Amor e caos por Luzia S de Assis


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Capítulo 1-- Açucena

 

As lembranças marcantes de sua infância eram de uma casinha no sertão, perto de um riacho, com galinhas andando pelo quintal feito com estacas de madeira, um fogão a lenha, bonecas costuradas à mão por sua mãe.

Sua mãe… Quando tinha 14 anos, Açucena ficara sabendo que era adotada, que em algum lugar do mundo havia uma mulher que era sua mãe biológica. Mas na época, o fato não significara nada. Gostava de amar a mãe que conhecia.

Porém, naquele mesmo ano a perdeu. Ficou sozinha no mundo. Nunca se esqueceria daquela tarde, depois da morte da mãe. Até o ar que respirava parecia carregado e opressor como nunca. Viera aquela mulher do orfanato. E uma Assistente Social, conversando com os vizinhos, com aqueles supostos papéis do Conselho Tutelar. E a levaram embora para Fortaleza. E lá Açucena descobriu que aquelas duas mulheres não eram quem diziam ser. Se viu sozinha numa cidade grande e desconhecida, nas mãos de pessoas que tinham más intenções com ela. Nunca havia conhecido o medo antes.

E assim aquela menina de 14 anos acabou caindo nas garras de uma organização criminosa conhecida pela polícia simplesmente como Organização, cujo comando estava nas mãos de Diana Dantas, uma mulher impiedosa, que se escondia sob a fachada de uma conhecida empresária.

 

                            Tempos atuais

Açucena estava estressada. Como sempre. E tentando esquecer que aquela noite era seu aniversário. 20 anos. O primeiro que ia passar trabalhando naquela boate deplorável.

Respirou fundo enquanto tentava conseguir um espaço no espelho sujo que dividia com as outras meninas, para dar os últimos retoques na maquiagem do show. Depois de todos aqueles meses não havia se acostumado com a confusão naquele lugar sombrio e tenso que era o camarim. As garotas andavam de um lado para o outro, esbarrando umas nas outras, trocando de roupa, procurando coisas. Os cheiros agridoces de vários perfumes misturados, envolvidos no odor de mofo do pequeno espaço embrulhavam seu estômago. Ao longo dos anos fora acostumada a ambientes luxuosos demais para se acostumar facilmente com aquilo.

Elas estavam sempre com pressa. Afinal, o tempo gasto ali era dinheiro perdido. Pareciam um bando de hienas famintas. E seriam capazes de devorar umas as outras conforme as circunstâncias. Era esse o clima naquele lugar. Elas sorriam entre si como amigas. Mas pareciam nutrir secretamente ódio uma pela outra.

__Vai ocupar espaço aí no espelho o resto da noite, princesinha?__ disse uma delas para Açucena.

Desde que ela começara a trabalhar naquela maldita boate de striper, o Clube Fantasy, vinha recebendo todas as noites uma avalanche de hostilidade por parte das outras dançarinas. Porque elas sabiam quem ela era. A protegida "do chefe". Aquelas garotas não sabiam sobre a existência de Diana. Elas achavam que a Organização era comandada no Brasil por um homem. E que Açucena era amante dele. Elas a chamavam ironicamente de "princesinha". E se perguntavam o que ela tinha de especial para ser tratada como se fosse superior a elas. De modo que o clima naquele lugar era horrível para Açucena. E a coisa vinha piorando a cada dia, com o crescente alvoroço dos clientes toda vez que Açucena aparecia no palco. Recentemente haviam rolado boatos de que alguns tinham oferecido fortunas para tê-la por uma noite. Enquanto aquelas garotas invejavam Açucena por isso, ela abominava essa ideia.

Felizmente, por ordem de Diana ela não devia atender os clientes como as outras, não fazia programas. Aliás, não podia sequer falar com eles. E no palco usava uma pequena máscara que lhe cobria parte do rosto, como as máscaras de carnaval. Talvez esse fosse um dos motivos para tal sucesso. Ela era a dançarina misteriosa. Angel. Era assim que se chamava agora. Um nome escolhido por Diana, é claro.

Ultimamente cada vez que Açucena se olhava naquele espelho sujo do camarim, via menos a si mesma, e mais aquela Angel.

