Dois corações por IolandaStrambek


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O céu estava coberto por algumas nuvens pesadas. Beatriz olhando para os lados considerou a ideia de fugir, talvez fosse melhor voltar para casa, seu pai não se importaria. Ela estava indo a pé para escola, a lata velha que considerava como carro estava no conserto pela segunda vezes em menos de um mês e o clima do dia não parecia ajudar no seu humor. Sua vida, desde que viera morar naquele buraco, tinha se tornado uma piada mortal. Há apenas três meses sua mãe tinha sido enterrada a mais de seiscentos quilômetros dali, colocando fim na sua adolescência feliz. Desde então, seu pai decidiu que Curitiba não era mais lugar para eles, e se mudaram definitivamente para interior de São Paulo. Fazendo Beatriz abandonar toda uma vida na cidade grande para se tornar uma garota do interior.

Na cidade em que seu pai havia nascido, conhecida como Vila Nova, tudo era diferente. Não havia nada de interessante em um raio de duzentos quilômetros. Ela estudava na único colégio público do município, que tinha uma pintura amarela desgastada e um cheiro de monumento antigo, que particularmente a deixava enjoada. Sempre teve preferência pelo novo e atual, lugares alegres que mostram o futuro. Além disso, o colégio tinha uma manada de alunos insuportáveis idiotas que achavam populares americanos. Diziam que a escola tinha duzentos anos, Beatriz não tinha visto nenhum documento que provasse isso. Para ela a escola podia ter duzentos anos. Ou talvez trezentos. Pouco importava. Queria passar logo por essa experiencia que era adolescência e fugir daquele cidade para sempre. Por isso, não fazia questão nenhuma de criar laços.

O primeiro professor do dia era professor Roberto Salles, e ele era obcecado por horário. Além disso, não suportava os alunos que sentavam no fundão que basicamente ficavam conversando entre si a aula toda. Ironicamente, Beatriz não era pontual, e adorava sentar no fundo. Mas ela não conversar muito com os outros alunos, e não considerando suficiente algumas semanas para se criar vínculos. Do mesmo modo, os alunos já haviam estudado juntos desde do ensino fundamental e cada grupinho tinham seus membros completos. Sobrando para Beatriz a sensação que era uma estranha no ninho.

Aquela aula era sobre o programa de orientação para os alunos do último ano, que deveria consistir em uma apresentação das profissões disponíveis no mercado. E o professor Roberto era justamente o insuportável professor que dava essa orientação, que constituía em dinâmicas sobre profissões, e a participação ativa dos alunos em descobrir suas habilidades escondidas. O que tornava aquela aula imbecil, desagradável e totalmente desnecessária.

Beatriz conseguiu chegar antes do sinal. Sentou-se no último lugar na fileira da parede, percebeu de canto de olhos a aluna mais quieta da sala na carteira oposta à sua encostada na parede com janelas. Nunca tinha ouvido sua voz, e parecia que o resto dos alunos da sala também não. Consequentemente toda a sala a chamava de retardada e deficiente mental. Essas palavras incomodavam Beatriz. Já tinha sofrido bullying em algumas escolas anteriormente por ser homossexual. Esse tipo de comportamento das pessoas só a fazia detestar ainda mais aquela cidade ignorante.

O professor Roberto apareceu depois de alguns segundos com um olhar inquisidor. Aparentemente todos os alunos da sala tinha chegado no horário certo.

- Bom dia, pessoal!

Alguns alunos grunhiram um “bom dia”. Então o professor fez aquilo que Beatriz mais odiava nos adultos.

- Acho que vocês estão mais animados do que isso. Vamos de novo: Bom dia, pessoal! – gritou, e alguns alunos gritaram “Bom dia” o mais alto que podiam em resposta. Não por estarem empolgados, mas para simplesmente calar a boca do professor.

Situações forçadas, faziam Beatriz desejar vomitar.

Logo em seguida o professor pediu para que eles se dividissem em grupos de quatro pessoas. Beatriz não fez nenhum movimento, os grupos foram se formando. O que sobrou apenas Beatriz, a garota estranha do outro canto, e mais duas alunas que pareciam gêmeas.

