A ruína dos anjos por Drikka Silva


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Andressa ainda estava comtemplando Almozsaaladiel no telhado a frente da sua janela, quando o barulho da porta do apartamento a assustou. Se virou rápida para enxergar Vitória entrando na sala, carregando, além da mochila, uma caixa de pizza.  Se virou para olhar para o prédio novamente, mas Almozsaaladiel já havia sumido na escuridão.
            - Está tudo bem, amor?
            Andressa pensou, por um momento, na ironia da pergunta. Está tudo bem? Havia descoberto que tinha mais de milênios nascendo e morrendo, estava ligada a um anjo num corpo de mulher e havia pulado um prédio de vinte andares, além de ter chegado no bairro em menos de seis minutos, numa viagem que demoraria aproximadamente uma hora, dado o transito. Nada estava bem.
            - Sim – respondeu por fim. – Chegou mais cedo da faculdade...
            - Eu mandei mensagem no celular. Achei que já tinha visto – se adiantou Vitória para dar um beijo em seus lábios. – Você está pálida. Tem certeza que está tudo bem?
            - Tenho sim. Um cansaço bobo.
            - Não fez a janta, não é?
            - Não. Eu estou sem fome e achei que iria para a faculdade.
            - Hoje não. Não tinha nenhuma aula importante, achei que era uma boa oportunidade de passarmos a noite comendo besteiras enquanto assistimo séries. O que acha?
            - Uma grande surpresa – Andressa forçou um sorriso. – Vai tomar um banho, daqui a pouco vou tomar um também...
            - Vem comigo? – cortou Vitória ao convida-la com a mão estendida na sua direção.
            Andressa olhou para a esposa por um longo minuto antes de coçar a testa e pegar sua mão para depositar um beijo nela.
            - Hoje não. Vou arrumar as coisas para te esperar.
            - Tem certeza que está tudo bem?
            - Sim.
            Vitória concordou com um aceno e saiu em direção ao quarto. Andressa olhou para o pequeno corredor, agora vazio, e deu um suspiro profundo. Se jogou no sofá e pegou Dexter, o acarinhando lentamente, ao passo que a mente voltava para Saladiel. Sabia que não existia nenhuma explicação plausivel para nada do que tinha acontecido, desde o acidente, quando o carro fora desviado de acerta-la mês antes, nem para a sensação de ser seguida, seus sonhos continuos com a mulher que agora tinha se tornado real. A unica explicação que existia era a de que tudo não passava de peças que sua mente estava criando, mas de forma igual, sabia que não tinha imaginado nada do que tinha vivido. Não estava ficando louca. Tudo acontecera realmente, provando que suas ideologias não tinham base alguma. Existia mais coisas no mundo que não havia explicação e ter essa consciencia traza um misto de curiosidade e medo.
            Vitória saiu do banho e ainda encontrou Andressa santada no sofá com a mente perdida em pensamentos. O olhar fixo na parede vazia a frente lhe dizia isso. Por um momento, o medo de que ela soubesse de seu caso extraconjugal a deixou apreensiva, mas conhecia bem a mulher que tinha. Se Andressa soubesse que saia com outra mulher, não seria tão passional a ponto de esconde mascarar suas emoções e não falar nada. Ela sempre fora impetuosa e jamais ficaria em silêncio.
            - Amor, está acontecendo alguma coisa? – tornou a perguntar ao se sentar ao seu lado.
            - Nada que eu possa lhe explicar e que vá acreditar. Eu... Eu vou tomar um banho. Nem percebi que já tinha saido – desconversou ao dar um sorriso forçado. – Pode ir comendo, já vou deitar em seguida.
            - Não quer que eu te espere?
            - Não precisa.
            - Se tiver algo que eu possa fazer, me diga, ok?
            - O que vai fazer amanhã?
            - Depois do trabalho? Vir pra casa. Quer sair para algum lugar?
            - Não. Talvez eu chegue um pouco mais tarde. Qualquer coisa eu mando mensagem.
            - Vai sair com alguém?
            - Não sei.
            - Andressa, vamos conversar. O que está acontecendo?
            - Tudo no tempo certo – respondeu com um discreto sorriso ao se recordar das palavras que Saladiel havia lhe falado. – Não se preocupe, ok?
            - Se prefere assim – respondeu Vitória contráriada.
            Andressa apenas concordou com a cabeça e tomou o rumo do quarto. Era melhor que fosse daquela forma. Ninguém acreditaria se contasse mesmo e o melhor era evitar uma visita na psiquiatria pelo tempo que conseguisse.
            Depois de um banho demorado, Andressa se deitou e tentou pegar no sono, mas foi um esforço em vão. A imagem de Saladiel não saiu da sua cabeça, nem mesmo quando a esposa se deitou ao seu lado e passou o braço por sua cintura, abraçando-a. O relógio já marcava quatro da manhã quando saiu da cama e caminhou até a sala para parar de frente a janela. Esquadrinhou o prédio a frente, mas nada além da habitual escuridão era visto. Dexter dormia tranquilamente no sofá, indicando que a mulher que esperava ver, não estava por ali.
            Na manhã seguinte, trocou poucas palavras com Vitória antes de sair de casa, primeiro que a mulher. Assim que colocou os pés na calçada, olhou de um lado para outro, procurando por Saladiel, mas não a enxergou em nenhum lugar. Andou vagarosamente até o ponto de ônibus, esperando que ela aparecesse, mas foi uma espera em vão. Assim que o ônibus, que a levaria ao trabalho, parou no ponto, as pernas travaram para subir. Ficpou olhando a condução se afastar com o coração acelerado, antes de tomar o caminho que a levaria para a casa de Saladiel. Assim que alcançou a rua, já enxergou a morena parada na frente da casa, olhando em sua direção. Se aproximou sem conseguir conter um sorriso nos lábios.
            - Estava me esperando? – perguntou ao abraça-la.
            - Sim. Vi que estava em duvida de seguir para o seu trabalho.
            - Estava me observando?
            - Sim.
            - Por que não apareceu?
            - Porque Vitória também estava te observando. Não quero te causar um problema.
            - Ela deve achar que tenho outra. Agi de maneira estranha com ela ontem.
