acontecendo, Dione? Não conversamos mais. Só discutimos ou ficamos em silêncio.

__Porque você não para com essa paranoia de Alice. Ela não está mais aqui, Karina! Por que insiste em botar entre nós uma pessoa que está lá em Amsterdã? Pelo amor de Deus!

__Está aqui sim! Ela está em você.

__Fala baixo. A minha avó não precisa ouvir a nossa briga.

__Desculpe...__ Karina passou a mão pelos cabelos vermelhos, tentando se controlar.

__Olha, quer saber? Acho melhor pararmos por aqui-- Dione arriscou, impaciente.

__O que quer dizer com isso?

Elas se encararam, tensas, as emoções a flor da pele.

Karina sentiu as lágrimas encherem seus olhos.

__Que não quero continuar com isso. Quando éramos um casal, nos divertíamos juntas, isso me fazia bem. Mas agora, quando chego perto de você, eu...

__Ok, eu já entendi. É assim que você quer resolver as coisas, não é? Pondo um ponto final num namoro de três anos assim do nada...

__Eu só estou cansada disso. Queria que fôssemos como antes.

__Quando eu deixava você viver à sombra dela? Quem está cansada sou eu! Cansada das lembranças da Alice na nossa vida, dessa sua obsessão por ela que nunca acaba. Quer saber, eu vou sair dessa droga de banda também. Aproveitando que minha mãe vai viajar, eu vou com ela!

__Não... Você não pode fazer isso, Karina! Nós prometemos, fizemos um pacto de nunca misturar vida pessoal com a banda.

__E o que eu faço com a minha vontade de não ver você nunca mais?__ Karina disse, desfazendo-se em lágrimas.

Dione calou-se, ficou olhando nos olhos dela. Karina estava arrasada. Mas o que deixou Dione pior foi que não conseguia se sentir do mesmo jeito. Bem lá no fundo, era alívio o que ela sentia. E isso a deixava culpada. Porque amava Karina. Não do mesmo jeito que amava Alice. Mas como amaria a uma amiga. Era isso que Karina sempre havia sido, mesmo quando estavam namorando. Era de sua amiga que estava se despedindo. Porque para Dione, no fundo aquele namoro nunca fora de verdade.

__Não quero ter que ver você... Nos shows, nas viagens, gravações. Isso não faz sentido.

__E vai jogar seu sonho fora? Logo agora que a banda está começando a se destacar?

__Só sei que não quero mais ficar aqui.

Dione sentiu que não havia mesmo mais nada a dizer. O que poderia dizer? Que não queria que as coisas tivessem chegado a esse ponto? Que só queria ter de volta a Karina que era apenas sua amiga? Sim, admitia sua fraqueza de não ter conseguido fazer dar certo entre elas. Ela tinha razão. Seria péssimo continuar a rotina da banda com um clima assim.

__Eu vou embora.

Karina disse e esperou pela reação dela, que foi a pior. Dione ficou parada, como se esperasse apenas que aquilo acabasse logo, como se dali a uma semana nem se lembrasse mais dela. Como podia agir assim?

Por mais que a dor a paralisasse, Karina moveu-se e caminhou até a porta.

 

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