A ruína dos anjos por Drikka Silva


[Comentários - 118]   Impressora Imprimir Capitulo ou História - Lista de Capítulos

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Andressa olhou para a mulher, ainda boquiaberta, sem acreditar que ela estava mesmo ali. Analisou suas feições lentamente, seus longos cabelos negros, olhos cinzentos em um tom bem claro, a pele com uma palidez de quem não via o sol durante alguns anos.

            - Você... Quem é você? – perguntou se esquecendo completamente do trajeto que estava fazendo.

            - Moro perto do seu prédio, já te vi muitas vezes.

            - Qual seu nome?

            - Fiquei preocupada com você esses dias. Parecia mais abatida.

            - Você é uma stalker?

            - Perdão, o que quer dizer isso?

            - Está me seguindo?

            - Pela eternidade – respondeu Almozsaaladiel com sinceridade.

            Andressa sorriu para a estranha, perante sua resposta. Em qualquer situação, ficaria absolutamente apavorada de ter uma maluca a seguindo, mas por alguma razão, aquela informação a deixou mais confortável.

            - Qual seu nome?

            - Saladiel.

            - Um anjo?

            - Enxerga algo? – perguntou Almozsaaladiel preocupada.

            - O final. Nomes que terminam com El significa que são de Deus. Enviado por Deus. Anjos – respondeu Andressa com um sorriso. – Cultura inútil da internet.

             - Nem tudo é inútil. Vou deixa-la seguir seu caminho. Vá em paz...

            - Não – cortou Andressa ansiosa. – Eu... Eu fiquei te procurando, depois daquele dia do assalto, quis te agradecer, mas não soube onde te encontrar. Tem um numero de celular que eu consiga falar contigo?

            - Não.

            - Aceita tomar um café comigo? Uma forma de agradecimento.

            - Depende do quanto deseja isso. Eu posso esperar.

            - Você fala umas coisas que não entendo – riu Andressa. – Eu tenho que ir trabalhar, mas quero te encontrar novamente. Não quero que se esconda de mim. E sim, eu quero muito te encontrar novamente.

            - Iremos. É nossa sina. A minha condenação.

            - Ok... Ah.... Estranho.

            - Não ligue para minhas palavras, talvez nunca entenda nesta vida.

            Andressa encarou a mulher a sua frente por um longo tempo. Que espécie de maluca era ela? O impulso natural da auto preservação sinalizava para se afastar e ficar atenta, pois claramente se tratava de uma stalker, mas algo profundamente enraizado fazia seu coração encher de paz e alegria ao contempla-la.

            - Eu vou te esperar aqui, oito horas da noite, ok?

            - Estarei lhe esperando – respondeu Almozsaaladiel ao erguer uma mão para acariciar seu rosto.

            Andressa inclinou a cabeça para receber mais do carinho, como Dexter fazia com ela. Se afastou relutante, com um sorriso preso nos lábios. Atravessou a rua até o ponto de ônibus e se virou para enxergar a morena ainda parada no mesmo lugar, observando-a. Parecia uma estátua, perfeitamente moldada pelas mãos hábeis de um competente escultor. Acenou em despedida e virou para enxergar  ônibus já parando no ponto. A cena de Vitória entrando no carro foi esquecida, e Saladiel tomou conta dos seus pensamentos o dia inteiro.

                        Almozsaaladiel fechou os olhos, agradecida ao Criador pela chance de ter o espirito ao seu lado mais uma vez. De poder conversar e toca-la. Durante os milênios, por três vezes, o espirito havia desencarnado sem que pudesse encontra-lo, mas desta vez, havia tido o privilégio de conversar com ela. Olhou ao redor e foi para um local mais afastado para que nenhum humano pudesse vê-la e saltou para alcançar um telhado.

                        Andressa passou o dia inteiro pensando em Saladiel. Era um nome bem diferente para uma mulher muito diferente do que já havia encontrado na vida. Não sabia explicar exatamente o que sentira ao vê-la, mas era algo que nunca antes havia sentido, algo sublime, intocável.

            Às seis da tarde saiu do trabalho e correu para casa. Vitória mandou mensagem informando que ia direto para a faculdade, respondeu com um simples “ok” e deixou o aparelho de lado. Tomou um banho rápido e alimentou Dexter antes de sair do apartamento. Na esquina, aonde havia encontrado Saladiel pela manhã, já avistou a morena encostada contra a parede de um comercio. O sorriso brotou de forma automática ao vê-la.

