Amor e caos por Ana Little


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Capítulo 2-- Rafaela

Ano de 2004

 

American Idiot, do Green Day estourou no celular em cima do criado-mudo. O despertador.

__Ah não...__ houve um resmungo embaixo dos lençóis antes de uma cara sonolenta emergir.

Naquela época, quando Rafaela tinha 11 anos, o despertador só servia para ajudar em seu mau humor matinal. Ela apertou o botão quase quebrando e voltou a mergulhar no travesseiro, os cabelos castanhos emaranhados no tecido branco.

__Rafa, você vai se atrasar pra escola!

Era a voz da empregada.

Rafa levantou-se ainda grogue e caminhou descalça para o banheiro. Entrou embaixo do chuveiro.

De volta ao quarto, pegou depressa uma roupa qualquer no closet. Uma calça xadrez, uma camiseta preta. Olhou-se no espelho. O rosto de traços suaves e olhos cinzentos a olhava de volta. De cara feia. Passou uma escova nos fios castanho claros. Se fosse como aquelas patys do colégio, ia se atrasar ainda mais, desperdiçando meia hora para encher a cara de maquiagem.

Mas ela não se ligava nessas coisas.

Calçou o tênis, pegou o smartfone e jogou dentro da mochila. Apanhou o skate num canto e saiu.

Passou rápido pelo corredor, pela porta que sempre ficava trancada. Desde que sua mãe morrera há cinco anos. Seu pai mantinha aquele quarto intacto, como um santuário. Rafa sabia que ele ia lá à noite. Vira-o muitas vezes atravessa o corredor na madrugada e entrar no cômodo. Ele sentava-se na poltrona perto da cama, de frente para o imenso retrato que reinava na parede. Um retrato pintado por um artista amigo da família, onde sua mãe tinha uma expressão triste.

Antes Rafa não conseguia entrar naquele quarto. Começara a sofrer a falta da mãe muito antes de ela morrer. Júlia vivia ausente, dopada por todos aqueles remédios que tomava. Quando se fora, Rafa passara muito tempo sentindo como se fosse abrir aquela porta e ver a mãe deitada na cama, com uma expressão melancólica no olhar perdido e sem vida.

 

* * *

Todos estavam na mesa do café. Seu pai, seus avós e aqueles dois idiotas que por um acidente do destino, eram seus irmãos.

__Atrasada de novo, Rafaela? É a segunda vez essa semana...

Ela levantou o olhar para encontrar a expressão severa de Marco, seu pai. Os olhos cinzentos como os dela a inspecionaram. Ele usava o terno preto habitual e estava sentado na cabeceira da mesa, como de costume.

Ele não ia viajar para São Paulo naquela manhã? Estava sempre viajando a negócios, ou falando no celular sobre negócios.

__ Eu não pago uma fortuna no melhor colégio da cidade pra tolerar indisciplina sua.

__Foi mal, pai, eu...

__Foi mal?” Que modos são esses, menina? Esqueceu a palavra “desculpe?”

__Desculpe__ Rafa repetiu, reprimindo a irritação.

__Essa menina está cada vez pior! Fala e se veste como um moleque e não larga esse skate. Ela já tem onze anos, é uma mocinha. Tem que aprender a se comportar do jeito correto, como qualquer outra menina da sua idade__ Sua avó. A distinta Úrsula Castro Werneck. Quando não estava em Brasília cuidando da carreira política, estava enchendo o saco dos netos com aquela personalidade militar. Úrsula era sua avô materna, mãe de sua falecida mãe, Júlia. Portanto sogra de Marco. Como uma avó “dedicada” estava sempre ali, para se certificar de que seus netos seriam “bem-criados”.

__Tudo bem, pai__ disse seu irmão mais velho Caio, olhando por sobre os óculos. Seu cabelo era da mesma cor do de Rafa e era sempre arrumadinho com gel__ Eu já liguei pro pessoal do Grupo de Matemática, dizendo que vamos nos atrasar hoje.

Anos mais tarde, Caio morreria num acidente de carro, deixando Rafa profundamente abalada.

__E como vão os estudos?__essa figura, a melhor pessoa que Rafa conhecia, era seu avô Manfred__Estão se preparando direitinho para a competição regional desse ano?

Vou largar o grupo. Rafa pensou, mas jamais diria uma blasfêmia dessas em plena mesa do café. Não que não se sentisse empolgada com o Grupo. O problema era que ele tomava muito o seu tempo. Apesar de ter grande facilidade com os números, preferia andar de skate ou beber caipirinha escondida com sua amiga Érica no parque da cidade, ou ficar praticando desenho obsessivamente, depois das aulas de Arte. Será que sua avó não entendia que nunca seria a patricinha perfeita que ela desejava?

Rafa sentia-se seduzida por tudo o que estava fora dos domínios daquele mundo ao qual estava inserida, o estilo de vida burguês de sua família.

__Estamos sim, vovô__ ela respondeu, fingindo empolgação.

__Vamos arrasar, como no ano passado__ Caio completou.

Úrsula olhou de modo crítico para a neta:

__Bom, fico feliz porque pelo menos ela possui esse dom. Com certeza, se aprender a ter disciplina, terá um futuro brilhante, digna de uma Hoffmann.

__Minha filha terá um futuro brilhante, minha sogra__ Marco disse com convicção, sua voz grave ecoando pela sala__ Não tenha dúvidas disso. Não é, Rafaela?

__Sim, papai__ Rafa respondeu de modo polido e baixou a cabeça para seu suco de mamão.

__E você, Leonardo?

O garoto mais novo levou um susto, parecia querer dizer “porque vocês não continuam enchendo o saco dos meus irmãos e me deixam em paz?”