De qualquer forma, ela não sabia mais o que restava da menininha que saíra do sertão, aos 14 anos. No início, ter caído nas mãos de Diana Dantas parecia um presente dos céus. A mulher havia ficado fascinada por ela desde que a vira. E a conquistara. Mas em todos aqueles anos, muitas coisas haviam mudado. Agora aquela obsessão de Diana por ela se assemelhava mais a uma maldição.

Açucena nunca esqueceria a cadeia de acontecimentos que a havia trazido até a situação atual.

 

Flashback 

A mãe adotiva de Açucena havia sido vítima de um câncer. E no leito de morte, entregou à garota uma medalhinha de ouro que fora deixada com ela ainda bebê, por sua mãe biológica. Uma mulher misteriosa que um dia viera até Rita com aquela linda criança e depois se fora para sempre. Apesar de achar a situação estranha, Rita criara a menina com muito amor, lhe dera um nome, um registro.

Açucena conservara a medalha como seu objeto precioso a vida toda. Mesmo sem nunca imaginar o que as iniciais A, J, A, J, significavam. Quando a mãe havia falecido, pedira a Açucena que ela nunca devia desistir de procurar sua família biológica.

__Quando eu não estiver mais aqui, minha filha__ dizia a figura pálida, deitada sob o lençol de croché, naquela cama sem cabeceira, o sol entrando pelas brechas e rachaduras da janela__ Essa é a única pista que pode levar você a sua outra família. Sua família de sangue.

Mas com o passar dos anos e o desenrolar das circunstâncias em sua vida, Açucena passou a acreditar que isso nunca aconteceria. Mesmo assim guardava a medalha como um amuleto.

E durante todos aqueles anos, só aquele pequeno objeto havia restado de suas verdadeiras origens. Ela se agarrou a isso para não se desesperar quando se viu sozinha, uma criança triste e confusa que confiou nas pessoas erradas e caiu numa armadilha.

A lembrança mais forte que Açucena tinha era do dia em que havia visto Diana pela primeira vez, em Fortaleza. Uma mulher alta e elegante, de cabelos lisos na altura dos ombros, de expressão severa e felina, vestida num terno preto. A chefe de uma organização criminosa especializada em contrabando de armas e tráfico de pessoas.

Era uma sala luxuosa. Mas Açucena estava assustada demais para admirar aquilo. Quando os dois olhos escuros e brilhantes da mulher pararam nela, não se desviaram mais. Pareciam definitivamente deslumbrados, hipnotizados. Com passos cautelosos, Diana se aproximou.

__Como você se chama, meu anjo?

Açucena mantinha os olhos baixos, odiando tudo o que estava acontecendo e, sobretudo, aquela mulher. Não imaginava que a partir daquele momento, pertenceria a ela de modo inescapável.

Tinham se passado seis anos.

Açucena tinha então dezessete anos, estava no apartamento de Diana no Leblon, no Rio de janeiro. E naquela noite estava acontecendo uma das "reuniões" de membros da Organização, na verdade uma das muitas festas que Diana havia passado a dar nos últimos tempos.

Açucena olhou-se no espelho do banheiro, arrumando a massa de cabelos loiros ondulados. Seus olhos cor de mel, com delineador preto, estavam turvos. Ela havia exagerado nos drinks, como sempre, misturado algumas coisas. Mas ainda equilibrava-se bem. Estava sóbrio o suficiente para manter a postura de princesa que Diana exigia.

Agora sempre havia motivo para festas. O apartamento cheio. Não que Açucena não gostasse de festas, mas algo naquelas "reuniões" a incomodava. Um clima pesado pairava naquelas recepções onde vinham pessoas que ela sabia, faziam parte da Organização. Executivos de grandes corporações, jogadores de futebol, políticos corruptos. Gente sórdida, do nível mais asqueroso de criaturas. E Diana fazia parte disso, estava no centro daquela teia obscura.

Açucena ficou quieta um instante, ouvindo o som que vinha lá de fora. Desejou que de repente se fizesse silêncio, como num passe de mágica. Só queria estar em sua cama agora. Queria apenas que as coisas voltassem a ser como antes. Elas duas juntas, viajando, numa lua de mel interminável. Diana cobrindo-a de mimos, dedicando-se cegamente a ela.

