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[Comentários - 407]   Impressora Imprimir Capitulo ou História - Lista de Capítulos

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Static void Main(){

 

                varCapítulo= 5;

 

  var Título = “Chasing The Sun”;

 

                varPOV= “Isabella”;

 

};

 

 

 

“The sky is her blue eyes begin to open, the storm is upon me, but I'm chasing the sun and she's got me down on my knees”

 

Chasing The Sun (The Calling, 2004)

 

 

 

Por um breve instante imaginei estar vendo coisas, mas bastou meus olhos encontrarem mais uma vez aquele par de safiras brilhantes para que eu tivesse a certeza: era ela. A mulher perturbadora. Aquela que eu pensei que jamais teria o desprazer de rever.

 

“Desprazer? Sim, desprazer, afinal, ela não passa de uma inconsequente, irresponsável que, primeiro, quase me matou atropelada por não prestar atenção no trânsito; segundo, se deixou ser flagrada no maior amasso em um ambiente de trabalho, ainda por cima com outra mulher; e terceiro... Bem... Não tem terceiro. Ela é desprezível. Ponto final.”

 

“Mas por que meu corpo inteiro entra em frenesi quando a vejo?”

 

“Tá louca, Isa? Sim, você só pode estar.”

 

O fato era que desde o nosso desastroso primeiro encontro eu não conseguia tirá-la da cabeça. O motivo eu não sabia, mas ela estava lá, por mais que eu me esforçasse para que não estivesse. Ainda por cima, aquele cheiro impregnado em mim não ajudava em nada. Ele me perturbava de uma forma que não sabia dizer se era boa ou ruim. Quando tomei consciência de que era ela ali, se agarrando com aquela mulher, meu coração foi de zero a cem tão rápido que chegou a literalmente doer. Inevitavelmente, a calma, que eu havia recuperado com tanto esforço, abandonou-me mais uma vez. Respirei fundo para controlar o tremor que tentava fazer meu corpo convulsionar, mas falhei miseravelmente quando, como em um passe de mágica, mais uma vez fui capturada por aquele azul intenso que me sugava toda a sanidade.

 

“Mas o que tá fazendo aqui? Ah, isso tá claro, né? Estava se agarrando com aquela outra ali, que, por sinal, não parece estar nada constrangida com o flagra. Então ela é sapat... Digo... é lésbica. Se diz ‘lésbica’, Isa. Ela é lésbica... Bom, agora tá explicado o motivo de me olhar daquele jeito, mas ainda não entendi o que ela tá fazendo aqui. Será que me seguiu? Não, né? Dah! Claro que não. Deve ser funcionária... Espera... Merda! O que ela tá fazendo na sala da Alice Schultz? Será que...”

 

Não precisei concluir o raciocínio, pois Pedro tratou de confirmar a minha suspeita quando a cumprimentou com um baita de um sorriso irônico no rosto:

 

-- Bom dia, Schultz! Vejo que já começou muito bem a semana.

 

“Não acredito! É ela.”

 

A cara que ela fez, um misto de surpresa e constrangimento, não deixou dúvidas de que aquele reencontro havia sido tão perturbador para ela quanto estava sendo para mim. Quando pareceu finalmente assimilar o que estava acontecendo, ela quebrou o contato entre nós e começou a olhar nervosamente, de um lado para o outro, para as outras duas pessoas na sala. Arrumou a roupa e os cabelos amarrotados enquanto respondia e, ao mesmo tempo, se justificava:

 

-- Bom dia, Pedro! A Giselle e eu estávamos aproveitando para bater os prazos de execução de algumas ordens de serviços.

 

-- Ahan... Sei! Tô ligado.

 

O tom de Pedro, indisfarçadamente irônico, deixava claro que ele sabia exatamente que aquela era a mentira mais esfarrapada que Alice poderia ter inventado. Mas pelo menos ela teve a decência de tentar disfarçar. Já a outra, a tal Giselle, não parecia ter dado a mínima. E como se o fato de ter sido flagrada se agarrando com uma colega de trabalho dentro da sala de reuniões fosse a coisa mais natural do mundo, ela atravessou a sala e cumprimentou automaticamente a mim e ao Pedro. Primeiro ele:

 

-- Oi, Pedro!

 

Depois se virou para mim antes que ele respondesse e continuou:

 

-- E você é a novata, né? Como é mesmo seu nome? – Franziu o cenho. – Isadora?

