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[Comentários - 407]   Impressora Imprimir Capitulo ou História - Lista de Capítulos

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Static void Main(){

                var Capítulo= 6;

  var Título = “Trouble”;

                var POV= “Alice”;

 

“I’m Trouble”

 

Trouble (Pink, 2003)

 

Existe uma regra básica que qualquer ser humano precisa seguir a ferro e fogo na vida para não se ferrar: não se envolver com pessoas em seu ambiente de trabalho. Todo mundo sabe que isso é encrenca na certa. Todo mundo... Menos esta idiota que vos fala. Eu estava completamente encrencada por causa da minha história com Giselle. Sabia que terminar com ela não ia ser nada fácil e, pior ainda, continuar tendo que encará-la na empresa todos os dias depois do rompimento seria uma baita de uma provação. Giselle não era do tipo que sabia perder e não ia desistir sem uma boa briga. Bom, mas voltando à regra, nunca é tarde para pôr a cabeça no lugar, não é mesmo? Então era isso que eu estava determinada a fazer. Até descobrir que a minha mais nova parceira de trabalho era, ninguém mais, ninguém menos do que a Mel... Aquela a quem pensei jamais ver novamente, aquela cuja imagem deslumbrante eu acomodaria em um lugar especial da minha mente para usar no momento mais oportuno, de olhos fechados, quando estivesse transando com a próxima garota, aquela que de mel só tinha os olhos, mas nem por isso me perturbava menos.

 

Tudo bem, tenho que confessar que estava entoando um mantra silencioso para ter uma oportunidade de vê-la novamente, e aconteceu bem mais rápido do que eu esperava, mas se existia um Deus ele só podia estar de sacanagem comigo. Eu havia tomado uma decisão: depois de Giselle, por razões óbvias, eu jamais me envolveria novamente com ninguém do meu trabalho. E agora, essa.

 

“Papai Noel, já saquei qual é a tua, seu velhinho sacana. Você é um sádico. Me enviou exatamente o presente de natal que eu queria, mas não vou poder brincar com ele. Vou ter que me contentar em ficar apenas admirando de longe. Isso não se faz, Papai Noel. Sei que não fui uma menina boazinha, mas também não fui, de todo, malvada. Custava ter dado uma aliviada? A gente bem que podia ter se esbarrado na academia ou no shopping... Tinha que ser aqui? E, pior, tinha que ser justamente a minha nova parceira?”

 

“Já sei o que você tá pensando: lá vai a Alice se meter em encrenca de novo. Ainda nem se resolveu com a Giselle e já está se engraçando pela Isa. Pois tenho uma coisa pra te dizer: você está enganada. Sou uma pessoa determinada, decidida, controlada. Sou eu quem decide o rumo que a minha vida vai tomar. O que quero dizer com isso é que eu controlo o meu corpo e não o contrário... Tá bom, é mentira. Bem, pelo menos eu costumava controlar até hoje. Agora eu não passo de uma confusão de sentimentos e sensações, lutando contra a vontade incontrolável que estou sentindo de jogá-la em cima dessa mesa e percorrer cada pedacinho desse corpo moreno delicioso com a minha boca.”

 

Nosso primeiro dia de trabalho juntas não havia começado bem. Isa dos olhos de mel parecia ter uma antipatia natural por mim, e por mais que eu tentasse ser gentil, ela sempre me respondia com uma patada. Eu tinha que admitir que ela tinha bons motivos para não ir com a minha cara, mas se trabalharíamos juntas, ela ia precisar superar. Esforcei-me para assumir uma postura profissional e impus o respeito que precisava. Pareceu funcionar. Depois de alguns embates, vestimos os trajes da cordialidade e começamos a trabalhar. Grata surpresa: aparentemente nós seríamos ótimas parceiras. Ela pareceu verdadeiramente entusiasmada com a minha apresentação, mal sabendo ela que enquanto eu falava e mostrava o que já sabia de cor, estava completamente atenta a cada movimento dela. Cada vez que passou as mãos pelos cabelos, o jeito que franzia o cenho e apertava os olhos quando estava tentando entender algo, todas as vezes que tentou arrumar o decote para não exibir demais o colo, as cruzadas de perna, o jeito que organizou laptot, celular, caneta e bloco de notas de forma simétrica sobre a mesa de reuniões... A cada detalhe observado o meu desejo aumentava.

