A ruína dos anjos por Drikka Silva


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Egito 1157 A.C              

A fome assolava os povos que habitavam as margens do Nilo. Entre as poucas pessoas que possuíam algum estoque de alimentos, também existia a temeridade de saqueadores do deserto, homens de mau caráter que viajam como nômades, dedicados a roubarem tudo que encontravam e qualquer pessoa, independentemente que fossem apenas insignificantes aldeões ou notórios membros das forças do faraó. Entre eles, Kanope, líder de um dos principais grupos de ataque.

            Almozsaaladiel havia o encontrado já com seus dezesseis anos, quando, junto a seu pai, já efetuava ataques desmedidos, oprimindo aldeias, saqueando viajantes e espalhando o mal sobre a terra. Seu coração doía ao ver que não conseguira interferir em sua vida antes que se tornasse uma das pessoas mais temidas daquela terra. Conhecia que o bem ainda habitava seu espirito, mas de maneira igual, o mal também havia sido revelado. O livre arbítrio de suas ações impedia qualquer tipo de ação que pudesse ter, mas sabia que em algum momento, encontraria espaço para salva-lo de sua própria imundice.

            O dia tanto esperado foi acompanhado de uma tempestade de areia. Almozsaaladiel pressentiu o evento, mesmo antes de ele ter começado. Em uma extremidade, o grupo de Kanope esperava o avanço da caravana que partia rumo ao faraó, em sua ultima esperança de encontrar algum refúgio. Quando os grupos ficaram próximos um do outro, a tempestade surgiu no horizonte, avançando rapidamente.

            Kanope viu a tempestade aparecer ao mesmo tempo em que se preparava para o ataque. Já acostumado com o evento climático, calculou seu tempo para chegar até eles, quando suas visões seriam escurecidas e somente os instintos de batalha os guiariam para uma vitória. Não que aquilo fosse um problema: certamente os viajantes estavam fracos e famintos, assim como suas crias. Seria muito fácil os derrubar e saquear sem que precisasse de grandes estratégias.

            Almozsaaladiel acompanhou a movimentação do grupo, até avistar o anjo da morte pairando sobre eles. A interferência que esperava não iria acontecer como havia previsto, em um momento de calmaria. Se permitisse o ataque, além do grupo que seria dizimado, também perderia Kanope, que seria morto por um traidor que visava seu posto. A tempestade de areia já estava prestes a os alcançarem quando o grupo partiu para o ataque. Almozsaaladiel saiu de sua inércia e pousou no meio do ataque, esticando as asas para que ao animais, que se aproximavam em alta velocidade, parassem. O olhar amedrontado de Kanope foi a ultima coisa que viu, antes que a tempestade os engolissem.

            Almozsaaladiel estava em um canto da caverna quando Kanope deu sinais de acordar. Permaneceu imóvel, o observando enquanto seus olhos se abriam lentamente. O homem primeiro fitou o teto, depois virou a cabeça devagar, fazendo todo o reconhecimento do espaço. Seus olhos pararam de se mover quando a viu.  

           - Quem és?

            Almozsaaladiel não respondeu, apenas foi ter com ele se aproximando devagar.

            - Se afaste de mim, feiticeira! – vociferou quando percebeu sua atitude.

            - Não irei lhe fazer mal.

            - De certo não irá!

            Almozsaaladiel se aproximou mais um passo, para ficar de frente ao assustado homem. Quando estava o suficientemente próxima, Kanope a golpeou com uma adaga, diretamente no coração. Deu um passo para trás, o observando, antes de tirar levar a mão ao local e retirar a adaga ainda cravada em seu corpo. Kanope passou a rezar a deuses pagãos enquanto a olhava ainda mais amedrontado que a primeira vez.  Almozsaaladiel entendeu a sua vontade, o livre arbítrio ao qual era seu direito. Antes de partir, fez a única coisa que lhe restava. Se afastou o suficiente de Kanope e se ajoelhou, fechando os olhos. O corpo humano se rompeu para que a criatura fosse liberta.

            - A besta de meus sonhos... – murmurou espantando.

            Almozsaaladiel levantou a cabeça para fita-lo. Pela primeira vez seus olhos se cruzaram desnudos, sem nenhuma sombra. Sentiu-se encher de alegria enquanto via o ódio presente em Kanope se transformar em admiração.