Léo não era bem uma ovelha negra da família. Apenas não era bom em matemática como Rafaela e Caio, mas tinha talentos: jogar vídeo-game e tocar guitarra. Em sua cadeira do outro lado da mesa, vestindo uma camiseta do Slayer, ele bocejou entediado. Tomou um pouco do seu suco e pôs os fones discretamente nos ouvidos.

__Leonardo, tire esses fones, agora!-- Marco ordenou, fuzilando o filho mais novo.

Depois do café, os três irmãos seguiram para fora, onde Raul, o motorista, já esperava para levá-los para o colégio.

__Bom dia, crianças.

Rafa limitou-se a olhá-lo de soslaio, irritada pelo “crianças”.

O Farias Lobo era uma instituição tradicional, frequentada por filhos das famílias mais importantes da cidade.

Assim que os três cruzaram o gramado em volta do prédio, Caio avistou o pessoal do Grupo de Matemática e acenou para eles.

Rafa jogou o skate no chão e o segurou com o pé, olhando a procura de Érica.

__Você não vem?__ ele perguntou__ Temos que marcar uma reunião hoje a tarde.

__Eu não vou.

__Está mesmo decidida a deixar o Grupo?

__Ainda não sei. Mais tarde vejo se apareço por lá.

Nessa hora Léo avistou os amigos dele, que viviam dizendo que iam montar uma banda. Na turma havia uma garota chamada Dione que todo mundo no colégio suspeitava que era lésbica. E Rafa sempre tivera uma estranha curiosidade a respeito dela, mas a considerava antipática demais.

Rafa pisou na prancha do skate e saiu deslizando pelo caminho que seguia até os degraus para entrar no colégio. Avistou Érica em frente. Mas de repente um esbarrão fatal em alguém, e espatifou-se no chão.

__Mas que droga!

__Desculpe__ a figura loira se abaixava preocupada.

__Você tá bem?

__Anh...

A menina tinha longos cabelos claros e lisos. Eles esvoaçavam com os movimentos dela, se misturando à leveza de um delicado vestido rosa.

Rafa não gostava dessa cor, porque lembrava qualquer coisa que sua avó associava ao “jeito ideal de uma menina ser e se comportar”. Rosa estava em tudo o que ela detestava. Mas naquela menina ficara perfeito. Sua pele era clara, os olhos de um castanho luminoso, e a boca...

Um tipo de boca bem desenhada, arredondada, rosada.

__Não, eu... tô bem.

__Você não se machucou? Ai meu Deus, como eu fui desastrada. Eu não olhei quando você tava passando. Eu.. estou meio perdida... Sou nova aqui.

__Percebi...__ Rafa já estava sorrindo. E alguma coisa doida, muito doida estava acontecendo dentro dela.

Olhando sem parar para a menina, ela a ajudou a pegar os livros do chão. Um em particular chamou sua atenção. “Indagações Aritméticas” de Carl Gauss.

__Você gosta de matemática?

__Eu participei do campeonato regional no ano passado.

__Eu faço parte de um Grupo de Matemática aqui no colégio. Você quer conhecer o pessoal?

__Adoraria.

Elas levantaram-se, ambas sorrindo.

__Muito prazer, Rafaela. Mas pode me chamar de Rafa.

A menina sorriu.

__O meu é Alice.

O sorriso da menina pareceu inundar o mundo de Rafa naquele instante. Ela apenas ainda não sabia porquê. Só sabia que agora queria se juntar imediatamente ao pessoal do Grupo de Matemática.

E foi assim, no dia 14 de novembro de 2004 que Rafa conheceu Alice Almeida Lins. A garota que um dia partiria seu coração pela primeira vez.

Rafa não foi a única garota do colégio a se encantar pela bela loirinha que acabara de chegar. Quando Alice passava com ela pelo pátio para ir encontrar o pessoal do Grupo de matemática, Dione estava escorada numa pilastra com os amigos da banda e parou o olhar na garota. Ela olhou para Alice por inteiro, sem se desviar, até ela desaparecer numa porta com Rafa. Dali a umas semanas, Alice e a tecladista tinham se tornado amigas próximas também.

A partir disso começava a inimizade entre Rafa e Dione. Karina, a guitarrista da banda, que nutria um amor secreto por Dione, também não gostou nada do interesse da tecladista pela patricinha loira.

Naquela época, a paixão platônica de Érica por Rafa também começara. Elas eram amigas no colégio muito antes de Alice chegar. E Érica ficou arrasada quando percebeu que Rafa estava se apaixonando pela nova aluna.

 

* * *

Rafa e Alice começaram a namorar naquele verão. Depois que saiu do colégio naquele dia, Rafa foi direto para a casa de Alice, já que ela não aparecera na aula e nem estava atendendo suas ligações.

A residência da família Almeida Lins, assim como a mansão dos Hoffmann, tinha um ar de casa de praia, com imensas paredes de vidro, escadas para todos os lados e varandas de madeira. Alice havia dito que os pais estavam viajando pela Europa. Ela estava sozinha com os empregados.

__A Alice tá aí?__ Rafa perguntou quando a empregada veio atender a porta.

A moça pareceu espantar-se com algo, e agia como se tivesse perdido a voz.

__Lili, o que aconteceu? Cadê a Alice?

Aquela era a babá de Alice, a pessoa que sabia de seus segredos mais do que sua própria mãe.

__Senhorita Rafa... Eu acho que você não...

Rafa não soube porquê, compreendeu que a moça estava tentando impedir que ela visse algo. Tomada por aquele pressentimento ruim, afastou a empregada de sua frente e foi entrando, subindo escadas, atravessando corredores. Até chegar no quarto de Alice.

Abriu a porta num rompante. E finalmente viu. O que mais tinha medo.

