A ruína dos anjos por Drikka Silva


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Andressa entrou em casa e se certificou que Dexter não teria como fugir mais. Pensou, por um longo tempo, no homem que havia encontrado. Aparentava seus sessenta anos, ou um pouco mais, estranho, mas ao mesmo tempo passava confiança, uma mistura estranha de sensações. Sem contar no conhecimento que aparentava ter: desde pequena gostava de ouvir pessoas mais velhas conversando, transmitindo uma carga de conhecimento e experiência que nunca teria na vida, dado a passagem geracional. Havia ficado, de fato, curiosa com ele.
            Durante todo o final de semana se desligou do mundo fora do apartamento para dar atenção à casa e a Vitória. Durante toda a noite de sábado, assistiram séries, filmes, se amaram e voltaram ao reduto particular que cultivavam. Aquele era um dos momentos que mais apreciava no casamento: a tranquilidade da vida a dois.
 
Cairo – 1190


            O choro da criança despertou a criatura do seu estado de transe. Fechou os olhos e se concentrou para enxergar o lugar de onde havia vindo o fôlego de vida. A colina verdejante era clara de ser vista, assim como a tranquilidade rural e o rosto da mulher que trouxera à luz um dos espíritos mais antigos a vagar pelo mundo. A criança, uma menina de bochechas rosadas, chorava copiosamente nos braços da parteira. A criatura sentiu seu corpo metafisico se encher de paz ao ver quão forte a criança aparentava ser. O que fez sua paz de espirito ir embora, foram os cavaleiros que enxergou em seguida: Vários, trajando túnicas brancas com uma cruz estampada do peito. Abriu os olhos e olhou tensa ao redor. O sol se punha no delta do Nilo, tingindo o céu de matizes alaranjados. À sua frente, as pirâmides rainhas adornavam o horizonte. Olhou para a tenda mais abaixo onde seu servo a aguardava e se levantou para chegar até ele com um pulo.
            - És chegado o tempo, todavia temos que partir de imediato – anunciou ao entrar na tenda.
            - Algo de errado?
            - A criança está na França, porém perto dos soldados de cristo.
            - Está no meio da guerra santa? – perguntou Absalom preocupado.
            - Não consigo afirmar. Partirei de imediato.
            - Seguirei em breve – anunciou o servo. – No mais tardar, ao cair da noite.
            -Et costudiat te.
            - Amen.
            Absalom ficou olhando ao longe, enquanto a criatura sumia de suas vistas rapidamente nas alturas. Se colocou em oração e pediu proteção aos céus. Levantou-se e começou a desfazer a tenda. Seguiria Almozsaaladiel até o fim de seus dias, quando sua missão fosse cumprida na terra. Devia-lhe não só a vida longínqua da qual desfrutava, mas também a limpidez de pensamentos. Pensamentos esses antes que eram cheios de trevas, mas que o anjo havia havia clareado com sua bondade e devoção ao espirito de Hasmut.
 
