Por acaso | a história de duas mulheres e seus acasos por Poracaso


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Fiquei pensando na conversa que tive com Bia e não consegui tirar a imagem daquela garota da cabeça. Ela não era só linda. Tinha o rosto forte e ao mesmo tempo parecia querer colo. Fazia tempo que alguém não chamava a minha atenção. Mas talvez Bia tivesse razão, ela parecia uma pessoa séria e eu ter furado a fila podia ter comprometido efetivamente a construção da minha imagem. Estava cansada de ser só, embora feliz. Sempre fui duas e começava a achar que esse momento celibatário já estava na hora de acabar.

Abri o e-mail com a esperança de encontrar uma mensagem dela, mas nada além de trabalho. Só mensagens de alunos querendo informações sobre notas, trabalhos e leituras. Desse jeito eu ia acabar namorando com uma aluna. Esse questionamento ético já tinha me passado pela cabeça algumas vezes, mas nunca alguém suficientemente interessante nessa condição havia cruzado o meu caminho acadêmico. Não vou negar que muitas meninas eram inspiradoras, mas não sei se passaria mais que uma noite com alguma delas. E como não sou dada a coisas fugazes, acabava sempre descartando a possibilidade.

O certo é que andava tão reclusa que já ventilava as mais infinitas possibilidades de encontros. E não vou negar que achava engraçada a forma como as estudantes me tratavam, dentro daquela perspectiva de um ser etéreo, objeto de desejo.

– Professora, o que você acha desse texto de Lévi-Strauss?

– Acho uma leitura fundamental, mas existem outras que podem te ajudar também, além de sair do básico.

– Hum. Você teria algo para me indicar?

– Tenho muita coisa interessante na minha biblioteca, posso ver algo para você.

– Claro! Posso passar na sua casa para pegar, se preferir.

E isso se repetia a cada semestre. Eu pensava que enquanto houvesse relações de poder, eu não corria o risco de ficar só.

Quando estava casada com Bia, ela brincava dizendo que havia sempre uma aluna suspirando por mim nos corredores da universidade. No princípio, isso me incomodava, sentia-me invadida, mas agora consigo achar graça na ingenuidade adolescente.

As abordagens mudavam, mas o que movia aquelas meninas recém-saídas da infância continuava sendo o mesmo impulso de sempre: a cobiça, o desejo pelo difícil, o desafio.

Gostaria de saber se elas chegavam a se imaginar casadas comigo, com filhos, num projeto mais duradouro ou se eu também não passaria de uma conquista, de uma paixonite, uma inflamação.

Talvez fosse mesmo patológico. Uma síndrome qualquer que afetasse essas meninas no período de transição para a vida adulta. Como eu estava ali perto e a relação professor-aluno historicamente já exercia um certo fascínio, a situação se tornava ainda um pouco mais intensa.

Eram convites e ofertas as mais diversas. Muitos chegavam a ser patéticos, constrangedores. Chegavam até a e-mails falsos que procuravam estabelecer uma relação mais próxima, embora unilateral e anônima.

Algumas eram sedutoras e até sexualmente instigantes, mas insistiam naquela versão ninfeta pegadora que fazia qualquer pessoa minimamente esclarecida correr da parada.

Sendo assim, preferia manter minha reputação de professora misteriosa e, por vezes, até estranha, para não me arriscar a liberdades indesejadas, mais do que aquelas que já estavam postas.

No final do semestre, aquelas relações já estavam desgastadas como se tivessem sido concretizadas. 

Nome: mtereza (Assinado) · Data: 04/12/2017 11:26 · Para: Capitulo 25 - Na fila do chá

A cada capítulo com o POV da Carol fica mais difícil entender a traição dela pelo menos por enquanto.



Resposta do autor:

E você acha que essas coisas se justificam? O ser humano é um bicho complicado!



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