 

Contrariando a antipatia instantânea que senti por ela, tentei ser gentil:

 

-- Isabella. Mas pode me chamar de Isa.

 

-- Isa... Tanto faz. Sou Giselle.

 

“Que metida!”

 

-- Prazer, Giselle.

 

-- Hunrum.

 

Mal tocou a minha mão, deu de ombros e fez que ia sair, mas antes ainda se virou para a outra e falou:

 

-- Mais tarde te procuro pra gente concluir.

 

Alice apenas acenou com a cabeça e voltou a me olhar. A pele branca exibia um rubor fortíssimo. Mais uma vez estávamos lá, nós duas e uma situação absolutamente constrangedora. Percebi que ela não conseguiria reagir e, tirando forças não sei de onde, finalmente consegui falar:

 

-- Oi, garota que não respeita as faixas de pedestres.

 

Provoquei e funcionou. Ela recuperou a fala e retrucou:

 

-- Olá, garota que não olha para os lados antes de atravessar a rua.

 

Pedro se meteu:

 

-- Como assim, vocês já se conhecem?

 

-- Mais ou menos.

 

Ela respondeu sem tirar os olhos de mim, arrancando de Pedro uma resposta cheia de malícia:

 

-- Este dia tá ficando cada vez mais interessante.

 

O comentário dele foi ignorado por ambas. O silêncio tomou conta de nós novamente. As sensações que percorriam o meu corpo eram inexplicáveis. Meu sangue fervia de raiva, frustração, nervosismo, medo... Desejo?

 

“O quê? Eu tô... Tô excitada? Sério isso?”

 

Mas era fato: eu estava excitada. Tentei negar para mim mesma, de forma inútil. Lembrei da música do Lulu Santos: “Nós somos medo e desejo, somos feitos de silêncio e sons. Tem certas coisas que eu não sei dizer.”

 

“Não, não, não... Espera aí! Tá pensando o quê? Não está achando que tô com tesão em uma mulher, está? Porque é óbvio, é lógico, está nítido que isso não tem nada a ver. Não mesmo! Para o seu governo, eu sou hétero, gosto de homem. Sou extremamente hétero. Nunca, jamais, nem em sonhos eu desejei uma mulher. Isso é culpa da falta de sexo. Fernanda tem razão, tô precisando tirar o atraso, porque já tá subindo pra cabeça.”

 

Recuperei a razão e afastei para longe aquela ideia absurda. Tratei de quebrar o silêncio novamente, respondendo com mais precisão à pergunta de Pedro:

 

-- Na verdade, Pedro, não nos conhecemos oficialmente. Nosso primeiro contato foi agora, há pouco. Na frente do prédio, quando ela tentou me matar.

 

-- Garota, mas você é uma coisinha exagerada, né? Para de falar isso. Já disse que não fiz de propósito e já me desculpei mil vezes contigo.

 

-- Queria ver você se desculpando se eu tivesse morrido...

 

Os ânimos estavam se alterando. Pedro, ao perceber, interrompeu o início da discussão, antes que as coisas saíssem do controle:

 

-- Ei, ei, ei... Parem com isso. Como pretendem trabalhar juntas, se logo no primeiro contato já estão se estranhando?

 

-- Trabalhar juntas?

 

O espanto dela estava estampado na cara. Pedro continuou:

 

-- Sim, juntas. Alice, esta é Isabella Ferreira. A sua nova parceira na gerência de projeto. Isa, Alice Schultz. Já te disse quem ela é, então...

 

-- Ah, não! Só pode ser brincadeira.

 

Ela bufou, interrompendo Pedro, e eu retruquei com sarcasmo:

 

-- O correto a se dizer é: “Seja bem-vinda, Isabella. Muito prazer!”

 

-- Sim, mas aí eu estaria dizendo algo que não sinto. O que eu não costumo fazer.

 

-- Não ache que tomar ciência disso esteja sendo mais agradável para mim.