Porém, Diana não era mais a mesma daquela época em que a conhecera. Fora se tornando ausente, estressada demais com os negócios. O relacionamento delas havia se abalado. Naquele tempo e no decorrer da adolescência de Açucena, seus dias eram como uma eterna aventura. Viagens, roupas incríveis, joias. E Diana. Naquele tempo tinha Diana de verdade. Era apaixonada por ela. Era sua "princesinha". Agora havia perdido Diana definitivamente para aquele mundo sórdido. Ou então Diana havia enjoado dela. O fato é que não a reconhecia mais. E Açucena se sentia como um brinquedo que havia perdido a graça para ela. E assim, sua paixão por Diana se extinguiu, como se nunca tivesse existido.

Diana não era mais a mesma.

Antes ela evitava que Açucena participasse daquelas "reuniões", como uma forma de mantê-la longe daquilo. Agora não. E já começava a mencionar que Açucena teria que conhecer tudo sobre a Organização, pois um dia ocuparia um posto de comando, ao seu lado.

Nunca! Açucena nunca faria isso. Mesmo que ainda não tivesse dito isso para Diana.

Se pelo menos pudesse fugir...

Não queria o futuro que Diana planejava para ela. Não queria ser uma deles. Ela preferia morrer. Sempre soubera que o dinheiro que lhe proporcionava aquelas viagens, as roupas caras, perfumes, o mundo luxuoso no qual vivia, no qual havia crescido, vinha disso. Era um dinheiro maldito. Mas ela procurava não pensar. Tentava também não se lembrar que aquilo tudo não passava de uma prisão, que ela não era mais do que a namorada- troféu de uma chefona do crime.

Talvez um dia iria embora dali, escaparia das vistas de Diana para sempre. E tentaria achar sua mãe biológica. Iria até aquela região de onde viera, uma fazenda chamada Santa Clara, no sertão, aquele lugar que agora fazia parte de remotas lembranças da sua infância...

Que ilusão. Não é possível ir para um lugar onde Diana não me ache, pensava. É claro que não.

Ela sentiu uma lágrima escapar-lhe.

Com um movimento débil, esticou-se e subiu na pia de mármore, escorando-se na parede. Fechou os olhos.

__Um rosto lindo como esse não combina com lágrimas.

Açucena abriu os olhos quase num susto. Mas conhecia muito bem aquela voz, bem como o sotaque. A mulher elegante, vestida numa camisa branca, blazer cinza, os cabelos loiros na altura dos ombros, vinha se aproximando devagar, pisando levemente, com seus sapatos impecáveis, no azulejo branco. Adele Delage. Francesa. Estava há pouco tempo na Organização.

Há um mês, quando vira Açucena pela primeira vez numa das festas, parecera nitidamente encantada. Açucena pôde sentir isso desde o primeiro olhar que haviam trocado. Alguma coisa à primeira vista. Nela mesma também, mesmo que tenha lutado contra. Não foi possível negar a si mesma por muito tempo. Havia se sentido muito atraída por aquela mulher. Tentara fugir dos olhares dela, das tentativas discretas de aproximação. Mas em todas as festas, lá estava Adele, buscando seu olhar, oferecendo uma taça de champanhe, enchendo-a de elogios e frases sedutoras, sempre com aqueles belos olhos azuis fixos nela, como se quisessem prendê-la.

Diferente das outras vezes, naquela noite em que estava excessivamente deprimida e com sentimentos autodestrutivos, Açucena não conseguiu resistir à sedução da francesa.

Nas próximas semanas elas continuaram se encontrando. Açucena viajou com Diana para a Espanha e Adele deu um jeito de ir junto. Elas continuaram mantendo o caso, até aquela tarde, quando Açucena estava num hotel em Madrid.

Ela estava deitada na cama de bruços, os cotovelos apoiados no colchão, os pés levantados. Folheava uma revista de moda, mas sem conseguir prestar atenção em nada. A ansiedade a torturava. Suas mãos estavam frias. Naquela hora Diana estava provavelmente num voo com destino a Paris, rumo a um encontro com a filha, Melissa. Ou seja, longe o bastante para lhe proporcionar sem querer, um encontro perfeito com Adele.