            Vale de Sidim – Amorah 3123 A.C 
 
            Almozsaaladiel olhou, consternada, as cidades que compunham o Vale de Sidim. As maldades da humanidade haviam chegado a tal ponto que não era possível colocar em palavras. Se tratavam como animais, perdidos na própria ignorância, negando a existência do Criador e cultivando deuses pagãos que serviam apenas para os seus próprios propósitos. Por diversas vezes, interferiu no caminho de forasteiros para que se desviassem daquela região. Se pudessem ficar o mais longe possível das iniquidades daqueles povos, mais tempo teriam de vida sobre a terra.
            Havia chegado a Sodom depois de sentir que o espirito de Hasmut estava prestes a reencarnar novamente, já concebido. Desde a primeira vez que o tinha encontrado, às margens do Eufrates, haviam se passado quase três milênios. Sua vinda a terra acontecera por nove vezes nesse período e encontrara um padrão de reencarnação: sempre acontecia com o intervalo de trezentos a quatrocentos anos. Enquanto o espirito não estava preso em um corpo humano, cuidava para que a própria humanidade não fosse dizimada pelos próprios pecados. Não podia interferir no livre arbítrio, mas podia dar opção de caminhos e deixar à escolha, porém era incontestável o instinto natural da humanidade para a própria destruição, por isso havia decidido se afastar, observava tudo do alto, das montanhas. Quando o espirito reencarnasse, o tiraria dali para viver em paz em outro canto da terra.
            Seus planos mudaram drasticamente quando sentiu os anjos que desciam dos céus. Não tinham vindo encontra-la e nenhum outro celestial, visto que seguiam um caminho especifico. Enxergou claramente o trajeto que faziam até Sodom. Um celestial enviado à terra para falar com um humano, demarcava um evento importante, e se tratando de Sodoma e Gomorra, não poderia ser bom.
            Almozsaaladiel saiu de sua inercia e entrou na cidade. Se desviou das pessoas e se aproximou o suficiente para saber o que aconteceria. Uma revolta popular se iniciava na frente de uma casa onde os anjos haviam se refugiado. Entre eles, o homem escolhido pelo divino para que fosse progenitor do espirito. Não poderia esperar pelo nascimento. Não sabia os planos do criador, mas tinha certeza de uma coisa: aquele vale pagaria pelos seus pecados.
            - Temos que partir – falou ao tocar o braço de Absalom.
            - Tire suas mãos de mim sua...
            Absalom parou de falar ao enxergar a mulher que o abordara. A paz que ela transmitia em seu rosto, fez com que se afastasse do grupo.
            - Quem é você? Por que temos que partir? Tem a ver com os forasteiros?
            - Pegue sua mulher e sua criação. Partiremos em breve.
            Absalom obedeceu, sem questionar. Seguiu direto para o casebre e pediu que a mulher reunisse os alimentos para o sustento para uma jornada. Almozsaaladiel apenas observou enquanto se arrumavam para partir. Dentro de Absalom uma batalha se iniciava: ao mesmo tempo que seguia as ordens da estranha mulher, sua mente se rebelava para matá-la, como faziam com grande parte das pessoas que se perdiam naquelas paragens, contudo, sempre que avançava sobre ela, bastava uma palavra de conforto para que voltasse a seguir seus ordenamentos.
            Almozsaaladiel deixou o vale ao lado de Absalom e sua esposa e seguiram por uma longa caminhada pelo deserto. Não viu o que se passou no Vale de Sidim, mas escutou e sentiu a dor de um povo sendo cobrado de sua crueldade. Absalom ao seu lado também sentiu e antes que pudesse falar qualquer coisa, ele se pronunciou.
            - Salvou nossas vidas. Quem és tu?
            - Uma vagante na terra – respondeu Almozsaaladiel sem entregar maiores detalhes.
            - És divina, enviada pelos deuses.
            - Posso lhe mostrar e ensinar muita coisa, mas desejo que sua lealdade seja de igual tamanho a sua sede de conhecimento.
            - Será. Lhe asseguro.
            - O tempo nos dirá.
            E o tempo disse. Mostrou a ambos que não fora apenas vidas que haviam sido salvas. Um homem, bondoso, porém perdido no mundo das trevas, havia sido resgatado.
            Durante as luas seguintes, Absalom e Almozsaaladiel se uniram em harmonia e paz. Seguiram pelas margens do Jordão onde Anshira veio ao mundo. Era a primeira vez que o espirito vinha em um corpo feminino, foi a primeira vez que viu seu nascimento e foi, também, a primeira vez que teve um período de paz absoluta ao lado da mulher que amava. Corpo e alma.
            A esposa de Absalom desencarnou primeiro. Quando sentiu a chegada da partida do homem a quem tinha profundo amor fraternal, alçou voo até o monte e permaneceu em oração por muitas luas, derrotada por sua incapacidade de ajuda-lo. Pela primeira vez derramou lágrimas que não eram destinadas ao espirito, pedindo misericórdia ao Altissimo que, independente dos seus anos na terra, pudesse ter um pouco mais da presença de Absalom: abriria mão de metade de sua existência em busca do espirito, se pudesse dividir esse tempo com aquele homem que tanto lhe aprazia. 
            De volta aos seus, Almozsaaladiel permaneceu com Anshira durante incontáveis luas até que viu a mulher que amava, desde do nascimento, partir para o plano divino. Absalom ficou ao seu lado, transmitindo conforto sem dizer uma única palavra. Era uma simbiose única. Era aquele elo que os manteriam unidos enquanto fosse permitido pelo criador.
            Durante os milênios seguintes, viviam em perfeita comunhão. Havia ensinado a ele coisas que nenhum humano jamais tivera conhecimento, e da mesma forma, aprendera com ele sentimentos que nenhum celestial jamais provaria.
 