Na cama do quarto rosa de Alice, ela ergueu-se vestida numa lingerie branca, seguida por sua acompanhante que vestia uma camiseta preta de banda. Era Dione. As duas olharam com cara de espanto para Rafa, depois de interromper o que estavam fazendo. Por um momento Rafa ficou paralisada, na porta, olhando aquela cena. Seus medos, suas inseguranças, tudo se misturaram ao ciúme devastador que sentiu. Ninguém falou nada. Na cama, as duas ficaram olhando para ela. Desconcertadas, Alice começou a chorar, Dione baixou a cabeça.

Rafa não sentiu vontade de dizer nada. Só sentia nojo de Alice, das duas. Ela pegou o primeiro objeto que sua mão trêmula alcançou. Uma peça decorativa de vidro sobre um móvel ao lado da porta. Agarrou-a e atirou com toda força na direção do grande espelho que quase cobria a parede oposta a cama. O ruído alto ecoou pelas paredes de vidro, e os cacos do espelho se espalharam pelo chão.

Depois ela bateu a porta e saiu andando atropeladamente por onde viera, quase caindo quando alcançou o degrau da primeira escada para descer. A empregada a ajudou.

__Senhorita, o que aconteceu? Que barulho foi esse?

__Me deixa!

Rafa correu, passou pelos mesmos corredores e cômodos, alcançou a porta de saída e foi dar no hall. Ela teria ido embora, mas suas pernas estavam bambas e seu coração parecia querer sair pela boca, provocando-lhe uma dor cortante no peito. Desabou nos degraus de entrada da casa, sentando-se. Explodiu em lágrimas.

 

Enfim acabara. Acontecera o que ela tanto previa nos momentos em que tinha crises de ciúmes. Um ciúme bem infundado, agora sabia. Ha quanto tempo elas estavam ficando?

Mas isso agora não importava mais.

Levantou-se e começou a caminhar pelo jardim, para o portão de saída. Os seguranças abriram e ela desceu para a rua, andando depressa. Saiu do condomínio e andou até atingir a via onde conseguiu um táxi.

Nem sabia pra onde ia. Não conseguia nem pensar direito.

--Fica rodando por aí-- disse ao taxista.

Sua mente estava congelada naquela imagem horrível.

Ela foi para o Parque da Cidade, ficou andando de skate o resto da tarde. Até que caiu e se machucou feio. Érica viu tudo e a levou para o hospital.

* * *

Após descobrir a verdade sobre ser filha de um caso que o pai tivera fora do casamento, Rafa teve uma crise, já que isso culminou com a traição da namorada Alice. Rafa acabou entrando em uma fase problemática ao extremo. Ela tomava os valiums que encontrava no armário do banheiro da suíte de sua avó. Ninguém mais sabia. Até que seu pai descobriu. Ele a havia repreendeu, marcou uma consulta com uma amiga da família que era psicóloga. E depois voltou para sua vida de negócios e viagens com a consciência tranquila.

E Rafa continuou sozinha com sua incapacidade de lidar com os problemas.

Para ela, as semanas que sucederam aquela tarde da descoberta sobre a traição de Alice, e sobre sua verdadeira mãe, foram como mergulhar num túnel escuro onde não conseguia vislumbrar o fim.

Ela ficava deitada na cama durante horas, olhando para o teto fixamente.

__Ah, não! Não acredito que você está assim de novo__ Érica reclamou, após abrir a porta do quarto e vê-la deitada em plenas três da tarde, comendo snaks e chocolates, enquanto assistia episódios seguidos de Sobrenatural__ Cara, não que eu também não seja fã dessa série, mas o dia está incrível. Geral está na pool party da Bruna Marques…

Érica tinha se tornado uma grande amiga naqueles tempos difíceis.

__Ai, Érica, me deixa! Eu não tô a fim de sair. Que saco! Quer saber, se não suporta a minha companhia, cai fora, valeu?

Surpresa com a explosão dela, Érica a encarou, magoada.

__O quê?

Rafa suspirou, cobrindo o rosto com as mãos, e se recuperando do breve ataque de irritação. Imediatamente se arrependeu de cada palavra. Droga! Érica não tinha culpa da sua vida de merda! Muito pelo contrário, ela estava sendo uma amiga doce e compreensiva.

Arrasada, Érica pegou a bolsa. Não sabia por que perdia tempo, alimentando aquela paixão platônica por Rafa.

__Você tem razão. Acho que não tenho mais nada pra fazer aqui__ela dirigiu-se à porta.

__Não! Espera__ Rafa se pôs em sua frente, antes que ela girasse a maçaneta. Encararam-se de novo, Rafa percebendo que se a deixasse ir, perderia a única porção de paz que havia tido naqueles dias, a paz que só a companhia de Érica tinha sido capaz de lhe dar. Segurou com ternura na mão dela.

__Me desculpe. Retiro tudo o que eu disse. Eu sou uma idiota, me desculpe. Não quero que você vá...

__Me dê um bom motivo pra ficar.

Rafa puxou o rosto dela e beijou-a de repente.

Érica cedeu, mesmo ainda envolvida em mágoa e raiva. Os lábios de Rafa tiveram o poder de anestesiá-la. Enfiou as mãos nos cabelos castanhos dela e intensificou o beijo.

__Diga que você não vai...__Rafa insistiu, aflita.

Sucumbindo à fragilidade, diante daquela paixão implacável, Érica desistiu de ir. Envolveu-a num abraço apertado.

 

Uma semana depois…

 

Eram cinco da tarde. Os últimos raios de sol refletiam nas lentes dos óculos escuros que Érica usava, combinando com a blusa preta de paetês que ela vestia. Seus lábios ostentavam um batom vermelho que a deixava parecida com as garotas da faculdade. Rafa refletiu, pegando o celular e filmando-a enquanto ela dançava, contente pelo gramado do Clube Resende, onde estava acontecendo a festa de aniversário de uma das amigas skatistas de Rafa.