- Agora quero que vocês deem as mãos formando uma roda, memorizem seus colegas e a profissão que eles terão escrito em seus braços – exclamou o professor.

O suposto grupo em que Beatriz estava não fez movimento nenhum. Cada um ficou em sua carteira, esperando uma ordem mais explicita.

- Em seguida soltem as mãos, e andem aleatoriamente pela sala.

Um dos alunos ergueu a mão e perguntou: - Por que então segurar as mãos, se vamos soltar em seguida?

Houve um burburinho geral, e Beatriz deu um sorriso de canto considerando toda a situação idiota.

- É uma forma de unir os membros do grupo.

Houve mais um burburinho, e o professor perdeu a paciência. E pediu silencio a todos.

As duas garotas que pareciam gêmeas se aproximaram da garota da janela, e Beatriz calmamente pegou sua mochila e se sentou ao lado dela. Observou as duas garotas na sua frente, e percebeu que elas realmente eram gêmeas. Vestidas de preto da cabeça aos pés, as duas tinha um aparecia desleixada e estavam um pouco acima do peso, mas isso de longe não tirava a beleza que tinham, as tornavam excepcionalmente diferentes. As duas tinham um sorriso sincero, e se apresentaram como Ana Maria e Ana Carolina. Consequentemente, Beatriz as classificou como Maria sendo a irmã de cabelos tingidos de ruivo e com maquiagem de gótica. E Carolina como a irmã divertida, que usava um corte de cabelo estilo chanel, despontados por ser um corte antigo.

No mesmo instante, Beatriz percebeu que os alunos começavam a se unirem da maneira que professor explicou. As três pegaram nas mãos e Beatriz estendeu a mão para a garota. Não houve nenhum movimento.  Olhando de canto, Beatriz percebeu a garota apertar o maxilar. E algumas pessoas de grupos opostos começaram a dar risada pela situação. Conheciam a garota a muito tempo para saber que ela não gostava de contato físico.

Sentindo sua mão grande demais perto da garota, Beatriz puxou a mão para si e escondeu de baixo da carteira. Aquela situação toda não dava confiança nenhuma a garota. Seu rosto sem maquiagem, parecia pálido pela situação. Os fones de ouvidos estavam altos. Seus longos cabelos castanhos escondiam metade de seu rosto, e Beatriz desejou acertar aquelas madeixas atrás de sua orelha para poder ver a cor daqueles olhos por trás dos óculos grandes.

O professor se aproximou do grupo percebendo que havia algo estranho. Automaticamente Beatriz soltou a mão de Maria.

- Professor Roberto? – chamei.

Ele olhou para Beatriz com seu sorriso irônico e um olhar um pouco mais atreito do que o normal.

- Você é aquela aluna nova? Beatriz Antunes?

- Sim. Se o senhor não se importa não quero fazer essa atividade, e acho que minhas colegas aqui também não gostariam de faze-la.

Um dos olhos do professor começou a tremer.

- Como? – perguntou, como se estivesse escutado errado.

- Não estou a fim de fazer essa atividade. E acredito que isso não seja obrigatório – disse Beatriz mantendo sua expressão neutra frente a situação.

As duas garotas gêmeas se olharam, e sem precisar falar nada entenderam do porquê da atitude extrema de Beatriz.

- Bem, não, não é obrigatório que realize essa atividade. Mas como você é nova na esc...

- Então não vamos participar – falou firme Beatriz, olhando em seguida para garota a sua direita. Ela apenas manteve o olhar baixo, mas parecia aliviada por não precisa encostar a mão em ninguém – Se o senhor não importa vamos para biblioteca fazer alguns trabalhos atrasados.

O professor ficou catatônico, nenhum aluno antes o havia confrontado de maneira tão retórica. A partir daquele momento, decidiu que tornaria a vida de Beatriz naquela escola uma estadia insuportável.

Beatriz se levantou jogando a mochila nas costas, e as duas gêmeas também se levantaram. Em seguida a outra garota se levantou, as seguindo em silencio para fora da sala.

