A ruína dos anjos por Drikka Silva


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Andressa saiu da padaria ao lado de Saladiel e seguiram em passos calmos até a casa onde a estranha figura habitava. O silêncio reinava entre as duas, mas não era um silêncio vazio: era preenchido por pensamentos e ondas de carinho que não sabia como explicar, apenas sentir. De frente ao portão, deliberou por poucos segundos se devia entrar ou não. Saladiel poderia ser uma psicopata assassina, mas, por outro lado, ela já havia tido chance antes de mata-la, se fosse o caso. Apenas sorriu para a mulher a sua frente, antes de cruzar o portão de ferro, em direção à porta da frente.
            - Bom dia, Andressa – cumprimentou Absalom ao abrir a porta. – Seja bem-vinda, mais uma vez.
            - Você também tem algum poder especial? – perguntou, curiosa. – Digo, pode voar, ouvir coisas inaudíveis...
            - Não. E não é poder como super heróis. São dons divinos.
            - Prefiro acreditar que sou a Lois Lane*. Me soa menos estranho nesse mundo de fantasia. (ver notas)
            Almozsaaladiel sorriu para Absalom e gesticulou com a cabeça para que ele não insistisse em nada naquele momento. Já era um avanço que Andressa estivesse, ao seu modo, aceitando um pouco do mistério que a envolvia. O homem concordou com outro aceno e deu passagem para que as duas pudessem alcançar o interior da casa.
            Andressa deixou a bolsa em uma poltrona e olhou ao redor, conhecendo o local. Por fora parecia uma casa absolutamente normal, mas por dentro já dava para perceber que nada ali era comum. Alguns móveis antigos, provavelmente comprado há uns vinte anos, estavam distribuídos pelo local e adornado por várias louças que seria incapaz de determinar ano. Se aproximou de um vazo de barro e o contemplou por um longo tempo, tentando entender suas inscrições.
            - De que ano é esse vaso? – perguntou ao se virar para Saladiel, parada um pouco mais atrás.
            - Esse é de mil e trezentos. O adquiri depois que desencarnou, em Constantinopla – respondeu Absalom.
            - Eu morei em Constantinopla?
            - Não. Depois que partiu, migramos para lá – respondeu Almozsaaladiel. – Temos que nos mudar de tempos em tempos para não chamar a atenção.
            - Quanto tempo ficam em um mesmo lugar?
            - Entre quinze e vinte anos. Em outras eras não havia essa necessidade, uma vez que nos mantínhamos nos campos, longe das pessoas.
            - Do que vocês sobrevivem? Tudo custa dinheiro hoje.
            - Absalom vende antiguidades. Uma única moeda romana nos garante por bastante tempo.
            - E vocês também nem gastam com roupas – riu Andressa, observando a túnica do senhor de idade.
            - Verdade – concordou Amozsaaladiel acompanhando o riso.
            Andressa voltou a olhar ao redor, analisando os tecidos, os quadros. Tinha a nítida sensação de entrar em uma capsula do tempo.
            - Eu vou deixa-las sozinhas – anunciou Absalom. – Tenho que resolver um problema na rua, volto na parte da tarde.
            - Que tipo de problema, uma pessoa como você tem para resolver? – tornou a perguntar Andressa sem conter sua curiosidade.
            - Tenho que ir pagar as contas de água e luz. Depois passar na imobiliária para entregar o contrato de renovação da locação do imóvel e pagar o aluguel.
            Andressa não conteve o riso, ao olhar para o homem a sua frente. Absalom olhou para Almozsaaladiel, sem entender o motivo do riso da mulher à sua frente.
            - Desculpa – pediu Andressa tentando se controlar. – É bizarro que ela me diga que o senhor tenha mais de quatro mil anos e sai do antigo Egito para enfrentar uma fila da lotérica nos dias atuais.
            - Aqui tivemos que nos adaptar – respondeu Almozsaaladiel. – Em outros lugares, onde temos residência, nada disso é preciso.
            - Onde? – perguntou Andressa, divertida, ao se sentar na poltrona, ao lado da bolsa.
            - Cairo, Jerusalém, Paris – respondeu Almozsaaladiel enxergando a incredulidade tomar conta da morena a sua frente, mais uma vez. – Em outros lugares também. Não precisa acreditar em nada disso agora...
            - Quantas línguas você fala?
            Absalom, que até então havia se calado, resolveu se manifestar mais uma vez.
            - Eu estou indo. Manere in pace creator.
            - Amen.
            Andressa assistiu o homem se afastar e pegar uma espécie de bolsa, antes de sair pela porta.
            - Não quis ser indelicada. Eu...
            - Está tudo bem. Ele saiu para nos dar privacidade também – respondeu se abaixando na sua frente. – Ainda quer a resposta da sua pergunta.
            - Quero.
            - Falo todas as línguas.
            - Me fala alguma coisa em romeno.
            - Și înțelegi limba română?
            Andressa sorriu para Almozsaaladiel e se adiantou para fazer carinho em seu rosto.
            - Espero que não tenha me xingado.
            - Perguntei se entende romeno.
            - Já tem sua resposta – sorriu. – Como você pode ser tão estranha e tão encantadora? Como não consigo me afastar?
            - Nós temos uma ligação além do que pode imaginar. Fomos condenadas pelo divino a sempre nos encontrar.
            - Já me disse isso... É... Eu...