__Você está linda__ Rafa disse para Érica, antes de puxá-la para si e beijar seu pescoço.

Elas foram caminhando abraçadas e entraram no meio da bagunça. Encontraram a aniversariante, que estava rodeada de gente.

Agora Rafa estava conseguindo seguir com sua vida. Voltara a sair, andar de skate e ir nas aulas de arte.

Ela se encostou na grade, enquanto Érica havia saído para procurar uma amiga. Abriu uma lata de cerveja pra beber e olhou para a galera que se acabava ao som da batida eletrônica.

Até que avistou, entre a multidão, a última coisa que seus olhos desejavam ver. A primeira imagem impactante foi o brilho dos cabelos loiros e lisos. Depois o corpo inesquecível metido num vestido sexy de arrasar, dançando do jeito charmoso como só ela conseguia. Isso mesmo. Era Alice. Elas não se viam há quase dois meses, já que Alice havia mudado de colégio depois do que acontecera.

Ela parecia meio embriagada, e nem a viu.

Perto de Alice havia um grupo de pessoas que Rafa nunca havia visto antes. No meio da roda uma garota que parecia mais velha veio e enlaçou Alice pela cintura. Ela era mais alta e exibia um estilo masculino. Cabelo preto curto, bermuda larga e meio caída, presa por um cinto pesado, camiseta masculina e Converse de couro preto. Ela tinha uma imensa tatuagem no braço esquerdo e outra na perna direita. Segurava um cigarro. Tirou uma última tragada e jogou o resto fora. Alice e ela conversavam e riam, abraçadas. Apesar da tortura, Rafa as observava.

Por fim Alice olhou para a tal garota de modo diferente, pôs os braços em volta de seu pescoço e beijou-a, um beijo que logo se tornou intenso, seu corpo unido ao dela de modo sensual.

Aquela imagem, que dispensava palavras, desestabilizou Rafa de novo. E dessa vez de um jeito definitivo.

Ela jogou a lata de cerveja longe em direção ao gramado. Saiu dali imediatamente, nem falou com Érica, foi caminhando atropeladamente entre as pessoas, desesperadamente em direção à saída do clube.

Quando chegou em casa, aproveitou que não havia ninguém ali, nem seu pai, nem seus irmãos, nem os avós. Avisou aos empregados que não dissessem para Érica onde ela ia. Pegou a mochila com algumas coisas e foi para a Ilha.

* * *

Em todos aqueles dias de sumiço de Rafaela, Érica não entendeu o que estava acontecendo. Mas suspeitava. E por causa disso ficou ainda mais preocupada. Inúmeras vezes ela voltou na mansão dos Hoffmann para ver se a namorada havia aparecido.

__Glória, você sabe onde ela está, não é?__perguntava para a ex babá de Rafa. Mas era evidente que a fiel empregada não diria.

__Desculpe, Érica, ela pediu pra não dizer a ninguém.

Érica sentia-se rejeitada, deixada de lado. Mas preocupava-se, sabia que Rafa talvez estivesse mais deprimida do que antes. E não conseguia se manter indiferente a isso.

Naquela tarde, deitada na cama dela, tentava bolar um plano para achá-la, quando a porta do quarto se abriu num rompante.

__Rafa?

__Oi Érica. Eu não sabia que você estava aqui...__ ela disse com naturalidade, como se elas tivessem se visto há minutos. Tinha o cabelo preso num rabo de cavalo, usava boné da Vans e roupas que Érica nunca havia visto. Era uma calça jeans masculina e uma camiseta polo preta__ E aí?__entrou e jogou a mochila numa poltrona ao lado da cama. O cheiro de álcool inundou o quarto. Pelo visto ela havia bebido demais, o que era estranho porque nunca fizera isso. Sempre bebia moderadamente, sem nunca sair do controle.

Érica olhou o semblante tranquilo que jamais imaginou que veria quando a encontrasse de novo. E era mais que isso. O olhar de Rafa parecia estranhamente vago.

O que havia de errado com ela?

__Onde você estava? Como é que some assim sem falar nada comigo? Obrigada pela consideração.

__Desculpe, eu precisava de um tempo sozinha. Só isso__ de um jeito displicente, Rafa jogou-se na cama, pegou um cigarro do bolso, depois o isqueiro para acender.

__Desde quando está fumando?

Ela deu uma tragada e soprou a fumaça com prazer para cima.

__Qual é, Érica? Vou mesmo ter que explicar cada detalhe do que fiz durante a minha ausência? A gente não tem nada sério, que eu saiba. Não estamos casadas.

__Estávamos ficando. Depois disso não sei mais.

Rafa não respondeu. Parecia tranquila, com aquele ar vago e perdido. Indignada, Érica levantou-se da cama e foi até ela, analisando-a.

__O que aconteceu naquele dia da festa da Liliane?

__Nada__ Rafa respondeu e deu outra tragada no cigarro__ Eu só saí da cidade porque precisava dar um tempo, já disse. Aproveitei as férias pra ficar longe daqui. Só isso__ ela jogou o cigarro na lixeira e levantou-se__ Olha, você me desculpa, mas depois a gente conversa. Eu quero tomar um banho.

__Tudo bem...__ Érica respondeu, sentindo-se rejeitada e deslocada.

Rafa tirou a camiseta, ficando apenas com o sutiã preto e virou-se para entrar no closet.

Érica levou um susto. Nas costas dela havia uma imensa tatuagem escura, linhas e curvas pretas combinadas a outras mais claras. Era o desenho impecável de um dragão.

__Você fez uma tatuagem?__ indagou perplexa.

__É o que parece, não é?

__Por que está me tratando assim? O que foi que eu fiz? O que aconteceu com você?

__Você não fez nada. Não tem a ver com você.

__E tem a ver com o quê, Rafa?

__Comigo!... Eu só decidi que a minha vida está uma porcaria e alguma coisa precisa mudar.

__Mudar pra pior? Que tipo de mudança acha que vai conseguir desse jeito? Você surtou. Aliás, como conseguiu fazer essa tattoo? Você não tem nem 16 anos.