Assim, que estavam longe o suficiente, Beatriz sorriu por sua ousadia.

- Nossa isso foi incrível! – Exclamou Carolina. – Sou sua fã agora.

- Uau, você salvou nossas vidas de uma atividade extremamente chata. Obrigada, Beatriz – agradeceu Maria.

- Aquele professor precisava se posto no seu lugar – disse Beatriz, olhando para trás e percebendo que a garota estava seguindo para banheiro ao invés de segui-la para a biblioteca. Fechou os olhos por alguns instantes, e viu de relance o professor Roberto as observando pela porta. A expressão em seu olhar deixava claro, que agora Beatriz tinha um inimigo na escola.

- O que foi, Beatriz?

- Nada.

- Acho que agora oficialmente somos um grupo. As excluídas do Colégio Lupion! – exclamou Carolina entrando na frente das duas, e estendendo as mãos como se estivesse com um cartaz em mãos.

Sem perceber, elas mudaram de direção da biblioteca para o refeitório. Sentando-se em uma mesa afastada, Beatriz escutou seu estomago reclamando por comida. Precisava acordar alguns minutos mais cedo se quisesse tomar café junto com seu pai antes que ele fosse para trabalho. Memorizou isso para mais tarde.

- Fiquei sabendo que você era de Curitiba.

- Sim. Eu nasci lá, mas meu pai é daqui – disse Beatriz olhando para a direção do banheiro. Queria ir até a garota e se apresentar. Ela realmente parecia assustada por sua mão ter chegado tão perto.

- Nossa que legal.

- Como que é o nome daquela garota que estavam no nosso grupo? - Beatriz se sentiu constrangida por perguntar, e suas bochechas coraram imediatamente.

- Ela se chama Luísa Sanches. Eu sinceramente achei que ela surtar quando você estendeu a mão para ela – disse Maria seria.

- Por que?

- Segundo ouvimos falar por um professor, ela tem Síndrome de Asperger.  O que torna ela meio estranha, nunca a ouvimos falar nenhum suspiro desde que viemos estudar aqui o ano passado.

- Os outros alunos a chamam de retardada...

- Ela não é retardada, Carolina – ralhou Maria sua irmã - O ano passado ela deu um show no Enem. Os professores ficaram de boca aberta, a maior pontuação da história. – disse, diminuindo o tom da sua voz como se fosse um segredo. - Por isso ficamos sabendo que ela tem essa síndrome, depois da prova ela teve um surto. E ficou uma semana sem vir na aula.

- Entendi... – resmungo Beatriz olhando para Luísa no momento que ela saia do banheiro.

Ela não fazia seu tipo, mesmo Beatriz não tendo um tipo definido. Gostava de garotas divertidas isso era certo. Mas aquela garota silenciosa, era sem dúvida muito bonita. Mesmo tentando de todas maneiras parecer neutra. Havia algo de diferente em seu jeito, mas não havia nada a ver com a síndrome. Seus cabelos castanhos eram ondulados, e pareciam cair como uma cascata pelos seus ombros. Ela usava uma calça jeans meio larga e camiseta branca com o símbolo da escola. Seus óculos eram grandes demais para seu rosto fino, o olhar estava baixo como se quisesse esconder algo ou evitar qual quer contato mais íntimo com alguém. Sua pele tinha uma tonalidade de pêssego que Beatriz nunca tinha visto antes.

A definição de não criar laços, é a mesma coisa de não se interessar por ninguém, Beatriz ralhando internamente consigo mesma.

Beatriz apertou as mãos na frente, e as duas garotas na sua frente seguiram seu olhar.

- Agora eu que entendi tudo – disse Carolina em sorriso. – Você se interessou por ela.

- O que? – perguntou Beatriz abismada enquanto mudava olhar para o rosto divertido de Carolina.

- Não é Maria, que eu estava certa. Meu radar apitou desde que a vi pela primeira vez! – exclamou, cutucando a irmã.

- Não sei sobre o que vocês estão falando...