            - Você veio...

            - Eu havia concordado de manhã – respondeu Almozsaaladiel ao se afastar da parede.

            Andressa se adiantou e tocou seu braço para dar um beijo em seu rosto. Almozsaaladiel fechou os olhos, apreciando o toque suave. Uma mão passou para sua cintura, puxando-a para o abraço que por tanto tempo havia guardado. Andressa se deixou levar, retribuindo o abraço apertado, como se tivessem ficado anos sem se ver e finalmente haviam se reencontrado. Se afastou para fitar os olhos cinzentos e enxergou um carinho e uma paz que nunca antes havia sentido. Tudo o que provava com Saladiel era algo que nunca havia sentido. Voltou a dar outro beijo demorado em seu rosto, acariciando sua nuca.

            - Parece que senti sua falta – externou seu pensamento.

            - Eu sei como se sente.

              - Como isso é possível?

            - Vamos deixar os questionamentos para depois – pediu Almozsaaladiel ao depositar um beijo no seu rosto. – Tudo será esclarecido no seu devido tempo.

            - Ok. Bom, vamos ao nosso suco, porque não vai querer café, não é?

            - Não.

            Andressa se afastou da morena, relutante. Passou as mãos no cabelo, antes de se virar para encara-la. Algo poderoso a impelia a ela, como um imã.

            - Você acredita se eu disser que já sonhei com você, várias vezes? Eu acho que já te vi antes. Dizem que quando sonhamos com um rosto, é porque já vimos e gravamos a imagem no subconsciente.

            - Acreditaria se eu te disser que não são sonhos? – devolveu Almozsaaladiel andando calmamente ao seu lado. – Ou que isso é um desejo do seu coração?

            - Quer dizer que eu desejava você? – riu Andressa. – Uma pessoa que vive me seguindo?

            - Não posso me afastar, mas se esse for o desejo do seu coração eu o farei.

            - Não! Não... Foi... Uma observação, não leve minhas palavras à risca. Me parece que não conhece bem o humor.

            Almozsaaladiel se calou para observa-la. Andressa estava nervosa com sua presença e isso estava claro na sua postura.

            - De onde você é? – tornou a perguntar Andressa ao encara-la, para puxar assunto.

            - Do velho mundo.

            Andressa parou de andar e se colocou na frente da morena.

            - Se quiser ser menos assustadora tem que melhorar suas respostas. Em qualquer momento já teria ficado assustada o suficiente para não olhar mais para o seu rosto, mas algo ainda me mantém aqui, e desejando te conhecer mais que tudo.

            - Mesopotâmia.

            - É uma cidade? Fica em qual estado?

            - Atual Iraque.

            Andressa se virou, sem conseguir conter um riso.

            - Você é Iraquiana? Não tem sotaque nenhum, nenhuma característica daquela região.

            - Não fui criada lá. Me revelei lá.

            - Existe algo que você possa me contar que seja normal? Tipo, nasci no Paraná, mas fui criada em São Paulo, tenho trinta anos e trabalho com paisagismo?

            - Seria uma mentira. Não posso mentir, menos ainda a você.

            - Qual sua idade?

            - Acredite em mim: nunca lhe faria mal.

            - Qual sua idade?

            - Semelhante aos grãos de areia, esses são meus dias desde a criação até o findar dos dias.

            - Ok. Eu vou para casa. Eu, realmente, senti algo diferente quando te vi, algo que não sei explicar e que não vai entender, mas não posso continuar essa conversa sem pé nem cabeça.

            - Eu não quero te assustar. Sei que sua crença é limitada ao que seus olhos podem ver, mas existem mais coisas sob o firmamento que vocês jamais verão.             - Fadas? – desdenhou Andressa.

            - Explicação de pagãos aos que seus olhos viam. Tempos antigos. A lenda foi passada de geração em geração.

            - Anjos?

            - Criações de Deus.

            - Isso é absurdo, você sabe, não é?

            - Você tem que ter fé para acreditar. Não se convence ninguém a andar se a própria pessoa não acredita que consegue. Vocês são livres para verem aquilo que escolhem ver. Não podemos forçar nada. O livre arbítrio é poderoso.

            - Meu livre arbítrio está me dizendo que você é perigosa. Eu lembro como desarmou aqueles caras na viela.

            - Jamais lhe faria mal algum. Já lhe falei isso.

            - E eu sinto a verdade em suas palavras, mas eu não sei o que falar com você e que possa me responder sem metáforas.