 
            França – 1212
 
            Almozsaaladiel observava a menina que corria para fora do casebre com um sorriso no rosto, Emlié era uma menina cheia de vontades, rebelde e brincalhona. Mesmo em tempos difíceis como aqueles, ela sempre encontrava uma razão para sorrir.
            - Saladiel! – gritou ao vê-la. – O que trouxe de bom para mim?
            - Trouxe para você e seus irmãos. É importante que saiba dividir.
            - Não vou mais precisar passar por isso. Vou defender a terra santa.
            - Quando a decisão foi tomada? – perguntou preocupada.
            - Ontem papai recebeu a ordem do regente. Somente os inocentes podem abrir o Santo Sepulcro. Só assim tiraremos os impuros de Jerusalém.
            Almozsaaladiel olhou a menina mais uma vez antes de entrar no casebre para ter com seus pais.
            - Não podem manda-la para a terra santa. Ela irá morrer – falou ao avistar os pais de Emilié.
            - Não é nossa decisão. O regente mandou suas ordens.
            - Tirarei vocês daqui, darei uma boa vida a todos, mas não a mande para os soldados – implorou.
            - Eu quero ir Saladiel – falou a pequena Emilié ao pegar sua mão. – Farei história, serei uma brava guerreira em nome de Cristo. Estevão de Cloye estará a nossa frente.
            Almozsaaladiel fechou os olhos ante sua resposta: Livre arbítrio. Não podia interferir.
            - Cuidarei de ti – respondeu ao se virar para a criança. – Nenhum mal lhe acontecerá.
            Almozsaaladiel saiu do casebre e seguiu para a casa que possuía com Absalom. Prostrou em oração, pedindo por misericórdia: sabia que iria interferir no seu destino, fazendo com que o anjo da morte viesse busca-la.
            Na manhã seguinte, uma orla de crianças saíram em peregrinação. Acompanhou de longe, pronta para agir caso algo atentasse contra a vida da pequena Emilié. Durante dias acompanhou a procissão e depois o embarque nos navios rumo a Jerusalém. Era nítido o anjo da morte entre eles. Quando desembarcaram em Alexandria, os sobreviventes já debilitados foram vendidos como escravos aos árabes. Antes que Emilié pudesse ser negociada, entrou no decadente antro onde era mantida prisioneira e saiu com a menina em seus braços, alçando voo para as montanhas. A revelação de sua origem não causou espanto a pequena Emilié, que apenas sorriu na sua direção.
            - Eu sempre soube que você é um anjo, Saladiel. Meu anjo.
            Durante os anos, Almozsaaladiel cuidou do seu crescimento, das suas necessidades até que se tornasse a mulher pela qual havia esperado. Por outros tantos anos viveram unidas, longe dos olhos humanos. Os pais nunca souberam o paradeiro da pequena Emilié. Absalom sabia o que tinha acontecido: Almozsaaladiel estava tendo seu breve momento de felicidade na terra.
 
            Tempos atuais
 
            Andressa terminou de se vestir e olhou para o relógio na mesa de cabeceira: sete da manhã. Pegou a bolsa e deu um beijo rápido em Dexter antes de sair do apartamento em direção ao ponto de ônibus. Parou de andar ao ver Vitória entrando em um carro à frente: a esposa nunca antes havia dito que tinha carona para o trabalho. Ficou olhando atentamente para o veículo, mas quando fez menção de se aproximar, foi interceptada por uma voz feminina.
            - Bom dia, Andressa.
            Andressa parou de andar e mirou a mulher a sua frente: ficou sem saber o que falar ou como agir ao ver a mulher dos seus sonhos mais uma vez na sua frente.

Notas finais:

Oi oi lindonas!!!!

 

Amores, me perdoem a ausencia nas respostas dos comentários, Vou tentar coloca-los em ordem essa noite. 

Obrigada por cada feedback, li cada um e agradeço imensamente o carinho!

Até domingo!!!

Bjokasssss



Comentários


Nome: mtereza (Assinado) · Data: 08/04/2018 13:00 · Para: Capitulo 6

Ela interferiu para que a Andressa não visse a traição foi isso não queria ver o seu amor sofrer bjs



Resposta do autor:

exatamente. Ela é uma Anjinha super preocupada com seu amor, fará de tudo para que ella não sofra hehehee

Bjokassssssss



Nome: Angell (Assinado) · Data: 07/04/2018 02:46 · Para: Capitulo 6

O anjo atrapalhou o flagrante que ela ia dar em Vitória...rsrs Muito interessante o passado delas através de momentos e locais importantes na história.



Resposta do autor:

Ehhh Almo deu uma segurada no drama por enquanto ehehehe Ela não quer ver Andressa sofer. 