Mesmo assim Açucena estava imersa num misto de medo e remorso. Como em todos os encontros anteriores. Mas Diana merecia! Por todas as vezes em que a deixara sozinha. Por humilhá-la, sempre mostrando que ela não passava de uma propriedade sua. Por tratá-la como uma bonequinha com a qual brincava só quando lhe dava vontade. Até por agir como se ela fosse indigna de conhecer sua filha. Açucena nunca havia visto a garota nem por foto. Por alguma razão Diana sempre mantivera a filha distante. Não costumava sequer se estender nos detalhes sobre ela. Açucena sabia apenas que a menina, que devia ter sua idade, era fruto de uma "produção independente" e que morava em Paris, onde a mãe a mantinha intacta, longe da vida que levava.

A campainha tocou. 

Açucena largou a revista e levantou-se para atender a porta.  Era muita ousadia se encontrarem ali no hotel, na suíte da própria Diana. Mas Adele insistira. O perigo a excitava. 

Açucena olhou através do olho mágico para se certificar de que era mesmo Adele. Então afastou mais o robe de seda que deixava entrever a lingerie de renda vermelha e a meia preta até o meio das coxas.

Abriu a porta

Adele estava parada, com aquela expressão de expectativa que tinha o poder de acendê-la de imediato. Os olhos azuis da mulher caíram sobre Açucena num deleite de prazer, antes de ela dizer com seu charmoso sotaque francês e a voz carregada de tesão:

__Ma chèrie (minha querida)...

Açucena se aproximou devolvendo o olhar de desejo, e sussurrou:

__Tout a vous (toda sua)-- e puxou-a para entrar logo. 

Açucena sorriu com malícia, excitada, a adrenalina esquentando seu sangue. Adele apossou-se dos lábios dela, arrancando suas roupas. Logo estavam nuas, os corpos grudados, deleitando-se num momento proibido de luxúria. Ali sobre a cama de Diana. 

A porta se abriu com um baque. 

Elas pararam e olharam naquela direção ao mesmo tempo, vendo com espanto a pessoa parada, olhando para ambas. 

Diana Dantas. 

Por um segundo Açucena pensou que aquela imagem não era real. Diana de pé, no limiar da porta, o olhar petrificado, encarando-a. Era mais do que choque e ciúme o que havia naquele olhar. Era algo primitivo, quase inumano. Adele ergueu-se num sobressalto. Açucena puxou os lençóis e sentiu as mãos dela a apertarem de modo protetor. Diana permaneceu imóvel, pelo que pareceu uma eternidade. Os olhos gélidos e mortiços vindo de Adele para Açucena. 

__Mas que surpresa...__Diana deu dois passos em frente. Um sorriso estranho se formou em seus lábios. 

Adele levantou-se, obstinada, como que preparada para qualquer consequência.

Açucena sentiu um arrepio percorrê-la quando Diana olhou nos olhos da outra. Mal viu a mão dela se movendo para dentro do blazer. Ágil e rápida. Diana tinha sacado a pistola. 

Adele arregalou os olhos, em pânico. Sua boca se entreabriu, como se ela fosse dizer algo. Mas Diana já estava apontando a arma, firme e triunfante.

Açucena sentiu o terror dominá-la, a certeza aterradora, a culpa...

Apesar disso ela não conseguiu se mexer. Não tinha forças. Estava paralisada pelo medo, pelo impacto da situação. Olhou para Adele sem saber o que fazer.

Diana apertou o gatilho sem hesitar. Um tiro certeiro na cabeça.

__Não...__ Açucena sussurrou, desesperada, ao ver o corpo de Adele ir desfalecendo. Fechou os olhos, apertando-os sob as pálpebras, tremendo de pavor e choque. Encolheu-se mais na cama.

Diana ficou assistindo friamente Adele tombar para trás, os olhos revirados na agonia da morte, o sangue jorrando de sua testa, escorrendo por sua pele branca, atingindo o lençol da cama, se alastrando pelo tapete felpudo. Morte instantânea. 

Só então os olhos de Diana voltaram a Açucena. 

__Vista-se!__ ela ordenou entre dentes, sua voz ríspida, quase um silvo.

Açucena se viu levantando-se, pegando o robe, evitando olhar para o corpo no chão. Um cadáver agora. Da mulher com quem fazia amor há minutos. Nunca esqueceria aquela cena. Teria pesadelos terríveis...