 

Não achei que fosse conseguir passar por aquele dia sem ter um colapso. Acabei e foi a vez dela apresentar. Eu já estava decidida a começar a imaginar velhinhas de biquíni, dançando Macarena, mas então ela começou a falar. Foi a minha salvação. Se tinha algo que me chamava mais atenção do que uma linda morena de corpo escultural e olhos cor de mel, era uma linda morena de corpo escultural, olhos cor de mel e uma mente incrivelmente brilhante. Se antes dela apresentar seu projeto eu já estava completamente embasbacada, quando começou a fazê-lo, passei a achar que havia encontrado a perfeição em forma de uma pequena mulher. Aquela apresentação foi a única coisa capaz de me tirar do estado de excitação física em que eu me encontrava, sendo essa excitação substituída pelas dezenas de orgasmos mentais que tive, assistindo-a falar com tanta propriedade sobre o que havia desenvolvido.

 

Nosso entrosamento era tamanho e o dia estava sendo tão produtivo que nem percebemos as horas passarem. Almoçamos na sala mesmo e quando notamos, já passava das 18h. Ouvimos uma batida na porta e ambas viramos para ver a cabeça de Giselle aparecer.

 

-- Alice, já passa das 18h. Ainda temos que fechar aqueles prazos.

 

“Merda, tinha esquecido da Giselle. Ela não vai aceitar outro fora, mas hoje eu não tô com cabeça. Muita informação para um dia só. Vou ter que tentar adiar.”

 

-- Giselle, desculpe, mas hoje eu não vou conseguir. Tenho muita coisa acumulada aqui. Conversamos amanhã, pode ser?

 

Pareceu chateada, mas tentou disfarçar. Acho que não queria mostrar vulnerabilidade na frente da Isa.

 

-- Ok. Mas não pode passar de amanhã. Lembre-se de que temos prazos.

 

-- Pode deixar.

 

Ela saiu batendo a porta sem sequer se dar ao trabalho de nos cumprimentar.

 

-- Ela é sempre assim, tão educada?

 

Isa perguntou com um ar brincalhão, demonstrando um senso de humor que me deixou completamente surpresa. Minha resposta foi sorrir. Ela sorriu de volta e nos encaramos. A excitação voltou.

 

“Merda!”

 

Ela desviou o olhar.

 

“Será que se incomodou ou... Não, não é possível.”

 

Respondi:

 

-- Ela não é tão ruim assim. Só tem esse jeitão meio...

 

-- Jura?

 

-- Tá bom, ela é uma metida.

 

Rimos juntas de novo, procurei novamente seus olhos, mas ela evitou.

 

“Não, é impressão. Tira isso da cabeça, Alice. Chega de encrenca.”

 

-- Isa, não se prenda por mim. Se quiser, já pode ir. Deve estar exausta. Eu vou me demorar um pouco, pois tenho que responder uns e-mails.

 

-- Nem vi a hora. Acabei esquecendo de ligar pra minha amiga, pra ela vir me buscar.

 

“Amiga? Haha... Eu sabia, eu sabia... Ela me olha com o mesmo desejo que eu olho pra ela. É lésbica também. Tenta disfarçar, mas é. Não deve ter saído do armário ainda.”

 

-- Hum, amiga... Sei...

 

Pensei alto e me arrependi no momento em que calei a boca. O bom humor dela foi embora. Ficou nitidamente ofendida.

 

-- Ei, não é nada disso que você tá pensando? Eu sou hétero, tá? Tenho namorado.

 

Falei besteira, mas não era para tanto, né?

 

-- Desculpe, senhorita hétero. Não quis ofender.

 

Meu sarcasmo foi inevitável e pareceu fazê-la perceber que havia exagerado na reação. Já tentando se redimir, falou:

 

-- Desculpe-me você. Digo... Devo ter parecido uma preconceituosa, mas não sou, tá? Nada contra, mas a Fernanda é realmente minha amiga.

 

“Será?”

 

-- Relaxa! Eu não esquento com isso.

 

-- Vou ligar pra ela.

 

Ela ligou para a amiga, mas se frustrou ao saber que demoraria. Estranhei o fato de precisar de carona.

 

“Como assim, ela não tem um carro? Tá, tudo bem. É uma opção, mas por que não pede um Uber ou táxi?”