- Não precisa fingir, Bia. Está mais do que na cara, que você gosta de meninas. Aliás, o seu jeito não é muito de menininha.

- Qual é o problema das minhas roupas? – perguntou, olhando para baixo e vendo seus coturnos velhos nos pés, sua camisa xadrez vermelha, e calça jeans rasgadas. Realmente não se considerava muito feminina, mas nunca foi subjugada tão rapidamente.

- Não se preocupe, nos também gostamos de garotas. E a minha irmãzinha aqui tem uma namorada online, a pouco mais de um ano.

- Carolina! – ralhou Maria. – Mania que você tem de falar da minha vida.

- Somos irmãs, nossas vidas são um livro aberto uma para outra.

Beatriz sorriu. Tinha feito duas amigas de uma forma inusitada.

- Acho que você deveria ir até lá conversar com ela – incentivou Maria, percebendo que garota estava sentada em um dos bancos mais distantes do pátio com livro aberto em seu colo.

- Não quero ser estraga prazeres, mas acho que se ela fosse lá a garota não falaria nada, e ela ganharia um grande vácuo.

- Pare de ser tão cética, Maria. – Carolina a repreendeu. - A Bia a ajudou hoje, talvez ela apenas agradeça.

- Bia?

- Acho que tomamos a liberdade de te dar um apelido.

As duas sorriram animadas.

- Sendo assim, terei que as chama-las de Maiara e Maraisa – zoou Beatriz.

As duas param de rir, e fizeram uma careta. Automaticamente, Beatriz informou que era brincadeira. Não era do tipo que coloca apelidos em alguém. Apenas queria sorrir um pouco. Não sabia porque queria conversar com a garota. Talvez fosse interesse, mas ela desconfiava que era outra coisa.

Ainda não que estava no clima de conhecer alguém e se apaixonar, ainda estava se acostumando com a ideia que não tinha mais uma mãe para conversar sobre qual quer coisa, e acrescentar mais alguém nessa lista invisível de pessoas a sua volta que se importava só iria atrapalhar tudo. Ou talvez fosse porque alguém solitário soubesse detectar outro. E Beatriz tivesse sido atraída pelo fato que aparentemente, assim como ela, Luísa queria ficar sozinha.

- E aí, decidiu se vai lá? – resmungou Maria.

- Talvez – respondeu Beatriz, não tirando os olhos da menina em nenhum momento.

- Melhor decidir logo, daqui a pouco bate o sinal para recreio e aqueles idiotas da nossa sala saem para infernizar a vida garota.  E ela some para algum canto distante – informou Maria.

- Talvez seja melhor você conhecer um pouco dessa síndrome que ela tem, antes de ir até lá – falou Carolina por entre os dentes.

- Não preciso pesquisar no google sobre os problemas de alguém, se os vejo estampados em seu rosto.

Carolina se encolheu em seu lugar. Tinha achado que era brincadeira de Beatriz o interesse de se aproximar de Luísa, mas agora naquele momento parecia visível que não era uma brincadeira, e que ela tentaria fazer contato. Se odiou internamente por não ter sido mais rápida e mostrado que sentia algo por Beatriz, desde que a viu pela primeira vez na sala de aula. Odiou sua irmã, por ficar a incentivando. Odiou o mundo por nunca ser a vez da sua vida.

Beatriz se levantou, e em menos de meio minuto já estava quase chegando perto da garota. Não tinha muita convicção do seu contato. Talvez por isso, única coisa que fez ao se aproximar, tenha sido se sentar ao seu lado no banco. Tomando cuidado para não toca-la. Luísa continuou lendo seu livro, sem fazer nenhum movimento, mesmo depois de perceber que era Beatriz que havia sentado ao seu lado.