            - Não fala nada. Pra mim já é uma grande alegria poder te ver novamente. Mesmo que não tenha memórias de suas vidas passadas.
            - Já disse que sonho com você, não disse? – perguntou Andressa, deslizando da poltrona para o chão, para se sentar próxima a Saladiel. – Uma vez eu sonhei que estava em uma floresta, parecia que estava cortando madeira, e você aparecia. As pessoas te chamavam de bruxa, tentavam te queimar em uma fogueira...
            - E você apareceu entre eles, se opôs a minha execução. Irritou todos os moradores da aldeia e tive que sair com você de lá, revelando minha divindade, para que não lhe fizessem mal também.
            - Foi real?
            - Foi em mil seiscentos e sessenta e um. Você era apenas um jovem do campo. Falavam que eu era bruxa porque não me encaixava com o padrão étnico da Andaluzia e por morar na floresta, mas você não acreditava nisso. Você desmaiou quando te acertaram com uma pedra, não viu o que se passou depois. Te levei para a França, mas a Grande praga o atingiu. Não pude salva-lo.
            - Parece uma boa história – falou Andressa tocando seu braço, fazendo carinho lentamente. – É errado isso que eu estou sentindo. Eu sou uma mulher casada e estou completamente atraída por você, mesmo com suas maluquices.
            - Já passamos por isso antes. Não é a primeira vez.
            - O que fiz nas outras vezes?
            - Não temos como fugir do que sentimos.
            - Eu não posso magoar Vitória, da mesma forma que não posso ignorar o que estou sentindo.
            - Eu tenho todo o tempo para te esperar. Não posso interferir nas suas decisões, mas posso esperar pelo tempo que for preciso.
            - Eu... Eu não sei... Não sei o que pensar, de verdade.
            - Quer que eu me afaste?
            - Não. Não quero. Seria o certo, mas não. Eu...
            Andressa se calou sem conseguir encontrar palavras. Olhou para os olhos cinzentos tão próximos do seu rosto, tão carinhosos e apaixonados. Sem conseguir se conter, se ajoelhou e buscou sua boca em um beijo delicado. Os braços de Almozsaaladiel a envolveram, puxando para o seu colo. Devidamente encaixada em seu corpo, as bocas voltaram a se explorar com mais intensidade, mais ansiosas para se provarem. Mais uma vez, Andressa provava o melhor beijo que já havia recebido, um beijo com paixão, desejo. Como havia acontecido no dia anterior, era como se estivesse esperado por aquele beijo sua vida inteira.
            A mão se tornou mais ousada ao descer pelas costas de Saladiel e voltar por dentro do casaco. Fez a peça de roupa deslizar pelos seus braços, sem desgrudar de sua boca, revelando a camisa por baixo. A mão da morena entrou por baixo da sua própria blusa, tocando sua pele, fazendo com que seu corpo se contraísse a cada toque, totalmente sensível e completamente consciente da palma da mão que deslizava pela sua cintura e costas. Desabotoou sua camisa, revelando seu tronco, parcialmente desnudo. Se afastou o suficiente para que pudesse admira-la por poucos segundos, antes de tirar a camisa por completo.
            - Anjos não deviam fazer essas coisas... – sussurrou enquanto ajudava Saladiel a tirar sua própria blusa.
            - Não, não deviam. Por isso que carrego a marca de meu pecado...
            - Schiii... Apenas sinta tudo.
            Almozsaaladiel concordou com um aceno e se levantou com Andressa encaixada em seu corpo. Voltou a beija-la enquanto ia para a escada que levaria ao piso superior. Andressa percebeu que ela não fazia nenhum esforço para carrega-la, ao segura-la apenas com uma mão enquanto a outra a acariciava seu corpo. Entraram em um quarto e lentamente foi baixada sobre a cama. Estranharia a decoração e principalmente o dossel que a envolvia, caso sua atenção não estivesse totalmente concentrada na morena que acariciava seu corpo de forma tão terna, enquanto a beijava completamente. As mãos de Saladiel desceram para abrir o fecho da calça e em poucos segundos a dispensou ao lado da cama, junto com sua calcinha. Olhou para a mulher com a respiração entrecortada que a admirava, com um sorriso instalado nos lábios. A boca subiu por suas pernas e fechou os olhos, jogando a cabeça para trás, saboreando todas as sensações únicas que sentia pela primeira vez. Era único, inenarrável. Tinha a plena sensação de planar em outra dimensão, outro espaço temporal onde só existia ela e a mulher que agora a guiava para um prazer nunca sentido. Se existia, de fato, o paraíso, poderia considerar que havia sido levado a ele.
            O tempo parou para Andressa enquanto fazia amor com Almozsaaladiel. Não soube precisar quantas vezes chegou ao prazer absoluto, quantas vezes se sentiu sendo arrebatada pela precisão com que era tocada. Não conseguiu enxergar todas as vezes que Almozsaaladiel se controlou para que não a machucasse, nem quando a criatura lutou para sair do invólucro. A única coisa que conseguia enxergar era a bela mulher que lhe apresentava um prazer, único, arriscaria até inumano.
            A manhã chegou ao fim com Andressa completamente esgotada nos lençóis. Se acomodou contra o corpo de Saladiel e ficou em silencio por um longo tempo pensando no que tinha vivido, algo que narraria como inacreditável, caso não tivesse vivido por ela mesma. Não precisava de palavras, de água ou de qualquer outra coisa que quebrasse aqueles momentos de paz absoluta. Seu completo êxtase.
           