__Identidade falsificada.

__Você enlouqueceu, garota? O seu pai vai te matar.

__Isso é problema meu, Érica. Não vou deixar que ele veja. E quer saber, que se dane. O meu pai não tá nem aí pra mim. Ele tem uma vida complexa demais pra administrar. Graças a Deus! E eu tô cansada de tudo.

__Tudo o quê?

__Eu não sei.

Rafa definitivamente não era mais a mesma. E naquele instante Érica percebeu que ela parecia passar por um tipo de transformação drástica e sem volta. E isso não lhe favorecia. Porque Rafa estava agindo como se o tempo em que elas haviam ficado, não tivesse significado nada.

__Tudo bem, você que sabe. Eu vou indo.

__Tchal. Bate a porta quando sair, por favor.

Quando Érica se viu sozinha no corredor, parou um pouco porque os batimentos de seu coração quase a sufocavam. Ela se encostou na parede e explodiu em lágrimas.

No banheiro, Rafa se livrou do resto de suas roupas e deixou-as cair no chão, exibindo as formas do corpo gracioso, a pele clara com algumas sardas ao longo da curva da cintura, nas costas e no colo. Os cabelos castanhos estenderam-se sobre seus ombros nus. Antes de entrar na banheira cheia de espuma que a esperava, ela olhou as costas refletidas no espelho.

Ali estava ele... Parecia ter vida própria na claridade de sua pele, cada curva traçada com perfeição, os tons de preto se impondo, num degradê do escuro ao claro, cada nuance com seu poder. Um desenho fantástico. Um dragão celta, espirrando fogo, os olhos ferozes que encaravam a pessoa que o olhasse. Um símbolo de força e poder.

Sorriu para si mesma, ignorando a pontada de remorso que sentiu pelo jeito frio como havia tratado Érica...

Mas para quê continuar com isso? Era incapaz de correspondê-la na mesma medida. Estava desperdiçado seu tempo e o dela.

Na verdade não tinha a ver com Érica. Nem mesmo com Alice. Tinha a ver com ela mesma. Alguma coisa não se encaixava em sua vida. As coisas pareciam simples como uma equação de 1° grau. Era uma filha bastarda da família, a garota que amaria para sempre não passava de uma vadia traíra. Simples. Nada que não pudesse ser superado, não é? No entanto, era mais do que isso. Algo mais complexo, que tinha a ver com tudo e, ao mesmo tempo com nada. Algo que a fazia se sentir vazia. Era como se estivesse diante de um enorme ponto de interrogação. A pergunta não era “quem sou eu”, mas... “quem eu quero ser”

Entrou na banheira, fechou os olhos e mergulhou. Naquela época, ela começou a sair para as baladas e conheceu Bárbara, Toni e as outras.

 

Dois meses depois

Ela vinha descendo os degraus para entrar no primeiro piso da boate Acqua com algumas novas amigas. Cada uma portanto sua carteira de identidade com a data de nascimento adulterada, já que eram todas menores de idade.

Rafaela sorria, em êxtase, caminhando de modo altivo, usando uma roupa que Érica diria ser um claro sinal de que ela queria mesmo virar uma butch. Calça xadrez vermelha, um tênis de couro Carmen Sttefens, camiseta regata larga e boné da vans.

Assim que elas pisaram no último degrau, várias pessoas vieram falar com Rafa. Algumas acenavam, garotos arrumadinhos e estilosos, garotas lindas e bajuladoras que vinham abraçá-la como se fossem suas amigas de infância, a maioria com segundas intenções. Todos queriam ser amigos de Rafaela Hoffmann, ou todas queriam ficar com ela. Rafa havia se tornado a nova garota mais popular no meio LGBT da cidade. No auge dos seus 16 anos recém-completados, era como uma celebridade nas baladas do gênero, e o sonho de consumo de boa parte das garotas que a viam por ali. Ela não precisaria nem ser legal. Mesmo quando ganhou uma fama de conquistadora, as garotas a veneravam. O fato de ser rica, linda e carismática nas horas certas era o suficiente.

Com aquela identidade falsa e uma dose extra de inconsequência, ela mergulhou de cabeça naquelas noites loucas. E descobriu um remédio melhor do que os valiums da sua avó para esquecer Alice, as cobranças do pai, os preconceitos sofridos na escola, e principalmente aquelas angústias para as quais ela ainda não tinha um nome.

Aliás, não havia tempo para pensar em mais nada com todas aquelas garotas rondando-a e se insinuando para ela. Essa era a melhor parte. Já estava se acostumando a pegar várias mulheres numa noite. Elas choviam ao seu redor, gostosas e disponíveis. Pela primeira vez percebeu o quanto era bom fazer sexo sem nem saber o nome da garota. Enfim, não precisava mais de Alice. Seu mundo agora era sair todos os fins de semana, transar com quantas garotas quisesse, ficar doidona e se abandonar na pista, dançando enlouquecida até esquecer de todos os motivos que tinha para ficar triste.

O grupo foi até o balcão pedir drinks. Rafa se encostou ali, acendendo um cigarro e falando com o bartender.

Barbie e Flávia a observaram radiantes, cheias de orgulho por serem amigas da pessoa mais top da balada.

Uma garota se escorou ali, nitidamente curiosa, lançando olhares para elas.

__Bom gosto...__ ela elogiou, olhando para a garrafa na mão de Rafa. Pegou um cigarro e fez sinal para ela emprestar o isqueiro.