 

Ao ouvir minha resposta, ela avançou em minha direção, parando a poucos centímetros de mim enquanto me fuzilava com o olhar enfurecido. Chegou tão perto que eu consegui sentir o calor que seu corpo emanava. O aroma alucinante que vinha dela invadiu novamente os meus sentidos, fazendo as borboletas se agitarem em meu estômago. Tremi e fiquei completamente sem ação. O coração pulsando acelerado. Antes de falar, percebi que olhou para a minha boca. Involuntariamente, olhei para a dela também e umedeci os lábios com a língua. Quando percebi o quanto aquilo era inadequado, sacudi a cabeça e dei um passo para trás. Ela retrucou:

 

-- Se você quiser, pode passar no RH. Acho que ainda dá tempo de declinar.

 

-- Mas você é uma cara de pau mesmo...

 

Foi Pedro quem interveio em um tom incisivo:

 

-- Meninas, pelo amor de Deus, né? Ainda bem que o Leandro não tá aqui. Onde vocês pensam que estão? Olhem, desculpem o meu atrevimento, afinal, tecnicamente são minhas chefes, mas preciso dizer que vocês têm que parar com isso agora mesmo. Cumprimentem-se e vamos começar a trabalhar. Isso aqui não é a casa da mãe joana.

 

Ele tinha razão. A despeito de todo o mau humor que aquela situação desagradável estava me causando, eu não podia perder o profissionalismo. Além disso, aquilo já estava virando um circo. Nós duas havíamos perdido o foco. Tínhamos um trabalho a fazer e nossas questões pessoais não podiam interferir. Decidi pela resignação. Era fato: eu teria que trabalhar com ela, então, não adiantava ficar batendo boca ali. Ela concluiu o mesmo, deixando isso claro ao que falou:

 

-- Tem razão, Pedro. Desculpe. – Virou-se para mim e continuou. – Desculpe, Isabella. É um prazer te conhecer. Espero que possamos formar uma ótima equipe. Seja bem-vinda.

 

Odeio que me chamem de Isabella, então falei:

 

-- Isa...

 

-- Como?

 

-- Por favor, me chame de Isa. E... – Limpei a garganta antes de continuar. – Alice, o prazer é meu.

 

Estendi a mão para alcançar a dela. Apertou a minha e gemi ao sentir o ardor causado pelos arranhões.

 

-- O que foi?

 

-- Nada... Tenho certeza de que seremos, sim, uma ótima equipe. Obrigada!

 

E com aquele gesto, em um acordo tácito, selamos uma trégua.

 

Pedro falou:

 

-- Então, meninas, agora que não estão mais tentando se matar, eu vou indo. Tenho muito trabalho. Isa, você tá entregue e, diga-se de passagem, em ótimas mãos. Mais uma vez, seja bem-vinda!

 

“É, sei... Tô é fodida.”

 

Foi o que eu pensei, mas ao invés disso, falei:

 

-- Obrigada, Pedro! Você foi muito atencioso e muito gentil. Recebeu-me muito bem. Não tenho como te agradecer.

 

“O que foi? Tá olhando o quê? Não achou que eu fosse perder a oportunidade de ser sarcástica, achou?”

 

-- Não há de quê. Depois vamos marcar uma happy hour pra te dar oficialmente as boas-vindas, ok?

 

-- Ótima ideia! Vamos marcar sim.

 

Sorri sincera pra ele, que em seguida saiu da sala, deixando-me pela primeira vez a sós com Alice.

 

“Eita, Isa, o que é isso? Por que essa mulher te perturba tanto? Vou ter que dar conta disso.”

 

Virei-me para ela, que já me esperava com a postura transformada. O rubor e a raiva exibidos instantes antes haviam dado lugar a um ar absolutamente profissional. Tratei de respirar fundo e fazer o mesmo. Ela falou:

 

-- Bem, melhor começarmos então. Temos muito o que conversar e muito trabalho a fazer.

 

-- Claro. Estou ansiosa pra conhecer o projeto.

 

-- E eu pra conhecer esse algoritmo inovador que você desenvolveu. Mas antes, deixa eu te apresentar a minha... Quero dizer, a nossa sala.

 

Ela me apresentou a sala que, além de escritório, servia também como sala de projetos. No centro, uma grande mesa retangular cercada de cadeiras. Na parede em frente a uma das cabeceiras, um moderno painel interativo. No outro canto da sala, nossas mesas, a minha e a dela, em formato de L, posicionadas lado a lado como se uma fosse espelho da outra. Explicou que desde que fora promovida a gerente de projetos nunca havia dividido a sala com ninguém. Eu, em contrapartida, falei que jamais havia tido uma sala só para mim.