            - No tempo certo tudo será revelado.
            - Não torne isso estranho – pediu Andressa com um sorriso. – Eu não vou te atrapalhar se ficar um pouco aqui? Eu sei que é cedo, mas nem sei se você dorme.
            - E é algo que quer saber?
            - Não. No momento não. Você toma café?
            - Posso te acompanhar em um.
            Andressa sorriu para a mulher à sua frente e indicou, com a cabeça, o sentido de uma padaria que tinha do lado contrário de onde morava. Andou alguns passos em silêncio, antes de voltar a falar.
            - O homem da sua casa, quem é?
            - Absalom, seu nome. Está comigo desde a antiguidade me auxiliando quando necessário.
            - Qual a idade dele?
            - O senhor tem sido generoso em sua bondade.
            - E em quantos anos, exatamente, o senhor tem sido generoso com a vida de Absalom?
            - Quatro mil novecentos e dezenove anos.
            Andressa parou de andar e fitou Almozsaaladel por um longo minuto, antes de dar um suspiro profundo.
            - Qual a sua idade?
            - Não tenho idade. Não nasci como está acostumada com a criação.
            - Você não teve mãe, pai, familia?
            - Tenho o mesmo pai que você, embora não o aceite como criador.
            - Não... Não é minha praia religião, crenças e afins – respondeu Andressa. – Supondo que tudo isso seja verdade, eu prefiro encarar apenas como um delirio seu, há quanto tempo está na terra?
            - Quase seis mil anos.
            - Nunca havia ficado com alguém tão mais velha – riu Andressa. – Isso é loucura demais! Será que eu perdi o juizo também?
            - Lhe asseguro que não.
            - Eu vou parar de repetir isso, prometo. É que é tudo tão surreal que... Enfim, você aparece na história?
            - Não. Minha divindade foi negada no momento em que me entreguei ao pecado original.
            - Nem depois?
            - Não.
            - Há mais de você por aqui? Digo, convivendo entre nós?
            - Já teve. Depois da ascensão cristã, a unica coisa que me tira dos momentos em que estou conectada ao divino, é sua vinda a terra. Procuro me manter afastada de tudo.
            - Por que?
            - A crença da humanidade está se extinguindo. Prefiro me manter longe e não perder o que tenho com você.
            - E o que tem comigo? – perguntou Andressa com um riso.
            - Momentos como esse, ouvir seu riso vale mais que a eternidade.
            Andressa se virou para Saladiel com o sorriso permanente nos lábios. Se adiantou para pegar sua mão e puxa-la para a padaria já proxima. Se sentaram em banquetas, rente ao balcão e pediram café da manhã, antes de voltar a puxar assunto.
            - Como foi nosso primeiro encontro? – perguntou Andressa, assim que a atendente se afastou.
            - Seu nome era Hasmut, um jovem agricultor. Tinha sido atacado por animais selvagens. Quando te vi, foi como se minha existencia tivesse tomado um signficado além do que tinha imaginado.
            - Eu era um homem?
            - Sim.
            - Por quanto tempo ficamos juntos?
            - O tempo não era contado como hoje. Ainda não existia calendário, não sei te dizer exatamente em anos, mas foram várias primaveras. Mais de quarenta. Quando partiu, já tinha idade avançada.
            - E você?
            - Fui condenada a te esperar.
            - Não deve ser muito bom esse tipo de castigo. Quer dizer, me ver nascer e morrer sempre.
            - Os momentos em vida valem mais que qualquer pranto.
            - Como era nossa vida?
            - Você está tranquila demais. Está bem?
            - Não me soa como verdade, talvez isso mantenha minha sanidade.
            - Nossa vida era tranquila. Perfeita. Não havia ninguém por perto, moravamos em uma caverna, um reduto.
            - O que a gente fazia tanto? Não havia nada com a qual nos distrair.
            - Havia muita coisa. Nunca fiquei entediada ao seu lado, da mesma forma que nunca ficou comigo.
            - Não era pra você ter uma aparência mais angelical? Asas, auréola, tunica branca?
            - Não posso revelar minha aparencia metafisica. Seria muito para os humanos.
            - Me deixa ver?
            - Ainda não é chegado o tempo. Você pode se assustar a ponto de seu corpo não resistir.
            - Por que? Anjos não são divinos? As mais belas criações de Deus?
            - Carrego o pecado cometido em minha aparência.
            - Isso parece história de criança. Sabe aquelas histórias bobas para colocar uma criança para dormir?
            - É bom que encare dessa forma, por enquanto. Tente não buscar explicações, será melhor. Essa reencarnação é a primeira depois da grande evolução da humanidade. Vocês passaram a crer em si mesmos do que em um Ser divino. Se tornaram mais questionadores, buscando explicações para tudo, sendo que nem tudo é para ser explicado. Você nunca foi tão incrédula como é agora.
            - Entenda que é complicado de acreditar em algo assim, que somos marionetes agindo de acordo com a vontade de algum ser superior.
            - Se agissem de acordo com a vontade do Divino, nunca teriam saido do Edén. O que trouxe a humanidade a esse ponto é justamente a liberdade que tem para guiar a própria vida.
            - Não está escrito que não cai uma folha de uma arvore se não for permitido por Deus?
            - Assim como é permitido que tenham suas próprias escolhas. Não vamos entrar nesse campo. Ainda teremos tempo para se aprofundar nessas questões, se for de sua vontade.
            - Ok. Me fala, o que faz hoje além de me seguir?
            - Apenas te sigo. Antes de nascer, estava em Paris. É a primeira vez que nasce aqui.
            - Em São Paulo?
            - No novo mundo. As américas, no geral.
            - Onde eu nasci mais?
            - No Egito.
            Andressa balançou a cabeça em sentido negativo enquanto a atendente colocava o café que haviam pedido na sua frente. Se não conseguia fugir daquela loucura, o melhor era se entregar a ela e ver até onde ia dar.