 

Não consegui controlar a curiosidade. Não queria ser intrometida, mas acabei sendo:

 

-- Você não tem carro?

 

-- Tenho, mas está na oficina.

 

-- Entendo. E o teu namorado? Não pode vir te buscar?

 

“Agora eu descubro.”

 

-- Ele deve estar trabalhando. Além disso, não tem carro.

 

“Que tipo de cara adulto e com um trabalho não tem um carro? O tipo de cara que não existe. Você está mentindo pra mim, dona Isa? Que feio.”

 

Ela já estava de saco cheio daquela sabatina, mas eu queria... Queria não, precisava saber mais.

 

-- Hunrum... E por que não pede um táxi ou um uber?

 

-- É que... Bem... Eu...

 

Eu devo ter ido longe demais na intromissão. Ela estava se constrangendo, e eu, cada vez mais curiosa. Perguntei:

 

-- Algum problema?

 

-- Eu não uso transporte público.

 

A resposta dela foi firme. Não me deu margem para inquirir mais nada. Ela se agitou, levantou-se e começou a arrumar as coisas enquanto falava:

 

-- Não precisa se preocupar, eu vou esperar lá embaixo.

 

Ri do nervosismo dela. Ela pareceu irritada com a minha reação. Decidi oferecer carona. Não entendi porque não usava transporte público, mas desisti de entender o que se passava dentro daquela cabecinha maluca. Além do mais, a carona seria uma ótima oportunidade de descobrir mais sobre ela. Ofereci:

 

-- Eu te levo.

 

Mas eu pareci ofendê-la com a oferta. Fui surpreendida por sua resposta agressiva:

 

-- O quê? Só se eu estivesse louca!

 

Fiquei muito chateada porque, por mais que eu me esforçasse, ela parecia decidida a me odiar. Falei:

 

-- Garota, você realmente não foi com a minha cara, né?

 

-- Não é isso, é que...

 

-- É que...?

 

-- Eu vi o jeito que você dirige e quase fui vítima da tua imprudência. Acha mesmo que vou entrar em um carro dirigido por você?

 

-- Pelos céus, vai remoer esse assunto até quando, hein? Para o seu governo, eu dirijo muito bem.

 

-- É? Pois não foi o que pareceu.

 

Foi o fim da picada. Bom, pelo menos eu não ia ter que me preocupar em não me interessar, pois ela já estava dificultando as coisas o bastante. De todo modo, não consegui conter a minha frustração.

 

-- Quer saber, Isa? Eu estava tentando ser gentil... Queria me redimir com você pra amenizar a impressão ruim que teve de mim, mas você parece estar mais interessada em me atacar do que em desenvolver uma relação cordial, então... Então...

 

-- Então?

 

-- Então fique aí, esperando a sua amiga. Eu vou embora. Por hoje, chega dessa inquisição.

 

Peguei minha bolsa e já ia saindo, quando:

 

-- Alice?

 

-- O quê? Quer me ofender mais um pouquinho?

 

-- Não... É que...

 

-- Anda, garota, fala logo.

 

-- Desculpa, Alice! Você tem razão, eu... Eu sinto muito. Não tenho o direito de te tratar assim.

 

“Ahn? Quê? Espera aí, a gente não estava brigando? Essa garota é definitivamente uma doida. Eu aqui me preparando para responder a mais uma ofensa, e ela me pede desculpas. Não tô entendendo mais nada.”

 

Olhei confusa para ela, que me perguntou em um tom ameno:

 

-- A carona ainda está de pé?

 

Fiquei sem saber o que responder. Encaramo-nos. Eu estava com raiva, e se fosse qualquer outra pessoa, eu certamente teria mandado ir pastar, mas ela... Ela tinha o poder de me transformar em alguém que eu não conheço. Olhei para ela e aquele mel adoçou a minha raiva. Sorri incrédula, sacudindo a cabeça de forma negativa, tentando entender que poder era aquele que ela exercia sobre mim. Depois de algum tempo, respondi:

 

-- Vem. Vamos, antes que eu me arrependa.