 

-- Imagino a tua frustração em perder a privacidade de um escritório individual.

 

-- Não há frustração nenhuma. Nunca gostei da solidão desta sala.

 

-- É, percebi. Foi só hoje ou você sempre traz alguém pra te ajudar a superar essa solidão?

 

Foi inevitável alfinetar. A postura que ela se esforçava para exibir não condizia com a imagem da profissional totalmente antiética que havia demonstrado ser. Ela ruborizou e perguntou surpresa:

 

-- Do que você tá falando?

 

-- Ora, não precisa disfarçar. Sei exatamente o que Pedro e eu interrompemos.

 

-- Olha só, não é nada do que você tá pensan...

 

Não deixei que concluísse. Interrompi impaciente:

 

-- Não precisa me explicar, não me deve satisfações da tua vida. Só quero te pedir um favor.

 

-- Que favor?

 

-- Não quero interferir no teu espaço. No que depender de mim, você nem vai perceber que está dividindo o escritório comigo, exceto quando precisarmos tratar de assuntos relativos ao projeto, lógico. Mas eu gostaria que você encontrasse outro lugar para se agarrar com a tua namorada. Não quero ter receio de entrar em minha própria sala.

 

-- Escuta, Isa, não sei que tipo de imagem minha você desenhou na tua cabeça, mas não posso admitir que me tome por uma profissional sem ética. Este trabalho é tudo pra mim. Tenho muito orgulho da profissional que sou. Não cheguei até aqui à toa, eu trabalhei duro, de verdade. Posso admitir qualquer coisa, até dividir a gerência do meu projeto com você, mas não vou admitir que ponha em cheque o meu profissionalismo.

 

“Pois toma, Isa! Essa foi bem na minha testa.”

 

Não fui capaz de falar nada. Ainda estava assimilando e tentando formular uma tréplica quando ela continuou:

 

-- Não que isso seja da sua conta, mas a Giselle não é minha namorada. O que você viu aqui, realmente, foi bem inadequado e peço desculpas por isso, mas, ao contrário do que está pensando, não é rotina e garanto que não vai se repetir. Pode ficar tranquila. Vai poder entrar e sair da TUA sala sem maiores preocupações, quando bem entender.

 

Ela enfatizou a palavra “tua” e percebi que extrapolei na arrogância. Senti necessidade de me explicar:

 

-- Eu não quis dizer...

 

Mas ela não deixou:

 

-- Vamos ao que interessa? Temos muitas coisas para discutir e já perdemos muito tempo.

 

Não tive mais coragem de rebater. A postura dela àquela altura era altiva, firme, impassível. O olhar era vazio, distante... Intimidante.

 

-- Ok, vamos ao trabalho.

 

Sentei em uma das cadeiras que cercavam a mesa de reuniões enquanto ela ligava o painel. Apresentou-me a plataforma como era e, em seguida, o projeto para desenvolvimento da nova versão. Depois disso, seria a minha vez de apresentar o meu algoritmo de criptografia para então começarmos a traçar uma estratégia que possibilitasse a integração dos dois. Ela era realmente muito boa. Fiquei impressionada com o conhecimento técnico e com as ideias inovadoras que ela me apresentou. Além disso, pude me certificar de que ela não havia exagerado ao dizer o quanto amava o que fazia, pois isso estava nítido em cada palavra que saía da boca dela e era ratificado pelo brilho intenso daqueles olhos azuis ao apresentar cada detalhe do projeto. Confesso que em alguns momentos eu não consegui dar muita atenção ao que ela falava, pois acabava me distraindo, observando cada detalhe da aparência e do comportamento daquela mulher perturbadoramente encantadora. Quando chegou meu momento de apresentar, foi a vez dela fixar os olhos em mim. Fiquei constrangida, gaguejei, pareci insegura e tive ódio de mim por isso. Mas, contrariando a minha preocupação, ela pareceu bem impressionada com o que mostrei. No fim, percebi que ao menos no âmbito profissional, seria muito recompensador trabalhar com ela.

 

Nossa reunião estava tão produtiva que, em comum acordo, decidimos pedir comida. Almoçamos na sala mesmo, sem deixar de falar sobre a integração de nossos trabalhos. A tarde correu na velocidade da luz e, quando percebi, já passava das 18h. Ouvimos uma batida na porta e ambas viramos para ver a cabeça da tal Giselle aparecer.