__Valeu__ Rafa pegou o pequeno isqueiro dourado no bolso e jogou para ela. A garota era negra, uma butch perfeita que parecia saber combinar peças perfeitamente, num estilo afro impecável. Cabelo com tranças nagô, acessórios criativos.

__Sou Val.

__Prazer, Rafa.

__Eu sei. Quem não conhece Rafaela Hoffmann por aqui?

Rafa sorriu para ela, pegando o isqueiro de volta.

 

Tempos atuais

Ela parou o Camaro conversível no estacionamento do prédio onde ficava o escritório sede do Grupo HWM, as empresas da família. Deu um beijo na crush no banco do carona, uma morena de corpo escultural e cabelos longos.

__Não demora, amor__pediu Raíssa, deslizando a mão pela sua nuca.

__Eu sei, já volto pra você, gata.

Umas no banco de trás e outras sentadas na capota, as amigas conversavam sem parar sobre alguma fofoca recente.

__Vai lá resolver a nossa vida, Rafa__ Bárbara disse assim que ela abriu a porta.

__Afinal, qual a graça de ter uma amiga milionária se não podemos aproveitar?__ completou Flávia, com uma risada.

Rafa deu um riso, meneando a cabeça.

__Vocês não prestam__ e saiu do carro, seguindo para o elevador.

* * *

__Quem é?__ perguntou a nova secretária Larissa, ao ver um retrato pintado a óleo, na recepção. Um senhor de olhos cinzentos e cabelos castanho-claros.

__É o pai do doutor Manfred. Um descendente de alemães chamado Zigmund Hoffmann, que apreciava viagens pelo litoral do Nordeste, e era apaixonado pela Costa do Sol Poente.

__Nossa, que interessante__ Larissa sorriu encantada.

Ela era uma loira platinada, usava um terninho com decote em "v" e esmalte vermelho nas unhas compridas.

O telefone tocou. Verônica deixou as fofocas de lado e atendeu seriamente. As outras moças também voltaram ao trabalho. E Larissa tentou fazer o mesmo.

Mas alguém acabava de sair do elevador e vinha vindo em direção a elas. Um rapaz lindo. Larissa o seguiu com o olhar, sem piscar, porque… Uau! Ele parecia um modelo. Desses de desfiles de grifes famosas. Um rosto inacreditável, a pele clara e limpa, olhos que pareciam dois diamantes, cinzentos e expressivos, cílios espessos, uma boca esculpida com perfeição. Os cabelos eram castanho-claros, num corte rente à nuca, com uma mecha meio bagunçada na frente, caída para o lado. Mas… havia algo errado. E Larissa mal conseguiu acreditar quando desceu os olhos pelas formas redondas dos seios que se insinuavam por debaixo da camisa social branca. E depois se deu conta de outros detalhes. Não era um rapaz. Era uma moça! Vestida numa roupa masculina. E Larissa ficou mais fascinada com a descoberta. Observou-a caminhar com passos firmes, as mãos nos bolsos da calça de corte masculino, um andar elegante. A roupa era social, apesar de ela possuir algumas tatuagens espalhadas em lugares visíveis e pedaços de outras escondidas embaixo da camisa com as mangas dobradas. O contraste das tatuagens com o ar elegante a fazia parecer exótica de um jeito exuberante. Era essa a palavra para ela. Exuberante.

A garota se aproximou da mesa com um ar confiante, o queixo erguido, um olhar presunçoso.

__Oi Verônica.

__Oi Rafa!

Larissa não conseguiu parar de olhar. Sentiu-se nervosa quando o lindo par de olhos claros parou um segundo nela. Foi só um segundo, mas teve certeza de que a moça reparou nela com um jeito… especial.

__O meu avô está aí?

__Sim, mas ele está em reunião__ respondeu Verônica, simpática, enquanto Larissa estava chocada com a descoberta que fizera. Já tinha ouvido falar na famosa neta de Manfred Hoffmann, mas não a imaginava assim.

__Tudo bem. Eu vou esperar na sala dele.

E a garota saiu, entrando pela porta ao lado.

Larissa conseguiu respirar direito e perguntou:

__Ela é a neta do doutor Manfred?

__É isso aí.

* * *

Rafa jogou-se na cadeira do avô, atrás da mesa, sorrindo sozinha ao pensar na loira gostosa que acabara de ver na recepção. Não adiantava, tinha um fraco por loiras. E não era porque sua crush atual estava lá fora a esperando no carro que ela não podia se distrair um pouco com aquela secretária novata tentadora. Que peitos eram aqueles? Não ia perder a oportunidade de botar as mãos neles.

Decidiu que estava com sede. Pegou o telefone.

__Verônica, pede pra me servirem uma água, por favor. E... pede pra nova secretária trazer.

* * *

Na recepção, Verônica desligou o telefone e olhou para Larissa com um sorriso malicioso.

__Ela quer... água.

A loira ficou se perguntando se sua colega de trabalho lia pensamentos.

__Não, querida, eu não leio pensamentos. Mas conheço essa menina muito bem. Por isso um conselho: Tome cuidado.

__Eu sei me cuidar.

* * *

Entrou na sala com a bandeja.

Rafaela estava sentada na cadeira da presidência. O olhar de diamante se fixou nela, um olhar que Larissa chamaria de “cinicamente sedutor”, como só uma menina rica e metida consegue.

Larissa sentiu-se sem ação ao mergulhar no cinza daqueles olhos de novo. Rafaela encerrava uma conversa no telefone.

__Essa festa vai acontecer sim. Me dá só um minuto.

Pôs o fone na base e levantou-se, o olhar fixo no de Larissa. O jeito como ela caminhou em sua direção foi instigante.

__Obrigada. Estou com muita sede__ Rafa pegou o copo de sua mão e pôs sobre a mesa__Mesmo que não seja exatamente de água.