Perturbada, os sentidos confusos, as mãos trêmulas, Açucena se vestiu depressa.

Diana permaneceu onde estava, olhando para ela, seu rosto sem expressão. Fez sinal e dois homens, dos muitos que trabalhavam para ela, apareceram na porta.

__Livrem-se disso!__ela apontou para o corpo de Adele. Indiferente e impiedosa.

Naquele momento Açucena percebeu que era capaz de odiar Diana.

* * * 

Entraram num quarto. Outro hotel, do outro lado da cidade. Diana bateu a porta e arrastou Açucena pelo braço, atirando-a com violência sobre a cama.

Olhou-a com asco, como se estivesse tentando decidir o que fazer com ela.

Açucena manteve-se na mesma posição que havia caído, mergulhada em fúria contida. Evitava olhar para a mulher. As palavras de Adele ecoavam em sua memória: "Você é um animalzinho selvagem que precisa ser livre"

__Se quer agir como uma puta, então será uma__ a voz de Diana era sombria e severa. 

__O que quer dizer? 

Ela não respondeu. Foi até a janela, afastou as cortinas, pegou o celular e discou um número.

__Kennedy? Vocês já atenderam aquele cliente árabe, Hassan Kaddourah, acho que é esse o nome... Ok, ok. Mande trazer a garota de volta. Diga ao homem que tenho outra que ele... com certeza vai gostar mais...__Diana encarou Açucena com um prazer mórbido, porque sabia que ela havia entendido.

Perplexa, Açucena tentou achar no olhar dela um indício de que estava enganada.

__O quê? Não pode fazer isso comigo!

__Eu posso sim! Você quer ser uma puta?__ Diana foi até ela, segurou-a pelos cabelos e ergueu-a__ Você quer? 

__Não!__ Açucena protestou, chorando confusa, perdida.

Diana soltou-a com um safanão, jogando-a de volta na cama.

__Sua vagabunda ordinária!__disse entre dentes, virando as costas a ela, exaltada, nervosa e descontrolada.

__Eu odeio você! Por todas as vezes que fez eu me sentir um lixo, ou uma "coisa" que você usa pra satisfazer seus caprichos. Uma putinha particular. É isso o que sempre fui pra você! 

__Cala a boca!__a voz de Diana ecoou pelo quarto__ Eu salvei você quando ainda era uma criança! Você nunca chegou a ser de ninguém. Não se tornou prostituta como aquelas meninas que foram trazidas com você. Eu cuidei de você, sempre a mantive protegida. De tudo e de todos.

__Você quer dizer presa. Você sempre me manteve sob o seu comando, como um subordinado da Organização ou pior, como uma das vítimas. A diferença é que sempre fui a sua prostituta exclusiva. E agora as coisas não são mais como antes. Foi você quem fez isso comigo. Você me levou ao auge da solidão e do desespero. E ela foi o meu refúgio...

__Refúgio? Ah, safadeza tem outro nome agora? Eu flagrei minha mulher na cama com outra e agora sou a vilã da história?

__Eu não sou sua mulher, Diana. Nós nem somos casadas. Você nunca teria me dado seu nome, não é? 

__E se tivesse, teria sido um erro__ Diana atacou, cortante e feroz__ A única coisa que tenho pra você agora é o cliente árabe que está esperando numa suíte de luxo, a meia hora daqui. Por isso acho melhor se vestir da maneira mais sexy possível. Vista-se como a puta que vai ser de agora em diante! 

Apavorada, Açucena amparou-se na cabeceira da cama.

__Vai mesmo me obrigar a isso?

 __Vou.

 Diana olhou-a firme e severa. 

Algumas horas depois Açucena caminhava, resignada e apática, acompanhada de Carlão, o principal capanga de Diana e mais dois seguranças pelo hall do hotel onde o cliente estava hospedado.

Ainda não conseguia acreditar naquilo. Apesar do vestido justo e vulgar, as botas longas de salto fino, a maquiagem pesada. 

Quando se achou diante da porta, sentiu que sua vida acabaria ali. Tudo o que mais temera, desde sempre. Ver-se naquele mundo perturbador e degradante. Morreria. 

