Por acaso | a história de duas mulheres e seus acasos por Poracaso


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Quando dizem que a vida é cheia de altos e baixos, de fato isso não é figura de linguagem. Estávamos felizes, casadas da forma mais tradicional possível para o nosso caso. Mas nesse dia, eu comecei a acreditar nas peças que o destino nos prega.

Fui trabalhar como se aquele fosse mais um dia do resto de nossas vidas. Quando cheguei à universidade, no entanto, aquele dia era “o dia”, e não mais um dia. Nunca gostei de rotina, isso era para Luísa, mas estava curtindo minha vida nos eixos, como costumava dizer. Nesse dia, minha vida parecia um trem descarrilado.

Havia uma carta dentro do meu escaninho. Era um documento de aceite de uma universidade em Londres, concedendo-me uma bolsa de pós-doutorado com duração de um ano.

Voltei para casa e sentei no sofá, tentando encontrar uma solução para aquele impasse. Sabia que propor uma ida para onde quer que fosse, para Luisa, seria colocar a vida dela de pernas para o ar, tirar-lhe o chão. Não podia fazer isso com ela. Ao mesmo tempo, desistir disso seria estagnar minha carreira.

Fiquei ali por horas, até que ela chegou e começou a falar sem parar. Não sei qual era o assunto, mas não pretendia adiar nem mais por um minuto aquela conversa:

– Precisamos conversar – disse, segurando o braço dela com firmeza, como para interromper sua fala.

Ela se calou imediatamente e eu comecei:

– Luísa, antes de nós nos conhecermos eu havia solicitado uma bolsa de estudos para realizar o meu pós-doutorado na Inglaterra. Mas me disseram que eu deveria cumprir meus cinco anos de estágio probatório antes de obter essa concessão. Já tinha me esquecido disso, mas hoje a autorização chegou e eu consegui a bolsa – expliquei.

– Parabéns, meu amor! – disse ela, como se não soubesse direito o significado daquilo. No entanto, ela mais parecia em pânico do que contente.

Prevendo o que podia acontecer dali para a frente, abracei ela forte e disse:

– Você entende no que isso implica? Temos dois meses para nos mudar.

Senti o corpo dela esfriar de repente e sua pele empalidecer. O rosto dela se encheu de pavor, como o de uma criança que recebe uma notícia ruim.

A partir daí, tudo correu conforme o esperado:

– Carol, eu tenho meu emprego, nossa casa, meus amigos. Tudo construído aqui. Não posso simplesmente largar tudo que construí, da noite para o dia – explicou.

– Eu também tenho tudo isso, Luísa, mas é uma oportunidade única na minha carreira – argumentei.

– Quanto tempo? – perguntou.

– Um ano – disse.

– Você quer que eu largue tudo durante um ano? – gritou.

– Não. Eu quero que você não me largue – devolvi.

– Você é quem está me deixando. Você não podia ter planejado tudo isso sem me consultar – disse ela.

– Nós não nos conhecíamos, eu já disse. Nem lembrava mais disso – expliquei. E não quero te deixar, quero te levar comigo – falei.

– E em que momento você perguntou o que eu quero? Em que momento você me levou em consideração nisso tudo? Você acha que eu sou uma peça de roupa que você carrega para onde quiser? – perguntou.

– Não. Eu penso que você é minha mulher e que um ano passa rápido – respondi.

– Pois, para mim, um ano é muita coisa e, embora eu, de fato, seja sua mulher, não sou sua propriedade – descontou.

– Nunca lhe tratei como propriedade, Luísa. Só estou te pedindo bom-senso – falei, diminuindo o tom de voz.

– Bom senso pra você é eu largar tudo pra viver a sua vida? – perguntou ainda gritando.

– Não. Bom senso é não jogar um casamento para cima – disse.

– Como você está fazendo? – Finalizou.

Sabia o quanto aquilo era difícil para ela. Era para mim também, mas, sem dúvida alguma, Luísa tinha milhares de particularidades, de apegos, de medos, de restrições, de raízes, que faziam qualquer mudança para ela representar uma perda de estabilidade maior que para qualquer outra pessoa. E eu sabia disso. Sabia que naquela hora precisava de mais paciência do que já havia tido até ali.

– Lu – recomecei.

– Não me chama de Lu. Não me trate como se eu estivesse tendo um chilique adolescente, porque estamos falando da minha vida – falou descontrolada.