- Oi – sussurra Beatriz tão baixo que nem o barulho dos fones de ouvido da garota teriam permitido ela escutar. Dirigindo um olhar silencioso, para as meninas que a observam de longe, Beatriz tentou um novo contato. – Meu nome é Beatriz. E vim aqui achando que talvez... você quisesse ser minha amiga. – A garota continuo lendo, virando uma página de cada vez do seu livro, sem se importar realmente se alguém estava ao seu lado. Beatriz não era do tipo que desistia rápido, então continuou: - Você deve se chamar Luísa... acredito que realmente que talvez podemos ter algum laço de amizade... – disse Beatriz por fim. De uma forma arrastada, e abrindo um sorriso de canto pela sua incapacidade de falar algo inteligente.

Considerou ficar quieta, e foi justamente isso que fez. Encostou as costas no banco e ficou ali parada ao lado da garota. Dando uma espiada na capa do livro, percebeu que ela lia Stephen King. Era um livro enorme, Beatriz desconfiou que ela não conseguiria carregar esse livro até em casa. Afinal, It era uma enciclopédia de mais de mil páginas. E a garota parecia tão miúda, tão encolhida em seu mundo.

Talvez fosse melhor apenas fica ali, parada, olhando para nada. Fazendo uma companhia silenciosa a uma garota que queria apenas existir.

Luísa não queria ninguém sentada ao seu lado. Muito menos falando com ela. Claro, se sentia agradecida pela garota ter tirado ela de uma situação ruim mais cedo, mas isso não justificava um contato. Beatriz deveria ser igual a todos naquela escola, e não se importar com ela. Não falar com ela. Ignora-la ou fingir que ela nem existia. Mas Beatriz era diferente, tinha algo no seu jeito de falar. Parecia receosa e confiante em cada palavra que lhe dirigiu. E quando ela disse seu nome entre os dentes perfeitos, em um sussurro grave parecia que ela tinha saído de um filme. Ninguém, além de sua mãe, sua irmã e psicóloga lhe dirigia uma palavra. Ninguém, além de ninguém tinha falado com ela de maneira sussurrada e rouca, como se estivesse a seduzindo. Não, talvez tive entendido tudo errado. Afinal, não sabia ler muito bem as pessoas. Ela só veio até para caçoar de seu jeito. Como todos faziam.

Ela só queria que o chão se abrisse, e ela pudesse sumir. Mas parou de pensar em sumir quando simplesmente Beatriz lhe estendeu um post-it por cima das páginas do livro.

Olhe para cima.

Era apenas uma frase. Mesmo assim, Luísa se sentiu espantada, imaginando que talvez agora ela seria vítima do mesmo incidente que aquela garota do livro do Stephen King passou, Carrie, A Estranha. O sangue escorrendo pelo seu rosto. E tudo acontecendo em rapidez de fatos. O problema seria sua falta de poderes telecinéticos. Olhando levemente para o lado, Luísa percebeu que Beatriz sorria. Não queria olhar para ela, e sentir culpa por não estar sendo legal. Mas é que sua condição muitas vezes a impedia de falar qual quer coisa, mesmo quando precisa ou queria.  Voltou a olhar para seu livro, lendo novamente o bilhete, e dirigindo lentamente o olhar para cima.

Não havia nenhum balde com sangue, muito menos algum balde de tinta. Era apenas as folhas do antigo carvalho caindo com estação. Mas em algum lá em cima, um barulho agudo cortava a manhã, era um ninho de um passarinho. Beatriz queria lhe mostrar isso.

Beatriz tinha certeza que não falaria mais nada. Mas assim que ouviu aquele barulho na arvore, soube o que deveria fazer. Tirando um post-it e uma caneta da mochila, escreveu uma pequena frase que provavelmente chamaria atenção da menina. E isso realmente aconteceu, ela demorou um pouco realizar o que estava sendo pedido no papel. Porém, assim que olhou para alto, e viu uma mãe passarinho alimentava seus filhotes barulhentos, a garota sorriu. Não um sorriso escancarado. Um sorriso de lábios. Simples e sincero. Beatriz nunca tinha visto algo tão bonito. Estava sendo boba, mas decidiu naquele momento que faria de tudo para vê-la sorrir novamente.