                                    Tempos atuais    

           Andressa passou a noite inteira acordada, pensando no incomum encontro que tivera com Saladiel. Nunca antes tinha conversado com alguém tão estranho e ao mesmo tempo tão envolvente. Seria capaz de ficar horas apenas admirando-a, decorando cada detalhe de sua beleza tão exótica. Ao contrário das características de uma iraniana, ela parecia mais mordica, clássica, não humana.

            Dexter correu para longe quando foi se despedir para sair para o trabalho. Algo estava assustando o gato e não sabia o que era, se ele continuasse com aquele comportamento estranho, teria que leva-lo até o veterinário para uma consulta.

            Na frente do prédio, uma agradável surpresa a aguardava. Saladiel estava parada ao lado do portão, esperando-a.

            - Saladiel... Bom dia – cumprimentou ao se adiantar para dar um beijo em seu rosto.

            Almozsaaladiel deu um beijo demorado em seu rosto, antes de afastar para enxerga-la. Acariciou seu rosto lentamente, antes de pegar sua mão e depositar um beijo nela.

            - Esses gestos são tão antigos – riu Andressa ao fitar a mulher. – Você parece ser antiga, de outra era.

            - Me desculpe se parecer um avanço.  

           - Não, não é. Isso é quase fraternal hoje em dia – respondeu Andressa, ajeitando a alça da bolsa no ombro. – Estava me esperando?  

           - Sim.  

           - Eu não consigo deixar de pensar em como isso é assustador. Você conhece até meus horários.   

          - Conheço. Você possui uma rotina sem grandes alterações.

            - Em outras palavras, eu sou previsível.  

           - Nessa vida sim.

            - E em outras eu fui mais aventureira? – perguntou Andressa levando a informação na brincadeira.  

           - Sim. Depende da época e lugar. O mundo mudou muito.

            - Hoje eu estou sem tempo de ficar ouvindo suas maluquices – riu. – Tenho que ir trabalhar.     

        - Me permite que eu lhe acompanhe?  

           Andressa encarou a mulher a sua frente, deliberando sobre o seu pedido. Não conseguia deixar de pensar que era uma grande loucura que Saladiel fosse tão estranha e ainda desse atenção a ela. Pior, que ficasse feliz por vê-la como estava naquele momento.

            - Você não tem que ir trabalhar? Fazer alguma outra coisa?

            - Não trabalho.

            - E você vive do que?  

           - O senhor proverá.   

          - Isso é loucura demais. Eu não sei se chamo uma ambulância pra você ou duas, uma pra mim e outra pra você. Talvez seja eu que esteja ficando maluca ao lhe dar ouvidos.

            - Já lhe disse...  

           - Sei... Sei... Pode ir embora se for o desejo do meu coração – cortou Andressa. – Sabe qual o desejo do meu coração? Não perder a hora do trabalho. Vamos. Espero que seja uma melhor companhia do que a senhora que vai dormindo no meu braço toda a manhã.  

           - Impossível dormir ao seu lado.

            Andressa riu e se virou para o lado do ponto de ônibus e começou a caminhar levemente apressada. Almozsaaladiel a acompanhava em silêncio, como se estivesse sem um assunto.   

          - Me conta alguma coisa, algo que não faça eu sair correndo de você.  

           - Por que não fala alguma coisa? – sugeriu Almozsaaladiel. – Ainda tenho que aprender muita coisa com você.

            - Já falei bastante a respeito de mim ontem. Quero te ouvir também. Por exemplo, por que está com essa roupa que parece saída de um guarda roupas dos anos oitenta?             - Porque foi comprada nos anos oitenta. Não sei exatamente a data, Absalom que cuidou de tudo enquanto estava recolhida.  

           - Quer dizer que já tinha idade adulta nos anos oitenta? Pela sua aparência sou capaz de jurar que possui minha idade, aproximadamente.  

           - De certa forma.

            - Acho melhor eu falar alguma coisa – riu Andressa. – Pelo visto não vou conseguir nada coerente de você mesmo.

            - Eu quero muito te falar sobre tudo, esse dia ainda chegará. Tenha paciência.

            - Talvez seja por isso que ainda estou aqui, pela paciência.  

           Almozsaaladiel sorriu ao encarar Andressa. Era um exercício de paciência para ambas. A diferença era que a sua, era bem maior do que qualquer podia julgar na terra.