__Perdão, eu não entendi__ Larissa tentou fingir que não queria entrar no jogo.

Mas a garota a puxou de repente, colando os lábios nos seus com firmeza, invadindo sua boca sem pedir licença, sugando sua língua com avidez.

Rafa segurou nos cabelos de Larissa com força, devorando sua boca de modo ousado.

__Ai, meu Deus, o que eu estou fazendo?__ Larissa tentou se afastar.

__Curtindo as boas oportunidades da vida?__ e Rafa a arrastou para a sala ao lado. Trancou a porta. Abriu os botões da blusa branca da secretária, descendo a boca para chupar os seios dela, depois a empurrou até o sofá, arrancando a calcinha por baixo da saia. Larissa arfou, jogando a cabeça para trás, extasiada.

__Tenta não gemer muito alto, gostosa__ Rafa sussurrou no ouvido da moça antes de virá-la de costas, no encosto do sofá e penetrar dois dedos ágeis dentro dela, comprimindo-a contra o estofado, enquanto apertava o seio esquerdo com a outra mão, sugando seu pescoço em beijos impetuosos, se deleitando naquele corpo cheio de curvas tentadoras.

Mas ruído soou na porta da sala ao lado. E a coisa toda teve que ser interrompida.

__Deve ser meu avô__ disse Rafa afastando-se da secretária. Mesmo ainda ofegante, ela se recompôs com tranquilidade, enquanto a outra se arrumava, nervosa__ Fica aqui. Depois você dá um jeito de sair.

__Que jeito?

Ignorando o nervosismo de Larissa, Rafa abriu a porta e foi encontrar com o avô na sala, ensaiando seu sorriso mais doce. Fechou a porta atrás de si.

__Oi vovô!

__Querida, que surpresa. O que faz aqui?

__Queria falar com você.

__Aconteceu alguma coisa?__ ele perguntou, atencioso, sentando-se em seu posto, na cadeira onde Rafa estivera. Ela se pôs de frente para ele.

__Não é nada demais. É que eu fiquei sabendo que os organizadores do evento que eu falei em Fortaleza, estão oferecendo uma oficina para principiantes. No final do evento, a obra que ganhar mais destaque, vai poder fazer parte da exposição em Londres. Artistas de alguns países e colecionadores importantes estarão lá. Eu gostaria muito de ir, mas...

__Já entendi. Você quer permissão para ficar na casa no Meireles__ ele resumiu, parecendo impassível. Mexeu em alguns papéis na mesa.

__Bom, seria perfeito. Posso chamar uns amigos pra trabalharmos juntos, trocar ideias...

Ele levantou o olhar para ela, os olhos da mesma cor dos seus. Eles demonstravam desconfiança. Mas ela sabia que a complacência dele era quase infinita quando se tratava dela. Não tinha culpa de ser sua favorita.

__Você sabe que o seu pai já deixou bem claro que não quer você lá.

__Eu sei, vovô. Mas não vou fazer nada demais. Eu só quero aproveitar o que resta das férias fazendo uma coisa que gosto.

__Sim, mas às vezes essa sua obsessão pelas artes me deixa muito preocupado, Rafa. Você tem um futuro traçado, minha querida. E não é ser uma simples artista plástica que viaja pelo mundo ocupando-se de atividades fúteis, batalhando pelo sucesso numa área que não tem a ver com a história da sua família. Você sabe disso.

__Eu sei... Mas o meu irmão faz o que ele quer e o papai nem liga pra isso. O Léo só fica pra cima e pra baixo com a banda dele. E o que o papai diz sobre isso? Nada. Ele só enxerga os meus “erros”. Eu que estou sempre na empresa e faço a faculdade que vocês queriam...

__Não é bem assim. Ele nunca aprovou essa história do Léo com essa banda. Mas você sabe, o Leonardo é mais novo, ainda está no colégio. E ele tem conseguido conciliar boas notas com seus outros compromissos. Mas acredito que essa benevolência do Marco não vai durar muito. Ele quer que o Léo faça Direito. Então o seu irmão vai precisar de tempo pra estudar. Além disso, você sendo mais velha sempre será o alvo principal para um dia assumir os negócios da família. É preciso que você entenda isso, filha. Todas as pressões e cobranças em cima de você têm um motivo.

__Eu tenho outra teoria sobre isso. Talvez ele nunca tenha desejado investir no Léo. Afinal, o Léo é filho legítimo da Júlia. Enquanto eu não. Estou isenta de toda aquela situação. Eu não sou filha da mulher que o traiu.

__Não pense assim.

__Desculpa, vô. Mas as coisas sempre foram assim. O Léo sempre foi deixado em segundo plano. As cobranças sempre foram em cima de mim. Mas os privilégios também.

__Então o seu irmão deve estar feliz por não ser importunado. Enquanto você, fique feliz por seu pai tê-la elegido como a princesa da família. Tente enxergar as vantagens nisso e não desperdice essa oportunidade.

Ela baixou os olhos para o chão, pensando como ao longo dos anos esse fardo fora cansativo a ponto de fazê-la procurar maneiras de escapar. Olhou para uma foto em cima da mesa onde ela aparecia, vestida no uniforme do colégio, aos 10 anos de idade, segurando uma medalha de vencedora de uma competição importante de matemática.

__Acho que tenho correspondido ás expectativas dele. Sempre. Apesar de que pro meu pai nada é suficiente. Nunca foi.

__Talvez se você começar a pegar leve com as farras...

__O senhor quer dizer, parar de viver, não é? Eu gostaria de curtir pelo menos esse último ano enquanto ainda não me formei. Antes de me enfiar nesse escritório e passar o resto dos meus dias. É muito cansativo corresponder às expectativas de alguém que nunca está satisfeito.

__Eu entendo...__ o telefone tocou, cortando a conversa__Um minuto, querida.

Manfred atendeu de imediato.