 

No elevador, apenas nós duas e uma descida de vinte andares. Ela parou ao meu lado, mas a uma distância segura. Um silêncio sepulcral se instalou enquanto descíamos. Eu tinha medo de falar, pois não fazia ideia de como o humor dela estava, vez que já havia percebido que este oscilava mais do que a maré. Olhei de soslaio e percebi que ela estava ansiosa. Tremia a perna nervosamente e mordia o lábio inferior. Fiquei preocupada e perguntei:

 

-- Tá tudo bem?

 

-- Quê? – Perguntou-me confusa.

 

-- Você tá bem? Parece nervosa.

 

-- Tudo bem, é que... Eu só não gosto muito de elevad...

 

Antes que ela concluísse a frase, o elevador deu um solavanco forte, a luz oscilou e ele parou. No momento em que aconteceu, ela deu um grito e se jogou em meus braços. Abracei-a de volta, apertando-a mais do que precisava, pois não ia perder a oportunidade de tê-la tão próxima a mim mais uma vez, mesmo que fosse em uma situação como aquela. Aquele cheiro delicioso me invadiu e fez com que todos os músculos abaixo da minha cintura se contraíssem. Mas não era certo me aproveitar. Ela estava muito assustada... Apavorada, na verdade. O corpo todo tremia e a respiração estava entrecortada. Por um instante, cheguei a pensar que era por minha causa, mas achei por bem tirar isso da cabeça.

 

“Velhinhas gordas de calçolas, velhinhas gordas de calçolas, velinhas gordas de calçolas.”

 

Foi com muito esforço que separei nossos corpos para verificar como ela estava.

 

-- Isa, calma. Deve ter tido uma queda de energia, mas o prédio tem gerador. Daqui a pouco o elevador volta a funcionar.

 

Ela me encarou com aqueles olhos enormes. Estava apavorada mesmo. Olhou para os lados e foi até a porta. Começou a tateá-la enquanto falava:

 

-- Deus, não acredito nisso. Ele não vai cair, vai? Algum elevador daqui já caiu? Sabe o que acontece quando elevadores caem?

 

-- Ei, ei... Relaxa! Não vai cair.

 

-- E o oxigênio? Quanto tempo você acha que temos até acabar? Tô ficando meio sufocada. Você não tá com dificuldade de respirar?

 

“Eita! Essa é maluquinha, maluquinha!”

 

Senti vontade de rir do nervosismo dela, mas me contive. Comecei a entender o comportamento de mais cedo, na hora do acidente. Ela devia ter algum transtorno de ansiedade ou coisa do tipo. Isso explicava também o fato de não usar transporte público. Bom, se eu estivesse certa, era melhor torcer para aquele elevador voltar a funcionar o mais rápido possível, antes que ela tivesse outro piripaque.

 

-- Isa, vem cá.

 

Virei-a para mim e a segurei pelos ombros. Olhei firme em seus olhos e o simples ato trouxe-a de volta. Falei calmamente:

 

-- Confie em mim, o elevador não vai cair e o oxigênio não vai acabar. Respire fundo e tente se acalmar. Eu vou falar com a recepção pelo interfone pra ver qual a previsão de normalizar, ok?

 

-- Ok.

 

Ela respondeu meio incrédula. Reforcei:

 

-- Ei, nós vamos ficar bem, tá? Você vai ficar bem, não se preocupe.

 

-- Tá bom.

 

Apertei o botão do interfone, mas logo que o fiz o elevador voltou a descer. Apenas agradeci ao rapaz que me atendeu e voltei a olhar para Isa.

 

-- Viu? Eu disse que ia ficar tudo bem.

 

-- Obrigada, Alice, e... Desculpe por isso.

 

-- Não tem porque agradecer ou se desculpar.

 

-- Tem sim. Eu surtei, fiquei muito nervosa...

 

-- Isa, relaxa. Você não é a única com medo de elevador.

 

Eu já havia notado que o problema dela ia muito além, mas não queria deixá-la mais constrangida do que já estava, por isso, tentei agir com naturalidade. Em troca, recebi um lindo e sincero sorriso.

 

-- Mais uma vez, você me socorreu hoje.

 

Foi minha vez de sorrir. Não esperava uma gentileza daquelas.

 

-- Sempre que precisar.

 

Rimos juntas e o elevador chegou ao subsolo. Brinquei:

 

-- Viu? Terra firme.

 

-- Até que enfim.

 

Caminhamos em silêncio até o meu carro. Abri a porta para ela entrar e quando passou por mim, mais uma vez aquela vontade de agarrá-la.