            O ônibus chegou e entraram, indo para o fundo, assento que sempre fora escolhido por Andressa. Sentaram-se enquanto a morena contava sua infância, os momentos que havia passado junto aos pais. Eles moravam no interior e pouco tinha contato, não por falta de afinidades, muito pelo contrário, sabia que se precisasse deles, os encontrariam de braços abertos. A criação que eles lhe deram foi intencionalmente desapegada. Haviam criado Andressa para o mundo, para que não tivesse medo de assumir responsabilidades, e plena confiança em suas decisões.  

           O caminho até o trabalho não durou mais que meia hora que para Andressa passou como um piscar de olhos. Assim que desceram na frente da empresa, se virou para Saladiel, que a encarava com uma ternura ímpar.   

          - Te vejo mais hoje? – perguntou Andressa esperançosa.   

          - Se quiser.     

        - Eu quero. Me surpreenda.   

         - Venho te encontrar no horário em que sair.    

         Andressa concordou com um aceno e a abraçou apertando antes de se afastar e depositar um beijo demorado em seu rosto. Mesmo depois de passar pela portaria, se virou para fora para enxergar Saladiel mais uma vez. Estava feliz e com uma paz de espirito que não se lembrava de já ter sentido antes.

         Na hora do almoço, saiu com uma colega para almoçar em um restaurante na rua detrás do trabalho. Estavam na fila do caixa quando uma movimentação anormal na rua chamou a atenção de todos dentro do estabelecimento. Saiu para a calçada para ver o que era, quando o som de tiros começou a ecoar. Um assalto acontecia na agencia lotérica e o segurança do local havia reagido. Fez a menção de voltar para o restaurante, assustada, mas o aglomerado de pessoas impedia que fizesse isso rapidamente. Se virou quando outro estampido foi ouvido, mas o que a deixou imóvel foi enxergar Saladiel sendo atingida por uma bala, quando fez a sua proteção, tampando-a com seu corpo.

Notas finais:

Oi oi lindonas!!!

Amores, seguinte, na próxima semana estarei viajando, não sei como ficará a postagem, pq não sei exatamente como é o lugar para onde vou (termos de acesso a net). Se tiver uma conexão legal, farei a postagem de boa, caso contrário, voltaremos a nos ver dia 22. 

 

Bjokassssssssssssssss



Comentários


Nome: mtereza (Assinado) · Data: 01/05/2018 03:44 · Para: Capitulo 8

Cada vez mais impressionante a.eiqueza de.detalhes do.seu conto muito bom.e.instigante



Nome: Vivica (Assinado) · Data: 16/04/2018 03:14 · Para: Capitulo 8

Ok, vou deixar aqui um comentário altamente racional e maduro sobre este capítulo: Xiii, fodeu!

Bj bj, Drikka!

: )



Resposta do autor:

hahhhaahhahha Fudeu! Fudeu bonito hehehehe

Bjokassssssssssss



Nome: Baiana (Assinado) · Data: 12/04/2018 15:34 · Para: Capitulo 8

Agora ela descobre que a mulher não é humana e pira o cabeção de vez kkkkk

Não se preocupe que em Arraial,a conexao com a internet é ótima.



Resposta do autor:

hahhahhaa Ela vai ficar maluca nesse processo, pode ter certeza! 

Bjokasssssssss



Nome: Lai (Assinado) · Data: 12/04/2018 15:23 · Para: Capitulo 8

Oieeee!!

Que lindinho e esse final....sempre assim, n?! KkkAcaba na melhor parte kk

Boa viagem e curta muitoo e acho bom experimentar a comidas! 

Tem acesso, mas curta a viagem, por favor! Sem Net kkkk

Beijosssss



Resposta do autor:

kkkkkkkkkkkk é de lei né? tem que deixar a curiosidade para o próximo cap! hehhee

A viagem foi massa demais! AS meninas são incriveis!

 

Bjokassssssssss



Nome: IzaHass (Assinado) · Data: 12/04/2018 13:35 · Para: Capitulo 8

Drikka, autora querida, deixa essa cética aqui te perguntar uma coisa: essas ações protetoras de Almoz não acabam interferindo no livre arbítrio que ela diz respeitar? 

Não entendo desses paranauês místicos, até já te disse que não costumo mergulhar em literatura de fantasia, mas gostei do enredo dessa e o fato de Almoz dizer, ainda no começo, que sempre respeitaria o livre arbitrio de Andressa, me fez querer seguir a leitura na expectativa de como você construiria o processo de conquista, de envolvimento entre essas duas personagens tão diferentes e, devo dizer, estou adorando a coisa toda.