O passado na história dá um rolê grande, viu?! hehehe

Bjokasssssssssss



Nome: Vivica (Assinado) · Data: 06/04/2018 22:33 · Para: Capitulo 6

Drikka do céu, rsrsrs. Que loucura. Muito curiosa sobre as voltas ao passado e super curiosa sobso este aspecto místico. Eu não sei te dizer que fase eu gosto mais porque tou curiosa sobre a persona angelical, ao mesmo tempo quero o encontro ou reencontro para que as coisas sejam esclarecidas. Parabéns, pelo teu cuidado. Es foda. Forte abraço. Bj bj.



Resposta do autor:

Hehehhee é uma doiderinha, que Bom que está curtindo rs!

São várias passagens no passado, um bocado de milênio, mas acho que dará certo hehee Acho.  Já temos o cap 07 esse reencontro acontecendo aos poucos, Vamos torcer por almo e Andressa, e que esse esclareciemnto venha o quanto antes rs

Obrigada pelo carinho e pelas palavras!

Bjokasssssssssssssss



Nome: Baiana (Assinado) · Data: 06/04/2018 13:18 · Para: Capitulo 6

O que deu nesse anjo que não deixou a outra lá descobrir que é traída? Mas rapaz!!



Resposta do autor:

Mulher, Almo ta segurando a ansiedade heheehhe Mentira, tá só protegendo sua amada. 

Oremos pela anja ehehhe

Bjokasssssssss



Nome: IolandaStrambek (Assinado) · Data: 06/04/2018 00:07 · Para: Capitulo 6

Como assim acabou?? Nao pode. Quero mais...

Vou  chorar... amando essas historia.



Resposta do autor:

Opa! Domingo já já tá ai hehehhe 

Chora não, coleguinha!! Obrigada lindona!

 

Bjokasssssssssss



Nome: Libel M (Assinado) · Data: 05/04/2018 23:01 · Para: Capitulo 6

Adorei as voltas que o capítulo deu, essas idas e vindas no tempo me encantou.

E a Almo é maravilhosa em qualquer epóca, eu estou considerando fazer um rapto cibernetico e roubá-la para mim. Andressa é a que me deixa com raiva as vezes, ela vai mesmo precisar de uma placa em neon para saber que é corna? Santa ignorancia nossa de cada dia.

No mais, eu estou adorando o enredo e a Almo, seguirei por aqui sempre acompanhando o desenrolar desse romance maravilhoso.

Bjos e até logo!



Resposta do autor:

Fiquei com medo de dar uma misturada, mas que bom que deu certo hehehhee

Almo é uma anja condenada ao amor, bichinha! Opa! rapto cibernético?! Me fala como isso funciona rs, tenho algumas que tbm quero raptar hehhehe

A Andressa... oremos pela Andressa hehhehe

Obrigada lindona! Valeu pela cia e leitura!

 

Bjokassssssssssssssss



Nome: Lai (Assinado) · Data: 05/04/2018 23:00 · Para: Capitulo 6

Oie

Não deixou Andressa ver..que linda!

Até semana que vem!

Ótimo como sempre!!

Beijos



Resposta do autor:

Oi amore!

Não, ela evitou um sofrimento básico ali, devia ter deixado neh? hehehe

Até domingo, lindona! 

 

Bjokassssssss



Nome: FoxyLady (Assinado) · Data: 05/04/2018 03:48 · Para: Capitulo 6

Nao sei se e lindo ou obcessiob este smor do Almozsaaladiel...   Parabén pelo texto maravilhoso  drikka :) 



Resposta do autor:

Obrigada lindona!

Esse amor do Amozsaaladel é uma condenação, neh? Ela foi "almodiçoada" com isso. Há de se ter discernimento de quando o amor é uma benção ou um castigo. oremos heheheh

 

Bjokassssssss



Nome: NovaAqui (Assinado) · Data: 04/04/2018 21:49 · Para: Capitulo 6

O pior é que Andressa vai acreditar que Vitória encontrou uma "amiga" por acaso. Santa inocência. Aff!

Mais uma vez estão se encontrando. Essa anjinha apareceu para dissipar pensamentos sombrios de Andressa.

Vamos ver como será o encontro dessa vez

Você tem muito crédito!   ;))))) ????

Abraços fraternos procês aí!



Resposta do autor:

kkkkkkkkkkkkkk

Oh bichinha da Andressa! Oremos hehehe

Almozsaaladiel tá se mostrando a ela, devagar as coisas se encaixam hehehee

Obrigada lindona!!! 

Bjokasssssssss



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