 

“Velhinhas gordas de calçolas, velhinhas gordas de calçolas, velinhas gordas de calçolas.”

 

Fizemos a maior parte do caminho em silêncio. Eu não sabia o que perguntar ou falar, estava pisando em ovos. Não queria estragar o clima ameno que havia se estabelecido. Fui devagar, pois queria postergar ao máximo o tempo ao lado dela. Não podia tocá-la, mas podia ver as pernas expostas e sentir o cheiro. Além disso, tinha medo de acelerar e ela surtar. Quando chegamos na frente do prédio dela, foi minha vez de tremer da cabeça aos pés quando ela convidou:

 

-- Quer subir para um café?

 

-- Quê? Como?

 

Não acreditei no convite. Foi no mínimo inesperado. Ela percebeu a minha incredulidade e explicou:

 

-- Tô tentando ser gentil. Não quero que fique com uma impressão ruim. Eu sou uma pessoa agradável... Às vezes.

 

Terminou a frase com um sorriso no rosto e eu não tive outra opção, a não ser aceitar.

 

-- Ok. Eu aceito.

 

Ela morava no terceiro andar e logicamente subimos de escada. O apartamento era tão limpo e tão organizado que fiquei com medo de pisar no chão. Quase perguntei se ela queria que eu tirasse os sapatos, mas como ela entrou calçada, acompanhei. Quando cheguei na sala, tive certeza de que o tal namorado era real. Inúmeras fotos dos dois espalhadas em porta retratos.

 

-- Senta.

 

-- Obrigada!

 

-- Você quer café ou prefere um suco, um refrigerante... Te ofereceria uma cerveja, mas está dirigindo, então...

 

-- Eu aceito a cerveja.

 

-- Hum... Isso não parece certo.

 

Ela me olhou com ar de crítica enquanto falava. Não pude deixar de sorrir.

 

-- É preciso bem mais que uma cerveja pra me embriagar, relaxa.

 

-- É por isso que você atropela as pessoas.

 

-- Já vai começar?

 

-- Desculpa! Brincadeira. Ok, eu te acompanho em uma. Vou buscar, já volto.

 

Foi em direção à cozinha e voltou instantes depois, trazendo duas cervejas e dois descansos de copo. Sentou-se a certa distância de mim no sofá e virou-se para ficar de frente. Repeti o gesto dela. Encaramo-nos brevemente, os olhos cor de mel brilhando com intensidade encontraram os meus. Fiquei sem saber o que aquilo significava. Eu sempre soube ler as mulheres e a linguagem corporal dela era clara. Ela me desejava, tanto quanto eu a desejava. Mas vindo dela, eu estava com medo de estar errada. Além disso, tinha o fato de sermos parceiras e eu ainda não havia resolvido as coisas com a Giselle. Era muita encrenca junta. Desviei o olhar, ela fez o mesmo. Precisava de um assunto para neutralizar a situação. Olhei para o lado e vi a foto com o namorado.

 

-- Então esse é o namorado.

 

-- Sim, Lucas.

 

-- Estão juntos há quanto tempo?

 

-- Mais de dez anos.

 

-- Eita! Isso é uma vida. Não pensam em casar?

 

-- Na verdade, já moramos juntos. Casamento é uma mera formalidade, então...

 

-- Entendo.

 

Então ele mora com ela. Olhei ao redor para tentar disfarçar a minha frustração e vi outra foto dele com uma guitarra.

 

-- Ele toca guitarra?

 

-- Sim, é músico. Ele canta também.

 

-- Sério? Que legal! Qual estilo?

 

-- Rock. Tem uma banda.

 

-- Eu tocava e cantava na época do colégio. Era de uma banda também.

 

-- E por que parou?

 

-- Ah, você sabe. A vida adulta. Faculdade, trabalho... Mas a gente se reúne de vez em quando. É divertido.

 

-- Imagino.

 

-- Eu gostaria de ter continuado, mas é difícil conciliar com o trabalho e tudo mais. Não sei como o Lucas dá conta, mas admiro ele.

 

-- Mas ele não precisa conciliar. Vive disso.

 

-- Sério? Isso é um sonho.

 

-- Ahan... E às vezes um pesadelo.

 

-- Não entendi.

 

-- Deixa pra lá.