Contudo, fiquei pensando se, desde sempre, para proteger Andressa, Almoz não acaba interferindo no curso natural das escolhas dela... Que me dizes? Viajei? Não entendo nada mesmo? kkkkkkk Clareia minhas ideias, Drikka... 

Valeu, queridona! Cuide-se direitinho. ????



Resposta do autor:

Oi lindona!

Então, eu tomo por base aqui duas distinções que permeiam a história: um é o livre arbitrio, a liberdade que temos de escolhas e o outro é interferir no destino. 

Por exemplo: a Andressa tem a decisão se quer continuar ou não encontrando Almozsaaladiel (livre arbitrio) porem ela não escolhe o momento de morrer ( interferencia no destino)

Perceba que depois do acidente com o carro, ela está sempre numa enrasca diferente. É assalto de celular, bala perdida e.... O resto seria spoiler hehehehe Mas se foque nesse detalhe. Se captar a ideia, já vai te dar uma base. 

A questão do livre arbitrio, a Andressa tem a escolha de que caminho seguir, Almoz não pode interferir nisso, porém o envolvimento que elas possuem é coisa antiga (muiiiiiiiiito antiga) se torna "natural" essa aproximação que elas terão. 

Logo, almozsaaladiel só pode interferir em coisas desconhecidas a Andressa, um acidente ou coisas do tipo. Nunca na vontade dela. (na cena onde ela vê a Vitória no carro e se aproxima, mas Almoz aparece, ela poderia ter continuado o caminho, foi uma escolha dela parar)

Claro que faço o uso da licença poetica no texto inteiro, uma vez que é fantasia, mas algumas bases tento manter o mais próximo do que conhecemos. 

Espero ter clareado hehehhheehe Qualquer coisa é só falar! 

 

bjokasssssssss



Nome: Angell (Assinado) · Data: 12/04/2018 11:33 · Para: Capitulo 8

Gostando cada vez mais da história. Que seria ter um anjo particular sempre me protegendo. :)



Nome: NovaAqui (Assinado) · Data: 12/04/2018 10:35 · Para: Capitulo 8

Agora Andressa vai realmente pirar. Um tiro?

Vamos ver como isso vai ficar

Boa viagem!

Abraços fraternos procês aí!



Nome: sophiebrt (Assinado) · Data: 12/04/2018 02:43 · Para: Capitulo 8

Olá autora! adorando sua historia.... adoro historias misticas ou mitologicas, principalmente as que envolvem anjos. Ja li algumas boas, mas a sua esta na medida certa,  tá linda, tá leve! Existem pessoas que vão falar que logo, logo você mata um.....rsrsrss, mas você já matou hasmut varias vezes e de diversas maneiras....rsrsrs, então você não perdeu a mão nessa historia, tá mantendo o ritmo! brincadeiras a parte, devo lhe confessar que estou adorando a maneira que a historia está sendo apresentada, as idas e vindas no tempo estão bem logicas, coerentes e no time certo. Esse capitulo de hoje foi tão espetacular que não resisti e vim comentar, Saladiel com roupas do anos oitenta? fiquei cá com meus botões imaginando uma mulher belissima, com um blazer de ombreiras a la David Bowie...rsrsrssr, é isso e outras coisas que deixa o texto gostoso.... ah e andressa agora com o tiro que saladiel levou pra lhe proteger, terá provavelmente um choque da realidade, vai ser obrigada a entender que as coisas são maiores do que ela imagina e nossa vã filosofia explica. beijos Drikka.



Nome: IolandaStrambek (Assinado) · Data: 12/04/2018 02:35 · Para: Capitulo 8

Eu vou chorar Drikka não pode para desse jeito o capitulo, é pecado contra suas leitoras.

Adorei o capitulo (:



Nome: preguicella (Assinado) · Data: 12/04/2018 02:35 · Para: Capitulo 8

Gzuis Drikka, isso é maldade! Vc termina o capítulo desse jeito e diz que pode ser que na próxima semana pode não ter capítulo! Assim eu não aguento!

Tá, eu sei que nosso anjo não vai morrer, mas o que importa é como Andressa vai reagir a essa situação, e eu to curiosaaaaaaa! hahaha

Bjão, boa viagem e torcerei pra internet ser maravilhosa nesse lugar que vc vai! haha



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