O homem era moreno jambo, de semblante pesado, olhar tão duro que era como se tivesse ódio do mundo.

Tentando se manter firme, Açucena ficou na frente dele, sentindo-se um pedaço de carne. O modo como ele a olhou continha um misto de desprezo e cobiça exacerbada. Fez um sinal que parecia ordenar que ela tirasse a roupa.  Mas antes que Açucena começasse a baixar a alça do vestido, a porta se abriu.

Diana surgiu com olhar desesperado, olhando-os, ofegante. Depois de analisar a situação, pareceu se recompor. Principalmente porque o cliente se manifestou de forma hostil, vociferando algo em seu idioma. Açucena olhou para Diana sem entender. A mulher lançou a ela o mesmo olhar hostil do momento em que discutiam, mas dirigiu-se ao homem. Dois outros sujeitos com turbantes na cabeça entraram no quarto.

Carlão e os outros aguardavam o desenrolar da conversa entre Diana e o árabe. No início ele pareceu mais enfurecido a cada palavra dela, mas logo foi esmorecendo.  Até que eles entraram num acordo, a julgar pelo aperto de mão conciliador, apesar do olhar de desagrado do cliente. Diana veio até Açucena, que ainda boiava na cena, e puxou-a consigo pela porta.

Já descendo os degraus para a calçada, continuou arrastando-a sem nenhuma explicação. Açucena limitou-se a se deixar puxar, apreensiva. Apesar de Diana tê-la acabado de tirar daquele quarto, tinha certeza de que a partir de agora não podia mais esperar nada de bom dela 

Com violência, a mulher praticamente a atirou no banco do carro, assim que Carlão abriu a porta. 

__O que está acontecendo?

Diana suspirou, como que contendo algum sentimento intenso que ameaçava explodir dentro de si. 

__Cala a boca. Não mandei você falar!__ do mesmo jeito rude, curvou-se sobre Açucena e agarrou seu rosto, beijando-a de modo selvagem.

Quando chegaram no hotel, Diana a atirou na cama com um olhar que lembrava o do cliente. Só que infinitamente mais intenso. A paixão faiscava nele. O ciúme...O ódio. 

__Você é minha! Minha!

 Ela arrancou a camisa social, quase arrebentando os botões.

Açucena ficou quieta, certa do que ela pretendia. E de que não estava nem um pouco a fim. Mas como em muitas outras vezes, não poderia dizer não. Olhou para Diana com ressentimento e repulsa. Mesmo que no fundo uma fagulha de desejo por ela ainda brilhasse dentro de si. Agora isso não era nada comparado ao desgosto que era saber quem Diana realmente era. E pela primeira vez Açucena transou com ela sem sentir o mínimo de prazer. 

 

Mais tarde... 

Diana estava deitada num divan vermelho de frente para a cama, fumando e olhando fixamente para Açucena, seu rosto tinha uma expressão indecifrável. Já estava assim a tanto tempo que fazia Açucena se perguntar o que resultaria daquele momento de silêncio e incertezas. Ela evitava pensar em Adele, e na cena horrível no quarto do outro hotel onde estiveram. Porque toda vez que surgia um breve lampejo daquele momento em sua mente, ela sentia mais nojo de Diana. Vontade de não vê-la nunca mais. E sabia que isso não era possível.

 __Por que não me deixa ir embora? Livre-se de mim. Se está com tanta raiva... Me deixa viver a minha vida...

 __Já percebeu que isso não vai acontecer, não é?

 __E o que pretende fazer?

Diana apagou o cigarro no cinzeiro de cristal sobre o móvel ao lado, como que fazendo um suspense.

__Talvez eu tenha dado privilégios demais a você, Açucena. Foi esse o meu erro. Você sempre teve tudo. Mais do que qualquer garota poderia querer. Talvez esteja na hora de você conhecer um pouco de realidade. 

__Eu nunca pedi nada disso. Eu só precisava de um pouco de atenção. Houve uma época em que... eu só queria você. Não me importava as joias, roupas... Nunca me importou. Só você. Mas agora eu consigo ver que era tudo ilusão. Essa vida estúpida que você me dava, era ilusão. Você era uma ilusão, Diana. Não é, nem nunca foi amor o que existe entre você e eu...