 

Falou exasperada e se levantou. Caminhou até a janela e se apoiou no batente, de costas para a rua. Arrumou nervosamente o cabelo e percebi que aquele assunto a estava incomodando. Isso ficou mais claro ainda quando ela mudou o foco:

 

-- E você e essa Giselle, como é que funciona esse não namoro de vocês?

 

Levantei e fui em direção a ela. Encarei-a e ela sustentou o olhar no meu em uma expressão firme, como se realmente esperasse uma resposta concisa para aquela pergunta indiscreta. Sim, indiscreta. Mas eu não podia julgá-la, já que até então a indiscreta era eu. Tentei responder em um tom casual:

 

-- Você perguntou, você respondeu.

 

Ela apenas inclinou o pescoço para o lado e franziu o cenho, como um cachorrinho que não entende quando falam com ele. Expliquei:

 

-- É o que você disse: um não namoro. Não temos nenhum compromisso.

 

-- Sexo casual?

 

“Garota, não fale a palavra ‘sexo’ na minha frente. Não brinque com fogo, porque eu tô doida pra te queimar com o meu.”

 

-- Sim, sexo casual.

 

Falei em um tom propositalmente baixo e rouco. Percebi que engoliu a seco. Vi o exato momento em que as pupilas dela dilataram e aquilo foi a minha deixa. Dei um passo para me aproximar mais. Ficamos a centímetros de distância. Meus olhos desceram para os lábios, que estavam entreabertos. Cheguei a calcular o beijo, mas ela me interrompeu em um tom que não deixava claro se ela queria que eu me aproximasse mais ou me afastasse:

 

-- Então é esse o teu lance? Gosta de fazer sexo casual com as tuas colegas de trabalho?

 

-- Não. Só com as lindas, como você.

 

“Merda! Idiota, estúpida! Pra quê foi falar isso?”

 

A expressão dela mudou de desejo para frustração. Afastou-se rapidamente de mim e virou-se para soltar com um escárnio indisfarçado:

 

-- Não sei como você conseguiu conquistar a Giselle com essa sua cantadinha de cafajeste, mas comigo não vai rolar, se é o que está pensando.

 

Eu até ensaiei uma tentativa de explicação, mas antes que eu conseguisse falar, a porta se abriu e um sujeito, provavelmente o tal Lucas, apareceu.

 

-- Boa noite! Amor, não sabia que tínhamos visita.

 

Ele caminhou até ela e a beijou... Na boca. Fiquei com inveja.

 

“Espera aí, a quem eu tô tentando enganar? Fiquei foi com ciúmes mesmo. Foi como se eu tivesse levado um soco no meio do estômago.”

 

-- Amor, esta é Alice Schultz, minha colega de trabalho. Fernanda não pode me buscar, e ela, gentilmente, se ofereceu pra me trazer. Alice, este é o Lucas, meu namorado.

 

Estendemos as mãos e nos cumprimentamos. Ele falou primeiro:

 

-- Alice, muito prazer. E obrigada por cuidar do meu bebê.

 

“Sério? Bebê? Alguém me consegue um balde pra eu vomitar.”

 

-- Lucas, o prazer é meu. E não há de quê.

 

-- Então, posso acompanhar vocês na cerveja?

 

-- Ah, Lucas, eu adoraria, mas fica pra próxima. Já deu o meu horário. Tenho um compromisso.

 

“É, tenho que procurar um buraco pra enfiar a minha cabeça.”

 

-- Ah, que pena! Vamos marcar outra noite então?

 

-- Claro, eu combino com a Isa.

 

-- Ok, vou aguardar.

 

-- Isa, obrigada pela cerveja.

 

-- Por nada. Obrigada pela carona.

 

-- Relaxa! Sempre que precisar.

 

Nem esperei mais qualquer reação dos dois. Saí em disparada, pouco me importando se minha atitude estava parecendo suspeita. Aquele dia, definitivamente, não estava sendo um dia fácil de administrar. Meus nervos estavam a flor da pele e eu não conseguia tirar aquela mulher irritantemente linda da minha cabeça. Precisava extravasar, mas bebida não ia funcionar. Então, menos de vinte minutos depois, já estava na porta da Giselle. Ela abriu e se surpreendeu.

 

-- Alice? Achei que tinha me dispens...

 

-- Cala a boca, Giselle.