- Você tem um sorriso lindo – sussurra Beatriz, de maneira pausada. No mesmo segundo em que disse a frase, se repreendeu internamente por ter dito aquilo em voz alta. A garota arregalou os olhos, corando. Mesmo não encostando nela, Beatriz pode sentir seu corpo tenso e um tremor em suas mãos.

Sua boca se contraiu, e pequenas marcadas de expressões surgiram no canto, como se ela tivesse se sentindo desconfortável, ou talvez fosse surtar. Nesse momento os olhos de Luísa esbararam nos olhos castanhos de Beatriz. E ela percebeu seus olhos tinham uma dor silenciosa. Luísa ficou espantada com seu atrevimento. Odiava olhar as pessoas nos olhos, mas quando viu aqueles olhos com aquela tonalidade tão diferente e o semblante arrisco, não conseguiu se controlar, e estendeu o contato por alguns segundo, antes de baixar o olhar novamente para o livro.

Parecia estranho aquele contato de olhos, porem Beatriz notou que Luísa tinha olhos cor de caju, com uma intensidade que ela não conseguia explicar. Consequentemente, considerou Luísa muito mais bonita do que havia reparado todas aquelas semanas, desde que se mudou para Vila Nova. Colocando as mãos nos bolsos, lutou contra o desejo de tocar em seu queixo e levantar seu rosto. Uma garota tão bonita não poderia passar o resto da sua vida olhando para chão, era até pecado fazer isso.

Ao seu lado, Luísa se sentia desconfortável. Beatriz a encarava, e cada segundo a mais que ficava sobre a mira daqueles olhos, sentia seu coração ter um ataque cardíaco. Ninguém nunca a tinha olhado por tanto tempo. Aquele olhar parecia dois ferros em brasa a queimando silenciosamente com a intensidade de um vulcão em erupção.

Levantando o olhar por um segundo, Luísa percebeu que Beatriz estava com a boca curvada em um sorriso. Parecia feliz em deixa-la desconfortável. A garota voltou a encarar as páginas do livro, fingindo que estava lendo. Nesse mesmo segundo, escutou passos se aproximando, precisa fugir. O sinal do recreio já havia batido e logo o pátio todo estaria cheio de alunos. Seus músculos se enrijeceram, e Luísa se levantou colocando o livro dentro de sua bolsa.

Em menos de um segundo já havia fugido para seu mundo novamente.

A barulho dos alunos no pátio realmente começava a ficar alto, e Beatriz decidiu por não seguir a garota, ficando ali. Para um primeiro contato já bastava ter tido a idiota ideia de ter falado que o sorriso dela era lindo. A garota quase tinha se contraído para dentro de si mesma. E Beatriz desejou sumir, por ser tão besta.

Algumas garotas a chamaram de retardada quando Luísa passou e Beatriz quase se levantou para dizer algumas coisas em sua defesa. Mas ficou quieta, ao perceber que Luísa ignorou. Tinha certeza que a partir de agora, iria observar Luísa de perto. E ninguém iria ofende-la.

 

Notas finais:

Obrigada a todas que leram o primeiro capitulo.

E espero sinceramente que tenham gostado desse, deixem seus comentarios isso é muito importante para mim saber se estou tomando o caminho certo.

Um beijo a todas.



Comentários


Nome: patty-321 (Assinado) · Data: 16/04/2018 01:21 · Para: Capitulo 2 - Olhe para cima

Amei. Tão diferentes e tão interessantes. A bia se encantou pela Luiza. To ansiosa pra ler o proximo. Boa semana.



Resposta do autor:

aaah, que bom que gostou. fico tão feliz :') muito mesmo 

Uma boa semana para você também.

Beijos



Nome: sonhadora (Assinado) · Data: 16/04/2018 00:49 · Para: Capitulo 2 - Olhe para cima

Esse negócio de bullying é sério. Amei o contato delas duas, Beatriz vai ter muito trabalho pra chegar na Luísa já tô v3ndo o sofrimento delas duas.

Amando seu roteiro!

 

Beijos de luz!



Resposta do autor:

Bullying é phoda demais. Sorte que Beatriz não desiste facil.. que bom que está gostando Lalu (:

Beijos até mais



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