            - Podemos fazer um acordo? Uma pergunta e respondo claramente. Somente uma por agora. Depois vamos ao nosso suco.

            Andressa fitou os olhos acinzentados e deu um longo suspiro. Onde estava se metendo? O que estava fazendo?

            - Tudo bem. Há quanto tempo está me seguindo?

            - Mil oitocentos e quarenta e dois dias.

            Andressa abriu a boca em espanto. Ela estava brincando. Era brincadeira, só podia ser isso.

            - Está brincando, não é?

            - Não. E não estou te seguindo sem um propósito.

            - Qual o propósito?

            - Vamos ao nosso suco?

            - Não posso. Você me parece absolutamente perturbada, quero dizer, que pessoa se dedica a seguir outra durante tanto tempo? Cinco anos ou mais. É... Assustador.

            - Já lhe disse, eu posso ir embora se esse for o desejo do seu coração.

            - É o meu desejo, meu pedido. Se eu te encontrar novamente eu chamo a polícia.

            Almozsaaladiel abaixou a cabeça com um aceno de concordância. Ficou observando Andressa se afastar por vários metros. O coração estava em paz, mesmo ao vê-la partir.

            Andressa atravessou a rua de volta ao prédio, mas se virou para enxergar Saladiel ainda parada no mesmo lugar a observando. Um Dejà vu da manhã. Se virou completamente, absolutamente perdida. Como não conseguia se afastar de alguém que parecia uma sociopata?

            Os pés ganharam vida própria ao voltar para Saladiel. Voltou a parar na sua frente e a abraçou apertado, enquanto o coração batia descompassado. Era como se houvesse uma ligação poderosa que não se romperia tão fácil.

            - Vamos ao suco. Eu tenho que voltar cedo para casa. Já deve saber que sou casada.

            - Sim e por isso nunca me revelei antes.

            - Por que se revelou hoje?

            - Não queria te ver sofrer. Ainda chegará o momento, mas quando ele chegar, eu quero estar ao seu lado para conforta-la.

            - Isso é loucura. Ok, vamos falar de outra coisa, antes que o bom senso me atinja novamente.

            - Me fale sobre o seu trabalho. Quero te ouvir – pediu Almozsaaladiel com um sorriso.

            Andressa sorriu e pegou a mão da morena puxando-a para a lanchonete, três quadras distante da sua casa. Durante todo o tempo, a atenção de Saladiel ficou completamente concentrada e seu rosto, ouvindo-a em cada palavra dita. Quando o relógio marcou dez da noite, se levantou para irem embora. Se despediu da morena na frente do seu prédio e observou ela se afastar até sumir de vista. Assim que entrou no apartamento, Dexter correu dela como se tivesse visto um bicho. Foi atrás do gato intrigada com sua atitude e o encontrou na varanda, encolhido de medo. Pegou o animal no colo e fez carinho até que ele se acalmasse. Do prédio da frente, Almozsaaladiel a observava com alegria.

            Duas quadras atrás, Absalom sentiu uma dor intensa no peito.            

Nome: Baiana (Assinado) · Data: 10/04/2018 19:30 · Para: Capitulo 7

Saladiel tem que aprender a falar humanês e não angeliquês,assim vai assustar a amada chifruda kkkk

Falando nisso,agora entendi pq não deixou a outra pegar a esposa no flagra,quando isso acontecer,o anjo será o ombro amigo que vai dá o suporte.



Nome: preguicella (Assinado) · Data: 09/04/2018 04:55 · Para: Capitulo 7

Qualquer um fugiria desse encontro, mas como fugir de uma ligação tão forte! Muito louco isso! Nesse mundo louco que vivemos seria extremamente difícil acreditar em algo assim! Eu acredito! hahaha

Bjão e até quarta! 



Nome: EriOli (Assinado) · Data: 09/04/2018 02:22 · Para: Capitulo 7

"Toda folha que cai descansa onde sempre deveria descansar." (Willian Krueguer)

Uma citação que é bem a propósito para o capítulo de hoje, parece que finalmente elas estão começando a achar o descanso nos braços uma da outra. Onde sempre deveriam estar!

Esperando ansiosamente pelo próximo!

Há braços



Resposta do autor:

Uau! Linda citação!

Sim, muito o proposito, visto que Almo sempre ficou ao sabor do vento, neh? esse pode ser seu tão esperado descanso ao lado de Andressa. Oremos hehehe

Quarta tem mais!

 

bjokassssssssssss



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