 

-- Alice, já passa das 18h. Ainda temos que fechar aqueles prazos.

 

-- Giselle, desculpe, mas hoje eu não vou conseguir. Tenho muita coisa acumulada aqui. Conversamos amanhã, pode ser?

 

Giselle pareceu chateada, mas tentou disfarçar.

 

-- Ok. Mas não pode passar de amanhã. Lembre-se de que temos prazos.

 

-- Pode deixar.

 

Nitidamente frustrada, ela saiu batendo a porta. Nem se deu ao trabalho de nos cumprimentar.

 

“Que sujeitinha arrogante!”

 

-- Ela é sempre assim, tão educada?

 

Alice riu com a minha pergunta. Até então eu não havia a visto sorrir. Involuntariamente sorri de volta.

 

“Que linda! Como ela consegue ficar ainda mais linda?”

 

“Isa, não faz a louca, pelo amor de Deus!”

 

Removi rapidamente o sorriso bobo que eu estava exibindo. Encaramo-nos por um momento... Fiquei excitada.

 

“Merda!”

 

Desviei o olhar e ela me respondeu:

 

-- Ela não é tão ruim assim. Só tem esse jeitão meio...

 

-- Jura?

 

-- Tá bom, ela é uma metida.

 

Rimos juntas de novo, mas dessa vez evitei olhar para ela.

 

-- Isa, não se prenda por mim. Se quiser, já pode ir. Deve estar exausta. Eu vou me demorar um pouco, pois tenho que responder uns e-mails.

 

-- Nem vi a hora. Acabei esquecendo de ligar pra minha amiga, pra ela vir me buscar.

 

-- Hum, amiga... Sei...

 

“Epa! O que ela tá pensando?”

 

-- Ei, não é nada disso que você tá pensando? Eu sou hétero, tá? Tenho namorado.

 

“Pra que eu falei isso? Que estúpida!”

 

Ela me respondeu com ironia:

 

-- Desculpe, senhorita hétero. Não quis ofender.

 

Fiquei completamente constrangida com aquilo.

 

-- Desculpe-me você. Digo... Devo ter parecido uma preconceituosa, mas não sou, tá? Nada contra, mas a Fernanda é realmente minha amiga.

 

-- Relaxa! Eu não esquento com isso.

 

Falou-me com um sorriso irônico estampado na cara. Desconsertada, desviei o olhar e anunciei:

 

-- Vou ligar pra ela.

 

Liguei para Fernanda e me frustrei ao saber que teria que esperar mais de uma hora para que fosse me buscar. Ela tinha uma loja de sapatos no shopping e no final do ano as coisas ficavam sempre muito corridas por lá. Desliguei e Alice percebeu o meu desagrado.

 

-- Tudo bem?

 

-- Tudo. Só vou ter que esperar um bom tempo até que ela possa vir me buscar.

 

-- Você não tem carro?

 

-- Tenho, mas está na oficina.

 

-- Entendo. E o teu namorado? Não pode vir te buscar?

 

-- Ele deve estar trabalhando. Além disso, não tem carro.

 

-- Hunrum... E por que não pede um táxi ou um uber?

 

“Eita, que intrometida! Qual vai ser a próxima pergunta? Será que vai querer saber o meu CPF? Ai, ai... Como vou responder isso sem parecer uma doida?”

 

-- É que... Bem... Eu...

 

Não consegui falar. Ela pareceu curiosa e insistiu:

 

-- Algum problema?

 

-- Eu não uso transporte público.

 

Respondi de uma vez, com um olhar firme, sem dar margem para mais perguntas. Antes que ela falasse qualquer coisa, continuei:

 

-- Não precisa se preocupar, eu vou esperar lá embaixo.

 

Ela sorriu divertida. Estava rindo da minha cara. Fiquei com ódio. Então ofereceu:

 

-- Eu te levo.

 

-- O quê? Só se eu estivesse louca!

 

Respondi de forma impetuosa, sem me dar conta do quanto meu tom havia soado agressivo.

 

-- Garota, você realmente não foi com a minha cara, né?

 

-- Não é isso, é que...

 

-- É que...?