– Luísa, a vida é nossa, não sua. E o que eu quero é apenas chegar a um ponto de equilíbrio, onde possamos fazer o que for melhor para nós duas – amenizei.

– Para nós duas? Pela sua proposta, só quem teria que ceder seria eu. Só vejo seus interesses nessa história toda – falou.

– Luísa, nesse tempo todo em que estamos juntas procurei entender todas as suas dificuldades, respeitá-las e ajudar no que fosse possível. Gostaria que pensasse nisso agora – falei.

– Ah! Eu sabia que um dia ia levar isso na cara! Como eu posso ter sido tão burra de acreditar que com você seria diferente? – falou, chorando.

Era clara para mim a dor que ela estava sentindo. O corpo dela se contorcia em movimentos involuntários. Embora gritasse, ela estava sentada encolhida no canto da sala, como um animal arisco, acuado.

Aproximei-me dela, envolvendo o seu corpo com meus braços, mas ela me empurrou e subiu correndo as escadas.

Esperei um tempo e subi também. Encontrei-a deitada na cama, soluçando. Sentei ao lado dela e comecei a alisar seus cabelos, enquanto propunha uma trégua:

– Lu, vamos tomar um banho, comer alguma coisa, esfriar a cabeça e amanhã conversamos, que tal?

Ela atirou-se nos meus braços e apertou meu corpo como se nunca mais fosse me deixar sair dali.

– Eu não quero te perder. Eu amo você.

– Você não vai me perder, eu também te amo.

Coloquei-a em meu colo e balancei meu corpo como para niná-la. Ela dormiu no meu ombro e mesmo depois de dormir continuava a soluçar. Chorei sozinha enquanto ela dormia. Chorei por mim, por ela, por nós.

Cochilei por algum tempo e acordei com Luisa vomitando em cima de mim. Liguei para o escritório avisando que ela não iria trabalhar e liguei para a Universidade também informando que não daria aula naquele dia.

Depois de dar banho nela e tomar banho, conseguimos ter uma conversa mais amena, embora durante nosso diálogo ela tenha vomitado mais outras três vezes – sendo uma no chão do quarto e outras duas no banheiro. Decidimos que eu iria e ela continuaria aqui, mas que nos encontraríamos a cada dois meses. Ela continuaria na casa e nos falaríamos todos os dias. Caso ela mudasse de ideia e quisesse ir morar lá comigo, poderia fazê-lo a qualquer momento.

Concordamos que, mesmo não sendo o ideal, era o melhor a fazer naquele momento.

 

Nome: brunafinzicontini (Assinado) · Data: 26/02/2018 04:49 · Para: Capitulo 37 - Roda moinho, roda gigante

Por acaso você está querendo matar a gente do coração?

Lá se foi mais um domingo...

(Desculpe a cobrança - todas sabemos que deve haver um bom motivo para isso - mas...)

Um abraço,

Bruna



Resposta do autor:

Eu entendo perfeitamente Bruna. Segura a ansiedade que vai chegar!



Nome: mtereza (Assinado) · Data: 22/02/2018 22:49 · Para: Capitulo 37 - Roda moinho, roda gigante

Ansiosa tb pela parte da vida da Carol lá em Londres para tentar compreender o que a levou a trair a esposa



Resposta do autor:

Tá chegando a hora!



Nome: patty-321 (Assinado) · Data: 19/02/2018 16:23 · Para: Capitulo 37 - Roda moinho, roda gigante

Caraca. A situação foi bem terrível. Complicadíssima. Luiza e muito frágil emocionalmente.



Resposta do autor:

Pois é Patty. O pior é que depois de todo o esforço, Carol vai lá e...



Nome: Bellla (Assinado) · Data: 19/02/2018 14:59 · Para: Capitulo 37 - Roda moinho, roda gigante

Essa estoest é linda! 

Paragwns, autora! 



Resposta do autor:

Obrigada Bella! Tem mais coisa vindo por ai.



Nome: Pryscylla (Assinado) · Data: 19/02/2018 03:35 · Para: Capitulo 37 - Roda moinho, roda gigante

Quero ler logo o capítulo da traição, para entender o lado dela. 

Bjus ;) 



Resposta do autor:

Aguenta aí Pryscylla, tá chegando!



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