 

Não a deixei falar. Calei a boca dela com um beijo quase desesperado. Arranquei suas roupas e transei com ela ali mesmo, no chão da sala, de olhos bem fechados, pensando em... Outra.

 

 

 

“Ok, eu admito. Não me meto em encrenca. Eu sou a própria encrenca. ”

Notas finais:

Então, contem o que acharam do capítulo. Alice é uma cafajeste de primeira, né?

 

E enquanto esperam o próximo capítulo, caso ainda não tenham lido, que tal darem uma conferida em Amor… E Outros Dilemas ???

É a minha primeira história publicada e já está completíssima.

 

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Abraços e até terça!!!

 

 



Comentários


Nome: naybs (Assinado) · Data: 31/12/2017 19:53 · Para: Capitulo 6 - Trouble

Eu pedi para o Papai Noel nesse Natal que ele me desse de presente o término da Isa e do Lucas! Vamos ver se o velinho sacana vai me atender, né? Hahaha Até agora nada. Espero que ele não seja sacana comigo como foi com a Alice kkk

 

Cara, acho que os dias de cafa da Alice estão contados. De uma coisa eu tenho certeza, a Alice vai se arrepender amargamente dessa ficada com a Giselle com dois éles ¬¬ 

 

Engraçado que as duas estão com ciúmes. Queria que uma pudesse ler a mente da outra, já facilitaria as coisas ;)

 

Espero que esse namoro da Isa acabe logo porque quero ver essas duas juntinhas! Acredito que a isa não irá deixar nada acontecer entre elas enquanto estiver com o Lucas ¬¬

 

Me gusta mucho este juego kkkkk

Parabéns, Linier. Sempre se superando! 



Resposta do autor:

Nay,

Ahhhhh que pena, o papai noel não te atendeu. Mas como vc viu ele é um velhinho muito do sacana, então não deve confiar nele.

A Giselle com dois éles (bem que esse poderia ser o sobrenome dela) promete tornar as coisas bem complicadas pra Alice, mas quem pode culpa-la, né? Alice procurou.

Engraçado tanta intensidade em um dia só, né? Elas mal se conheceram e já rolou tanta coisa silenciosa entre as duas... mas quando a paixão chega, ela chega arrebatando mesmo.

Acho que ainda tem muita água pra rolar entre o Lucas e a Isa. Sobre traição, não sei... um ser humano movido pela paixão toma atitudes impensadas. Vamos ver se a Isa vai dar conta de se manter fiel.

Obrigada sempre pelo carinho!!!

Abraço!!!



Nome: Val Maria (Assinado) · Data: 28/12/2017 19:22 · Para: Capitulo 6 - Trouble

Boa  tarde minha querida autora.
Continua por favor...

A Alice já tem o meu  coração,ela e demais,é do tipo que chega e pronto.
Essa atração da Isa é muito hilario,elas juntas é tudo.

Acho que esse mala do namarido da Isa tem que levar logo um pé na bunda e desapareça da vida da menina,mas ele tem que receber um chifre,pois ele esta tão acostumado a colocar na cabeça da mulher.

Um ano novo cheio de coisas boas para você e sua esposa.

Beijos autora.

Val Castro




Resposta do autor:

Val, querida, muito obrigada!! Um feliz 2018 pra vc tambem.

Viu que eu atrasei, né? Sinto muitíssimo por isso, mas é que realmente foi uma semana complicada pra mim. Estou tentando finalizar 2 para postar até domingo e compensar vocês por isso.

 

Abração!!!



Nome: Enaile Araujo (Assinado) · Data: 27/12/2017 17:23 · Para: Capitulo 6 - Trouble

Miiiga, a farra no natal  foi boa, hein?! Ou tu tá considerando que ontem foi segunda e segunda foi domingo? Pois então... hj é terça, não é mesmo?! ;) kkkkkkkkkkk  Já tô com saudades da Alice e Isa, volte logo, miiiga! bjãooo

P.S.: FELIZ ANO NOVO! MUITA SAÚDE, SABEDORIA E... INSPIRAÇÃO! ;)



Resposta do autor:

Migaaaa que surpresa vc por aqui. kkkkk

Desculpa, acabei nao avisando por aqui. Avisei so no grupo do facebook. Vou postar os cap 7 e 8 juntos, no domingo. A semana foi corrida e nao deu tempo de terminar.