 

Não podia falar para ela o real motivo de negar a carona. Não ia dizer simplesmente que estava com medo de não saber lidar com o fato de ficarmos tão próximas, trancadas dentro de um carro, então menti:

 

-- Eu vi o jeito que você dirige e quase fui vítima da tua imprudência. Acha mesmo que vou entrar em um carro dirigido por você?

 

-- Pelos céus, vai remoer esse assunto até quando, hein? Para o seu governo, eu dirijo muito bem.

 

-- É? Pois não foi o que pareceu.

 

Ela levantou e começou a andar de um lado para o outro enquanto falava em um tom de profunda frustração:

 

-- Quer saber, Isa? Eu estava tentando ser gentil... Queria me redimir com você pra amenizar a impressão ruim que teve de mim, mas você parece estar mais interessada em me atacar do que em desenvolver uma relação cordial, então... Então...

 

-- Então?

 

-- Então fique aí, esperando a sua amiga. Eu vou embora. Por hoje, chega dessa inquisição.

 

Ela foi até a mesa, pegou a bolsa e já ia saindo, mas eu a interrompi:

 

-- Alice?

 

-- O quê? Quer me ofender mais um pouquinho?

 

-- Não... É que...

 

-- Anda, garota, fala logo.

 

-- Desculpa, Alice! Você tem razão, eu... Eu sinto muito. Não tenho o direito de te tratar assim.

 

Acho que ela estava esperando mais briga e como, ao invés disso, eu me desculpei, ficou sem ação. Continuei em um tom ameno:

 

-- A carona ainda está de pé?

 

Houve um instante de silêncio. Encaramo-nos e o olhar dela suavizou. Sorriu incrédula e agitou a cabeça.

 

“Que coisa mais linda, senhor!”

 

Àquela altura, eu já havia desistido de lutar contra o fato incontestável: ela me perturbava de um jeito que não era ruim. Tudo culpa daqueles malditos olhos azuis que me fisgaram da primeira vez que eu os fitei. Cada célula do meu corpo implorava pela proximidade dela. As reações que me provocou ao longo daquele dia eram inconfessáveis. Só me restava encontrar uma forma de anular aquilo, o que certamente não ia ser nada fácil.

 

Ela finalmente respondeu:

 

 

 

-- Vem. Vamos, antes que eu me arrependa.

Notas finais:

E enquanto esperam o próximo capítulo, caso ainda não tenham lido, que tal darem uma conferida em Amor… E Outros Dilemas ???

 

É a minha primeira história publicada e já está completíssima.

 

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Abraços e até terça!!!



Comentários


Nome: naybs (Assinado) · Data: 18/12/2017 23:27 · Para: Capitulo 5 - Chasing The Sun

Não teria melhor nome para esta história. Neste cap., a gente consegue ver a atração recíproca que já existe entre essas duas! haha A atração da Isa está mais saliente, né? kkkkkk A Isa está descobrindo a tempestade de desejos que a Alice provoca nas pessoas e vice-versa! Outra coisa que gosto muito é essa jeito marrento e sarcástico que a Isa tem! Altas cutucadas que ela dá na Alice! Adorooo! kkkkk 

A Alice não dá uma dentro e é uma cavala quando se irrita. Primeiro ela atropela a garota, depois a garota pega ela no maior amasso com a tal da Giselle no ambiente de trabalho! Aí fica difícil de causar boas impressões! kkkkk Quero ver o que a Alice vai fazer para mudar essas primeiras impressões que ela causou na Isa! :D Isso se ela quiser causar outras impressões, né? Porque é bem capaz de ela querer usar os "poderes de sedução cafajestes" dela com a Isa ¬¬ kkk 

Estou prevendo altas tretas! hahaha

Arrasou, Linier! :)

 



Resposta do autor:

Nay, tem razão... polos positivo e negativo. Atração quase faltal. MAs tu não leu o cap 6 ainda né? Quando ler, vai perceber que a atração da Alice está beeeeeeeeem mais saliente do que a da Isa.

Sobre o jeito marrento e sarcástico da Isa, legal vc gostar. Há quem ache que ela é meio metida, dona da razão. Também não vejo dessa forma. Só acho que ela é direta. As pessoas estão acostumadas a só ouvirem o que querem. Vivem clamando por sinceridade, mas quando encontram alguém sincero de verdade, se incomodam.