            Absalom estava caminhando pela rua que o levaria até a casa quando a dor no peito novamente o atingiu. Mais forte que da primeira vez. Sem conseguir falar ou respirar direito, levou a mão ao peito, ao mesmo tempo em que tombava no meio do asfalto. A ultima coisa que viu, antes de perder os sentidos, foi o céu azul e a certeza de que seus dias na terra estavam se esgotando.

Notas finais:

E lá se foi embora a santidade hehhehehee

Oi oi lindonas!!!

Cap de quarta na quinta... Tres horas de atraso, to perdoada??? hehehehe

 

bjokasssssssss



Comentários


Nome: Jebsk (Assinado) · Data: 14/06/2018 22:32 · Para: Capitulo 12

olá autora, acho que é meu primeiro comentário neste história. Voçê não faz idéia de como sou fascinada por histórias de Anjos caidos e a mitologia Grega. 

Geralmente, não acompanho duas histórias de um mesmo escritor, mas aqui foi paixão a primeira leitura. Então, por favor, não demore muito com os post. Minha sanidade se foi... :-)



Nome: Kim_vilhena (Assinado) · Data: 11/05/2018 01:41 · Para: Capitulo 12

Alguém rasgou a Bíblia, como diz minha mamãe jeueheueh 

Drikka vc está perdoada, mas só dessa vez u.u



Nome: EriOli (Assinado) · Data: 10/05/2018 19:19 · Para: Capitulo 12

Andressa saiu da padaria, mas foi se saciar mesmo é na casa de uma certa anja...kkkk

Quando a elas começaram a tirar a rou achei que ia até começar a tocar..

"I'm alive

I'm alive when the sun goes down

I'm alive when my senses drown

I'm alive when I'm going down and you find me".....hahaha

 

P. S.: https://www.youtube.com/watch?v=80z6fZRdRQs (Escuta)



Nome: Baiana (Assinado) · Data: 10/05/2018 15:02 · Para: Capitulo 12

E eu achando que anjo não tinha sexo. ..

Rapaz, ela cometeu o pecado do adultério, e o que é pior, com um anjo. Vai arder no mármore do inferno kkkk

Saladiel vai perder seu fiel escudeiro? 



Nome: Angell (Assinado) · Data: 10/05/2018 12:14 · Para: Capitulo 12

Que bom que elas já tiveram sua primeira vez! Não imaginei que seria tão rápido! Vitoria já perdeu Andressa e não sabe.... rsrs Fiquei com medo da criatura sair do corpo na hora do amor... rsrs Seria catastrófico! 



Nome: NovaAqui (Assinado) · Data: 10/05/2018 10:06 · Para: Capitulo 12

Absolom vai partir e deixar por algum tempo Saladiel.

Andressa não resistiu ao seu amor de alma. E agora?

Abraços fraternos procês aí

 



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