E ai, me conta o que ta achando????



Nome: Cla (Assinado) · Data: 21/12/2017 09:07 · Para: Capitulo 6 - Trouble

Ótimo capítulo! 

ParabénsLinier!



Nome: Lisa Green (Assinado) · Data: 19/12/2017 23:15 · Para: Capitulo 6 - Trouble

Que bacana sua história, autora! Embora nunca tenha comentado, acompanhei Amor e Outros Dilemas de pertinho e era totalmente paixonada pela Julia hahahaha.

 

Tô curtindo muito essa aqui também e já me identifiquei horrores com a Isa, tadinha. Aguardo os próximos capítulos!

 

Bjbj



Resposta do autor:

Lisa Green, 

Que grata surpresa saber disso! Amor e Outros Dilemas é meu bebê!!! <3 <3 E a Júlia, hein? Maravilhosa!!! MAs sou suspeita. Tô muito feliz que gostou e mais feliz ainda porque me deixou saber disso.

Espero não deixar a desejar nesta história.

Sempre que puder, por favor, não deixe de dar a sua opinião. É muito importante pra mim, viu?

Obrigada mais uma vez. Terça que vem sai o cap 7. Até lá.

Abraços!!!



Nome: mtereza (Assinado) · Data: 19/12/2017 12:17 · Para: Capitulo 6 - Trouble

Eita esqueci feliz Natal e até a próxima terça bjs



Resposta do autor:

Haha... Tereza, feliz natal pra vc tb!!!

Abraços!!



Nome: mtereza (Assinado) · Data: 19/12/2017 12:16 · Para: Capitulo 6 - Trouble

Eita que a relação delas vai pegar fogo já já se no primeiro dia foi assim . Agora que cafajestada da Alice na esnobe da Gisele não merecia isso só vai fazer ela colar mais agora que vai ser difícil dela descolar kkk e o Lucas será que ele vai perceber logo os sentimentos da namorada pela colega de trabalho ou só quando for confrontado com a nova realidade rsrs



Resposta do autor:

Tereza, 

A Alice só piorou ainda mais a situação dela, não é mesmo? Quero ver se livrar da Giselle depois dessa. E o Lucas, hein? Por pouco não pega as duas no flagra do quase beijo.

Vamos ver no que vai dar.

Abração!!!



Nome: patty-321 (Assinado) · Data: 19/12/2017 00:09 · Para: Capitulo 6 - Trouble

Pqp alice. Vc marca feio. Nao acho eka cafajestes. Ela ainda nso se encontrou. Falta maturidade emocional. A isa ta deixando ela doída. Okga q foi so o primeiro dia. Adorando. Boa semana. Bjs



Resposta do autor:

Patty, eu concordo contigo. O que falta na Alice é maturidade emocional mesmo. Quando ela encontrar essa maturidade, Isa que se prepare. kkkk

Abraços e até terça!



Nome: Mille (Assinado) · Data: 18/12/2017 23:39 · Para: Capitulo 6 - Trouble

Se segura Alice que está morena vai te deixar maluquinha, adorei a mantra dela.

 Bjs e até o próximo capítulo



Resposta do autor:

Mille, 

Melhor mantra, né? Se a Alice repetir um bocado, pode ser que deixe de ter pensamentos maldosos com a Isa.

Abraços e até terça!!!



Nome: Angel68 (Assinado) · Data: 18/12/2017 23:33 · Para: Capitulo 6 - Trouble

Eita, Alice meteu os pés pelas mãos !!! Tá que soltou aquela frase cafageste com a Isa, mas ir atrás da Gisele pra sufocar o desejo pela Isa, foi uma vacilada.....em Dilemas tínhamos um triângulo, aqui vai ser quadrado, porque além da Gisele, vai ter o sangue suga do Lucas que não vai querer perder a boa vida...a tensão sexual delas já tá entrando em ebulição, isso porque foi só o primeiro dia.....vai ferver esse caldeirão.



Resposta do autor:

Angel,

Alice não aguentou a pressão kkkkkkk Ela é uma fraca.

Boa observação: teremos um quadrado amoroso e não vai ser bonito de ser ver. 

Vamos ver por quanto tempo a Isa ainda vai conseguir bancar a difícil, né?

Obrigada por estar acompanhando. Terça que vem tem mais.

Até lá.

Abraços!



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