__Ah, é mesmo? E em que isso muda o fato de que você me pertence? Qual parte de "você é minha" não entendeu? 

Açucena gelou. Qualquer coisa que ainda tivesse a dizer perdeu o sentido. Ou talvez nunca tenha tido sentido nenhum.

__Eu nunca te disse isso, Açucena. Nunca achei necessário. Mas entenda de uma vez por todas. Você me conhece, sabe quem eu sou, sabe do meu poder. Você é minha e posso fazer o que eu quiser com você. Sempre foi assim. Eu tenho tratado você da melhor forma possível até hoje. Mas agora você me obrigou a te mostrar o meu pior lado. E é com ele que vai conviver agora. Mas antes que comece a me chamar de monstro, vou mostrar que ainda serei generosa com você. 

__Generosa? Será que sabe o que é isso?

 __Hum, vamos partir pra ironia? Vai ser mais interessante. Mas não se esqueça de quem é que manda. 

__Eu não me esqueci__Açucena disse, triturando as palavras. 

__Que bom.

__Então o que vai ser? Diz logo o que vai fazer comigo!

__Você vai voltar para o Brasil.

Açucena a encarou sem vontade, com medo de qualquer coisa que ela tivesse pra dizer. Mas ficou esperando como um réu resignado a aguardar a sentença.

__Mais precisamente para Fortaleza. Trabalhará para a Organização. Em uma boate chamada Clube Fantasy.

__O quê? Mas eu pensei que...__ Açucena interrompeu-se. Apesar de estar indignada, se arrependeu por ter se manifestado. O olhar sádico de Diana a fez se sentir pequena.

Diana deu um riso debochado. Para ela a crueldade era uma arte. E aquela menininha insolente tinha sorte de nunca ter sido de fato um alvo. Nem mesmo agora.

__Está com medo, minha princesa?

Açucena não respondeu a princípio. Aquela pergunta a atingiu fundo. Aquela expressão "minha princesa", que no passado a emocionava, a fazia se sentir segura e radiante. Agora, dita naquele tom lhe causou medo.

__Mas não se preocupe. O seu castigo pior ainda será apenas perder a vida de luxo que está levando. A partir de agora nada de viagens, verões em Saint Tropez, joias valiosas, vestidos de estilistas famosos, eventos glamourosos. Sei que gosta disso. Por mais que tenha dado esse ataque de humildade, você sabe apreciar o que é bom nessa vida, Açucena. Eu a ensinei. E a ensinei também sobre os perigos desse mundo, e que só há um lugar seguro. O dinheiro. Sei que quando se ver num mundo reles como o que te espera, ficará mal. E é esse o seu castigo. Você não passará de uma simples dançarina. Com sorte talvez consiga alugar uma quitinete num bairro da periferia que tenha poucos ratos.

__Qualquer coisa será melhor do que estar perto de você.

Açucena percebeu que estava sendo profundamente sincera.

Diana riu como se ela tivesse contado uma piada. Açucena se desviou, revoltada.

__Tem mesmo esperanças de que vai se ver livre de mim? Não banque a tola, Açucena. A sua sorte é que você não atenderá os clientes. Não será uma prostituta de verdade. Fará apenas um show. O melhor, espero. Quero que os clientes paguem só pelo prazer de vê-la dançar...

Açucena levantou outra vez o olhar para ela, agora confusa e sem disfarçar o alívio que sentiu ao ouvir isso.

__Mas não porque eu queira ser boa com você, porque não merece__ Diana prosseguiu-- É apenas porque, como você já está cansada de saber, você é, e sempre será, somente minha. Quem tocar em você, morrerá.

Açucena sabia que aquelas palavras ficariam cravadas na sua memória, como um sino que nunca para de badalar. E a fariam se lembrar da horrível morte de Adele.

Sentiu como se correntes a envolvessem quase a ponto de sufocá-la. Correntes que sempre haviam estado ali.

__Não se esqueça nunca. Eu sempre estarei por perto...

__Eu sei...__ Açucena sussurrou, resignada.

 

De volta a atualidade...

Agora a vida de Açucena se resumia a noites no Fantasy e dias na quitinete onde morava, na periferia da cidade.