__Sim, Verônica. Não, eu não me esqueci. Avise que já estou a caminho__e ele levantou-se.

__Vovô, e então?

__Tudo bem__ele cedeu impaciente__ Pode ir. Mas vou ligar para saber como estão as coisas. Juízo hein!

__Obrigada, vovô!__ ela o beijou no rosto, antes de vê-lo sair apressado pela porta.

__Oficina de arte?__ era a voz da secretária loira, vindo da sala ao lado onde Rafa a havia deixado__Será que eu ouvi a palavra festa quando você estava no telefone? Você mentiu pro seu avô?

Rafa se virou para ela com indignação, a olhando com o desprezo que teria para um inseto indesejável.

__Você é muito intrometida pra uma simples secretária, sabia?

A cara de surpresa e decepção que Larissa fez foi ignorada. Rafa apenas se virou e saiu, deixando-a lá.

Larissa a viu sair da sala e ficou parada um instante, sem acreditar que havia sido tratada daquele jeito. Fechou os punhos com raiva. Mas como é que ia adivinhar que a neta linda e sedutora do doutor Manfred não passava de uma cretina?

Já do lado de fora do prédio, Rafa desceu os degraus e se aproximou do carro, onde as amigas a esperavam.

--Alguém aí ainda quer curtir o resto das férias em Fortaleza?__ ela disse com um olhar altivo, a sobrancelha direita levemente erguida, um sorriso de canto de lábios.

Uma explosão de comemoração soou no carro.

__Arrasou, amor__ Raíssa disse assim que ela entrou, agarrando o rosto dela para um beijo.

Bárbara, sentada junto com Flávia na capota, soltou um gritinho histérico, batendo palmas.

__Perfeito, amiga!__ seus olhos castanhos com lentes de contato azuis estavam escondidos num óculos de sol cat eye Dior.

__Ai, nem acredito que vou me livrar da encheção de saco dos meus pais por mais alguns dias__ Flávia vibrou, abraçando a outra. Seus cabelos loiros na altura dos ombros refletiam na fivela da bolsa Vuitton vermelha.

Toni deu um sorriso sem graça, reparando no escândalo das amigas e se perguntando o que as pessoas que passavam na calçada em frente ao prédio pensariam. Apesar da extravagância de seu cabelo side cut, ela não conseguia se livrar da timidez.

Bruna, sentada ao seu lado, parecia compartilhar da opinião dela. Era o oposto de Flávia e Bárbie. Discreta e pouco afeita a extravagâncias.

__Alguém sabe da Val?__ ela perguntou, antes de Raíssa dar partida e sair arrancando com o carro.

__Ela está recebendo o Sílvio Reis em casa, aquele cabeleireiro especialista em cabelo afro e tranças nagô__ Rafa respondeu num tom relaxado, jogando a cabeça para trás no banco do carona e fechando os olhos, deixando o sol atingi-lo em cheio.

Em meio a uma batida eletrônica no sistema de som do carro, elas chegaram no estacionamento do shopping.

Raíssa havia pegado a carteira de motorista há pouco tempo e possuía uma concentração duvidosa. Parou o carro de súbito, mas não viu a tempo que ultrapassara a linha da vaga, atingindo a lataria do carro de trás. Um baque e um pequeno ruído cortaram o clima de festa das outras no veículo. Ela fez uma cara de lamento, antes de olhar para Rafaela.

__Eu não acredito, Raíssa! É a última vez que você chega perto do meu carro!__Rafa esbravejou, irritada.

Um barulho de porta batendo com força soou atrás delas.

__Olha o que vocês fizeram, suas loucas?__um homem berrou, se aproximando delas, o rosto afogueado de fúria.

Rafa ergueu os óculos Ray Ban espelhados, levando uma mão a testa, sentindo a irritação aumentar.

O homem olhou-as com asco. Seu olhar raivoso veio parar em Raíssa, ao volante.

__Então foi você, sua retardada? Olha o que você fez com o meu carro?

__Espera aí, meu filho, você está muito exaltadinho__ a modelo abriu a porta e saiu__ Até parece que eu explodi o seu carro.

__Quase.

Rafa também abriu a porta direita e saiu.

__Mas não precisa falar assim com ela__ se pôs entre Raíssa e o homem com um olhar firme de afronta.

__Não precisa? Olha isso aqui, garota!

Ele se aproximou do Fiat cinza atrás do conversível de Rafaela, mostrando o local do choque entre os dois veículos.

Ela deu um riso que misturava aborrecimento e deboche.

__Não sei por que tanto escândalo. Foi só um arranhão.

__Arranhão? Escuta aqui, sua vagabunda, vocês estragaram a lataria do meu carro!

Rafa deu um passo para a frente, estreitando as sobrancelhas, olhando-o com desprezo.

__Escuta, querido, você tem ideia de com quem está falando?

Ele pareceu hesitar, encarando os olhos cinzentos flamejantes da garota. Mas ainda embalado pela fúria, tornou a insistir:

__O que eu quero saber é quem vai pagar a porra do meu prejuízo, sua burguesinha metida a besta!

Num impulso de raiva, Rafa pegou a carteira, de onde arrancou algumas notas.

__Seu problema é dinheiro, seu idiota?__ num gesto brusco, ela atirou as notas em cima do homem.

Ele pareceu atônito, olhando confuso para o dinheiro no ar. Mas não teve mais o que dizer.

Virando as costas a ele, Rafa baixou os óculos e saiu andando. As amigas rapidamente se moveram para segui-la.

 

 

Nome: aliciakis (Assinado) · Data: 15/04/2018 16:42 · Para: Rafaela

Eita que essa Rafa eh quente viu hahaha

Adorando!



Resposta do autor:

Verdade, ela é ousada assim mesmo rsrs Insolente!

Obrigada pelo coment

Bjs



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