Alice, realmente, até agora, só deu fora, né? Parece que ela tem um talento natural pra fazer merda. kkkkkkk Sobre a Alice estar querendo usar o poder de sedução cafajeste dela com a Isa, acho que a única coisa que ela não está contando é que ela, Alice, é quem vai ficar de quatro primeiro. Adoro quando o feitiço vira contra o feiticeiro. Você não gosta também?

Obrigada mais uma vez por estar acompanhando!!!!! Nunca vou me cansar de agradecer.

Abraços e até terça que ver... ah, e FELIZ NATAL!!!



Nome: Mafalda_ (Assinado) · Data: 14/12/2017 14:50 · Para: Capitulo 5 - Chasing The Sun

Curtindo muito! 



Resposta do autor:

Mafalda,

<3 Obrigada!!! Amanhã tem cap novo.

Abraços!



Nome: mtereza (Assinado) · Data: 14/12/2017 10:37 · Para: Capitulo 5 - Chasing The Sun

Nossa que capítulo delicioso amei as tretas e a interação entre elas chega logo terça ansiosa pelo próximo capítulo bjs



Resposta do autor:

Tereza,

Muita treta, né? E piora.

Que bom que está gostando.

O capítulo 6 já tá prontinho, doido pra ser publicado.

Sai amanhã.

Abração!!!



Nome: Angel68 (Assinado) · Data: 12/12/2017 21:02 · Para: Capitulo 5 - Chasing The Sun

Eita, delícia de história....já se tornou o meu xodó por aqui, minhas terças agora tem um colorido especial, eba !! É impressão minha, ou a Isa quando fica nervosa solta umas pérolas ?? Ou é o desespero em se auto afirmar hétero, e me solta umas ? A sorte que refez o mau entendido do mini ataque homofóbico, porque na verdade a Alice a desestruturou por inteiro....e depois do primeira pega, vai é ficar desconjuntada.....que comecem os jogos, quero ver essa tensão sexual delas pegar fogo !!!



Resposta do autor:

Angel, que delícia saber disso. hahah

Não é impressão sua, a Isa não tem filtro.

kkkk gostei do "desconjuntada". Mas acho que a Alice tb não vai sair inteira desse primeiro pega, não, viu?

Que comecem os jogos. Amanhã tem outra partida.

Abração!!!



Nome: Day-chan (Assinado) · Data: 12/12/2017 19:12 · Para: Capitulo 5 - Chasing The Sun

Adorei a interação entre a Isa e Alice! Engraçado, envolvente e tal como "amor e outros dilemas", com uma pitada irresistível de sedução. 

Parabéns pela escrita! Sempre genial. Estou adorando!!



Resposta do autor:

Day, obrigada pelo carinho.

Alice e Isa ainda têm muita história pela frente, então fico feliz que esteja gostando já no comecinho.

Amanhã sai o capítulo 6. 

Abração!!



Nome: Dessinha (Assinado) · Data: 12/12/2017 15:32 · Para: Capitulo 5 - Chasing The Sun

Li amor e outros dilemas e percebi que a autora curte programação, no mínimo. Agora com esse, tenho  certeza. Bem legal a estória, sou estudante de ciência da computação e já pelo título fui convidada a ler. Beijo, autora :) 



Resposta do autor:

Dessinha, 

Que bom que usei esse título então, né? Rsrsrs Fico feliz que esteja gostando da história.

Amanhã tem mais... capítulo 6 quentinho.

Abraços!!!!!!



Nome: NovaAqui (Assinado) · Data: 12/12/2017 08:38 · Para: Capitulo 5 - Chasing The Sun

Foi bem interessante esse encontro de trabalho. Acho que elas vão ficar trabalhando tanto que não irão perceber que ficaram tão próximas. 

Abraços fraternos procê!



Resposta do autor:

Será que não vão perceber, hein? Acho que vão perceber até demais. Rsrsrsr

 

Abração e até amanhã!!



Nome: patty-321 (Assinado) · Data: 12/12/2017 02:36 · Para: Capitulo 5 - Chasing The Sun

E tao legal esses embates delas. Morro de rir. Duas mulheres super inteligentes. A gisele e uma chata. Se acha. Pedro ebum amor. Ta muito bom. Quero mais. Boa semana. Bjs



Resposta do autor:

Patty, é só o começo. Hahaha

Amanhã tem mais embate.

Que bom que está gotando.

Abração!!!



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