A porta do camarim se abriu. O homem grandalhão e carrancudo surgiu no meio das garotas e se dirigiu a Açucena. O detestável Carlão.

__Você não vai se apresentar hoje. Vem comigo.

Ela já estava vestida na fantasia do show, corpete de couro, calcinha preta com cinta-liga, meias pretas e summer boots. Sem dizer nada, ela pegou o robe deixado em um canto, vestiu-o e seguiu o homem.

__Quando ela chegou?__perguntou, enquanto atravessavam corredores e escadas escuros. Sabia que se tratava de Diana.

__Ontem a noite.

Em todos aqueles meses havia sido assim. Diana retornava de alguma viagem, e mandava Carlão vir buscar Açucena e levá-la em sigilo, até o hotel onde ela estivesse hospedada. Em qualquer lugar havia um dos homens que trabalhavam para Diana a vigiando.

Quando Açucena entrou na suíte e viu Diana de pé em sua frente com aquele sorriso cínico, lembrou-se que aquela noite seria longa.

__Olá, minha princesa...Feliz aniversário, minha bonequinha. 20 anos, agora é uma mulher. Minha mulher!-- Diana veio até ela e beijou-a.

Açucena correspondeu maquinalmente.

Diana abriu seu robe, deixou-o deslizar para o chão e se afastou um pouco para olhá-la de cima a baixo.

__Já tinha me esquecido como você fica gostosa com essas fantasias.

Açucena ignorou isso também.

__E então? Já conseguiu se adaptar àquele lugar horroroso?__ Diana perguntou com um riso sádico, referindo-se ao bairro pobre onde ela morava__ Eu tenho uma boa notícia. Acho que já castiguei você o suficiente. Vou tirar você de lá__ ela foi até o barzinho num canto, despejou uma dose de uísque no copo e pôs um cubo de gelo__ Amanhã mesmo quero que arrume suas coisas e se mude para este flat.

__Eu quero morar lá__ Açucena pegou na bolsa um cigarro, acendeu e caminhou até a janela__Não me importo.

__É claro que se importa. Sei o quanto está sendo difícil pra você, viver naquele chiqueiro. Você sempre foi habituada a um mundo de luxo e sofisticação, e de repente se achar naquele universo de dificuldades chocou você. Sei disso. Não adianta tentar mentir para mim.

Em parte, Açucena tinha que admitir que ela tinha razão. Mas se pudesse escolher entre viver naquele inferno a ficar ao lado de Diana para sempre, ela preferiria a primeira opção.

__Vamos lá, confesse. Você parece meio deprimida ou é impressão minha?

__Como se você se importasse.

__Eu não deveria, depois do que você fez. Mas me importo. Por isso exijo que você se mude para cá imediatamente. Terá suas roupas de volta, seus perfumes, suas joias. Vai voltar para casa.

__Não é a pobreza que me incomoda. É você. A sua presença tóxica na minha vida. Por que você simplesmente não me deixa em paz, droga?__ ela atirou com toda força o cigarro pela janela__Você é doente, é nociva, Diana. Eu odeio você! Odeio você!

Apesar do tom de ódio e descontrole de Açucena, Diana não pareceu se abalar nem um pouco. Ela sorria, como se a cena estivesse sendo, acima de tudo, divertida.

__Hum, adoro você assim. Agressiva.

Ela se aproximou de Açucena, indiferente a sua indignação.

__Uma gata selvagem. Linda e selvagem__ envolveu o rosto de Açucena entre as mãos-- Sabe de uma coisa? Eu fiz muito bem em ter a ideia de transformar você em uma dançarina. Aqueles clientes nojentos estão ficando loucos por você. Estou ganhando uma fortuna. E não é pra menos, não é?

Açucena a encarava sem acreditar naquele discurso frio. Sentindo-se, como sempre, uma boneca de cordas, deixou-se beijar por ela. E ser guiada para a cama.

 

Nome: aliciakis (Assinado) · Data: 15/04/2018 16:41 · Para: Açucena

Ola autora!

 

Ja gostei do enredo da historia!

Morrendo de dor da Acucena, mas creio que ela ira da a volta por cima! 



Resposta do autor:

Olá! :D

Que bom que gostou, fico mega feliz.

Açucena sofre um pouquinho rs

Obrigada

Bjs



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