Notas finais:

Oi oi lindonas!

Amores, desculpem a falha nessa semana da postagem, mas um cavalo de troia resolveu lascar com o meu computador :( 

Sorry!

 

Bjokasssssssssss



Comentários


Nome: IzaHass (Assinado) · Data: 10/05/2018 01:24 · Para: Capitulo 11

Drikka,

antes de qualquer coisa, desculpa não ter vindo aqui antes, mas precisei ficar um tempo desconectada...

Muito obrigada pela atenção e disponibilidade em responder e clarear minhas ideias. Entender como você compreende livre arbítrio e interferência no destino faz toda diferença em meu entendimento sobre a estória. Obrigada! 

Mas, o fato é que eu super me identifico com Andressa, em muitos momentos... Um deles é quando ela diz: "Não... Não é minha praia religião, crenças e afins..." (e bombardeia Almoz de perguntas hahaha). É que ser cetica é ser questionadora, desconfiada por natureza... =] Mas, ao mesmo tempo, estou sempre aberta a aprender, a ter as ideias clareadas ;) E, sabe o que é bacana?! Almoz também responde muitos dos meus porquês... E eu adoro quando isso acontece! E assim vai crescendo meu interesse por essa estória. 

Mais uma vez, obrigada. ;*



Nome: Baiana (Assinado) · Data: 06/05/2018 19:23 · Para: Capitulo 11

É, parece que a Andressa está se deixando levar pela maré, pelo menos assim ela não pira o cabeção com essa história de anjo kkkk



Nome: Lai (Assinado) · Data: 06/05/2018 18:03 · Para: Capitulo 11

Ooie,

Andressa já se jogou de vez!

Quero ver qndo vai contar pra Esposa! E qndo essa vai contar TB,no caso dela já tem tempo .Ela tava esperando Andressa melhorar ,mas n sei se era só isso...q acontecerá qndo souber de Almozsaaladiel??

Beijos



Nome: Angell (Assinado) · Data: 06/05/2018 12:42 · Para: Capitulo 11

Andressa só vai acreditar quando vir  "a criatura". Mas aí ela vai ficar traumatizada coitada....rsrs E essa Vitória é uma covarde, tomara que Andressa dê um pé na bunda dela



Nome: NovaAqui (Assinado) · Data: 06/05/2018 09:44 · Para: Capitulo 11

Eita!

Essa semana colocaram uma nota no informativo da empresa sobre cavalo de Tróia. Miserento!

Queria ver vitória sendo descoberta. 

Andressa vai perguntar sobre tudo. Bicho curioso é mulher rsrs

Abraços fraternos procês aí



Nome: Xena (Assinado) · Data: 06/05/2018 08:26 · Para: Capitulo 11

Eu amo essa história



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